O coronel da reserva do Exército Brasileiro, Marco Coutinho*, descreve a «Doutrina Budanov» como a redefinição da defesa ucraniana ao substituir ofensivas convencionais
por sistemas autônomos, drones FPV e inteligência operacional integrada; a guerra assimétrica e a autonomia tecnológica, que moldam a resiliência nacional e projetam poder estratégico
num conflito industrial prolongado.
Este artigo examina a reconfiguração da estratégia de defesa ucraniana a partir de 2026, marcada pela ascensão de Kyrylo Budanov ao cargo de Chefe do Gabinete do
Presidente. Analisa-se a transição do modelo convencional conhecido como “Plano para a Vitória” de Zelensky, centrado em blindados pesados e dependência de armamentos ocidentais, para
a chamada “Doutrina Budanov”, caracterizada pela priorização de sistemas autônomos, drones FPV e operações de alcance profundo em território russo. A pesquisa baseia-se
em análise documental, relatórios públicos da inteligência militar ucraniana (GUR) e estudos estratégicos recentes, destacando o impacto da Operação Spider Web como marco da
adoção de uma guerra assimétrica de alta tecnologia. Conclui-se que a integração entre inteligência operacional, autonomia de sistemas e produção industrial descentralizada
constitui o núcleo da resiliência ucraniana para se adaptar e atuar com vantagem em um cenário de guerra prolongada.
1. Introdução
Em janeiro de 2026, a Ucrânia iniciou um processo de reestruturação profunda de sua arquitetura de defesa e governança estatal, visando ampliar a resiliência
nacional diante de um conflito industrial prolongado. A nomeação do tenente-general Kyrylo Budanov, ex-diretor do Diretório Principal de Inteligência (GUR), para o cargo de Chefe do Gabinete do Presidente,
simbolizou a convergência definitiva entre a inteligência operacional, a formulação estratégica e o esforço diplomático.
Essa mudança estrutural decorreu da exaustão do modelo convencional anterior, que se baseava em grandes manobras de blindados pesados, como observado nas ofensivas de Zaporizhzhia
e Kursk, e na dependência de mísseis ocidentais de longo alcance, frequentemente limitados por restrições políticas impostas pelos aliados. Diante da escassez de capital humano e da necessidade
de compensar a superioridade numérica do adversário, a liderança ucraniana articulou uma transição para a denominada “Guerra de Máquinas”.
Nesse contexto, emergiu a “Doutrina Budanov”, uma estratégia centrada no desgaste coercitivo do inimigo por meio de inovações tecnológicas disruptivas,
como a integração de Inteligência Artificial, e o emprego sistemático de operações de profundidade. Esta nova fase prioriza a substituição de pessoal por sistemas autônomos
e o uso de drones FPV e de longo alcance para degradar os centros de gravidade econômicos e militares em território russo, visando forçar um endgame diplomático em posição de força.
2. O Declínio do Modelo Convencional
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| Comparativo entre o modelo de guerra convencional (2023-2025) e a transição para a Doutrina Budanov, destacando o pivô para a assimetria tecnológica e autonomia de sistemas (Adaptado de Parish, 2026 e Özdemir, 2026). |
A estratégia ucraniana até meados de 2025 fundamentava-se no “Plano para a Vitória” então defendido pelo presidente Zelensky, uma abordagem que privilegiava
ofensivas mecanizadas de alta intensidade e a expectativa de um suporte tecnológico ocidental de longo alcance que, em grande parte, foi restrito por hesitações políticas dos aliados. Este modelo
convencional enfrentou limites severos durante as ofensivas de 2023 e 2024 nas regiões de Zaporizhzhia e Kursk, evidenciando que manobras baseadas em blindados pesados e caros tornaram-se vulneráveis diante da
densidade de vigilância por drones e sistemas de ataque de precisão russos.
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* Marco Antonio de Freitas Coutinho é coronel da reserva do Exército Brasileiro. Participou em missões da ONU, em diplomacia de defesa e estudos estratégicos. Editor
do GRU. O Vice-Presidente do Instituto de Altos Estudos de Geopolítica, Segurança e Conflitos (GSEC).