As fotografias do fotógrafo e jornalista norte-americano James Abbe, que colaborou com as publicações americanas e europeias famosas como a Vogue, Vanity Fair, The London
Magazine, Vu e Berliner Illustrirte Zeitung. Mas Abbe interessa-nos sobretudo pelas suas fotografias, tiradas durante as suas duas viagens à URSS — em 1927 e 1932. Durante a segunda viagem, visitou Ucrânia,
em particular Kharkiv, a região de Donetsk e Dniprobud/DniproHES.
PROIBIDO. Fotografar filas é tabu, especialmente filas de comida. AbbeArchive / https://www.jamesabbe.com
PROIBIDO. Os engenheiros estrangeiros convidados concordam que as mulheres trabalhadoras são muito mais eficientes e responsáveis do que os homens. Um fotojornalista que já fotografou os encantos dos fatos de banho de Hollywood encontrará aqui pouco apelo, mas muitos músculos. AbbeArchive / https://www.jamesabbe.com
PROIBIDO. Mais uma foto que levou à detenção do vosso fotógrafo. Por quê? Porque retrata uma cena numa estação ferroviária/ferrovia. Observe os equipamentos modernos… Movimento intenso… Crianças bem comportadas e bem vestidas. AbbeArchive / https://www.jamesabbe.com
Abbe descreveu as suas impressões da viagem no livro de memórias «I Photograph Russia», publicado em Nova Iorque em 1934. Contém muitas desmistificações
da propaganda soviética e sarcasmo dirigido à realidade soviética. Afinal, como jornalista atento e vigilante, rapidamente se apercebeu de uma realidade paralela que a União Soviética escondia
cuidadosamente dos olhos dos estrangeiros. Essa realidade era a fome, a pobreza, a injustiça e a mentira, em que todos os dias viviam milhões de cidadãos da URSS.
“Ouvi relatos de testemunhas oculares sobre cenas nas ruas de muitas aldeias ucranianas, onde as pessoas jaziam em valas, não eram nem embriagadas, nem à dormir, mas mortas
devido a fome. Mas a multidão nas ruas prestava menos atenção aos cadáveres do que daríamos a um hidrante da rua nos Estados Unidos”, escreveu Abbe nas suas memórias.
PROIBIDO. Lar, doce lar… Esta foto mostra as casas dos trabalhadores de Dniprostroy/DniproHES. AbbeArchive / https://www.jamesabbe.com
Construção da Central Hidroelétrica de Dnipro. AbbeArchive / https://www.jamesabbe.com
Enquanto o camponês [ucraniano] passa fome, o seu estimado hóspede estrangeiro vive muito bem... especialmente se assinou uma declaração jurada afirmando que não presenciou a fome em Donbas. AbbeArchive / https://www.jamesabbe.com
Oferecemos-vos uma seleção de fotos da vida na Ucrânia/URSS, captadas pela sua câmara.
Aos 23 de julho de 1944, foram libertados aproximadamente mil prisioneiros da «fábrica da morte» — do campo de concentração nazi de Majdanek, na Polónia,
perto de Lublin. Um dos libertadores era o militar e artista ucraniano Zinovy Tolkachev.
Aproximadamente 130.000 pessoas passaram por naquele campo nazi, 80.000 deles morreram em Majdanek.
O conceituado artista judaico ucraniano Zinovy Tolkachev-Schenderovich (1903-1977), enquanto militar soviético, participou na libertação de prisioneiros nos campos de Majdanek e
de Auschwitz. Criou, então, as BD/quadrinhos gráficos «Majdanek» (1944-45) e «Flores de Auschwitz» (1945), publicados apenas na Polónia.
Na União Soviética, estas obras não apenas não foram publicadas, como provocaram perseguições ao artista nas décadas de 1950-60, durante a campanha antisemita
estatal soviética dirigida contra os «cosmopolitas», eufemismo soviético aplicado aos judeus.
Apesar do uso de narrativas perfeitamente alinhadas com a ideologia dominante soviética (por exemplo, a presença da bandeira vermelha no quadro «Libertação»), a sua obra foi perseguida e censurada na URSS. Em 1949, o jornal oficial do PC da Ucrânia soviética, «Pravda Ukrayiny», acusou Tolkachev de promover obras de «conteúdo sionista-religioso», chamou o seu trabalho «profundamente perverso»
e definiu os seus álbuns gráficos como uma manifestação de «nacionalismo burguês» e de «cosmopolitismo sem raízes».
