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Os projetos de investigação «Schemes» e «Systema» publicaram a reportagem baseada na correspondência do Major-General Roman Demurchiev, o Vice-Comandante do 20º exército de armas combinadas da rússia. Os jornalistas tiveram acesso às suas mensagens, de 2022 a 2024 e confirmaram a sua autenticidade. A correspondência de Demurchiev comprova que os comandantes do exército russo têm conhecimento dos crimes de guerra, cometidos pelas forças russas na Ucrânia, incentivam-os e participam neles.
Quem é general russo Roman Demurchiev?
Tem 49 anos, é natural de Kazan, casado e pai de duas filhas. Militar de carreira, combateu nas duas guerras russas da Chechénia. Em 2001, participou num filme de propaganda sobre os militares russos na Chechénia.
No início da atual guerra russa contra Ucrânia, Demurchiev era coronel e comandava a 136ª brigada motorizada de guarda, que avançou contra Ucrânia livre à partir da Crimeia ocupada. Posteriormente, assumiu o comando da 42ª divisão motorizada, que incluía unidades chechenas do batalhão «Akhmat». Demurchiev é atualmente vice-comandante do 20º exército de armas combinadas. Em 2023, foi promovido ao patente de major-general.
Com quem comunicava general Demurchiev?
Os jornalistas citam a sua correspondência com a sua esposa, outros generais do exército russo e oficiais do FSB. Em particular, Demurchiev correspondia-se ativamente com o major-general Ivan Popov, antigo comandante do 58º exército de armas combinadas, sob o qual servia. A comunicação entre ambos continuou mesmo depois de Popov ter sido destituído do cargo em 2023 e enviado para a Síria.
Demurchiev não só mantinha conversas amistosas com Popov e queixava-se do seu serviço, como também lhe enviava dinheiro. Quando foi aberto um processo criminal por fraude contra Popov, em 2024, Demurchiev compareceu nos interrogatórios e tentou apoiar a mulher do seu colega. Temia que o marido morresse na prisão, como Alexei Navalny, mencionando o envenenamento do líder da oposição russa mesmo antes de ser definitivamente confirmado.
O que era descutido nas conversas?
As orelhas decepadas dos POW ucranianos
No outono de 2022, Demurchiev enviou a várias pessoas uma fotografia de orelhas humanas decepadas, suspensas por um fio num cano de metal. O contexto das suas mensagens sugere que se tratam de orelhas de um ucraniano. Não é claro se foram cortadas a uma pessoa viva ou morta.
O primeiro destinatário da foto foi um antigo conhecido de Demurchiev, o major-general Igor Timofeev, vice-comandante do 36º Exército de Armas Combinadas. Demurchiev fala-lhe da captura de um ponto da defesa ucraniano e da captura de alguns soldados ucranianos. «Não tocaram nas orelhas? Como na infância?», pergunta Timofeev. Demurchiev responde que os prisioneiros estão a ser «transportados intactos» e envia então uma fotografia das orelhas decepadas. «Recentes», comenta.
A expressão «como na infância» refere-se às guerras da Chechénia, durante as quais havia a prática russa comum de cortar as orelhas dos combatentes chechenos como troféu.
A mulher de Demurchiev, Alexandra, também se recorda das guerras da Chechénia. Recebeu ainda dele uma foto de orelhas cortadas, com o comentário: «O meu ânimo melhorou!!!» Segue-se a seguinte troca de mensagens entre o casal:
— Eu pensava que eram historietas do tempo da Chechénia. Afinal é verdade. O que fazer depois com isto?
— Vou juntar numa coroa e oferecerei.
— Como orelhas de porco para a cerveja.
— É.
Demurchiev mencionou o corte de orelhas pelo menos mais uma vez. Em 2024, enviou a seguinte mensagem de voz a um oficial das forças especiais do FSB «Vympel», chamado Valery Nepop: «És o chefe de uma superorganização, o meu sonho. Caramba, e vocês está a cortar orelhas. Caramba. Mas, com a nossa idade, já não o fazem. Simplesmente dão ordens a alguém para fazer algo».
O assassinato de POW ucranianos com pás de sapador
Em dezembro de 2024, surgiu nas mensagens de Demurchiev um vídeo, capturado pelo termovizor com uma voz-off a comentar o seguinte:
— Desmembrando-os?
— Sim, com uma pá.
— Os nossos?
— Sim.
— Com c@ralho!
As mensagens de Demurchiev e dos seus companheiros soldados indicam que a câmara termográfica captou imagens de soldados russos, ex-prisioneiros, a assassinarem três POW ucranianos a golpes de pás de sapador depois destes se terem rendido. A organização «Schemes» identificou a unidade das Forças Armadas da Ucrânia à qual pertenciam os militares assassinados. Confirmaram o massacre e afirmaram que foi levado a cabo por membros da unidade russa «Black Mamba», que combatia integrada no 20º exército da federação russa.
