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segunda-feira, junho 15, 2020

Russo que lutou pela Ucrânia independente até a morte

Em maio de 1948 o MGB da Ucrânia Soviética prendeu em Kyiv os 15 membros da resistência anti-comunista de Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN), liderados pelo russo étnico, Ihor Pronkin “Berkut”, que apesar de tortura se recusou colaborar com autoridades soviéticas.
Ihor Pronkin, 1929-1953
Ihor Pronkin “Berkut” nasceu em 1929 na cidade russa de Kazan, na Ucrânia ele estudava física na Universidade de Kyiv, ao mesmo tempo liderava a rede da resistência de OUN na capital ucraniana, que se dedicava às ações de inteligência e propaganda,  preparando-se para ações de luta armada contra autoridades de ocupação soviéticas, representantes do partido comunista, do MGB e do ministério de interior.

Ihor Pronkin foi condenado aos 25 anos de GULAG, onde morreu em 1953 durante a revolta de Norilsk
Yuriy Hayduk, nasceu em 1928, sentenciado aos 25 anos de GULAG
Ivan Velyhurskiy, nasceu em 1930, sentenciado aos 25 anos de GULAG
Petro Bendyuk, nasceu em 1929, sentenciado aos 25 anos de GULAG
Hryhoriy Hovdyo, nasceu em 1928, sentenciado aos 25 anos de GULAG
Recorda o veterano do KGB soviético Albert Dichenko:
Ihor Denysenko, nasceu em 1930-2007, sentenciado aos 25 anos de GULAG
Hryhoriy Pidoplichko, nasceu em 1927, sentenciado aos 10 anos de GULAG
Oleksiy Hordiychuk, nasceu em 1928, sentenciado aos 25 anos de GULAG
Emiliy Khomenko, nasceu em 1928, sentenciado aos 10 anos de GULAG
“...Nessa altura, terminaram as ações do seguimento de dois casos de acompanhamento secreto de grupos – “Krai” e “Grachi” – sob os quais eram seguidos os membros da rede municipal da OUN de Kyiv. Nota-se que essa organização clandestina na própria capital [da Ucrânia] operou até 1949, e isso apesar da enorme concentração de unidades de contra-inteligência.

Interessante que organização foi liderada por um aluno do Instituto de Educação Física, da etnicidade russa, Ihor Pronkin. Ele foi capturado de forma simples – foi decifrado o emissário que chegou com as instruções e, quando ele chegou, foram detidos juntos.

[...]
Anatoliy Marchenko, nasceu em 1927, sentenciado aos 10 anos de GULAG
Natália Deyneko, nasceu em 1929, sentenciada aos 5 anos de GULAG
Lyudmyla Marchenko, nasceu em 1928, sentenciada aos 5 anos de GULAG
Literatura, armas e objetos pertencentes à rede da OUN de Kyiv
E o que é interessante, apesar dos métodos específicos de conduzir a investigação [uso da tortura], ele não disse nada, exceto: “Sim, sou o chefe da rede da OUN na cidade de Kyiv. E não vou vos contar mais nada. Além disso, ele disse: “Enquanto eu estiver vivo e por quanto tempo vou viver – lutarei por uma Ucrânia independente”.

Então ele, me parece que foi sentenciado aos vinte anos. Depois houve uma poderosa revolta em Norilsk e muitas pessoas morreram lá. Tanques a esmagaram. Naturalmente, a revolta foi liderada pelo ramo da OUN-Norte, que operou em Norilsk (ou melhor, em três grandes campos do norte – Inta, Vorkuta, Norilsk) por vários anos. Vejam o nível de conspiração.
Processo do MGB número 149064
E Ihor Pronkin também entrou na liderança dessa rede. E quando a revolta foi esmagada, ele foi mortalmente ferido por um estilhaço de um obus do blindado...”

Ler mais sobre este caso em ucraniano.

quarta-feira, agosto 21, 2019

Chornobyl: o desastre nuclear aos olhos do Politburo, do KGB e da CIA – 1ª parte

Documentos desclassificados detalham reações de alto nível, encobrimentos e críticas. Fontes incluem notas do Politburo, diários, protocolos nunca antes traduzidos ao inglês. Livro de Instruções Eletrónicas do Arquivo de Segurança Nacional (EUA) № 681.

Documentos dos escalões mais altos da União Soviética, incluindo notas, protocolos e diários das sessões do Politburo logo após o desastre nuclear de Chornobyl, em 1986, detalham uma sequência de encobrimentos, revelações, choques, mobilização, bravura individual e batalhas burocráticas da reação soviética, de acordo com o e-book “Top Secret Chernobyl” publicado pelo National Security Archive.

As principais fontes incluem protocolos do Grupo Operacional do Politburo sobre Chornobyl que foram publicados em russo pelo jornalista e ex-deputada do Soviete Supremo da URSS Alla Yaroshinskaya em 1992. A postagem começa com o ensaio de Yaroshinskaya (escrito exclusivamente para esta publicação) revendo a história de Chornobyl e os seus próprios esforços que datam de 1986 para documentar e expor as mentiras e o sigilo que cercou o desastre.

Também estão incluídos trechos do diário do membro do Politburo Vitaly Vorotnikov, notas sobre as sessões do Politburo por Anatoly Chernyaev, e trechos de raras “cópias oficiais de trabalho” das sessões do Politburo publicadas em russo pelo ex-diretor RosArchiv (Arquivo russo) Rudolf Pikhoia em 2000. A publicação também contém reações desclassificadas do departamento de inteligência do Departamento de Estado dos EUA, da CIA e do Jack Matlock do Conselho de Segurança Nacional, além de relatos do KGB da Ucrânia Soviética.

