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segunda-feira, agosto 31, 2026

A repressão comunista da era Brejnev, que visava os dissidentes ucranianos

Artista e dissidente ucraniano Opanas Zalyvakha. Foto do KGB.

No final de agosto de 1965, o KGB da Ucrânia soviética lançou uma operação especial de grande envergadura contra a intelectualidade ucraniana. Era o início das várias outras purgas dirigidos contra os dissidentes ucranianos. 

Dados sobre os detidos devido às «atividades nacionalistas»:
23 pessoas, região de Kyiv: 7; região de Lviv: 9

Mais de 20 figuras foram presas em Kyiv, Lviv, Ivano-Frankivsk, Ternopil e Lutsk. Entre elas estavam Ivan Svitlychny, os irmãos Mykhaylo Horyn e Bohdan Horyn, Ivan Gel, Valentyn Moroz...

Processo do Mykhaylo Horyn (1930-2013)

Nos relatórios do KGB, estes jovens intelectuais eram chamados de “moralmente instáveis”, “caluniadores”, “distribuidores de propaganda hostil”.

Processo do Bohdan Horyn

Na cidade de Ivano-Frankivsk foi preso o artista Opanas Zalyvakha. Hoje, documentos desclassificados do seu processo criminal permitem-nos ver como o regime tentou eliminar a resistência cultural ucraniana.

De que foi acusado o artista?

Da “agitação anti-soviética”: produção, armazenamento e distribuição de literatura samizdat (em particular, obras sobre a russificação da Ucrânia).

Arte do Opanas Zalyvakha

Da “sabotagem ideológica” na arte: um ano antes da sua detenção, Zalyvakha, em colaboração com artista monumental Alla Horska, criou o vitral “Shevchenko. Mãe” para a Universidade Estatual de Kyiv «Taras Shevchenko». O partido comunista declarou a obra como “ideologicamente hostil” – essa foi destruída ainda antes de quaisquer veredicto oficial.

Arte que assustou o regime soviético ao ponto de ser destruído.
«Shevchenko. Mãe», 1964

Sentença e “condições especiais”

Zalyvakha foi condenado a 5 anos de regime fechado nos campos de GULAG em Mordóvia. A administração recebeu uma instrução clara: estava categoricamente proibido de pintar, tal como aconteceu mais de 100 anos antes, no regime czarista russo, ao póprio Taras Shevchenko, que foi condenado ao serviço militar obrigatório com a clara menção real: «com a proibição de pintar e desenhar». 

Pedido de clemência, endereçado ao Tribunal Supremo da Ucrânia Soviética,
em abril de 1966, por parte da classe artística ucraniana. Em vão.

Apesar da reação negativa da sociedade e das cartas coletivas que expressavam esperança no “espírito humanitário das leis soviéticas”, as purgas continuaram. A operação especial do KGB de 1965 tinha como objectivo intimidar os dissidentes e impedir a disseminação de ideias livres. No entanto, os documentos de arquivo comprovam que a tentativa de suprimir o movimento levou à sua radicalização e internacionalização.

Fonte: Arquivo Estatal do Serviço de Segurança da Ucrânia, fundo 16, descrição 1, processo 952; Direção do SBU na região de Ivano-Frankivsk, processo 8311-p; Direção do SBU na região de Lviv, processo 20227-p.

domingo, março 15, 2026

O regime comunista cubano liberta os dissidentes e os prisioneiros comuns

Faça click para ler mais em espanól

Até este domingo, a ONG Prisoners Defenders registou apenas 19 prisioneiros políticos e de consciência entre os 51 libertados e anunciados pelo regime comunista cubano na passada quinta-feira. 

Juntamente com Ibrahín Ariel González Hodelin, Ariel Pérez Montesino, Juan Pablo Martínez Monterrey, Ronald García Sánchez e Adael Jesús Leivas Díaz, que já tinha identificado na sexta-feira, acrescentou mais 14 à sua lista, com base em informações das suas famílias:

  • Oscar Bárbaro Bravo Cruzata, 27 anos, condenado a 13 anos (prisão de trabalhos forçados de La Lima, Guanabacoa).
  • José Luis Sánchez Tito, 34 anos, condenado a 16 anos (Prisão de segurança máxima Combinado del Este, Havana).
  • Roberto Ferrer Gener, 52 anos, condenado a 15 anos (Combinado del Este).
  • Deyvis Javier Torres Acosta, 33 anos, condenado a 10 anos (prisão de Valle Grande, Havana).
  • Yussuan Villalba Sierra, 35 anos, condenado a 10 anos (Prisão Combinado del Este para trabalhos forçados). 
  • Eduardo Álvarez Rigal, 36 anos, condenado a 13 anos (La Lima).
  • Wilmer Moreno Suárez, 37 anos, condenado a 18 anos (Prisão de Trabalhos Forçados Combinado del Este, Zona 0).
  • Frank Aldama Rodríguez, 33 anos, condenado a 16 anos (Combinado del Este).
  • Miguel Enrique Girón Velázquez, 29 anos, condenado a 11 anos (Prisão Juvenil de La Aguada, Holguín).
  • Jorge Vallejo Venegas, 39 anos, condenado a 15 anos (La Lima, Guanabacoa).
  • Luís Esteffani Hernández Valdés, 34 anos, condenado a 6 anos (Prisão de Trabalhos Forçados de Ho Chi Minh, Bainoa, Jaruco). 
  • Franklin Reymundo Fernández Rodríguez, 25 anos, condenado a 9 anos na Penitenciária Provincial de Holguín.
  • Carlos Pérez Cosme, 38 anos, condenado a 10 anos (Prisão de Trabalho Forçado Toledo 2, Marianao, Havana).
  • Felipe Almirall, 65 anos — o mais velho até à data — condenado a 9 anos de prisão (La Lima, Guanabacoa). 

A Polícia cubana reiterou que as penas destes indivíduos se mantêm em vigor e que a sua libertação está sujeita a um regime de liberdade condicional particularmente restritivo. 

Aparentemente, o regime comunista cubano está a imitar a «primavera fria de 1953» na URSS, quando o ministro do interior soviético, Lavrenti Beria, após a morte do ditador comunista Estaline, ordenou a libertação de alguns presos políticos, mistrurados com muitos presos violentos comuns. Uma das explicações possíveis daquele plano, era facilitar e promover um aumento abrupto da criminalidade no país, culpando, pelo mesmo, os presos políticos, os ditos «inimigos do povo».

Cubanos que procuram a vida melhor, entram no exército russo e morrem na Ucrânia

É de recordar, que neste momento, há em Cuba 1214 prisioneiros políticos, epenas em fevereiro de 2026 as autoridades comunistas prenderam 28 novos presos políticos e de consciência — 23 homens e 5 mulheres. Um dos dissidentes cubanos que foi removido da lista dos prisioneors de consciênciao foi Luis Miguel Oña Jiménez, devido à sua morte por tortura e negligência médica numa prisão cubana.

segunda-feira, agosto 04, 2025

No GULAG soviético por uma frase de 42 metros

Yuli Rybakov. «O Meu Tempo», São Petersburgo, 2010, Editora DEAN

A 3 de agosto de 1976, dois dissidentes russos, Yuli Rybakov e Oleg Volkov, escreveram no muro da Fortaleza de Pedro e Paulo, em Leninegrado: «Vocês crucificam a liberdade, mas a alma humana não conhece grilhões!» O jovem KGBista putin participou na repressão aos artistas. 

O jovem tenente do KGB, Putin, na altura de apenas 23 anos, participou nas buscas nas casas dos visados. Os dissidentes foram condenados aos 7 e 6 anos de prisão, respetivamente, formalmente acusados de «hooliganismo agudo» e «destruição e danos à propriedade estatal», mas na realidade por aqueles 42 metros da inscrição na Fortaleza de Pedro e Paulo. 

Protocolo de buscas ao domicílio: um dos participantes é tenente putin

Engraçado, que quando os agentes do KGB descobriram a frase pintada, logo pela manhã começaram a tentar cobrir as letras com tampas de caixões, tiradas de uma oficina próxima. Naquele momento foram impedidos pelo rio Neva, que em agosto, o que normalmente não acontece, subiu o nível das suas águas repentinamente. Só era possível aproximar-se da inscrição com botas de borracha de cano alto ou de barco. Só algumas horas depois conseguiram apagar a frase. 

Foto do Yuliy Rybakov no seu processo no KGB. Fonte: Paperpaper.ru

A principal atividade «criminal» do Yuli Rybakov era a divulgação da literatura proibida, por exemplo o «Arquipélago GULAG» do Alexander Solzhenitsin. Alem disso, pintor não conformista, ele costumava pintar as frases antisoviéticas, nos diversos locais públicos de Leninegrado. Por exemplo, no Outono de 1968, foi feita a seguinte inscrição na parede do Tribunal Militar Distrital de Leninegrado: «Não se esqueçam do sangrento 1937!» A 6 de abril de 1976, no decorrer do julgamento do dissidente Andrei Tverdokhlebov, Yuli Rybakov, entrando no território do parque de elétricos/bôndes na ilha Vasilievsky à noite, escreveu em três elétricos ali estacionados: «Liberdade para os presos políticos!», «Liberdade para Andrei Tverdokhlebov!» 

