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sábado, fevereiro 21, 2026

Agente do FSB Nomma Zarubina finalmente presa nos EUA

A cidadã russa Nomma «Alyssa» Zarubina declarou-se parcialmente culpada das acusações de mentir aos agentes do FBI e de obter fraudulentamente a cidadania norte-americana (envolvimento na prostituição), de acordo com a página oficial do Departamento de Justiça dos EUA.

A confissão (parcial) da culpa por agente «Alyssa»

Zarubina admitiu que, em 2020, aceitou trabalhar para os serviços secetos russos, criando uma rede de contactos nos EUA («marketing de rede») e recebeu o nome de código «Alyssa». Várias vezes, entre 2020 e 2022, ela encontrou-se com um agente do FSB russo, comunicou com ele através de aplicações de mensagens instantâneas e recebeu tarefas, por exemplo, de investigar os jornalistas ou procurar um indivíduo específico nos EUA. Ela tinha negado essas alegações nos seus depoimentos anteriores ao FBI.

Zarubina pode ser condenada a até cinco anos de prisão por mentir.

Outra acusação, da qual Zarubina se declarou culpada, diz respeito às suas ligações à prostituição nos EUA. De acordo com a acusação, ao solicitar a cidadania americana, Zarubina afirmou que nunca se tinha envolvido em prostituição. Na verdade, o FBI apurou que ela «participou num esquema para transportar mulheres entre Nova Iorque e Nova Jérsia para prostituição numa casa de massagens». Esta acusação também prevê a pena máxima de prisão de cinco anos.

Quem é Nomma Zarubina?

Nomma Zarubina é uma cidadã russa, nascida em Tomsk. Mudou-se para os Estados Unidos em 2016, após se ter licenciado na Academia Presidencial russa de Economia Nacional e Administração Pública (RANEPA). Chamou a atenção das agências de informação norte-americanas em 2022 devido aos seus contactos próximos com uma outra russo-americana, Elena Branson. 

Branson era a chefe do Conselho Coordenador das Organizações de Compatriotas russos (Russian Community Council of the USA) nos Estados Unidos. A organização foi encerrada em novembro de 2021, devido as fortes suspeitas do que era usada nas atividades ilegais de lobbing pró-Kremlin nos EUA. Em 2022, as autoridades norte-americanas acusaram a própria Bransom de atividades não registadas como agente estrangeira da rússia. A sua casa foi revistada e Branson fugiu apressadamente dos Estados Unidos, regressando à rússia.

Zarubina costumava encontrar-se com várias figuras públicas proeminentes da oposição liberal russa, que vivem na Europa e nos EUA. Ela também tentou se infiltrar nas organizações ucranianas, ativas nos Estados Unidos.

Zarubina num encontro público em Ukraine House em Washington 

Entretanto, pelo menos até 2021, Zarubina costumava publicar os conteúdos pró-russos e pró-putinistas na sua página na rede social russa VK. Mesmo já vivendo nos Estados Unidos, Zarubina posou para as fotografias com uma t-shirt com o slogan «KGB Summer Camp». 

A própria Zarubina afirmava, nas entrevistas, que contactou, ela própria, os agentes do FBI em 2021 para se «proteger de todos os lados». Manteve-se em contacto com o FSB para «se proteger na Rússia» e para «compreender por mim própria, o que aconteceria à Rússia em geral, às regiões e ao mundo inteiro». Zarubina disse ainda aos meios de comunicação social que começou a trabalhar para os serviços secretos russos sob ameaças. 

Assédio persistente de um agente do FBI

Pela primeira vez Zarubina foi formalmente acusada nos EUA em novembro de 2024. Depois dissso, ela começou a comentar ativamente o seu julgamento no seu perfil de Facebook. Por exemplo, em abril de 2025, ela escreveu no Facebook: «Podemos fazer um grande alarido disto. Até precisamos de o fazer. Mas precisamos de chegar à Netflix, no mínimo». 

Processo original. EUA VS Nomma Zarubina aka «Alyssa»

Sendo a mãe-solteira de uma filha menor, após a sua detenção, Zarubina foi posta em liberdade sob a fiança de 25.000 dólares. No entanto, o Ministério Público americano interpôs uma ação exigindo a sua detenção. O motivo foram as mensagens de Zarubina para o agente do FBI Peter R. Dubrowski, responsável do seu caso, nas quais agente russa tentava insinuar a suposta relação amorosa. Por exemplo, Zarubina escrevia: «Os arquivos de Epstein não existem. E o nosso amor?» ou enviou um meme: «Militares, quando sepreparam para arruinar a vida de uma outra mulher sem motivo», com a legenda: «Isto é sobre ti». Por vezes, até escrevia em russo: «O que achas? Estou tão cansada. Estou fodid@ de tudo», escrevia Zarubina ao agente do FBI, anexando fotografias suas de chapéu de cowboy com a bandeira americana em segundo plano.

«O que achas? Estou tão cansada. Estou fodid@ de tudo»

Em setembro de 2025, o tribunal americano, mais uma vez mostrou o humanismo e compreensão, decidiu não deter Zarubina, dando-lhe uma «última oportunidade» e ordenando que se submetesse ao tratamento para o alcoolismo. Mesmo assim, Zarubina continuou a enviar mensagens ao agente do FBI. Numa das mensagens, indicou o filme «Arizona Dream», no qual a protagonista se suicida. Como consequência, Zarubina foi finalmente detida em dezembro de 2025. O novo pedido de libertação sob a fiança foi negado e a sentença está marcada para 11 de junho de 2026. Até a data agente russa passará ser detida numa prisão federal. 

«Legendamento» e «maskirovka» 

Estamos aqui perante um caso bastante típico, em que uma agente russa, usa tática de «legendamento» e o famoso sistema do KGB, conhecido como «maskirovka». Na rússia, alegadamente, existe um processo contra Zarubina, por ela ser membro de «uma organização indesejável». Na prática do KGB-FSB isso se chama «legendamento» e é habitualmente usado para legalizar e/ou legitimar um indivíduo, criando-lhe a aura artificial do «dissidente» ou do «opositor». Por outro lado, o comportamento errático e assédio bastante primitivo ao um agente do FBI se enquadra numa outra tática do KGB-FSB, conhecida como «maskirovka» (literalmente mascaramento). Um/a agente se comporta de uma maneira grosseiramente estúpida, fingindo ser bêbado, mulherendo ou jogador compulsível, para projetar, para fora, uma imagem de um personalidade fraca e sendo assim, inofensiva. 