Consultar o arquivo.

quarta-feira, julho 24, 2019

O dia em que a bandeira nacional da Ucrânia foi erguida em Kyiv

No dia 24 de julho de 1990, pela primeira vez e oficialmente, após 70 anos de ocupação comunista, na capital da Ucrânia foi erguida a bandeira ucraniana azul-amarela. 13 meses antes da proclamação da Independência da Ucrânia em 24 de agosto de 1991.

Kyiv não foi a primeira cidade ucraniana que ergueu a bandeira nacional. Primeira bandeira foi erguida em Lviv, sobre o edifício histórico da Ratusha, no dia 3 de abril de 1990. As bandeiras da Ucrânia também foram erguidas em edifícios municipais de algumas cidades da Ucrânia Ocidental e Central: Striy, Ivano-Frankivsk, Zhytomyr.
Bandeira nacional em Lviv, praça Rynok, 2/04/1990
A câmara municipal de Kyiv era composta por 300 deputados, efetivamente eleitos foram 291, em 9 circunscrições não houve as eleições, também havia deputados que ao mesmo tempo foram eleitos ao Parlamento da Ucrânia, etc. No verão de 1990 o município de Kyiv realmente contava como cerca de 270 deputados: 110 pertenciam ao Bloco Democrático, 130 – ao bloco comunista, chamado de “Bloco dos comunistas e dos sem-partido” e 30 deputados criaram o Centro Democrático.
Bandeira nacional da Ucrânia nas ruas de Kyiv, atual Maydan, 24/07/1990
Foto: nazarenko.ucoz.ua
No dia 24 de julho de 1990 começou a reunião da liderança do município de Kyiv. O comité municipal do partido comunista da Ucrânia estava categoricamente contra a votação e aprovação da bandeira nacional da Ucrânia. O comité do PC até organizou naquele dia uma greve fake dos condutores dos troleicarros, tudo para interromper a secção e impedir a decisão sobre a bandeira.  
Bandeira nacional da Ucrânia em Catedral de Santa Sofia, 24/07/1990
Foto: nazarenko.ucoz.ua
Neste mesmo tempo, a bandeira nacional da Ucrânia, trazida clandestinamente de Lviv recebia a bênção no complexo de Santa Sofia, conjuntamente pelos sacerdotes da Igreja Ortodoxa Autocefálica da Ucrânia e pela Igreja Greco-Católica da Ucrânia.  
Bandeira nacional da Ucrânia nas ruas de Kyiv, 24/07/1990
Milhares de ucranianos acompanharam a bandeira, alguns eram vestidos de cossacos. [A própria bandeira erguida em Kyiv foi trazida de Lviv pelo Orest Karelin (1950), entusiasta da heráldica ucraniana, injustamente esquecido e ignorado por ser um monárquico e um sonhador acima da média. Mas as fotos testemunham, Orest está em quase todas as fotos da bandeira nacional erguida em Kyiv, amarrado à ela, e com uma cruz nas sua mãos].
Bandeira nacional da Ucrânia nas ruas de Kyiv, 24/07/1990Orest Karelin, no centro, único com a camisa bordada
Foto: nazarenko.ucoz.ua
O deputado-jurista Mykola Hrabar, funcionário da Procuradoria de Kyiv, fez a proposta original: “tomar a decisão protocolar”. Isso é, decisão que não precisava de ter quórum, nem de ser votada no plenário.
Foto: nazarenko.ucoz.ua
A decisão de erguer a bandeira ucraniana foi tomada imediatamente, e a bandeira foi erguida no mastro do Município de Kyiv, sobre a rus Khreschatyk. O coro Leopold Yaschenko começou a cantar o hino nacional da Ucrânia e o hino ucraniano religioso “Deus Grande, nos protege Ucrânia”:
Três semanas depois, já no dia 4 de setembro, foi votada a decisão oficial da Câmara Municipal de Kyiv, chamada “Sobre a legalização dos símbolos nacionais no território da cidade de Kyiv”. A decisão recebeu até o voto favorável de um único comunista: Mykola Nesterenko.
Bandeira nacional da Ucrânia erguida sobre avenida Khreshatyk em Kyiv, 24/07/1990
Faltavam 13 meses até a proclamação da Independência da Ucrânia, qua adoptou a bandeira ucraniana azul-amarela como a bandeira oficial do país recém-independente. Embora ainda antes do dia 24/08/1991, a bandeira azul-amarela foi votada favoravelmente e erguida em pelo menos dois conselhos distritais de Kyiv.
Bandeira nacional da Ucrânia erguida sobre avenida Khreshatyk em Kyiv, 24/07/1990
Foto: nazarenko.ucoz.ua
Nos próximos 13 meses, a bandeira sobre Khreschatyk tornou-se um local de peregrinação. Os recém-casados, anteriormente, no dia do casamento colocavam as flores junto ao monumento do Lenine, agora colocavam as flores junto à bandeira ucraniana. Era um lugar de adoração, um pequeno pedaço da Ucrânia independente na sua própria capital.

Como na ciência militar, os ucranianos naquele dia conseguiram assegurar um pequeno ponto avançado, personificado pela bandeira, erguida em 24 de julho de 1990, junto ao Conselho Municipal de Kyiv.

Depois disso, a bandeira ucraniana, foi de fa(c)to, legalizada em Kyiv. Cessaram quaisquer represálias da polícia e do KGB contra a bandeira ucraniana e dos seus portadores, porque a bandeira já pairava sobre as autoridades em Kyiv. À partir daquele momento, em todos os jogos de futebol do Dynamo Kyiv, o Estádio Republicano estava cheio de bandeiras azul-amarelas. Algo que nunca aconteceu antes.

terça-feira, julho 09, 2019

Como União Soviética ocultava os casos do terror político

O ato terrorista mais famoso da URSS ocorreu em 8 de janeiro de 1977 — uma série de explosões bombistas em Moscovo matou 7 e feriu 37 pessoas. Os três alegados responsáveis foram fuzilados e os materiais do caso estão sob segredo da justiça russa até hoje.

