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quarta-feira, julho 24, 2019

O dia em que a bandeira nacional da Ucrânia foi erguida em Kyiv

No dia 24 de julho de 1990, pela primeira vez e oficialmente, após 70 anos de ocupação comunista, na capital da Ucrânia foi erguida a bandeira ucraniana azul-amarela. 13 meses antes da proclamação da Independência da Ucrânia em 24 de agosto de 1991.

Kyiv não foi a primeira cidade ucraniana que ergueu a bandeira nacional. Primeira bandeira foi erguida em Lviv, sobre o edifício histórico da Ratusha, no dia 3 de abril de 1990. As bandeiras da Ucrânia também foram erguidas em edifícios municipais de algumas cidades da Ucrânia Ocidental e Central: Striy, Ivano-Frankivsk, Zhytomyr.
Bandeira nacional em Lviv, praça Rynok, 2/04/1990
A câmara municipal de Kyiv era composta por 300 deputados, efetivamente eleitos foram 291, em 9 circunscrições não houve as eleições, também havia deputados que ao mesmo tempo foram eleitos ao Parlamento da Ucrânia, etc. No verão de 1990 o município de Kyiv realmente contava como cerca de 270 deputados: 110 pertenciam ao Bloco Democrático, 130 – ao bloco comunista, chamado de “Bloco dos comunistas e dos sem-partido” e 30 deputados criaram o Centro Democrático.
Bandeira nacional da Ucrânia nas ruas de Kyiv, atual Maydan, 24/07/1990
Foto: nazarenko.ucoz.ua
No dia 24 de julho de 1990 começou a reunião da liderança do município de Kyiv. O comité municipal do partido comunista da Ucrânia estava categoricamente contra a votação e aprovação da bandeira nacional da Ucrânia. O comité do PC até organizou naquele dia uma greve fake dos condutores dos troleicarros, tudo para interromper a secção e impedir a decisão sobre a bandeira.  
Bandeira nacional da Ucrânia em Catedral de Santa Sofia, 24/07/1990
Foto: nazarenko.ucoz.ua
Neste mesmo tempo, a bandeira nacional da Ucrânia, trazida clandestinamente de Lviv recebia a bênção no complexo de Santa Sofia, conjuntamente pelos sacerdotes da Igreja Ortodoxa Autocefálica da Ucrânia e pela Igreja Greco-Católica da Ucrânia.  
Bandeira nacional da Ucrânia nas ruas de Kyiv, 24/07/1990
Milhares de ucranianos acompanharam a bandeira, alguns eram vestidos de cossacos. [A própria bandeira erguida em Kyiv foi trazida de Lviv pelo Orest Karelin (1950), entusiasta da heráldica ucraniana, injustamente esquecido e ignorado por ser um monárquico e um sonhador acima da média. Mas as fotos testemunham, Orest está em quase todas as fotos da bandeira nacional erguida em Kyiv, amarrado à ela, e com uma cruz nas sua mãos].
Bandeira nacional da Ucrânia nas ruas de Kyiv, 24/07/1990Orest Karelin, no centro, único com a camisa bordada
Foto: nazarenko.ucoz.ua
O deputado-jurista Mykola Hrabar, funcionário da Procuradoria de Kyiv, fez a proposta original: “tomar a decisão protocolar”. Isso é, decisão que não precisava de ter quórum, nem de ser votada no plenário.
Foto: nazarenko.ucoz.ua
A decisão de erguer a bandeira ucraniana foi tomada imediatamente, e a bandeira foi erguida no mastro do Município de Kyiv, sobre a rus Khreschatyk. O coro Leopold Yaschenko começou a cantar o hino nacional da Ucrânia e o hino ucraniano religioso “Deus Grande, nos protege Ucrânia”:
Três semanas depois, já no dia 4 de setembro, foi votada a decisão oficial da Câmara Municipal de Kyiv, chamada “Sobre a legalização dos símbolos nacionais no território da cidade de Kyiv”. A decisão recebeu até o voto favorável de um único comunista: Mykola Nesterenko.
Bandeira nacional da Ucrânia erguida sobre avenida Khreshatyk em Kyiv, 24/07/1990
Faltavam 13 meses até a proclamação da Independência da Ucrânia, qua adoptou a bandeira ucraniana azul-amarela como a bandeira oficial do país recém-independente. Embora ainda antes do dia 24/08/1991, a bandeira azul-amarela foi votada favoravelmente e erguida em pelo menos dois conselhos distritais de Kyiv.
Bandeira nacional da Ucrânia erguida sobre avenida Khreshatyk em Kyiv, 24/07/1990
Foto: nazarenko.ucoz.ua
Nos próximos 13 meses, a bandeira sobre Khreschatyk tornou-se um local de peregrinação. Os recém-casados, anteriormente, no dia do casamento colocavam as flores junto ao monumento do Lenine, agora colocavam as flores junto à bandeira ucraniana. Era um lugar de adoração, um pequeno pedaço da Ucrânia independente na sua própria capital.

