quinta-feira, fevereiro 21, 2019

Em memória da Centena Celestial (19 fotos)

Cinco anos atrás morreu em Kyiv a Centena Celestial — assim na Ucrânia são chamados os manifestantes que foram assassinados ou mortalmente feridos em confronto com polícia do regime do presidente Yanukovych no decorrer do movimento Maydan — principalmente nos dias 18, 19 e 20 de fevereiro de 2014.

Exatamente nesses dias Yanukovych tentava impedir a votação no Parlamento ucraniano (Rada Suprema) pelo retorno à Constituição de 2004 [que limitava os poderes presidenciais e transformava Ucrânia numa república semipresidencialista], apostando na última tentativa desesperada de derrotar o movimento Maydan.

Nos dias 18 e 19 de fevereiro, decorreu a tentativa de assalto das barricadas de Maydan, por parte das forças do regime (destacamento “Berkut”), e em 20 de fevereiro, os manifestantes na rua Institutska foram alvos de armas do exército, principalmente AK e espingardas/rifles de precisão. Yanukovych tentou com todas as suas forças reprimir o Maydan, mas não conseguindo e, assustado com suas próprias ações, acabou por fugir, com todas as suas propriedades para a cidade russa de Rostov. O dia 20 de fevereiro também é considerado o dia da vitória de Maydan – na sua última batalha, os ucranianos não cederam, Maydan sobreviveu e derrotou o tirano.

Como tudo começou?

No dia 18 de fevereiro de 2014 o Parlamento da Ucrânia deveria votar a lei que previa o retorno à Constituição de 2004 – uma das demandas mais importantes de Euromaydan, que privaria Yanukovych do seu poder ditatorial. Do lado de Maydan, colunas de manifestantes se dirigiram ao Parlamento (na rua Hrushevsky) para apoiar os deputados nesta votação – as pessoas estavam vestidas de forma festiva, havia, entre eles, pouca gente pertencente às unidades da autodefesa de Maydan.
A coluna foi atacada por forças de segurança – que, aparentemente, pretendiam, por ordem de Yanukovych, interferir na votação parlamentar. Destacamento da polícia “Berkut” começou espancar todos os cidadãos que estavam se dirigir ao Parlamento. “Berkut” era apoiado pelos bandos chamados de “titushki” (parcialmente polícias vestidos à civil, parcialmente marginais contratados), que espancavam, com muita crueldade, os que caíssem no chão. As primeiras mortes da futura Centena Celestial surgiram naquele momento.
As colunas de manifestantes se retiraram até Maydan, onde sob as coberturas das barricadas tinham único lugar no centro de Kyiv, à salvo da polícia e dos titushki. As forças de segurança pressionavam – aparentemente cumprindo a ordem de Yanukovych – e os manifestantes começaram criar uma cortina de fumaça e de fogo, incendiando os pneus, colchões e até mesmo sacos de roupas quentes.
Em 19 de fevereiro, durante o assalto ao Euromaydan, polícias e SBU queimaram o Prédio dos Sindicatos de Kyiv, que na época era a sede do comando do Euromaydan. Um número, até hoje, indeterminado dos manifestantes ucranianos feridos morreu naquele fogo, pois os andares de cima serviram de hospital de campanha.
Jovens delinquentes, conhecidos como titushki, armados com as pistolas se escondem atrás da polícia ucraniana.
Após o seu ataque frustrado na noite de 18 à 19 de fevereiro, as forças de segurança e “Berkut” deixaram as suas posições apressadamente. Quando os manifestantes novamente foram marchar até o Parlamento, subindo a rua Institutska completamente vazia, foram alvo direcionado de armas automáticas – uma emboscada planeada.
Fogo contra os manifestantes foi aberto por uma unidade especial trajada de preto, muito possivelmente a unidade especial das tropas do Ministério do Interior (VV) da Crimeia, chamada “Tin” [literalmente “Sombra”, aparentemente comandada pelo coronel da polícia ucraniana e SBU Serhiy Asavelyuk, que já em abril de 2014 participou nos primeiros e duríssimos combates da OAT contra os grupos organizados de mercenários russos, demonstrando a bravura em combate]. As forças de segurança atiraram contra as pessoas quase à queima-roupa, esperando que quando matarem os mais ativos, Maydan simplesmente se dispersaria.
Os atiradores do coronel Serhiy "Asa" Asavelyuk
Apesar de serem alvejados por armas de fogo, e tendo apenas os escudos metálicos e até de contraplacado, os manifestantes ucranianos caiam, morriam, mas não recuavam, tentando salvar seus companheiros e carregando os feridos por cima dos escudos. Um dos vídeos mais terríveis foi filmado naquele dia na rua Institutska. Mostra um menino ucraniano muito jovem [músico e estudante Dmytro Holubnichiy de Lviv de apenas 16 anos, o mesmo que aparece no filme documental Winter of Fire] que está na primeira linha de confronto. Vemos uma das barricadas móveis se movendo para frente. Neste momento, Dmytro recebe a chamada da mãe – e diz “sim, mãe, neste momento estamos com o pai à comer no refeitório, ... ouvi que na Institutska estão à disparar, ... mãe, eu te amo”. 
De seguida, ele olha para a barricada – acompanhado pela câmara e, naquele momento, a barricada improvisada já está sob o fogo cerrado das forças de segurança, um dos manifestantes está sendo alvejado mortalmente:

