terça-feira, setembro 01, 2026

Dentro do novo GULAG russo: as tormentas das civis e das POW ucranianas

«Valentyna Zayarna no cativeiro [russo] desde 08.040.23»

Desde 2014 — e sobretudo desde 2022 — a rússia prendeu e mantém em cativeiro pelo menos 1.878 civis ucranianos. Estes são apenas os casos confirmados; o número real pode chegar aos 10.000 pessoas. Pelo menos 223 dos detidos conhecidos são as mulheres.

Natalia Vlasova (44) foi detida pelos russos em Donetsk, em 2019. Na cadeia de «Izolyatsia», foi despida, amarrada com fita adesiva, encharcada com água e sujeita a choques elétricos. Se ela não gritasse alto o suficiente, o choque elétrico era intensificado. Os seus dentes foram cerrados com uma lima de metal, os seus mamilos foram torcidos e tentaram inserir uma garrafa na sua vagina. Um médico reanimou-a com amoníaco quando ela desmaiou. 

Natalia Vlasova no cativeiro russo

A Natália pediu para ser fuzilada. Disseram-lhe que ela deveria sofrer.

Após uma das torturas, Natalia foi acorrentada durante toda a noite numa cela estreita onde só podia estar de pé com os braços levantados. Numa outra ocasião, foi levada para o duche e informada de que 15 soldados a iriam violar. Viram que ela estava menstruada e mudaram de ideias.

A cela típica da cadeia / centro de tortura russa de «Izolyatsia» em Donetsk

O telefone militar da época da II G.M:, conhecido como «tapik» usado na tortura de ucranianos

Os russos mantêm-na presa há mais de sete anos. Atualmente, encontra-se numa colónia penal na Sibéria. Foi condenada a 18 anos de prisão. A revista americana The NewYorker escreve sobre as mulheres ucranianas da mesma cela prisional em Rostov. Antes disso, muitas delas foram torturadas pelos russos em Donetsk.

Os russos capturaram a médica do batalhão «Aydar», Liliya Prutian, perto de Petrivske. No mesmo dia, um dos soldados russos violou-a.

POW ucraniana Liliya Prutian

Três homens aproximaram-se de Liliya. Um deles disse: “Preciso que entendas. Estivemos na linha da frente / front durante três meses”. Liliya chorou e implorou para que fosse somente um deles... 

As cozinheiras do «Aydar» também estavam em Donetsk. Os ocupantes russos julgaram-as como membros de uma “organização terrorista”. 

Após a ocupação de Mariupol pelo exército russo, Marina Tekin foi por conta própria ao centro de triagem russo. Prometeram-lhe que seria libertada e regressaria a casa. Depois, ameaçaram cortar-lhe os dedos se ela não «confessar» de ser «uma fascista». 

Depois de passar por várias prisões, Marina foi levada para uma prisão em Donetsk. Ela, juntamente com outras mulheres do batalhão «Azov» foram obrigadas a rastejar pelo chão de betão até à cave. Já lá estavam mais de dez mulheres ucranianas. Havia seis camas no total e alguns colchões sujos.

As mulheres eram obrigadas a cantar o hino russo. Se cometessem um erro, eram espancadas com bastões de borracha com metal no interior. Os guardas percorriam o corredor todos os dias e espancavam as prisioneiras aleatoriamente. Certa manhã, a Marina ouviu um guarda dizer: «Eu me cansei pr´o ca..lho de bater nelas».

Na cela ao lado, os russos estavam a espancar um soldado ucraniano. Gemia de dor, e os seus companheiros de cela pediram um médico. «Avisam quando ele morrer», respondeu o guarda russo. No dia seguinte, o corpo foi retirado da cela. 

Não havia água, nem lavatório na cave. Em vez de uma sanita, havia um cano de esgoto no chão. As ucranianas deixavam um pouco do líquido de sopa para podessem lavar o esgoto.

Elas faziam pensos higiênicos/absorventes com as suas t-shirts. Partilhavam o sabonete entre si. Quase nunca tinham autorização para tomar banho. Ao fim de uma semana, muitas tinham as mãos e os pés infetados. 