«Liberdade aos presos políticos!» Foto: spb.iofe.center

Noutras ocasiões, na marginal do rio Neva, em frente à Fortaleza de Pedro e Paulo, foi feita a inscrição «URSS — prisão dos povos». No edifício da Escola Superior do Partido comunista: «PCUS — inimigo do povo». Noutros locais: «Abaixo a burguesia partidária», «Ouçam a Voz da América», e por aí fora.

A mesma frase, sem o sinal de exclamação, foi pintada em São Petersburgo em 3-08-2016


domingo, julho 20, 2025

O general soviético que se tornou dissidente ucraniano

Foto: Fundação Petro Grigorenko
O ucraniano Petro Grigorenko foi o primeiro general soviético a manifestar-se contra o sistema comunista soviético. Possivelmente foi a referência remota à personagem do general Boris Barkov na série portuguesa «Glória». 

Após ter sido preso e submetido a tratamento psiquiátrico punitivo na URSS, conseguiu partir para os Estados Unidos, onde continuou a sua luta contra o regime comunista soviético, expondo-o publicamente.

«Vivi uma vida longa e difícil, vivi tempos difíceis, turbulentos e assustadores, encarei a morte. Testemunhei a destruição e o despertar; conheci muitas pessoas, procurei, admirei, cometi erros e vi a luz, vivi entre pessoas e para pessoas...», escreveu ele nas suas memórias.

Livro de memórias do Petro Grigorenko, 1980

Em 1962-1964, Grigorenko foi chefe do departamento operacional do quartel-general do 5º Exército (Distrito Militar do Extremo Oriente). No Outono de 1963, durante as férias em Moscovo, organizou a clandestina «União da Luta pelo Renascimento do Leninismo» (que incluía os filhos de Petro Grigorenko e vários dos seus amigos – estudantes e oficiais). Compilou sete panfletos distribuídos em Moscovo, Vladimir, Kaluga, entre as tropas soviéticas dos distritos de Leninegrado e da Ásia Central (alguns com uma tiragem até 100 exemplares). Os temas dos panfletos eram o renascimento burocrático do Estado soviético, a sua política punitiva em relação aos trabalhadores e as causas da crise alimentar na URSS.

Em 1966, o dissidente russo Vladimir Bukovsky apresentou Grigorenko ao círculo de dissidentes de Moscovo. Deles, Grigorenko começou a receber samizdat, aprendeu sobre o problema dos povos reprimidos e juntou-se ativamente à luta dos tártaros da Crimeia pelo regresso à sua família histórica. Contribuiu para a ativação do movimento nacional dos tártaros da Crimeia e tornou-se um líder informal do movimento pelo regresso à Crimeia.

Durante a Primavera de Praga, apoiou as reformas democráticas na Checoslováquia e escreveu uma carta pessoal a Alexander Dubchek com conselhos sobre a possível defesa do país em caso de invasão soviética. Condenou veementemente a invasão das tropas soviéticas da Checoslováquia. Defendeu os participantes na manifestação de 25 de agosto de 1968 em Moscovo, 8 cidadãos que se manifestaram contra a invasão soviética da Checoslováquia, 7 deles condenados aos diversos termos prisionais.

Em novembro de 1977, com a permissão oficial das autoridades soviéticas, partiu para os EUA com a sua mulher Zinaida para a cirurgia de que necessitava, considerada grave na URSS, e para ver o seu filho Andrew, a viver em Nova Iorque. Três meses depois, por decreto do Soviete Supremo assinado por Brejnev, foi privado da cidadania soviética (e, portanto, do direito de regressar à URSS). Recebeu asilo político nos EUA.

Nos EUA general Grigorenko renunciou às suas ideias comunistas, tornou-se membro da comunidade ucraniana nos Estados Unidos e um crente ortodoxo. Chefiou a Associação de Veteranos da Segunda Guerra Mundial — imigrantes da URSS, o que facilitou a sua adaptação num ambiente americano. Foi o representante estrangeiro do Grupo Ucraniano de Helsínquia (UHG). 

Quando à personagem da série «Glória», o general Boris Barkov, temos aqui um triste exemplo da preguiça mental dos criativos portugueses, o apelido/sobrenome foi simplesmente «emprestado» do general Roman Barkov, um dos dois principais antagonistas do videojogo Call of Duty: Modern Warfare de 2019.

sábado, junho 28, 2025

Morreu o poeta e dissidente ucraniano Ihor Kalynets

Foto: Facebook do historiador Volodymyr Vyatrovych

Morreu o poeta e dissidente ucraniano Ihor Kalynets, que pertencia a geração «dos 1960», foi a vítima da onda de repressões comunistas da era Brejnev, que visava a russificação total da sociedade ucraniana à partir de 1972. 