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Propaganda soviética dirigida especialmente aos emigrantes e ostarbeiters

Após o fim da II G.M., a propaganda soviética produzia diversas publicações que exortavam os emigrantes, principalmente da Argentina e do Brasil e aos antigos ostarbeiters à retornar ao paraíso socialista, caso dos jornais «Pelo Retorno à Pátria», em ucraniano e em belaruso, publicados e distribuídos em 1956-1957. 

Enquanto milhares de ucranianos e belarusos foram enviados aos campos do GULAG e o mundo ocidental se recuperava dos horrores da Segunda Guerra Mundial, a máquina de propaganda soviética trabalhava a todo vapor para atrair emigrantes e «deslocados internos» (DP) à retornar à União Soviética. 

«Pelo retorno à Pátria», março de 1957, edição ucraniana

Os segredos do «gancho» comunista 

As páginas que podemos ver nas imagens, descrevem uma vida na URSS completamente idílica:

«Igual e feliz»: histórias sobre «direitos incríveis» das mulheres, medicamentos gratuitos e cuidados gerais, providenciadas pelo Estado.

«Com felicidade eles voltam para casa» (edição belarusa): fotos encenadas de repatriados felizes, supostamente retornando da Brasil, da Argentina ou dos EUA para um paraíso de kolkhozes, isso é fazendas coletivas «prósperas». 

Temas culturais: artigos sobre novas obras musicais, concertos e «infância feliz». 

Foi uma operação psicológica do KGB, especialmente planeada. Jornais eram distribuídos nos campos de refugiados e deslocados em toda a Europa, colocados nas caixas de correio de emigrantes, tentando explorar a sua possível nostalgia e as situações económicas complicadas de alguns. 

«Pelo retorno à Pátria», junho de 1956, edição belarusa

Onde essas ilusões eram fabricadas? 

A edição belarusa de junho de 1956 conta a história da família numerosa do ucraniano Alexander Satsik (Satsyk), que vivia no Brasil na colónia Mandury (possivelmente Mandurah em Manduritiba no Paraná). Publicação diz que a família se dirige à região de Odesa.

O centro dessa «fábrica de sonhos» não ficava em Kyiv ou Mensk/Minsk, mas na zona de ocupação soviética de Berlim. A redação do comité «Pelo Retorno à Pátria», liderado pelo major-general do KGB Nikolai Mikhailov e seus colaboradores, que serviam os interesses de Moscovo/ou, estava localizada em: Berlin NW 7, Schadowstraße 1b.

Foi daqui que milhões de cópias de mentiras foram espalhadas por todo o mundo, prometendo anistia geral e «montanhas de ouro». Em vez disso, muitos dos que acreditaram e retornaram se viram diante de interrogatórios, campos de filtragem, deportações / exílio ou vida sob a vigilância eterna das autoridades soviéticas.

Oitente anos depois, em nome da cidade ucraniana de Mariupol, ocupada pelos russos, foi criado um canal no YouTube onde são contadas «histórias fascinantes» sobre a reconstrução da cidade e das condições de vida «maravilhosas» sob a ocupação russa. Nada de novo na propaganda estatal russa... 

Fonte: Arquivo da OUN. - Biblioteca. - Jornais. - Inv. nº 71-72 

Blogueiro: é de notar, que os jornais eram impressos no papel de uma qualidade superior, usando uma ótima base poligráfica (uso das imagens artificialmente coloridas), muito melhor do que vários jornais soviéticos das décadas de 1970-80. Os jornais usam como slogan as frases «Glória à grandiosa terra pátria!» (edição ucraniana) e «Glória, à Pátria nossa livre!» (edição belarusa) em vez do unificado «Proletários de todos os países uni-vos!», que praticamente TODOS os jornais soviéticos usavam até fim da URSS em 1991. Estes jornais falam vizivelmente menos do socialismo/comunismo ou de autoridades soviéticas, em vez disso fala-se do «Estado» e muito abundamente dos «cuidados do Estado».

terça-feira, fevereiro 10, 2026

Operação do KGB no Reino Unido: «Naked Spy»

Na década de 1950, vivia em Londres um osteopata chamado Stephen Ward. Ele criou uma agência de acompanhantes para clientes de alto escalão da sociedade britânica. Na realidade agência foi criada e gerida pelo KGB. Ward era apenas uma fachada e um mero executante.

Ele praticava a terapia manual. Certamente a praticava com um alto padrão profissional. Ward também tinha um hobby: era retratista e, por algum motivo, sonhava em ir a Moscovo/ou e desenhar ou pintar retratos de membros do Politburo. Por volta de 1960, Ward conheceu e fez amizade com um oficial da inteligência militar soviética (GRU), designado para a embaixada soviética em Londres, o Capitão de 1ª Classe Yevgeny Ivanov (morreu na pobreza em Moscovo/ou em 1994).

Naquele mesmo ano, Ward fundou uma agência de acompanhantes / «garotas de programa» para clientes de alto escalão da sociedade britânica. Com o tempo, a agência ganhou outro nome: o Clube das Quintas-feiras. Representantes masculinos de alto escalão da sociedade inglesa se reuniam na casa de Ward às quintas-feiras para conhecer as meninas/garotas que ele trazia, com tudo o que se seguia.

Ivanov manteve um caso com a socialité e dançarina exótica britânica Christine Keeler, que por sua vez se envolveu, muito possivelmente através da «sugestão» do KGB com John Profumo, o Secretário de Estado da Guerra britânico. O caso extraconjugal subsequente de Profumo com Keeler ocorreu em um momento em que ela também estava tendo relações sexuais com Ivanov.