Como na ciência militar, os ucranianos naquele dia conseguiram assegurar um pequeno ponto avançado, personificado pela bandeira, erguida em 24 de julho de 1990, junto ao Conselho Municipal de Kyiv.

Depois disso, a bandeira ucraniana, foi de fa(c)to, legalizada em Kyiv. Cessaram quaisquer represálias da polícia e do KGB contra a bandeira ucraniana e dos seus portadores, porque a bandeira já pairava sobre as autoridades em Kyiv. À partir daquele momento, em todos os jogos de futebol do Dynamo Kyiv, o Estádio Republicano estava cheio de bandeiras azul-amarelas. Algo que nunca aconteceu antes.

terça-feira, julho 23, 2019

O livro “sagrado” dos rituais da ideologia comunista soviética

O livro “Ritualidade socialista” foi publicado em 1986 na Ucrânia soviética e explicava, detalhadamente, como realizar todos os tipos de rituais soviéticos “ideologicamente corretamente”, como adorar os ídolos e heróis soviéticos, como realizar ações ritualísticas para honrar vários cultos soviéticos, como o culto de pão.

O  livro é uma prova real do que a ideologia e sistema comunista é uma fé e uma seita religiosa — com os seus rituais, profetas (Marx e Engels), Messias (Lenine), cultos, paraíso (comunismo) e inferno (capitalismo).

Parcialmente é por isso se torna quase impossível convencer à realidade os amantes da URSS, anti-americanos ou anti-capitalistas – os seus pontos de vista não fazem parte do domínio de conhecimento, são a fé religiosa, que não necessita de provas e não segue a lógica linear.

02. A capa do livro “Ritualidade socialista” é feita de chita vermelha com as letras douradas, debaixo do título aparece o emblema do “ritualista socialista” – foice e martelo, embutidos numa base da estrela pentagonal. A estrela é um repto da cruz no Cristianismo, e o próprio livro deveria ser uma espécie de Auto da Fé – a publicação solene que explica como adorar apropriadamente as forças comunistas superiores.

03. Dividimos a análise do livro “Ritualidade socialista” em duas partes — textual e visual. A parte textual explica como devem ser feitos, corretamente, determinados rituais socialistas, a parte visual mostra a performance dos mesmos.

04. Praticamente todo o livro está escrito numa espécie de novilíngua bolchevique, que usa a sintaxe da língua russa, mas as frases criadas ficam sem nenhum nexo, descrevendo uma realidade paralela, inventada pelo autores da obra:
É excepcionalmente grande o papel dos feriados e rituais soviéticos na formação da consciência comunista dos trabalhadores, a mais alta qualidade característica do povo soviético.

