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sábado, julho 25, 2026

Ucrânia, Mariupol, 2022: «Diário de Kateryna Savenko»

Uma ucraniana de Mariupol, manteve o seu diário pessoal durante o cerco russo da cidade. O diário foi salvo pela sua mãe. A própria Kateryna não sobreviveu para nós contar a sua estória. Mas o seu diário conta... 

«O Diário de Kateryna Savenko» finalmente foi publicado. Ele vivia com o seu amado marido e filha em Mariupol. No primeiro dia da invasão russa em grande escala, começou a descrever os acontecimentos que viveu. Diário possui apenas 34 entradas, depois disso é tragicamente interrompido.

Operária da fábrica metalúrgica de Mariupol, Kateryna Savenko, registou no seu diário como a sua família, vizinhos e outros civis lutavam para sobreviver sob os bombardeamentos russos, procurando água, alimentos e um lugar seguro. Ela anotou as mudanças em Mariupol, os seus próprios medos, as memórias de uma vida pacífica e as ações das pessoas a ajudarem-se mutuamente. Kateryna Savenko faleceu em abril de 2022, 39 dias depois de ter começado a escrever no seu diário. A sua família encontrou e retirou as suas notas de Mariupol, que estava sob ocupação russa.

Mãe! Estou ferida no Hospital da Cidade Nrº 1. Todos os médicos se foram. [Tenho]
a perna partida e a cara rasgada. Vitaly morreu. Nadia está na cave do hospital. Ajudem!

É um verdadeiro milagre que a mãe de Kateryna tenha conseguido levar dois cadernos rabiscados para fora da cidade ocupada. A sua filha pediu-lhes que encontrasse este diário e que contasse ao mundo inteiro o que se passou em Mariupol. Frequentemente deparamo-nos com este desejo quase bíblico de «quero que o mundo saiba» nas pessoas que sobreviveram ao inferno criado pelos ocupantes russos.

A publicação do diário foi feita com grande qualidade. Era importante acertar em tudo, por isso os editores não tiveram pressa e consultaram os especialistas e a família da Kateryna.

Não temos distanciamento emocional, por isso ler estes textos é doloroso. Como esta nota para a mãe: os ocupantes russos estão a bombardear o hospital municipal de Mariupol e o edifício começa a arder. A mãe de Kateryna encontrou a sua filha por acaso. Estará deitada debaixo de uma sacola xadrez. Morrerá nos braços da mãe dois dias depois, numa cave.

Uma das últimas entradas, em ucraniano, «Estou na casa dos pais...»
Imagem: Museu das Vozes Civis da Fundação Rinat Akhmetov

A filha e a irmã de Kateryna, a quem ela se dirigia frequentemente através das páginas do seu diário, quando as SMS deixaram de passar, estavam presentes na apresentação. Quando as palavras de Kateryna foram lidas, deram as mãos. Da mesma forma que os ucranianos se abraçam uns aos outros nestes anos todos.

Este é um diário bastante assustador, mas tem de ser lido. É muito importante fazer traduções profissionais para diferentes línguas. Porque se trata do direito à verdade. A voz de Kateryna precisa de ser ouvida pelo mundo, como ela desejava.

Kateryna Savenko. Crédito: Museu das Vozes Civis/Fundação Rinat Akhmetov

No seu prefácio ao diário de Kateryna Savenko, o historiador ucraniano Anton Drobovych alertou os leitores para não estarem preparados para enfrentar o mal, a morte e a violência contra a leitura deste livro. Drobovych observou que, na publicação, todos os horrores do cerco de Mariupol pelos russos são apresentados por uma simples civil, sem qualquer distanciamento. A própria autora do diário escreveu a maior parte do seu conteúdo em russo, que era então a língua dominante em Mariupol, mas no final passou a escrever em ucraniano. Drobovych acredita que isto indica «uma rejeição do que é estrangeiro e um regresso a si mesma, ao seu próprio sistema de expressão de pensamentos».

A exposição dedicada ao «Diário de Kateryna Savenko» estará patente até ao final de agosto no Museu de História de Kyiv. Visitem, se estiverem na Ucrânia.

Publicações internacionais sobre o diário de Kateryna Savenko surgiram no tabloide britânico The Sun, e a rádio pública polaca Polskie Radio criou um podcast, dividido em quatro partes, com excertos, lidos em polaco, por uma atriz profissional, escreve a Deutsche Welle.

sábado, julho 18, 2026

A sangrenta luta soviética contra o «formalismo» nas belas-artes

No final da década de 1930, o estado comunista soviético iniciou a luta ferroz contra o «formalismo» nas artes. Segue um excerto do protocolo de interrogatório do famoso artista expressionista letão-soviético, Aleksandrs Rūdolfs Drēviņš (1889–1938), conduzido em 1938 por investigadores do NKVD.

PERGUNTA: Então, você, enquanto artista, aderiu ao movimento formalista na arte?

RESPOSTA: Sim, como artista, aderi ao movimento formalista reaccionário.

PERGUNTA: Explique o que é o movimento formalista nas belas-artes e qual a sua essência contrarrevolucionária?

RESPOSTA: Posso estar a ser um pouco vago na minha definição, mas entendo que a essência do movimento formalista nas belas-artes é que se opõe ao realismo socialista e apresenta nas belas-artes conteúdos e formas alheias à realidade soviética, inspirando-se em artistas fascistas ocidentais como Braque e outros. Gostaria de informar a investigação que o movimento formalista nas belas-artes foi subdividido em vários movimentos mais pequenos, como o Futurismo, o Cubofuturismo, o Suprematismo e o grupo Ost.

(…)

PERGUNTA: Diga-me, que obras específicas pintou com distorções contrarrevolucionárias?

RESPOSTA: Pintei várias obras com distorções contra-revolucionárias, como «O paraquedista», «A corça», «O desempregado em Riga», «A menina em kolkhoze» e «A paisagem do kolkhoze» [infelizmente, por enquanto, não foi possível achar as imagens dos dois últimos quadros na Internet, possivelmente foram apreendidos e/ou destruídos pelo NKVD].

Quadro «Descida do paraquedista», 1932

PERGUNTA: Qual é a essência das suas pinturas com distorções contrarrevolucionárias?

RESPOSTA: Não consigo dizer em pormenor qual é a essência contra-revolucionária de todas as pinturas, por exemplo, a pintura «A menina em kolkhoze». Em vez de retratar uma vida alegre, próspera e feliz numa quinta coletiva, pintei uma realidade difícil, triste e melancólica da quinta coletiva, como no quadro «A menina em kolkhoze». Havia distorções contrarrevolucionárias da mesma ordem noutras pinturas.

Quadro «A corça na neve», 1931-32

PERGUNTA: Então pintou quadros com distorções contra-revolucionárias enquanto cumpria as tarefas de uma organização nacionalista contra-revolucionária?

RESPOSTA: Sim, admito que, sob as instruções de uma organização nacionalista contrarrevolucionária, realizei trabalhos artísticos com distorções contrarrevolucionárias.

