Cronicamente falida desde os meados da década de 1960, a agricultura soviética entrou num abismo no início da década de 1980. A URSS anualmente comprava o trigo
nos EUA e Canadá, chegando à envolver o KGB na produção da carne, bastante escassa no menú quotidiano do cidadão comum.
No final de 1980, a liderança soviética adotou a Resolução nº 1032 do Comité Central do PCUS e do Conselho de Ministros da URSS, de 14 de Novembro de
1980, que pretendia alcançar o aumento sistemático da produção de carne e outros produtos agrícolas, documento intitulado «Sobre o aperfeiçoamento do planeamento e o estímulo
económico da produção e aquisição de produtos agrícolas».
A economia soviética, marcada pela exportação de hidrocarbonetos e pela produção de armamentos, destinados aos regimes amigáveis,
desde a Cuba à Sri-Lanka, tentou e implementação da assim chamada «conversão da produção militar». As colossais capacidades da indústria bélica soviética
deveriam ser utilizadas para fins pacíficos, o que era especialmente relevante num contexto de défice alimentar aguda. Verificou-se que os processos semelhantes também ocorreram no KGB, chamado na URSS
de «baioneta do partido». KGB mostrava-se cooperante, pretendendo comprovar o seu alinhamento no espírito geral.
Assim, em março de 1982, o chefe do KGB ucraniano, general Vitaly Fedorchuk, informava o governo da Ucrânia soviética sobre a organização de uma criação de suínos, instalada
numa base de contra-espionagem radiofónica.
«Os comunistas, toda a equipa do Comité de Segurança do Estado da Ucrânia, com profundo conhecimento e responsabilidade pela criação de uma instalação
lucrativa de engorda de suínos, darão o seu modesto contributo para a implementação do programa alimentar dileneado pelo XXVI Congresso do PCUS», lia-se no documento, dirigido ao chefe do
Partido Comunista da RSS da Ucrânia, Volodymyr Shcherbytsky.
O diabo, como se sabe se esconde nos detalhes. Assim mesmo aconteceu com a criação de suinos do KGB. A própria instalação custou 341.000 rublos (cerca de
566.966 dólares ao câmbio oficial soviético da época) e tinha a capacidade de ingorde para 250 porcos por época (500 cabeças anuais). A carne deveria ser entregue ao Estado, com a excepção
de «uma parte insignificante», que seria vendida aos «funcionários, operários e serventes [do KGB], nos dias festivos e através da cantina do Voentogr» (o sistema do comêrcio militar soviético, que também servia o KGB).
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| O relatório do KGB, dedicado aos porcos. 11-março-1982 |
Para engordar, os porcos precisam de comer, como tal, KGB os alimentava com a ração composta, que recebia do Estado soviético. Só que a ração não
era tão nutritiva e gostosa, ao ponto de alegrar os porcos de uma forma aceitável. Por isso, KGB ucraniano criou e implementou um esquema próprio, em que recolhia os restos alimentares nas «cantinas,
hospital, créches e residências», onde viviam os funcionários do KGB. Estes restos cobriam as necessidades alimentares dos porcos, em «até 30-40%». Significa que KGB alocou ao serviço
da recolha dos restos alguma(s) viatura(s), seguramente teve que pensar nos recepientes, encarregar os funcionários de transportar e armazenar os restos, etc.
Percebendo que os restos de comida dos camaradas agentes não é, nem pode ser uma fonte alimentar segura para os 250 porcos famintos, KGB solicitou ao Comité Executivo de
Kyiv, a atribuição de um terreno de 50 hectares da terra, para a plantação e cultivo de «alfafa, trevo, raízes e outras culturas forrageiras». por sua vez, o cultivo de plantas
precisaria de um sistema de regadio. Para o tal, os operativos do KGB pretendiam usar as águas de um reservatório próximo. No entanto, isso siginicava, além de compra ou a fabricação
do próprio sistema do regadio, também as obras de limpeza do reservatório e do criação das instalações de hidromelioração. Mais gastos para o Estado soviético,
embora o KGB era modesto e pedia somente 100.000 rublos (170.000 dólares).
Mas o problema principal residia na chamada economia de escala. Para que o empreendimento seja economicamente rentável, a sua capacidade de produção deveria se situar nos
1.500-2.000 porcos por ano, ou seja, de 3,5 à 4 vezes mais, do que o projeto implementado. O que accaretava mais custos, mais equipamentos e mais instalações: o novo curral, um armazém de rações,
a garagem de maquinaria, a «maternidade» para leitões recém-nascidos, o ampliação do sistema de aquecimento, entre várias outras coisas. O verdadeiro desafio proto-capitalista,
dentro de um emprendimento socialista. Seguramente, os camarades KGBistas não estavam preparados para isso, nem foram instruídos sobre os procedimentos à adotar nas aulas do Curso Superior do KGB da URSS em Kyiv.
A compra dos equipamentos agrícolas e a condução das obras custavam dinheiro, valores que rondavam a soma módica de 790.000 rublos (1.340.000 dólares). KGB
ucraniano não possuia autonomia para obter estes fundos, por isso encaminhou o pedido ao KGB da URSS, em Moscovo e preparava-se para receber a aplicar os valores no biénio de 1982-83. No entanto, as obras iniciais
deveriam arrancar ainda em 1982 e custariam aos cofres do KGB, isso é, do Estado soviético «somente» 534.000 rublos (905.000 dólares)...
***
Não se sabe ao certo até que ponto realmente avançou o projeto da «suinicultura do KGB». Mas os ventos da história não eram nada favoráveis
aos porcos da secreta soviética.
Em 10 de novembro de 1982 morre Leonid Brejnev e os dinosáurios do CC do PCUS começam a sua derradeira «corrida de casamatas». O poder fica nas mãos do estalinista
assumido Iúri Andropov, ele próprio ex-chefe do KGB com algumas ideias oportunistas de «liberalização estalinista» de economia soviética. O seu homem de confiança, Fedorchuk é levado de
Kyiv ao Moscovo, onde assume o comando do KGB soviético em 26 de maio de 1982, substituindo próprio Andropov, embora fica em funções durante apenas sete meses até 17 de dezembro de 1982.
Andropov morre rapidamente depois, em 9 de fevereiro de 1984 é seguido pelo bastante senil Konstantin Chernenko, que morre ainda mais rápido, aos 10 de março de 1985. Depois o poder é entregue ao «jovem» Mikhail Gorbachev, de «apenas» 54 anos, que quase imediatamente começa a Perestroika, mudança
do regime, que, objetivamente, facilitou a queda da do «império do mal», a da União Soviética.
Mas isso é uma outra história.
Fonte: Arquivo estatal do SBU, agradecimentos especiais ao historiador ucraniano Eduard Andrusenko