Os jornalistas ucranianos identificaram o médico russo que torturava, humilhava, abusava e recusava a assistência médica aos prisioneiros de guerra ucranianos (POW) na Colónia
Penal nº 7, na vila de Pakino, na região russa de Vladimir.
Os jornalistas de «Schemes» e OCCRP identificaram o médico russo, que segundo os próprios ex-POW — tanto militares, quanto civis ucranianos — com alcunha/apelido de «Konoval», os submetia a constante tortura física,
emocional e psicológica.
Os interlocutores dos jornalistas disseram que medico russo os obrigava a se despir, simular atos sexuais, fazia comentários sobre seus genitais, os ameaçava de estupro ou exigia
o sexo homossexual.
O «Schemes» cita depoimentos de ex-POW ucranianos sobre aquele homem:
- «Ele se aproximava e imitava os movimentos como se fosse estuprar os prisioneiros»;
- «Esse médico dizia: 'Mostre-me, tire sua cueca. Oh, que linda cabeça de pênis você tem.'»
- «Era o médico que obrigava [os POW] de andar nus. Ele também ameaçava os estuprar.»
«Além disso, «Konoval» negou os cuidados médicos necessários, o que, segundo ex-POW ucranianos levou, em determinado momento, a um surto de sarna, uma doença
parasitária da pele, na colónia penal. De acordo com um ex-POW, quando pediram ajuda médica, o médico disse que «queria que sofrêssemos».
No total, a publicação «Schemes» entrevistou aproximadamente 50 ex-POW ucranianos da Colónia Penal nº 7 de Vladimir. Com base em seus depoimentos, os jornalistas apuraram
que «Konoval» é Vyacheslav Cherdantsev, de 48 anos, que trabalha na colónia há mais de dez anos.
Cherdantsev é um russo etnico e natural do Quirguistão. Ele começou a trabalhar no sistema prisional daquele país da Ásia Central. Um de seus primeiros empregos
foi num centro de detenção juvenil. Em 2013, o médico mudou-se para a região russa de Vladimir e começou a trabalhar em um orfanato, sendo posteriormente transferido para a Colónia
Penal nº 7.
Foram encontradas fotografias desse médico, tiradas em 2023. Cerca de 30 ex-prisioneiros entrevistados por jornalistas viram as fotos e afirmaram que o homem na imagem «se parecia»
com Konoval. Outros dez afirmaram reconhecê-lo como o médico que os havia torturado.
O próprio Cherdantsev não respondeu a diversas ligações e mensagens solicitando comentários. Nem o administrador da Colónia Penal nº 7, Yury Fomin,
nem o Serviço Penitenciário Federal da rússia responderam aos pedidos de comentários.
Jornalistas e ativistas de direitos humanos publicam regularmente depoimentos de ex-POW ucranianos. Segundo eles, a rússia criou um sistema de prisões e centros de detenção
especificamente para ucranianos presos — tanto militares quanto civis. Ao todo, em abril de 2025, eram conhecidos mais de 180 locais de detenção na rússia e nos territórios temporariamente
ocupados (TOT) da Ucrânia.
A Procuradoria-Geral da Ucrânia, juntamente com investigadores do SBU, com o apoio operacional do Departamento de Investigação Criminal da Polícia Nacional e a assistência
do SBU, apresentou uma queixa formal à revelia contra Vyacheslav Cherdantsev — identificado pela Rádio Liberdade como médico da Colónia Penal nº 7 na aldeia de Pakino, região de
Vladimir, na federação russa, apelidado de «Konoval» — por suspeita de violação das leis e costumes de guerra, devido ao tratamento cruel e violência sexual de várias
formas contra prisioneiros de guerra encarceradas na sua instituição.
Segundo depoimentos de vários ucranianos libertados, Cherdantsev era por vezes acompanhado durante os atos da tortura pelo guarda diurno da colónia, um prisioneiro russo, cuja
identidade os jornalistas também conseguiram identificar: tratava-se de Iaroslav Kirillov. Foi também formalmente indiciado.
O texto da acusação foi publicado no site da Procuradoria-Geral da Ucrãnia aos 10 de julho corrente. A acusação refere que Vyacheslav Cherdantsev, juntamente
com o vice-chefe de segurança e operações da Colónia Penalnº 7, Oleksiy Khavetsky (baseando-se nas informações do SBU, GUR e Polícia Nacional, foi formalmente indiciado
pela Ucrânia em 2025), o prisioneiro russo do delito comum, Iaroslav Kirillov e, posteriormente, com um funcionário do departamento de operações, Grigory Shvetsov (também indiciado em 2025), «devido
ao tratamento cruel sob a forma de tortura e cometendo outras violações das leis e costumes de guerra, usaram violência física e psicológica, e cometeram também outras ações
destinadas a abusar da dignidade humana, em particular, tratamento humilhante e insultuoso de vários militares ucranianos».