Quadro «A menina com a toalha», 1937 

Do protocolo do último interrogatório de Aleksandrs Rūdolfs Drēviņš pelo oficial operacional do 3º departamento da UNKVD, Danilkov, em 21 de janeiro de 1938 / a ortografia, a pontuação e os sublinhados do original foram preservados /

A 11 de fevereiro de 1938, Aleksandrs Rūdolfs Drēviņš foi condenado à pena capital e fuzilado a 26 de fevereiro de 1938. Tinha apenas 49 anos. Foi sepultado numa vala comum e anónima no polígono de Butovo nos arredores de Moscovo. O seu corpo nunca foi entregue à família. Vários quadros seus sobreviveram somente, porque a sua esposa, a pintora vanguardista russa, Nadezhda Udaltsova, os escondeu no seu próprio estúdio, declarando as como uma obra sua. O artista foi judicialmente reabilitado em 1957 «devido à ausência de crime». Pela primeira vez após a sua morte, os quadros foram mostrados ao público em 1959, em Riga. A sua primeira exposição individual ocorreu apenas em 1971, em Moscovo. Em 2022, um tribunal russo se recusou à devolver os quadros do pintor à sua neta e legítima herdeira...

terça-feira, junho 30, 2026

O chefe do NKVD da Ucrânia soviética, que tentou escapar às garras do NKVD

Alexander Uspensky na nota soviética de procura dos criminosos. Wikipédia

Aos 14 de novembro de 1938, o chefe de NKVD da Ucrânia soviética, Aleksandr Uspensky, percebendo que a sua convocação para Moscovo à fim de receber uma «promoção» significaria a prisão subsequente, fugiu de Kyiv, fingindo suicidar-se.

O bilhete deixado pelo Uspensky

Deixou um bilhete manuscrito no seu gabinete oficial do NKVD:

«...Adeus, bons camaradas!

Procurem o meu corpo, se necessário, no [rio] Dnipro. É mais seguro disparar sobre mim próprio e depois atirar-me para a água... sem falhas.

Nunca fui um Lyushkov!

Uspensky ...»

Com isto, distraiu temporariamente os oficiais da NKVD. Viveu, na clandestinidade, em várias cidades da rússia soviética, com identidades falsas, previamente elaboradas, na maioria das vezes sob o nome do operário Ivan Lavrentyevich Shmashkovsky. A ordem de procura veio pessoalmente de Estaline para Béria: «capturar este canalha». O ditador soviético estava furioso, Uspensky era o 3º alto patente do NKVD, que abandonou os seus deveres na polícia secreta soviética, fugindo, em apenas cinco meses. Foi imediatamente colocado na lista de procurados de toda a União Soviética e em breve, foi encontrado. Preso, foi executado em 27 de janeiro de 1940.

Capa do processo do NKVD sobre a fuga/desaparecimento do Uspensky.
Arquivo Estatal do SBU, Kyiv

O seu local de enterro é o «túmulo de cinzas não reclamadas» nº 1 do crematório do Cemitério de Donskoye, nos arredores de Moscovo. Comissário do NKVD do 3º grau (equivalente ao general do exército), nunca reabilitado judicialmente à título póstumo, Uspensky é um exemplo perfeito de como, na URSS, a mesma pessoa poderia ser perpetuador e a vítima do regime repressivo soviético. 

No mesmo ano de 1940, a sua mulher, Anna Uspenskaya, foi executada pelo NKVD, sob a acusação de «traição, conspiração para fugir para o estrangeiro com o seu marido, o Comissário do Povo para os Assuntos Internos da Ucrânia, a não-denúncia [do marido ao NKVD]». O destino do filho do casal, um adolescente na altura, é desconhecido.

Genrikh Lyushkov, que Uspensky mencionou na nota, serviu como chefe da Direção da NKVD para o Território do Extremo Oriente russo em 1937-38. Antecipando a sua eminente prisão, em 13 de junho de 1938 fugiu para a Manchúria e rendeu-se aos japoneses. Testemunhou contra o regime soviético, denunciou as repressões comunistas, dos quais fazia uma parte mais que ativa. 

Lyushkov na conferência de imprensa em Tóquio. No Japão viveu sob o nome do Yamagochi Tosikadzu

Foi morto pelos japoneses em agosto de 1945. As circunstância exatas da sua morte são desconhecidas. Embora existe a versão, não confirmada por evidências verificáveis, do que Lyushkov não foi morto, mas se mudou aos Estados Unidos, onde trabalhou para a CIA. No entanto, em 1979, o seu curador dos serviços secretos japoneses, Yutaka Takeoka, declarou publicamente, que foi o responsável pela morte do agente, após a ordem superior de o executar e a recusa do próprio Lyushkov de cometer o suicídio honroso.

A sua esposa, Nina Pismenna, foi presa aos 15 de junho de 1938 e, a 19 de janeiro de 1939, condenada, na qualidade do «membro da família de um traidor à pátria», a oito anos num campo de trabalhos forçados. No entanto, o seu caso foi revisto em fevereiro de 1940, numa Conferência Especial da NKVD, a pena foi comutada aos cinco anos de degredo forçado. Após a reabilitação judicial em 1962, encontrou a sua filha, Lyudmila Pismenna (enteada de Lyushkov), em Jurmala, Letónia, onde viveu o resto da sua vida e morreu aos 90 anos em 1999. A enteada do Lyushkov, Lyudmila Pismenna, nascida a 5 de maio de 1927 em Kharkiv, na Ucrânia, após a II G.M., mudou-se com a família para a Letónia soviética, onde se tornou professora na Academia de Música da Letónia e na Academia de Pedagogia e Gestão Educacional de Riga. Doutorada em História da Arte, Artista Homenageada da Letónia. Faleceu em fevereiro de 2010.

Fonte da nota

sábado, junho 27, 2026

Instituto Polaco da Memória Nacional na tentativa de demonizar a OUN

Há alguns dias que o Instituto Polaco da Memória Nacional (IPN) tem vindo a conduzir uma campanha de informação que tenta demonizar os «pais-fundadores» do nacionalismo ucraniano. Nas redes sociais são publicadas ilustrações com textos que visam comprovar a natureza supostamente «genocida» das ações da UPA. No entanto, tudo é feito de uma forma surpreendentemente primitiva, escreve o historiador ucraniano Volodymyr Viatrovych.

Estão a tentar encontrar as raízes do «genocídio» na obra de Dmytro Dontsov, mas não encontraram nele uma única citação anti-polaca. Porque, na verdade, não existe nenhuma. Dontsov era um polonófilo, trabalhou e publicou a sua obra legalmente na Polónia nas décadas de 1920 e 1930, e a sua principal obra, «Nacionalismo», foi publicada na Polónia em 1926, numa editora religiosa «Missioner», em Zhovkva [na atual região ucraniana de Lviv].

A citação de Stepan Bandera também não resultou. Eis o que lemos no site polaco do IPN: “A nossa ideia, tal como a entendemos, é tão grandiosa que, quando se trata da sua implementação, para a alcançar, é necessário sacrificar não centenas, mas milhões de vítimas”, disse um dos líderes nacionalistas ucranianos, Stepan Bandera, perante o tribunal em Lviv, em 1936. Estas palavras foram um aviso sombrio do genocídio cometido pelos seus apoiantes apenas sete anos depois”.

Na verdade, Bandera falava sobre a disponibilidade dos ucranianos para sacrificar as suas próprias vidas em nome da liberdade. Referia-se aos seus companheiros da OUN, que foram presos e executados pelas autoridades polacas. A citação completa é a seguinte: “As pessoas que estão constantemente conscientes, no seu trabalho, de que podem perder a vida a qualquer minuto, estaspessoas, mais do que ninguém, sabem valorizar a vida. Conhecem o seu valor. A OUN valoriza muito a vida dos seus membros, mas a nossa ideia é tão grandiosa na nossa compreensão que, quando se tratada sua implementação, não algumas, não centenas, mas milhões de vítimas devem ser sacrificadas para a concretizar.”

