terça-feira, março 10, 2026

O primeiro Taras Shevchenko em África

Ocorreu um acontecimento histórico na República do Botswana: naquele país foi erguido o primeiro monumento ao poeta-mor da Ucrânia, Taras Shevchenko, no continente africano, informou o ministro dos NE/RI da Ucrânia, Dr. Andrij Sybiha. 

Fonte: threads.com/@anastasia_elenok

A inauguração do monumento decorreu na maior instituição de ensino do país, a Universidade do Botswana, com a participação da direção, professores, estudantes, corpo diplomático estrangeiro, comunidade ucraniana e jornalistas. 

O monumento foi criado em bronze botsuano pelo escultor Franois Koteze. Durante a cerimónia, o Decano da Faculdade de Ciências Humanas, Tapelo Otlokhetswe, leu a sua própria tradução do «Testamento» para a língua nacional do Botswana, o setswana. 

Existem 1.384 monumentos ao Taras Schevchenko, conhecido como «Kobzar» no mundo, a maioria na Ucrânia, mas 128 estão em 35 outros países. Agora, o primeiro Estado africano, o Botswana, junta-se a eles.

Monumento do Shevchenko metralhado pelos ocupantes russos em Bucha, 2022

Estou grato à Diretora do nosso Departamento de África e Organizações Regionais, Lyubov Abravitova, ao Embaixador da Ucrânia no Botswana, Oleksiy Sivak, e à equipa da embaixada pela implementação desta importante iniciativa, à direção da Universidade do Botswana pela sua cooperação e à nossa comunidade pela sua preocupação. O primeiro Kobzar em solo africano representa a universalidade das ideias de Shevchenko, a intemporalidade das suas palavras e o poder do seu pensamento, que ao longo dos séculos uniu o povo ucraniano e o mundo inteiro em torno dos valores universais da liberdade, da justiça e da identidade nacional, - escreveu o ministro na sua página do Facebook.

Testamento, poema do Taras Shevchenko (1814-1861) 

Quando eu morrer, me enterrem

Na minha amada Ucrânia,

Meu túmulo ficará sobre um monte elevado grave

Em meio à planície se espalhando,

Assim como os campos, as estepes sem limites,

A margem que mergulha do Dnipro.

Meus olhos já podem ver, meus ouvidos ouvem

O rugido poderoso do rio.

 

Quando da Ucrânia

lançado será ao mar azul profundo

o sangue dos inimigos

Então, eu vou deixar

Esses montes e campos férteis

e voar para longe

Para a morada de Deus,

E então eu irei rezar.

Mas até esse dia

Eu nada saberei de Deus.

 

Depois de me enterrar, levantem-se

E rasguem as grilhetas que nos prenderam,

lancem na água o sangue dos tiranos

e comemorem a liberdade

que conquistarão.

E na grande família nova,

A família do livre, do Justo e do Fraterno,

Com fala mansa, e palavras amáveis,

Lembrem-se também de mim.

Tradução livre por Jaime Leitão (com algumas correções do nosso blogue)

É de recordar, que em abril de 2025, a estudante russa de 19 anos, Daria Kozyreva, foi condenada a 2 anos e 8 meses de prisão por ter colado um pedaço de papel com o poema «Testamento» no monumento de poeta ucraniano Taras Shevchenko em São Petersburgo.

Foto: VK da Daria Kozyreva


O surgimento do regime teocrático do Irão em preto no branco

Manifestação a favor da principal figura da oposição, o aiatolá Kazem Shariatmadari. Tabriz, Irão,1980. © Gilles Peress | Fotos de Magnum

As fotografias do lendário fotógrafo Gilles Peress, tiradas no Irão em 1979. Estas imagens são completamente diferentes de tudo o que já viu, mostrando as condições em que este regime teocrático surgiu há 47 anos. 

Manifestação num estádio. Tabriz, Irão. 1979. © Gilles Peress | Magnum

Ruas do Azerbaijão iraniano. 1979. © Gilles Peress | Fotos de Magnum

Apoiantes da oposição, aiatolá Kazem Shariatmadari. Azerbaijão iraniano. 1979.
© Gilles Peress | Fotos de Magnum

Em 1979, ocorreu a revolução islâmica no Irão. O Xá Mohammad Reza Pahlavi foi forçado à abandonar o país, um governo provisório assumiu o poder e, posteriormente, foi proclamada uma república islâmica. Em novembro do mesmo ano, os «estudantes» iranianos afiliados ao novo regime invadiram a embaixada dos EUA em Teerão e fizeram reféns americanos. 