Christine Keller fotografada por Lewis Morley, 1963

Em 1963, o escândalo conhecido como Caso Profumo eclodiu, envolvendo os dois ministros da guerra implicados no escândalo e levando à sua renúncia. A contraespionagem britânica, MI5, provou, então que Ward trabalhava para KGB e produzia/coletava fotografias incriminatórias de todos os altos funcionários que haviam utilizado os seus serviços. A lista era longa e impressionante. Como resultado, o governo conservador de Harold Macmillan renunciou. Foi substituído pelo governo trabalhista de Harold Wilson, que era o preferido da liderança soviética.

Em 30 de julho de 1963, Ward foi preso e encontrado morto (oficialmente dado como suicídio por envenenamento por barbitúricos) na sua sua cela já em 3 de agosto. Ele tinha apenas 50 anos. O capitão Ivanov, juntamente com seu coautor Gennady Sokolov, publicou, na rússia em 1992, um livro sobre o caso, intitulado «O Espião Nu». No mesmo 1992, o livro também foi publicado no Reino Unido sob o título «The Naked Spy». No livro, os autores revelaram que o escritório de Ward foi criado pelo KGB. Ward era apenas uma fachada e um mero executante.

Assim, após o projeto bem-sucedido de Ivanov e Ward, o KGB repetiu a mesma operação em maior escala nos Estados Unidos, realizada por Ghislaine Maxwell e Jeffrey Epstein...

quinta-feira, fevereiro 05, 2026

A breve história da técnica soviética e russa de «armadilhas de mel»

A “armadilha de mel” é uma técnica de chantagem e recrutamento, muito usada pela inteligência soviética desde a época da NKVD. Sabe-se com certeza que, durante a era da KGB, essa técnica era empregue pela PGU (Primeira Diretoria Principal do KGB). KGB chamava as agentes de «andorinhas» e no ocidente eram conhecidas como «Mozhno-girls» ou «mozhnos». 

Um dos exemplos mais famosos é o “romance” de Albert Einstein e Margarita Konenkova.

Margarida Konenkova e Albert Einstein

Quando se conheceram em 1935, Einstein tinha 56 anos e Konenkova, 39. Ela era esposa do escultor soviético Sergei Konenkov, que foi escolhido, “ao acaso”, para fazer uma escultura de Einstein. Desde o primeiro dia em que se conheceram, a moça não se afastava do cientista, e o “romance” entre eles floresceu instantaneamente. Graças ao seu charme natural, Margarita inspirava Einstein com as ideias pró-soviéticas, do amor pela cultura russa e até o persuadiu a se encontrar com o cônsul soviético. Albert foi milagrosamente salvo de se tornar um informante por Estaline, que acreditava que, no papel de um simples «idiota útil», o cientista seria mais útil à União Soviética, do que como um agente do NKVD. Em 1945, Konenkova e sua família foram repatriados para a URSS e nunca mais viram Einstein. A qualidade do seu trabalho da oficial de inteligência pode ser comprovada pelo facto de Einstein ter escrito, secretamente mais de uma dúzia de poemas de amor para ela. 

Outro exemplo do trabalho de inteligência soviético foi o amante de Eleanor Roosevelt, que se revelou um agente da NKVD e conseguiu se tornar um «forte apoio» para a primeira-dama dos Estados Unidos depois que ela descobriu a traição do marido. Graças às informações dele, um outro agente soviético, Alger Hiss (condenado pela Comissão de Investigação de Atividades Antiamericanas), convenceu Roosevelt a não exigir de Stalin garantias de segurança e eleições democráticas livres para a Polónia e todos os países ocupados pelas tropas soviéticas. Hiss também conseguiu convencer o presidente dos EUA a não forçar Estaline a respeitar os direitos humanos e enfraquecer o regime brutal da União Soviética. Assim, a assistência dos EUA à URSS na luta contra a Alemanha nazi/sta não estava condicionada a quaisquer exigências de democratização e redução da pressão repressiva. De fato, Alger Hiss, como chefe do Escritório de Relações Políticas Especiais, responsável pelo planeamento estratégico, tornou-se o principal negociador americano na Conferência de Yalta, onde o destino da Europa pós-guerra foi decidido. Ele também foi responsável pela criação da ONU de uma forma extremamente benéfica para a URSS. O resultado das atividades de Eleanor Roosevelt e Alger Hiss foi que: os aliados entregaram a Polónia à União Soviética, devolvendo-a literalmente às garras do império russo. Este foi um ato completamente inaceitável, pois a Grã-Bretanha entrou na guerra precisamente por causa da invasão conjunta da Polónia pela Alemanha nazi e pela URSS comunista. Além disso, os pilotos poloneses participaram, ativamente, na defesa aérea da Grã-Bretanha. Centenas de milhares de pessoas que fugiram para o Ocidente da perseguição da NKVD foram deportadas para a União Soviética, onde seu destino era incerto.

Nos tempos modernos, um exemplo extremamente bem-sucedido de armadilha amorosa foi a sogra do oligarca Roman Abramovich, Elena Zhukova, que se casou com o magnata da mídia Rupert Murdoch. O império desse bilionário inclui os maiores veículos de comunicação, como o Wall Street Journal, a Fox News e o The New York Times.

Quanto ao próprio Epstein, aqui temos um exemplo vívido de outra suposta agente do FSB, Ghislaine Maxwell. Seu envolvimento com a inteligência russa não foi comprovado formalmente, mas todos os fatos apontam para isso.

Ghislaine é a filha do político e magnata britânico Robert Maxwell (nascido na atual Ucrânia no seio de uma família judaica ortodoxa), que durante a guerra fria era conhecido pela sua proximidade aos vários ditadores de regimes comunistas. Ela foi presa pelo FBI dos EUA em julho de 2020 e acusada de aliciar e traficar menores para fins sexuais. Em dezembro de 2021, foi considerada culpada de cinco das seis acusações, incluindo tráfico humano. Em junho de 2022, foi condenada a 20 anos de prisão.

Maxwell conheceu Jeffrey Epstein no início da década de 1990 em uma festa em Nova York, e os dois se deram bem imediatamente. Suas conexões, herdadas de seu pai, foram essenciais para Epstein. Ghislaine, por sua vez, teve acesso aos poderosos desse mundo - desde o Príncipe Andrew ao Donald Trump. 