Apesar do fogo da polícia, os manifestantes conseguiram recuperar rapidamente suas posições, perdidas em 18 de fevereiro, e até mesmo expandir o território de Maydan. O movimento Euromaydan sobreviveu.
Dezenas de cadáveres e fogo de armas automáticas no centro de Kyiv impressionaram até mesmo vários membros e ex-membros do “Partido das Regiões” – Yanukovych definitivamente se transformou num ditador como Ceauşescu, e o Parlamento da Ucrânia votou pela sua remoção do poder e pela detenção.
Nos dois dias seguintes, Maydan enterrou os seus heróis mortos – dezenas de milhares de moradores de Kyiv saíram para se despedir daqueles que morreram na rua Institutska. Rada Suprema vota favoravelmente o retorno à Constituição de 2004, saída compulsiva das forças de segurança de Kyiv e retirada do ditador Yanukovich do poder – que, juntamente com vários camiões/caminhões de dinheiro e bens, com ajuda das forças russas foge para a cidade de Rostov.

Centena Celestial

Para não tornar o texto muito longo, falaremos brevemente sobre sete pessoas – tão diferentes, mas muito semelhantes na sua rejeição ao mal e da ditadura.
Até o dia 24/02/2014 foram identificados 81 manifestantes e 12 polícias mortos.
Os manifestantes eram da Ucrânia, Geórgia (3) e Rússia (2).
Vitaly Vasiltsov, 36 anos, pai de duas filhas. Vitaly trabalhou como paisagista, amava a terra, a natureza e as plantas, mas acima de tudo – a esposa Natalia e duas filhas - Ivanka e Darynka. Morreu, atingido pelo disparo do franco-atirador.

Antonina Dvoryanets, 61 anos, reformada/pensionista, da cidade-satélite de Kyiv –Brovary. Foi morta em 18 de fevereiro, quando correu em defesa dos jovens espancados pelo destacamento “Berkut”.

Dmytro Maximov, 19 anos. Medalhista de prata e bronze das Surdolimpíadas de judo/ô. Morreu na noite de 19 a 20 de fevereiro, durante o assalto das forças de segurança ao Maydan – na explosão de uma granada perdeu um braço e morreu por perda de sangue no Edifício dos Sindicatos.

Victor Shvets, 58 anos de idade, reformado/pensionista, vivia nos arredores de Kyiv. Foi ferido na rua Institutska, retirado de debaixo do fogo, mas morreu à caminho de hospital. Na ambulância, mortalmente ferido, Victor conseguiu ligar para a esposa e dizer “está tudo bem comigo”.