Agentes do serviço secreto real, Savak, em julgamento na prisão de Evin.
Teerão, Irão. 1979. © Gilles Peress | Fotos de Magnum

Mãe e filho. Qom, Irão. 1979. © Gilles Peress | Fotos de Magnum

Mercado de armas. Curdistão iraniano, 1979. © Gilles Peress | Magnum

Foi então que o fotógrafo francês Gilles Peress chegou ao Irão. Nas suas fotografias para o livro «Telex Iran: In the Name of Revolution», captou o momento e as condições em que o atual regime islâmico estava a emergir. Peress trabalhou durante cinco semanas, e as suas fotografias não contam uma história específica, nem analisam as causas da revolução. Em vez disso, transmitem a atmosfera geral de tensão e violência que pairava no ar.

Viciados no bairro de Gumruch. Teerão, Irão, 1979. © Gilles Peress | Magnum

O clero apresenta queixas ao governo do novo regime.
Azerbaijão iraniano. 1979. © Gilles Peress | Fotos de Magnum

Não é claro se o Irão sobreviverá à atual Guerra do Golfo, que eclodiu no final de fevereiro de 2026. O futuro da república islâmica está em jogo — por isso publicamos as fotografias de Peress. Para mostrar as condições em que este regime teocrático surgiu há 47 anos.

Mais fotos do Gilles Peress

domingo, março 08, 2026

A guerra de memes chegou nos EUA aos drones ucranianos

Os utilizadores de redes sociais nos Estados Unidos começaram a criar ativamente os memes após o surgimento da notícia do interesse americano em drones intercetores, desenvolvidos pela Ucrânia, informa o grupo OSINT ucraniano InformNapalm Espanol/Português.







Os drones ucranianos P1Sun (cujo nome também pode ser traduzido como pica, o que, por sua vez, deu à origem aos vários outros memes, desta vez na Ucrânia), concebidos para destruir drones russos, têm-se revelado uma solução muito mais barata e eficaz contra ataques massivos com drones, algo que já atraiu a atenção de vários países.

As lindas e charmosas iranianas nas páginas da revista «Vogue»

Em 1969, Henry Clarke, um fotógrafo de moda, foi ao Irão para tirar uma série de fotos para a revista «Vogue». Ele fotografou suas modelos nas mesquitas e palácios em Teerão, Isfahan, Shiraz e Persépolis. As fotos foram publicadas na «Vogue» em dezembro de 1969.












Esta edição da «Vogue» também incluiu uma foto da Rainha Farah Pahlavi (atualmente de 87 anos de vida) com um vestido inspirado na tradição balúchi de «Souzandoozi», um anúncio da Iran Air promovendo seu serviço de voos de Londres (e outros pontos da Europa) para Teerão e algumas fotos da elegante loja de Vida Zahedi em Teerão, «Number One Avenue Sanieddoleh», na página regular de Boutiques da «Vogue». 


Infelizmente, apenas 10 anos depois o poder no país caiu nas mãos de uma ditadura teocrática protofascista. As forças mas retrógradas e menos evoluídas da sociedade ocuparam o poder, censurando e proibindo as coisas tão banais como a música ocidental e as cantoras femininas, erradicando os animais domésticos / pets ou mesmo as gravatas, consideradas pelo regime dos ayatollah como um símbolo da «opressão ocidental».

Fonte

sábado, março 07, 2026

Mais um crime de guerra russo em Kharkiv: míssil russo atinge os civis

Em Kharkiv, os ocupantes russos atacaram um prédio residencial de cinco andares com um míssil. Vários apartamentos foram destruídos e 11 civis ucranianos morreram, incluindo uma criança. Muitas outras estão soterradas nos escombros.


 

Os ocupantes e neofascistas russos que costumam chamar Kharkiv de «uma cidade russa», agora está matando deliberadamente seus moradores enquanto na calada da noite. Porque não lhes resta nada — a frente de batalha está estagnada e sua tentativa de infligir mais um genocídio, usando o frio de inverno fracassou.

Por que razaão os russos estão bombardeando Kharkiv com mísseis de cruzeiro? Por que apostam em mais um massacre sem sentido de civis, desprovido de qualquer explicação militar?

Não existe uma explicação racional. Apenas uma explicação «espiritual e mística».

Os ocupantes russos bombardeiam as cidades ucranianas simplesmente porque auto-consideram uma «raça superior», um «povo de Deus», na definição do Dostoevsky, que odeia muito sinceramente seus vizinhos por estes ousarem à se rebelar e não quererem fazer parte de seu império. Simplesmente porque os neofascistas russos sentem um prazer especial em matar os civis indefesos e adormecidos.