05. O livro informa que calendário soviético possui 67 datas festivas (mais de uma por cada semana do ano), que, de acordo com os seus autores devem substituir os feriados cristãos. Os autores não escondem que querem substituir a “má religião cristã” pela “boa fé comunista”:
As tradições, feriados e cerimónias soviéticas, contribuem para a formação da cosmovisão científica e materialista dos soviéticos e são um meio eficaz de superar feriados e cerimónias religiosas.

Os autores, sem hesitar, proclamam que desde o seu nascimento, as mentes dos jovens estarão bombardeadas pela ideologia comunista, dizendo aos cidadãos que devem “avaliar os eventos” não do ponto de vista da realidade racional, mas do ponto de vista da propaganda soviética:
PCUS educará os soviéticos com um alto grau de consciência política e a capacidade de avaliar fenómenos sociais com posições de classe claras e defender os ideais e valores espirituais da sociedade socialista.

06. Um dos capítulos é chamado de “Formação e desenvolvimento de ritualidade soviética” e tem a subseção “Pré-requisitos para o surgimento e estágio inicial da formação de ritualidade soviética”. Na URSS neste tipo de pseudo-ciência eram engajados os institutos inteiros, foram defendidas milhares de “teses científicas” – tudo isso também se assemelha aos tratados teológicos, onde a “verdade” ou a “falsidade” é verificada apenas pela sua conformidade com os cânones religiosos.

07. Capítulos inteiros são dedicados à técnica do discurso ou a maneira correta de caminhar durante a execução dos ritos soviéticos:
Os ritualistas se movem não apenas no plano geral, mas também podem subir as escadas. Ao subir, é necessário colocar apenas os dedos e a base do pé no degrau, enquanto o peso do corpo se move no pé colocado no degrau superior.

08. Os cenários dos rituais soviéticos são desenhados em detalhes e são compostos de tal forma que levam as pessoas a ter sentimentos puramente religiosos – uma sensação de santidade do poder soviético e de blasfémia perante quaisquer tentativas de resistir ao sistema soviético.
Para isso às cerimónias são introduzidas os personagens puramente religiosas – o Mentor Estatal (uma espécie do Padre), Veterano (uma espécie de Ancião de cabelos grisalhos) e a Colectividade dos Trabalhadores (Povo) – perante qual é realizado este ou aquele rito e que promete punir severamente os camaradas desobedientes (hereges). É a mais pura religião medieval arcaica.

09. No final da parte textual aparecem uma espécie de orações soviéticas – dirigidas ao Comunismo e ao Culto do Pão:
Toda a terra nativa
É aquecida pelo sol do Kremlin.

Trator combinado – nos campos
Colheita – nos armazéns.

Onde os kolkhozianos se ajudarão –
Os rendimentos aparecerão.

Pão é a cabeça de tudo.
Pão é pai, água é a mãe.

Pelo curso de Lenine os povos foram –
Felicidade e liberdade  acharam.

Parte visual do livro

10. O rico material ilustrativo mostra exatamente como adorar corretamente os símbolos soviéticos e como se comportar adequadamente em vários feriados comunistas. O culto dos mortos está constantemente presente, são retratadas vários casos de caminhadas, em massa, rumo às sepulturas militares da época da II G.M.:
O ritualista, apontando para a tocha de casamento, diz: “Queridos recém-casados! Aceitem este fogo sagrado e carreguem-no através de seus corações ao longo de sua vida, multiplicando a glória de nossa Grande Pátria Soviética! Agora todos os participantes na cerimónia do casamento irão para a sepultura comum [militar].

11. Todos os feriados soviéticos também são descritos em detalhes. Onde deve ficar a mesa, a bandeira, o brasão de armas e os antepassados mortos encabeçados pelo vovô Lenine, onde devem ficar as pessoas, o que devem pensar e o que devem dizer. Dia do conhecimento. Festa popular comunista do Conhecimento Comunista:

12. Festa da Colheita – a celebração do arcaico culto de Pão, que foi celebrado na URSS.

13. O registo solene do casamento soviético.

14. Festa, detalhadamente descrita e chamada “Acompanhamento às fileiras das Forças Armadas da URSS”, se transforma num ritual completo. Citação: “O rito de passagem para as fileiras das Forças Armadas da URSS mobiliza jovens para adquirir os conhecimentos do equipamento militar moderno”.