No campo de concentração de Majdanek, em março de 1944, foi assassinado, pelos nazis, o Padre Omelián Kovch, o sacerdote greco-católico ucraniano, que salvava
os judeus e foi conhecido como “o pároco de Majdanek”.
Ator, encenador, empreendedor polaco Eugeniusz Bodo. O seu nome era Bohdan Eugène Junod; a sua mãe era polaca e o seu pai suíço, que fazia negócios
e residia no império russo. Na Polónia entre as guerras, Eugeniusz era um dos principais estrelas de cinema, interpretando charmosos galãs românticos. Viveu em Lviv. Morreu num campo do GULAG soviético.
Um dos seus filmes mais famosos é a comédia de culto «Piętro wyżej» (o título internacional «Vizinhos», 1937). Está disponível em várias versões no YouTube:
A heroína (a bela Helena Grossówna) acaba de entrar, por engano, no apartamento do herói (Eugeniusz Bodo) e, sem se aperceber que está no apartamento de outra pessoa, adormece
na sua cama. Entretanto, o herói regressa a casa embriagado, descobre a bela na sua cama e deixa-a galantemente dormir, enquanto ele, vestido com um fato e gravata, vai dormir para a banheira. Naturalmente, acorda
de manhã, abre a torneira e vê-se encharcado da cabeça aos pés. Naturalmente, tudo termina com um final feliz.
A famosa comédia soviética «A Ironia do Destino» (1975) usou o mesmo enredo (troca de apartamentos, herói bêbado, uma bela desconhecida, interpretada até por uma atriz polaca), como o elemento principal do seu trama.
Em 1939, após o início da II G.M., Bodo encontrou-se em Lviv, na União Soviética. O conceituado músico Henryk Wars organizou a orquestra Lviv Tea-Jazz, que começou
a fazer digressões por toda a União Soviética com grande sucesso. Bodo cantava nesse teatro; existem muitos registos dele a cantar em russo, incluindo a tradução russa da famosa canção polaca «Somente em Lviv».
«Tea Jazz-orquestra» de Lviv
Ao mesmo tempo, Bodo tentou, usando o seu passaporte suíço de viajar para a Suíça. Após o início da guerra nazi-soviética, quando o Exército
Vermelho já deixou a cidade de Lviv, mas os alemães ainda não entraram nela, dois homens com uniformes da NKVD abordaram Bodo e disseram que tinham um carro e tentariam romper as linhas inimigas para leste,
convidando-o a juntar-se a eles. Percorreram estradas rurais durante vários dias e, quando finalmente chegaram ao quartel-general do Exército Vermelho, disseram-lhe que estava, na verdade, preso e enviaram-no
para o NKVD.
Entretanto, a partir de 30 de Julho de 1941, sob pressão do seu novo aliado, a Grã-Bretanha, a URSS aceitou assinar um acordo com o governo polaco no exílio em Londres (o Acordo
Maisky-Sikorski). De acordo com este acordo, todos os cidadãos polacos presos na URSS e nos territórios por este controlados desde 1939 receberiam amnistia. A partir destes cidadãos, começou a formar-se
um exército polaco na Ásia Central soviética, sob a liderança de general Anders. A orquestra de Wars também se juntou ao exército de Anders.
A sua última foto conhecida, prisioneiro dos soviéticos...
Bodo era muito conhecido, e os representantes polacos perguntavam constantemente aos soviéticos sobre o seu destino. Mas estes lhes responderam que Bodo não era cidadão
polaco, mas sim suíço, e, por isso, não tinha direito a amnistia. Morreu num campo de concentração soviético nos arredores da cidade de Kotlas, de inanição (fome severa) em outubro de 1943. Durante décadas a URSS
desinformava os polacos, afirmando que Eugeniusz Bodo foi assassinado pelos alemães. Somente em 1991, as autoridades soviéticas entregaram aos polacos os documentos a ele relacionados.