A cozinheira do «Azov», Iryna Mogitych, diz que estavam a apodrecer vivas. Quando ela pediu um médico, a enfermeira respondeu: “Não são previstos médicos num campo de concentração”.

Uma das guardas costumava sufocar as ucranianas com saco plástico na cabeça e ameaçava-as com fuzilamento. Durante os interrogatórios, os guardas espancavam-as por qualquer movimento na cadeira.

Iryna Navalny, de 26 anos, foi levada para uma cela com um saco na cabeça. As suas costas e nádegas estavam cobertas de hematomas roxos. Os russos acusaram-na de preparar uma explosão em Mariupol e gravaram a sua “confissão” em vídeo.

Antes disso, foi espancada e torturada com um choque elétrico, ameaçavam fazer o mesmo à sua mãe e a avó. A avó de Iryna trazia, por vezes, chupa-chupas. As ucranianas partiam um chupa-chupa com uma pedra e dividiram-no entre todas.

Valentyna Zayarna, professora de inglês, de 66 anos, deu guarida a um homem que conhecia por Dima. Ela não sabia que ele era o tenente-coronel das FAU Denys Storozhuk, que tinha fugido de «Azovstal» antes da rendição do contingente ucraniano.

Ucraniana civil, Valentyna Zayarna, no tribunal russo

Valentyna foi buscar um pacote para ele a Donetsk. Aí, foi detida pelo FSB. Os russos espancaram o seu filho e ameaçaram enviá-lo para um hospital psiquiátrico se Valentyna não assinasse uma confissão. Ela concordou e, de seguida, engoliu um punhado de comprimidos. Valentyna sobreviveu. Foi condenada a 12 anos de prisão.

Iryna Kulish, da região de Zaporizhzhia, vendia legumes no mercado antes da ocupação russa. Alguém avisou os russos que ela apoiava Ucrânia. Os russos detiveram-na e acusaram-na de preparar uma explosão. A Iryna tem Parkinson. Na prisão, as mãos começaram a tremer tanto que não conseguia dormir descansada. Os russos transferiram-na por mais de 20 prisões e centros de detenção preventiva (as famosas cadeias SIZO).

Kateryna Korovina, de 29 anos, de Starobilsk, foi condenada a 10 anos de prisão por uma doação equivalente aos 12 dólares americanos, destinados às ONG´s ucranianas. Kateryna explicava que ajudou os civis. O FSB disse que o dinheiro era para os militares ucranianos e acusou-a de «financiar o terrorismo».

Após 14 meses numa cave em Donetsk, algumas das mulheres foram transferidas para a cidade russa de Rostov.

Chegaram exaustas e todas machucadas. O subdiretor da cadeia SIZO entrou para gritar com elas. Viu as mulheres machucadas e calou-se. Ordenou um banho quente, comida adequada e cigarros para as fumadoras.

Em Rostov, havia água e uma casa de banho. As mulheres liam, escreviam cartas, cantavam, dançavam, aprendiam inglês, inventavam guiões de filmes e conversavam sobre crianças e famílias.

Nos aniversários, faziam um bolo de bolachas e leite condensado. Em setembro de 2024, várias mulheres foram levadas para um centro médico. Foram despidas, ficando apenas de roupa interior, e revistadas em busca de hematomas no corpo. Se encontrassem alguma, eram obrigadas a assinar uma declaração em como não tinham queixas sobre a detenção.

Poucas horas depois, os guardas leram a lista da troca. As mulheres de «Azov» e «Aydar» foram levadas para a troca. Os civis permaneceram em cativeiro russo.

Natalia Vlasova mantinha um saco com roupa lavada na sua cela, caso fosse trocada. O seu nome não foi mencionado novamente. 

Na primavera de 2026, ela foi transferida para uma colónia penal em Kemerovo, na Sibéria. Quando Natalia foi detida, a sua filha tinha quatro anos. Agora ela tem onze.