Olexander Plekhanov, 22 anos, estudante de Arquitetura, praticava ciclismo e escultura. Morreu em 20 de fevereiro de 2014, atingido pelo franco-atirador nas barricadas da rua Institutska.

Oleksandr Khrapchenko, 26 anos, cidade de Rivne, realizador teatral de formação, trabalhava no Teatro Dramático de Rivne. Foi morto por um franco-atirador na manhã de 20 de fevereiro na primeira barricada na rua Institutska.

Ivan Nakonechny, cidade de Kiev, 83 anos de idade. Na sua juventude, Ivan serviu como marinheiro em Sebastopol, foi formado na escola naval, tornou-se tenente. Ivan estava no Maydan desde início, disse que prestou o juramento militar e deveria estar ao lado de seu povo. Recebeu ferimentos graves no momento do ataque do “Berkut” em 19 de fevereiro de 2014, e morreu, devido aos ferimentos em março do mesmo ano.

Nova Ucrânia. Em vez de epílogo

Em 20 de fevereiro, após Maydan sobreviver o ataque de fogo, ficou óbvio que Euromaydan tinha vencido. Naquele dia uma nova Ucrânia nasceu nas pedras negras da fuligem e das pedras vermelhas do sangue das calçadas de Kyiv. E ao mesmo tempo o acabou o mito do “mundo tríuno russo” – este mito imperial teve o seu fim lógico na rua Institutska. 

Depois se segui a ocupação e anexação da Crimeia – Ucrânia seguiu seu próprio caminho rumo a Europa, e a Rússia de Putin foi na direção oposta – mergulhando cada vez mais nas profundezas da habitual servidão eclesiástico e das sanções.

Foto: GettyImages | arquivos pessoais | Internet | Texto Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]

Dmytro Holubnichiy em janeiro de 2019 toca a sua bandura na Maydan:

quarta-feira, fevereiro 20, 2019

Jogo Metro Exodus, conquista «Decomunização»

No novo shooter pós-apocalíptico Metro Exodus, desenvolvido pelo estúdio ucraniano 4A Games, o gamer consegue uma conquista (achievement), decapitando a estátua do Lenine, situada no nível Taiga. 
O monumento ao líder dos bolcheviques russos Vladimir Lenine está situado junto à um campo abandonado de jovens pioneiros, que se encontra no nível Taiga. A conquista correspondente se chama “Decomunização”. Para obtê-la, o gamer precisa de achar a estátua do Lenine e decapitá-la.
Note-se que a terceira parte da série Metro, criada com base nas obras de jornalista e escritor russo Dmitry Glukhovsky, iniciada pelo Metro 2033 e Metro: Last Light, foi lançada em 15 de fevereiro de 2019, escreve Techno.nv.ua

“A Herança: A História de Um País”: exibição em Portugal

A Embaixada da Ucrânia em Portugal convida o público em geral à assistir o filme documental “A Herança: A História de Um País” de Oleksandr Tkachuk e Lesia Voroniuk, a longa dedicada à vyshyvanka (bordado ucraniano).
Em Lisboa terão lugar duas exibições do filme, no dia 26 de fevereiro, às 15h00, na Fundação AIP (Travessa da Guarda 3, 1300-307) e no dia 3 de março, às 9h00, no Salão de Igreja de São Jorge de Arroios (R. Alves Torgo 1, 1000-061).

O filme também será exibido no Porto (27/02), Braga (28/02) e Tavira (3/03).
Entrada é livre.
Não percam a oportunidade de conhecer Ucrânia melhor!

terça-feira, fevereiro 19, 2019

Assalto final ao Maydan: a operação paramilitar “Boomerang”

Na noite de 18 de fevereiro de 2014, as unidades da polícia, tropas do Ministério do Interior (VV) e SBU iniciaram o assalto final ao Maydan – começou a operação “Boomerang”. Ação resultou na morte dos 14 defensores do Maydan desarmados e 9 atacantes das forças policiais.

A liderança do assalto foi confiada ao SBU e diretamente ao Chefe do Centro Antiterrorista do SBU, general Totsky.

