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domingo, setembro 13, 2026

RIP Pavlo Sadokha, chefe da União dos Ucranianos em Portugal

Hoje, a comunidade ucraniana em Portugal ficou órfã. Pavló Sadokha, chefe da União dos Ucranianos em Portugal, vice-presidente do Congresso Mundial dos Ucranianos na região da Europa Ocidental, figura pública ucraniana de renome, grande patriota, homem de honra e filho fiel da Ucrânia, faleceu.

Pavló era para aqueles para quem a Ucrânia não era apenas uma pátria – era a obra da sua vida.

Durante muitos anos, uniu incansavelmente os ucranianos em Portugal e na Europa, defendeu os direitos dos ucranianos no estrangeiro, defendeu os interesses ucranianos, preservou a nossa identidade nacional e opôs-se resolutamente à propaganda russa.

Especialmente após o início da guerra em grande escala, Pavló dedicou todas as suas forças a ajudar a Ucrânia. Serviu-a com a sua palavra, o seu trabalho, a sua autoridade e luta diária, longe da sua terra natal.

Viveu pela Ucrânia.

Ele acreditava nela. Ele acreditava na nossa vitória. Ele acreditava no povo.

Hoje é extremamente difícil acreditar que Pavló já não está entre nós. É ainda mais difícil encontrar palavras que possam expressar a dor desta perda.

Neste momento terrível, expressamos as nossas mais profundas e sinceras condolências à sua esposa Teresa, aos pais de Pavló, à sua irmã Kateryna e a toda a sua família. Partilhamos a vossa dor indescritível e lamentamos convosco.

Inclinamos as nossas cabeças em solidariedade com todos os familiares, entes queridos, amigos de Pavló e toda a comunidade ucraniana.

Que a tua memória seja brilhante e eterna, Pavló.

A tua devoção à Ucrânia, a tua luta e tudo o que fizeste pelos ucranianos em Portugal e muito para além das nossas fronteiras permanecerão connosco.

Obrigado pela Ucrânia, que carregaste no teu coração até ao fim.

Memória eterna. 

Blogueiro 

Aparentemente, Pavló Sadokha faleceu de causas naturais. No entanto, é preciso recordar que durante longos anos, mas principalmente desde o início da invasão russa em larga escala em 24.02.2022, Pavló Sadokha foi alvo de inúmeras chamadas, mensagens e intimidações por parte de simpatizantes pró-russos devido à sua posição pública em defesa da Ucrânia e denúncias de redes de propaganda russa na Europa.

Fernando Bulhões da Câmara — ex-militar português de 77 anos e número dois da lista da coligação Partido Comunista Português (PCP)/PEV à Câmara de Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel, Açores foi a julgamento, acusado de crimes de perseguição e tentativa de coação por telefonar e enviar mensagens de ódio e ameaçar de morte ao Pavlá Sadokha para que este abandonasse Portugal ou cessasse as suas atividades públicas.

O nosso blogue nunca esquecerá o amigo Pavló, que efetivamente, dedicou toda a sua vida à causa ucraniana. Ele viveu pela Ucrânia e faleceu por ela.

Glória à Ucrânia!

Glória aos Heróis! 

sexta-feira, julho 17, 2026

Massacre de civis ucranianos pelas forças armadas da Polónia comunista

O massacre de Goraytsi (Gorajec) foi a destruição física de uma aldeia ucraniana, perpetuada pelas forças comunistas polacas. Tudo o que restou da memória dos ucranianos é o cemitério, mas reparem nestas lápides – foram erguidas após o massacre e antes da deportação massiça dos ucranianos da Polónia em 1947.

Os ucranianos conseguiram preservar a memória. Indicam a causa da morte. Por exemplo, a família ucraniana Kurij enterrou aqui três gerações de mulheres de uma só vez – Eva (1895), Maria (1919) e Anna (1943), a menina Anna só tinha dois anos: «aqui descançam servas do Deus Eva, Maria e Ana Kurij, mortas pelos polacos aos 6 de Abril de 1945 em Goraytsi». A palavra «polacos», neste e em vários outros túmulos, está parcialmente apagada, arrasada. Os atuais moradores da aldeia não gostam de recordar dessas coisas, percebem? 