Quando a história é substituída por propaganda primitiva, conduzida por uma instituição estatal, e a memória das vítimas é substituída por um culto pseudo-religioso, a sociedade perde a capacidade de avaliar criticamente não só o passado, mas também o presente. Já vimos isso no exemplo dos nossos vizinhos de leste, escreveu Dr. Viatrovych.

domingo, junho 07, 2026

A fuga dos pilotos soviéticos para lá da Cortina de Ferro

Piloto Roman Svistunov em 1987

Aos 27 de maio de 1987, na auge de Perestroika, o piloto reformado/aposentado, ucraniano Roman Svistunov, desertou da Letónia soviética para a Suécia, a bordo de um avião agrícola, o An-2P.

Um An-2 típico

Roman Svistunov (nascido em 1963), chamado na imprensa sueca de Svistonov, de acordo com as regras gramaticais suecas, tinha na altura 24 anos. Vivia em Mykolaiv na Ucrânia. Era casado e tinha uma filha e um filho, mas já não vivia com a família. Tinha patente militar de tenente, mas foi dispensado do exército soviético e transferido para a reserva, após disso, ingressou na aviação civil, onde trabalhou como piloto de aviões agrícolas. 

Como Svistunov relatou mais tarde, depois de ter sido dispensado e transferido para a reserva, sentiu injustiçado, começando odiar o regime soviético. A sua mãe, que não gostava do regime soviético, também o pode ter influenciado. Assim, já por volta de 1984, Roman decidiu fugir para Ocidente. 

Algumas semanas antes da sua fuga, ele visitou um ex-colega na Letónia, que também era piloto. É possível que, durante este período, Svistunov, fazendo-se passar por mecânico, tenha conseguido fazer amizade com o pessoal do aeródromo. 

A Fuga 

Na noite de 26 para 27 de maio, Roman Svistunov e o seu amigo, guarda do aeródromo do kolkhoze letão de «Druva», estavam a beber. Quando o guarda ficou embriagado, Roman, sob o pretexto de realizar a manutenção da aeronave, entrou, no aeródromo, guardado por uma cerca semi-caída, onde embarcou num An-2R agrícola desocupado, aparelho número 70501, e ligou o motor. Ao ouvir o barulho, o guarda correu para o exterior, sacou a sua espingarda mas não chegou à disparar. Às 5h10 o voo 70501 descolou em direção ao Mar Báltico.

A distância entre a costa da Letónia e a ilha de Gotland

Svistunov não foi o primeiro a pensar em fugir da URSS para a Suécia num avião agrícola: exactamente quatro anos antes, a 27 de Maio de 1983, o piloto letão Voldemārs «Valdis» Vanags, de Riga, comandante de voo, também usou um An-2 na fuga para Gotland. As autoridades suecas devolveram a aeronave à URSS, mas o piloto recebeu asilo político. No entanto, ficou na Suécia por cerca de um ano e depois voltou à União Soviética em junho de 1984, onde foi preso, cumprindo algum tempo ora na cadeia, ora no hospital psiquátrico de Riga (conhecido popularmente como «hospital na rua Tvaika»), isso é, apesar de promessa de perdão, dada pelas autoridades soviéticas.

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Para evitar tentativas de fuga semelhantes, o Ministério da Aviação Civil emitiu uma instrução de obrigatoriedade de reduzir o nível de combustível das aeronaves durante as operações aéreas. Além disso, a mesma instrução imponha o desligamento da bateria, para impedir o funcionamento do motor. No entanto, Svistunov sabia tudo disso e percebeu que o avião estava com pouco combustível, mas isso não o demoveu. 

O seu voo sobre o Mar Báltico durou mais de duas horas, durante as quais o avião percorreu aproximadamente 350 km. Junto à ilha de Österngarnsholm, o motor do avião começou a falhar, devido à falta de combustível e, de seguida, parou completamente, levando o piloto a decidir amerissar. 

Anteriormente, a força aérea sueca tinha detetado no radar uma pequena aeronave a voar em baixa altitude em direção à Suécia. Dois caças F-17 Kallinge foram enviados do aeródromo de Ronneby para a intercetar. No entanto, quando as aeronaves militares chegaram, o An-2 já tinha caído na água a aproximadamente 100 metros da costa leste da ilha sueca de Gotland, perto da aldeia de Östergarn, e logo afundou a uma profundidade de 4 metros. 

O piloto conseguiu sair da cabine de pilotagem e nadou o resto do percurso. De seguida, achou uma casa na costa, onde levou a roupa seca. Foi ali detido por Lars Flemström, um piloto de helicóptero que chegou depois de pescadores terem reportado a queda do avião perto da costa. Roman foi levado de helicóptero para a esquadra de Visby para interrogatório, onde solicitou asilo político. 

Em depoimento à polícia, Roman Svistunov disse que planeava fugir da URSS há muito tempo, mas inicialmente recusou-se a explicar os seus motivos. Disse ainda que deixou para trás a mulher, Marina, e filhos: Kristina, de três anos, e Denis, de oito meses. Nas entrevistas posteriores Roman contou que a sua família tinha conhecimento dos seus planos de fuga, mas não alinhou, achando demasiadamente arriscado. A polícia sueca informou ainda que Svistunov se queixou de dores no peito, mas que, de resto, estava bem de saúde. 

Primeira publicação soviética sobre o caso: «No dia 27 de maio um
avião An-2 do Aeroflot foi levado à Suécia. Essa ação criminosa...»

Quando a notícia da fuga se espalhou pela URSS, a 28 de maio, Roman Svistunov foi acusado de sequestrar o avião, e a Suécia foi presssionada pelo regime soviético para devolver o piloto e a aeronave. Nesse mesmo dia (28 de maio), a agência soviética TASS publicou informações sobre as acusações contra o piloto, exigindo a sua extradição para a União Soviética. Contudo, no momento da publicação, a embaixada sueca já havia encerrado o expediente, pelo que não houve resposta imediata. Um funcionário da embaixada soviética e um representante do Ministério da Aviação Civil da URSS (proprietário da aeronave) também se deslocaram a Visby para se encontrarem com o fugitivo, mas este recusou terminantemente a oferta. 

Artigo no jornal soviético «Izvestia» sobre o caso Svistunov

Ao mesmo tempo, a propaganda soviética começou a denegrir Svistunov, alegando que, após se ter dispensado da aviação, vivia de rendimentos ilícitos e estava envolvido no chamado «mercado paralelo». No entanto, quando a Suécia questionou os soviéticos sobre o motivo da demissão de Roman da aviação, não foi dada qualquer resposta adequada. 

A Suécia não extraditou Roman Svistunov, mas um tribunal sueco condenou-o a dois anos de prisão suspensa; no dia 4 de setembro, recebeu uma autorização de residência. Roman trabalhou durante dois anos na pizzaria-restaurante Söderports, seguidos de mais um ano noutra pizzaria. Em 1990, deixou Gotland para trabalhar como chef noutros países europeus. Em 1992, Svistunov regressou à Suécia, mas não sozinho, mas sim com a sua família ucraniana de Mykolaiv (a sua mulher e os filhos). 