Como Maxwell trabalhava:

  • Encontrava as jovens vulneráveis ​​(frequentemente de famílias pobres, em spas e escolas);
  • Preparava-as para as “massagens” de Epstein;
  • Ensinava-lhes pessoalmente práticas sexuais;
  • Normalizava a violência com sua presença como uma “mulher mais velha”;
  • Geria/enciava a logística de transporte entre várias residências de Epstein;
  • Às vezes, participava pessoalmente nos atos de violência;

Tudo isso é muito semelhante ao treino/amento de agentes da KGB, que posteriormente participavam de operações de sedução. 

Historicamente, em todos os grandes hotéis soviéticos e não só, sob o controlo do KGB, havia salas especiais com escutas telefônicas e gravações de vídeo. O alvo era gravado nos seus encontros sexuais com homens ou mulheres, depois lhe exibiam o material gravado e a pessoa era forçada a cooperar. 

Alguns dos exemplos conhecidos do uso de «armadilha de mel» pelo KGB: 

William John Christopher Vassall (1924–1996), um funcionário do Almirantado Britânico.

Vassall, isolado por causa de sua homossexualidade (na época, um crime) e humilhação social na embaixada, tornou-se um alvo fácil. Em 19 de março de 1955, ele foi convidado para uma festa, onde lhe ofereceram bebidas e o fotografaram em posições comprometedoras com vários homens. Sob pressão de chantagem, concordou em cooperar e entregou milhares de documentos secretos sobre tecnologia de radar britânica, torpedos e equipamentos anti-submarino. Após a entrega, foi descartado como lixo pelos soviéticos e, na Grã-Bretanha, recebeu uma pena de 18 anos de prisão, dos quais serviu dez. 

Maurice Dejean (1899–1982), embaixador francês na URSS, amigo pessoal de De Gaulle.

A operação envolveu mais de 100 oficiais da KGB sob a liderança de Oleg Gribanov. KGB utilizou a atriz Larisa Kronberg-Sobolevskaya, uma das  suas «andorinhas», agente «Lora». Durante o encontro, seu “marido” (um agente da KGB) invadiu o local e bateu o embaixador. Dejan recorreu a um “amigo soviético” em busca de ajuda, também um agente da KGB.

Larisa «Lora» Kronberg, atriz e «andorinha» do KGB

Após se acalmar um pouco, o «marido» ameaçou o embaixador com uma denúncia à polícia. Para evitar um escândalo, Dejan teve que pedir ajuda a seus conhecidos em Moscovo/ou, e eles, é claro, a ajudaram. Naquela mesma noite, Dejan se encontrou com Gribanov, que lhe foi apresentado como conselheiro do presidente do Conselho de Ministros da URSS, Gorbachev. Gorbachev/Gribanov prometeu ajudar. Em troca, Dejan deveria prestar um pequeno favor ao governo soviético. Assim começou a longa cooperação entre o embaixador francês e o KGB.

Graças a informação dos oficiais do KGB que fugiram ao Ocidente, Dejan, foi exposto e perdeu o seu emprego como embaixador. No entanto, ele nunca foi formalmente acusado de nada, e, por exemplo, foi membro do conselho da Associação França-URSS de 1973 até sua morte. 

Sargento Clayton J. Lonetree (1961 – ) guarda da Embaixada dos EUA em Moscovo/ou.

Quantico, Virgínia: O sargento da Marinha Clayton Lonetree é escoltado para fora do prédio onde seu julgamento militar está sendo realizado. Lonetree é acusado de espionagem no escândalo de sexo em troca de segredos na embaixada dos Estados Unidos em Moscovo/ou.

A agente do KGB «Violetta Seina» conheceu Lonetree em uma festa dançante do Corpo de Fuzileiros Navais em novembro de 1985, na véspera da cúpula Gorbachev-Reagan, onde Lonetree trabalhava na segurança. O relacionamento amoroso se transformou em ação de recrutamento. Lonetree forneceu plantas de embaixadas americanas em Moscovo/ou e Viena, os nomes e fotos de nove agentes da CIA na URSS e uma lista telefônica secreta.

Sargento foi julgado e condenado aos 15 anos de prisão, efetivamente serviu nove. 

John Watkins (1902–1964), embaixador do Canadá na URSS. 

Watkins foi fotografado tendo contato homossexual com o agente do KGB «Kamal». KGB exigiu que ele fosse «amigável» aos interesses soviéticos. Watkins relatou o incidente a Ottawa, mas ocultou a natureza sexual do ocorrido. Após ser exposto por oficiais do KGB que se refugiaram no Ocidente, a Polícia Montada Real Canadense (RCMP) o interrogou em Paris e Londres. Em 12 de outubro de 1964, Watkins morreu de um ataque cardíaco enquanto era interrogado em um hotel em Montreal. 

James Hudson, Cônsul Geral Adjunto da Grã-Bretanha em Ecaterimburgo.

Em 2009 um vídeo de 4 minutos e 18 segundos intitulado “As Aventuras do Sr. Hudson na Rússia” apareceu numa página web russa. As imagens mostravam Hudson em um quarto de hotel com duas mulheres, champanhe e sexo. O site insinuava a existência de material adicional sobre jogos de azar e “drogas leves”. O diplomata britânico, de 37 anos, na altura, pediu a demissão. 

Béla Kovács, (1960 – ), eurodeputado húngaro (2010–2019). 

História que apresenta uma verdadeira veterana em armadilhas amorosas, a russa Svetlana Istoshina — ela foi casada quase simultaneamente com um físico nuclear japonês Omiya Massanori, um criminoso austríaco Mario Schöne e Kovács.

Kovács conheceu Svetlana em Tóquio por volta de 1979–1980. O pai de Kovács confirmou que um oficial da inteligência húngara na embaixada o havia alertado: Svetlana era um «correio» do KGB. Ela viajava pela Europa e Ásia em missões. Após a queda do comunismo, Kovács tornou-se membro do Parlamento Europeu, viajava a Moscovo/ou todos os meses, organizava viagens de líderes do partido Jobbik para a rússia e foi observador no “referendo” ilegal russo de 2014 na Crimeia. Foi condenado, em setembro de 2022, in absentia, por um tribunal húngaro, aos 5 anos de prisão por espionagem. Atualmente vive algures na rússia. 