«Eva, Maria e Ana Kurij, mortas pelos polacos aos
6 de Abril de 1945 em Goraytsi»

Eis o que escreve a Wikipédia polaca sobre massacre de Gorajec:

No dia 5 de abril [de 1945], às 21h00, o 2º batalhão operacional independente do Corpo de Segurança Interna (KBW), juntamente com a milícia sob o comando do Tenente-Coronel Stanisław Shopinski, saiu do quartel em Lyubachów. No dia seguinte, às 4h50, o batalhão, dividido em quatro grupos, assumiu posições de combate. Os Gorajec e os seus povoados foram cercados. Às 5h, a ofensiva começou. Iniciou-se com um bombardeamento de morteiros, seguido de um ataque de infantaria. Às 6h10, a aldeia foi ocupada. O exército permaneceu em Gorajec até às 10h00, matando civis por todo o povoado. Cerca de 60 pessoas foram fuziladas numa das quintas. A aldeia foi incendiada e muitas outras pessoas que se escondiam dos assassinatos foram queimadas vivas nos edifícios. As ações do exército foram acompanhadas pelas ações de civis polacos. Os bens dos moradores foram confiscados à favor do exército. Durante a operação morreram 174 pessoas [ucranianas]: 32 mulheres, 35 crianças e 19 pessoas com mais de 60 anos.

O objetivo da operação era (supostamente) destruir o quartel-general do Exército Insurgente Ucraniano (UPA). No entanto, naquele momento, nenhuma unidade do UPA estava estacionada na aldeia. A única força armada na aldeia era um pequeno destacamento da autodefesa ucraniana. A verdadeira tarefa das unidades polacas era intimidar os residentes para os obrigar a abandonar o território polaco.

Aqui repousam Teodor Vorobel, que viveu 53 anos, e Yuriy Vorobel, que viveu 48 anos.
Mortos às mãos dos polacos. Em 06/04/1945 (a inscrição está parcialmente destruída)

Os restantes residentes de Gorajec — quase mil pessoas — foram deportadas [no decorrer da operação Wisla]. Há muitas aldeias como esta. Presidente Nawrocki devia consultar a Wikipédia. Ou talvez já a tenha lido... Entre 1944 e 1947, mataram e deportaram todos os ucranianos do seu próprio território.

Foto e texto de Artur Mielnik

Bónus

No entanto, a Polónia atual não pode ser vista unicamente através dos crimes do passado ou através das ações criminosas e retórica violenta da extrema-direita polaca.

A livraria polaca/polonesa «Toniebajka. Księgarnia dla wszystkich», em Bydgoszcz, colocou uma placa à entrada com palavras de apoio aos ucranianos.

Diz a placa que, se na Polónia esperem pedidos de desculpas dos indivíduos pelas ações dos seus familiares ou por acontecimentos históricos, então a própria livraria quer pedir desculpa aos ucranianos pelos ataques que hoje sofrem por parte dos extremistas polacos, e questiona também porque é que ninguém espera um pedido de desculpas de putin.

«Se Michnik tem de pedir desculpa pelo irmão, Tusk pelo avô e Sofia, de 12 anos, por Volyn, então Toniebajka pede desculpa pelos ataques dos polacos contra ucranianos (e se pergunta: porque é que ninguém espera um pedido de desculpas de putin?»)

Numa outra publicação, o proprietário da livraria, Piotr, escreveu que estava envergonhado pela onda de sentimentos antiucranianos na Polónia, pela redução da ajuda aos refugiados e pelos recentes ataques [por enquando sem derramamento de sangue], às crianças ucranianas. Disse ainda que queria pedir desculpas pessoalmente aos ucranianos que lutam contra os russos, trabalham na Polónia ou procuram refúgio no país.

sexta-feira, julho 03, 2026

Yaroslav Haivas: o ativista da OUN perseguido pelo KGB por 40 anos

Foto do Yaroslav Haivas e sua filha do arquivo do MGB-KGB

MGB-KGB soviético passou décadas a tentar aproximar-se ao Yaroslav Haivas (1912–2004). Em certa altura, era considerado, pelos soviéticos, como uma das figuras mais perigosas do movimento de libertação nacional da Ucrânia. 