Em maio de 1971, o KGB da Ucrânia soviética envia um enforme, dedicado ao poeta, formalmente endereçado ao CC do PC da Ucrânia, de facto, à atenção do 1º secretário do PC da Ucrânia, Petró Shelest. No documento o líder comunista é informado, que em 1970, em Bruxelas, foi publicada uma colectânea poética do poeta ucraniano, que em 1968 as suas poesias foram publicadas no Ocidente e que o poeta se recusou à «condenar os nacionalistas ucranianos». 

18.05.1971, KGB ao CC do PC(U) / declassificado pelo SBU em 2013


Basicamente, o KGB, acusa Kalynets de escrever a poesia fora dos canones do «realismo socialista» e de ser uma «personalidade nacionalista», que se recusa à exortar a «realidade soviética». 

A coletánea poética do Ihor Kalynets, publicada em Bruxelas, 1970

Petró Shelest (1908 — 1996) foi um político soviético ucraniano, que serviu como 1º secretário do Partido Comunista da Ucrânia de 1965 até a sua remoção em 1972. Ideologicamente, um moderado e socialmente, um comunista nacional, ele supervisionou a liberalização generalizada da sociedade ucraniana como parte do movimento de «degelo» de Khrushchev, que levou ao aumento da visibilidade da língua e da cultura ucranianas na vida pública. 

Ao mesmo tempo, no decorrer do liderança de Shelest, ocorreram na Ucrânia duas grandes ondas de prisões de dissidentes: a primeira ocorreu em agosto-setembro de 1965 (24 pessoas presas), e a segunda em janeiro-abril de 1972 (73 pessoas presas). Mesmo assim, ainda em novembro de 1969, Leonid Brezhnev, ao receber o Shelest no Kremlin, expressou a sua insatisfação com os «fatos existentes do nacionalismo [ucraniano] na república». Em 10 de maio de 1972, Shelest foi demitido do cargo de Primeiro Secretário do CC do PC(U) «em conexão com sua transferência para outro cargo» — foi nomeado como Vice-Presidente do Conselho de Ministros da URSS (posiação na qual trabalhou menos de um ano). O lugar do 1º secretário do PC da Ucrânia foi ocupado por um comunista pró-Moscovo da linha dura, Volodymyr Shcherbytsky, que desfez muitas das reformas de Shelest e supervisionou a russificação massiva da sociedade ucraniana.

A imagem mostra um dos episódios do famoso Presépio de Natal de 1972, preparado por iniciativa de artista plástica e dissidente Olena Antoniv para arrecadar fundos para apoiar os dissidentes ucranianos presos entre 1965 e 1967. 45 pessoas participaram no Presépio tradicional, e 250 rublos (cerca de 424 dólares, ao câmbio oficial soviético) foram arrecadados; alguns dias depois, 19 pessoas (11 em Kyiv e 8 em Lviv) — participantes do Presépio — foram presas por desafio e desobediência às autoridades, iniciando assim a segunda onda de prisões de dissidentes ucranianos. Em primeiro plano: à esquerda, a ceramista Maria Savka; ao centro, o poeta Ihor Kalynets. 

Ihor Kalynets e jornalista e dissidente Yaroslav Kendzior (com a estrela Natalina)

Durante as buscas o KGB apreendia os livros, materiais dactilografados, samvydav ucraniano e samizdat russo, apontamentos, máquinas de escrever, rádios, bobinas com as gravações, etc. Os detidos eram ameaçados com o fuzilamento, torturas físicas, repressões contra os amigos e familiares. Largamente foi usado o sistema soviético de psiquiatria punitiva, as pessoas que dificilmente poderiam ser acusados judicialmente, eram compulsivamente internadas em hospitais psiquiátricos especiais. Também se praticavam os despedimentos laborais e expulsões dos estabelecimentos de ensino. 

Ler mais: O perigo de celebrar o Natal 

A maioria dos detidos e presos foi condenada às penas entre 5 à 7 anos dos campos de concentração em regime fechado, mais três anos de exílio. No total, em 1972 na Ucrânia foram presos 89 dissidentes (55 deles naturais da Ucrânia Ocidental). Como escreveu a estudiosa do movimento dissidente da URSS, Lyudmila Alexeyeva: “As prisões pareciam como a parte de um plano mais largo de eliminação de identidade nacional dos ucranianos”. 

Agradecimentos:

  • Arquivo Estatal Setorial do SBU
  • Centro de História Urbana de Lviv
  • Historiador ucraniano Eduard Andrusenko
  • Maria Hryciv, a investigadora do Museu Nacional das Vítimas dos Regimes de Ocupação Cadeia na Lonckoho.

quinta-feira, março 16, 2023

URSS: internacionalismo ou russificação?

Embora a propaganda soviética rezava a igualdade dos povos e etnias na URSS, por alguma razão misteriosa 12 hinos de repúblicas soviéticas e da própria URSS exortavam a «posição especial» do povo russo, da rússia ou da Rus´, sem mencionar que essa era historicamente conhecida como Rus de Kyiv.