Já a atriz Helena Grossówna, chegou a participar na Revolta de Varsóvia de 1944 como tenente, usava o nom de guerre / codinome de «Bystra» (Rápida),
foi capturada e presa em campos alemães de prisioneiros de guerra, casou com um oficial polaco, que libertou o campo e viveu uma longa vida na Polónia, falecendo em 1994 aos 90 anos.
Blogueiro
A ironia do destino, um polaco-suíço que nada de mal fez à URSS e foi um artista aceite e reconhecido na União Soviética, não sobreviveu o GULAG comunista.
Enquanto uma combatente, que lutou contra os alemães, de armas nas mãos, sobreviveu um campo de concentração nazi...
No final da década de 1930, o estado comunista soviético iniciou a luta ferroz contra o «formalismo» nas artes. Segue um excerto do protocolo de interrogatório do famoso
artista expressionista letão-soviético, Aleksandrs Rūdolfs Drēviņš (1889–1938), conduzido em 1938 por investigadores do NKVD.
PERGUNTA: Então, você, enquanto artista, aderiu ao movimento formalista na arte?
RESPOSTA: Sim, como artista, aderi ao movimento formalista reaccionário.
PERGUNTA: Explique o que é o movimento formalista nas belas-artes e qual a sua essência contrarrevolucionária?
RESPOSTA: Posso estar a ser um pouco vago na minha definição, mas entendo que a essência do movimento formalista nas belas-artes é que se opõe ao realismo
socialista e apresenta nas belas-artes conteúdos e formas alheias à realidade soviética, inspirando-se em artistas fascistas ocidentais como Braque e outros. Gostaria
de informar a investigação que o movimento formalista nas belas-artes foi subdividido em vários movimentos mais pequenos, como o Futurismo, o Cubofuturismo, o Suprematismo e o grupo Ost.
(…)
PERGUNTA: Diga-me, que obras específicas pintou com distorções contrarrevolucionárias?
RESPOSTA: Pintei várias obras com distorções contra-revolucionárias, como «O paraquedista», «A corça», «O desempregado em Riga»,
«A menina em kolkhoze» e «A paisagem do kolkhoze» [infelizmente, por enquanto, não foi possível achar as imagens dos dois últimos quadros na Internet, possivelmente foram apreendidos e/ou destruídos pelo NKVD].
Quadro «Descida do paraquedista», 1932
PERGUNTA: Qual é a essência das suas pinturas com distorções contrarrevolucionárias?
RESPOSTA: Não consigo dizer em pormenor qual é a essência contra-revolucionária de todas as pinturas, por exemplo, a pintura «A menina em kolkhoze». Em
vez de retratar uma vida alegre, próspera e feliz numa quinta coletiva, pintei uma realidade difícil, triste e melancólica da quinta coletiva, como no quadro «A menina em kolkhoze». Havia distorções
contrarrevolucionárias da mesma ordem noutras pinturas.
Quadro «A corça na neve», 1931-32
PERGUNTA: Então pintou quadros com distorções contra-revolucionárias enquanto cumpria as tarefas de uma organização nacionalista contra-revolucionária?
RESPOSTA: Sim, admito que, sob as instruções de uma organização nacionalista contrarrevolucionária, realizei trabalhos artísticos com distorções
contrarrevolucionárias.
Quadro «A menina com a toalha», 1937
Do protocolo do último interrogatório de Aleksandrs Rūdolfs Drēviņš pelo oficial operacional do 3º departamento da UNKVD, Danilkov, em 21 de janeiro de
1938 / a ortografia, a pontuação e os sublinhados do original foram preservados /
A 11 de fevereiro de 1938, Aleksandrs Rūdolfs Drēviņš foi condenado à pena capital e fuzilado a 26 de fevereiro de 1938. Tinha apenas 49 anos. Foi sepultado numa vala comum e anónima
no polígono de Butovo nos arredores de Moscovo. O seu corpo nunca foi entregue à família. Vários quadros seus sobreviveram somente, porque a sua esposa, a pintora vanguardista russa, Nadezhda Udaltsova,
os escondeu no seu próprio estúdio, declarando as como uma obra sua. O artista foi judicialmente reabilitado em 1957 «devido à ausência de crime». Pela primeira vez após
a sua morte, os quadros foram mostrados ao público em 1959, em Riga. A sua primeira exposição individual ocorreu apenas em 1971, em Moscovo. Em 2022, um tribunal russo se recusou à devolver os quadros
do pintor à sua neta e legítima herdeira...