Como tudo ocorreu?

A primeira explosão atingiu a carruagem de metro/ô de Moscovo. O explosivo foi colocado numa panela especial de metal pesado, aparafusada e soldada – como resultado da explosão 7 passageiros do metro/ô foram mortos e 37 feridos.
A 1ª explosão no metro/ô | arquivo
A segunda explosão ocorreu 32 minutos após a primeira – uma bomba explodiu numa mercearia na atual rua Bolshaya Lubyanka. Ninguém ficou ferido na explosão. A terceira bomba explodiu cinco minutos depois da segunda – o dispositivo estava escondido numa lata de lixo, junto à uma mercearia da atual rua Nikolskaya. Nesta explosão, também, ninguém morreu – a forte urna de ferro fundido resistiu à explosão, e a onda de choque se dirigiu ao alto.
A 2ª explosão na mercearia | arquivo
KGB e polícia soviética começaram as buscas pelos responsáveis. Na cidade russa de Tambov foi interrogado o suspeito inicial cidadão Potapov, preso após detonar uma bomba que matou a esposa e duas filhas do vizinho. Potapov rapidamente confessou que também estava por trás dos atos terroristas em Moscovo. No entanto, rapidamente se percebeu que isso foi uma confissão forçada e, após a investigação formal que durou um mês, o caso foi abandonado pelo KGB.

Informação ocultada ao público

Quase imediatamente, todas as informações sobre os ataques foram classificadas – nenhum jornal ou programa de televisão soviético falaram sobre o que estava acontecendo. Mas os rumores terríveis estavam rastejando pelo Moscovo, as pessoas nas filas das compras estavam cochichando sobre o que tinha acontecido, era simplesmente impossível esconder mais a informação.

Como no caso de Chornobyl – as informações sobre a tragédia foram divulgadas 48 horas depois, passadas pela censura do KGB. No dia 10 de janeiro, a agência soviética TASS divulgou a nota que dizia que em 8 de janeiro, ocorreu “uma pequena explosão no metro/ô de Moscovo, todas as vítimas foram socorridas”. A informação ocultava o número de vítimas e que a explosão foi um ato terrorista.

Os materiais completos deste caso ainda estão classificados pela justiça russa.

O que aconteceu na realidade?

As buscas pelos responsáveis foram infrutíferas – mas por sorte, cerca de 10 meses depois – também em Moscovo, foi achada uma outra bomba que levou KGB aos terroristas. Eram três arménios étnicos – Hakob Stepanyan, Zaven Baghdasaryan e Stepan Zatikyan – este último foi tido como líder do grupo. Após um julgamento secreto e fechado ao público, em 24 de janeiro de 1979 os réus foram considerados culpados pelo tribunal e sentenciados à pena capital – execução. Em 30 de janeiro, o Presidium do Soviete Supremo da URSS rejeitou a sua petição de clemência, e no mesmo dia eles foram executados. A única informação oficial sobre o julgamento e sobre o veredicto foi uma breve nota no jornal soviético “Izvestia” em 31 de janeiro de 1979, onde apenas se mencionava o apelido/sobrenome e as iniciais do Stepan Zatikyan.
Stepanyan (1947-1977) e Baghdasaryan (1954-1977) após a detenção
Segundo a versão oficial da acusação – os três pertenciam ao clandestino “Partido da Unidade Nacional da Arménia” (NOP) e tinham como objetivo criar Arménia independente, separada da URSS. Essa versão possui uma série de inconsistências, apontados pelo académico e dissidente soviético Andrey Sakharov – NOP não tinha terror nos seus princípios, os terroristas não divulgaram nenhumas reivindicações após as explosões, as ações semelhantes não aconteceram antes e não se repetiram depois.
O líder Stepan Zatikyan (1946-1979) após a detenção
Na versão não oficial – as ações foram iniciadas pelos serviços secretos soviéticos (KGB), para iniciar a onda de terror contra os dissidentes – e apenas a divulgação pública do caso (incluindo através do Andrey Sakharov) impediu de fazê-lo. A versão de provocação do KGB é apoiada pelo facto do que o jornalista soviético Victor Louis (informador e conhecido agente-provocador do KGB), imediatamente após o ataque, lançou na imprensa britânica a acusação genérica contra os “dissidentes”, pelo seu alegado envolvimento nos atentados – como se preparando a opinião pública ocidental ao ataque contra o movimento dissidente na URSS.

[O fundador e um dos líderes do Partido Neocomunista da União Soviética, Alexander Tarasov relata nas suas memórias que quatro meses após as explosões ele foi detido [pelo KGB] por suspeita da sua organização e libertado somente depois de provar “por trezentos por cento” o seu álibi (ele estava no hospital durante o ataque terrorista).

O coronel da 1ª Direcção/Diretoria do KGB Oleg Gordievsky, que fugiu para o Ocidente, é da opinião de que os três arménios foram escolhidos, neste caso, como bodes expiatórios. O dissidente soviético Sergei Grigoryants afirma que as explosões foram realizadas pelo grupo Alfa do KGB sob as instruções de Yuri Andropov e Filip Bobkov (o chefe da 5ª Direção/Diretoria “ideológica” do KGB)].

