Em 1993 foi publicado em inglês «O Túmulo de Lenine», o primeiro livro do jornalista norte-americano David Remnick, pelo qual ele ganhou o Prémio Pulitzer em 1994. Enquanto jornalista do The Washington Post, Remnick, que mais tarde se tornou editor-chefe do The New Yorker, passou de 1985 à 1991 na URSS/rússia e documentou o colapso da União Soviética, desde o 1º Congresso dos Deputados do Povo até ao falhado golpe do Estado comunista de agosto de 1991.
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| David Remnick, «O túmulo de Lênin», a edição brasileira da editora «Companhia das letras», 2017, 144,90 Reais |
O texto que segue é um resumo livre do capítulo de «O Túmulo de Lenine», dedicado ao extremamente popular curandeiro, isso é, charlatão televisivo soviético, Anatoly Kashpirovsky.
O show Kashpirovsky
Vestido todo de preto, num programa da TV soviética, chamado «Sessão de Televisão», surgia Kashpirovsky. Tinha o aspecto de um homem sob o efeito de drogas, com o cabela à Marlon Brando em «Júlio César». Começou a descrever o seu método de ligação com um «computador biológico» no corpo dos seus «pacientes», contando em como já tinha curado «centenas de milhares, talvez milhões» de tumores, hérnias e dores cardíacas, utilizando seu método. Falava devagar, em voz baixa, como se estivesse a ameaçar, como um disco de vinil de 16 rotações. Vangloriava-se de avanços médicos sem paralelo «em toda a história da humanidade», curando com sucesso pessoas de impotência, frigidez, cegueira, calvície, enfisema, quistos nos ovários, pedras nos rins, psoríase, eczema, varizes, cicatrizes, tuberculose, asma, diabetes, alergias, gaguez, astigmatismo e até «quatro casos documentados de cura de HIV-SIDA».
Depois disso, surgia a banda sonora, uma poderosa onda eletrónica, um barroco sintetizado.
«Liberte a sua mente de tudo», dizia Kashpirovsky, como um ventríloquo. «Liberte-a de aspirações e ambições. Feche os olhos. Deixe os seus sentimentos fluírem — o que quer que esteja a sentir agora. Terá sensações diferentes. O nosso silêncio é uma pausa, uma pausa sem palavras. As palavras são irrelevantes. Não há trabalho aqui. É difícil de compreender, porque as pessoas são treinadas para compreender a sua vida inteira. Esqueça tudo... Ouça a música... Não tenha medo do processo que começa no seu corpo... Se sentir algo a agitar-se por dentro, ignore...»
Parecia que mal conseguia piscar. O seu rosto brilhava. Por vezes, ficava em silêncio durante longos períodos — apenas a olhar fixamente, com um leve sorriso. É isso que um convidado dominador faz quando vem jantar a sua casa, já meio embriagado: tem a certeza de que está cativado por tudo o que ele diz.
«Alguns de vós estão agora a ver florestas, montanhas. Um... dois... três... Outros estão inundados de recordações muito tristes. Cinco... seis... Alguns estão a fazer planos para amanhã, a ponderar, a ponderar tudo... Sete...»
Ao contar até dez, Kashpirovsky desaparecia do ecrão. «A sessão terminou», disse.
Deveríamos estar curados.
* * *
Após as suas primeiras sessões, Kashpirovsky ganhou uma popularidade incrível; um culto começou a formar-se. Todos conheciam o seu nome e consideravam-no um génio ou então um vigarista. Contou que o seu arquivo continha mais de um milhão de telegramas e cartas — a maioria de telepacientes agradecidos. Os estudantes e os reformados deixavam claro que estavam dispostos a tudo para estar perto dele, estudar com ele, dormir com ele. Senhoras idosas contavam que agora tinham um retrato de Kashpirovsky naquele cantinho de casa, em que outrora colocavam o retrato de Lenine. Nas províncias, os vendedores ambulantes vendiam postais do czar Nicolau II, John Lennon, Jesus Cristo e Anatoly Kashpirovsky. Era provavelmente a única pessoa em Kyiv com três carros na garagem e uma conta bancária bem grossa. Os jornais que criticavam Kashpirovsky corriam um sério risco. Quando o semanário russo «Literaturnaya Gazeta» publicou um artigo a chamar Kashpirovsky de perigoso charlatão, foi inundado por uma avalanche de cartas indignadas, ao ponto de o editor ter cancelado a reportagem seguinte.
