A deserção de um diplomata soviético de alto nível em 1938 tornou-se um grande escândalo internacional. Os segredos deste caso permanecem por resolver até
hoje, porque os arquivos soviéticos/russos continuam inacessíveis aos investigadores imparciais.
Fedor Butenko era uma personagem incrivelmente talentosa e cínica, o que lhe pode ter salvo a vida. A maior parte do que se sabe sobre ele foi contada pelo próprio e é
muito provavelmente total ou parcialmente inventado. Isso não impediu Butenko de fazer uma carreira brilhante na URSS: primeiro na área da censura e redação na editora Khudozhestvennaya Literatura e depois no Comissariado do Povo para os Negócios Estrangeiros / Assuntos Exteriores. É também muito provável que fosse um agente do OGPU-NKVD — caso contrário, seria impossível
explicar algumas das reviravoltas inesperadas que a sua carreira sofreu.
Em 1937, transformou-se de estudioso de literatura em diplomata soviético. Isto coincidiu com a purga total dos quadros de Maxim Litvinov no Comissariado do Povo dos Negócios
Estrangeiros / Assuntos Exteriores, que foi substituído por estalinista de linha dura, Vyacheslav Molotov. O próprio Litvinov sobreviveu, embora tenha esperado muito tempo pela sua prisão. Durante estas purgas, 35% dos
diplomatas soviéticos de alto nível sobreviveram, 20% foram executados e outros 11% foram enviados ao GULAG. Os cerca de 23% perderam o emprego, morreram ou suicidaram-se. O destino de aproximadamente 14% é
desconhecido.
1,5% dos diplomatas de alto nível fugiram ao Ocidente. Butenko estava entre esses 1,5%.
Em apenas dois meses, passou de conselheiro a encarregado de negócios, ou seja, o homem mais importante da embaixada soviética na Romênia — o embaixador foi chamado
de volta a Moscovo e aí executado. Então Butenko percebeu que será o próximo e decidiu fugir da URSS, o que era muito mais fácil no estrangeiro do que em Moscovo. Foi enviado para trabalhar
na Roménia sem a mulher e a filha pequena, que permaneceram em Leninegrado: uma prática comum na URSS, que sempre gostou de fazer reféns. Isso não demoveu Butenko, embora ele soubesse certamente
o que acontecia às famílias dos inimigos do povo. Talvez tenha concluído que a sua família sofreria de qualquer maneira. Sabe-se que a sua esposa, Vera Kravchenko e o irmão dela, seu cunhado Mykhaylo, foram vítimas das repressões
políticas soviéticas em Dnepropetrovsk em 1941, e a sua filha Lea terá provavelmente morrido durante o cerco nazi de Leninegrado.
Não podia permanecer na Roménia, que procurava desesperadamente a boas relações com a União Soviética. Além disso, circulavam rumores de que outro fugitivo famoso,
o agente ilegal de OGPU-NKVD na Turquia, Georges Agabekov, tinha sido rastreado e assassinado por agentes de NKVD.
Fedor Butenko presumiu que os seus antigos colegas o encontrariam em qualquer país democrático, pelo que só tinha uma opção: esconder-se na Alemanha nazi
ou na Itália fascista. Butenko falava francês fluentemente e estava a aprender romeno, o que lhe dava esperança de dominar rapidamente o italiano. Além disso, a Itália estava muito mais próxima,
politicamente, de Bucareste do que a Alemanha. Por isso, o diplomata escolheu o regime do Mussolini.
Após a deserção do diplomata, a URSS acusou imediatamente a Roménia de assassinar ou raptar Butenko, algo que a Roménia temia terrivelmente, pois poderia
ter desencadeado uma guerra. Por isso, após a sua fuga, Fedor Butenko ficou no país por apenas quatro dias, durante os quais ele elaborou, para a Siguranța as suas revelações sobre os espiões
soviéticos reais e imaginários na Roménia.
Mais tarde, Butenko afirmou que pessoas próximas do Rei da Roménia o ajudaram a escapar e lhe forneceram um passaporte legal de algum pobre coitado falecido. Nenhuma prova disso
foi encontrada até à data. Existem sérias dúvidas sobre o seu relato: em dois meses de trabalho em Bucareste, simplesmente não teria tido tempo para fazer tais contactos. No entanto, Butenko
conseguiu não só atravessar em segurança pelo menos duas fronteiras nacionais, como também chegar ao centro de Milão.