Alguns anos mais tarde, o An-2 foi içado e entregue a Gotland, onde uma equipa composta por Nils-Åke Stenström, Thor Carlsson e Lars Boström passou dois anos a restaurá-lo. 

An-2P do Svistunov após ser retirado do Mar Máltico

A 28 de maio de 2016, para assinalar o 29º aniversário da fuga, foi inaugurada uma exposição dedicada à história soviética no Museu da Defesa de Gotland, em Visby, tendo o voo número 70501 como uma das principais peças expostas. 

Roman Svistunov em 2016

Um dos convidados da cerimónia de abertura, surpreendentemente, foi o próprio Roman Svistunov, que se destacou da multidão e abraçou Stenström, um dos homens que restaurou a aeronave sequestrada. Quando perguntaram ao ex-sequestrador se alguma vez tinha considerado a possibilidade de uma exposição como aquela enquanto pilotava um pequeno avião sobre o mar, Roman respondeu: «Não estava a pensar em nada. Só queria sobreviver».

A fuga do mecânico Yevgeny Vronsky 

O 1º tenente Yevgeny Vronsky após receber os cuidados médicos na RFA

A 27 de maio de 1973, o mecânico soviético Yevgeny Vronsky realizou, com sucesso, a sua ideia de desertar para o Ocidente ao bordo de um bombardeiro Su-7BM. O seu plano era simples: levantar voo do aeródromo Großenhain, na RDA e voar para Alemanha Ocidental.

Su-7BM com número «52» usado pelo Vronsky

Para contornar o seu problema maior, de não ser um piloto, o 1º tenente Vronsky conseguiu fazer amizade com um instrutor que ensinava pilotos em simuladores especiais e pôde praticar nas horas vagas. Após a sua fuga descobriu-se que Yevgeny, de apenas 23 anos, praticava mais tempo no simulador do que os pilotos soviéticos dos Su-7BM, dominando facilmente as habilidades básicas de pilotagem. É certo que só aprendeu a descolar e a controlar uma aeronave no ar; não sabia como aterrar. Contudo, este aspecto crucial da pilotagem não influenciou a sua decisão de voar para Ocidente. 


Jornal alemão «Braunschweiger Zeitung» com a notícia da queda
do avião soviético no seu capa

Uma vez levantando o voo, Vronsky, subiu a uma altitude de 500 metros e voou a baixa velocidade em direção à Alemanha Ocidental. Ignorou as instruções e não recolheu o trem de aterragem, temendo que a aeronave perdesse o equilíbrio. 

Local da queda do Su-7BM do Vronsky

O comando da Força Aérea Soviética emitiu uma ordem imediata para interceptar o fugitivo, enviando para o tal 32 (!) caças intercetores. No entanto, Vronsky nunca foi detetado, provavelmente devido à sua baixa altitude de voo. Após atravessar a fronteira, piloto simplesmente se ejetou. Aterrou quase ao lado do avião acidentado. Os habitantes locais ofereceram-lhe ajuda.

Os restos do aparelho do Yevgeny Vronsky.
Foto: Rust / ullstein bild / Getty Images

A União Soviética exigiu a sua deportação forçada, o pedido que foi negado. O piloto não fez declarações políticas. Em entrevistas à imprensa, afirmou simplesmente que tinha planeado a sua fuga com antecedência, até aos mais pequenos detalhes. O seu destino posterior é desconhecido.

Fonte 1Fonte 2

sábado, maio 02, 2026

As pedras salvadoras, atiradas às «traidoras da pátria» soviética

Gertrud Platais presa pelo NKVD. Foto: www.bundesstiftung-aufarbeitung.de

A alemã Gertrud Platais, foi prisioneira do campo de concentração soviético de ALZHIR, na atual Cazaquistão, pela única «culpa» de ser a esposa de um «traidor da pátria», o engenheiro alemão Karl Platais, executado pelo NKVD em abril de 1938. 

Quando Gertrud visitou o Cazaquistão em 1990, ela contou à equipa/e do Museu ALZHIR sobre seu primeiro encontro com os cazaques locais e o tratamento que estes davam às prisioneiras.

Em uma manhã tempestuosa de inverno, enquanto as prisioneiras colhiam juncos na margem do Lago Zhalanash sob forte vigilância do NKVD, para construir barracões, homens idosos e crianças — moradores da vila cazaque vizinha de Zhanashu — emergiram dos juncos. A mando dos mais velhos, as crianças começaram a atirar pedras nas mulheres exaustas (para atingir a cota de 40 feixes de juncos, elas tinham que trabalhar no frio de 17 a 20 horas por dia). Os guardas começaram a rir alto:

«Viram? Não só em Moscvo/ou, mas até aqui na vila, nem as crianças gostam de vocês!»

«Foi muito ofensivo e doloroso, especialmente emocionalmente», conta Sra. Platais. Isso continuou por alguns dias. As prisioneiras insultadas só podiam apelar ao destino, queixando-se da injustiça sofrida às mãos dos cazaques, enganados e amargurados pela propaganda soviética...

Karl Platais, 1907-1938, executado pelo NKVD

Um dia, desviando-se das pedras que voavam em sua direção, a exausta Gertrud tropeçou e caiu numa destas pedras. Ao enterrar o rosto nelas, de repente sentiu o cheiro de queijo fresco e percebeu que aquelas mesmas pedras cheiravam a... queijo e leite! Levou/pegou um pedaço e colocou na boca — parecia delicioso.

Ela recolheu as pedras e as levou de volta ao quartel. Havia também prisioneiras cazaques lá. Elas disseram que era kurt — queijo fresco salgado, seco ao sol.

Gertrud Platais na década de 1990. Foto: httpswww.bundesstiftung-aufarbeitung.de

Acontece que, arriscando a vida de seus próprios filhos, cazaques compassivos, incapazes de encontrar outra maneira senão compartilhar seus últimos pertences — o kurt — com as prisioneiras dessa forma, sem despertar as suspeitas dos guardas, fizeram isso para, de alguma forma, apoiar as mulheres pobres e famintas, tendo elas mesmas experimentado a fome e a privação na década de 1930. Mais tarde e sem que os guardas soubessem, eles deixavam os pedaços de carne cozida, papa/mingau de aveia, kurt (um tipo de pão achatado) e pão sírio para os prisioneiros debaixo dos arbustos.

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

A enciclopédia ilustrada dos horrores e abominações do GULAG soviético

A fazendeira e escritora Eufrósínia Kersnovskaya passou 12 anos da sua vida aprisionada no GULAG soviético. Produziu centenas de pinturas, que com a precisão fotográfica mostram os horrores e abominações dos campos de concentração comunistas da União Soviética. 

Eufrósínia Kersnovskaya

Há uma verdadeira enciclopédia nessas imagens. Elas contêm um material tão informativo que nenhum memorialista consciencioso ou coleção de documentos poderia fornecer. O olhar perspicaz da artista captura situações que jamais poderiam ser registradas por fotografia e cinema (fotógrafos e cinegrafistas eram simplesmente proibidos no GULAG): a vida em confinamento solitário e celas compartilhadas, os horrores dos embarques, as etapas, a vida nos campos de Estaline, o trabalho dos prisioneiros em hospitais e serrarias, em necrotérios e nas minas, escreve blogue Antisovetsky

Chegada de uma nova etapa ao «campo corretivo-laboral» do GULAG
Kersnovskaya se lembra de tudo — como eram as parashas (latrinas), como os prisioneiros se vestiam, como aconteciam os interrogatórios, os shmons (rusgas), as lutas corporais, a lavagem nos banhos públicos e as rotinas de necessidades fisiológicas, os enterros dos mortos, os amores e romances.