De acordo com o plano da operação, as unidades do “Berkut”, reforçadas por tropas VV, deveriam demolir as barricadas na avenida Khreshchatyk e na rua Institutska, enquanto o destacamento Alfa da SBU deveria aniquilar a sede da Euromaydan no Edifício dos Sindicatos.
Os manifestantes dispersados deveriam ser atacados e aterrorizados por bandos armados de titushki, contratados por chefões criminosos próximos a Yuri Ivanyushchenko (conhecido como Yura Enakievsky).

O começo da operação foi marcado às 19h00.

A unidade “Alfa” do SBU entrou no Prédio dos Sindicatos pelo telhado e começou o seu ataque à partir de cima para baixo. As unidades do “Berkut” e as tropas do interior atacaram por baixo, reforçadas por dois veículos blindados do tipo BTR e dois canhões de água, o seu alvo era derrube das barricadas em volta do palco usado na Maydan e ao redor do Edifício dos Sindicatos.

Mesmo antes do início da operação “Boomerang”, às 16h00 da tarde do dia 18/02/2014, durante a dispersão da manifestação em Pechersk, nos arredores do parlamento ucraniano, foram mortos ou mortalmente feridos 13 ativistas ucranianos desarmados e mais de 200 cidadãos ficaram gravemente feridos, inclusive como resultado do uso pela polícia de munição de metralha. As autoridades acreditavam que o terror causaria a dispersão de Maydan. Mas isso não aconteceu. Naquele momento todos os participantes da dispersão de Maydan entenderam perfeitamente que este tipo de violência contradiz absolutamente a lei e que as forças da lei e ordem estão violando a legislação ucraniana.
As vítimas do fascismo: a família Kuznetsov
Mas o ataque não se tornou uma operação fácil para as forças de segurança. Apesar do uso dos blindados, os ativistas ucranianos não abandonaram das barricadas. Ambos os veículos blindados pertencentes às tropas VV foram incendiados com uso das garrafas incendiárias. Um dos blindados ardeu no local. Os canhões de água também foram alvejados por armas de fogo dos defensores de Maydan (geralmente caçadeiras legais, que usavam metralha), um deles foi desativado.

A partir das 21 horas, as forças especiais usaram armas de fogo para matar e granadas. Os atacantes disparavam metralha, usavam as granadas de luz e som “Zarya-2”, possivelmente atiraram algumas granadas de fragmentação de uso militar. As forças de segurança disparavam contra os manifestantes desarmados, sem se preocupar com a precisão dos seus tiros.

Deve-se notar que as pessoas nas barricadas estavam praticamente desarmadas, com exceção de pedras e garrafas incendiárias artesanais. Apesar disso, eles defenderam as barricadas no Edifício dos Sindicatos e na Maydan com todas as suas forças.
Maydan foi salvo por aqueles poucos que começaram a atirar nas forças atacantes. Primeiros dois soldados de tropas VV foram abatidos por volta das 17h00 da tarde, quando tentavam atacar as barricadas na avenida Khreschatyk. Mesmo após perder os dois blindados, a polícia ultrapassou a defesa da última barricada e o caminho ao palco central – o centro de controlo/e de Maydan – estava aberto. E aqui tudo foi decidido por apenas alguns resistentes armados e a resiliência massificada da maioria de defensores desarmados. O ataque de “Berkut” e VV foi repelido quando as forças de segurança sofreram perdas e ficaram simplesmente com medo de irem em frente, para não serem atingidos por cartuchos de metralha.
O comandante da unidade “Berkut” foi capturado, vários atacantes pertencentes às forças de segurança ficaram feridos. No total, durante o ataque de Maydan em 18 de fevereiro, 9 policiais e militares das tropas VV foram mortos, mais de 80 ficaram feridos – os defensores de Maydan não pretendiam matar os atacantes. Todos os capturadas receberam ajuda, ninguém dos capturados foi torturado ou morto posteriormente, como o próprio “Berkut” procedia com os manifestantes. Apesar de todas as vítimas e feridos, milhares de pessoas não deixaram Maydan e não pararam a resistência. Inclusivamente a resistência armada.