15. Esboço gráfico da festa: “Iniciação ao operário”:

16. Esboço gráfico da “Festa do Primeiro Sino” [início do ano letivo escolar do 1º e 2º ciclo]:

17. Esboço gráfico da jubileu da “Grande Guerra Patriótica” [a guerra nazi-soviética de 1941-45. O início de uso da “fita da guarda”, que na década de 2010 se transforma em “fita de São George”]: 

18. Design do carro de transporte para os recém-casados [reles Gaz-21/24] e “estrelinhas nominais para os recém-nascidos”, uma espécie de crucifixos cristãs para a cerimónia do “estrelismo soviético”. Você recebeu uma estrela no seu nascimento, como você pode se rebelar contra o Comunismo?

19. Uma espécie de sacerdotes e sacerdotisas soviéticas – ritualistas em trajes solenes com medalhão da religião soviética:

20. [As colunas comunistas festivas no centro de Kyiv – na avenida Khreschatyk, no dia 1 de maio de 1986 vários presentes nesta coluna foram coagidos – “ou estarás presente, ou serás expulso do PCUS...”]

21. O livro era publicado “para uso oficial” dos diversos comités executivos do nível provincial, distrital e local. Para a leitura e assimilação dos diversos parasitas soviéticos. A sua tiragem inicial foi de 115.000 exemplares, a 2ª edição chegou aos 150.000 exemplares.

Imagens e texto: Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]

sábado, junho 29, 2019

O retrato triste mas fiel de um típico homem soviético

O visual do típico cidadão soviético das décadas de 1960-90 era simplesmente inconfundível. Principalmente nos homens: os fatos/ternos permanentemente amarrotados e mal feitos, dentes maus/ruins e ausência de um bom penteado.

Com apenas um reparo, na verdade, muitos cidadãos da URSS queriam ter uma outra vida melhor e após a queda da União Soviética começaram à viver de forma absolutamente diferente — se dedicar aos negócios, trabalhar para si mesmo, ganhar dinheiro, etc. Assim, o seu visual mudou radicalmente – eles começaram se vestir decentemente, arranjaram os dentes, seguiam as dietas e melhoraram a figura.
Ator britânico Jared Harris no papel do académico soviético Leonid Legasov
Na recente série sensacional “Chernobyl”, os atores britânicos e americanos conseguiram reencarnar, com a maior precisão possível, os cidadãos soviéticos. Os maquilhadores, figurinistas e produtores fizeram um trabalho incrível – reproduzindo os moradores da URSS de maneira absolutamente fidedigna.

1. Má figura e má pele

Os cidadãos soviéticos, em massa, não tinham nem o tempo, nem a motivação, nem as instalações para se dedicar ao desporto de forma a manter a sua saúde (alguns entusiastas claramente eram apenas a excepção da regra geral).
Uma cervejaria soviética sob o teto
Em segundo lugar (mas talvez é à razão principal), a má figura soviética era o fruto de uso, durante décadas, de alimentos de má qualidade – a boa carne ou frutos do mar eram um deficit terrível na URSS, a dieta soviética tinha pouquíssimos legumes frescos e um excesso de carboidratos: cereais, batatas e massas. Por isso, na idade de 35-40 anos, a figura de um homem soviético médio adquiria uma silhueta reconhecível – a barriga inchada, que se destacava ainda mais por causa de uma forte lordose lombar (por falta de exercícios físicos), e na parte superior do corpo havia ombros estreitos e braços magros.