Yaroslav Haias, década de 1950 (?)

No final, em 1982, o seu processo foi arquivado, KGB foi obrigado a admitir que era impossível recrutá-lo. Infelizmente, hoje, o seu nome não está devidamente lembrado, mesmo por aqueles, que se interessam pela história ucraniana. 

Quando jovem, juntou-se ao movimento escuteiro ucraniano, Plast, posteriormente à Organização Militar Ucraniana (UVO) e, em seguida, à OUN. Foi um bancário nas instituições ucranianas de crédito na 2ª república polaca, nos meados da década de 1930. Foi preso e encarcerado pelos polacos, liderou os serviços de informação, foi adjunto de Roman Shukhevych no Comité de Autodefesa, durante a II G.M., chefiou o grupo expedicionário da OUN para o leste da Ucrânia e, durante o período mais difícil de 1944-1945, serviu como líder da OUN-M.

Em documentos do KGB desclassificados, os chekistas escreveram sobre ele:

«Pessoas como ele não podiam ser recrutadas, nem persuadidas a abandonar as suas atividades antissoviéticas.»

Informação confidencial sobre Haivas, processo do KGB, 1952

Em 1944, foi procurado pela Gestapo. Yaroslav escapou-lhes saltando de uma janela. A sua mulher e a sua mãe foram enviadas para um campo de concentração pelos nazis, e duas crianças pequenas tiveram de ser resgatadas secretamente. Alguns meses depois, os ativistas ucranianos conseguiram a libertação das duas mulheres, e a família voltou a reunir-se.

Após o fim da II G.M., a luta ucraniana não terminou. O KGB tentou infiltrar-se no seu círculo íntimo durante décadas. Recrutou agentes, criou operações especiais, tentou usar os seus conhecidos e familiares, escreveu artigos difamatórios e procurou até a mais pequena prova comprometedora.

A sua cunhada, Daria Andrianovych-Sytnytska, era agente do MGB,
«Pravdyva» (Verdadeira), vivia em Lviv, faleceu antes de julho de 1952   

Mas, de cada vez, deparava-se com um problema: Haivas tinha uma vasta experiência em trabalho clandestino, inteligência e contra-informação. Sabia ver o perigo onde outros poderiam não o notar.

Mais tarde, Yaroslav Haivas tornou-se secretário executivo do Comité do Congresso Ucraniano da América (UKKA), editou os jornais ucranianos «Svoboda» e «Shlyakh Peremohy» (Caminho da Vitória), escreveu livros e continuou a trabalhar pela causa ucraniana no mundo.

Memórias do Yaroslav Haivas: «Liberdade não tem preço»,
publicadas nos EUA em 1972, PDF, DjVu, 312 pág, ucraniano

Em 1982, o seu processo no KGB foi encerrado. Após décadas de vigilância, os serviços secretos soviéticos admitiram, efectivamente, a sua derrota. Por vezes, a grandeza de uma pessoa é melhor demonstrada não pelas suas condecorações, mas pelos documentos do inimigo. A história de Yaroslav Haivas é exatamente um desses casos.

Fonte

terça-feira, março 10, 2026

O primeiro Taras Shevchenko em África

Ocorreu um acontecimento histórico na República do Botswana: naquele país foi erguido o primeiro monumento ao poeta-mor da Ucrânia, Taras Shevchenko, no continente africano, informou o ministro dos NE/RI da Ucrânia, Dr. Andrij Sybiha. 

Fonte: threads.com/@anastasia_elenok

A inauguração do monumento decorreu na maior instituição de ensino do país, a Universidade do Botswana, com a participação da direção, professores, estudantes, corpo diplomático estrangeiro, comunidade ucraniana e jornalistas. 

O monumento foi criado em bronze botsuano pelo escultor Franois Koteze. Durante a cerimónia, o Decano da Faculdade de Ciências Humanas, Tapelo Otlokhetswe, leu a sua própria tradução do «Testamento» para a língua nacional do Botswana, o setswana. 