Alguns acreditavam que Kashpirovsky estava a curar não só as estrias e os lipomas, mas a União Soviética como um todo. Ele relutava em negá-lo. «Se eu me tornasse presidente, as pessoas beijariam as minhas pegadas após a minha morte: eu iria ao encontro do povo e agiria em seu benefício», dizia. A dimensão do seu eleitorado permanecia incerta, mas Kashpirovsky insistia que era significativo: «Ucrânia é demasiado pequena para mim».
Os primeiras seis programas televisivos de Kashpirovsky foram transmitidas para todo o território soviético no fim de 1989. Com o surgimento de movimentos políticos independentes, muitos deles anti-comunistas, e o surgimento de primeiras greves de operários e mineiros, a Perestroika começou a sair do controlo de Gorbachev. O sistema de saúde estava devastado: as próprias autoridades admitiam que apenas 30% dos medicamentos essenciais estavam disponíveis, e até a aspirina e a penicilina estavam indisponíveis. Havia relatos constantes de hospitais onde o fornecimento de água tinha sido cortado e eram realizadas cirurgias à luz das velas. A ascensão de Kashpirovsky ocorreu precisamente numa época em que as pessoas estavam perdidas e confusas, procurando orientação espiritual. Como acontecia frequentemente na história do império russo, a desestabilização levou a um crescente interesse pela magia, profecias e bruxaria. A busca de Deus levava as pessoas não só a igrejas, mesquitas e sinagogas, mas também a impostores como Kashpirovsky.
Quer no império russo, quer na URSS, os curandeiros e os espiritualistas estiveram sempre presentes. Um Leonid Brejnev já bastante senil convidou secretamente a famosa vidente Eugenia «Dzhuna» Davitashvili ao Kremlin. Na era de Perestroika, quando muitos dos tabús caíram, estas pessoas podiam agir abertamente. Na era Gorbachev, as idosas vendiam pulseiras de cobre nos parques da cidade, jurando que funcionavam como vacina contra a HIV-SIDA. Os horóscopos eram publicados em jornais do PC. A agência de notícias estatal TASS noticiou que um «objeto em forma de banana» que transportava «humanoides gigantes» e um robô anão tinha aterrado em Voronezh. Testemunhas oculares descreviam a nave espacial como uma «enorme esfera brilhante» contendo «um, dois ou três extraterrestres/alienígenas com três a quatro metros de altura, mas com cabeças muito pequenas».
Em Moscovo, um outro curandeiro charlatão e concorrente direto do Kashpirovsky, Allan Chumak lançou o seu próprio programa de TV. Chumak fazia gestos com as mãos, como se estivesse a acariciar um gato invisível, e «carregava/energizava» copos e frascos de água e todo o tipo de cremes e champós que as pessoas colocavam em frente dos seus aparelhos da TV.
À cada duas semanas Chumak aparecia no pátio do prédio, onde vivia e trabalhava, para curar as centenas de pessoas ali reunidas. Uma grande multidão aguardava-o. Alguns transportavam fotografias de crianças ou parentes doentes: esperavam que o curandeiro transmitisse a sua energia através da fotografia. Chumak ficava na varanda e convidava todos para sentirem a sua aura. Mas avisava-os de antemão: não podia curar os antigos chefões comunistas.
«As suas almas endureceram completamente», explicava.
* * *
Kashpirovsky, considerava Chumak como um vigarista; ele próprio que não era um curandeiro comum. Era um supermédico, um sacerdote secular da alma e do corpo. «Eu não curo. Eu implemento a Grande Ideia. Mas não promovo a religião. De que serve Jesus ter andado sobre as águas há dois mil anos? Como é que isso ajuda estas pessoas?» Coçava o queixo e refletia sobre a origem do seu extraordinário dom. «O poder espiritual que guiou Jesus Cristo provavelmente também vive em mim», dizia. «Daqui a 50 anos, penso que serei venerado como um santo».