Adicionando à isso a má aparência, a pele cor de cinza amarelado ou cinza “cor-da-terra” e má pele. Na URSS a maioria absoluta de homens e um número considerável de mulheres fumavam, naturalmente os cigarros soviéticos desagradáveis ​​com tabaco extremamente prejudicial, com uma grande percentagem de substâncias carcinógenos e alcatrão. Além disso, o tabaco soviético era cultivado e secado com a ajuda de agro-químicos, que ingeridos com o fumo também não aumentavam a saúde dos fumadores. Acrescente a isso o trabalho prejudicial à saúde e pesado nas fábricas soviéticas – e você entenderá por que as pessoas tinham toda essa aparência.

Dentes maus/ruins 
A venda da "boa carne" soviética em algum mercado kolkhoziano
Na URSS os alimentos e a situação ecológica geral eram bastante más/ruins, mas a odontologia era REALMENTE péssima. Por causa da má qualidade nutricional e da ecologia pobre, os cidadãos médios começavam à perder os dentes aos 35-40 anos, ou mesmo antes – e a ausência de odontologia de qualidade apenas reforçava este estado de coisas. URSS fabricava os mísseis e foguetes, mas não conseguia fabricar uma prótese dental ou uma pasta dentífrica em condições.
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Até a década de 1990, a URSS produzia e comercializava o “pó dentífrico” – um abrasivo que gastava os dentes quase até a raiz, razão pela qual os dentes mais ou menos saudáveis ​​se transformaram numa espécie de presas cinzentas. Mesmo as estrelas de cinema soviético – cuja aparência era o seu ganha-pão – raramente tinham bons dentes, e quase em todos os filmes soviéticos o povo sorria ao estilo “cú de frango”, timidamente escondendo os dentes estragados.
Ao mesmo tempo, a propaganda soviética ridicularizava, por todos os meios, o modo de vida e os sorrisos saudáveis dos americanos – “eles estão sorrindo com todos os dentes, provavelmente não são pessoas, mas robôs!” (o conto soviético Secretário Capaz de 1959).

Má roupa, mau calçado e maus acessórios

As roupas soviéticas comuns eram uma merda, pareciam uma merda e eram feitas dos materiais mais ruins e baratos. Os fatos/ternos masculinos eram castanhos/marrom-acinzentados e pareciam algum tipo de roupa de trabalho, os fatos/ternos femininos também não eram melhores. Tudo era feito de tecidos pesados ​​de lã com a adição de materiais sintéticos – eram simplesmente insuportáveis.
A compra de leite ou de kvas ao céu aberto
As mulheres tentavam costurar algo, usando tecidos mais ou menos decentes, partilhando e trocando os padrões de costura que valiam seu peso em ouro. Um bom paletó só podia ser encomendado no ateliê e custava desde 150 rublos (desde 2 salários mínimos ou um médio, desde 254 dólares ao câmbio oficial). Roupas bonitas começaram a aparecer apenas no fim da década de 1980 – quase no fim da URSS.

O calçado soviético deixava entrar água, era feio e custava caro – as botas femininas minimamente atraentes custavam desde 80 rublos. O sonho do homem soviético era “conseguir” sapatilhas/tênis checoslovacos “Botas” ou sapatos Salamander produzidos na RDA. A URSS era simplesmente era incapaz de produzir o calçado decente.

Mas o verdadeiro horror eram os acessórios. Basta recordar os horríveis óculos soviéticos “à Chikatilo”, pesados, eles pressionavam fortemente o nariz e cobriam metade do rosto – transformando até mesmo um homem bonito numa aberração com dois “televisores” na face.