Em 2010, vários políticos oposicionistas russos, casos do Viktor Shenderovich (humorista), Mikhail Fishman (editor da Newsweek), Ilya Yashin, Roman Dobrokhotov, Eduard Limonov, e vários outros, foram apanhados nos vídeos sexuais, com presença da Ekaterina «Mumu» Gerasimova. Agente do FSB, Gerasimova atraiu sistematicamente críticos do Kremlin, convidando-os para um apartamento com câmeras escondidas. Ela ofereceu sexo a três, cocaína e marijuana. O vídeo com Shenderovich foi divulgado dois dias antes do casamento da sua filha. Alega-se que alguns dos visados perceberam a armadilha e escaparam, não temos a certeza disso.

Agente do FSB Ekaterina «Mumu» Gerasimova

A própria agente emigrou, mudou de nome e em 2012 vivia na Espanha.

Agente russa Maria Butina, se apresentava nos EUA como a fundadora da organização “Direito de Portar Armas”. Butina infiltrou-se sistematicamente na NRA e em círculos conservadores americanos, participando de convenções como convidada de honra. Em julho de 2015, ela perguntou publicamente ao Trump sobre as sanções contra a rússia. Ela morava com o agente republicano Paul Erickson — com o dobro de sua idade —, o que, segundo os promotores, era um «aspecto necessário de seu trabalho». Os promotores alegaram inicialmente que ela ofereceu sexo em troca de um cargo (essa alegação foi posteriormente excluída). Condenada em abril de 2019 aos 18 meses por conspiração e por atuar como agente estrangeira não registrada. Deportada para a rússia em outubro de 2019. 

David Franklin Slater (63-64), tenente-coronel aposentado do Exército dos EUA, serviu, como contratado civil, no Comando Estratégico dos EUA (USSTRATCOM).

Em agosto de 2021, ele foi abordado por um agente do FSB russo se passando por um «ucraniano». Slater tinha autorização de segurança de nível TOP SECRET e participava de reuniões informativas confidenciais sobre a guerra da rússia contra a Ucrânia. Ele repassou informações secretas sobre alvos militares e capacidades russas por meio de um aplicativo de mensagens de um site de encontros até abril de 2022. Em julho de 2025, declarou-se culpado de conspiração para divulgar informações sobre a defesa nacional. Ele pode ser condenado até 10 anos de prisão e uma multa de 250.000 dólares.

Um grande número de armadilhas amorosas permanece sem solução e ainda está em operação. É importante ressaltar que este é apenas um dos métodos do atual FSB russo — há também chantagem, suborno, assassinato, etc. Esta não é uma situação sem esperança, é um perigo que deve ser reconhecido e combatido metodicamente. 

Fonte: Denys Shtilierman @DenShtilierman

sexta-feira, janeiro 16, 2026

O dia da queda de toda-poderosa secreta comunista Stasi

Em 15 de janeiro de 1990, os manifestantes pacíficos invadiram a sede da secreta comunista Stasi em Berlim Oriental. Desta forma, os arquivos do antigo serviço de segurança estatal da RDA foram impedidos de serem destruídos. 

O filme absolutamente indispensável para perceber o nível de violência, exercida pela Stasi sobre a sociedade na ex-RDA: «A Vida dos Outros» (ver o filme completo):

«O escudo e a espada do partido» — era assim que o Ministério da Segurança do Estado da RDA se auto-intitulou orgulhosamente, emulando o seu «irmão mais velho» soviético, o KGB. Mais de 90.000 agentes de segurança a tempo inteiro e quase 200.000 informadores a tempo parcial trabalhavam para a Stasi (como era popularmente conhecida a secreta, um derivado do alemão Staatssicherheit, ou «segurança do Estado»). A polícia secreta da Alemanha comunista monitorizava principalmente os seus próprios membros. O arquivo da Stasi é colossal: 110 quilómetros de prateleiras repletas de dossiers sobre cidadãos da RDA e de outros países, um índice de fichas com informação sobre 40 milhões de pessoas, 1,5 milhões de fotografias, 30 mil disquetes e cassetes contendo gravações de conversas telefónicas interceptadas... 

A câmara fotográfica disfarçada, usada pela Stasi

Dos milhares de sacos com fragmentos de documentos que os agentes de Stasi tentaram destruir nos últimos dias da RDA, menos de mil foram catalogados. Os documentos foram restaurados graças ao trabalho meticuloso de arquivistas e a um programa de computador desenvolvido por especialistas alemães em TI especificamente para este fim. 

Os dossiers da Stasi rasgados pelos agentes da Stasi

O facto de a Stasi ter começado a destruir documentos imediatamente após a queda do Muro de Berlim e o início da revolução pacífica na RDA foi a principal razão para o ataque aos escritórios da secreta em todo o país e à sede central em Berlim. Por ordem do chefe da Stasi, os dossiers foram queimados e triturados. Tentaram transportá-los em camiões, mas o fumo das fornalhas sobre os escritórios locais de segurança do Estado era visível, as fornalhas e os trituradores não suportavam a carga, e os manifestantes em piquete impediram a remoção dos ficheiros. Então, simplesmente começaram a rasgar os documentos em pedaços.