Existem 1.384 monumentos ao Taras Schevchenko, conhecido como «Kobzar» no mundo, a maioria na Ucrânia, mas 128 estão em 35 outros países. Agora, o primeiro Estado africano, o Botswana, junta-se a eles.

Monumento do Shevchenko metralhado pelos ocupantes russos em Bucha, 2022

Estou grato à Diretora do nosso Departamento de África e Organizações Regionais, Lyubov Abravitova, ao Embaixador da Ucrânia no Botswana, Oleksiy Sivak, e à equipa da embaixada pela implementação desta importante iniciativa, à direção da Universidade do Botswana pela sua cooperação e à nossa comunidade pela sua preocupação. O primeiro Kobzar em solo africano representa a universalidade das ideias de Shevchenko, a intemporalidade das suas palavras e o poder do seu pensamento, que ao longo dos séculos uniu o povo ucraniano e o mundo inteiro em torno dos valores universais da liberdade, da justiça e da identidade nacional, - escreveu o ministro na sua página do Facebook.

Testamento, poema do Taras Shevchenko (1814-1861) 

Quando eu morrer, me enterrem

Na minha amada Ucrânia,

Meu túmulo ficará sobre um monte elevado grave

Em meio à planície se espalhando,

Assim como os campos, as estepes sem limites,

A margem que mergulha do Dnipro.

Meus olhos já podem ver, meus ouvidos ouvem

O rugido poderoso do rio.

 

Quando da Ucrânia

lançado será ao mar azul profundo

o sangue dos inimigos

Então, eu vou deixar

Esses montes e campos férteis

e voar para longe

Para a morada de Deus,

E então eu irei rezar.

Mas até esse dia

Eu nada saberei de Deus.

 

Depois de me enterrar, levantem-se

E rasguem as grilhetas que nos prenderam,

lancem na água o sangue dos tiranos

e comemorem a liberdade

que conquistarão.

E na grande família nova,

A família do livre, do Justo e do Fraterno,

Com fala mansa, e palavras amáveis,

Lembrem-se também de mim.

Tradução livre por Jaime Leitão (com algumas correções do nosso blogue)

É de recordar, que em abril de 2025, a estudante russa de 19 anos, Daria Kozyreva, foi condenada a 2 anos e 8 meses de prisão por ter colado um pedaço de papel com o poema «Testamento» no monumento de poeta ucraniano Taras Shevchenko em São Petersburgo.

Foto: VK da Daria Kozyreva


sexta-feira, fevereiro 27, 2026

A Missa conjunta pela Paz na Ucrânia em Moçambique

No domingo de 22 de fevereiro de 2026, a Embaixada da Ucrânia, liderada pelo Embaixador Rostyslav Tronenko, juntou-se à Comunidade ucraniana, aos Embaixadores e altos representantes do Corpo Diplomático, aos Amigos da Ucrânia e aos paroquianos na Igreja Ortodoxa Grega dos Santos Arcanjos Miguel e Gabriel, em Maputo, para uma Missa conjunta pela Paz na Ucrânia.


A Missa foi realizada no contexto do Dia Nacional de Oração na Ucrânia para assinalar 4 anos desde o início da agressão em grande escala da rússia contra Ucrânia e também 12 anos de ocupação ilegal da Crimeia e da cidade de Sebastopol — uma violação contínua do direito internacional e da Carta da Organização das Nações Unidas.

Rezou-se pelos heróis que deram as suas vidas pela liberdade e soberania da Ucrânia, pelas vítimas inocentes desta guerra e por uma Paz justa, abrangente e duradoura.


Durante a Missa, foram também expostos ícones da Santíssima Virgem Maria, apresentados em Moçambique pela primeira vez.

As obras de iconógrafos ucranianos Sonya Atlantova, Oleksandr e Herman Klymenko, desenhados sobre fragmentos de caixas de munições trazidas da linha da frente, constituem testemunhos silenciosos da guerra e, ao mesmo tempo, símbolos da vitória da vida sobre a morte.