... e a resposta ucraniana

Um centro de preparação e lançamento de mísseis russo-iranianos Shaheed foi destruído perto do aeroporto de Donetsk, informou o Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia. As instalações russas foram atingidas por mísseis ATACMS e SCALP. Após o ataque, foram registrados um incêndio de grandes proporções e uma detonação secundária.

sexta-feira, março 06, 2026

A invasão e ocupação anglo-soviética do Irão: operação «Countenance»

Blindado T-26 soviético nas ruas de Tabriz. Foto: Wikipédia

Em agosto de 1941, a URSS e a Grã-Bretanha ocuparam conjuntamente o Irão. Os objectivos declarados da Operação «Coutenance» era garantir o fornecimento do programa Lend-Lease à URSS e impedir que o Irão caísse sob a influência da Alemanha nazi. O próprio país não foi consultado. 

Exército soviético nas ruas do Irão, agosto-setembro de 1941. Foto: Wikipédia

Após o início da guerra nazi-soviêtica (a Operação Barbarossa, junho de 1941), a União Soviética necessitava urgentemente de fornecimentos de armas, equipamento e alimentos, providenciados pelos Aliados ocidentais. Os EUA começaram a fornecer mantimentos no âmbito do programa Lend-Lease. O «corredor persa» tornou-se a rota principal e mais fiável.

O mapa da invasão. Imagem: Wikipédia

A 25 de agosto de 1941, as tropas soviéticas invadiram o Irão pelo norte (pela Transcaucásia e pela Ásia Central) e as britânicas pelo sul (pelo Iraque e Golfo Pérsico). O exército iraniano ofereceu uma resistência limitada. Segundo os dados oficiais, na operação morreram entre 40 à 50 militares soviéticos, mais, cerca de 1.000 ficaram feridos e doentes; as forças britânicas tiveram 64 mortos e feridos, também morreram cerca de 800 iranianos. Em meados de setembro, a operação estava concluída. 

Blindado soviético T-26 e blindado ligeiro Ba-10 no Irão,
Setembro de 1941. Foto: Wikipédia

Reza Shah Pahlavi foi obrigado a abdicar ao trono. O seu filho, Mohammad Reza Pahlavi, assumiu o poder. O país manteve formalmente a sua independência, mas, na prática, encontrava-se sob o controlo dos Aliados.

Em janeiro de 1942, foi assinado um tratado trilateral (URSS–Grã-Bretanha–Irão), que confirmou a integridade territorial do Irão e prometeu a retirada das tropas após a guerra.

Pelo Irão passaram cerca de 4 à 5 milhões de toneladas de carga: milhares de tanques, aviões, automóveis, alimentos e materiais estratégicos. O «corredor persa» tornou-se uma artéria vital para a frente soviética, especialmente em 1942–1943.

A guerra na Europa terminou em maio de 1945. A Grã-Bretanha começou a retirar as suas tropas. A URSS, naturalmente, não honrou o seu compromisso assumido.

No norte do Irão (Azerbaijão e Curdistão), foram criadas as duas «repúblicas populares», instigadas, financiadas e apoiadas pela União Soviética: a república democrática do Azerbaijão (Azerbaijão do Sul com a capital em Tabriz) e a República de Mahabad (territórios curdos).

O governo iraniano foi impedido de enviar as tropas à região, porque o exército vermelho estava estacionado naquela zona. As potências ocidentais interpretaram isto como uma tentativa da URSS de ganhar influência no Médio Oriente e obter o controlo do petróleo iraniano.

O Irão apelou à recém-criada ONU, e os EUA adoptaram uma postura firme. O Presidente Truman deixou claro que um avanço soviético adicional para sul poderia causar um conflito sério. Foi um dos primeiros casos em que a questão foi levada ao nível da ONU como uma crise internacional.

BD / quadrinhos «A Glória Recuperada» (publicado em 1974, ilustrado por Dino Attanasio)
 relata a versão oficial da história do Irão pós-II G.M. até ao início da década de 1970.
A página dedicada à invasão anglo-soviética do Irão.

Na primavera de 1946, a URSS finalmente aceitou retirar as suas tropas. O governo iraniano enviou o exército para as províncias do norte. As ditas «repúblicas populares» foram liquidadas. O líder do «Azerbaijão democrático» Ja´far Pishevari fugiu para a URSS e foi liquidado pelo NKVD, num «acidente de viação», já o líder de Mahabad, Qazi Muhammad e alguns dos seus familiares / apoiantes foram executados, acusadas de traição, pelas autoridades iranianas.

Bónus

Os usos e costumes da sociedade iraniana antes da instalação da ditadura teocrática de 1979...