Em jeito de epílogo

Qualquer ataque terrorista é terrível, mas pior ainda quando o Estado esconde de seus cidadãos a verdade sobre o que realmente está acontecendo – não informa sobre o desastre de Chornobyl ou sobre os ataques terroristas ocorridos em Moscovo em 1977. Os cidadãos possuem uma imagem bastante distorcida do que realmente está acontecendo – é assim que nascem os mitos sobre “a vida soviética calma e pacífica na companhia do melhor sorvete do mundo – o soviético”.

Após o fim da URSS, as pessoas perceberam que esse era um beco sem saída – e nas Constituições da maioria dos países pós-soviéticos foram colocadas as normas do que ninguém tem o direito de esconder dos cidadãos a verdade sobre desastres ambientais ou naturais, ataques terroristas ou outros incidentes semelhantes – todos e cada um tem o direito de receber e divulgar livremente essas informações.
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No entanto, nos últimos anos, aqui e ali, mais uma vez houve o “retorno à espiritualidade tradicional”, que pode ser traduzido da seguinte forma – o Estado novamente quer se engajar em negócios obscuros, ocultando, aos cidadãos, todas as informações sobre acidentes e incidentes...

Fotos: arquivo | Texto: Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]

domingo, junho 23, 2019

Oleg Gordievsky. O espião britânico que era agente do KGB e evitou uma paranoia nuclear

“O Espião e o Traidor” é o livro de Ben Macintyre que conta a história de Oleg Gordievsky, o agente secreto soviético que passava informação para o MI6. O Observador faz a pré-publicação do livro.

Não é caso único na história, mas é um dos mais importantes da Guerra Fria. Oleg Antonyevich Gordievsky era coronel do KGB, os serviços secretos soviéticos. Um agente exemplar, com missões cumpridas um pouco por todo o mundo e promovido a chefe da estação de Londres. Mas apesar de ser um veterano cumpridor das vontades soviéticas, Gordievsky era, ao mesmo tempo, um espião ao serviço do Reino Unido. E é a história de Oleg que Ben Macintyre recorda no livro “O Espião e o Traidor”.

O Observador faz a pré-publicação, revelando parte do capítulo em que o autor recorda como um exercício de prevenção a um ataque nuclear poderia ter terminado da pior maneira. Foi Gordievsky o responsável pela troca de informação que mudou o que muitos chegaram a temer como inevitável.
“O Espião e o Traidor”, de Ben Macintyre (D. Quixote; à venda dia 25 de junho)
Ben Macintyre é autor de livros como “Jogo Duplo” ou “Agente Zig Zag”, é colunista e editor associado no jornal britânico The Times, do qual foi correspondente em Nova Iorque, Paris e Washington.

A “Dama de Ferro” tinha desenvolvido um fraquinho pelo seu espião soviético

Margaret Thatcher nunca conhecera Oleg Gordievsky. Não sabia o seu nome e referia-se a ele, de forma inexplicável e insistente, como “Mr. Collins”. Sabia que ele espiava a partir da embaixada soviética, preocupava-se com a tensão pessoal a que era sujeito e estava convencida de que ele poderia “dar o salto a qualquer momento” e desertar. A primeira-ministra insistia que, se isso acontecesse, ele e a família deveriam receber o melhor tratamento possível. Viria a dizer que o agente soviético não era um simples “fornecedor de informações secretas”, mas uma figura heroica e semi-imaginada, a trabalhar em prol da liberdade em condições de extremo perigo. Os relatórios que ele produzia eram trazidos pelo seu secretário particular, numerados e rotulados “ultrassecreto e pessoal” e “apenas para o RU”, o que significava que não seriam partilhados com outros países. A primeira-ministra consumia-os avidamente: “Lia, palavra por palavra, tomava notas, fazia perguntas e os documentos voltavam com as suas anotações, sublinhados, pontos de exclamação e comentários.” Nas palavras do seu biógrafo, Charles Moore, Thatcher “não estava imune a entusiasmar-se com o secretismo e com o romantismo da espionagem”, mas também sabia que o russo fornecia informações políticas verdadeiramente preciosas: “As comunicações de Gordievsky […] mostravam-lhe, como nenhumas outras, como o comando soviético reagia ao fenómeno ocidental e, na verdade, a ela.” O espião abriu uma janela para o pensamento do Kremlin, para a qual ela espreitava com fascínio e gratidão. “É provável que nenhum primeiro-ministro alguma vez tenha seguido o caso de um agente britânico com tanta atenção como a senhora Thatcher dedicou a Gordievsky.”

Enquanto as agências de informações britânicas andavam à procura de Koba, o KGB trabalhava com afinco para garantir que Thatcher perdia as eleições de 1983. Aos olhos do Kremlin, Thatcher era a “Dama de Ferro” – uma alcunha que pretendia ser um insulto do jornal militar soviético que a criou, mas que ela adorou – e o KGB estava a organizar “medidas ativas” para a debilitar desde que ela chegara ao poder, em 1979, fazendo inclusive uso do expediente de colocar artigos negativos nas mãos de jornalistas de esquerda solidários com a causa soviética. O KGB ainda tinha contactos na esquerda e Moscovo mantinha a ilusão de que conseguiria influenciar as eleições a favor do Partido Trabalhista, cujo líder continuava listado nos ficheiros do KGB como um “contacto confidencial”. Num intrigante prenúncio dos tempos modernos, Moscovo preparava-se para usar truques sujos e interferência oculta para mudar umas eleições democráticas a favor do candidato da sua preferência.

Se o Partido Trabalhista vencesse, Gordievsky estaria numa posição verdadeiramente bizarra: passar segredos do KGB a um governo cujo primeiro-ministro já recebera dinheiro do KGB. A encarnação anterior de Michael Foot como Agente BOOT manteve-se um segredo muito bem guardado; os esforços do KGB para mudar o resultado das eleições não tiveram qualquer impacto, e, no dia 9 de junho, Margaret Thatcher obteve uma vitória esmagadora, reforçada pela vitória nas Malvinas no ano anterior. Com um novo mandato e equipada em segredo com o conhecimento que Gordievsky possuía da psicologia do Kremlin, Thatcher concentrou-se na Guerra Fria. E o que viu foi profundamente alarmante.