Queremos recordar os 14 heróis caídos – defensores de Maydan e do Edifício dos Sindicatos (no total, nos dias 18 e 19 de fevereiro de 2014, em Kyiv foram mortos ou mortalmente feridos 30 defensores de Maydan). Nós não temos o direito de os esquecer:
RIP Olexander Plekhanov, 22 anos, estudante de arquitetura
Bondarev Serhiy, 33 anos, programador
Brezdenyuk Valery, 50 anos, dono de um clube de informática
Chernenko Andriy, 35 anos, empregado de oficina
Kapinos Olexander, 29 anos, farmeiro
Klitinsky Olexander, 25 anos, desempregado
Kulchitsky Volodymyr, 64 anos, pensionista/reformado
Maksimov Dmytro, 19 anos, estudante
Orlenko Viktor, 53 anos, operário ferroviário, ex-veterano soviético da guerra no Afeganistão
Paskhalin Yury, 30 anos, lojista
Plekhanov Olexander, 22 anos, estudante de arquitetura
Prokhorsky Vasyl, 33 anos, eletricista
Sidorchuk Yuri, 53, empresário
Shvets Viktor, 58 anos, pensionista/reformado militar
Topiy Volodymyr, 58 anos, motorista

domingo, fevereiro 17, 2019

A manifestação paga contra as manifestações pagas

Cerca de 1.000 pessoas se reuniram em Kyiv neste domingo numa manifestação para se manifestarem contra as manif pagas. Com promessa de receberem 130-150 UAH (4,7-5,5 dólares) por duas horas de “trabalho”. Não receberam nada, foi uma ação puramente educativa.
Melhor slogan da manif: "Não estou aqui pelo dinheiro!" | foto: FB do Sergii Naumovych
A praça Kontraktova no Podil em Kyiv neste domingo | foto: FB do Sergii Naumovych
O povoficou reunido na praça Kontractova (bairro do Podil) das 10h00 às 12h00, só depois se aprecebendo que não iria receber coisa alguma. É um dos problemas reais da vida política ucraniana, uso do “povo” (estudantes, reformados, diverso lúmpen) nas mais diversas manifestações à favor e contra, à troco da promessa de receber alguma taxa fixa, geralmente entre 5-20 dólares (20-80 reais) por algumas horas da “atividade”. A grande hipocrisia dos políticos, se baseia na pequena hipocrisia dos “cidadãos”, que então escolhem os políticos hipócritas. Um círculo vicioso (fotos).
"As manif não são um negócio!" | foto: FB do Sergii Naumovych
"Não estamos à venda" | foto: FB do Sergii Naumovych
"Tenho dignidade/consciência - não recebo dinheiro!" | "Manifestante não é uma profissão!"
foto: FB do Sergii Naumovych
Até recentemente o problema parecia sem uma resolução à vista. Alguns políticos e deputados do parlamento ucraniano até propuseram a introdução na legislação a responsabilidade criminal por essa atividade. Os ativistas, como quase sempre, criaram uma tática, aparentemente muito mais simples e efetiva. Em 2019 e através dos meios habitualmente usados pelos políticos à procura do “povo de aluguer/aluguel” (fóruns com propostas de emprego temporal online), ativistas começaram marcar as manifestações em várias cidades ucranianas. As manif à favor de diversas causas fake, em que apareciam, em massa, os clientes habituais dessas ações. Só que dessa vez ninguém lhes pagava nada, para explicar, de forma prática, que na democracia as manifestações servem para demonstrar a sua posição cívica e não para receber dinheiro ou sandes de mortadela, como acontecia no Brasil ou continua à acontecer em Cuba e Venezuela.
A manif em Odessa de 10/02/2019 | foto: 048.ua
Tudo começou em 10 de fevereiro em Odessa. Os ativistas marcaram a manif paga em apoio do candidato ao presidente da Ucrânia – Serhiy Filatov, personagem fictícia e puramente inventada. Quando o “povo” se reuniu no local combinado, os ativistas enviaram a informação com conselho de aproveitarem o dia e passearem no funicular, pois o “candidato caiu na caixa de canalização e morreu”. Alguns dos “enganados” ficaram bastante tristes, um deles trouxe consigo à manif 270 pessoas, pois cada “amigo” trazido valia prémio monetário.
- O candidato caiu na caixa de canalização e morreu. Recebemos as condolências.
-  As minhas condolências.
Depois veio Kharkiv. No dia 13 de fevereiro os jornalistas, com ideia de um veterano de OAT, organizaram a manif também fake em apoio ao candidato à presidência – Anatoly Onoprienko, na realidade um conhecido assassino em série soviético e ucraniano.

