Aos 14 de outubro de 1964, a URSS viveu o único «golpe palaciano» bem-sucedido da história soviética. Nesse dia, o Plenário do Comité Central
do PCUS destituiu oficialmente Nikita Khrushchev de todos os altos cargos governamentais e partidários. O homem que tinha quebrado a espinha dorsal da máquina repressiva de Estaline tornou-se vítima de
uma conspiração da nomenklatura do partido.
Até 1964, Khrushchev tinha conseguido antagonizar absolutamente todas as instituições de poder, classes e grupos da sociedade civil soviética.
Os militares não conseguiam perdoá-lo pelo aventureirismo nuclear da Crise dos Mísseis de Cuba e pela redução impiedosa do exército, que resultou no
corte e destruição da marinha e forças aérea, na demissão de milhares de oficiais do exército sem direito a uma reforma.
A intelectualidade estava cansada de suas repreensões e intervenções absolutamente analfabetas e imprevisíveis, que Khruschev costumava usar em exposições
de belas artes.
As pessoas comuns enfrentavam enormes filas para comprar simples pão devido ao fracasso da sua opção absolutamente obsessiva pela plantação de milho, das
experiências voluntaristas nas chamadas «terras virgens / nunca tocadas» e ao apoio alimentar que URSS fornecia à Cuba.
Mas o principal gatilho, possivelmente foi o pânico e o medo da elite burocrática. Khrushchev instituiu uma política de rotação regular do pessoal —
pela primeira vez, os chefes do partido perderam os seus cargos vitalícios.
A conspiração estava a ser preparada por mais de seis meses. O seu núcleo duro era composto por Leonid Brezhnev, Nikolai Podgorny e o presidente mais jovem do KGB da história
soviética, Vladimir Semichastny.
Khrushchev fora avisado; o seu filho, Sergei, soube do complot através de fontes fidedignas e contou ao pai. Mas ele simplesmente descartou-o com um gesto confiante de mão: «Oh,
qual é, Breznev? Leonid — ele é um fracote, nem pensar». Este foi um erro fatal.
A 12 de outubro, Khrushchev, que se encontrava de férias na dacha estatal em Pitsunda (em Abecásia, na Geórgia), foi convocado de urgência para Moscovo sob o pretexto de uma reunião de emergência
sobre agricultura. Ao chegar ao aeroporto de Vnukovo, apercebeu-se que o seu habitual pessoal de segurança tinha sido substituída pelos homens de KGB, comandados pelo Semichastny.
No dia 13 de outubro, o Presidium do Comité Central iniciou uma reunião às 15h30. Brejnev, Suslov e outros, um após outro, leram uma lista interminável de
acusações: colapso económico, grosserias abusivas no trato pessoal, tirania e chamado voluntarismo.
Em primeiro lugar, no «âmbito informativo» tomou a palavra Leonid Brezhnev . Em particular, ele disse que «não há colegialidade no Presidium. Muitas decisões
são tomadas sem pensar. Há insultos aos funcionários. O culto da personalidade de Khrushchev está a crescer excessivamente». De seguida, dez membros do Presidium discursaram. Todos eles repreenderam
Khrushchev com maior ou menor fervor. Talvez o mais eloquente tenha sido Mikhail Suslov: «Formou-se um grupo de bajuladores em torno de Khrushchev, e ele incentiva-o, gosta disso. A situação real e a situação
no partido e no país estão a ser noticiadas incorretamente nos jornais e nos meios de comunicação social».
Khrushchev tentou ripostar furiosamente, gritando, mas ao cair da noite desabou. De todos os presentes, apenas Anastas Mikoyan tentou timidamente apoiá-lo, propondo que Khrushchev se
mantivesse, pelo menos, como chefe do governo, mas a assembleia rejeitou a proposta. Cansado, Secretário-Geral, de 70 anos, acenou com a mão e proferiu as suas famosas e amargas palavras, que expressavam o seu
maior orgulho histórico: «Reuniram-se aqui e estão me enchovalhar na merda, e eu não fui treinado para contestar... Mas estou feliz: finalmente, o Partido cresceu e pode controlar qualquer pessoa.
Quem poderia ter sonhado dizer ao Estaline que não nos serve e ficar vivo depois? A mim estão simplesmente à colocar na reforma. Esse também é o meu mérito».
No dia seguinte, 14 de outubro, no Plenário do Comité Central, tudo decorreu sem problemas – a resolução foi adotada por unanimidade: «exoneração
por motivos de idade avançada e saúde debilitada». Os cargos foram divididos: Leonid Brejnev tornou-se Primeiro Secretário do Comité Central do PCUS e Alexei Kosygin, o Presidente do Conselho de Ministros, isso é, o chefe do governo. Khrushchev nem sequer compareceu
na reunião.
Tinham-lhe preparado o pior castigo – o esquecimento total; durante próximos 20 anos, o seu nome praticamente desapareceu da imprensa, das enciclopédias e dos manuais escolares.
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| Kruschev na reforma compulsiva |
Khruschev conservou um apartamento em Moscovo, uma dacha nos arredores de Moscovo em Petrovo-Dalny, um carro e uma reforma pessoal bonificada. Excluído da política mundial, o antigo líder de uma
grande potência sofreu severamente de depressão – passava os dias a passear pela sua dacha, a plantar pepinos e tomates, a fotografar aves e... a ouvir a «Voz da América» na rádio
de ondas curtas para se manter informado sobre o que se passava no mundo.
Mas Khrushchev não desistiu completamente. A partir de 1966, sentado na varanda sob o olhar atento de microfones escondidos do KGB, ditou quatro toneladas de fitas magnéticas
com as suas memórias num gravador alemão. Ao saber disto, a direção do PCUS levantou um enorme escândalo, exigindo que entregasse as fitas. Khrushchev chorou, mas o seu filho Sergei mostrou
coragem: copiou secretamente as gravações e contrabandeou-as para os Estados Unidos através de jornalistas ocidentais. Em 1970, o livro «Khrushchev Lembra-se» foi publicado no Ocidente, tornando-se
uma sensação mundial. Nele, Nikita Sergeyevich reconheceu abertamente muitos erros, arrependeu-se das repressões da era Estaline e reflectiu sobre o facto de o sistema soviético se ter revelado
demasiado inflexível.
Nikita Khrushchev morreu a 11 de setembro de 1971, vítima de um ataque cardíaco, acamado num hospital comum. As autoridades tinham tanto medo dele, mesmo depois de morto, que
proibiram o seu enterro junto ao muro do Kremlin — o seu local de descanso final foi o cemitério moscovita «Novodevichy». Mais tarde, o artista plástico e escultor Ernst Neizvestny (que Khrushchev
atacava constantemente, estando no poder) criou um monumento único — feito de blocos entrelaçados de mármore branco e negro — como símbolo da era mais contrastante, turbulenta e contraditória
da história da URSS.
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| A tumba do Khruschev no cemitério «Novodevichi» em Moscovo, ao lado da sua esposa, Nina |