Mostrar mensagens com a etiqueta Espanha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Espanha. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, setembro 28, 2026

Ilya Ehrenburg: o «advogado» do anarquismo espanhol perante Kremlin

Ilya Ehrenburg na Espanha, à civil com o cachimbo
O papel do jornalista, escritor, tradutor, propagandista soviético e seguramente agente secreto de NKVD, judeu ucraniano nascido em Kyiv, Ilya Ehrenburg, na comunicação entre a Espanha republicana e a mais alta liderança soviética.

A 10 de setembro de 1936, o correspondente especial do jornal soviético «Izvestia», Ilya Ehrenburg, enviou uma carta pessoal de Madrid ao Estaline. Nela, descreveu a situação crítica nas frentes republicanas: a falta de uma frente única e de um exército regular, a escassez de pessoal de comando e a fragilidade da força aérea e da artilharia. Ehrenburg dedicou a sua atenção especial aos anarquistas: segundo as suas informações, os dirigentes da central sindical Confederación Nacional del Trabajo (CNT), Buenaventura Durruti e Juan García Oliver, estavam inclinados a reconhecer um comando republicano centralizado e, por isso, propôs cessar as críticas aos mesmos na imprensa soviética. Além disso, na carta, Ehrenburg propôs acelerar os fornecimentos soviéticos de aeronaves e artilharia antiaérea, envio de contingente militar, suavizando a linha dura do Kremlin em relação aos anarquistas.

Como se sabe, no final de setembro de 1936, o Bureau Político do PCUS tinha aprovado um plano para enviar os primeiros tanques e bombardeiros para Espanha. Mas o governo soviético não conseguiu ou simplesmente não considerou oportuno criar «amizade» com os anarquistas — após a morte de Durruti em novembro de 1936 e os confrontos em Barcelona em Maio de 1937, a política da URSS em relação aos anarquistas tornou-se mais severa ainda.

quarta-feira, agosto 12, 2026

General republicano espanól que se tornou o prisioneiro do GULAG soviético

Valentín González (conhecido na Espanha pela alcunha de «El Campesino»), foi um militar e político comunista espanhol, um dos generais republicanos durante a Guerra Civil de Espanha. Na URSS sofreu a tortura de NKVD e os horrores dos campos de concentração de GULAG. 

Esta fotografia oficial a preto e branco foi tirada por um correspondente da agência soviética Soyuzfoto a 13 de novembro de 1937 e capta um dos episódios mais dramáticos da Guerra Civil de Espanha: uma revista às tropas do Exército Popular da República, conduzida pelo Presidente da República Espanhola, Manuel Azaña, em frente a Madride, na cidade de Alcalá de Henares. 

Nesse dia, as unidades da 46ª Divisão estavam a ser inspeccionadas na Praça Cervantes. Comandada pelo lendário Valentín González, chamado/apelidado de «El Campesino» (O Camponês), surge a caminhar à direita, usando um boné e botas de cano alto com atacadores. 

Ao seu lado, de boné e casaco leve, está o comandante da frente de Madride, o general José Miaja, apoiado numa bengala. Ao seu lado está o Presidente da República, Manuel Azaña, e, à extrema-esquerda, o Primeiro-Ministro, Juan Negrín. 

Na altura em que esta fotografia foi tirada, Valentín González-Campesino estava no auge da sua glória militar, um dos mais reconhecidos comandantes republicanos, um herói da propaganda soviética, o «Chapayev espanhol». No entanto, este triunfo foi de curta duração...

«A vida e morte na rússia soviética»

«Fui chamado o general mais fanático da Guerra Civil de Espanha. Não me arrependo do sangue que derramei na luta contra o fascismo. Mas arrependo-me e lamento ter desejado impor ao povo espanhol um regime semelhante ao que existe na rússia. Na União Soviética, vivi a maior catástrofe da minha vida», escreveu Gonzáles a sua biografia, descrevendo os horrores que passou na União Soviética, onde viveu sob o nome de Pyotr Antonovich Komissarov. 

Após a derrota dos republicanos na guerra civil, «El Campesino», com cerca de 6.000 outros espanhóis, emigrou para a URSS. Juntamente com alguns outros militares espanhóis, foi enviado para estudar na Academia Militar «Frunze». Mas os estudos de um herói militar semi-analfabeto e bastante abrupto claramente não correram bem (ao contrário da sua vida pessoal – González se casou com Ariadna Gian, a tradutora de espanhól e filha de um coronel soviético). É conhecido um relato do clima vivido entre os cadetes espanhóis. O «El Campesino» recebia as críticas mais negativas: indisciplinado, incontrolável. «Ele critica as doutrinas de cavalaria de Budyonny». Sobre o marechal Tukhachevsky: «Em Espanha, os soldados não teriam permitido que o seu comandante fosse preso – teriam formado um quadrado à sua volta e ripostado». Além disso, Campesino era justo e orgulhoso. Discutia com praticamente toda a gente: a líder comunista Dolores Ibárruri mandou o marido para Rostov, enquanto vivia, maritalmente, com um jovem comunista espanhol. González atirou-lhe isso à cara de forma pública: «Em vez de pensar na luta, comporta-se como uma prostituta!» Mas González estava especialmente desiludido com a realidade soviética. Uma vez gritou com um empregado da mercearia: «Eu sou proletário, tu és proletário! Porque é que me estás a enganar?» Os apartamentos comunitários soviéticos, os komunalkas, horrorizavam especialmente González, ele não parava de perguntar à sua mulher: «Como é na URSS um marido e uma mulher dormirem juntos à noite, com a avó à direita e os filhos à esquerda no mesmo quarto?»

Valentín González, «Yo escogi la esclavitud», 1953
A direção da Academia decidiu expulsar o «cadete Komissarov» e outros dois espanhóis que tinham chumbado nos exames. Jesús Hernández, secretário do Comité Central, chegou para investigar o incidente. O «arquivo pessoal» do comandante da brigada foi investigado pela Comissão de Controlo da Comintern. Ela reuniu-se por mais de uma semana. A filha do González, VictoriaKravchenko (nascida em 1944): «Eles gritaram com o meu pai, e ele gritou. A minha mãe estava sentada no corredor. Finalmente, não aguentou mais: ´Vamos embora, Valentino, estas pessoas não são pessoas, são animais!´ O meu pai atirou o seu cartão de filiação partidária para a cara de Ibárruri».

Acusado de espionagem e trotskismo, foi preso pelo NKVD, enviado para a cadeia moscovita Lubyanka, onde foi torturado, ao ponto de «confessar» ser agente dos serviços secretos britânicos e americanos, e depois enviado para trabalhos forçados na construção do metro de Moscovo. Em 1944, fez a sua primeira tentativa de fuga através da fronteira soviético-iraniana; foi capturado, mas escapou ao Irão novamente, em 1948. As suas ilusões anteriores sobre um «paraíso soviético» foram destruídas: mais tarde, escreveria que a URSS de Estaline se tornou «a maior decepção e o pior fracasso de toda a sua vida». 

Caiu nas mãos dos americanos, que o enviaram para a França.

«Comunista en España y antistalinista en la U.R.S.S.», 1980

Em 1950-51, a França foi abalada pelo «julgamento de David Rousset», político socialista francês, membro da Resistência e vítima do nazismo, que expôs a verdade sobre os campos de concentração soviéticos, a primeira pessoa na França que usou o termo GULAG. O jornal comunista francês «Les Lettres Françaises» acusou Rousset de calúnia: «mas que campos de concentração no país mais livre!»

«El Campesino» participou no processo, como a testemunha abanatória do David Rousset, acabando por se tornar a maior sensação. Um grupo de espanhóis de Moscovo enviou ao tribunal de Paris uma carta a chamar González de louco. Mas a resposta de «El Campesino» à imprensa parisiense deixou claro que louco não era ele: 

«Chamaram-me o general mais fanático da guerra civil espanhola. Não me arrependo do sangue que derramei na luta contra o fascismo. Mas arrependo-me e lamento ter desejado impor ao povo espanhol um regime semelhante ao que existe na rússia. Na União Soviética, vivi a maior catástrofe da minha vida». Campesino não falou; na verdade, gritou. O juiz fez uma careta e disse ao intérprete: «Diga à testemunha para falar mais baixo.» Campesino recuou da barreira, surpreendido, batendo no peito: «Sou espanhol! Os espanhóis não conseguem falar baixo!» 

David Rousset ganhou o processo. 