Em Itália, o ex-militante comunista, que tinha denunciado inimigos do povo em reuniões do partido (era conhecido pela sua perseguição aos trotsquistas), declarou imediatamente a sua
forte simpatia pelo fascismo. Disse que trabalhava como tradutor na Exposição Internacional de Paris e visitava constantemente o pavilhão italiano para admirar a felicidade que o Duce trazia ao seu povo.
Mais uma vez, afirmação duvidosa, pois tais ações teriam despertado suspeitas imediatas dentro da delegação soviética.
Fedor Butenko, amaldiçoava o comunismo e abraçou imediatamente um outro regime totalitário e militarizado que nada tinha em comum com a democracia ou a liberdade.
O próprio Lev Trotsky observou esta história do longínquo México e emitiu algumas conclusões. Em primeiro lugar, considerou Butenko um canalha sem princípios,
um chekista pronto a servir qualquer mestre. Também manifestou a confiança de que eram precisamente pessoas como Butenko que formavam a espinha dorsal dos órgãos repressívos soviéticos.
Em segundo lugar, Trotsky presumiu que, dentro da elite soviética, existia um certo número de pessoas com visões fascistas ou protofascistas. Ambas as conclusões, estavam parcialmente corretas.
A revista Time considerou Butenko como um modelo dos «novos bolcheviques», que substituíram os «velhos bolcheviques» tão ativamente expurgados por Estaline. Os «novos bolcheviques»
eram completamente desprovidos de idealismo comunista; tinha como objetivo a prosperidade e a segurança pessoal. O que, também estava muito próximo da verdade.
Durante algum tempo, na Itália os principais jornais publicaram entrevistas com Butenko, e este começou então a escrever artigos e livros por conta própria.
A versão italiana do livro é constituída por quatro capítulos principais:
1. “Socialismo o schiavitù?” (“Socialismo ou Escravatura?”) — o autor descreve pormenorizadamente a tragédia da sua Ucrânia natal, a fome artificial na Ucrânia [Holodomor] e na Kuban, as repressões que destruíram a prosperidade de uma terra florescente.
2. “La costituzione di Stalin” (“A Constituição de Estaline”) — uma desmistificação do processo eleitoral soviético. Butenko
sublinhou que as listas de candidatos eram aprovadas exclusivamente em Moscovo e que apenas as pessoas leais a Estaline podiam ser eleitas.
3. “Il tiranno di Mosca agonizzante” (“O Tirano Agonizante de Moscovo”) — uma crítica à ditadura pessoal de Estaline, à atmosfera de total
terror nas fileiras da nomenklatura e da NKVD.
4. “Il mio viaggio in Europa” (“A Minha Viagem à Europa”) é uma descrição de uma fuga e das impressões de uma estadia no Ocidente.
Nos anos seguintes, os italianos esconderam Butenko da vingança soviética, mudando-lhe o nome e escondendo-o nos locais mais remotos. Claramente não sabiam o que fazer
com ele. Uma fonte afirma que o próprio Mussolini terá ordenado que Butenko recebesse um salário, mas que não se envolvesse em nada de importante.
Butenko pediu para ser enviado para a Frente Leste para ajudar os militares italianos, mas não lhe foi permitido. Candidatou-se para aderir ao Partido Fascista, mas a sua candidatura permaneceu sem resposta.
Ucraniano étnico, nascido na Ucrânia, Fedor Butenko tentou se aproximar à emigração ucraniana, mas não foi bem acolhido, acabando por ser rejeitado.
Temendo uma tentativa de assassinato por parte de NKVD, Butenko viveu na Sicília de 1939 a 1942 em profundo segredo sob o nome de Alberto Rossi. Foi então transferido para a Albânia,
onde serviu como censor militar.
As últimas informações sobre a estadia de Butenko — por alguma razão em Veneza, onde não existiam estruturas sérias que pudessem aproveitar os
seus talentos — surgiram apenas algumas semanas antes da detenção de Mussolini em Roma. O seu destino subsequente ao 1943 está desconhecido. O ex-diplomata soviético, que até foi reabilitado politicamente na URSS/rússia, uma personagem profundamente
cínica, com uma experiência incrível em camuflagem e sobrevivência, simplesmente desapareceu, sem deixar qualquer rasto posterior.