O veterano Andriy anunciava que oferece 1.000 UAH (36,7 dólares) por “uma tarde de trabalho”. Só nas primeiras 24h ele recebeu cerca de 150 telefonemas dos que pretendiam ganhar o dinheiro fácil. Mais de uma centena dos “cidadãos” apareceu no local e na hora marcados, na praça de Constituição de Kharkiv. Com muita facilidade o “povo” gritou em frente das câmaras de TV: “Onoprienko somos nós!”, “Onoprienko é a força” ou “Onoprienko é o futuro da Ucrânia!”. Além disso, os manifestantes garantiram publicamente que votariam em Anatoly Onoprienko, embora “ainda não tinham lido o seu programa eleitoral”, escreve a página ucraniana 057.ua – a co-organizadora do evento.
Manif em Kharkiv, 13/02/2019 | foto/screen: Kharkiv News / YouTube
Literalmente, uma hora após o início da manif, os jornalistas e ativista deixaram o local e começaram receber às chamadas indignadas dos “cidadãos enganados” que desejavam receber os seus 1.000 UAH. Às todas as lamentações, exigências e até ameaças, aos manifestantes foi pedido para que lessem com mais cuidado – à favor de quem eles se manifestaram naquela tarde e até estariam dispostos à venderem os seus votos:

É de notar que a esmagadora maioria dos internautas ucranianos apoia, em absoluto, as ações dos ativistas e jornalistas. Centenas de comentários em ucraniano e russo dizem praticamente a mesma coisa:

Evgeny Volnov: Os c@brões destes precisam de se exercitar dessa forma, porque estes fdp vendem o futuro do seu país.

Anton Grinblat: É único caminho possível com eles. Mandá-los às manifestações fakes até que pela proposta de “se manifestar à troco de X UAH” vão mandar para o c@ralho )) Até então essa compreensão que lhes chegue através das suas pernas [cansadas].

Nataliya Halas: Obrigado. Fizeram realmente um grande trabalho. Espero que muitos vão ver. Divulguei onde podia.

sábado, fevereiro 16, 2019

As conquistas de Luhansk: a prosperidade da “república” em fotos

Na primavera de 2014, na cidade de Luhansk e com ajuda das forças russas, foi proclamada a “república popular de Luhansk”, a famosa “lnr”. Quase cinco anos depois, a “jovem república” já consegue mostrar ao mundo as suas primeiras conquistas...

Muito recentemente, o principal ideólogo de Putin, Vladislav Surkov, publicou a sua visão programática do “putinismo em curso”, semelhante ao discurso de Hitler em Munique e baseada nos mesmos princípios – nós não precisamos da civilização, há inimigos ao nosso redor, continuaremos fazendo propaganda e a guerra, “nos amem, ou vós mataremos”! O texto também fala de algumas realizações incríveis do putinismo – que consegui criar a chamada “novorossia” – uma espécie de URSS 2.0 estalinista ambientada na década de 1930 – com muita pobreza, propaganda, delação dos vizinhos e conhecidos, ódio mútuo.
Luhansk na primavera de 2014, exortação ortodoxa da invasão russa | @arquivo
Todas as fotos dessa reportagem foram tiradas no inverno de 2018 pelos moradores de Luhansk. Fotografar era extremamente perigoso – a secreta separatista “mgb” funciona à semelhança do NKVD e manda qualquer cidadão suspeito “para a cave”, o acusando de ser um “espião e sabotador ucraniano”. Fotografar a lixeira, sendo visto por algum delator, é suficiente para ser declarado “espião e sabotador”. As repressões em Luhansk são mais severas e rigorosas do que em Donetsk – a dita “lnr” é mais pobre e os orcos locais são muito mais famintos e impiedosos.