González não se contentou com isso. A partir de França, se aliou aos terroristas bascos, os auxiliando nos ataques em Espanha. Em 1961, a pedido de Madrid, foi preso pelas autoridades francesas e encarcerado. Valentín González esteve 17 anos nas prisões francesas. Libertado em 1978, regressou a Espanha e anunciou o fim da sua luta: Franco estava morto e a mudança democrática estava em curso em Espanha. Faleceu em Madrid em 1983. 

Valentín González chegou de ser mencionado no livro de Ernest Hemingway «Por Quem os Sinos Dobram», através dos pensamentos de Robert Jordan, que o descreveu como corajoso e difícil: «Quando viu Campesino, com a sua barba negra, os seus lábios grossos, típicos de negros, e os seus olhos febris e inquietos, pensou que ele poderia causar muitos problemas. Era um temerário, um temerário mesmo — seria difícil encontrar um homem mais corajoso. Mas, meu Deus, como ele falava! E no calor da conversa, podia dizer qualquer coisa! Mas, como comandante de brigada, ele mostrou-se altura da situação, mesmo nas circunstâncias aparentemente mais desesperadas».

domingo, março 15, 2026

O regime comunista cubano liberta os dissidentes e os prisioneiros comuns

Faça click para ler mais em espanól

Até este domingo, a ONG Prisoners Defenders registou apenas 19 prisioneiros políticos e de consciência entre os 51 libertados e anunciados pelo regime comunista cubano na passada quinta-feira. 

Juntamente com Ibrahín Ariel González Hodelin, Ariel Pérez Montesino, Juan Pablo Martínez Monterrey, Ronald García Sánchez e Adael Jesús Leivas Díaz, que já tinha identificado na sexta-feira, acrescentou mais 14 à sua lista, com base em informações das suas famílias:

  • Oscar Bárbaro Bravo Cruzata, 27 anos, condenado a 13 anos (prisão de trabalhos forçados de La Lima, Guanabacoa).
  • José Luis Sánchez Tito, 34 anos, condenado a 16 anos (Prisão de segurança máxima Combinado del Este, Havana).
  • Roberto Ferrer Gener, 52 anos, condenado a 15 anos (Combinado del Este).
  • Deyvis Javier Torres Acosta, 33 anos, condenado a 10 anos (prisão de Valle Grande, Havana).
  • Yussuan Villalba Sierra, 35 anos, condenado a 10 anos (Prisão Combinado del Este para trabalhos forçados). 
  • Eduardo Álvarez Rigal, 36 anos, condenado a 13 anos (La Lima).
  • Wilmer Moreno Suárez, 37 anos, condenado a 18 anos (Prisão de Trabalhos Forçados Combinado del Este, Zona 0).
  • Frank Aldama Rodríguez, 33 anos, condenado a 16 anos (Combinado del Este).
  • Miguel Enrique Girón Velázquez, 29 anos, condenado a 11 anos (Prisão Juvenil de La Aguada, Holguín).
  • Jorge Vallejo Venegas, 39 anos, condenado a 15 anos (La Lima, Guanabacoa).
  • Luís Esteffani Hernández Valdés, 34 anos, condenado a 6 anos (Prisão de Trabalhos Forçados de Ho Chi Minh, Bainoa, Jaruco). 
  • Franklin Reymundo Fernández Rodríguez, 25 anos, condenado a 9 anos na Penitenciária Provincial de Holguín.
  • Carlos Pérez Cosme, 38 anos, condenado a 10 anos (Prisão de Trabalho Forçado Toledo 2, Marianao, Havana).
  • Felipe Almirall, 65 anos — o mais velho até à data — condenado a 9 anos de prisão (La Lima, Guanabacoa). 

A Polícia cubana reiterou que as penas destes indivíduos se mantêm em vigor e que a sua libertação está sujeita a um regime de liberdade condicional particularmente restritivo. 

Aparentemente, o regime comunista cubano está a imitar a «primavera fria de 1953» na URSS, quando o ministro do interior soviético, Lavrenti Beria, após a morte do ditador comunista Estaline, ordenou a libertação de alguns presos políticos, mistrurados com muitos presos violentos comuns. Uma das explicações possíveis daquele plano, era facilitar e promover um aumento abrupto da criminalidade no país, culpando, pelo mesmo, os presos políticos, os ditos «inimigos do povo».

Cubanos que procuram a vida melhor, entram no exército russo e morrem na Ucrânia

É de recordar, que neste momento, há em Cuba 1214 prisioneiros políticos, epenas em fevereiro de 2026 as autoridades comunistas prenderam 28 novos presos políticos e de consciência — 23 homens e 5 mulheres. Um dos dissidentes cubanos que foi removido da lista dos prisioneors de consciênciao foi Luis Miguel Oña Jiménez, devido à sua morte por tortura e negligência médica numa prisão cubana.

sábado, janeiro 10, 2026

«Projet Niños»: as crianças espanhóis vítimas do comunismo e da guerra fria

Foi publicado na Espanha o livro «Projet Niños» da jornalista Carol Diaz, que conta o difícil destino de crianças e adolescentes espanhóis evacuados para a URSS em 1937-1938, durante a Guerra Civil Espanhola. Embora devessem retornar para casa após o fim das hostilidades, sua saída da União Soviética foi proibida por quase duas décadas. Somente a intervenção dos Estados Unidos, que tinham um interesse especial, ajudou a resolver o problema, escreve DW.

«Projet Niños» também é o nome que a CIA deu à operação especial realizada na Espanha no final da década de 1950, com foco nas 'Crianças da Guerra'. Entre 1956 e 1960, 2.400 dos 3.000 adultos, que em crianças foram enviadas para a União Soviética duas décadas antes, foram repatriadas para a Espanha. Ao retornarem, foram submetidas aos interrogatórios pela Agência de Inteligência dos Estados Unidos. A CIA lançou a 'Operação Projet Niños' em Madrid. Os arquivos dessa operação, que permaneceram secretos por 30 anos, foram desclassificados em setembro de 1995 e formam a base da série documental do canal televisivo DMAX España.

Quantas crianças espanholas foram parar na URSS?

Durante a Guerra Civil, o governo da Frente Popular, que lutava contra o general Francisco Franco, evacuou cerca de 37.500 crianças fora do país. Segundo Maria Ángeles Ramírez, professora de história da Universidade de Madrid, a maioria dos jovens espanhóis foi levada para países da Europa Ocidental e para o México. 2.895 crianças (5.000 crianças e adolescentes pelos dados da CIA) foram levadas para a União Soviética. Em 1939, após o fim das hostilidades na Espanha, quase todas as crianças puderam retornar – com exceção daquelas que acabaram na URSS.

Faça clik para ver o vídeo na Facebook

As crianças não foram libertadas pela decisão das autoridades soviéticas e liderança do partido comunista espanhol, que havia se instalado em Moscovo/ou, continuou Ramirez. Isso apesar dos apelos dos pais para que voltassem para casa. No entanto, os apelos ao governo soviético, à comunidade internacional, à imprensa e à Cruz Vermelha não surtiram efeito. Os motivos da detenção, ou seja, do sequestro das crianças, segundo ela, não foram ocultados na URSS. Declararam que elas deveriam ser criadas como uma «força de ataque» na luta pelo «futuro brilhante» da Espanha.

Criando futuros combatentes

As crianças separadas de seus pais, como se depreende de suas numerosas memórias, coletadas na época pela autora deste artigo, foram criadas de acordo com os padrões soviéticos. Eles foram aceitos como jovens pioneiros [a organização comunista para as crianças] e, nas aulas, falavam sobre as vitórias do socialismo e os vícios do capitalismo, da Igreja e de outros «inimigos do proletariado mundial». As crianças aprendiam canções patrióticas soviéticas, marchavam em formação com uma bandeira ao som de tambores. Quando cresciam, recebiam passaportes soviéticos (cerca de 35% do número geral, de acordo com a CIA).

Enquanto isso, essas crianças tiveram que suportar todas as dificuldades da Segunda Guerra Mundial, assim como todos os habitantes da União Soviética. Os mais velhos foram para a frente de batalha ou trabalharam na retaguarda. Os mais novos, que viviam em orfanatos, sofriam com a fome e as doenças. Alguns roubavam, principalmente comida, para sobreviver e acabaram no GULAG. No total, durante os anos de guerra, quase 200 menores espanhóis foram condenados a penas de cinco a oito anos por delitos menores.

A ajuda veio dos americanos e do degelo soviético

Mais tarde, a partir de meados da década de 1950, a União Soviética pareceu deixar de se opor ao retorno dos espanhóis: o «degelo» de Khrushchev entrou em vigor. Mas as autoridades espanholas, como observa Karol Díaz em seu livro, não ficaram satisfeitas com isso. O líder espanhól Franco, que saiu vitorioso da guerra civil, temia que os repatriados se juntassem às fileiras da oposição de esquerda – trazendo para a Espanha, como ele dizia «o contágio bolchevique».