«Internacionalismo ou russificação?» também é um título do livro do escritor, crítico literário, ativista social e dissidente ucraniano Ivan Dzyuba, escrito em setembro-dezembro de 1965. O livro foi publicado fora da União Soviética em ucraniano, inglês, russo, chinês, francês e italiano sem a permissão e conhecimento do autor. 

Faça click para ler online em inglês

Na Ucrânia este trabalho foi publicado pela primeira vez apenas em 1990 na revista «Vitchyzna» e em forma do livro em 1991. As autoridades soviéticas consideraram «Internacionalismo ou russificação?» como obra antissoviética, e sua distribuição, armazenamento e leitura eram consideradas uma ofensa criminal. Ivan Dzyuba perdeu o seu emprego, foi expulso do Sindicato dos Escritores da Ucrânia e foi perseguido pelo KGB. Em 1972, Dzyuba foi preso e sentenciado à pena efetiva de 18 meses.

Ou seja, até as canções soviéticas eram um poderoso instrumento imperial de russificação.

sábado, outubro 30, 2021

A jovem estuprada por Béria perseguia os dissidentes

Condenada em 1950 sob acusação de “declarações caluniosas sobre alguns membros do governo soviético”, a jurista Nina Gnevkovskaya notabilizou-se na década de 1970 pela repressão e perseguições contra os dissidentes soviéticos. 

Nascida em 1926, em Tachkent no Uzbequistão, no momento da sua prisão Nina era estudante do Instituto Jurídico à Distância da União, filha do general do MGB. Pela decisão da Reunião Especial do MGB em 29 de julho de 1950 foi condenada aos 7 anos de GULAG. Cumpriu a pena na cidade russa de Vyatka, trabalhou no campo de concentração como cozinheira. Foi totalmente reabilitada pelo Conselho Judiciário do Tribunal Supremo da URSS em 20 de janeiro de 1954. Nos materiais de reabilitação foi indicada a razão real da sua condenação: “Ao longo de vários anos foi violada/estuprada pelo Lavrenti Béria, após a perca do interesse por este foi presa”. 

Em agosto de 1968, a investigadora sénior do Gabinete do Procurador de Moscovo/u, a Conselheira Júnior da Justiça, Nina Gnevkovskaya, foi nomeada para investigar o caso da “Manifestação de 25 de Agosto de 1968 ”. Várias vezes interveio com condenações nos processos políticos contra os dissidentes na década de 1970, dizia (de acordo com vários testemunhos), que foi condenada no passado “devido a viatura” do Béria. Participou, pessoalmente, nas buscas e interrogações de muitos dissidentes e dos seus parentes, casos do Vadim Delaunay e Lyudmila Alekseeva. 

Ficou perdida na história até a década de 2000, quando em 29 de maio de 2001, num programa da TV russa “1º Canal” (ORT) profere a frase: “Esses chamados defensores dos direitos humanos não precisam nem de liberdade, nem os direitos humanos. Eles simplesmente não queriam trabalhar, nem estudar, mas queriam viver à custa dos fundos que lhes pagavam os países antissoviéticos, Itália, Israel, e outros”.

Fonte

quinta-feira, dezembro 10, 2020

O comunista canadense que se tornou dissidente ucraniano

O comunista canadense de origem ucraniana, Ivan Kolyaska (John Kolasky), veio à União Soviética estudar o “comunismo científico”. Chegou à ser preso e deportado, se transformando no crítico da União Soviética e da distopia comunista. 

Ivan Kolyaska nasceu em 1915 no Canadá, filho dos pais ucranianos. Tornando-se órfão do pai e passando as necessidades no decorrer da grande depressão, aderiu à ideologia comunista, foi um membro e ativista do PC do Canadá entre 1932 à 1968. Em 1963-64 estudou em Kyiv na Escola Superior do Partido, uma espécie de academia ideológica do PC soviético. 

Na Ucrânia soviética ele vê uma imagem completamente diferente daquela que foi lhe apresentada no Canadá pela propaganda soviética. A principal coisa que o impressionou negativamente foi a política estatal da russificação total, qual, Moscovo, à todo custo escondia dos olhos do exterior. Ele está começando a reunir evidências da política planeada do Kremlin de destruição da língua e da cultura ucraniana. Acabou por ser preso e depois deportado da URSS como estrangeiro indesejável. Se tornou um dos principais porta-vozes da Diáspora ucraniana na campanha pelos direitos nacionais. 