O massacre de Goraytsi (Gorajec) foi a destruição física de uma aldeia ucraniana, perpetuada pelas forças comunistas polacas. Tudo o que restou da memória
dos ucranianos é o cemitério, mas reparem nestas lápides – foram erguidas após o massacre e antes da deportação massiça dos ucranianos da Polónia em 1947.
Os ucranianos conseguiram preservar a memória. Indicam a causa da morte. Por exemplo, a família ucraniana Kurij enterrou aqui três gerações de mulheres de
uma só vez – Eva (1895), Maria (1919) e Anna (1943), a menina Anna só tinha dois anos: «aqui descançam servas do Deus Eva, Maria e Ana Kurij, mortas pelos polacos aos 6 de Abril de 1945 em
Goraytsi». A palavra «polacos», neste e em vários outros túmulos, está parcialmente apagada, arrasada. Os atuais moradores da aldeia não gostam de recordar dessas coisas, percebem?
Eis o que escreve a Wikipédia polaca sobre massacre de Gorajec:
No dia 5 de abril [de 1945], às 21h00, o 2º batalhão operacional independente do Corpo de Segurança Interna (KBW), juntamente com a milícia sob o comando do
Tenente-Coronel Stanisław Shopinski, saiu do quartel em Lyubachów. No dia seguinte, às 4h50, o batalhão, dividido em quatro grupos, assumiu posições de combate. Os Gorajec e os seus
povoados foram cercados. Às 5h, a ofensiva começou. Iniciou-se com um bombardeamento de morteiros, seguido de um ataque de infantaria. Às 6h10, a aldeia foi ocupada. O exército permaneceu em Gorajec
até às 10h00, matando civis por todo o povoado. Cerca de 60 pessoas foram fuziladas numa das quintas. A aldeia foi incendiada e muitas outras pessoas que se escondiam dos assassinatos foram queimadas vivas nos edifícios. As ações do exército foram acompanhadas pelas ações de civis polacos. Os bens dos moradores foram confiscados à favor do exército. Durante a operação
morreram 174 pessoas [ucranianas]: 32 mulheres, 35 crianças e 19 pessoas com mais de 60 anos.
O objetivo da operação era (supostamente) destruir o quartel-general do Exército Insurgente Ucraniano (UPA). No entanto, naquele momento, nenhuma unidade do UPA estava
estacionada na aldeia. A única força armada na aldeia era um pequeno destacamento da autodefesa ucraniana. A verdadeira tarefa das unidades polacas era intimidar os residentes para os obrigar a abandonar o território
polaco.
Os restantes residentes de Gorajec — quase mil pessoas — foram deportadas [no decorrer da operação Wisla]. Há muitas aldeias como esta. Presidente Nawrocki
devia consultar a Wikipédia. Ou talvez já a tenha lido... Entre 1944 e 1947, mataram e deportaram todos os ucranianos do seu próprio território.
No entanto, a Polónia atual não pode ser vista unicamente através dos crimes do passado ou através das ações criminosas e retórica violenta
da extrema-direita polaca.
A livraria polaca/polonesa «Toniebajka. Księgarnia dla wszystkich», em Bydgoszcz, colocou uma placa à entrada com palavras de apoio aos ucranianos.
Diz a placa que, se na Polónia esperem pedidos de desculpas dos indivíduos pelas ações dos seus familiares ou por acontecimentos históricos, então
a própria livraria quer pedir desculpa aos ucranianos pelos ataques que hoje sofrem por parte dos extremistas polacos, e questiona também porque é que ninguém espera um pedido de desculpas de putin.
«Se Michnik tem de pedir desculpa pelo irmão, Tusk pelo avô e Sofia, de 12 anos, por Volyn, então Toniebajka pede desculpa pelos ataques dos polacos contra ucranianos (e se pergunta: porque é que ninguém espera um pedido de desculpas de putin?»)
Numa outra publicação, o proprietário da livraria, Piotr, escreveu que estava envergonhado pela onda de sentimentos antiucranianos na Polónia, pela redução
da ajuda aos refugiados e pelos recentes ataques [por enquando sem derramamento de sangue], às crianças ucranianas. Disse ainda que queria pedir desculpas pessoalmente aos ucranianos que lutam contra os russos,
trabalham na Polónia ou procuram refúgio no país.