A revolução pacífica na RDA ocorreu sobretudo graças aos alemães de leste que exigiam a liberdade, a demissão das autoridades comunistas e a reunificação do país. Além disso, por iniciativa dos alemães de Leste, foi aprovada uma lei especial relativa aos arquivos da Stasi. Eles são públicos. No Gabinete Federal para o Estudo dos Arquivos da Stasi, qualquer pessoa pode aceder aos seus arquivos, saber se foi monitorizada pelo Ministério da Segurança do Estado da antiga RDA e ler relatórios de informadores. Cerca de 80.000 pessoas por ano exercem este direito.

domingo, janeiro 11, 2026

Yuriy Kosach: sobrinho da Lesya Ukrainka e agente do KGB nos EUA

Yuriy Kosach foi um talentoso escritor ucraniano, que vivia nos EUA e também um agente do KGB. Sobrinho da poetisa ucraniana Lesya Ukrainka, um emigrante, um homem que passou por mudanças ideológicas notáveis ​​– de nacionalista à amigo da URSS na Diáspora, escreve o historiador ucraniano Eduard Andrusenko

Yuriy Kosach com esposa Daria e filho Yuriy nos EUA

Todos os que se interessam por Kosach, em princípio, supõem que terá colaborado com os serviços secretos soviéticos. No entanto, não foi possível encontrar nada específico nos ficheiros. No entanto, em 2025, o brilhante investigador ucraniano Roman Skakun (autor do livro sobre a liderança da Igreja Ortodoxa Russa ao serviço do MGB-KGB) encontrou um documento interessante num dos processos. Os KGBistas mencionam que o seu agente «Pasechnyk» (Apicultor), publicava uma revista chamada «Além do Oceano Azul».

«Além do Oceano Azul». 1º número, Set. 1959

Acontece que a revista literária pró-soviética «Além do Oceano Azul» era publicada em Nova Iorque por Yuriy Kosach. Portanto, ele era o agente «Pasechnyk». Recrutado em 1959 pelo residente do KGB em Nova Iorque, coronel Valentin Tsurkan, que desenvolvia as suas atividades nos EUA sob a cobertura legal do membro da delegação oficial da Ucrânia soviética na ONU. Acontece que o processo do agente ainda se encontra nos arquivos da secreta ucraniana externa, SZRU.

Yiri Kosach propõe ao KGB «combater a OUN-R de uma forma implacável»

KGB considera ataques aos outros grupos da emigração ucraniana, nomeadamente o
Conselho Supremo da Libertação da Ucrânia (UHVR) e aos católicos sejam «contraproducentes».



21.10.1960. Informe do KGB sobre agente «Pasechnik»

KGB produziu vários relatórios secretos e absolutamente secretos sobre Yuri Kosach e sobre a sua revista (agente «Pasechnik» recebia o dinheiro, em numerário, das mãos do Valentin Tsurkan).

 

A folha do KGB que regista a alocação dos fundos ao agente «Pasechnik».
A maior parte dos pagamentos em 1960-62 e apenas dois, em rublos, em 1971

Nos arquivos do SZRU podemos encontrar um relatório sobre o interrogatório de Kosach pelo FBI, fotos do agente tiradas nos EUA e na Ucrânia (incluíndo as chamadas «fotos operacionais», tiradas pelos agentes do KGB às escondidads de Kyiv), um CV de agente, uma lista de pagamentos em dinheiro, um recibo dos fundos recebidos, uma nota para o chefe do KGB da URSS, Shelepin.

Pedido ao chefe do KGB, camarada Shelepin, de atribuição de um
financiamento de 600 dólares mensais para a publicação da revista.

Foto do Yuriy Kosach na imprensa soviética

O historiador, jornalista e militar ucraniano no ativo, Vakhtang Kipiani, escreveu: “O homem com o pão na foto poderia tornar-se o herói de uma série televisiva. Trata-se de Yuriy Kosach, um escritor talentoso, sobrinho de Lesya Ukrainka. Na sua juventude, foi nacionalista; na década de 1940, já nos campos de refugiados na Alemanha, foi membro do “Movimento Artístico Ucraniano”. No início da década de 1950, algo mudou nele nos Estados Unidos, e foi praticamente o único daquela geração a tornar-se... um sovietófilo. Tinha recursos para publicar a revista “Além do Oceano Azul”. Os seus livros foram publicados na Ucrânia soviética. Era mimado [pelo regime comunista] com honorários generosos e grande destaque na imprensa [soviética]. O jornal «Visti z Ukrainy» (Notícias da Ucrânia), controlado diretamente pelo KGB e que cobria as relações com os compatriotas no estrangeiro, publicou a seguinte frase do escritor: “Estando na emigração e com uma família para sustentar, durante mais de 30 anos fui forçado a viver com o pão duro de um exilado”. Mas nunca regressou definitivamente à pátria. Dá para imaginar porquê».


Yuriy Kosach em Kyiv em 1971, fotos do KGB

Enquanto espiavam Yuriy Kosach em Kyiv em 1971 (ser um agente do KGB não significa estar livre da vigilância constante do KGB; nos seus relatórios foi lhe atribuído o nome do código «Ksash»), as câmaras de KGBistas apanharam a linguista ucraniana Zynoviia Franko (detida em 1972 e quebrada psicologicamente, pelo KGB, tornando-se a agente/informadora «Zina») e o tradutor ucraniano Mykola Lukash.

Zinovia Franko e Mykola Lukash, foto do KGB

Em geral, até os dias de hoje sobreviveram pouquíssimas «fotos operacionais» (fotos tiradas pelos agentes do KGB com uma câmara escondida) de ucranianos proeminentes, por isso cada descoberta deste tipo é única.

Confirmação da recepção dos 2.400 dólares em abril de 1961, cerca de 26.000 em 2026

Fontes documentais: Arquivo Estatal do SZRU; pesquisa: Eduard Andrusenko

Blogueiro: não se sabe, por enquanto, o que ditou o seu afastamento do KGB, no entanto, desde 1962-63 ele deixou de receber o subsídio soviético para publicação da sua revista. As suas publicações literárias na Ucrânia soviética eram muito raras e foram publicadas com tiragens limitadas. O escritor morreu, na relativa pobresa, no seu segundo casamento nos EUA no dia 11 de janeiro de 1990.

sábado, janeiro 10, 2026

«Projet Niños»: as crianças espanhóis vítimas do comunismo e da guerra fria

Foi publicado na Espanha o livro «Projet Niños» da jornalista Carol Diaz, que conta o difícil destino de crianças e adolescentes espanhóis evacuados para a URSS em 1937-1938, durante a Guerra Civil Espanhola. Embora devessem retornar para casa após o fim das hostilidades, sua saída da União Soviética foi proibida por quase duas décadas. Somente a intervenção dos Estados Unidos, que tinham um interesse especial, ajudou a resolver o problema, escreve DW.

