Ao longo dos quatro anos de guerra, as defesas antiaéreas ucranianas abateram aproximadamente 140.000 alvos e tornaram-se uma das mais sofisticadas e eficazes do mundo. Ucrânia
já enviou 200 conselheiros militares ao Médio Oriente/Oriente Médio para ajudar os aliados dos EUA a repelir ataques de drones e mísseis.
Mas, apesar destes resultados, Donald Trump rejeita publicamente a ajuda da Ucrânia. Entretanto, descobre-se que as forças americanas e aliadas estão a gastar milhões
de dólares para intercetar drones baratos e a cometer erros que os ucranianos aprenderam a evitar no início da guerra. O que os EUA e os seus aliados já estão a aprender com a Ucrânia é
descrito num artigo fascinante do The Times:
...A Força Aérea Ucraniana, que combina as capacidades ar-ar e terra-ar, provou a sua eficácia ao longo de quatro anos de guerra intensa. Abateu aproximadamente 140.000
alvos: mísseis, drones, bombas voadoras e aeronaves inimigas. Mais de 44.000 deles eram drones Shahed, que estão agora a atacar bases americanas no Médio Oriente.
No entanto, o presidente Donald Trump rejeitou a oferta de ajuda de Kyiv. «A última pessoa de quem precisamos de ajuda é Zelenskyy», disse em entrevista à NBC
News.
Justin Bronk, investigador sénior de aviação e tecnologia no Royal United Services Institute (RUSI), classificou esta posição como míope: «Ignorar
as capacidades profissionais da Ucrânia é míope e estrategicamente errado». A Ucrânia está, sem dúvida, entre os líderes mundiais na organização de comando
e controlo e na coordenação dos sistemas de defesa aérea.
Ucrânia possui um dos sistemas de defesa aérea mais sofisticados do mundo. Conseguiu integrar os sistemas soviéticos e da NATO, criando uma arquitetura em camadas que inclui
sistemas de guerra eletrónica, aviões de combate, helicópteros, sistemas de mísseis Patriot, drones intercetores e até metralhadoras simples de unidades móveis.
Apesar das declarações públicas de Trump, o Comando Central dos EUA (CENTCOM) solicitou especialistas ucranianos. De acordo com um oficial superior da Força Aérea
Ucraniana, já foram enviados para a região do Golfo Pérsico. Segundo Volodymyr Zelenskyy, aproximadamente 200 conselheiros militares ucranianos estão a trabalhar no Kuwait, Qatar, Emirados Árabes
Unidos e Arábia Saudita, ajudando a construir defesas contra mísseis e drones.
Os militares ucranianos, no entanto, ficaram surpreendidos com a escala e o custo da utilização dos sistemas americanos. De acordo com o responsável, nos países
do Golfo, até oito mísseis Patriot — cada um a custar mais de 3 milhões de dólares — foram disparados contra um único alvo, e até contra drones baratos.
Na Ucrânia, os militares explicam que um no máximo dois mísseis são geralmente suficientes para intercetar mísseis balísticos russos. No entanto, como
refere Bronk, a eficácia das intercepções tem variado à medida que a rússia aprimorou as suas tácticas.
Os dados das tripulações ucranianas de Patriot foram partilhados com os aliados. No entanto, de acordo com um responsável ucraniano, os EUA e os seus parceiros aparentemente
ignoraram os cálculos complexos que permitiram à Ucrânia melhorar a eficácia da intercepção: «Não compreendo o que têm feito ou o que têm observado durante
estes quatro anos enquanto estávamos a combater».
A 1 de março, três caças F-15E norte-americanos foram abatidos pelas defesas aéreas do Kuwait enquanto perseguiam drones — um incidente que chocou os ucranianos.
«Em qualquer guerra, há casos de 'fogo amigo', mas aqui estamos a falar de uma clara negligência», afirmou um oficial das Forças Armadas da Ucrânia.
Os analistas acreditam que a diferença nas abordagens se deve às tácticas: nas monarquias do Golfo, as tripulações dos Patriot abrigam-se, programando os
sistemas para o modo automático, enquanto os ucranianos continuam a fazer a gestão de fogo de forma manual.