Aqui os americanos intervieram na história. Naquela época, eles tinham forte influência sobre Franco. Os americanos falaram sobre direito humanitário e pressionaram o ditador para permitir o retorno dos espanhóis. Enquanto isso, o interesse dos EUA no problema, como observado no «Projet Niños», não se explicava por considerações humanitárias.

Em 1957, um acordo foi assinado entre os governos soviético e espanhol sobre o retorno de crianças deportadas anteriormente à sua pátria. Naquele mesmo ano e nos dois anos seguintes, cerca de metade (entre 1956 e 1960, 2.400 crianças, das 3.000 enviadas para a União Soviética duas décadas antes, foram repatriadas para a Espanha) dos espanhóis retornou à Espanha. A outra metade permaneceu na URSS. Primeiro, a situação política da Espanha não era particularmente atraente para eles. Segundo, muitos já tinham empregos na URSS ou haviam constituído família nessa época.

Citando fontes espanholas e americanas, Karol Diaz afirma que todas as pessoas que retornaram à Espanha foram interrogadas – frequentemente várias vezes – por representantes dos serviços secretos espanhóis, em conjunto com a CIA. Durante esses interrogatórios, que duraram quatro anos, os americanos obtiveram mais de 2.000 gravações. Um documento secreto baseado nelas foi compilado em 1963 pelo analista sênior da CIA, Lawrence E. Rogers. Esse documento foi desclassificado em setembro de 1995.

O que interessava à CIA

A autora de «Projet Niños» afirma que os espanhóis que retornaram da URSS eram de grande interesse para a CIA. Muitos deles, tendo recebido educação superior, trabalhavam em diferentes cidades e em vários setores da economia, incluindo na indústria de defesa. Além disso, eles podiam saber a localização de unidades militares e tinham informações sobre a situação e o clima social na União Soviética.

Os resultados práticos da operação

Quanto aos serviços de inteligência espanhóis, eles estavam interessados no grau de confiabilidade dos recém-chegados, bem como em informações sobre aqueles que não haviam retornado. Em Madrid, as autoridades chegaram a criar um Departamento para Repatriados da URSS sob a liderança do Major Teodoro Palacios. Tanto os espanhóis, quanto os americanos, em particular, buscavam obter informações sobre espanhóis que serviam na inteligência soviética. Aparentemente eram vários. Os mais famosos eram a coronel do NKVD-KGB Africa de las Eras, que se infiltrou na América Latina, e Ramon Mercader, o assassino de Lev Trotsky.

Vítimas de políticos

Carol Díaz chama os heróis de sua história de «vítimas da época e da política insensata». Nem às esperanças dos comunistas, nem os temores de Franco se concretizaram: os filhos que cresceram e voltaram para casa não se tornaram disseminadores do contágio bolchevique na Espanha. A tragédia de muitos deles era que se sentiam «como estrangeiros tanto na URSS, quanto em sua terra natal», onde eram submetidos a interrogatórios e exigências para denunciar seus compatriotas emigrantes.

A historiadora María Ángeles Ramírez classificou a prática de «sequestrar e manter crianças à força como imoral, devastadora e completamente desesperançosa». Ela lembrou que uma «prática vergonhosa» semelhante ainda existe em alguns países africanos, onde crianças sequestradas são usadas como soldados, e na própria rússia, no decorrer da agressão contra Ucrânia.

Agentes do KGB entre os retornados

O canal televisivo espanhol, DMAX España, produziu uma série documental, dedicada ao ‘Projet Niños’.

Faça click para ver o vídeo na Facebook

Num dos depoimentos, transmitidos pelo canal, o coronel reformado do KGB, Oleg Nechiporenko, responsável pelo controlo/e dos estrangeiros na URSS (era o agente do KGB que teve contactos diretos com Lee Harwey Oswald, o presumivel assassino do John Kennedy), relata na série as operações secretas da KGB, explicando como soviéticos infiltraram os seus agentes entre os espanhóis que retornaram da URSS. «Entre os espanhóis também estavam nossos agentes, aqueles que cooperavam com o KGB», revelou ele.

Agentes do GRU entre os descendentes de espanóis 

Os dois passaportes do agente do GRU russo González-Rubtsov

Não podemos se esquecer do caso do agente russo do GRU, González-Rubtsov, que nasceu em Moscovo em 1982 numa família de imigrantes espanhóis. O seu avô, Andres González Yagüe, foi levado à URSS ainda criança, salvando-se da guerra civil espanhóla. A filha de Andres, María Elena González, casou com o cientista soviético Alexei Rubtsov; chamaram o seu filho de Pavel. “Estas famílias sempre estiveram no campo de visão da inteligência soviética e russa, eram seguidas”, explica a investigadora de inteligência e editora-chefe adjunta da página russa Agentura.ru Irina Borogan. “Porque eles, pela sua origem, falam línguas e têm parentes no estrangeiro e, por isso, são perfeitos para o recrutamento.”

domingo, agosto 10, 2025

De Pablo Gonzáles Yagüe a Pavel Rubtsov: agonia e queda do espião espanhol de putin

Pablo/Pavel abraçado pelo Oleg Sotnikov, responsável pelo programa dos agentes ilegais do GRU

Como vive atualmente Pablo Gonález Yagüe (alias Pavel Rubtsov), um agente do GRU russo que foi trocado por presos políticos russos há um ano? Spoiler: o agente da secreta militar russa está a tentar passar-se por um «preso político». 

Há pouco mais de um ano, a 1 de agosto de 2024, a rússia e os países ocidentais realizaram a maior troca de prisioneiros desde o fim da Guerra Fria. As autoridades russas libertaram, ao Ocidente, os presos políticos russos e devolveram, na sua maioria, os seus próprios espiões. Um deles era Pablo González Yagüe (identidade russa: Pavel Rubtsov), um agente dos serviços de informação militar russos que monitorizava os opositores russos na Europa, disfarçado de jornalista independente do País Basco. O jornal espanhol El Mundo falou com pessoas próximas de Gonzalez e descobriu como ele vive um ano depois da troca. 

Quem é Pablo González?

Por parte da mãe, é descendente de um espanhol que foi levado para a URSS durante a guerra civil espanóla. A sua mãe, Maria Elena González, casou com o cientista soviético Alexei Rubtsov, mas mais tarde divorciou-se dele e mudou-se para a sua terra natal histórica, o País Basco, levando consigo o seu filho de nove anos. Aí, o jovem russo Pavel Rubtsov tornou-se espanól/basco Pablo González Yagüe. 

Em 2003, González, de 21 anos, recebeu o passaporte russo. Os serviços de informação espanhóis suspeitaram que o serviço secreto militar russo (GRU) o recrutou sete anos depois, durante uma viagem para visitar o pai e a madrasta, escreve o El Mundo, citando o jornalista Drew Hinshaw, autor de um livro sobre a troca de prisioneiros do ano passado. Segundo a publicação russa The Insider, a madrasta de González, russa Tatyana Dobrenko, anteriormente possuia o domicílio registado na morada da sede do GRU em Moscovo. 

Ler mais e/ou comprar o livro

González apresentou-se no mundo jornalístico como jornalista e politólogo especializado em conflitos na Europa de Leste, nos Balcãs e no Cáucaso. Viajou de facto para pontos críticos, participou em conferências europeias e era amigo de jornalistas e oposicionistas russos. González foi ao futebol com Ilya Yashin, teve um caso amoroso com Zhanna Nemtsova (filha do Boris Nemtsov) e delatou ambos ao GRU. Além disso, segundo o El Mundo, seguiu Alexei Navalny na Europa. 

Como foi detido e trocado?

Desde 2019, Gonzalez vivia na Polónia. Em 2022, poucos dias após a invasão russa da Ucrânia, foi detido pela secreta polaca ABW, após ser deportado da Ucrânia pelo SBU, perto da fronteira entre a Polónia e a Ucrânia por suspeita de trabalhar para Moscovo. As organizações jornalísticas consideraram-no inicialmente vítima de perseguição política, mas, a 1 de agosto de 2024, voou para Moscovo juntamente com outros espiões russos libertados. Gonzalez saiu do avião com uma t-shirt com a inscrição «Empire needs you» («O Império precisa de ti»), apertou a mão a Vladimir Putin e ao curador dos agentes dos serviços de informação ilegais do GRU, Oleg Sotnikov. 