Escreveu vários livros. Não tinha a sua própria família, por isso viveu e morreu na casa de um outro dissidente ucraniano, Levko Lukyanenko. Foi enterrado na aldeia de Khotiv na Ucrânia.

terça-feira, julho 09, 2019

Como União Soviética ocultava os casos do terror político

O ato terrorista mais famoso da URSS ocorreu em 8 de janeiro de 1977 — uma série de explosões bombistas em Moscovo matou 7 e feriu 37 pessoas. Os três alegados responsáveis foram fuzilados e os materiais do caso estão sob segredo da justiça russa até hoje.

Como tudo ocorreu?

A primeira explosão atingiu a carruagem de metro/ô de Moscovo. O explosivo foi colocado numa panela especial de metal pesado, aparafusada e soldada – como resultado da explosão 7 passageiros do metro/ô foram mortos e 37 feridos.
A 1ª explosão no metro/ô | arquivo
A segunda explosão ocorreu 32 minutos após a primeira – uma bomba explodiu numa mercearia na atual rua Bolshaya Lubyanka. Ninguém ficou ferido na explosão. A terceira bomba explodiu cinco minutos depois da segunda – o dispositivo estava escondido numa lata de lixo, junto à uma mercearia da atual rua Nikolskaya. Nesta explosão, também, ninguém morreu – a forte urna de ferro fundido resistiu à explosão, e a onda de choque se dirigiu ao alto.
A 2ª explosão na mercearia | arquivo
KGB e polícia soviética começaram as buscas pelos responsáveis. Na cidade russa de Tambov foi interrogado o suspeito inicial cidadão Potapov, preso após detonar uma bomba que matou a esposa e duas filhas do vizinho. Potapov rapidamente confessou que também estava por trás dos atos terroristas em Moscovo. No entanto, rapidamente se percebeu que isso foi uma confissão forçada e, após a investigação formal que durou um mês, o caso foi abandonado pelo KGB.

Informação ocultada ao público

Quase imediatamente, todas as informações sobre os ataques foram classificadas – nenhum jornal ou programa de televisão soviético falaram sobre o que estava acontecendo. Mas os rumores terríveis estavam rastejando pelo Moscovo, as pessoas nas filas das compras estavam cochichando sobre o que tinha acontecido, era simplesmente impossível esconder mais a informação.

Como no caso de Chornobyl – as informações sobre a tragédia foram divulgadas 48 horas depois, passadas pela censura do KGB. No dia 10 de janeiro, a agência soviética TASS divulgou a nota que dizia que em 8 de janeiro, ocorreu “uma pequena explosão no metro/ô de Moscovo, todas as vítimas foram socorridas”. A informação ocultava o número de vítimas e que a explosão foi um ato terrorista.

Os materiais completos deste caso ainda estão classificados pela justiça russa.

O que aconteceu na realidade?

As buscas pelos responsáveis foram infrutíferas – mas por sorte, cerca de 10 meses depois – também em Moscovo, foi achada uma outra bomba que levou KGB aos terroristas. Eram três arménios étnicos – Hakob Stepanyan, Zaven Baghdasaryan e Stepan Zatikyan – este último foi tido como líder do grupo. Após um julgamento secreto e fechado ao público, em 24 de janeiro de 1979 os réus foram considerados culpados pelo tribunal e sentenciados à pena capital – execução. Em 30 de janeiro, o Presidium do Soviete Supremo da URSS rejeitou a sua petição de clemência, e no mesmo dia eles foram executados. A única informação oficial sobre o julgamento e sobre o veredicto foi uma breve nota no jornal soviético “Izvestia” em 31 de janeiro de 1979, onde apenas se mencionava o apelido/sobrenome e as iniciais do Stepan Zatikyan.
Stepanyan (1947-1977) e Baghdasaryan (1954-1977) após a detenção
Segundo a versão oficial da acusação – os três pertenciam ao clandestino “Partido da Unidade Nacional da Arménia” (NOP) e tinham como objetivo criar Arménia independente, separada da URSS. Essa versão possui uma série de inconsistências, apontados pelo académico e dissidente soviético Andrey Sakharov – NOP não tinha terror nos seus princípios, os terroristas não divulgaram nenhumas reivindicações após as explosões, as ações semelhantes não aconteceram antes e não se repetiram depois.
O líder Stepan Zatikyan (1946-1979) após a detenção
Na versão não oficial – as ações foram iniciadas pelos serviços secretos soviéticos (KGB), para iniciar a onda de terror contra os dissidentes – e apenas a divulgação pública do caso (incluindo através do Andrey Sakharov) impediu de fazê-lo. A versão de provocação do KGB é apoiada pelo facto do que o jornalista soviético Victor Louis (informador e conhecido agente-provocador do KGB), imediatamente após o ataque, lançou na imprensa britânica a acusação genérica contra os “dissidentes”, pelo seu alegado envolvimento nos atentados – como se preparando a opinião pública ocidental ao ataque contra o movimento dissidente na URSS.