Completa-se hoje o 80º aniversário do pogrom judaico, que ocorreu na cidade polaca/polonesa de Kielce, aos 4 de julho de 1946. Este e vários outros maiores pogroms contra
os judeus na Europa pós-guerra ocorreram apenas na Polónia comunista.
Kielce viveu um pogrom clássico, o termo russo, que entrou para todos os dicionários do mundo. Do pogrom de agosto de 1945 em Cracóvia ao mais sangrento em Kielce, o cenário
era sempre o mesmo, os rumores espalhados entre a populaça, baseados no libelo de sangue contra os judeus: «Um menino cristão foi morto por judeus para fins ritualísticos». A Igreja
Católica na Polónia, com o seu antissemitismo inerente, desempenhou o papel mais que sinistro na construção do contexto para esta terrível tragédia. O pogrom em Kielce foi o mais sinistro
precisamente porque um pequeno grupo de sobreviventes judeus do Holocausto se instalou numa casa, onde foram encurralados e assassinados metodicamente, durante horas. Foram mortos não só por polacos comuns, residentes
na cidade, mas também com a participação direta do exército e da polícia polaca (as autoridades polacas chegaram prender 34 militares e oficiais do exército e das forças desegurança e 6 polícias). A Igreja Católica Polaca, representada pelo bispo local Czesław Kaczmarek, de forma singular para a Igreja, apoiou passivamente estes assassinatos e NUNCA os condenou.
Naquele momento histórico a Igreja Católica polaca estava totalmente alinhada com o governo estalinista do Bolesław Bierutno seu ódio aos judeus, sob o lema não pronunciado, mas largamente sentido naquele mesmo pogrom «vamos terminar o trabalho de Hitler». Apoio estatal total à tragédia. Esta série de pogroms causou um êxodo
em massa de sobreviventes judeus da Polónia em poucos meses. O antigo diretor do Instituto Polaco da Memória Nacional, o atual presidente Karol Nawrocki, deveria estar hoje em Kielce, no 80º aniversário
da tragédia. Levando consigo o primaz Wojciech Polak, para que se ajoelhasse em frente daquela casa e rezasse. Se tivesse a coragem de honrar a memória dos judeus mortos nos pogroms polacos do pós-guerra.
Pelo menos foi isso que o seu chefe político Kaczynski e o seu antecessor Duda fizeram. Hoje, exatamente no 80º aniversário da tragédia.
A placa memorial em Kielce «em memória dos 42 judeus assassinados»
Em resultado dos julgamentos pós-pogrom, que se prolongaram até dezembro de 1946, nove pessoas foram condenadas à morte, três a prisão perpétua e outras dez
a sete anos de prisão. As sentenças subsequentes foram muito mais brandas, e dos altos funcionários da polícia e da segurança, apenas três foram julgados, sendo que somente o comandante
do departamento de polícia provincial, Coronel Kuznytsky, foi condenado a um ano de prisão.
No decorrer do pogrom de Kielce morreram mais de 40 pessoas (37/42 judeus, 3 polacos e 35 pessoas ficaram feridos; o número de vítimas nos povoados vizinhos e na linha ferroviária
/ ferrovia não pôde ser determinado com precisão). Pensa-se que este pogrom terá sido o catalisador para a emigração em massa de judeus polacos para a Palestina e à partir de 1948 para o recém-criado Israel, e
de cerca de meio milhão de judeus, que sobreviveram o Holocausto nazi no final da década de 1950, restaram não mais de 30.000 na República Popular da Polónia.
A capital da Ucrânia, Kyiv novamente foi bombardeada pelos ocupantes russos, com as perdas e destruição. A situação é difícil e tem um paralelo
histórico — destruição sofrida pela capital britânica durante os oito meses de 1940-41, que ficaram conhecidos na história como o «Blitz».
Ao longo de mais de quatro anos de guerra em grande escala, os mísseis, drones e projécteis russos deixaram a sua marca em todos os distritos de Kyiv. O Texty.org.ua atualizou
a sua base de dados de impactos na cidade, acrescentando casos de danos causados por aterragens e queda de destroços até 15 de junho de 2026, que não tinham sido contabilizados anteriormente.