No segundo semestre de 1983, o Leste e o Ocidente pareciam estar a dirigir-se para um conflito armado e talvez terminal, impulsionado por uma “combinação potencialmente letal de retórica reaganiana e paranoia soviética”. Num discurso no Parlamento britânico, o presidente americano prometeu “deixar o marxismo-leninismo na pilha de cinzas da história”. O reforço das forças armadas norte-americanas continuava a bom ritmo, acompanhado por uma série de operações psicológicas, entre as quais se contavam penetrações no espaço aéreo soviético e operações navais clandestinas que demonstravam como a NATO podia aproximar-se das bases militares soviéticas. Estas operações destinavam-se a provocar ansiedade à URSS, e conseguiram: o programa RYAN intensificou-se e as estações do KGB foram bombardeadas com ordens para encontrar provas de que os Estados Unidos e a NATO estavam a preparar um ataque nuclear surpresa. Em agosto, um telegrama pessoal do diretor do Primeiro Diretório Principal (mais tarde diretor do KGB), Vladimir Kryuchkov, dava instruções às rezidenturas para monitorizarem os preparativos da guerra, como a “infiltração secreta de equipas de sabotagem com armas nucleares, bacteriológicas e químicas” na União Soviética. As estações do KGB que relatavam atividades suspeitas eram elogiadas; as que não o faziam eram fortemente criticadas, e mandavam-nas fazer melhor. Guk foi obrigado a admitir “falhas” nos seus esforços para descobrir “planos específicos dos Estados Unidos e da NATO para a preparação de um ataque surpresa contra a URSS”. Gordievsky menosprezou a Operação RYAN como “ridícula”, mas os seus relatórios para o MI6 não deixavam espaço para dúvida: o comando soviético estava com medo, preparado para o combate e em pânico o suficiente para acreditar que a sua sobrevivência podia depender de uma ação preventiva, uma situação que piorou muito na sequência de um trágico acidente no mar do Japão.
Ronald Reagan e Oleg Gordievsky na Casa Branca
Às primeiras horas de 1 de setembro de 1983, um avião de interceção abateu um Boeing 747 de voo KAL007 da Korean Air Lines que se tinha desviado para espaço aéreo soviético, matando todos os 269 passageiros e a tripulação. O abate do voo 007 da KAL fez as relações entre o Leste e o Ocidente mergulharem num nível ainda mais perigoso. Moscovo começou por negar qualquer papel no abate do aparelho, mas posteriormente alegaria que o avião comercial era um avião espião que violara o espaço aéreo soviético numa provocação deliberada dos Estados Unidos. Ronald Reagan condenou o “massacre do avião coreano” como um “ato de barbárie […] [e] desumana brutalidade”, intensificando a revolta interna e internacional e entregando-se ao que um funcionário americano chamaria mais tarde “a alegria da mais profunda arrogância”. O Congresso aprovou um novo aumento do orçamento da defesa. Por sua vez, Moscovo interpretou a fúria do Ocidente com o que acontecera ao 007 da KAL como uma histeria moral fabricada no prelúdio de um ataque. Em vez de um pedido de desculpas, o Kremlin acusou a CIA de um “ato criminoso e provocador”. Uma grande quantidade de telegramas muito urgentes chegou à estação do KGB de Londres com instruções para proteger os bens e cidadãos soviéticos contra um possível ataque, culpar a América e reunir informações para reforçar as teorias da conspiração de Moscovo. Mais tarde, a estação do KGB de Londres seria elogiada pelo Centro pelos seus “esforços para neutralizar a campanha antissoviética no caso do avião da Coreia do Sul”. Em sofrimento e acamado devido ao que seria a sua doença final, Andropov atacou violentamente o que considerou a “ultrajante psicose militarista” da América. Gordievsky trouxe os telegramas da embaixada e passou-os ao MI6.

O abate do voo 007 da KAL deveu-se a básica incompetência humana dos dois pilotos, um coreano e um soviético. Porém, os relatos de Gordievsky ao MI6 mostravam claramente como, sob a pressão da tensão cada vez maior e da incompreensão mútua, uma simples tragédia tinha sido exacerbada para tomar proporções de uma situação política extraordinariamente perigosa.

Esta atmosfera de feroz desconfiança, incompreensão e agressão foi agravada por um acontecimento que levou a Guerra Fria à beira de uma guerra real.

