domingo, julho 20, 2025

O general soviético que se tornou dissidente ucraniano

Foto: Fundação Petro Grigorenko
O ucraniano Petro Grigorenko foi o primeiro general soviético a manifestar-se contra o sistema comunista soviético. Possivelmente foi a referência remota à personagem do general Boris Barkov na série portuguesa «Glória». 

Após ter sido preso e submetido a tratamento psiquiátrico punitivo na URSS, conseguiu partir para os Estados Unidos, onde continuou a sua luta contra o regime comunista soviético, expondo-o publicamente.

«Vivi uma vida longa e difícil, vivi tempos difíceis, turbulentos e assustadores, encarei a morte. Testemunhei a destruição e o despertar; conheci muitas pessoas, procurei, admirei, cometi erros e vi a luz, vivi entre pessoas e para pessoas...», escreveu ele nas suas memórias.

Livro de memórias do Petro Grigorenko, 1980

Em 1962-1964, Grigorenko foi chefe do departamento operacional do quartel-general do 5º Exército (Distrito Militar do Extremo Oriente). No Outono de 1963, durante as férias em Moscovo, organizou a clandestina «União da Luta pelo Renascimento do Leninismo» (que incluía os filhos de Petro Grigorenko e vários dos seus amigos – estudantes e oficiais). Compilou sete panfletos distribuídos em Moscovo, Vladimir, Kaluga, entre as tropas soviéticas dos distritos de Leninegrado e da Ásia Central (alguns com uma tiragem até 100 exemplares). Os temas dos panfletos eram o renascimento burocrático do Estado soviético, a sua política punitiva em relação aos trabalhadores e as causas da crise alimentar na URSS.

Em 1966, o dissidente russo Vladimir Bukovsky apresentou Grigorenko ao círculo de dissidentes de Moscovo. Deles, Grigorenko começou a receber samizdat, aprendeu sobre o problema dos povos reprimidos e juntou-se ativamente à luta dos tártaros da Crimeia pelo regresso à sua família histórica. Contribuiu para a ativação do movimento nacional dos tártaros da Crimeia e tornou-se um líder informal do movimento pelo regresso à Crimeia.

Durante a Primavera de Praga, apoiou as reformas democráticas na Checoslováquia e escreveu uma carta pessoal a Alexander Dubchek com conselhos sobre a possível defesa do país em caso de invasão soviética. Condenou veementemente a invasão das tropas soviéticas da Checoslováquia. Defendeu os participantes na manifestação de 25 de agosto de 1968 em Moscovo, 8 cidadãos que se manifestaram contra a invasão soviética da Checoslováquia, 7 deles condenados aos diversos termos prisionais.

Em novembro de 1977, com a permissão oficial das autoridades soviéticas, partiu para os EUA com a sua mulher Zinaida para a cirurgia de que necessitava, considerada grave na URSS, e para ver o seu filho Andrew, a viver em Nova Iorque. Três meses depois, por decreto do Soviete Supremo assinado por Brejnev, foi privado da cidadania soviética (e, portanto, do direito de regressar à URSS). Recebeu asilo político nos EUA.

Nos EUA general Grigorenko renunciou às suas ideias comunistas, tornou-se membro da comunidade ucraniana nos Estados Unidos e um crente ortodoxo. Chefiou a Associação de Veteranos da Segunda Guerra Mundial — imigrantes da URSS, o que facilitou a sua adaptação num ambiente americano. Foi o representante estrangeiro do Grupo Ucraniano de Helsínquia (UHG). 

Quando à personagem da série «Glória», o general Boris Barkov, temos aqui um triste exemplo da preguiça mental dos criativos portugueses, o apelido/sobrenome foi simplesmente «emprestado» do general Roman Barkov, um dos dois principais antagonistas do videojogo Call of Duty: Modern Warfare de 2019.

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