[O fundador e um dos líderes do Partido Neocomunista da União Soviética, Alexander Tarasov relata nas suas memórias que quatro meses após as explosões ele foi detido [pelo KGB] por suspeita da sua organização e libertado somente depois de provar “por trezentos por cento” o seu álibi (ele estava no hospital durante o ataque terrorista).

O coronel da 1ª Direcção/Diretoria do KGB Oleg Gordievsky, que fugiu para o Ocidente, é da opinião de que os três arménios foram escolhidos, neste caso, como bodes expiatórios. O dissidente soviético Sergei Grigoryants afirma que as explosões foram realizadas pelo grupo Alfa do KGB sob as instruções de Yuri Andropov e Filip Bobkov (o chefe da 5ª Direção/Diretoria “ideológica” do KGB)].

Em jeito de epílogo

Qualquer ataque terrorista é terrível, mas pior ainda quando o Estado esconde de seus cidadãos a verdade sobre o que realmente está acontecendo – não informa sobre o desastre de Chornobyl ou sobre os ataques terroristas ocorridos em Moscovo em 1977. Os cidadãos possuem uma imagem bastante distorcida do que realmente está acontecendo – é assim que nascem os mitos sobre “a vida soviética calma e pacífica na companhia do melhor sorvete do mundo – o soviético”.

Após o fim da URSS, as pessoas perceberam que esse era um beco sem saída – e nas Constituições da maioria dos países pós-soviéticos foram colocadas as normas do que ninguém tem o direito de esconder dos cidadãos a verdade sobre desastres ambientais ou naturais, ataques terroristas ou outros incidentes semelhantes – todos e cada um tem o direito de receber e divulgar livremente essas informações.
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No entanto, nos últimos anos, aqui e ali, mais uma vez houve o “retorno à espiritualidade tradicional”, que pode ser traduzido da seguinte forma – o Estado novamente quer se engajar em negócios obscuros, ocultando, aos cidadãos, todas as informações sobre acidentes e incidentes...

Fotos: arquivo | Texto: Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]

sábado, julho 06, 2019

Sionismo cristão ucraniano: os “barbudos” da família Semenyuk

Na região ucraniana de Odessa vive uma das maiores famílias do mundo – cerca de 400 familiares diretos com apelido/sobrenome Semenyuk. São seguidores do sionismo cristão, a fé religiosa que cresceu na Ucrânia Ocidental na década de 1930 e se abrigou das repressões e perseguições comunistas na costa ucraniana do Mar Negro.

Na Ucrânia a comunidade vive na aldeia de Dobroslav na região de Odessa e além dos cerca de 400 familiares diretos (todos eles Semenyuk), é composta por outros 700 membros com apelidos/sobrenomes de Marchuk, Dzyubuk, Laschuk, Kovalchuk ou Bondarenko. Homens usam a barba que não podem cortar, as mulheres cobrem os cabelos com o lenço. A fé começou no início da década de 1930 na região ucraniana de Rivne (na altura ocupada pela 2ª republica polaca/polonesa), hoje, Semenyuk já ocupam 5 ruas inteiras em Dobroslav.

No dia 5 de julho o canal de entretenimento alemão Pro7 dedicou-lhes a reportagem extensa do seu popular programa Galileo (neste momento os alemães ainda não colocaram o programa na Internet, por isso, e graças ao Roman Dzyuba, usamos o programa da TV Current Time de 2018):
O líder da comunidade é Pavló Semenyuk de 89 anos, ele tem 13 filhos, cerca de 212 bisnetos e 2 trinetos (o “pastor”, como é conhecido, ainda se consegue lembrar dos nomes de todos os seus 65 netos casados). 
O líder da comunidade, ancião Pavló Semenyuk, 2018
Os Semenyuk são seguidores do pastor pentecostal Ivan Murashko (1891), e se chamam de muraszkowcy, outros os chamam de “barbudos”.
O profeta Ivan Murashko, década de 1930
A família respeita e usa a língua ucraniana, segue a Sagrada Escritura, não aceita cruzes, imagens e ícones, têm casas muito limpas, aprumadas e grandes, com acabamentos modernos, construídas por uma empresa construtora composta por parentes Semenyuk. Todos possuem o seu próprio celeiro (as vacas e aves só podem ser abatidas de uma maneira especial que não deixa cair sangue na carne colhida, a família não consome a carne de porco e a sangue de animais e não compra a carne, embora aceitando comprar peixe, mas somente aquele que têm escama). Todo mês a família aumenta em 2 a 3 crianças, ou seja, cada ano, na escola local é formada uma turma inteira dos Semenyuk ou parentes próximos. A comunidade não impõe as suas crenças religiosas a ninguém, ou seja, não é uma seita.
Os muraszkowcy na construção de Nova Jerusalem, década de 1930 | ltraditionalist.livejournal.com
As crianças não vão para creche (por causa das regras rígidas de alimentação), mas estudam na escola até a 9ª classe (na escola local estudam 846 crianças, cerca de 1/3 são jovens sionistas cristãos), à partir de 15-16 anos de idade começam à trabalhar. Geralmente na construção civil. Cobram caro, mas garantem uma impressionante velocidade e qualidade das obras.