Expressamos a nossa sincera gratidão ao Padre Silvio, aos Embaixadores e altos representantes do Corpo Diplomático, à Comunidade Ucraniana, aos Amigos da Ucrânia e a todos paroquianos da Igreja Ortodoxa Grega pela sua solidariedade, apoio e orações pela Ucrânia e pelo povo Ucraniano. 

Bónus 

Parabéns pelo seu 75º Aniversário ao grande amigo da Ucrânia, Cônsul Honorário da Ucrânia em Maputo, Dr. Abílio de Lobão Soeiro.


quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Propaganda soviética dirigida especialmente aos emigrantes e ostarbeiters

Após o fim da II G.M., a propaganda soviética produzia diversas publicações que exortavam os emigrantes, principalmente da Argentina e do Brasil e aos antigos ostarbeiters à retornar ao paraíso socialista, caso dos jornais «Pelo Retorno à Pátria», em ucraniano e em belaruso, publicados e distribuídos em 1956-1957. 

Enquanto milhares de ucranianos e belarusos foram enviados aos campos do GULAG e o mundo ocidental se recuperava dos horrores da Segunda Guerra Mundial, a máquina de propaganda soviética trabalhava a todo vapor para atrair emigrantes e «deslocados internos» (DP) à retornar à União Soviética. 

«Pelo retorno à Pátria», março de 1957, edição ucraniana

Os segredos do «gancho» comunista 

As páginas que podemos ver nas imagens, descrevem uma vida na URSS completamente idílica:

«Igual e feliz»: histórias sobre «direitos incríveis» das mulheres, medicamentos gratuitos e cuidados gerais, providenciadas pelo Estado.

«Com felicidade eles voltam para casa» (edição belarusa): fotos encenadas de repatriados felizes, supostamente retornando da Brasil, da Argentina ou dos EUA para um paraíso de kolkhozes, isso é fazendas coletivas «prósperas». 

Temas culturais: artigos sobre novas obras musicais, concertos e «infância feliz». 

Foi uma operação psicológica do KGB, especialmente planeada. Jornais eram distribuídos nos campos de refugiados e deslocados em toda a Europa, colocados nas caixas de correio de emigrantes, tentando explorar a sua possível nostalgia e as situações económicas complicadas de alguns. 

«Pelo retorno à Pátria», junho de 1956, edição belarusa

Onde essas ilusões eram fabricadas? 

A edição belarusa de junho de 1956 conta a história da família numerosa do ucraniano Alexander Satsik (Satsyk), que vivia no Brasil na colónia Mandury (possivelmente Mandurah em Manduritiba no Paraná). Publicação diz que a família se dirige à região de Odesa.

O centro dessa «fábrica de sonhos» não ficava em Kyiv ou Mensk/Minsk, mas na zona de ocupação soviética de Berlim. A redação do comité «Pelo Retorno à Pátria», liderado pelo major-general do KGB Nikolai Mikhailov e seus colaboradores, que serviam os interesses de Moscovo/ou, estava localizada em: Berlin NW 7, Schadowstraße 1b.

Foi daqui que milhões de cópias de mentiras foram espalhadas por todo o mundo, prometendo anistia geral e «montanhas de ouro». Em vez disso, muitos dos que acreditaram e retornaram se viram diante de interrogatórios, campos de filtragem, deportações / exílio ou vida sob a vigilância eterna das autoridades soviéticas.

Oitente anos depois, em nome da cidade ucraniana de Mariupol, ocupada pelos russos, foi criado um canal no YouTube onde são contadas «histórias fascinantes» sobre a reconstrução da cidade e das condições de vida «maravilhosas» sob a ocupação russa. Nada de novo na propaganda estatal russa... 