“ABLE ARCHER 83” foi o nome de código de manobras militares da NATO, que decorreram entre 2 e 11 de novembro de 1983 e se destinavam a simular a escalada de um conflito que culminaria num ataque nuclear. Este tipo de ensaio geral militar fora realizado muitas vezes no passado pelos dois lados. ABLE ARCHER envolveu 40 mil tropas norte-americanas e de outros países da NATO e da Europa Ocidental e foi lançado e coordenado através de comunicações encriptadas. O exercício de treino criado pelo posto de comando imaginava uma situação em que as Forças Azuis (NATO) defendiam os seus aliados depois de as Forças Cor de Laranja (países do Pacto de Varsóvia) enviarem tropas para a Jugoslávia, antes de invadirem a Finlândia, a Noruega e, por fim, a Grécia. À medida que o conflito simulado se intensificava, uma guerra convencional pareceria escalar para uma guerra com armas químicas e nucleares, permitindo que a NATO treinasse os procedimentos de lançamentos nucleares. Não foram usadas armas reais. Era uma simulação, porém, na atmosfera febril que se seguiu ao incidente com o voo 007, os alarmistas do Kremlin viram uma coisa muito mais sinistra: um estratagema destinado a camuflar os preparativos para a guerra a sério, que seria um ataque nuclear do tipo que Andropov previa, e que a Operação RYAN procurava, há mais de três anos. A NATO começou a simular um realista ataque nuclear no preciso momento em que o KGB tentava detetar um. Diversas características sem precedentes do ABLE ARCHER reforçaram a desconfiança soviética de que aquelas manobras eram mais do que um treino: um grande fluxo de comunicações secretas entre os Estados Unidos e o Reino Unido um mês antes (na verdade, uma reação à invasão de Granada pelos Estados Unidos); a participação inicial de líderes ocidentais; e diferentes padrões de movimentos de pessoas nas bases norte-americanas na Europa. O secretário do Governo, Sir Robert Armstrong, informaria mais tarde a primeira-ministra Thatcher que os soviéticos tinham reagido com profundo alarme porque o exercício “decorreu durante um importante feriado soviético [e] tinha a forma de atividade e alertas militares reais, não apenas manobras”.

No dia 5 de novembro, a rezidentura de Londres recebeu um telegrama do Centro a avisar que, quando os Estados Unidos e a NATO decidissem iniciar um ataque, os seus mísseis seriam lançados nos sete a dez dias seguintes. Guk recebeu ordens para efetuar vigilância urgente no sentido de detetar qualquer “atividade invulgar” em locais-chave: bases nucleares, centros de comunicações, bunkers do governo e, acima de tudo, no número 10 de Downing Street, onde os funcionários estariam a trabalhar freneticamente para se prepararem para a guerra, “sem informar a imprensa”. Numa ordem que diz muito acerca das suas prioridades, o KGB deu instruções aos funcionários para monitorizarem indícios de que membros “da elite política, económica e militar” estavam a evacuar as suas famílias de Londres.

O telegrama, mostrado ao MI6 por Gordievsky, foi o primeiro sinal recebido pelo Ocidente de que os soviéticos estavam a reagir às manobras militares de uma forma invulgar e profundamente alarmante. Dois (ou talvez três) dias mais tarde, um segundo telegrama foi enviado para as rezidenturas do KGB a comunicar, erradamente, que as bases americanas tinham sido colocadas em alerta. O Centro ofereceu diversas explicações, “uma das quais foi que a contagem decrescente para um ataque nuclear começara a coberto do ABLE ARCHER”. (Na verdade, as bases estavam apenas a reforçar a segurança na sequência do ataque terrorista aos funcionários da embaixada americana em Beirute.) As informações de Gordievsky chegaram demasiado tarde para o Ocidente parar o exercício militar. Nesta altura, a União Soviética tinha começado a preparar o seu arsenal nuclear: aviões na Alemanha Oriental e na Polónia foram equipados com ogivas nucleares, o nível de alerta para cerca de 70 mísseis SS-20 apontados para a Europa Ocidental foi aumentado e submarinos soviéticos com mísseis balísticos nucleares foram lançados sob o gelo do Ártico para evitar a deteção. A CIA comunicou atividade militar nos estados do Báltico e na Checoslováquia. Alguns analistas acreditam que a União Soviética preparou os seus silos de mísseis balísticos intercontinentais para serem lançados, mas no último momento optou por não o fazer.

No dia 11 de novembro, ABLE ARCHER foi concluído na data prevista, os dois lados baixaram lentamente as armas e um aterrador impasse mexicano, desnecessário e que passou despercebido do grande público, chegou ao fim.

Os historiadores não estão de acordo em relação a como o mundo esteve perto de uma guerra. A história autorizada do MI5 descreve ABLE ARCHER como “o momento mais perigoso desde a Crise dos Mísseis de Cuba de 1962”. Outros alegam que Moscovo soube sempre que se tratava de um exercício e que os preparativos soviéticos para uma guerra nuclear foram apenas uma habitual intimidação. O próprio Gordievsky estava calmo: “Pareceu-me que era mais um perturbador reflexo da paranoia crescente de Moscovo e que, na ausência de outros indicadores, não era um motivo para preocupação urgente.”

Porém, no Governo britânico as pessoas que liam os relatórios de Gordievsky e o fluxo de telegramas de Moscovo acreditavam que uma catástrofe militar tinha sido evitada por um triz. Nas palavras de Geoffrey Howe, o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico: “Gordievsky deixou-nos convencidos do extraordinário, mas genuíno, medo russo de um ataque nuclear real. A NATO mudou de forma deliberada alguns aspetos das manobras militares para que os soviéticos não tivessem dúvidas de que era apenas um exercício.” A verdade é que, ao afastar-se da prática comum, a NATO pode ter reforçado a impressão de intenções sinistras. Um relatório posterior do Joint Intelligence Committee (JIC), a comissão conjunta de informações, concluiu: “Não podemos descartar a possibilidade de que pelo menos alguns funcionários/oficiais soviéticos podem ter interpretado mal o ABLE ARCHER […] como representando uma ameaça real.”

Margaret Thatcher estava muito preocupada. A combinação de receios soviéticos e retórica reaganiana podiam ter resultado numa guerra nuclear, mas a América não estava plenamente consciente da situação que contribuíra para criar. A primeira-ministra declarou que alguma coisa teria de ser feita “para remover o perigo de a União Soviética ter uma reação exagerada se avaliasse mal as intenções do Ocidente”. O Ministério dos Negócios Estrangeiros deveria “considerar com carácter de urgência a melhor maneira de abordar os americanos sobre a questão de possíveis equívocos em relação a um ataque surpresa da NATO”. O MI6 aceitou “partilhar as revelações de Gordievsky com os americanos”. A distribuição de material NOCTON foi alargada: o MI6 informou especificamente a CIA de que o KGB estava convencido de que as manobras militares tinham sido um prelúdio deliberado para o início da guerra.