«Descanso curto ao caminho da cova»

Com uma lapidação precisa, ela retrata seus anos de GULAG e nos trabalhos forçados, seus camaradas na desgraça e seus carrascos. Todos os tipos de personagens existem nesses desenhos: guardas prisionais, urkas (criminosos), professores doutores, delatores, presos especiais, menores, dokhodyagi (quase-mortos), camponeses, zhuchkas ((1) jovem prostitutas; 2) ladras; 3) concubina fieis)), brigadeiros laborais, koblas (lésbicas ativas), padrinhos (oficiais do NKVD encarregados da segurança interna dos campos), prostitutas. E tudo isso foi capturado por Kersnovskaya com precisão cinematográfica. Quase não há estática – tudo se move, age, vive, nas suas imagens. A carga psicológica e emocional das imagens está no limite! 

«Dúzia dos quase-mortos são levados aos trabalhos» 

Eufrósínia nasceu em em 1908 no sul da Ucrânia, em Odessa. Sua mãe era professora de inglês e francês. Seu pai era advogado e criminologista. Eufrósínia recebeu uma excelente educação e falava nove idiomas, no entanto optou por se formar em veterinária. 

Fugindo dos horrores do comunismo e do terror vermelho, após a queda da República Popular da Ucrânia (UNR), família conseguiu fugir à Romênia. Lá, na região de Bessarábia, perto da cidade de Soroki, na vila de Tsepilovo, ficava uma propriedade da família. No final da década de 1930, seu pai faleceu. A filha e a mãe teriam continuado morando em sua casa até que em agosto de 1939, a Alemanha nazi e URSS comunista assinaram um pacto de não agressão, que dividia as suas «esferas de influência» na Europa Oriental. O Exército Vermelho veio do oeste, e as pessoas da sua «esfera de influência» foram enviadas para a Sibéria em vagões de gado. Kersnovskaya também foi deportada, por ser «uma proprietária» e representante de uma «família rica». Ficou presa de 1942 a 1952, período durante o qual lavava roupas de cama de hospitais, passou pelo localidade de Zlobino, como ela chamava de «mercado de escravos de Norilsk». 

Uma lição de «economia» socialista 

«Aqui, crianças estão espalhadas em fila ao longo de um campo de trigo não colhido, a professora está explicando algo... Finalmente, entendi: essas crianças magras e famintas estão queimando o trigo...»

«... Galopando pelo campo... Não sei quem era. Aquele cavaleiro parecia mais um oprichnik! Só que na sela não havia uma cabeça de cachorro ou uma vassoura, mas um monte de mochilas. O que está acontecendo? O que aquelas crianças magras e as velhas fizeram de errado enquanto colhiam espigas de milho? Elas me explicaram na aldeia: 'Não recebes nada por um dia de trabalho. Quando você colhe espigas de milho, pode levar/pegar até 10 quilos... 

Mas as espigas de milho vão se perder de qualquer jeito! – 'Vão se perder mesmo. Mas se você permitir que colham as espigas de milho, ninguém vai trabalhar? Ou talvez elas deixarão as espigas [no campo] de propósito.'» 

Uma lição de alfabetização política 

Quando Kersnovskaya estava numa prisão na região de Altai, ela aprofundou os seus conhecimentos políticos. Ela escreve: «Uma jovem que saiu para passear conosco foi presa por não denunciar um homem que, usando quinze fósforos, formou o número «fatal» 666, depois a palavra «serpente» e, finalmente, «Lenine». Para mim, com minhas «limitações europeias», parecia que [cidadão] só se podia ser responsabilizado por seus próprios atos. Comecei a perceber, com dificuldade, que aqui, neste país, até mesmo palavras ditas são consideradas um crime. Mas ser mandada para a prisão por algo que se ouviu — não! Isso supera qualquer coisa que um louco possa imaginar em meio ao delírio!»

Uma lição de ateísmo

«Às vezes, um grupo [de mulheres] se reunia na pocilga... Uma vez, Irma Melman trouxe uma coleção de poemas antirreligiosos. É difícil dizer qual desses poemas era o mais estúpido e vulgar». 

«Qual a minha opinião sobre essa 'poesia'?», você pergunta. 

«Bem, uma pocilga é o lugar mais apropriado para ler tais poemas. Uma lixeira serviria igualmente bem...» Dei de ombros, respondendo às perguntas de Irma Melman, e fui alimentar os leitões. Longe de pensar que isso selava meu destino... Fui acusada de agitação antissoviética e atividade subversiva em uma granja de porcos, e também de ódio ao 'orgulho da poesia soviética — Maiakovski'." 

Sob essa acusação Eufrósínia Kersnovskaya foi enviada para Norillag.

Uma lição de «racionalização» soviética (a experiência de Norillag

Antes da II G.M., os prisioneiros eram enterrados em caixões rudimentares; durante a guerra, o número de cadáveres aumentou tanto que inventaram o chamado carro funerário — uma caixa sobre rodas onde os cadáveres nus eram colocados, em forma sobreposta. Ironicamente, o inventor desse «carro funerário» morreu subitamente e estava em uma das primeiras viagens. Em 1947, começaram a transportar prisioneiros em caixões novamente dos quais, aliás, eram lançados/jogados às valas comuns. 

«No momento da chamada todos devem estar presentes, Mesmo os mortos» 

Uma lição de humanismo socialista 

Enquanto trabalhava no hospital central do campo de prisioneiros de Norilsk, sua primeira morte ocorreu em serviço. «Um tártaro, originário da Crimeia, estava morrendo. Reunindo suas últimas forças, ele se sentou, me chamou e disse: 'Irmã! Aqui está o endereço da minha esposa... Escreva para ela.' Eu fiz o que ele pediu. Me meti em encrenca por isso! Mal sabia eu que um prisioneiro moribundo não tem o direito de se despedir — nem mesmo por carta — de sua família? Se eu ousar relatar outra morte, eles me mandarão para um campo penal para cavar areia». 

Uma lição sobre a verdade comunista

Em 1960, sete anos após a morte do Estaline e em pleno «degelo» de Khruschev, Eufrósínia Kersnovskaya, uma operária de explosivos da mina 13/15, escreveu uma carta ao jornal da cidade «Zapolyarnaya Pravda» sobre violações de normas de segurança no trabalho. Uma prestigiosa comissão, a pedido da redação, verificou os fatos e concluiu que a denúncia era uma calúnia contra cidadãos soviéticos.

No texto publicado em resposta, Eufrósínia foi acusada de «maldade», de ser proveniente de uma família rica e que os seus pais «fugiram para o exterior». O texto a acusava de «malícia contra tudo o que é soviético, herdada de seus pais», dizia que ela «apoia abertamente os nazistas» (?) e que «mesmo depois de cumprir sua pena, continua seu trabalho sujo» (?). Em resumo, os mineiros soviéticos estão lutando pelo título de uma mina de trabalho comunista, e Eufrósínia «ainda tem veneno nos lábios» (artigo se chamava «Uma Mosca Não Pode Eclipsar o Sol»). 