Sotnikov, procurado pelo FBI por Conspiração para cometer fraude informática;
Conspiração para cometer fraude eletrónica; Conspiração para cometer branqueamento de capitais

Segundo o El Mundo, Gonzalez demonstra agora uma notável antipatia pela Polónia, onde passou dois anos e meio preso. Gonzalez não cooperou com a investigação polaca, observa o El Mundo. «Pablo considerava-se muito importante para o Kremlin. Segundo os serviços de informação polacos, disse aos investigadores que era tão valioso para a rússia que estavam dispostos a trocá-lo», disse o jornalista Drew Hinshaw à publicação. 

González acabou por ter razão. O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, foi criticado por ter concordado em trocá-lo (o jornal polaco Rzeczpospolita escreveu que isto foi feito de acordo com um procedimento «desconhecido nos nossos processos criminais»). As acusações de espionagem contra González não foram retiradas – segundo a investigação, este estava a passar informações ao GRU desde 2016 que poderiam prejudicar a Polónia. O caso foi transferido para tribunal, as audiências estão marcadas para começar no outono de 2025, e até planeiam enviar uma intimação ao acusado: não está formalmente proibido de entrar na Polónia. 

Como está ele a viver agora? 

“Ao longo destes 12 meses [...] o seu desprezo pela Ucrânia aumentou. Agora pigarreia constantemente quando fala. Como se estivesse a sufocar”, escreve o El Mundo sobre González. Segundo o jornal, o agente sofre de fibrose pulmonar, atribuindo problemas de saúde à Covid-19, que, segundo a sua própria versão, contraiu duas vezes na prisão polaca. 

O El Mundo refere que González vive em Moscovo, está a divorciar-se da sua mulher, Oihana Goiriena, que permaneceu em Espanha. Tem “dívidas na Polónia relacionadas com custos judiciais”, mas “finalmente tem um emprego”. O El Mundo não especifica exatamente que tipo de trabalho — apenas escreve que Gonzalez declinou o convite do canal de propaganda russa RT, mas «está a tentar encontrar tempo para escrever» e, a julgar pelas suas entrevistas, está a preparar alguns projetos de «formação para jornalistas e politólogos». 

Registo domiciliar da Tatyana Dobrenko, a madrasta do González/Rubtsov.
Pela coincidência ou não, o mesmo endereço da sede do GRU em Moscovo 

Na primavera de 2025, Gonzalez publicou um texto no qual jurava não ser um espião, mas um jornalista perseguido por motivos políticos: «Fui atacado por ser russo, por ser basco, pela minha posição de esquerda, por não simpatizar com o regime de Kiev» [o espião russo se esqueceu, que quando se passava por jornalista nunca mostrou nenhuma antipatia pública pela Ucrânia, alias escrevia todos os seus textos de acordo com a posição europeia/ocidental, retratando Ucrânia como a vítima da agressão militar russa, não provocada]. Segundo a afrimação do González/Rubtsov, a principal prova contra ele foi um aperto de mão com Vladimir Putin. Mas não é assim, sublinha a The Insider. De acordo com a publicação, Gonzalez usou dois passaportes (6543413** e 6465187**) da mesma série que pelo menos 15 outros espiões do GRU conhecidos pelos jornalistas — incluindo os dois envenenadores de Sergei Skripal — Boshirov e Petrov (na realidade Chepiga e Mishkin), participantes na tentativa do golpe do Estado no Montenegro, participantes no envenenamento de Yemelyan Gebrev na Bulgária, organizadores de ataques de hackers e muitos outros.

sexta-feira, março 28, 2025

Amigos Portugueses da Ucrânia [1956]

Em 1956 surgiu em Lisboa a iniciativa da criação do grupo chamado Amigos Portugueses da Ucrânia, a ideia conjunta dos ativistas ucranianos da Espanha e de um grupo de destacados dirigentes portugueses, ligados à vida política, à literatura e ao jornalismo de Lisboa. 

A iniciativa para a criação dos Amigos Portugueses da Ucrânia partiu de um grupo de destacados dirigentes portugueses em Lisboa, entre os quais o Monsenhor Avelino Gonçalves (1895 – 1981), diretor do diário lisboeta Novidades; Pedro Correia Marques (1890 – 1972), colunista, comentador e editor do diário lisboeta Voz; Dr. João Ameal (1902 – 1982), historiador e filósofo, membro do Parlamento português; Francisco Costa (1900 – 1988), poeta e romancista; Silva Dias, director da Rádio Nacional de Portugal (possivelmente José Sebastião da Silva Dias, 1916 — 1994, professor universitário, que também foi jornalista e inspector da Polícia Judiciária); Dr. R. Valadão do Secretariado Nacional da Informação (possivelmente Ramiro Machado Valadão, 1918 — 1997, jornalista e político, Presidente da RTP) e J. M. de Almeida, jornalista (possivelmente João Henrique de Oliveira Moreira de Almeida, 1892 – 1972, diretor d'O Dia). 

O engenheiro ucraniano Andriy Kishka (1909– 2006) 
Foto: esu.com.ua

O engenheiro e economista ucraniano Andriy Kishka (1909 – 2006), que também era jornalista e político, entre 1951 e 1964 residiu na Espanha, onde representava o governo da Ucrânia no exílio (DT UNR), autor e promotor das Associações dos Amigos das Nações Oprimidas, ao comentar o estabelecimento dos Amigos Portugueses da Ucrânia declarou: «No meu contacto com os líderes portugueses, descobri que a abordagem pela qual os portugueses iniciaram este trabalho deve ser considerada única. Quando estava a caminho de Lisboa, apercebi-me de que Portugal está longe da Ucrânia e nunca tinha mantido relações com ela; sabia de muitos penitenciários notáveis como Sua Excelência Fernando Cento (1883 —1973) e Sua Excelência Ildebrando Antoniutti (1898 – 1974), Núncios Apostólicos em Lisboa e Madrid, respectivamente, demonstraram um interesse activo pela minha missão, mas eu também sabia que o estabelecimento de uma tal Associação em Portugal seria uma tarefa difícil. Disse aos meus Amigos Portugueses da Ucrânia que, ao criarem a Associação, mostraram que possuíam o talento tradicional para a descoberta inerente à nação portuguesa, porque tinham descoberto o facto real de que as dificuldades do mundo tinham as suas raízes na escravização da Europa de Leste», escreveu o jornalista, historiador e educador ucraniano Dr. Nicholas (Mykola) D. Chubaty (1889 – 1975), fundador e editor, até 1957, da revista ucraniana em língua inglesa, Ukrainian Quarterly, publicada nos EUA entre 1944 à 2010. 

Naquela altura, quer Eng. Kishka, quer os Amigos da Ucrânia em Lisboa, tinham a convicção, definitivamente ingénua de que, através da libertação das nações cativas do império soviético, a própria nação russa também seria libertada do fardo de subjugar mais de cem milhões de não russos e, assim, encontraria uma oportunidade favorável para desenvolver os seus próprios talentos e verdadeiras liberdades democráticas cristãs. 

Os propósitos e objectivos dos Amigos Portugueses da Ucrânia foram amplamente discutidos em jornais de Lisboa como a Voz, Novidades e Diário de Notícias, bem como na rádio portuguesa. Os seus propósitos foram resumidos da seguinte forma: «Fornecer ao mundo informações verdadeiras sobre a Ucrânia; contribuir para o estabelecimento de relações amistosas entre Portugal e a Ucrânia.» 

O plano de estabelecer uma Associação de amizade entre as nações livres do mundo ocidental e as nações actualmente escravizadas pela Moscovo comunista e seus associados foi o início de uma cruzada cristã idealista pela verdade, a fim de desmascarar a hipocrisia comunista da USSR. Na época, Moscovo/ou estva a esforçar-se por se posicionar como libertadora dos antigos povos coloniais que já foram libertados ou estavam a ser libertados, ao mesmo tempo que continuava uma opressão colonial de pelo menos quinze nações com uma tradição e cultura milenares. 

Ucrânia, potencialmente um dos países mais rico da Europa, em termos dos seus solos, recursos naturais e humanos, estava exposto à exploração mais brutal por parte do governo central do império colonial soviético. 

A criação desta associação de amizade para a Ucrânia em Portugal (a primeira do género) foi cordialmente acolhida por ucranianos em todo o mundo. O bispo grego-católico ucraniano, Neil Savaryn (1905 – 1986), do Canadá Ocidental, escreveu aos Amigos Portugueses da Ucrânia: «Nesta grande obra pode ser prevista a nossa próxima missão na Europa de Leste, que foi tão vigorosamente proclamada ao mundo pela Mãe de Deus em Fátima». O Comité do Congresso Ucraniano da América (UCCA), a organização central de um milhão de americanos de ascendência ucraniana, escreveu por ocasião da criação dos Amigos Portugueses da Ucrânia o seguinte: «Expressaste a tua convicção e sabedoria política de que a tua simpatia pela nação escravizada da Ucrânia é uma arma psicológica potente que, quando utilizada de forma adequada e sensata, pode revelar-se uma NATO invencível que conduza a uma guerra pacífica de libertação de todas as nações escravizadas pela União Soviética.» 

