As repressões no âmbito da “linha romena” foram rapidamente combinadas com purgas de pessoal. NKVD utilizou acusações de espionagem à favor da Romênia para eliminar os líderes políticos e culturais da autonomia.
Um dos objetivos oficiais da criação da ASSR da Moldávia em 1924 foi formar uma elite comunista que falasse romeno, língua que era designada por “moldavo” na URSS. Moscovo esperava utilizar os seus representantes para sovietizar a Bessarábia.
O Grande Terror destruiu uma parte significativa desta elite. Quando a URSS ocupou a Bessarábia, em 1940, quase não havia líderes que conhecessem a língua e a cultura local. Durante décadas, a liderança da RSS da Moldávia esteve entrincheirada nos quadros da antiga autonomia da margem esquerda do Dniestre, que tinham ligações com Kyiv e Moscovo.
De acordo com os dados atualmente disponíveis, 8.292 pessoas foram presos e condenadas durante a “operação romena”, das quais 5.439 condenados à pena de morte. NKVD inventou a sua própria “rede de espiões” à partir de biografias transfronteiriças, confissões sob tortura e nomes que os detidos forneceram, tentando salvar-se a si próprios e aos seus entes queridos. Entre eles não estavam apenas romenos: o nome da operação não determinava o círculo das suas vítimas.
Os registos mostram como o local de nascimento e os familiares residentes no estrangeiro, isso é, fora da URSS, eram vistos pelo NKVD como «provas de espionagem», e que os organizadores desta purga, eles próprios, se viram rapidamente vítimas de uma purga seguinte e como esta operação é hoje recordada em Moldova e na Roménia.
O material é baseado no livro de Igor Cașu «Dușmanul de clasă. Represiuni politice, violență și rezistență în R(A)SS Moldovenească,1924-1956, Cartier, 2015.» (O Inimigo de Classe. Repressões Políticas, Violência e Resistência na R(A)SS da Moldova, 1924-1956), Cartier, 2015, 389 páginas, PDF, ler e/ou descarregar/baixar gratuitamente em romeno.
A ocupação soviética da Bessarábia (região histórica, que atualmente em cerca de 70% pertence à Moldova e 30% à Ucrânia), anexada à União Soviética em 1940 e novamente, no fim da Segunda Guerra Mundial, é descrita no livro «Quanto custa uma pessoa», de uma honestidade absolutamente brutal, escrito e com as ilustrações de Eufrosínia Kersnovskaya (1907–1994), uma proprietária rural, que perdeu tudo em resultado da ocupação soviética e acabou no Gulag, que milagrosamente sobreviveu graças à sua força de vontade, saúde e educação. A descrição do início da ocupação soviética da Bessarábia faz lembrar a ocupação russa da Crimeia em fevereiro-março de 2014 — o mesmo equipamento russo que entrou sem que ninguém esperasse, e os soldados que apenas fingem serem «pessoas educadas», e na verdade — matam.
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| Eufrosínia Kersnovskaya «Quanto custa uma pessoa» |
«Estávamos em 1940... No dia 27 de Junho, regressando do campo à noite e depois de terminar as tarefas domésticas, sentei-me com a minha mãe para tomar chá. A lâmpada não estava acesa: o pôr-do-sol brilhava lá fora, através da janela — a 'iluminação' preferida da minha mãe — e sentámo-nos junto à janela aberta, tomando chá lentamente e ouvindo o rádio. Nove horas. As últimas notícias estão a ser transmitidas de Bucareste: 'Londres informa...' Primeiro — sobre a situação em batalha, que é muito triste para a França: os alemães estão a avançar para sul sem qualquer resistência;
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| Devido à fome de 1947, novamente o número de mortos era tão grande que os caixões não chegavam para todos |
E de repente, com a mesma voz monótona, o locutor continua:
— A União Soviética reivindicou o território da Bessarábia. Uma comissão mista composta por... generais está a caminho de Odesa para resolver esta questão...
A minha mãe levava a chávena à boca. A mão tremia-lhe, e a chávena tilintava no pires. Lembro-me do seu olhar confuso:
— Como assim? O que será isto? O quê?
Acho que não percebi o que ouvimos. Ou pareceu-me algo fútil — mais uma “disparate”.
— Veremos o que acontece. Enquanto isso, beba o seu chá! — disse imperturbavelmente.
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| — «Assina! E poderás comer tudo isso e irás dormir!» (uma das técnicas de interrogação soviéticas, quando o investigador do NKVD fazia-se passar por «bom rapaz») |
Agora é até difícil imaginar que o coração, que deveria ser um presságio, não tenha previsto nada. É como se nada de semelhante tivesse acontecido nas repúblicas bálticas recentemente e como se não conseguíssemos adivinhar onde isso iria dar! Uma coisa é certa: nessa noite, sentámo-nos à mesa despreocupadamente pela última vez… Não terminámos o chá e levantámo-nos da mesa deprimidos. A mamã estava chateada, e eu… Ah, não fazia a mínima ideia do que nos esperava. À noite, carros com os faróis acesos. Pensávamos que eram romenos. Nunca nos ocorreu que tivesse sido construída uma ponte de barcas em Buzherovka e que aqueles fossem tanques e veículos blindados soviéticos.
Não fazia ideia de que uma reviravolta brusca tinha ocorrido nas nossas vidas e que tudo o que era familiar e inabalável já tinha desaparecido algures para lá do horizonte...”
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