1955, URSS. Graças à uma denúncia anónima foi descoberto um bordel usado por mais alta nomenklatura comunista soviética. A clientela era composta pelo Ministro da Cultura em funções, membros da Academia de Ciências, escritores, filósofos
e professores do marxismo-leninismo.
Na sua dacha (casa de campo) em Valentinovka, nos arredorres de Moscovo/ou, e no seu apartamento no centro de Moscovo/ou, o dramaturgo e poeta russo Konstantin Krivoshein — «Epstein de orçamento
limitado» — organizou um bordel para a mais alta nomenklatura soviética. Estudantes de teatro e das escolas de balé eram atraídas
com promessas de carreiras no Teatro Bolshoi e cunhas junto ao Ministério da Cultura. A clientela era composta pela nata da elite soviética: o Ministro da Cultura da URSS em funções, o Acadêmico
Georgiy Alexandrov (que tinha uma chave pessoal do dito apartamento), membros destacados da Academia de Ciências da URSS, escritores, filósofos e professores.
Todos usavam os códigos de disfarce: «dissertação» (a tese académica) significava uma moça/garota, «defender a dissertação»
significava seduzi-la e «escrever uma resenha» significava revender os seus serviços aos terceiros. Um traço interessante, pois tem a total semelhança com os códigos próprios usados
pelo bando, não tenho outro nome, do Jeffrey Epstein. Onde os termos como «pizza», «Creme Soda» ou «comida chinesa», significavam, por exemplo, diversos tipologias raciais/étnicas de mulheres
/ moças usadas e abusadas pelo grupo.
A revelação começou com uma carta anónima de uma mãe indignada ao Khrushchev. Numa reunião do Comité do partido comunista de Moscovo/ou, Nikita
Khrushchev passou um longo tempo gritando com os culpados, para depois se dirigir ao crítico literário e diretor do Instituto de Literatura Mundial da Academia de Ciências da URSS, Alexander Egolin:
«Aleksandrov é um jovem, eu entendo. Mas por que você está se envolvendo nisso com a sua idade?»
A resposta entrou para a história:
«Mas eu não fiz nada, eu somente estava acariciando...» Egolin disse isso em russo: «ya tolko gladil». O povo «maldoso» criou a piada baseada no trocadilho
entre o verbo russo e o gládio romano, assim nasceu o nome popular do escândalo — «o caso dos gladiadores».
Perseguição das testemunhas
Já após o início das averiguações, no arquivo da Procuradoria de Moscovo foi «descoberta» uma outra denúncia, da autoria de Zinaida Lobzikova,
a instrutora de cultura do Conselho Municipal de um dos bairros de Moscovo/ou. Ela implorava pelo resgate de sua filha, Alina, estudante de balé, do covil clandestino do Krivoshein. A jovem sofria de um colapso nervoso e foi mantida
à força e contra a sua vontade na dacha do predador. Zinaida Lobzikova foi posteriormente atacada por «desconhecidos» e morreu no hospitalalgumas semanas depois.
Crime e «punição»
Tal como no caso Epstein, a justiça comunista soviética foi bastante selectiva, no momento de punir os culpados.
Dramaturgo Krivoshein foi condenado à prisão, mas não por auxílio à prostituição e gestão de um bordel clandestino, mas por especulação
e comércio ilegal de pinturas antigas. A condenação acabou, definitivamente, com a sua carreira literária. Ao ponto de Wikipédia russa não saber nem a data, nem o local, nem as circinstâncias
da sua morte.
Ministro da cultura Georgy Alexandrov perdeu o seu posto e foi «exilado» para Minsk, onde continuou seus estudos em filosofia marxista-leninista.
Académico Alexander Egolin foi rebaixado do seu posto na Academia de Ciências e foi lembrado, na história, pela sua perseguição implacável aos escritores soviéticos, por menor traço de qualquer dissidência.
Após sua morte, o genial escritor da literatura infanti, ucraniano Korney Chukovsky escreveu no seu diário: «Egolin morreu — um completo canalha, um bajulador e — ao mesmo tempo — um tolo
sem talento».
Vladimir Kruzhkov, membro da Academia de Ciências da URSS e membro da Comissão de Revisão do Comitê Central do PCUS, foi exilado à região de Ural, como editor-chefe
do jornal regional de Sverdlovsk «Uralsky Rabochiy». No entanto, ele recuperou, dentro de um tempo relativamente curto a influência perdida e de 1961 a 1973 foi o Diretor do Instituto de História da Arte do Ministério da Cultura
da URSS.
O vice-diretor do Instituto de Literatura Mundial de Moscovo, professor Sergei Petrov escapou da estória sem nenhuma perda de posição ou estatuto e já em 1957 defendeu a sua
sua tese de doutoramento. Tal como Sergey Kaftanov, que manteve a sua posição do Primeiro Vice-Ministro da Cultura da URSS. Chegou à exercer as funções de Ministro da Cultura interino da
URSS.