«Projet Niños» também é o nome que a CIA deu à operação especial realizada na Espanha no final da década de 1950, com foco nas 'Crianças da Guerra'. Entre 1956 e 1960, 2.400 dos 3.000 adultos, que em crianças foram enviadas para a União Soviética duas décadas antes, foram repatriadas para a Espanha. Ao retornarem, foram submetidas aos interrogatórios pela Agência de Inteligência dos Estados Unidos. A CIA lançou a 'Operação Projet Niños' em Madrid. Os arquivos dessa operação, que permaneceram secretos por 30 anos, foram desclassificados em setembro de 1995 e formam a base da série documental do canal televisivo DMAX España.

Quantas crianças espanholas foram parar na URSS?

Durante a Guerra Civil, o governo da Frente Popular, que lutava contra o general Francisco Franco, evacuou cerca de 37.500 crianças fora do país. Segundo Maria Ángeles Ramírez, professora de história da Universidade de Madrid, a maioria dos jovens espanhóis foi levada para países da Europa Ocidental e para o México. 2.895 crianças (5.000 crianças e adolescentes pelos dados da CIA) foram levadas para a União Soviética. Em 1939, após o fim das hostilidades na Espanha, quase todas as crianças puderam retornar – com exceção daquelas que acabaram na URSS.

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As crianças não foram libertadas pela decisão das autoridades soviéticas e liderança do partido comunista espanhol, que havia se instalado em Moscovo/ou, continuou Ramirez. Isso apesar dos apelos dos pais para que voltassem para casa. No entanto, os apelos ao governo soviético, à comunidade internacional, à imprensa e à Cruz Vermelha não surtiram efeito. Os motivos da detenção, ou seja, do sequestro das crianças, segundo ela, não foram ocultados na URSS. Declararam que elas deveriam ser criadas como uma «força de ataque» na luta pelo «futuro brilhante» da Espanha.

Criando futuros combatentes

As crianças separadas de seus pais, como se depreende de suas numerosas memórias, coletadas na época pela autora deste artigo, foram criadas de acordo com os padrões soviéticos. Eles foram aceitos como jovens pioneiros [a organização comunista para as crianças] e, nas aulas, falavam sobre as vitórias do socialismo e os vícios do capitalismo, da Igreja e de outros «inimigos do proletariado mundial». As crianças aprendiam canções patrióticas soviéticas, marchavam em formação com uma bandeira ao som de tambores. Quando cresciam, recebiam passaportes soviéticos (cerca de 35% do número geral, de acordo com a CIA).

Enquanto isso, essas crianças tiveram que suportar todas as dificuldades da Segunda Guerra Mundial, assim como todos os habitantes da União Soviética. Os mais velhos foram para a frente de batalha ou trabalharam na retaguarda. Os mais novos, que viviam em orfanatos, sofriam com a fome e as doenças. Alguns roubavam, principalmente comida, para sobreviver e acabaram no GULAG. No total, durante os anos de guerra, quase 200 menores espanhóis foram condenados a penas de cinco a oito anos por delitos menores.

A ajuda veio dos americanos e do degelo soviético

Mais tarde, a partir de meados da década de 1950, a União Soviética pareceu deixar de se opor ao retorno dos espanhóis: o «degelo» de Khrushchev entrou em vigor. Mas as autoridades espanholas, como observa Karol Díaz em seu livro, não ficaram satisfeitas com isso. O líder espanhól Franco, que saiu vitorioso da guerra civil, temia que os repatriados se juntassem às fileiras da oposição de esquerda – trazendo para a Espanha, como ele dizia «o contágio bolchevique».

Aqui os americanos intervieram na história. Naquela época, eles tinham forte influência sobre Franco. Os americanos falaram sobre direito humanitário e pressionaram o ditador para permitir o retorno dos espanhóis. Enquanto isso, o interesse dos EUA no problema, como observado no «Projet Niños», não se explicava por considerações humanitárias.

Em 1957, um acordo foi assinado entre os governos soviético e espanhol sobre o retorno de crianças deportadas anteriormente à sua pátria. Naquele mesmo ano e nos dois anos seguintes, cerca de metade (entre 1956 e 1960, 2.400 crianças, das 3.000 enviadas para a União Soviética duas décadas antes, foram repatriadas para a Espanha) dos espanhóis retornou à Espanha. A outra metade permaneceu na URSS. Primeiro, a situação política da Espanha não era particularmente atraente para eles. Segundo, muitos já tinham empregos na URSS ou haviam constituído família nessa época.

Citando fontes espanholas e americanas, Karol Diaz afirma que todas as pessoas que retornaram à Espanha foram interrogadas – frequentemente várias vezes – por representantes dos serviços secretos espanhóis, em conjunto com a CIA. Durante esses interrogatórios, que duraram quatro anos, os americanos obtiveram mais de 2.000 gravações. Um documento secreto baseado nelas foi compilado em 1963 pelo analista sênior da CIA, Lawrence E. Rogers. Esse documento foi desclassificado em setembro de 1995.

O que interessava à CIA

A autora de «Projet Niños» afirma que os espanhóis que retornaram da URSS eram de grande interesse para a CIA. Muitos deles, tendo recebido educação superior, trabalhavam em diferentes cidades e em vários setores da economia, incluindo na indústria de defesa. Além disso, eles podiam saber a localização de unidades militares e tinham informações sobre a situação e o clima social na União Soviética.

Os resultados práticos da operação

Quanto aos serviços de inteligência espanhóis, eles estavam interessados no grau de confiabilidade dos recém-chegados, bem como em informações sobre aqueles que não haviam retornado. Em Madrid, as autoridades chegaram a criar um Departamento para Repatriados da URSS sob a liderança do Major Teodoro Palacios. Tanto os espanhóis, quanto os americanos, em particular, buscavam obter informações sobre espanhóis que serviam na inteligência soviética. Aparentemente eram vários. Os mais famosos eram a coronel do NKVD-KGB Africa de las Eras, que se infiltrou na América Latina, e Ramon Mercader, o assassino de Lev Trotsky.