Desarrumação geral

Além disso, existia nos cidadãos uma certa desarrumação geral – no “país dos sovietes”, ter uma boa aparência considerava-se um “mau tom”, uma espécie de desafio público ao Estado dos operários e camponeses, o cidadão soviético médio procurava se parecer bastante cinzento – para não ser considerado um stilyaga.
Uma cervejaria soviética ao céu aberto
No cinema soviético, até a época da Perestroika, uma personagem de boa aparência e de boas maneiras sempre era um herói negativo – e/snobe, arrogante, tentando de todas as maneiras romper com o “coletivo” e fugir ao seu honroso dever de construir o comunismo. Ainda na década de 1970-80 as patrulhas da juventude comunista Komsomol, podiam cortar, à força, os cabelos “demasiadamente cumpridos” dos rapazes ou rasgar/estragar as suas roupas se as considerar “indecentes”. 
Stilyagi na URSS, última foto é de 1984
As meninas podiam ser e eram fortemente criticadas nas reuniões do Komsomol pela sua “aparência imprópria burguesa” [as roupas elegantes e bonitas, corte de cabelo “demasiadamente ocidental”, unhas bem cuidadas e pintadas]. Ao contrário, os tipos bêbados e desleixados eram considerados algo como “proletários” e da “classe trabalhadora”.

O país da legítima infelicidade. Em jeito de epílogo.

Ao tudo o que foi descrito acima, é necessário acrescentar a humildade e opressão geral – o cidadão soviético médio sempre teve medo dos chefes e diretores, tentava, de todas as maneiras possíveis e imaginárias, ser indistinguível da multidão. O fato/terno amassado e mal ajustado acinzentado, uma camisa ligeiramente amarfanhada e amarelada, devido às numerosas lavagens, um cinto de cabedal/couro gasto, o relógio com uma pulseira oxidada, óculos de aro de tartaruga, sapatos gastos e empoeirados.

Essa aparência de cidadãos soviéticos foi ditada, em primeiro lugar, pelo baixo padrão de vida real na URSS e, em segundo lugar, pela memória genética das repressões estalinistas – quando Estado matou todos os melhores e mais brilhantes. Não se destaque, seja mais cinzento possível, tente ser invisível aos olhos das autoridades, não expresse a sua opinião, não sorria, tente parecer infeliz – e então o Estado não te tocará...

Fotos: arquivo | Texto: Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]

quinta-feira, junho 27, 2019

Christian Dior nas ruas de Moscovo em 1959

Em 1959, aconteceu um evento sem precedentes: Christian Dior chegou ao Moscovo com sua coleção de verão de pronto-a-vestir. Somente a nomenclatura do partido comunista recebeu os convites para assistir o evento.
Até que a amiga do Dior, Suzanne Luling (administradora dos salões, responsável das vendas e das comunicações da casa Dior) decidiu mostrar a moda parisiense ao habitantes da capital soviética – deixando os modelos da casa Dior passearem pelas ruas e lojas (por exemplo, em GUM) de Moscovo em trajes da Dior.
O resultado foi estes, moradores do primeiro país socialista do mundo olham para modelos parisienses como uma mistura de vários sentimentos, central dos quais é espanto: “no Ocidente as pessoas realmente podem usar essas roupas”?

quarta-feira, junho 19, 2019

Chornobyl desconhecida de 1988-89 em fotos inéditas

Em 1988-89 biólogo ucraniano Gennadiy Tsurkov trabalhou em Chornobyl estudando os efeitos da radiação no meio-ambiente. A fotografia é um dos passatempos do Gennady, a maioria de suas fotos de Chornobyl eram coloridas de alta qualidade, graças à película alemã. Diferentemente de outras fotografias de Chornobyl daquela época: feitas por amadoras e à preto-e-branco.

Todas as fotos são inéditas.

02. 1988, aldeia de Kopachi. Situado nos arredores da estação/usina nuclear, a aldeia foi demolida e enterrada por inteiro, segundo uma lenda popular devido aos “altíssimos níveis de radiação”. No jogo “S.T.A.L.K.E.R.” — Kopachi semidestruídos é um dos lugares mais radioativos em toda a zona de exclusão.
Na verdade, a aldeia foi destruída para não deixar as casas potencialmente habitáveis nas proximidades da estação/usina nuclear, a demolição aconteceu em 1990. Na foto, o membro correspondente da Academia de Ciências da Ucrânia, Volodymyr Dolin experimenta morangos locais – realmente Kopachi não tinham “níveis altíssimos de radiação”.