As Convenções de Genebra, de que a rússia é signatária, proíbem o assassinato, a mutilação e a tortura de prisioneiros. A responsabilidade por este crime recai não só sobre aqueles que o cometem, mas também sobre os seus comandantes — não apenas se eles próprios deram a ordem criminosa, mas também se tinham conhecimento do crime e não o impediram ou não levaram os perpetradores à justiça.
Demurchiev não só sabia do assassinato com pás de sapador, como o reportou ao seu superior imediato, Oleg Mityaev, então comandante do 20º Exército. Mityaev ordenou que os assassinos russos fossem condecorados: «Os ZEK´s [prisioneiros] que tomaram a posição e os cortaram com pás — se Deus quiser, que sobrevivam — devem ser definitivamente indicados para uma condecoração. <…> Valentes, esmaguem, esmaguem os sacanas [ucranianos]».
Outros assassinatos e torturas de POW e civis ucranianos
Demurchiev enviou alguns prisioneiros de guerra para um homem com o nome de código «Grego», provavelmente um oficial de contra-espionagem militar do FSB. Quando se referia à transferência de prisioneiros, o general utilizava a palavra «oferecer» e quando se referia ao assassinato, empregava a palavra «utilizar».
«Tenho um prisioneiro <…> posso te oferecer. Ele está ali, sentado no fosso <…> O que devo fazer com ele — utilizar ou entregá-lo a si?», escreveu Demurchiev ao «Grego» no outono de 2023. Acrescentava: «Não tivemos tempo para simplesmente torturá-lo, por isso a informação é amigável... Mas vocês tem muito tempo; podem usar várias ferramentas que obrigam uma pessoa a dizer a verdade».
«Grego» aceitou levar o prisioneiro. Demurchiev enviou-lhe a sua fotografia e o relatório do interrogatório, a partir dos quais «Schemes» estabeleceu a identidade do POW ucraniano. Era voluntário de Zaporizhia, que voltou do cativeiro russo apenas no verão de 2025. Afirmou que ainda não está nem mentalmente, nem fisicamente preparado para falar sobre a tortura russa. Referiu apenas que foi espancado e sujeito aos choques elétricos.
Na mesma correspondência com «Grego», o general relata que, além do prisioneiro ucraniano sobrevivente, havia outro que «não sobreviveu». A isto, «Grego» responde: «Correto. Eu pessoalmente sou a favor da utiilização. Caso contrário, não os venceremos».
Mas «Grego» não só capturava pessoas para «utilização», como também as entregava. No verão de 2023, escreve ao general: «Temos um caso. Não oficial. Há alguns cabrões apanhados em flagrante em depósitos de [artefactos explosivos improvisados]. Membros reais da residentura [resistência organizada ucraniana]. Mas não podem ser entregues ao julgamento. Temos a proposta para os lhe entregar por alguns dias para cavar as valas, trincheiras. Depois deixá-los lá. Para sempre». Demurchiev aceita receber essas pessoas, prometendo que ninguém saberá disso.
General Demurchiev estava insatisfeito com comando militar russo
A julgar pelo arquivo de mensagens de Demurchiev, em conversas com conhecidos, general criticava frequentemente — e com muitos palavrões — o exército russo, as forças de segurança russas e a guerra com Ucrânia. Aqui ficam algumas citações:
Sobre o exército russo: «São uns p@neleiros. Mas todos ganham medalhas. Quero sair deste exército, desta guerra inútil, o mais depressa possível. Mentirosos, p@neleiros, cobardes».
Sobre o FSB: «O nosso FSB é um bando de p@neleiros. Não fazem o c@ralho pela defesa. Só sabem vigiar quem gamou/roubou o quê».
Sobre a formação de voluntários russos: «As pessoas chegam, trazemo-las à noite, e de manhã estão prontas o combate. Têm preparação zero, são uns campónios, ninguém lhes dá tempo para se prepararem».
Sobre o veículo subaquático não tripulado «Poseidon»: «O Poseidon, put@, não funciona, nem está terminado ainda... Bem, estou a dar-te as [informações] confidenciais agora».
Sobre as unidades chechenas «Akhmat»: «Deram-me 2 mil chechenos. Cobardes e uns relações-públicas. Mostro o c@ralho [em termos de resultados]. Apenas intrigas. Só os eslavos mostram resultados. Mas são poucos».










