“Não percebo como é que eles podem acreditar nisso”, declarou Ronald Reagan quando lhe disseram que o Kremlin temera verdadeiramente um ataque nuclear durante o ABLE ARCHER, “mas é um assunto para refletir.”

Na verdade, o presidente dos Estados Unidos já tinha pensado bastante na perspetiva do apocalipse nuclear. Um mês antes, ficara “muito deprimido” depois de assistir a The Day After [O Dia Seguinte], um filme sobre uma cidade no Midwest americano que é destruída por um ataque nuclear. Pouco depois do ABLE ARCHER, o presidente esteve numa reunião no Pentágono sobre o “fantasticamente horrível” impacto de uma guerra nuclear. Mesmo que a América “vencesse” um conflito desse tipo, era provável que 150 milhões de americanos perdessem a vida. Reagan descreveu a reunião como “uma experiência que deu muito que pensar”. Nessa noite, escreveria no seu diário: “Penso que os soviéticos estão […] tão paranoicos com a possibilidade de ser atacados que […] devíamos dizer-lhes que ninguém tem a intenção de fazer tal coisa.”

Tanto Reagan como Thatcher viam a Guerra Fria em termos de uma ameaça comunista à pacífica democracia ocidental: graças a Gordievsky, sabiam que a ansiedade soviética poderia representar um perigo maior para o mundo do que a agressão soviética. No seu livro de memórias, Reagan escreveu: “Em três anos aprendi uma coisa surpreendente acerca dos russos: várias pessoas no topo da hierarquia soviética tinham genuíno medo da América e dos americanos […] Comecei a perceber que muitos soviéticos nos temiam não apenas como adversários, mas como potenciais agressores que poderiam tomar a iniciativa de os atacar com armas nucleares.”

ABLE ARCHER marcou um ponto de viragem, um momento de aterrador confronto na Guerra Fria, que passou despercebido dos meios de comunicação e do público no Ocidente e que desencadearia um lento, mas percetível, degelo. A administração Reagan começou a moderar a sua retórica antissoviética. Thatcher decidiu estender a mão a Moscovo. “Ela sentiu que tinha chegado o momento de ir para lá da retórica do ‘império do mal’ e pensar como o Ocidente poderia pôr fim à Guerra Fria.” A paranoia do Kremlin começou a diminuir, sobretudo depois da morte de Andropov, em fevereiro de 1984, e embora os funcionários do KGB tivessem instruções para continuar atentos a sinais de preparação de um ataque nuclear, o ímpeto da Operação RYAN começou a desvanecer-se.

Gordievsky foi em parte responsável. Até ao momento, os seus segredos tinham sido distribuídos aos Estados Unidos em pequenos e muito seletivos fragmentos; doravante, as informações secretas que ele transmitia seriam partilhadas com a CIA em bocados cada vez maiores, se bem que ainda camuflados com todo o cuidado. Dizia-se que as informações sobre o alarme soviético durante o ABLE ARCHER tinham vindo de um “agente checoslovaco dos serviços secretos […] encarregado de monitorizar grandes exercícios da NATO”. Gordievsky não se importou que o MI6 partilhasse as suas informações com a CIA. “O Oleg queria”, disse um dos seus controladores britânicos. “Ele queria causar impacto.” E causou.

A CIA tinha vários espiões na URSS, mas nenhuma fonte capaz de fornecer este tipo de “verdadeiro conhecimento da psicologia soviética” e apresentar “documentos originais que demonstravam um genuíno nervosismo perante a possibilidade de um ataque preventivo a qualquer momento”. Robert Gates, vice-diretor de informações da CIA, leu os relatórios baseados nas informações de Gordievsky e percebeu que a agência deixara escapar uma coisa: “A minha primeira reação aos relatórios foi não apenas que podíamos ter tido uma grande falha de informações, mas que o aspeto mais aterrador do ABLE ARCHER era que podíamos ter estado à beira de uma guerra nuclear sem sequer sabermos.” Segundo um resumo interno secreto da CIA sobre o estudo do susto do ABLE ARCHER, escrito vários anos mais tarde, “as informações de Gordievsky foram uma epifania para o presidente Reagan […] só o seu aviso atempado a Washington através do MI6 impediu que as coisas fossem demasiado longe”.

A partir do ABLE ARCHER, a essência dos relatórios políticos de Gordievsky era transmitida a Ronald Reagan sob a forma de um resumo regular, claramente proveniente de um único agente. Gates escreveria, anos mais tarde: “As nossas fontes na União Soviética forneciam-nos, essencialmente, informações sobre as suas forças armadas e sobre investigação e desenvolvimento militar. O que Gordievsky estava a dar-nos era informações sobre a forma de pensar do comando – e esse tipo de informações era tão raro para nós como dentes nas galinhas.” Reagan estava “muito comovido” com o que lia, pois sabia que vinha de uma pessoa que arriscava a vida algures no interior do sistema soviético. As informações do MI6 eram “tratadas como as mais sagradas das coisas sagradas na CIA, vistas apenas por um pequeno grupo que as lia em papel, em condições rigorosas”, antes de as folhas serem guardadas e enviadas para a Sala Oval. As informações de Gordievsky sustentavam “a convicção de Reagan de que teria de ser feito um esforço maior não apenas para reduzir a tensão, mas para pôr fim à Guerra Fria”. A CIA estava agradecida, mas frustrada, e profundamente curiosa quanto à origem daquele fluxo constante de segredos.