Fonte: Arquivo da OUN. - Biblioteca. - Jornais. - Inv. nº 71-72 

Blogueiro: é de notar, que os jornais eram impressos no papel de uma qualidade superior, usando uma ótima base poligráfica (uso das imagens artificialmente coloridas), muito melhor do que vários jornais soviéticos das décadas de 1970-80. Os jornais usam como slogan as frases «Glória à grandiosa terra pátria!» (edição ucraniana) e «Glória, à Pátria nossa livre!» (edição belarusa) em vez do unificado «Proletários de todos os países uni-vos!», que praticamente TODOS os jornais soviéticos usavam até fim da URSS em 1991. Estes jornais falam vizivelmente menos do socialismo/comunismo ou de autoridades soviéticas, em vez disso fala-se do «Estado» e muito abundamente dos «cuidados do Estado».

domingo, janeiro 11, 2026

Yuriy Kosach: sobrinho da Lesya Ukrainka e agente do KGB nos EUA

Yuriy Kosach foi um talentoso escritor ucraniano, que vivia nos EUA e também um agente do KGB. Sobrinho da poetisa ucraniana Lesya Ukrainka, um emigrante, um homem que passou por mudanças ideológicas notáveis ​​– de nacionalista à amigo da URSS na Diáspora, escreve o historiador ucraniano Eduard Andrusenko. 

Yuriy Kosach com esposa Daria e filho Yuriy nos EUA

Todos os que se interessam por Kosach, em princípio, supõem que terá colaborado com os serviços secretos soviéticos. No entanto, não foi possível encontrar nada específico nos ficheiros. No entanto, em 2025, o brilhante investigador ucraniano Roman Skakun (autor do livro sobre a liderança da Igreja Ortodoxa Russa ao serviço do MGB-KGB) encontrou um documento interessante num dos processos. Os KGBistas mencionam que o seu agente «Pasechnyk» (Apicultor), publicava uma revista chamada «Além do Oceano Azul».

«Além do Oceano Azul». 1º número, Set. 1959

Acontece que a revista literária pró-soviética «Além do Oceano Azul» era publicada em Nova Iorque por Yuriy Kosach. Portanto, ele era o agente «Pasechnyk». Recrutado em 1959 pelo residente do KGB em Nova Iorque, coronel Valentin Tsurkan, que desenvolvia as suas atividades nos EUA sob a cobertura legal do membro da delegação oficial da Ucrânia soviética na ONU. Acontece que o processo do agente ainda se encontra nos arquivos da secreta ucraniana externa, SZRU.

Yiri Kosach propõe ao KGB «combater a OUN-R de uma forma implacável»

KGB considera ataques aos outros grupos da emigração ucraniana, nomeadamente o
Conselho Supremo da Libertação da Ucrânia (UHVR) e aos católicos sejam «contraproducentes».



21.10.1960. Informe do KGB sobre agente «Pasechnik»

KGB produziu vários relatórios secretos e absolutamente secretos sobre Yuri Kosach e sobre a sua revista (agente «Pasechnik» recebia o dinheiro, em numerário, das mãos do Valentin Tsurkan).

 

A folha do KGB que regista a alocação dos fundos ao agente «Pasechnik».
A maior parte dos pagamentos em 1960-62 e apenas dois, em rublos, em 1971

Nos arquivos do SZRU podemos encontrar um relatório sobre o interrogatório de Kosach pelo FBI, fotos do agente tiradas nos EUA e na Ucrânia (incluíndo as chamadas «fotos operacionais», tiradas pelos agentes do KGB às escondidads de Kyiv), um CV de agente, uma lista de pagamentos em dinheiro, um recibo dos fundos recebidos, uma nota para o chefe do KGB da URSS, Shelepin.

Pedido ao chefe do KGB, camarada Shelepin, de atribuição de um
financiamento de 600 dólares mensais para a publicação da revista.