Houve então uma reunião no local de trabalho de Eufrósínia Kersnovskaya, mas as autoridades soviéticas sofreram uma derrota esmagadora: os mineiros saíram em sua defesa. Disseram que Kersnovskaya era uma excelente técnica de explosivos, uma camarada confiável e uma pessoa bondosa. A tentativa de prisão da investigadora fracassou... Então ela foi «aconselhada» a deixar Norilsk. Pediu para trabalhar por mais um ano e quatro meses até completar o tempo que lhe permitiria se reformar/aposentar mais cedo. O pedido foi negado. Assim, ela deixou para sempre a odiada Norilsk em 1959.

Um selo postal da Moldova, dedicado à Eufrósínia Kersnovskaya

Eufrósínia Kersnovskaya morreu em 8 de março de 1994 na cidade russa de Yesentuki. Autora de um livro de memórias (2.200 páginas manuscritas), acompanhado por 700 desenhos, sobre sua infância em Odesa e na Bessarábia, sua deportação e a sua prisão no GULAG. O texto completo das memórias de Evfrosinia Kersnovskaya, em seis volumes, foipublicado somente em 2001–2002.

Ler o livro de suas memórias «Quanto custa uma pessoa», +18, em russo


sábado, novembro 15, 2025

Nicholas G. Shadrin: oficial soviético “Herói da Guerra Fria” pela DIA

Artamonov-Shadrin testemunha perante o cogresso dos EUA (à direita, de bigodes)

A marinha da guerra soviética se viu em apuros no verão de 1959, quando o comandante do mais novo contratorpedeiro da Frota do Báltico, o “Stremitelny” (outros dados «Sokrushitelny»), o Capitão de 3ª Classe Nikolay Artamonov fugiu da Polónia para Suécia.

O contratorpederio soviético «Sokrushitelny» outros dados «Stremitelny»

O ponto mais picante da história residia no facto de que o capitão Artamonov era o genro do almirante Sergey Gorshkov, o todo poderoso Comandante-em-Chefe da marinha soviética e que a fuga do capitão se deu na companhia da sua amada polaca, Ewa Blanca Góra.

O almirante Sergey Gorshkov, nascido na Ucrânia, no meio

No verão de 1959, o capitão de 3ª classe (equivalente ao major do exercito) Nikolai Artamonov, comandante do mais novo contratorpedeiro da Frota do Báltico, o “Stremitelny”, fugiu para a Suécia numa lancha militar com a sua amada polaca, Ewa Góra, a partir do porto polaco de Gdynia. O marinheiro do barco, Ilya Popov, que aparentemente foi coagido a seguir para a Suécia na presença de representantes suecos, recebeu a sugestão do Artamonov de regressar à União Soviética, uma vez que «não havia nada para ele no Ocidente». Os suecos informaram a embaixada americana em Estocolmo, onde Paul Garbler era, então, o chefe da estação da CIA. Após se ter reunido com Artamonov, Garbler enviou um relatório a Washington atribuindo ao oficial soviético a classificação NIP (National Intelligence Potential). Isto significava que a sede deveria considerar este indivíduo como uma fonte potencialmente muito valiosa, capaz de fornecer informação de importância estratégica. Temendo a possibilidade de que o governo sueco deportasse Artamonov à União Soviética, a embaixada americana solicitou o apoio ao diretor da CIA, Allen Dulles. Este, por sua vez, contactou o conselheiro do primeiro-ministro sueco, Olof Palme, que um dia viria a ser o primeiro-ministro da Suécia. Artamonov e Góra seguiram para Washington. 

Artamonov e Ewa Góra no clube de oficiais de Gdynia

Nikolay Artamonov e Ewa Bianca Góra na Polónia

Toda essa atenção se explicava pelo facto que Artamonov não era um oficial comum. Estava casado com a filha do almirante Sergey Gorshkov, comandante da marinha da guerra soviética, e por isso sabia muitas coisas que um oficial da sua patente não era suposto de saber. De acordo com o procedimento estabelecido, Artamonov deveria ser submetido a uma verificação de antecedentes num centro especial da CIA em Frankfurt antes de seguir aos Estados Unidos. Mas, como a sua entrada nos Estados Unidos já tinha sido aprovada por Dulles e James Angleton [o chefe do serviço de contra-inteligência da CIA de 1954 à 1975]. Artamonov e Góra não foram sujeitos a verificação adicional. Quando chegou aos Estados Unidos, ao Artamonov, que mudou o seu nome para Nicholas George Shadrin, recebia o salário equivalente ao de um oficial da sua patente na marinha dos EUA.

A foto do Nicholas Shadrin no seu passaporte americano

O casal comprou uma modesta casa em Arlington, onde Ewa fazia a formação em medicina dentária. Após um ano e meio como consultor especial da CIA, Nicholas Shadrin foi transferido para a Direcção de Inteligência Naval dos EUA. Era de grande interesse para a CIA. Nesta altura, a URSS tinha construído aeronaves navais que portavam os mísseis de cruzeiro, o primeiro submarino nuclear armado com mísseis balísticos nucleares tinha entrado ao serviço. Nicholas Shadrin trabalhou durante sete anos na unidade analítica dos serviços de informação norte-americanos.

O casamento feliz de Nicholas e Blanca Shadrin em Baltimore

Na URSS, Shadrin-Artamonov deixou a mulher e o filho em Leninegrado, aos quais o KGB prestou apoio material constante. Primeiro, porque pertenciam aos circuitos da alta elite militar soviética, e depois, eram mantidos «na reserva», como pretexto para contactar Artamonov mais tarde, quando este se estabelecer nos Estados Unidos. O próprio almirante Gorshkov, diga-se de passagem, nascido na Ucrânia, aparentemente, não foi alvo de qualquer acusação formal ou mesmo repreensão informal.

Agente ilegal soviético Alexey Kozlov (no meio)

Na versão sovietica/russa, o KGB enviou para procurar Artamonov um dos seus agentes da contra-espionagem ilegal, o major Alexey Kozlov [agente ilegal em Portugal antes de 1974, decoberto e preso em 1980, pela NIS, devido à espionagem na África do Sul, libertado na troca de POW/espiões em 1982]. Segundo as fontes russas, em Washington, Kozlov ligou diretamente para casa do diretor da CIA, Richard Helms, se apresentou, explicando que alguns anos antes se tinha encontrado com dois oficiais da CIA no Paquistão. Fornecendo o seu nome e nomes dos agentes. Os americanos, alegadamente, aceitaram o contacto, apenas evitando a participação de qualquer pessoa da divisão soviética da CIA, suspeitando que naquele departamento havia uma “toupeira” do KGB. Kozlov afirmou ser major do KGB e que veio a Washington para recrutar Artamonov-Shadrin. Alegadamente estava insatisfeito com a sua posição no KGB e queria colaborar com a CIA. Se os americanos ajudassem a re-recrutar Artamonov, Kozlov poderia progredir na sua carreira e tornar-se um trunfo valioso para a CIA. Os americanos alegadamente aceitaram a sua oferta, atribuindo-lhe o nome de código «Kitty Hawk». Kozlov alegadamente disse aos americanos, que pretendia se casar com Svetlana, a filha única da poderosa membro do Politburo, Ekaterina Furtseva, a ministra da cultura soviética, conhecida pelo seu forte empreendedorismo económico e uma aguda falta de cultura geral. Em breve, a CIA e o FBI organizaram um encontro entre Kozlov e Artamonov. Kozlov mostrou ao Artamonov cartas da sua mulher e filho, que permaneceram em Leninegrado. Artamonov leu-as e disse que aceitaria se tornar um agente duplo, passando materiais confidenciais da DIA e da CIA ao KGB.