Kashpirovsky formou-se em psicoterapia em Vinnytsya, uma cidade do interior da Ucrânia. Também trabalhou lá durante 28 anos num hospital psiquiátrico. O seu salário era modesto: para ganhar cem rublos extra por mês, carregava sacos de cimento e troncos de madeira em camiões basculantes à noite. Durante algum tempo, foi um halterofilista e pugilista/boxeador. Já com mais de 50 anos, orgulhava-se da sua boa forma física e afirmava: «Posso vencer qualquer campeão do mundo». Kashpirovsky contava que em 1975 sofreu um ataque agudo de pancreatite e quase morreu. Alegadamente esteve um ano num hospital na Ucrânia e depois foi para Sacalina, onde percorreu a ilha de uma ponta à outra, comendo, como contava, apenas um biscoito por dia. «Graças ao jejum, recuperei», afirmava.
Kashpirovsky começou a fazer experiências com hipnose e cura em massa em 1988. Realizou cinco sessões televisionadas em Kyiv e, segundo ele, curou milhares de crianças de enurese noturna. O método de tratamento era bastante obscuro: a cura verbal, que de alguma forma restabelecia o equilíbrio natural do corpo. «As experiências de felicidade e tristeza têm uma certa base material, bioquímica. Quando estou com medo, liberto muita adrenalina. Quando estou deprimido, ainda mais», explicava Kashpirovsky. «Abrem-se portões dentro de si, e você percebe informação. Como esses portões se abrem, não sabe — este é o meu método. A informação entra em si, mas como não sabe como, permanece dentro de si. Penetro mais fundo do que a consciência, na própria essência do organismo, e curo o corpo. A minha marca permanece lá».
Em 1989, Mikhail Nenashev, um cinzento aparatchik do PCUS e o dirigente máximo da TV estatal soviética, dizia aos seus assistentes que o principal objetivo da televisão era «acalmar e tranquilizar» as massas irrequietas. Em Kashpirovsky, Nenashev encontrou esta voz tranquilizadora. Autorizou as sessões espíritas de Kashpirovsky, que em 1989 eram transmitidas na TV não só na União Soviética, mas também na Bulgária, Polónia, Israel, Checoslováquia e países nórdicos. «Num país onde não se encontra sequer aspirina, é impossível não ter esperança num milagre», observava a jornalista moscovita Elena Chekalova. «Depois aparece alguém e oferece uma solução fácil, um milagre. Este fenómeno é bem conhecido nos países pobres e miseráveis». O conceituado pivó da televisão soviética/russa Leonid Parfenov acrescentava: «O papel de Kashpirovsky era o mesmo de Gorbachev em 1985-86. Até os gestos eram semelhantes. Os seus discursos estão repletos de absurdidades, mas mesmo assim cativavam o público e inspiravam a confiança».
Kashpirovsky realizou o seu maior feito televisivo durante uma teleconferência entre Kyiv e Tbilissi. Uma mulher chamada Lesya Yurshova, hospitalizada em Tbilisi, precisava de uma grande cirurgia abdominal. Recusou a anestesia geral e permitiu que Kashpirovsky, que se encontrava em Kyiv, a hipnotizasse através da televisão. O resultado foi uma fantasmagoria dividida entre duas capitais.
«Feche os olhos e cante 'Álamos, álamos!'", ordenou Kashpirovsky à pobre mulher. Ela até conseguiu trautear algumas notas dissonantes.
«Feche os olhos! Feche-os! Flutue!», dizia Kashpirovsky. «O seu estômago está dormente até à coluna! Os seus olhos estão fechados! Sentirá o instrumento, mas não a dor. Depois, faremos com que a cicatriz desapareça. Se um dos especialistas me perguntar se está a dormir ou não, o que responderá?»
«Não, não estou a dormir», respondeu a mulher timidamente. «Como posso dormir se sinto tudo?»
No final da operação, Kashpirovsky disse à plateia: «Agora, todos os que me assistiram podem ir ao dentista e extrair um dente. Não vai doer, garanto-vos».
Kashpirovsky declarou que o programa tinha feito um marco histórico na medicina — «não, na história espiritual!» Mas a doente rebelou-se. Mais tarde Lesya Yurshova contou aos jornalistas que, na verdade, sentiu uma «dor monstruosa» durante a operação, mas suportou-a porque «não queria desiludir Kashpirovsky».