Foto do Yuriy Kosach na imprensa soviética

O historiador, jornalista e militar ucraniano no ativo, Vakhtang Kipiani, escreveu: “O homem com o pão na foto poderia tornar-se o herói de uma série televisiva. Trata-se de Yuriy Kosach, um escritor talentoso, sobrinho de Lesya Ukrainka. Na sua juventude, foi nacionalista; na década de 1940, já nos campos de refugiados na Alemanha, foi membro do “Movimento Artístico Ucraniano”. No início da década de 1950, algo mudou nele nos Estados Unidos, e foi praticamente o único daquela geração a tornar-se... um sovietófilo. Tinha recursos para publicar a revista “Além do Oceano Azul”. Os seus livros foram publicados na Ucrânia soviética. Era mimado [pelo regime comunista] com honorários generosos e grande destaque na imprensa [soviética]. O jornal «Visti z Ukrainy» (Notícias da Ucrânia), controlado diretamente pelo KGB e que cobria as relações com os compatriotas no estrangeiro, publicou a seguinte frase do escritor: “Estando na emigração e com uma família para sustentar, durante mais de 30 anos fui forçado a viver com o pão duro de um exilado”. Mas nunca regressou definitivamente à pátria. Dá para imaginar porquê».


Yuriy Kosach em Kyiv em 1971, fotos do KGB

Enquanto espiavam Yuriy Kosach em Kyiv em 1971 (ser um agente do KGB não significa estar livre da vigilância constante do KGB; nos seus relatórios foi lhe atribuído o nome do código «Ksash»), as câmaras de KGBistas apanharam a linguista ucraniana Zynoviia Franko (detida em 1972 e quebrada psicologicamente, pelo KGB, tornando-se a agente/informadora «Zina») e o tradutor ucraniano Mykola Lukash.

Zinovia Franko e Mykola Lukash, foto do KGB

Em geral, até os dias de hoje sobreviveram pouquíssimas «fotos operacionais» (fotos tiradas pelos agentes do KGB com uma câmara escondida) de ucranianos proeminentes, por isso cada descoberta deste tipo é única.

Confirmação da recepção dos 2.400 dólares em abril de 1961, cerca de 26.000 em 2026

Fontes documentais: Arquivo Estatal do SZRU; pesquisa: Eduard Andrusenko

Blogueiro: não se sabe, por enquanto, o que ditou o seu afastamento do KGB, no entanto, desde 1962-63 ele deixou de receber o subsídio soviético para publicação da sua revista. As suas publicações literárias na Ucrânia soviética eram muito raras e foram publicadas com tiragens limitadas. O escritor morreu, na relativa pobresa, no seu segundo casamento nos EUA no dia 11 de janeiro de 1990.

domingo, janeiro 04, 2026

O mundo ucraniano-canadense do William Kurelek

William (Vasyl) Kurelek (1927 – 1977) – foi o artista e escritor canadense de origem ucraniana, autor de até 10 mil pinturas, gravuras e outras obras, incluindo mais de 4 mil dedicadas à história dos primeiros imigrantes ucranianos no Canadá, escreve a Diaspora.ua 

Quanta aconchego familiar e conforto doméstico há nesta pintura, aparentemente simples. Mas, ao observar os detalhes cuidadosamente pensados ​​e reproduzidos, que recriam com incrível precisão e riqueza a vida cotidiana e a atmosfera de uma celebração familiar, é como se você mesmo estivesse lá, ao lado dos personagens da pintura. E é como se você também estivesse sentado à mesa, sentindo o cheiro da comida, ouvindo a conversa entre mãe e filha e os comentários para a avó, e junto com o menino você observa o beijo dos anfitriões... Este é um dos destaques das pinturas detalhadas de William Kurelek.

Ele também costumava escrever uma «história» através das suas pinturas, explicando o que está retratado nelas e focando em detalhes individuais. Por exemplo, nesta pintura ele conseguiu chamar nossa atenção para o canto – um atributo indispensável das festas de Natal ucranianas, em particular a Noite Generosa.

William Kurelek. Pioneiro Ucraniano. N° 6. 1971

Crescendo em uma fazenda ucraniano-canadenses em Alberta, com seus vastos campos dourados de trigo, e conhecendo bem o árduo trabalho dos agricultores, o artista, já na vida adulta, retornou repetidamente ao tema da vida dos emigrantes ucranianos no Canadá, criando um ciclo de obras próprio intitulado «Pioneiros».