Os espiões têm tendência para empolar a importância da sua profissão, mas a realidade da espionagem é que muitas vezes só faz uma pequena diferença duradoura. Os políticos adoram informações confidenciais porque são secretas, o que não as torna, necessariamente, mais fiáveis do que as informações de acesso público, e muitas vezes acabam por ser menos fiáveis. Se o inimigo tiver espiões no nosso campo, e nós tivermos espiões no dele, o mundo pode ser um pouco mais seguro, mas, no fundo, acabamos onde começámos, algures no espectro obscuro e não quantificável do “eu sei que tu sabes que eu sei…”.

No entanto, muito de vez em quando, os espiões têm um profundo impacto na história. A decifração do código Enigma reduziu a Segunda Guerra Mundial em pelo menos um ano. Uma espionagem de sucesso e engano estratégico sustentaram a invasão da Sicília pelos Aliados e os desembarques do Dia D. A infiltração soviética nos serviços secretos ocidentais nas décadas de 1930 e 1940 conferiu a Estaline uma vantagem crucial nas suas relações com o Ocidente.

O panteão dos espiões que mudaram o mundo é pequeno e seleto, e Oleg Gordievsky faz parte dele: ele desvendou o funcionamento interno do KGB num momento crucial da história, revelando não apenas o que os serviços secretos soviéticos estavam a fazer (e o que não faziam), mas o que o Kremlin estava a pensar e a planear, e ao fazê-lo transformou a forma como o Ocidente pensava na União Soviética. Gordievsky arriscou a vida para trair o seu país e tornou o mundo um pouco mais seguro. Um documento interno secreto da CIA dizia que o susto do ABLE ARCHER foi “o último paroxismo da Guerra Fria”.

sexta-feira, junho 14, 2019

Tomáš Řezáč: agente duplo do StB e do KGB

O caso do jornalista, escritor e informador checo Tomáš Řezáč é um bastante interessante, pois mostra o modo operativo das secretas comunistas da Checoslováquia e da União Soviética, StB e KGB respetivamente.

Em 1968, após a ocupação da Checoslováquia pelo Pacto da Varsóvia e do fim de Primavera de Praga, com a sua esposa, Tomáš Řezáč emigrou para Suíça. Alguns anos mais tarde, para expiar a sua “ilusão”, começou a trabalhar como agente da 1ª Diretoria do Ministério Federal do Interior sob o pseudónimo de Repo. Espiava a elite checoslovaca emigrada, obtinha as informações ao mando do Ministério de Interior da Checoslováquia. Em 1975, ele retornou à Checoslováquia, desempenhando o papel principal em toda uma série de campanhas de desinformação e de propaganda. Como agente, ele estava sob a jurisdição da contra-inteligência do StB.

Por ordem da 5ª Direção do KGB da URSS, escreveu o livro “Espiral da traição do Solzhenitsyn” (depois publicado na Itália e em Cuba), para desacreditar o dissidente e escritor soviético/russo Alexander Solzhenitsyn. Neste âmbito usou o manuscrito de um dos amigos de Solzhenitsin, apreendido pelo KGB e sem a permissão do seu autor.
A edição cubana do livro do Řezáč sobre Solzhenitsyn
Foi uma figura chave na campanha de desinformação dirigida contra Václav Havel e contra Carta 77. Em 9 de março de 1977, Řezáč participou no programa da rádio pública checoslovaca intitulado “Quem é Václav Havel? Em particular, afirmou que Havel havia recebido apoio financeiro dos serviços de inteligência da Alemanha Federal e dos Estados Unidos (na altura Havel estava detido por quatro meses e meio na prisão de Ruzyne, acusado de “ações de desestabilização”). Através do seu advogado, em 13 de março de 1977, Havel escreveu aos conselhos editoriais de todos os jornais que publicaram o texto “Quem é Václav Havel?”, com um pedido de refutar publicamente as declarações falsas. Não houve reações e, em 17 de março de 1978, Havel entrou com um processo contra Řezáč no Tribunal Distrital de Praga-6 por acusações de difamação.

Em cartas datadas de 2 de abril e 2 de junho de 1978, o acusado pediu para adiar a audiência devido à sua alegada doença. Naquela época, as autoridades comunistas checoslovacas decidiram que acusações de difamação contra o seu agente eram indesejáveis, optando por afirmar que os jornais tinham “distorcido o significado daquilo que foi dito no programa”. O que foi feito – em 7 de agosto de 1978, Řezáč enviou uma carta ao tribunal, onde afirmou que a sua acusação contra Václav Havel tinha sido apresentada em uma suposta forma de reserva: “aparentemente, parece que”, etc. Após disso, Havel retirou a sua queixa e, em 3 de agosto de 1981, o departamento financeiro do tribunal distrital de Praga-1 ordenou a restituição, ao futuro presidente da Checoslováquia livre (e depois da República Checa) a quantia de 60 coroas, que este tinha pago como custos judiciais.
O relatório do agente Repo sobre a sua própria estadia na Ucrânia  em 1979 | arquivos
Em 1978 o oficial da 5ª Direcção do KGB soviético, capitão Andrey Blagovidov (aparentemente o curador soviético do Řezáč) escreveu aos seus colegas do StB que agente «Repo aceitou as nossas críticas sobre seu desejo por álcool e na [questão da] gestão financeira».
“Procurados”, a capa da 2ª edição russa de 1988
Novamente ao pedido do KGB, e em co-autoria, Řezáč escreveu o livro “Procurados”, uma obra propagandista, dirigida contra Ucrânia independente e contra os nacionalistas ucranianos, publicada, pela primeira vez em Moscovo em 1981 e traduzida para alemão, inglês,  francês e ucraniano (1989).