No entanto, o grupo Amigos Portugueses da Ucrânia não durou por muito tempo, nem se sabe se desenvolveu alguma atividade prática, devido a simples ausência dos ucranianos em Portugal. Enquanto na vizinha Espanha, a comunidade ucraniana, nas décadas de 1950-60, era composta por cerca de 50 pessoas, na sua maioria radicados em Madrid, em Portugal a situação era oposta. Faltavam cerca de duas décadas até a chegada da primeira ucraniana conhecida, estabelecida em Portugal, de forma permanente, Sra. Ludmila Gallasch-Hall, a futura «madrinha dos ucranianos», ou seja, da emigração ucraniana que se estabeleceu em Portugal, em massa, à partir de 1989-91, a mãe da Aline Gallasch-Hall de Beuvink, a destacada professora, investigadora e deputada na CML.

@Universo Ucraniano, quaisquer publicação somente mencionando a autoria do texto. 

sábado, março 22, 2025

A história do serviço ucraniano da rádio nacional de Espanha (1951-1973)

Após o fim da II G.M., a Espanha participou, bastante ativamente, no esforço colectivo do Ocidente em conter o avanço do totalitarismo comunista. Um dos elementos deste esforço a criação da redação ucraniana na Rádio Nacional de Espanha (RNE), experiência que durou cerca de um quarto de século. 

A redação ucraniana for criada em 1951, financiada totalmente pelo governo espanhol, fazendo a parte de 13 outras redações nacionais, que preparavam os programas em chinês e várias línguas europeias, faladas na Europa Central e do Leste, nos países que ficaram do outro lado da cortina de ferro, separados do resto do continente de forma política, ideológica e cultural. 

A primeira emissão de rádio ucraniana em Espanha ocorreu a 20 de abril de 1951 e foi inicialmente transmitida três vezes por semana, durante 15 minutos, com direito a repetição da emissão. O seu primeiro diretor foi o jornalista, tradutor, poeta, ensaista e político ucraniano Dmytro Shtykalo (1951-1952).  

Primeiro director da Rádio ucraniana Dmytro Shtykalo (1909-1963)
Foto: Wikipedia

Alguns anos depois, segundo os dados do KGB soviético, os colaboradores da três outras redações da RNE: russa, romena e polaca/polonesa, usando os seus lobbies na política espanhola, conseguiram impor um certo limite na programação ucraniana, no que tocava ao uso de temas políticos e até mesmo culturais. Sob o pretexto do que os programas ucranianas, eram susceptíveis de ferir as sensibilidades dos funcionários de outras redações. A limitação imposta resultou na saída da redação ucraniana do seu primeiro diretor, o jornalista, escritor e político ucraniano Dmytro Shtykalo (1951-1952) e um dos principais jornalistas, o editor Wolodymyr Pastuschuk.

Após a saída precipitada do Dmytro Shtykalo, nos próximos meses o serviço ucraniano foi liderado, de forma bastante abrupta, por três responsáveis: poeta, libretista e jornalista Leonid Poltava (1921-1990); psicólogo, filósofo e político Bogdan-Yaroslav Tsimbalisty (1919-1991) e estudante Lev Martyuk, pertencente à «Comunidade de Estudantes Ucranianos em Espanha» (1947-1960).

Director do serviço ucraniano Leonid Poltava (1921-1990)
Foto: arquivo

A rádio precisava, para a sua liderança, de uma figura respeitada e que reunisse o consenso geral na comunidade, assim como chefe do serviço ucraniano foi designado, a figura pública e política proeminente, estudioso da literatura ucraniana, tradutor, escritor e bibliógrafo Dmytro Buchynskyj (1913-1963).

Director do serviço ucraniano Dmytro Buchynskyj
Foto: esu.com.ua

No entanto, no início da década de 1960 as proibições impostas foram levantadas, graças ao esforço colectivo do Leonid Poltava (mais tarde se tornou o chefe-editor do jornal ucraniano mais antigo dos EUA, «Svoboda» (Liberdade), Bohdan Tsymbalystyy e Dmytro Buchynskyj (diretor da rádio no período entre 1952 a 1963). No verão de 1965 o governo espanhol decidiu introduzir uma série de mudanças da sua política em relação às rádios estrangeiras, filiadas na RNE/REE. Assim, Espanha pretendeu dirigir mais esforço de comunicação aos seus próprios cidadãos, emigrados em diversos países da Europa. O esforço de se comunicar mais e melhor com a sua própria Diáspora, vinha sendo acompanhado pela liquidação de várias redações estrangeiras. Dos 14 existentes, sobreviveram apenas 5, a ucraniana era uma delas, que passou a dispor o tempo de antena, que antes era ocupado pelos programas em língua russa, uma das redações ora extintas. Desde o dia 1 de junho de 1965, a redação ucraniana passou de 15 minutos diários para 45 minutos diários, com direito a duas repetições no horário mais nobre. 

A campa do Dmytro Buchynskyj e Ivanna Slipecka no cemitério de Almudena em Madrid
Foto: SUM, Espanha

Naquela altura o chefe-editor da redação ucraniana era Wolodymyr Pastuschuk (1963-1973), auxiliado por Ivanna Maria Slipecka e Tamara Buchynska, a viúva e a filha do Dmytro Buchynskyj, subitamente falecido em 1963. Os jornalistas ucranianos recebiam o salário pago pelo RNE, no valor de 4.000 pesetas, que correspondiam, através de um câmbio comparativamente simples, a uma quantia de cerca de 825 Euros (com inflação anual contada até 2023). 

Wolodymyr Pastuschuk (1926-2006)

No fim de 1964, o Reino da Espanha foi visitado pelo Yaroslav Stetsko, um dos líderes históricos da ala revolucionária da Organização dos Nacionalistas Ucranianos, a OUN(B). Dr. Stetsko, na sua qualidade do presidente da organização internacional chamada Bloco Antibolchevique dos Povos (ABN), se reuniu com a liderança da diplomacia espanhola, debatendo a questão do esforço da contenção da expansão comunista na Europa. Sensivelmente o mesmo assunto, mas do ponto de vista religioso, foi abordado na visita a Espanha do Dom Ivan Buchko (1891-1974), o arcebispo da Igreja Greco-Católica Ucraniana na Europa. O esforço conjunto resultou na obtenção de uma posição mais forte da redação ucraniana em Madrid. A RNE não exercia nenhuma censura prévia dos conteúdos, limitando-se a receber a transcrição dos programas emitidos, posteriormente da sua saída ao ar. 

A emissão da programação ucraniana decorria nas ondas médias, no diapasão entre 31,2 à 48,9 metros. A repetidora da RNE estava localizada nos Montes Pirineus, como tal, cobria, de forma bastante sustentável, os territórios da Polónia socialista e Ucrânia. A programação ucraniana começava com o lema gravado: «Aqui se fala a Rádio Nacional de Espanha» e terminava com o toque do hino nacional da Ucrânia. A programação incluía as notícias do dia, revista da imprensa, textos políticos e religiosos. Durante os períodos festivos, era criada a programação própria, com mais música e textos relevantes. 

Além dos pessoal ucraniano-espanhol permanente, com a rádio colaboraram temporariamente duas estudantes americano-ucranianas, vindas do movimento escoteiro «Plast»: Margarida Brzeski-Andrade (que mais tarde de casou com um brasileiro e se mudou ao Brasil) e Luba Savchuk, ambas do Detroit. 

Margarida Brzeski-Andrade na Ucrânia em 2014

Após o crescimento da programação, a redação ucraniana sentiu-se constrangida, pela falta dos fundos e do pessoal. Por isso, a imprensa ucraniana da Diáspora, principalmente na Alemanha Federal, Canadá e no Reino Unido, alinhada com a já mencionada OUN(B), lançou o pedido aos seus leitores e simpatizantes de auxiliar a redação ucraniana. Quer em termos de apoios financeiros, para que a redação pudesse contratar mais um editor e duas locutoras, quer em termos de material: revistas, livros e jornais, LP's com a música ucraniana. 