O presidente da Associação Independente de Psiquiatria, médico ucraniano Yuri Savenko afirmou que a conivência do Ministério da Saúde da URSS com as sessões televisivas de Kashpirovsky era ultrajante. Considerou que se tratava de uma campanha secreta do PCUS para oferecer «pão e circo» às pessoas. Não era o único a acreditar que o PC precisava de tais programas para distrair as pessoas dos problemas e sofrimentos quotidianos. «O cristianismo é uma fina camada de verniz para os russos», dizia. «Mas, essencialmente, são pagãos. Observam os rituais sem compreender o seu significado. Na atual conjuntura política, o misticismo está a popularizar-se e, com um nível cultural tão baixo, assume formas escandalosas». Segundo Savenko, um dos seus colegas possuía «dados precisos» que comprovavam que as sessões de Kashpirovsky não só não curavam as pessoas, como, pelo contrário, levavam algumas à psicose. Nenhuma investigação foi conduzida. Não foi fácil para os jornalistas e médicos expor uma figura tão popular: em 1990, Kashpirovsky foi eleito Personalidade do Ano na URSS e tinha mais fãs do que qualquer político ou estrela de cinema.
* * *
Em digressão pela URSS, Kashpirovsky enchia salas de concerto, armazéns industriais e até estádios de futebol. As cassetes de vídeo das suas apresentações circulavam de mão em mão, à semelhança dos livros aoutrora proibidos de antigos dissidentes. Nas províncias, as salões de vídeo e os cinemas organizavam «noites de Kashpirovsky», exibindo as aparições do artista na televisão. Como homem de negócios, Kashpirovsky incomodava-se com a distribuição pirata destas gravações. No início de uma fita, pruduzida nos EUA, o aviso padrão do FBI sobre a ilegalidade da cópia pirata da fita, era seguido por uma mensagem do próprio Kashpirovsky: «Atenção! Caso for copiada, esta fita perderá as suas propriedades curativas!»
As digressões internacionais do Kashpirovsky eram uma mistura de New Age e Beatlemania. Ele até reconhecia que havia um «culto de Kashpirovsky», mas assegurava que «não vou ordenar que rebentem com uma central nuclear. Não há necessidade de se preocupar em tornar-se um novo Estaline ou algo do género».
Mas o mundo, todo o universo, não estava preparado para o seu dom. «A humanidade ainda não está madura para a salvação», dizia. «As capacidades técnicas ainda não existem. Imagine: todos estão saudáveis, ninguém está a morrer, as pessoas continuam a reproduzir-se. Para onde irão? Outros planetas ainda estão desabitados. É assim que funcionam as coisas».
No fim dos show, quando tudo terminava, Kashpirovsky ficava à beira do palco. Avós, mães e crianças apressavam-se a apertar-lhe a mão e a captar o seu olhar curador. Algumas tentavam falar com ele em privado — para lhes contar sobre os seus cancros, enxaquecas ou tumores. «Eu não sou um médico comum!», protestava Kashpirovsky, irritado. «Não me falem em doenças específicas!» No entanto, Kashpirovsky dava ocasionalmente conselhos aos pacientes que se queixavam dos seus problemas.
«Tome, então, seus comprimidos», dizia.
Blogueiro
O fenómeno de Kashpirovsky não podia estar ausente do imaginário quotidiano da minha própria família. Um dos meus familiares, nasceu naquela mesma época, com a hernia hereditária. Os seus avós, casal de professores escolares, com idades superores aos 60 anos (ele, à lecionar na área de física e qúimica e ela, na área de matemática: algebra e geometria), ambos com a formação superior completa, ficaram absolutamente entusiasmados com a possibilidade de rápida e eficiente cura televisiva. O menino foi colocado em frente do televisor, com as penas abertas ao ár e a sua piloca e a hérnia ao leu.
— Veja, exclamaram, no fim do programa, a hérnia já não está visível, o menino está curado!
Eu, um adolescente de apenas 13 anos, não estava nada convencido da manifestação daquele milagre, embora a vontade não me falatava de ver o menino querido completamente curado. Como era de prever, a hérnia reapareceu no mesmo lugar, onde estava desde sempre. A minha confiança no curandeiroismo televisivo desapareceu para sempre. Mais tarde, pelo mesmo caminho foi a minha confiança na educação fundamental soviética, como quase sempre, «a melhor do mundo».


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