Estes são apenas os casos relatados por fontes oficiais ou pelos meios de comunicação social. Mas mesmo estes dados são suficientes para perceber como o terror aéreo contra a capital mudou.
O foco mais denso de ataques russos formou-se na margem direita do rio Dnipro, desde os bairros históricos de Lukyanivka até Solomyanka, passando por Shulyavka. Aí, ao
longo dos quatro anos de guerra, acumulou-se o maior número de impactos e quedas de destroços registados. O segundo maior foco formou-se na margem esquerda do Dnipro, em torno do complexo industrial de Darnytsia.
Estas duas zonas são mais claramente visíveis no mapa, se o analisarmos não pelas fronteiras administrativas dos distritos, mas pela densidade dos impactos.
Tal distribuição explica-se, em grande parte, pela localização de grandes empresas industriais e instalações de infra-estruturas. A fábrica
«Artem», outras empresas da indústria de defesa, grandes unidades de produção, complexos logísticos e instalações energéticas continuam a figurar entre os alvos
prioritários dos russos. Uma categoria à parte são as instalações energéticas, que foram repetidamente atacadas durante as campanhas para destruir o sector energético ucraniano.
O mapa de Londres mostra claramente a dimensão da destruição sofrida pela capital britânica durante os oito meses de 1940-41, que ficaram conhecidos na história
como o «Blitz». Mais de 43 mil pessoas morreram e cerca de 1,4 milhões perderam as suas casas em Londres, durante a operação de Luftwaffe, que começou aos 7 de setembro de 1940 e terminou
aos 11 de maio de 1941.
Como é que isso afetou a vitória dos alemães sobre a Grã-Bretanha? De forma alguma!
Nenhuma destruição ou perda de civis afetou alguma vez o curso das hostilidades. Muito menos a determinação do povo britânico em vencer (ler mais sobre o «Blitz»)
Em outubro de 1944, os Aliados destruíram as últimas instalações nazis para a produção de gasolina sintêtica. Seis meses depois, o 3º Reich sucumbiu
aos ataques dos Aliados, ficando sem combustível.
Parafraseando o Chefe dos Comando de Bombardeiros da RAF, Arthur «Bomber» Harris: «Nunca na história alguém ganhou uma guerra incendiando refinarias de petróleo. Sim, mas ainda ninguém tentou, e nós
vamos tentar».
Alexander Uspensky na nota soviética de procura dos criminosos. Wikipédia
Aos 14 de novembro de 1938, o chefe de NKVD da Ucrânia soviética, Aleksandr Uspensky, percebendo que a sua convocação para Moscovo à fim de receber uma «promoção»
significaria a prisão subsequente, fugiu de Kyiv, fingindo suicidar-se.
Deixou um bilhete manuscrito no seu gabinete oficial do NKVD:
«...Adeus, bons camaradas!
Procurem o meu corpo, se necessário, no [rio] Dnipro. É mais seguro disparar sobre mim próprio e depois atirar-me para a água... sem falhas.
Nunca fui um Lyushkov!
Uspensky ...»
Com isto, distraiu temporariamente os oficiais da NKVD. Viveu, na clandestinidade, em várias cidades da rússia soviética, com identidades falsas, previamente elaboradas,
na maioria das vezes sob o nome do operário Ivan Lavrentyevich Shmashkovsky. A ordem de procura veio pessoalmente de Estaline para Béria: «capturar este canalha». O ditador soviético estava
furioso, Uspensky era o 3º alto patente do NKVD, que abandonou os seus deveres na polícia secreta soviética, fugindo, em apenas cinco meses. Foi imediatamente colocado na lista de procurados de toda a União Soviética
e em breve, foi encontrado. Preso, foi executado em 27 de janeiro de 1940.
Capa do processo do NKVD sobre a fuga/desaparecimento do Uspensky. Arquivo Estatal do SBU, Kyiv
O seu local de enterro é o «túmulo de cinzas não reclamadas» nº 1 do crematório do Cemitério de Donskoye, nos arredores de Moscovo. Comissário do NKVD do 3º grau (equivalente ao general do exército), nunca reabilitado judicialmente à título póstumo, Uspensky é um exemplo perfeito de como, na URSS, a mesma pessoa poderia ser perpetuador e a vítima do regime repressivo soviético.