Na comunidade se casam praticamente só entre os da sua fé, os divórcios são proibidos, assim como quaisquer métodos contraceptivos. Por isso, as famílias são numerosas, como diz um dos filhos do “pastor”, tudo acontece de acordo com a vontade de Deus.  

Realmente, Ucrânia é um pequeno grande universo que merece todo o nosso apreço e estudo!

sexta-feira, junho 14, 2019

Tomáš Řezáč: agente duplo do StB e do KGB

O caso do jornalista, escritor e informador checo Tomáš Řezáč é um bastante interessante, pois mostra o modo operativo das secretas comunistas da Checoslováquia e da União Soviética, StB e KGB respetivamente.

Em 1968, após a ocupação da Checoslováquia pelo Pacto da Varsóvia e do fim de Primavera de Praga, com a sua esposa, Tomáš Řezáč emigrou para Suíça. Alguns anos mais tarde, para expiar a sua “ilusão”, começou a trabalhar como agente da 1ª Diretoria do Ministério Federal do Interior sob o pseudónimo de Repo. Espiava a elite checoslovaca emigrada, obtinha as informações ao mando do Ministério de Interior da Checoslováquia. Em 1975, ele retornou à Checoslováquia, desempenhando o papel principal em toda uma série de campanhas de desinformação e de propaganda. Como agente, ele estava sob a jurisdição da contra-inteligência do StB.

Por ordem da 5ª Direção do KGB da URSS, escreveu o livro “Espiral da traição do Solzhenitsyn” (depois publicado na Itália e em Cuba), para desacreditar o dissidente e escritor soviético/russo Alexander Solzhenitsyn. Neste âmbito usou o manuscrito de um dos amigos de Solzhenitsin, apreendido pelo KGB e sem a permissão do seu autor.
A edição cubana do livro do Řezáč sobre Solzhenitsyn
Foi uma figura chave na campanha de desinformação dirigida contra Václav Havel e contra Carta 77. Em 9 de março de 1977, Řezáč participou no programa da rádio pública checoslovaca intitulado “Quem é Václav Havel? Em particular, afirmou que Havel havia recebido apoio financeiro dos serviços de inteligência da Alemanha Federal e dos Estados Unidos (na altura Havel estava detido por quatro meses e meio na prisão de Ruzyne, acusado de “ações de desestabilização”). Através do seu advogado, em 13 de março de 1977, Havel escreveu aos conselhos editoriais de todos os jornais que publicaram o texto “Quem é Václav Havel?”, com um pedido de refutar publicamente as declarações falsas. Não houve reações e, em 17 de março de 1978, Havel entrou com um processo contra Řezáč no Tribunal Distrital de Praga-6 por acusações de difamação.

Em cartas datadas de 2 de abril e 2 de junho de 1978, o acusado pediu para adiar a audiência devido à sua alegada doença. Naquela época, as autoridades comunistas checoslovacas decidiram que acusações de difamação contra o seu agente eram indesejáveis, optando por afirmar que os jornais tinham “distorcido o significado daquilo que foi dito no programa”. O que foi feito – em 7 de agosto de 1978, Řezáč enviou uma carta ao tribunal, onde afirmou que a sua acusação contra Václav Havel tinha sido apresentada em uma suposta forma de reserva: “aparentemente, parece que”, etc. Após disso, Havel retirou a sua queixa e, em 3 de agosto de 1981, o departamento financeiro do tribunal distrital de Praga-1 ordenou a restituição, ao futuro presidente da Checoslováquia livre (e depois da República Checa) a quantia de 60 coroas, que este tinha pago como custos judiciais.
O relatório do agente Repo sobre a sua própria estadia na Ucrânia  em 1979 | arquivos
Em 1978 o oficial da 5ª Direcção do KGB soviético, capitão Andrey Blagovidov (aparentemente o curador soviético do Řezáč) escreveu aos seus colegas do StB que agente «Repo aceitou as nossas críticas sobre seu desejo por álcool e na [questão da] gestão financeira».
“Procurados”, a capa da 2ª edição russa de 1988
Novamente ao pedido do KGB, e em co-autoria, Řezáč escreveu o livro “Procurados”, uma obra propagandista, dirigida contra Ucrânia independente e contra os nacionalistas ucranianos, publicada, pela primeira vez em Moscovo em 1981 e traduzida para alemão, inglês,  francês e ucraniano (1989).