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quarta-feira, abril 15, 2026

A história do Fiat, do Lada e do camarada Togliatti

Publicidade do «Lada» dirigida ao mercado ocidental. Imagem: Internet

A história de como e porque a União Soviética, de entre todos os países produtores de automóveis, escolheu os italianos, como o Fiat 124 se transformou num Lada e porque a cidade soviética Stavropol-on-Volga se transformou em Togliatti.

Palmiro Togliatti foi o secretário-geral do Partido Comunista Italiano. Juntamente com Antonio Gramsci, organizou greves de trabalhadores na fábrica da Fiat na década de 1920. Em 1930, Togliatti aceitou a cidadania soviética e, mais tarde, estabeleceu-se em Moscou/vo. Participou na campanha de denúncias e repressões estalinistas contra os comunistas italianos que trabalhavam na Comintern. 

«Viva o grande chefe e professor do partido comunista e do povo soviético camarada Estaline».
4.VI.1950, teatro Bolshoi de Moscovo, camarada Togliatti último à esquerda.

Após o desembarque dos Aliados na Sicília e a capitulação de Itália, regressou à terra natal. Sob a sua liderança, o Partido Comunista Italiano tornou-se o maior partido do país e o maior partido comunista não governamental da Europa, com mais de dois milhões de membros. 

Camarada Togliatti com as crianças soviéticas, década de 1960

Em 1964, Togliatti estava de férias e a receber tratamento na Crimeia. Enquanto visitava o campo infantil de «Artek» (acessível quase exclusivamente aos filhos da supra elite comunista), perdeu os sentidos e morreu subitamente. Uma delegação do partido soviético, chefiada por Leonid Brejnev, acompanhou o caixão de Togliatti até Itália. Dois meses depois, Brejnev, liderou o golpe do Estado que afastou Khrushchev do poder.

Nikita Krushechev à carregar o caixão (à direita), Brejnev está, de mãos livres, ao seu lado

A morte súbita de Togliatti gerou muita especulação, envergonhando os camaradas soviéticos perante os comunistas italianos, e apenas dois meses depois, o Presidium do Soviete Supremo da rússia soviética decretou: renomear a cidade de Stavropol, na região de Kuibyshev, para Togliatti. É um tanto irónico que a cidade onde os carros eram fabricados sob licença italiana tenha sido batizada em homenagem ao homem que arruinou a indústria automóvel italiana.

Capa do jornal «Pelo Comunismo», publicado em Stavropol.
«À partir de agora a nossa cidade ostentará o nome de Togliatti», 30.08.1964

Na Itália, Palmiro Togliatti foi sepultado perante uma enorme multidão. O artista italiano Renato Guttuso criou uma tela de grande escala para a ocasião, com a participação de Angela Davis, Ho Chi Minh, Dolores Ibárruri, Rosa Luxemburgo, Luchino Visconti, Salvatore Quasimodo, Jean-Paul Sartre, Estaline e cinco (!) Lenins. Khrushchev não está na pintura.

Obra do Renato Guttuso. Cinco Lenines e nenhum Khruschev...

Falando sobre o Lada. No início da década de 1960, havia uma escassez catastrófica de automóveis na URSS. Khrushchev, e depois Brejnev, estabeleceram o objetivo de criar um automóvel popular produzido em massa — barato e fiável. A capacidade tecnologíca soviética própria era insuficiente para tal salto, pelo a URSS decidiu comprar uma solução já feita. 

O lado soviético negociou simultaneamente com várias empresas ocidentais — Volkswagen, Renault, Ford, Peugeot e Fiat. Cada uma ofereceu o seu próprio modelo e condições para a construção da fábrica. A Renault era considerada a principal concorrente, com o seu hatchback de tração dianteira, o Renault 16, o «Carro do Ano 1966» na Europa. Tecnicamente, era mais avançado que o Fiat 124, mas esse mesmo facto jogou contra ele.

«Me chamo Fiat 124», a publicidade italiana de 1966

O Fiat 124 era um projeto clássico e simples: tração traseira, um motor básico, nada de luxos. Já o Renault 16, de tração dianteira, parecia demasiado complexo para a realidade soviética — tanto para a produção, como para a manutenção.

Mas o principal argumento acabou por ser político, não económico. O Partido Comunista Italiano era o maior partido comunista da Europa Ocidental, e as relações italo-soviéticas eram significativamente mais cordiais do que com a França, a Alemanha ou, principalmente, os Estados Unidos. Brejnev, depois de devolver Togliatti de Itália, após o seu funeral, disse: «Os italianos são mais próximos de nós».

A 4 de maio de 1966, foi assinado um protocolo de cooperação em Turim e, a 15 de agosto de 1966, foi assinado um acordo geral em Moscovo. A Fiat comprometeu-se a construir uma fábrica com capacidade para 660.000 veículos por ano na cidade de Togliatti. Que coincidência! Que símbolismo!

Os engenheiros soviéticos fizeram centenas de alterações ao design da Fiat 124 – simplificando o design, embora também reforçaram a carroçaria, aumentaram a altura ao solo, possivelmente pioraram o motor, reforçaram o motor de arranque, alteraram os vedantes e tentaram melhorar a proteção contra a corrosão em climas de inverno. 

Publicidade de «Lada» no mercado da Alemanha Ocidental, 1970

O primeiro modelo de Lada «Zhiguli», lançado no mercado soviético em 1970, custava cerca de 5.600 rublos (9.655 dólares ao câmbio oficial soviético). Com um salário médio de 120 rublos, um cidadão soviético tinha de poupar totalidade dos seus rendimentos durante quase quatro anos para comprar um automóvel. Sob o «cabrão» Mussolini, um italiano podia comprar o carro popular economizando apenas um ano e meio.