William Kurelek, «Burdey», 1971

Esta obra de Kurelek, pintada em 1971, chama-se precisamente «Burdey» (uma palavra regional ucraniana que significa literalmente, casebre, abrigo). Ela retrata um esboço da vida de uma família ucraniana de imigrantes da primeira leva, numa habitação como esta: uma noite fria de inverno, tudo coberto por uma espessa camada de neve, por onde uma mulher (obviamente, a mãe) caminha, carregando água para sua charrua para cozinhar o jantar. Seu marido provavelmente está trabalhando, algures, como um trabalhador contratado, possivelmente na agricultura - naquela época, era comum que, no primeiro inverno, os imigrantes ucranianos recém-chegados tentassem ganhar a vida para sustentar a família, o gado e as sementes, ou, na primavera, começar a cultivar a terra.

As cores simbólicas da pintura também chamam a atenção: a neve azul e o céu iluminado pelo sol poente amarelo. 

A pintura está guardada no Museu Ucraniano do Canadá, Departamento de Alberta.

William Kurelek: «Na casa dos primeiros pioneiros ucranianos», 1972

Uma das características marcantes das pinturas de Kurelek é a atenção dada aos detalhes, especialmente na representação do quotidiano. Aqui também, os objetos que vemos indicam a situação financeira da família, a preservação das tradições trazidas pelos emigrantes de sua terra natal, bem como o desejo de manter uma conexão com a Ucrânia por meio de seus símbolos, como Taras Shevchenko – o artista não colocou seu retrato na parede por acaso.

William Kurelek: «Primeira igreja ucraniana no Canada»

Em 1971, 15 anos antes do desastre nuclear de Chornobyl, Wlliam Kurelek, pintou uma tela simbólica que pode ser considerada uma obra profética da tragédia de 26 de abril de 1986.

William Kurelek, quadro sem o título, 1971

Fonte: ©Diaspora.ua

William Kurelek viajou pela primeira vez para a Ucrânia em 1970. Visitou brevemente a aldeia ancestral da sua família, Borivtsi, apesar de estar sob forte vigilância das autoridades soviéticas. A viagem inspirou a obra monumental «O Pioneiro Ucraniano» (1971, 1976). Com o advento do multiculturalismo, os interesses de Kurelek expandiram-se para incluir outros grupos linguísticos, étnicos e religiosos no Canadá. Antes de falecer, concluiu séries sobre os Inuit, bem como sobre os canadianos de origem judaica, francesa, polaca e irlandesa.

William Kurelek, autoretrato, 1957. Fonte: Art Canada Museum


domingo, novembro 30, 2025

Standing Free: a bomba levou a minha casa

Standing Free é a primeira longa-metragem do diretor ucraniano-canadense Max Khomenko. Trata-se de um projeto documental profundamente pessoal, filmado durante suas três viagens à Ucrânia em plena guerra. Através das histórias de crianças, civis e soldados, Max mostra o custo humano da agressão russa e sua própria trajetória pelo país devastado pela guerra.

Ao trabalhar no filme, ele arriscou a vida, filmando nas linhas de frente no leste da Ucrânia e trabalhando ao lado de militares da Brigada «Azov», da Primeira Brigada Presidencial, da 3ª Brigada de Assalto e da 95ª Brigada Aerotransportada de Assalto.

O mundo mudou como o conhecemos. Uma destruição que se espalha para além das fronteiras da Ucrânia é mostrada através dos olhos de um canadense com raízes ucranianas. Os efeitos dessa guerra são explorados em um formato de documentário artístico. Um adolescente de Vancouver abandona sua vida pacífica para se reunir com sua família na Ucrânia. Ele viaja e documenta opiniões e depoimentos de especialistas pelo Canadá, Geórgia e Eslováquia. Finalmente, ele chega à casa de sua família, que foi bombardeada pelos russos. Max então realiza entrevistas com cidadãos ucranianos e soldados do exército para revelar os efeitos da guerra e como pessoas comuns superam imensos obstáculos.

Com o apoio da Fundação «Shevchenko», o filme já foi exibido em cinco países em formato de curta-metragem, arrecadando fundos para iniciativas humanitárias e de manutenção da paz na Ucrânia. Quatro anos de trabalho árduo no projeto renderam a Maxim o Prêmio Humanitário John Gibbard (2023) da Associação das Nações Unidas no Canadá.