A história é muito bonita, mas claramente fabricada. Segundo a biografia de Alexey Kozlov, disponível na Wikipédia russa, ele foi recrutado pelo KGB em 1959, recebendo a oferta da Direção «C» da Primeira Direção Principal (inteligência estrangeira). A partir de agosto de 1959, foi submetido a um treino especial no programa de inteligência ilegal, a sua especialização era o alemão e o dinamarquês. Em outubro de 1962, foi enviado à Dinamarca para adquirir a profissão de desenhador técnico.

Um agente ilegal é um produto absolutamente unico, levando anos e bastante esforço fisico, emocional e até material no arranjo e na preparação da sua “lenda”, isso é, da cobertura legal. Um agente desta classe nunca se apresentaria junto ao pessoal da CIA, pois iria definitivamente revelar a sua identidade e aparência física (naturalmente CIA iria produzir as fotos, ficar com impressões digitais, gravar a voz, etc.) Neste caso, toda e quaisquer, sua carreira futura como agente ilegal acabaria imediatamente e de uma forma permanente.

A fabricação de uma identificação falsa aos modos do KGB

No entanto, a biografia do Shadrin-Artamonov na mesma Wiki russa explica a situação real. Quem se apresentou junto aos americanos em 1966, na verdade foi Igor Kochnov, um oficial de contra-espionagem estrangeira da Primeira Direcção Principal do KGB, que usava como a cobertura legal a sua posição do jornalista da agência noticiosa soviética “AP Novosti”, que habitualmente servia de cobertura aos agentes do KGB dentro e fora da URSS. Kochnov realmente se casou com Svetlana, a filha de toda poderosa Furtseva, embora para isso teve que desfazer o seu proprio casamento, abandonando a esposa e uma filha menor. No entanto, Svetlana, anteriormente era casada, no seu primeiro casamento, com um camarada chamado Oleg Kozlov, filho de Frol Romanovich Kozlov, membro do Bureau Político do PCUS. 

Coronel ou major do KGB Igor Kochnov (? - 1988)

Na URSS, os divorcios dos membros da elite soviética eram bastante mal-vistos pelo regime, ao acontecer, atrasavam ou mesmo impossibilitavam a sua progressão na carreira dentro do Partido-Estado. Neste ótica, muito possivelmente, a sua tarefa de enganar os americanos era uma espécie da tarefa-obrigação, que Kochnov recebeu do KGB. Usando os pedaços da sua própria biografia, combinada com as biografias de outras pessoas, para fabricar uma identificação falsa, mas sólida, que realmente poderia enganar os americanos, que não tinham muitos meios dentro da URSS para verificar quem é quem dentro da elite político-partidária soviética. Além disso, existem índices do que Kochnov entregou ao CIA os nomes e as identidades de alguns agentes do KGB nos EUA, nomeadamente do oficial americano «Sasha», recrutado pelo KGB na Alemanha Federal.

O casamento notável de Svetlana Furtseva e Oleg Kozlov na presença do Brejnev, Mikoyan e Khrushev

Após ter sido re-recrutado pelo KGB, Artamonov-Shadrin, sob o pseudónimo de «Lark», alegadamente escreveu uma declaração ao Presidium do Soviete Supremo da URSS, a tinta vermelha [não se sabe porque], pedindo a clemência: “...Os anos que passaram desde a prática deste gravíssimo crime ensinaram-me uma dura lição. Eu não era um inimigo consciente e inveterado da minha pátria. Sem de forma alguma me eximir da responsabilidade pelo que fiz, peço que me deem a oportunidade de expiar a minha culpa e, se de alguma forma eu puder ajudar a minha pátria, regressar a casa”.

O agente do KGB Igor Kochnov permaneceu em Washington até setembro de 1966. O que perfeitamente pode ser verdade, ja que os “jornalistas” soviéticos da «AP Novosti» passavam longas temporadas nos EUA, sob a cobertura jornalistica e até com as bolsas da fundação Fulbright (ou seja, os americanos, de facto, financiavam, a formação dos agentes do KGB nos EUA), “Lark” passou uma grande quantidade de informações sobre a CIA e prometeu elaborar um relatório sobre os desertores e emigrantes russos com quem tinha trabalhado. Posteriormente, Moscovo recebeu de “Lark” uma grande quantidade de informações sobre a Marinha dos EUA, particularmente sobre a sua frota de submarinos. Mas KGB ficou alarmada com o facto de algumas das suas operações falharem. Moscovo tinha perdido a confiança em Artamonov e, em 1974, foi elaborado um plano para raptar “Lark” em Viena, à onde este seria atraído sob o pretexto de um encontro com o novo agente infiltrado do KGB nos Estados Unidos. Em 1975, Artamonov foi informado de que o seu perdão tinha sido finalmente aprovado. No grupo do KGB encarregue do seu rapto, aparentemente estava o nosso Igor Kochnov, o que faz todo o sentido, dado que a velha tática, aplicada por diversos serviços secretos, é usar os amigos e conhecidos para ludibriar a alerta natural dos agentes. Sob o pretexto de um encontro com um agente infiltrado do KGB, Artamonov-Shadrin foi atraído para Viena, drogado com clorofórmio, e levado algemado, num carro, até à fronteira austro-checa, pouco vigiada. Aí, o carro atolou na berma da estrada. Decidiu-se abandonar o carro e levar Artamonov consigo.

Do lado checoslovaco, uma equipa de Moscovo aguardava o grupo, liderado por Oleg Kalugin  (então chefe do Departamento «K» da Primeira Direcção Principal do KGB). Segundo a equipa do KGB, foi Kalugin quem, pela segunda vez, aplicou o tranquilizante ao Artamonov, depois disso este nunca mais recuperou a consciência. Quando uma médica checa, possivelmente do StB/KGB, desconfiada, quis examinar Artamonov, que estava inconsciente, o general, alegadamente, proibiu-a. A operação, minuciosamente planeada, se revelou um fracasso.

Acrescente-se que, de 1966 a 1970, Oleg Kalugin desempenhou as funções de chefe adjunto da residentura do KGB em Washington e, a partir de 1970, de chefe adjunto da Direção «K» da Primeira Direção Principal do KGB. Desde 1973, chefiava a Direcção «K». Segundo alguns historiadores e veteranos do KGB, a operação para levar Artamonov à URSS não poderia ter falhado, mas fazê-lo colocaria Oleg Kalugin em risco de ser descoberto [segundo teorias de conspiração desde 1959 Oleg Kalugin era um agente da CIA]. Os atuais serviços secretos russos desconfiam, neste âmbito, que ele próprio realizou a operação e fez tudo o que estava ao seu alcance para impedir que Artamonov chegasse vivo ao Moscovo.

A 30 de dezembro de 1975, o Cônsul-Geral dos EUA em Moscovo, Clifford Gross, visitou o departamento consular do Ministério dos Negócios Estrangeiros da URSS, declarando que “o cidadão norte-americano Nicholas George Shadrin encontrou-se com dois funcionários soviéticos em Viena no dia 20 de dezembro, após o que desapareceu sem deixar rasto...” Em resposta, Gross foi informado que “em dezembro de 1974, Shadrin contactou a embaixada soviética em Viena com um pedido para regressar à União Soviética, mas não compareceu no encontro combinado”. Vladimir Kryuchkov, o chefe da Primeira Direção Principal do KGB, ficou, apesar de tudo, satisfeito com os resultados da operação. Oleg Kalugin, o chefe da contra-espionagem estrangeira do KGB, foi condecorado com a ordem militar “Bandeira Vermelha”.