No mesmo ano de 1940, a sua mulher, Anna Uspenskaya, foi executada pelo NKVD, sob a acusação de «traição, conspiração para fugir para o estrangeiro
com o seu marido, o Comissário do Povo para os Assuntos Internos da Ucrânia, a não-denúncia [do marido ao NKVD]». O destino do filho do casal, um adolescente na altura, é desconhecido.
Genrikh Lyushkov, que Uspensky mencionou na nota, serviu como chefe da Direção da NKVD para o Território do Extremo Oriente russo em 1937-38. Antecipando a sua eminente prisão, em 13 de junho de 1938 fugiu para a Manchúria
e rendeu-se aos japoneses. Testemunhou contra o regime soviético, denunciou as repressões comunistas, dos quais fazia uma parte mais que ativa.
Foi morto pelos japoneses em agosto de 1945. As circunstância
exatas da sua morte são desconhecidas. Embora existe a versão, não confirmada por evidências verificáveis, do que Lyushkov não foi morto, mas se mudou aos Estados Unidos, onde trabalhou
para a CIA. No entanto, em 1979, o seu curador dos serviços secretos japoneses, Yutaka Takeoka, declarou publicamente, que foi o responsável pela morte do agente, após a ordem superior de o executar e a recusa do próprio Lyushkov de cometer o suicídio honroso.
A sua esposa, Nina Pismenna, foi presa aos 15 de junho de 1938 e, a 19 de janeiro de 1939, condenada, na qualidade do «membro da família de um traidor à pátria»,
a oito anos num campo de trabalhos forçados. No entanto, o seu caso foi revisto em fevereiro de 1940, numa Conferência Especial da NKVD, a pena foi comutada aos cinco anos de degredo forçado. Após
a reabilitação judicial em 1962, encontrou a sua filha, Lyudmila Pismenna (enteada de Lyushkov), em Jurmala, Letónia, onde viveu o resto da sua vida e morreu aos 90 anos em 1999. A enteada do Lyushkov,
Lyudmila Pismenna, nascida a 5 de maio de 1927 em Kharkiv, na Ucrânia, após a II G.M., mudou-se com a família para a Letónia soviética, onde se tornou professora na Academia de Música
da Letónia e na Academia de Pedagogia e Gestão Educacional de Riga. Doutorada em História da Arte, Artista Homenageada da Letónia. Faleceu em fevereiro de 2010.
Há alguns dias que o Instituto Polaco da Memória Nacional (IPN) tem vindo a conduzir uma campanha de informação que tenta demonizar os «pais-fundadores» do
nacionalismo ucraniano. Nas redes sociais são publicadas ilustrações com textos que visam comprovar a natureza supostamente «genocida» das ações da UPA. No entanto, tudo é
feito de uma forma surpreendentemente primitiva, escreve o historiador ucraniano Volodymyr Viatrovych.
Estão a tentar encontrar as raízes do «genocídio» na obra de Dmytro Dontsov, mas não encontraram nele uma única citação anti-polaca.
Porque, na verdade, não existe nenhuma. Dontsov era um polonófilo, trabalhou e publicou a sua obra legalmente na Polónia nas décadas de 1920 e 1930, e a sua principal obra, «Nacionalismo»,
foi publicada na Polónia em 1926, numa editora religiosa «Missioner», em Zhovkva [na atual região ucraniana de Lviv].
A citação de Stepan Bandera também não resultou. Eis o que lemos no site polaco do IPN: “A nossa ideia, tal como a entendemos, é tão grandiosa
que, quando se trata da sua implementação, para a alcançar, é necessário sacrificar não centenas, mas milhões de vítimas”, disse um dos líderes nacionalistas
ucranianos, Stepan Bandera, perante o tribunal em Lviv, em 1936. Estas palavras foram um aviso sombrio do genocídio cometido pelos seus apoiantes apenas sete anos depois”.
Quando a história é substituída por propaganda primitiva, conduzida por uma instituição estatal, e a memória das vítimas é substituída
por um culto pseudo-religioso, a sociedade perde a capacidade de avaliar criticamente não só o passado, mas também o presente. Já vimos isso no exemplo dos nossos vizinhos de leste, escreveu Dr. Viatrovych.