Naquela época a vida política ucraniana ativa na Diáspora, principalmente na Europa, Canadá e nos EUA era fortemente marcada pela divisão ideológica e alguma rivalidade pessoal entre os membros e apoiantes das duas alas da OUN: a histórica e mais ponderada OUN(M) e mais jovem e mais combativa OUB(B). Para evitar a partidarização da rádio e para garantir o apoio «bipartidário» ao projeto, o seu editor, Wolodymyr Pastuschuk publicou na imprensa ucraniana alguns comunicados dirigidos a comunidade ucraniana em geral, explicando, que apesar do apoio prestado pela OUN(B), esta organizacao não exerce nenhum controlo programático sobre a redação ucraniana de Madrid e que a programação emitida está sob a tutela das entidades espanholas competentes. 

Em 1973 a RNE foi integrada na Radiotelevisión Española (RTVE), uma entidade pública, que passou a gerir os canais de rádio e televisão estatais de Espanha. Além disso, Espanha entrava num período de grandes mudanças políticas e sociais, que se iniciou em 20 de novembro de 1975, com a morte o general Franco, sendo um mês depois, a 22 de novembro de 1975, Juan Carlos I é proclamado o rei de Espanha e o país começa a sua transição à democracia. As mudanças políticas que também significaram as mudanças na política externa da Espanha, que procurava o apaziguamento e não hostilização em relação ao bloco dos países comunistas. Nessa ótica as redações estrangeiras da RNE foram extintas, e assim terminou a história da redação ucraniana do «Rádio Madrid», como a estação era conhecida na Ucrânia. 

Rádio «Madrid», assim o serviço ucraniano da RNE era conhecido pelo KGB

Mas dez anos antes nada indicava todo este desfecho, e a programação ucraniana suscitava a preocupação constante do KGB da Ucrânia soviética. Tudo indica que a vida da redação ucraniana era acompanhada, de perto, pelos agentes soviéticos, possivelmente infiltrados nas outras redações nacionais da RNE. Além disso, KGB fazia o monitoramento constante da imprensa da Diáspora ucraniana, lendo e compilando as fontes OSINT, no esforço de saber mais do que se passava na rádio ucraniana da Espanha. 

Em outubro de 1965, o major do KGB da Ucrânia soviética, responsável sênior da 1ª Direção (operações no estrangeiro), preparou o dossier alargado, dedicado à redação ucraniana da RNE. O documento recebeu o grau médio de classificação, «somente para o uso em serviço». Major Pakhomov informava aos seus colegas e superiores, que, ao preparar o dossier, teve que ler diversas edições da imprensa ucraniana, publicadas na Alemanha Federal, Canadá, França e na Grã-Bretanha. 

Na mesma época, o país vizinho, Portugal, não estava acompanhando o esforço da Espanha, segundo os dados do KGB, nos meados da década de 1960, Portugal limitava-se a oferecer a Rádio Europa Livre, que em 1976 se fundiu na mesma empresa com a Rádio Liberdade (RFE/RL), um dos aparelhos repetidores, situado na área de Lisboa. Aparentemente, a repetidora usava a superfície do Oceano Atlântico como o meio natural de «repassar» as ondas de rádio, que refletidos pelas ondas do mar chegavam as partes do território sovietico, tentando escapar das medidas activas de guerra electrónica, usadas pelo governo sovietico, na tentativa de impedir a chegada das notícias livres da censura comunista, vindas do mundo ocidental. 

@Universo Ucraniano, quaisquer publicação, somente mencionando a autoria do texto. 

Agradecimentos: Arquivo Setorial Estatal do Serviço de Informações Externas da Ucrânia (GDA SZRU), historiador Eduard Andryushchenko; ativistas Galyna Koryzma (associação «Nashe slovo», Espanha) e especialmente Myroslava Kavatsyuk (oficina criativa «Kod Natsii», Espanha). 

Fontes: 

Publicação do KGB «Coleção de materiais sobre os principais centros ideológicos do inimigo e organizações nacionalistas ucranianas estrangeiras que conduzem trabalhos subversivos contra a URSS e, em particular, contra a RSS da Ucrânia». Kyiv, 1969, Arquivo Setorial Estatal do Serviço de Segurança da Ucrânia (GDA SBU);

«Breve historia de la Organizacion estudiantil y de la Colonia ucraniana en España /1946-1996/», Philadelphia-Madrid, 1997;

Vasyl Voloshyn, trabalho de Bacharelato: «Emigração política ucraniana em Espanha após Segunda Guerra Mundial» (em ucraniano), Lviv, 2024

quinta-feira, março 20, 2025

A bibliografia ucraniana publicada fora da Ucrânia (1945 – 1961)

Uma bibliografia abrangente de publicações em língua ucraniana publicadas fora da Ucrânia no século XX continua a ser uma obra absolutamente importante da autoria do bibliógrafo ucraniano, Dr. Dmytro Buchynskyj. 

Dr. Dmytro Buchynskyj

Dmytro Buchynskyj nasceu na Ucrânia Ocidental, na região de Ternopil em 1913. Estudou teologia por dois anos na cidade de Dubno, na Volyn, e, após a Segunda Guerra Mundial, estudou filosofia na Universidade Ucraniana Livre de Munique. Depois de se mudar para a Espanha em 1949, ele trabalhou para a Rádio Nacional de Espanha como jornalista e depois director do serviço ucraniano da RNE, além de escrever artigos, que eram publicados na imprensa da Diáspora ucraniana em todo o mundo. Buchynsky morreu em Roma em 1963 (a data da sua morte por vezes é confundida com a morte do seu filho, Yaropolk Buchynskyj, este em Madrid, em novembro de 1982). 

A obra do Dr. Dmytro Buchynskyj foi publicada em Madrid, em 1962 pelo Ministério da Educação Nacional, sob a tutela da Direcção Geral de Arquivos e Bibliotecas. 

Em 1996 a obra pouco conhecida Dr. Buchynskyj foi reimpressa (omitindo a maior parte do levantamento histórico introdutório) pela Canadian Institute of Ukrainian Studies, em forma de Research Report No. 59 (cidade de Edmonton, Press The University of Alberta). Por sua vez, a publicação foi digitalizada em 2016 e colocada para a consulta pública pelo Arquivo da Internet da mesma Universidade. 

A ocasião formal para sua publicação original da obra foi uma exposição organizada pela Biblioteca Nacional de Espanha no outono de 1961 para homenagear o centenário da morte de poeta ucraniano Taras Shevchenko. Enquanto a primeira seção da obra de Buchynskyj lista mais de cinquenta títulos que tratam de Shevchenko e publicados na Diaspora entre 1945 e 1961, outras seções tratam de história, cultura, ciências sociais, religião e história da igreja, linguagem, literatura e crítica literária, arte, pedagogia, ficção científica, literatura infantil, filatelia e, finalmente, obras em línguas estrangeiras relacionadas à Ucrânia. A obra contém um índice de autores e, embora as descrições bibliográficas sejam muito lacônicas para serem perfeitamente satisfatórias para um bibliógrafo (ou seja, os subtítulos não são indicados e a paginação é frequentemente imprecisa), ainda assim é uma obra mais mais abrangente do que as obras de outros bibliógrafos ucranianos da época — Joseph Danko, Miroslav Labunka, Bohdan Krawciw ou Bohdan Romanenchuk. 

A publicação canadense conta com a nota introdutoria da autoria do Dr. Edward Kasinec, curador da Divisão Eslava e Báltica da Livraria Publica de Nova Iorque (1984-2009), o Pesquisador Associado no Harriman Institute, Columbia University e, desde 2014, o Pesquisador visitante de Hoover Institution.

A publicação pode ser baixada em forma de PDF, há algumas edições ucraniano-brasileiras incluídas nessa bibliografia.

Bónus

Relatório de Investigação nº 29 

Publicações de deslocados e refugiados políticos ucranianos, 1945-1954

Coleção John Luczkiw. Biblioteca de livros raros Thomas Fisher, Universidade de Toronto

Instituto Canadiano de Estudos Ucranianos, Universidade de Alberta, Edmonton 1988

terça-feira, outubro 15, 2024

Pablo González: o espião russo do GRU desde 2010

O jornalista do The Guardian Shaun Walker descobriu, com ajuda do Christo Grozev, um dos principais investigadores do Bellingcat, as informações interessantes sobre Tatyana Dobrenko, madrasta russa do espião do GRU Pablo González (Pavel Rubtsov), que recentemente foi incluído na troca entre Ocidente e a rússia. 