Ler mais: New Yorker (ler ou escutar, somente assinantes); Meduza (inglês, versão curta); Ucraniano

Ninguém foi ou será esquecido...

Na noite de 29 de agosto, Dmitry Neyolov, o vice-chefe do centro penal de Olenivka, onde foram mantidos os POW ucranianos, explodiu dentro do seu carro, algures no território ocupado da região de Donetsk, confirmou a sua esposa.

Neyolov em 2022, juntamente com os propagandistas russos em Olenivka


No início da invasão russa de grande escala, Neyolov era o primeiro vice-chefe da cadeia/centro penal de Olenivka. Após a explosão na noite de 29 de julho de 2022, que matou pelo menos 53 POW ucranianos, ele assumiu o comando daquele centro.

Neyolov é um ex-polícia ucraniano de Donetsk. Em 2014, traiu o seu juramento e passou para o lado russo. Neyolova não respondeu diretamente à pergunta sobre se o seu marido tinha morrido. 

⏳ Revolucionária judia-ucraniana que tentou eliminar Lenine

Fanni Kaplan, 1890-1918. Foto: Wikipédia

Aos 30 de agosto de 1918, Vladimir Lenine discursava num comício na Fábrica «Mikhelson», em Moscovo. Ao sair para o pátio e dirigir-se para o seu carro após o discurso, foram disparados três tiros. Duas balas atingiram Lenine — uma no pescoço e no ombro, outra no braço. Os ferimentos eram graves.

Logo de seguida, Fanni Kaplan (nome de nascença Feiga Roitblat, alcunha revolucionária «Dora»), de 28 anos, uma revolucionária judia, nascida na Ucrânia, que tinha cumprido anos de trabalhos forçados sob o regime czarista, foi detida nas proximidades. Revolucionária anti-monárquica de longa data, após a revolução democrática russa de fevereiro de 1917, ela foi libertada e juntou-se ao partido dos Socialistas Revolucionários (SR), conhecidos como eseres.

Fanni Kaplan, foto após a detenção pela CheKa

Durante o interrogatório, Kaplan assumiu a responsabilidade pela tentativa de assassinato. Afirmou que já tinha decidido há muito tempo matar Lenine, por considerá-lo um «traidor da revolução». Uma das principais razões foi a liquidação da Assembleia Constituinte pelos bolcheviques em janeiro de 1918, após a derrota dos bolcheviques nas eleições para os seus rivais, SR. Kaplan alegou ter agido sozinha e recusou-se a revelar onde obteve a arma ou se teve cúmplices.

Pistola que foi usada na ação

A investigação bolchevique foi extremamente breve. Aos 3 de setembro, apenas quatro dias após a tentativa de assassinato, Kaplan foi sumariamente executada dentro do recinto do Kremlin, por comandante do Kremlin, por ordem de mais alta liderança bolchevique. O seu corpo foi profanado, queimado dentro de um tambor, regado com a gasolina. Os restos mortais, muito possivelmente, foram atirados ao Rio Moscovo.

Na mesma manhã, o chefe da Cheka local, Moisei Uritsky, foi assassinado em Petrogrado. Os bolcheviques usaram estes dois acontecimentos como justificação para um aumento drástico da repressão. Poucos dias depois, aos 5 de setembro, o Conselho de Comissários do Povo adotou oficialmente o decreto «Sobre o Terror Vermelho».

No entanto, as provas de que Kaplan foi a autora efetiva dos disparos não são consideradas absolutamente conclusivas. Testemunhas oculares deram relatos contraditórios, poucas testemunharam o disparo em si, e a execução sumária de Kaplan afastou a possibilidade de uma investigação completa, e muito menos imparcial.

Em 2016, na Ucrânia foi produzido um filme dramático-histórico, chamado «A minha avó Fanni Kaplan», que explorava a vida e história pessoal da Fanni, desde a sua meninice na Volyn, até a vida revolucionária, no mundos dos anarquistas e eseres, nas derradeiras e muito conturbadas décadas da existência do império russo.