A vida na «lnr»

As pessoas em Luhansk ocupada sobrevivem revendendo a roupa de segunda mão comprada na Rússia e os alimentos e medicamentos trazidos da Ucrânia. Para fazer compras na Ucrânia os súbditos da “república” se deslocam até a vila de Stanytsia Luhanska (do lado da Ucrânia livre, junto ao ponto de controlo/e na linha de separação), onde funciona o escritório dos correios “Nova Poshta”, que recebe todo o tipo de encomendas da Ucrânia. Em princípio, é todo o “negócio” que ainda funciona em Luhansk.
Stanytsia Luhanska, ponto de controlo/e na linha de separação, inverno de 2018-19
foto @arquivo
Os salários são pagos em rublos russos. O salário médio é de cerca de 5-7 mil rublos (75 – 100 dólares americanos), o pessoal das limpezas/faxineiros/as recebem 1.200 rublos (18 dólares). Os mercenários afetos às unidades separatistas ganham 15.000 rublos (225 dólares). Vivem razoavelmente bem apenas as chefias da “república popular” e os militares russos – únicas pessoas que fazem compras nos supermercados. Um bom apartamento no centro de Luhansk já se vende por 11.000 dólares [voltando ao nível de preços dos meados da década de 1990]. Os empregos disponíveis aos cidadãos comuns são caixas e guardas de lojas, agentes de carga (carregadores e armazenistas). Os restantes cidadãos se dedicam à venda de alguma coisa nos mercados, na cidade também surgiram imensas lojas que vendem as roupas e calçado da segunda mão.

A propaganda total separatista diz que se ucranianos vencerem, todos os de Luhansk serão mortos, presos e enforcados. Embora ultimamente, a retórica começou a mudar – “nós somos Ucrânia, então Ucrânia deve nos pagar as pensões/reformas, devemos ser ajudados”, etc. Ao mesmo tempo na televisão local se fala constantemente dos acordos incríveis que são celebrados com Abecásia, Crimeia e Transnístria [territórios ocupados da Geórgia, Ucrânia e Moldova], e que “muitos investidores estrangeiros” estão prestes a entrar em Luhansk. A “república” está literalmente à beira de um boom económico!

Todas as esferas de influência na “república” são divididas entre os seus dirigentes – um manda na venda de combustível, outro recebe a “taxa de proteção” das lojas, terceiro – controla os mercados, e assim por diante. Luhansk não produz quase nada, a infra-estrutura está se deteriorando e apodrecendo. Mas surgiu o seu próprio “estilo corporativo” – os letreiros às cores da bandeira tricolor russa e os nomes próprios “à russa”, por exemplo, o cinema “Ucrânia” foi rebatizado de “Rus”.

Muitos edifícios e outros estabelecimentos, como antigos restaurantes ou escolas técnicas, foram transformados em quartéis e bases militares, departamentos do “mgb” (NKVD local) e outros semelhantes. Dentro da cidade se criam as vacas. O recolher obrigatório é à partir das 23h00, na realidade, no inverno, às 16 horas, já ninguém se arrisca de sair às ruas.

Estradas, quintais, pátios e ruas

O lixo em Luhansk já não é recolhido há algum tempo, os pátios da cidade se tornaram lixeiras. Os separatistas gritaram em 2014: “Rússia, venha!”, Rússia veio – não com glamour televisivo moscovita, mas em forma de Omsk real.

Pombos rastejam em montes de lixo em decomposição, à procura de algo comestível.