Para começar, existem registos russos de duas Tatyana Dobrenkos diferentes, uma nascida em 1954 e outra em 1959, mas ambas ligadas ao mesmo número de segurança social. Ainda mais curiosos foram os seus endereços oficiais ao longo do tempo. Antes de chegar ao apartamento onde vivia o pai de González, ela estava registada no 76 Khoroshevskoye Shosse. Esta morada, no nordeste de Moscovo, alberga um bloco de apartamentos da era soviética que não tem nada de especial, exceto uma coisa: o enorme edifício mesmo ao lado, no 76B. O edifício é vulgarmente conhecido como «Aquário» e alberga a sede do GRU. Por si só não prova a filiação no GRU. «Mas vemos que é também o endereço de casa de outros funcionários conhecidos do GRU”, explica Grozev. Foi certamente uma coincidência surpreendente para alguém cujo enteado era agora acusado de ser oficial do GRU. Dobrenko recebeu um pedido para comentar, via Telegram, leu e bloqueou o jornalista sem responder. 

No ano passado, o meio de investigação russo exilado «Agentstvo» publicou uma história baseada numa base de dados de reservas de voos russos que foi divulgada. Uma das reservas parecia mostrar que, em junho de 2017, dois bilhetes de ida e volta de Moscovo para São Petersburgo tinham sido comprados numa única transação: um para Pablo González, utilizando o seu passaporte russo, e outro para um homem chamado Sergei Turbin. Há fortes indícios, segundo Agentstvo, de que Turbin é um oficial do GRU. Grozev concordou, referindo que a sua investigação mostra que Turbin trabalhava para o 5º Departamento do GRU, que lida com agentes ilegais. A Turbin não foi encontrado para comentar. 

No cerne do caso dos procuradores polacos está uma série de relatórios que González terá escrito ao longo de vários anos, aparentemente aos seus supervisores no GRU. “Estes eram relatórios típicos de inteligência sobre instalações, infraestruturas e pessoas com quem contactar”, explica Stanisław Żaryn, conselheiro de segurança nacional do Presidente da Polónia. Outra fonte disse que estes relatórios fazem frequentemente referência ao “Centro”, código de espionagem russo para a sede de inteligência. Acredita-se que alguns dos relatórios incluíram perguntas de acompanhamento, aparentemente de um responsável. Num de 2018, González terá escrito aos seus supervisores que tinha “destruído os dispositivos eletrónicos conforme ordenado”, despedaçando-os e atirando-os para o oceano. 

Um relatório continha alegadamente cópias de e-mails pessoais escritos pelo Boris Nemtsov, o pai assassinado de Zhanna Nemtsova. Nemtsova não tem permissão para falar sobre o caso, uma vez que está a cooperar com a investigação e assinou um acordo de sigilo, mas confirmou que possuía o antigo portátil pessoal de Boris Nemtsov, trazido de Moscovo pelo seu advogado. Ela recordou ainda que o emprestou a González numa ocasião, quando ele alegou que o seu próprio computador tinha avariado.

Espião russo desde quando?

Reportagem da Antena3 sugere que González estava na folha de pagamentos do GRU desde pelo menos 2010. Christo Grozev considera que Pablo foi recrutado ainda em 2004, quando solicitou o seu primeiro passaporte russo. Consistente com outros casos que investigámos, em que jovens de origem parcialmente russa foram recrutados pela rezidentura do GRU de Barcelona, disfarçados de funcionários consulares.

Espião do GRU desde 2010

A Antena 3 Noticias teve acesso a informações que confirmam que Pablo González estava a trabalhar para o GRU, o serviço militar de inteligência russo, durante cerca de 15 anos (no mínimo). Sabe-se disso porque existe um documento de 2017 em que Pablo pede um aumento de soldo. Naquele momento cobrava 3.100€ mensais, viagens a parte. Pablo/Pavel escreve: «recebo este valor desde 2010». Nesta mesma mensagem ele também pede um aumento, querendo receber 4.300€ mensais, o que justifica com a inflação elevada; pedindo que se reconhece a sua antiguidade, solicitando uma vivienda em Moscovo e uma pensão para quando se retirar do serviço.

A sua função: 'targeting'

De acordo com as fontes consultadas pela Antena 3 Noticias, Pablo González trabalha na Linha N do GRU. O departamento de serviço militar de inteligência russo onde se depara com chamados «agentes ilegais»: são aqueles que trabalham fora do seu país, mas não têm qualquer suporte legal por parte da sua embaixada. Neste caso usando a cobertura do jornalista, sem necessidade de obter uma identidade falsa. Hoje sabemos que Pablo González se dedicava ao chamado 'targeting': identificar e sinalizar personas e lugares «de interesse» que, mais tarde, se poderiam converter no objectivo do Kremlin.

quinta-feira, agosto 15, 2024

O caso do agente do GRU, o russo-espanhól Pablo González Yagüe

O cidadão russo-espanhól Pablo González (nascido Pavel Rubtsov) é um espião do secreta militar russa GRU. Foi desoberto pelo SBU, capturado pela secreta polaca ABW em 2022 e agora regressou à rússia no âmbito da troca dos prisioneiros entre Ocidente e rússia. 

Oito pessoas regressaram à rússia das prisões ocidentais a 1 de Agosto, por causa das quais o Kremlin libertou 16 presos políticos e os extraditou para o estrangeiro. Entre aqueles que Vladimir Putin acolheu pessoalmente em Moscovo estava o oficial dos serviços de informação Pablo González, também conhecido por Pavel Rubtsov, que foi preso na Polónia nos primeiros dias de uma guerra de grande escala. Cidadão da rússia e de Espanha, González trabalhou disfarçado durante vários anos como jornalista e correspondente militar, comunicou extensa e confidencialmente com oposicionistas russos (incluindo Ilya Yashin e Vladimir Kara-Murza) e transmitiu informações sobre eles a Moscovo. A publicação russa Meduza conta a incrível história de talvez o mais talentoso dos oito espiões russos que participaram na histórica troca. 

Rubtsov foi detido na Polónia a 28 de fevereiro de 2022, no quarto dia de uma invasão russa em grande escala, a sete quilómetros da fronteira com Ucrânia. O russo acusado de trabalhar para o GRU passou mais de dois anos em regime de solitária. Durante todo este tempo, continuou a insistir que não era um espião, mas estava a filmar uma reportagem sobre refugiados da Ucrânia para os meios de comunicação espanhóis. 

O momento da detenção do Rubtsov na Polónia / ABW

Foi como o jornalista e politólogo espanhol Pablo González Yagüe (tinha um passaporte com esse nome), e não como o oficial dos serviços de informação ilegais Pavel Rubtsov, que os jornalistas de Madrid, as organizações especializadas europeias e a oposição russa o conheceram. Além disso, o seu desfarce – ao contrário das coberturas defeituosas de outros espiões russos expostos era bastante forte. 

Dois passaporte do González-Rubtsov com os nomes diferentes

González-Rubtsov não fingiu ser espanhol - na verdade nasceu em Moscovo em 1982 numa família de imigrantes espanhóis. O seu avô, Andres González Yagüe, foi levado à URSS ainda criança, salvando-se da guerra civil espanhóla. A filha de Andres, María Elena González, casou com o cientista soviético Alexei Rubtsov; chamaram o seu filho de Paul. “Estas famílias sempre estiveram no campo de visão da inteligência soviética e russa, eram seguidas”, explica a investigadora de inteligência e editora-chefe adjunta da página russa Agentura.ru Irina Borogan. “Porque eles, pela sua origem, falam línguas e têm parentes no estrangeiro e, por isso, são perfeitos para o recrutamento.”

Após o divórcio dos pais e a queda do Muro de Berlim – Pavel tinha nove anos na altura – a sua mãe levou-o de volta à sua terra natal histórica, o País Basco, e mudou o nome do filho para Pablo González Yagüe. Segundo o The Objective, que estudou o livro de família emitido pelo cartório de registo civil e departamento de adoção do Consulado Geral de Espanha em Moscovo, este foi feito de acordo com a lei: María Elena apresentou ao consulado uma certidão de divórcio e registou o seu filho em o registo civil com a versão espanhola do seu nome e apelido.

González tinha dois nomes desde a infância, mas começou a escondê-los mais tarde. Em 2003, aos 21 anos, Pablo recebeu um passaporte interno russo em nome de Pavel Rubtsov, e em 2016 - um passaporte estrangeiro. No entanto, na oposição política russa e entre a emigração pré-guerra, era conhecido exclusivamente como cidadão espanhol. Sempre defendeu este desfarce - por exemplo, queixava-se de que não sabia como obter um visto de trabalho russo (na realidade visitava constantemente o pai em Moscovo).