Vítimas de políticos

Carol Díaz chama os heróis de sua história de «vítimas da época e da política insensata». Nem às esperanças dos comunistas, nem os temores de Franco se concretizaram: os filhos que cresceram e voltaram para casa não se tornaram disseminadores do contágio bolchevique na Espanha. A tragédia de muitos deles era que se sentiam «como estrangeiros tanto na URSS, quanto em sua terra natal», onde eram submetidos a interrogatórios e exigências para denunciar seus compatriotas emigrantes.

A historiadora María Ángeles Ramírez classificou a prática de «sequestrar e manter crianças à força como imoral, devastadora e completamente desesperançosa». Ela lembrou que uma «prática vergonhosa» semelhante ainda existe em alguns países africanos, onde crianças sequestradas são usadas como soldados, e na própria rússia, no decorrer da agressão contra Ucrânia.

Agentes do KGB entre os retornados

O canal televisivo espanhol, DMAX España, produziu uma série documental, dedicada ao ‘Projet Niños’.

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Num dos depoimentos, transmitidos pelo canal, o coronel reformado do KGB, Oleg Nechiporenko, responsável pelo controlo/e dos estrangeiros na URSS (era o agente do KGB que teve contactos diretos com Lee Harwey Oswald, o presumivel assassino do John Kennedy), relata na série as operações secretas da KGB, explicando como soviéticos infiltraram os seus agentes entre os espanhóis que retornaram da URSS. «Entre os espanhóis também estavam nossos agentes, aqueles que cooperavam com o KGB», revelou ele.

Agentes do GRU entre os descendentes de espanóis 

Os dois passaportes do agente do GRU russo González-Rubtsov

Não podemos se esquecer do caso do agente russo do GRU, González-Rubtsov, que nasceu em Moscovo em 1982 numa família de imigrantes espanhóis. O seu avô, Andres González Yagüe, foi levado à URSS ainda criança, salvando-se da guerra civil espanhóla. A filha de Andres, María Elena González, casou com o cientista soviético Alexei Rubtsov; chamaram o seu filho de Pavel. “Estas famílias sempre estiveram no campo de visão da inteligência soviética e russa, eram seguidas”, explica a investigadora de inteligência e editora-chefe adjunta da página russa Agentura.ru Irina Borogan. “Porque eles, pela sua origem, falam línguas e têm parentes no estrangeiro e, por isso, são perfeitos para o recrutamento.”

quinta-feira, janeiro 08, 2026

Morreu traidor Aldrich Ames, ex-agente da CIA, que passou 32 anos na prisão


Aldrich Ames, ex-agente da CIA condenado à prisão perpétua por espionagem para Moscovo/ou, faleceu na prisão, passando lá 32 anos. Sua traição levou à morte de, no mínimo, 10 agentes americanos (entre eles um general e vários coronéis do GRU e do KGB), executados na URSS.

Aldrich Ames, ex-agente da CIA que atuou como agente para Moscovo/ou, morreu em uma penitenciária federal em Maryland. Ames tinha 84 anos. O Washington Post noticiou sua morte, citando o banco de dados de prisioneiros do Departamento Federal de Prisões.

Ames sob o nomes de código de “Alexander” e “Kolokol” (Sino) trabalhou para a inteligência soviética e, posteriormente, russa, de 1985 a 1994. Em juízo, ele admitiu ter fornecido à KGB os nomes de «praticamente todos os agentes da CIA e outros agentes americanos e do serviço exterior [na URSS] que eu conhecia», bem como «uma vasta quantidade de informações sobre política externa, defesa e segurança dos EUA». Por isso, Ames recebeu mais de um milhão de dólares (outros dados apontam de até 4,6 milões de dólares) em dinheiro e lhe foi prometido pelo menos mais um milhão de dólares e imóveis na rússia. Entre os agentes da CIA, que Ames entregou ao KGB e que foram executados estava o major-general do GRU Dimitri Polyakov e tenente-coronel Valery Martinov, o agente do KGB nos EUA, disfarçado do Adido Cultural da Embaixada soviética em Washington. Engraçado, que o neto do Martynov, Edward Coristine (2005), o famoso Big Balls, é um desenvolvedor de software, que ganhou a notoriedade em 2025 após ser nomeado para o Departamento de Eficácia Governamental (DOGE), comandado por Elon Mask.

O Washington Post relata que, quando Ames foi capturado, sua espionagem havia levado à morte de pelo menos 10 agentes e constituía o vazamento mais grave da história da CIA. Ames alegou que cooperou com a KGB não por considerações ideológicas (ele chamou o sistema soviético de «regime brutal e desumano»), mas por dificuldades financeiras.

Ames foi preso em fevereiro de 1994. Um dos principais fatores que levaram à sua exposição foram seus gastos exorbitantes. Na primavera de 1994, Ames foi condenado à prisão perpétua. Enquanto estava na prisão, ele processou o Serviço de Receita Federal (IRS), que exigia o pagamento de impostos atrasados sobre mais de um milhão de dólares que ele havia recebido por espionagem para Moscou. Amer perdeu o caso.

Entre as razões da sua descoberta foi o alto número dos oficiais do KGB – agentes da CIA, que foram executados na URSS em 1986-1988, além dos gastos financeiros, muito acima da média, praticados pelo Ames e pela sua esposa, a colombiana Maria del Rosario Casas Dupuy. Aparentemente, Maria Dupuy sofria de algum tipo de distúrbio mental, sendo compradora compulsiva.

Maria del Rosario Casas Dupuy, abandona o tribunal após Ames ter recebido
uma pena de prisão perpétua, Washington DC, 28 de Abril de 1994.
(Fotografia de Larry Downing/Sygma/Sygma via Getty Images)

Juntamente com Ames foi presa a sua esposa, Maria del Rosario Casas Dupuy, a 2ª secretária da Embaixada da Colômbia no México e também agente/informadora da CIA. Apos servir 5 anos na cadeia americana, ela foi expulsa para Colombia.