Mais um quintal com contentores à abarrotar de lixo:

As estradas de Luhansk não são limpas, nem são reparadas/consertadas – no meio de uma rua movimentada podemos ver os poços cheios de água.

As ruas centrais da cidade, outrora animada, agora se assemelham a uma cidade fantasma de alguma distopia. Passadeiras/calçadas geadas, montanhas de lixo ao longo da estrada, a quase completa ausência de carros na estrada coberta de neve.

Quiosque, montanhas de uns escombros e uma parede, como se estivesse coberta de escamas de centenas de anúncios: “vendo, vende-se, comprem”.

Mais quintais. A rua central de Luhansk se chamada Sovetskaya (soviética). No fundo – um prédio de escritórios parcialmente abandonados, por cima de contentores de lixo enferrujados está colado o anúncio da compra dos cabelos.

Mais quintais da rua duplamente “soviética”:

Mesmos quintais no centro de Luhansk.

Às vezes, para recolher o lixo é colocado um contentor maior, mas aparentemente – ninguém paga ou zela a sua remoção.

Mais quintais. Estacionamento local e lixeiras.

Um outro pátio da “pequena Suíça”, como chamam os fãs da “lnr” a sua “república popular”:

Transporte público, lojas e prédios habitacionais

O transporte público municipal praticamente desapareceu em Luhansk, se aguentam apenas os miniautocarros/miniônibus – funcionam sem horários fixos, abandonam a rota quando entendem, não chegam aos destinos finais, e assim por diante. Finalmente livres da Ucrânia! O minibus de Luhansk que perdeu a sua roda traseira no meio da estrada:

As entradas dos prédios de habitação. O poema exorta as virtudes do “mundo russo”: “mijo fora de sanita, p'ro c@ralho, não importa”, as tampas de caixas de correio foram quebradas, roubadas e vendidas à sucata.
A poesia do “mundo russo”: “mijo fora de sanita, p'ro c@ralho, não importa
Mais uma entrada. Alguém fez essa inscrição demorada e diligente, mostrando o seu “apreço” pela dita “lnr”:
“lnr [é uma] merda”
Em Luhansk funciona o supermercado Spar [sem a ligação com a cadeia holandesa desde o início de ocupação em 2014]. A variedade pode ser vista na foto à esquerda – algumas sopas secas, temperos e farinha. 
Os moradores comuns não fazem compras no Spar – essa é a prerrogativa dos dirigentes locais, que vivem como a nomenclatura soviética. Na foto à direita – na entrada das “lojas populares”, situadas nos prédios de habitação e outras pequenas instalações. São abertas das 8h00 às 20h00 e prometem pão de boa qualidade diariamente e as “patas de frango”.

Departamento de carne /açougue. Carne de frango picada custa 131 rublos (1,97 dólares) e “patas de frango” custam 36 rublos (0,54 dólares). Há também panquecas congeladas com queijo cottage.

Departamento de laticínios. Há leite (1), manteiga (2) e também muitas maioneses chamados “light”, “de casa de campo” e “de ovos de codornizes” (3).

Doçaria


Álcool

O passatempo popular em Luhansk é o consumo de álcool, principalmente a cerveja barata e vodca falsificada importada da Rússia. Isso permite se abstrair da realidade e não pensar sobre o que está acontecendo. Eles dizem que isso ajuda, especialmente em combinação o consumo das televisão, canais russas e da estação local.

Os locais de depósito de lixo nos bairros residenciais nas manhas:

Em Luhansk funcionam vários locais, chamados de “enchimentos” – onde o cidadão da “república” pode tomar a sua dose de álcool barato. Estes pontos se abrem nos prédios habitacionais e instalações vazias, aparentemente, é mais um negócio rentável de “lnr”.

A janela de um “enchimento” típico. Cliente vem à janela, entrega o dinheiro e recebe a sua dose de álcool.

Foto da recepção de um dos hospitais de Luhansk, onde em janeiro de 2018 foram registadas três comas alcoólicas numa só tarde...

Foto: ativistas | Internet | Texto: Maxim Mirovich