03. IMR (máquina separadora de engenharia, equipamento especial militar no chassi do tanque), o equipamento era usado para demolir os edificações na zona de exclusão (incluindo em Kopachi). Primeiro, a escavadeira cavava um buraco, após disso vinha IMR que com a ajuda de uma garra e despejo especiais, empurrava a casa ao buraco. A cabine do IMR é revestida com chumbo – para proteger o seu condutor dos efeitos da radiação.

04. A garra cortada da IMR. Em tempos de guerra, estas máquinas deveriam desmantelar as barricadas e arrastar as árvores caídas, em Chornobyl foram usadas para manipular o lixo radioativo – por exemplo, grandes fragmentos do núcleo do IV reator (explodido) espalhados nas suas imediações.
A garra nesta foto, muito provavelmente, foi cortada devido à sua alta poluição radioativa – para não desativar a viatura inteira. Nenhum IMR deixou a zona de exclusão de Chornobyl – ficaram enferrujando junto às paredes do novo sarcófago.

05. Arredores da cidade de Chornobyl em 1988-89. Os saqueadores chegaram a todas as coisas valiosas e desmontaram completamente o carro deixado pelos militares. As casas ao fundo ainda possuem aparência bastante decente, agora quase todas as casas de madeira têm telhados caídos, e as próprias casas estão escondidas por uma floresta densa e intransponível, na qual se transformaram os velhos pomares e jardins.

06. Os trabalhadores da Zona de exclusão possuíam o seu próprio transporte – na foto, Gennady muda a roda de um Lada de Chornobyl – a frota foi formada a partir de veículos de moradores de Chornobyl e Pripyat, que devido à poluição não foram autorizados a tirar os seus carros fora da Zona [não parece que os donos das viaturas foram indemnizados por estado soviético pela perda dos seus bens]. As viaturas foram usadas por liquidatários e cientistas que trabalhavam dentro do perímetro da zona de exclusão. Cada veículo recebeu um registo especial, com o número pintado nos dois lados, bem como no porta-malas ou teto – para que o carro pudesse ser rapidamente identificado à partir do helicóptero.

07. Uma foto completamente original – uma clube de vídeo chamado “Stalker” em Chornobyl, à noite, de vez em quando, lá exibiam os filmes porno/pornô na tela de 3x4 metros. A própria palavra “stalker” foi criada pelos irmãos Arkady e Boris Strugatsky, um neologismo da sua novela “Piquenique à Beira da Estrada” (1972).
A palavra stalker” também foi usada como o título do filme de Andrey Tarkovsky, de 1979, baseado na obra dos Strugatsky:


08. Nas proximidades da estação/usina de Chornobyl. Estação fica à esquerda (de lá saem as linhas de alta tensão), à direita fica a “Floresta ruiva”, nas costas — ponte para a cidade de Pripyat. A placa diz “Contaminado” e menciona o nível de contaminação radioativa em Röntgen / hora.

09. Realmente um dos locais mais radioativos da Zona é um campo aberto no local da antiga “Floresta ruiva”. No horizonte, pode-se ver o tubo de ventilação e o sarcófago da IV bloco – quando o reator explodiu, o vento soprou fumaça radioativa no direção do pinhal – em poucas horas os pinheiros literalmente se “queimaram” da radiação e ficaram enferrujados ruivos, daí que a floresta recebeu o seu nome.
Em 1988-89, a “Floresta ruiva” foi destruída – escavadeiras cavaram as trincheiras especiais nas quais os IMR e retroescavadoras empurravam as árvores. Para conter a radiação daquela floresta decidiu-se enterrar as árvores no subsolo.

10. Uma tentativa de “renovar” o território – biólogos fazem plantios experimentais de árvores jovens no local da “Floresta ruiva” – mas árvores rapidamente se “queimam” por causa de radiação alta. A foto de Gennady mostra os pinheiros queimados, plantados no local da “Floresta ruiva”.