González-Rubtsov com o pai, sua esposa e meia-irmã em Londres

Após a detenção de Pablo, tanto os seus colegas espanhóis como a mãe dos seus três filhos, a espanhola Oiana Goiriena, insistiram na sua inocência e, numa entrevista, referiu que não há “nada de excepcional” em ter dois passaportes com dois nomes diferentes. Até a Amnistia Internacional e os Repórteres Sem Fronteiras se manifestaram em apoio de Rubtsov. 

No entanto, até agosto de 2024, a Polónia continuou a deter o oficial dos serviços de informação, que, segundo os serviços de informação, realizou “operações a favor da Rússia”. Varsóvia enfatizou que o seu “estatuto de jornalista” lhe permitiu “viajar” para “zonas de conflitos militares” e “tensões políticas”. No entanto, não foi formalmente acusado.

“Exigia orçamentos de media aos meus curadores”

Na Universidade de Barcelona Rubtsov estudou jornalismo e concluiu o mestrado em filologia eslava. Fez carreira como jornalista, posicionando-se como um especialista na Europa de Leste, nos Balcãs e em todos os conflitos quentes e territórios não reconhecidos que aí surgiram após o colapso da URSS, desde a «dnr» e a Transnístria até ao Kosovo e Alto Karabakh. Acabou por lançar o seu próprio website chamado Eulixe, que se auto-intitula “meios de comunicação independentes” que se opõem às “elites”. 

De acordo com os relatórios descobertos pela ABW nos dispositivos de Rubtsov, Pablo “exigia orçamentos de media aos seus curadores” - para “um site que criou que “refletia a informação correta”. Por “apenas algumas centenas de euros por mês”, a sua página, Eulixe apresentou, por exemplo, material de uma conferência de imprensa da Bonanza Media, uma publicação que, sob o controlo do GRU russo, tentou negar o papel da rússia no derrube do voo MH17. 

Rubtsov-González posicionou-se também como politólogo: graças à sua “especialização” nos países do espaço pós-soviético e na região dos Balcãs, integrou-se no meio especializado de Madrid. Em particular, Pavel colaborou com o importante grupo analítico European Council on Foreign Relations (ECFR), cujos membros incluem vários antigos presidentes e primeiros-ministros de países da NATO. Juntamente com co-autores do ECFR, Rubtsov escreveu o livro “Ucrânia: da Revolução Maidan à Guerra no Donbass”. Foi publicado em 2016 com o nome de Gonzalez na capa. No livro Rubtsov chamava a agressão russa de “intervenção direta” e “guerra híbrida”. 

Rubtsov conseguiu também infiltrar-se na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (PACE), onde, aparentemente, foi acreditado como jornalista. Após a sua detenção, a PACE chegou a pedir a libertação de González, comparando-o com Julian Assange. 

Rubtsov participou também em várias conferências na Polónia. No fórum de Rzeszow, foi mesmo convidado para moderar um painel – após o evento, escreveu num relatório aos seus curadores: “Parece que consegui plantar a semente da dúvida entre os euro-atlantistas”. Os jornalistas locais descobriram mais tarde que, ao comunicar com os polacos, González “estava concentrado em intensificar... narrativas que eram importantes do ponto de vista dos interesses da federação russa”.

Algumas de publicações do González na rede X

Em 2019, Rubtsov mudou-se para Varsóvia e começou a comunicar com muitos jornalistas estrangeiros aí sediados. Tinha também a namorada local chamada Magda, que “conheceu num evento qualquer em Alto Karabakh”, combinando a sua nova relação com um casamento oficial em Espanha. 

Rubtsov-González compilou um dossier detalhado sobre a sua nova amante, que enviou ao GRU. “Usar mulheres é uma tática padrão dos oficiais ilegais dos serviços de informação russos; foi utilizado nas décadas de 1930 e 1940. Um homem solitário levanta sempre suspeitas, mas uma mulher local pode encaixa-o em qualquer lugar. “Que tipo suspeito anda por aí?” — “Ah, é o namorado da Magda!” 

O agente do GRU infiltrou-se na Fundação Nemtsov em 2016 graças à acreditação jornalística no PACE. A fundação organizou então um evento à margem do Conselho da Europa apelando à nomeação de um relator especial do PACE no caso do assassinato de Boris Nemtsov. O Pablo apareceu e pediu à Zhanna [Nemtsova] uma entrevista em russo muito bom. 

Pablo González, Alisa Ganieva, Ilya Yashin, Pavel Elizarov (entre Outubro de 2021 era noivo e depois marido da Zhanna Nemtsova. Casamento terminou em Outubro de 2023).
Foto: do arquivo pessoal de Alisa Ganieva.

A entrevista de Nemtsova saiu em basco, e o “jornalista espanhol” interessado na rússia foi incluído na lista de discussão dos eventos da organização. Graças a eles, ao longo de vários anos, González teve acesso aos políticos Ilya Yashin, Vladimir Kara-Murza, Mikhail Kasyanov, aos advogados Ilya Novikov e Vadim Prokhorov (do portátil pessoal de Zhanna Nemtsova o agente russo copiou até as cartas do seu pai).

Os truques psicológicos da secreta militar russa

Sobre a guerra russa na Ucrânia (2014-2022): geralmente González “expressava total simpatia pelo lado ucraniano e não apoiava os separatistas”. Noutras conversas Rubtsov dizia que era “do País Basco livre”, que travou a sua própria luta armada pela independência, e que “compreende o povo de Donbas que quer a sua auto-determinação.»

Com Ilya Yashin, que Gonzalez entrevistou, encontraram o interesse comum no futebol. ”... alguns anos depois, este homem do GRU e eu acabámos em Madrid ao mesmo tempo e divertimo-nos muito no jogo local do Atlético”, contou Yashin.

Durante todo este tempo, González-Rubtsov escreveu relatórios detalhados aos curadores sobre muitos dos seus amigos e conhecidos. Compilou informações não só sobre oposicionistas proeminentes, mas também sobre participantes comuns da escola da Fundação Nemtsov que vieram da Ucrânia e dos Estados Unidos para o curso intensivo (Pablo suspeitava que um deles trabalhasse para a CIA). González-Rubtsov também era fotógrafo – tirava fotografias a toda a equipa da Fundação Nemtsov, agora está claro para onde foram todas estas fotos.

Os relatórios de González ao GRU, consistiam geralmente em três partes: uma descrição dos contactos realizados, uma avaliação dos custos financeiros de sua “inserção” (com um pedido de compensação financeira) e uma história sobre os planos para o futuro. Na tentativa de demonstrar aos seus curadores do GRU que estava a receber acesso exclusivo à oposição russa, Rubtsov incluiu não só as moradas, números de telefone e descrições dos familiares das pessoas à quem espiava, mas também histórias detalhadas sobre os próprios esforços para estabelecer contacto - até que marca de vinho comprou no presente e de que forma exatamente este vinho foi presenteado.

Rubtsov também fazia longas disserções sobre os traços de caráter das pessoas por ele espiadas, uma espécie do retrato psicológico detalhado.

Os investigadores russos especializados nos serviços de informação, Andrei Soldatov e Irina Borogan acreditam que o trabalho de Rubtsov, homem que recolhia informações sobre “os opositores de Putin, que são depois perseguidos e presos”, foi, útil para o Kremlin:

«Krasikov (o assassino russo preso na Alemanha, o principal interesse russo na recente troca) é apenas um executante e, ao contrário de Pablo, nunca conseguirá infiltrar-se em lado nenhum. Uma das tarefas de um agente “ilegal” como González é precisamente identificar pessoas que possam ser posteriormente recrutadas. Descubrindo mais sobre a sua vida pessoal. Recrutam as pessoas não com base em opiniões: “Dizem que é a fã de Navalny - não quer trabalhar para Putin?” A abordagem é feita quando descobrem que a tua mãe [por exempo] está doente e precisa de ajuda no hospital.»

Em relatórios aos seus curadores, Pablo escreveu diretamente que, por cautela, usaria apenas cartões bancários ligados a familiares – e abriu um deles em nome do seu pai que vivia em Moscovo. Alexey Rubtsov enviava-lhe ao 350 euros mensais. Os familiares de Pablo alegavam que Rubtsov pai apenas sustentava financeiramente o seu filho: enviava-lhe, um freelancer sem rendimentos estáveis, “dinheiro pelo aluguer de vários apartamentos da sua avó em Moscovo”.

Pelo contrário, nunca pareceu aos conhecidos de González que este precisasse de dinheiro - o “jornalista” comprava regularmente o equipamento mais caro e, na fronteira polaco-ucraniana, nos primeiros dias da guerra, trabalhou no mais recente MacBook Pro.