No seu livro “Adeus Lubyanka” o próprio Kalugin conta que KGB estava desconfiar que Artamonov-Shadrin era agente duplo, da CIA e do KGB. Para isso, num determinado momento ele foi atraído ao Canadá, onde KGB, segundo Kalugin, tinha um agente no departamento de Contra Inteligência da Polícia Real Montada do Canadá (RCMP). No decorrer do jogo operativo, o agente “Lark” veio ao Canadá sob o pretexto do que funcionário da Direcção de Inteligência Ilegal do KGB queria reunir-se com ele em Montreal. Quando “Lark” chegou ao Canadá, o FBI informou o RCMP sobre ele e pediu-lhes que monitorizassem a sua presença no país. O relatório do RCMP, que o agente do KGB fez chegar ao Moscovo afirmava que o “Lark” estava sendo seguido e acompanhado por agentes americanas. Os responsáveis do KGB ficaram furiosos com esta «traição dupla», pois tinham providenciado que o seu filho frequentasse a Academia Militar soviética, mantendo as condições favoráveis para a família e prometendo o perdão no regresso à URSS.

O livro «Adéus Lubyanka» do Oleg Kalugin

Desta forma KGB decidiu executar a sentença de morte que fora imposta ao Artamonov em 1960. “Lark” foi convidado a encontrar-se na Áustria para receber formação em radiocomunicações, com o objectivo de, posteriormente, o entregar a um agente ilegal do KGB nos Estados Unidos. No dia do encontro com o tal agente, colocaram-lhe uma máscara de clorofórmio na cara, aplicaram-lhe uma injeção de sedativo e levaram-no em direção à fronteira com a Checoslováquia.

O artigo no The New York Times «Died of Soviet Defector and Spy», Novembro de 1993

Na versão do Kalugin “descobriram que tinha morrido de insuficiência cardíaca aguda, incapaz de suportar o stress”. O seu corpo foi levado num avião especial do KGB a Moscovo, onde o próprio chefe da 4ª Direcção Principal do Ministério da Saúde da URSS, o famoso «médico do Kremlin», Evgeny Chazov, confirmou o diagnóstico inicial. Uma autópsia, alegadamente, revelou que «Lark» tinha desenvolvido câncro/câncer renal e não lhe restava muito tempo de vida. Foi sepultado sob um nome letão num dos cemitérios da cidade de Moscovo. O desaparecimento de Artamonov-Shadrin causou grande agitação no Ocidente, com a sua esposa Bianca Chadrin, advogados e funcionários do governo a exigirem explicações públicas sobre o seu destino, tanto do lado americano, como do soviético. Além de Kissinger e Brzezinski, o Presidente Ford interveio na questão, enviando uma mensagem a Brejnev. Questionado por Ford sobre o paradeiro de Artamonov, Brejnev respondeu: «Nós próprios gostaríamos de saber onde está agora». Assim terminou a saga do agente duplo, cujo nome gerou paixões, acusações mútuas e recriminações durante quase dois anos. O jornal soviético «Literaturnaya Gazeta» publicou um artigo de propagandista Genrikh Borovik sobre o assunto, intitulado “Os cavalos cansados são abatidos, certo?” O título sugeria, de forma bastante clara, que Artamonov-Shadrin foi morto não pelo KGB, como aconteceu na realidade, mas pelo «Ocidente».

«O fim do ´Lark´», texto baseado nas memórias do Oleg Kalugin, «Moscow News», 1994

«A vida e a morte do agente duplo», jornal «S.Petersburg Vedomosti», 1993

O Major-general Oleg Kalugin denunciou os crimes do KGB, publicamente e pela primeira vez ainda em 1990. Perdeu a sua patente de general em junho de 1990, pela Resolução do Conselho de Ministros da URSS, mas foi plenamente reintegrado pelo Decreto do Presidente da URSS, de 31 de agosto de 1991. Em 1995, deixou a Rússia rumo aos Estados Unidos, e em 2002, na federação russa, foi condenado à revelia por “traição” e sentenciado aos 15 anos numa colónia penal de segurança máxima. Por decisão do Tribunal civil da Cidade de Moscovo, foi destituído da sua patente militar, retirada a pensão e vinte e duas condecorações estatais soviéticas. O presidente russo putin e vários oficiais dos serviços de secretos russos e soviéticos chamaram Kalugin de traidor. Apesar de que no tribunal não foram apresentadas as provas fatuais da sua suposta «traição» e acusação se basear, unicamente, no facto de general denunciar os crimes do KGB sovietico, praticados durante a vigência do regime sovietico, isso é, antes de 1991.

Do lado americano, em 13 de dezembro de 2019, o Diretor da DIA, Tenente-General Robert Ashley Jr., inaugurou uma placa no “Muro dos Patriotas” da DIA em memória e reconhecimento das contribuições de Nicholas G. Shadrin. Um comunicado subsequente do Departamento de Assuntos Públicos da DIA aclamou Shadrin como um “Herói da Guerra Fria”. 

O diretor da Agência de Inteligência de Defesa, Tenente-General Robert Ashley Jr., presenteia a Dra. Blanka Shadrin com um desenho de seu marido, Nicholas Shadrin, após a inauguração de sua placa no Memorial dos Patriotas da DIA (Foto cortesia da DIA), 2019

O Contra-Almirante na reforma, Tom Brooks, da Marinha dos EUA, no seu texto: «O enigma de Nick Shadrin… O último desertor soviético da ONI» escreveu a seguinte passagem: 

A nova geração de profissionais de inteligência se orgulhou do reconhecimento dado a um dos heróis desconhecidos da DIA, que fez o sacrifício supremo em defesa da nação. Embora alguns veteranos da inteligência aposentados tenham ficado surpresos com isso, a grande maioria ficou encantada e aplaudiu a coragem do Tenente-General Ashley em dar um desfecho substancial ao caso Shadrin após mais de quatro décadas, e com a presença de Blanka Shadrin. Ela ficou muito satisfeita que, depois de tantos anos, o reconhecimento tenha sido justamente concedido pela DIA como a agência que se manifestou e reconheceu a contribuição de Shadrin. Como gesto de gratidão, ela entregou ao Historiador-Chefe da DIA o cartão que Shadrin lhe dera na noite de seu desaparecimento, que continha os dois números de telefone para contato que ela deveria ligar “se algo desse errado”. Blanka carregou esse cartão em sua bolsa por 44 anos!

Por sua vez, Norman Polmar, que no início da década de 1970 era um consultor contratado do Dr. N.F. (Fred) Wikner, assistente especial do Secretário de Defesa, e do Contra-Almirante Earle F. (Rex) Rectanus, o Diretor de Inteligência Naval dos EUA, tem a seguinte memória do Nicholas Shadrin, à quem conheceu pessoalmente: 

Algumas pessoas ainda acreditam que ele era “bom demais” para ser o que parecia ser. Acredito que posso afirmar ter sido amigo de Nick Shadrin — ou Nickolai Fedorovich Artamonov — embora por um período muito breve. E, para usar uma expressão popular, “ele era um cara legal”.