11. Esta é parte mais distante da floresta – não foi enterrada, mas também sofreu. Gennady indica árvores coníferas “queimadas” pela radiação – os pinheiros não toleram a radiação alta e morrem rapidamente.

12. Uma imagem forte – no primeiro plano está um antigo cemitério de aldeia, ao fundo – a central nuclear de Chornobyl. No meio – árvores mortas pela radiação.

13. A foto à esquerda é feita na área da lagoa de resfriamento da estação/usina nuclear, atrás do IV bloco. Em 1988-89, havia níveis muito altos de radiação, que parcialmente afetaram as fotografias. Se pode ver peixe morto – não devido à radiação, mas devido aos reagentes que foram pulverizados de helicópteros. Os reagentes, fixando-se na água, formavam uma película de polímero que ligava a poeira radioativa, após disso o polímero era coletado e enterrado nos depósitos especiais.
Na foto à direita, o depósito de bagagens no porto fluvial de Chornobyl.

14. Loja “Pripyat” no porto fluvial de Chornobyl. As janelas estão intactas, todos os balcões e mostruários permaneceram inteiros, aparentemente, as portas estão trancadas. Possivelmente isso aconteceu porque a loja está localizada perto de alguns pontos operacionais da zona de exclusão.

15. Barcaças abandonadas em Chornobyl. Com base neste local, foi criada a base “Skadovsk” no jogo “S.T.A.L.K.E.R. – Call of Pripyat”.

16. Outra foto do porto fluvial:

17. Gennady numa das instalações portuárias:

18. Guindastes portuários. Filmados fora da cidade de Chernobyl, mas não muito longe, e por trás da estação/usina de Chernobyl.

19. Já em 1988-89 (isto é, apenas 2-3 anos após o acidente), a Zona de Chornobyl foi sido completamente saqueada e ter tomado quase a mesma aparência em que a conhecemos na década de 2000 – o início do turismo em massa.
Igreja na aldeia de Chervone, saqueada pelos saqueadores:

20. Uma das casas de Chornobyl, é notável a procura pelas coisas valiosas.

21. Outra casa. Piano e coisas quebradas – aparentemente os saqueadores procuravam os esconderijos com dinheiro e objetos de valor. Já no fim da década de 1980, da Pripyat abandonada, os saqueadores levavam carros inteiros cheios de tapetes e casacos de pele de ovelha, que eram então vendidos através de “lojas de comissões” [uma espécie de lojas second hand na URSS].

22. Sofá estripado em buscas de “tesouros”.

23. A foto mais assustadora. Um berço em forma de cesto junto ao cadáver de um cão. Provavelmente, este é um cão de algum dos habitantes de Chornobyl ou de Pripyat – durante a evacuação, as pessoas não podiam levar animais de estimação/pets e tinham que os deixar na zona de exclusão. Depois os militares alistaram os caçadores, que foram enviados para Chornobyl para matar e aniquilar estes animais abandonados.
Na foto à direita — um cacto seco na janela.

24. A fábrica de tecelagem de Chornobyl saqueada. Já em 1988-89, os saqueadores saquearam tudo ou quase tudo em Chornobyl. O raciocínio daqueles que sonham ir para Pripyat e encontrar um apartamento “esquecido” e onde tudo é deixado “como nos tempos soviéticos”, parece ridículo e ingénuo – já em 1990 estes apartamentos deixaram de existir.

25. Também fábrica de tecelagem. A inscrição no cartaz: “O trabalho na URSS é uma questão de honra, valor e heroísmo”.

26. Uma das casas queimadas em Chornobyl. Existe uma teoria de que os próprios bombeiros incendiavam as casas, cujos postos de trabalho numa certa época começavam a ser cortados. As cortes laborais pararam – os incêndios também pararam.

27. As ruas e casas vazias de Chornobyl:

28. Herdade antiga.

Fotos: Gennadiy Tsurkov | Texto: Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]