«É extremamente difícil confundir um avião com um drone». Não é nada claro para onde os operadores estavam a olhar. «Os sistemas não
estão totalmente automatizados», observou o responsável. «O piloto não voa no vácuo — alguém o dirige, dá comandos e atribui tarefas».
De acordo com Zelensky, nos primeiros quatro dias da guerra com o Irão, os EUA e os seus aliados dispararam mais de 800 mísseis Patriot — aproximadamente mais 200 do que
a Ucrânia usou em três anos da guerra. Desde o início da invasão em grande escala, Ucrânia recebeu cerca de mil destes mísseis. Em 2024, a Lockheed Martin produziu 620 mísseis,
planeando aumentar a produção para 2.000 nos próximos sete anos.
«Disparavam frequentemente de forma imprudente», disse o responsável ucraniano. «Por exemplo, usaram mísseis SM-6 — excelentes sistemas antimíssil
que custam cerca de 6 milhões de dólares — para abater um Shahed de 70 mil dólares».
Os drones iranianos baratos já causaram milhares de milhões de dólares em danos aos EUA e aos seus aliados no Médio Oriente. Um radar de alerta antecipado AN/FPS-132,
avaliado em cerca de mil milhões de dólares, foi alegadamente danificado, assim como pelo menos um radar THAAD, avaliado em aproximadamente 300 milhões de dólares. Estes objetos eram facilmente
visíveis em imagens de satélite disponíveis ao público.
«Estiveram parados no mesmo local durante dois meses. Depois chegaram os Shahed — três drones por 70 mil dólares cada. E foi isso», disse um responsável
ucraniano. Nas guerras de alta intensidade, o custo importa — e proteger os sistemas mais dispendiosos torna-se uma prioridade fundamental.
Os militares ucranianos tornaram-se mestres na camuflagem e na manobra, especialmente no que diz respeito aos sistemas de defesa aérea. Estas competências foram desenvolvidas através
de erros graves nos primeiros anos da guerra. Agora, Kyiv está pronta para partilhar essa experiência.
As equipas ucranianas do Patriot também repensaram a utilização destes sistemas, transformando-os de uma ferramenta puramente defensiva numa ofensiva. A 13 de maio de 2023,
um oficial de controlo de combate de 35 anos com o indicativo de chamada «Matiory» abateu três aeronaves russas e dois helicópteros sobre a região de Bryansk. «Lançavam bombas planadoras
sobre Chernihiv do outro lado da fronteira, e ninguém podia fazer nada. Abater as próprias bombas era irracional — são armas baratas, mais baratas do que um carro usado, e cada míssil custa
milhões», disse. A solução racional era destruir os próprios veículos de lançamento — aeronaves caras.
A sua unidade deslocou uma bateria Patriot para mais perto da fronteira e montou uma emboscada numa zona considerada segura pelas aeronaves russas. Os ucranianos aprenderam a implantar e a
desmontar o sistema muito mais rapidamente do que as instruções americanas estipulavam — abrindo fogo e recuando antes de serem detetados.
Há outras lições também. Contra os mais recentes mísseis balísticos russos, que alteram a trajetória para mascarar o alvo, as equipas ucranianas
são obrigadas a desativar a orientação automática e a operar manualmente — muitas vezes intercetando nos segundos finais, quando o míssil está quase em posição.
Nenhum país se deve permitir ser complacente em matéria de defesa aérea, afirma o Coronel Kyrylo Peretyatko, comandante do grupo táctico de defesa aérea.
Aos 33 anos, recebeu o título de Herói da Ucrânia — a mais alta condecoração do Estado — depois de a sua equipa do NASAMS ter abatido 12 mísseis de cruzeiro em dois minutos,
protegendo uma instalação de importância estratégica.
«Ninguém cometeu o mínimo erro ou hesitou por um segundo que fosse — porque operar qualquer sistema de defesa aérea é um trabalho de equipa. Ouvi oficiais
a gritar pela rádio: 'Comandante, o céu está a arder, estamos a deitar tudo abaixo! '», recorda Peretyatko.
Segundo ele, a experiência da Ucrânia em organizar a defesa contra um vasto leque de ameaças pode ser útil para outros países: «Operações
e confrontos como os que estamos a viver atualmente na Ucrânia nunca foram vistos na história mundial. Esta é uma guerra completamente nova — e todos a estão a estudar».