Publicidade ocidental de «Lada» 2102 «Kombi», 1970


domingo, abril 12, 2026

As memórias pascoais da Donbas ucraniana por Alexander Chekmenev

O fotógrafo ucraniano Alexander Chekmenev combina as técnicas de encenação e realismo cru, conseguindo uma mensagem emocional penetrante em cada imagem. Realista, ele evita o brilho e os temas modernos, preferindo observar a prosa da vida quotidiana, a vida das pessoas comuns e os vestígios desbotados do passado à nossa volta. 








A minha primeira memória da Páscoa está ligada a algo proibido e à polícia. Estávamos no final da década de 1970 e, talvez, no início dos anos 1980 na minha cidade natal, Luhansk. Desde a noite anterior à Páscoa que a Igreja de São Pedro e São Paulo, no bairro de Kamianobrydsky, estava cercada por um destacamento policial: formavam um círculo fechado e, por alguma razão, só permitiam que os idosos assistissem à missa, mas também ninguém mais se atrevia a ir. Como me explicaram os meus pais, visitar a igreja significava prejudicar a sua carreira profissional: sem nenhuma razão formal era-se imediatamente denunciado ao seu serviço, nalguma comissão sindical. Era o que eu pensava: um homem embriagava-se — o denunciavam-no no serviço; ia à igreja para se arrepender e confessar — também apresentavam queixa contra ele. Então, para onde podia ir um simples trabalhador?









Lembro-me do meu padrinho me dizer: “Perdoa-me, Sasha, nós não fomos à igreja quando foste batizado: a avó Vera, uma vizinha, pegou-te ao colo e levou-te para a Igreja de São Pedro e São Paulo — é a tua madrinha.”

Em meados da década de 1980, já não havia cordões policiais e os casamentos tornaram-se moda — a Perestroika estava em seu pleno vigor. Nessa altura, oito casais casavam ao mesmo tempo, e o padre confundia os nomes e as alianças, e depois da cerimónia, servia champanhe nas taças de casamentos — ali mesmo na igreja, o que me parecia estranho e pouco natural.








Mas eu sinceramente queria confessar-me e fui à mesma Igreja de São Pedro e São Paulo. Enquanto pensava do que exatamente me deveria confessar e se arrepender, o padre acelerou as coisas perguntando: “Estás a assistir a televisão?” — “Estou, claro”, respondi, sem perceber para onde isso me levava, e ouvi então: “Já és um pecador!” Esse foi o fim do meu confessionário.

Já na década de 1990, as garrafas de vodca e as mesas com comidas nos cemitérios pareciam mais naturais e orgânicas — era o domingo de Páscoa, como era costume na nossa Donbas. Lá podia encontrar aqueles que não via um ano inteiro. Todos estavam a fazer os beijos «cruzados» — dando o beijo triplo e oferecendo comida uns aos outros nos túmulos dos seus parentes e antepassados. Alguns embriagavam-se ao ponto de ficarem semi-mortos, para depois, aparentemente, “ressuscitarem” na manhã seguinte.









Fiquei surpreendido quando, ao chegar a Kyiv, decidi tirar fotografias no cemitério no decorrer da Páscoa, tal como fazia na minha terra natal, foi surpreso pela ausência de pessoas naquele dia e naquele local.

Na década de 2000, os padres já se dirigiam às pessoas na televisão com um apelo para que homenageassem os mortos uma semana depois da Páscoa — no decorrer de assim chamado «Monte Vermelho», assim chamavam à semana memorial. As pessoas os ouviram, mas à sua maneira: começaram a ir aos cemitérios tanto na Páscoa, como aos semana seguinte, chamada também de Hrobký, literalmente «os túmulos». Ali, no cemitério, todos se encontravam e ainda se encontram — enquanto ainda estão nesta vida e, talvez, na outra.

Fotos e texto: Alexander ChekmenevLuhansk, 1998.

sábado, abril 11, 2026

«Trégua da Páscoa» na Ucrânia: os crimes da guerra russos em Odesa e Kramatorsk

Imagem: ataques «pascoais» russos na região de Sumy
No decorrer da «trégua da Páscoa», o exército russo atacou edifícios residenciais em Odesa. Dois civis ucranianos foram mortos. O Patriarca da IOR, Kirill aprovou e abençoou as «saudações» do regime russo.



Nas véspera de Páscoa (que neste ano é celebrado na Ucrânia e na rússia aos 12 de abril), o exército russo lançou três bombas aéreas sobre o centro de Kramatorsk, em «respeito» pela trégua da Páscoa declarada por putin. O ataque resultou em numerosos civis ficaram feridos e uma extensa destruição.

Desssa forma o regime neofascista russo sauda os crentes ortodoxos de Donbas, os tais «irmãos» de origem étnica russa ou falantes de língua russa e crentes da igreja ortodoxa, afiliada com Moscovo. 

Fonte: TG @kazansky2017

...e as notícias relamente boas! 


Ótimas notícias para celebrar a Páscoa! 175 militares e 7 civis ucranianos foram libertados do cativeiro russo. Foram libertos 25 oficiais, que os ocupantes russos faziam a questão de manter nas suas masmorras desumanas. Entre os POW libertos há muitos defensores de Mariupol, na sua maioria os militares ucranianos estiveram no cativeiro russo desde 2022. 

Ver mais fotos no TG canal oficial do presidente da Ucrânia.