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quinta-feira, junho 11, 2020

A lei soviética que punia com a morte a fuga para o exterior

Em 8 de junho de 1934, o Comité Executivo da URSS legislou que os cidadãos fugitivos ao exterior deveriam ser exterminados fisicamente. Mais tarde foi criada uma unidade especial de NKVD, que começou a perseguir e matar os “não-retornados”.

A resolução do Comité Executivo Central da URSS tratava a fuga para exterior como “traição à Pátria”, a simples fuga para o exterior, era punível com pena de morte – execução com confisco de todos os bens e sob circunstâncias atenuantes, com prisão por um período de 10 anos com confisco de todos os bens.

Uma seção da lei dizia respeito aos parentes de fugitivos que permaneceram na URSS, todos eles eram declarados criminosos, acusados de “não-delação”, alvos de processos judiciais. O “crime” de fuga do paraíso socialista se tornou o crime mais severo e mais pesado em toda a legislação soviética. Pois era único crime que previa responsabilidade colectiva dos familiares. Se irmão não denunciou o irmão, o pai não delatou a filha, estes também se tornavam criminosos, eram sentenciadas às penas entre 5 à 10 anos de prisão efectiva (texto das emendas).

Poucos conseguiram escapar da URSS, os números exactos de tentativas bem-sucedidas e mal-sucedidas permanecem em segredo dos arquivos russos até os dias de hoje.

As sentenças judiciais por fuga foram atenuadas somente após a morte de Estaline/Stalin. Em vez de execução, a lei soviética passou prever “somente” a prisão.

O levantamento final das medidas restritivas ocorreu em 1990, quando foi aprovada a Lei de “Entrada e Saída, que permitia aos cidadãos soviéticos de deixar livremente as fronteiras da URSS.

Ou seja, até 1990, um cidadão soviético NÃO podia deixar livremente o território da União Soviética, não podia se mudar, ao exterior, mesmo para um país dito fraterno, socialista ou “em vias de desenvolvimento”.

Se você é um “antifa”, será que está pronto à viver num país assim?

terça-feira, novembro 12, 2019

Crimes do comunismo soviético: «Caso dos Professores»

Ata do NKVD sobre o fuzilamentos de 37 ucranianos – 10 Professores Doutores e 27 Docentes da Ucrânia soviética («Caso dos Professores»). Executante – o 2º tenente do NKVD Ivan Nagorny com escolaridade de 4 classes de uma escola rural.

A execução foi efetuada na cidade de Kyiv, na noite de 22 de outubro de 1936, na presença do Procurador-geral da URSS Vyshynsky; do chefe da Comissão Militar do Tribunal Supremo da URSS – Vasily Ulrich, do Procurador-chefe da Procuradoria Militar da URSS – Rozovsky e de outros membros do NKVD da Ucrânia soviética.

Blogueiro: desta forma a elite intelectual e pensante da Ucrânia foi substituída pela massa semianalfabeta e pouco esclarecida de pessoas leais ao regime comunista imposto pelo Moscovo...

quarta-feira, outubro 16, 2019

Parlamento Europeu aprovou resolução que coloca nazismo e comunismo em pé de igualdade

A União Europeia finalmente colocou comunismo e nazismo em pé de igualdade, depois de o Parlamento Europeu ter aprovado em setembro uma resolução histórica que condena os dois regimes ditatoriais, escreve a publicação portuguesa Observador.pt

No passado dia 19 de setembro, a União Europeia colocou comunismo e nazismo em pé de igualdade, depois de aprovar no Parlamento Europeu uma resolução condenando ambos os regimes por terem cometido “genocídios e deportações e foram a causa da perda de vidas humanas e liberdade em uma escala até agora nunca vista na história da humanidade”.

A resolução Importance of European remembrance for the future of Europe (consultar o texto) contou com 535 votos a favor, 66 contra e 52 abstenções, noticia o jornal espanhol ABC esta terça-feira. Apesar do significado histórico, esta resolução passou despercebida pela maioria, ainda que este seja tema de debate recorrente entre os historiadores desde a queda da União Soviética há três décadas.
Consultar o texto em inglês
De acordo com o ABC, o jornalista polaco Ryszard Kapuscinski chegou a essa conclusão em 1995: “Se pudermos estabelecer a comparação, o poder destrutivo de Estaline era muito maior. A destruição levada a cabo por Hitler não durou mais de seis anos, enquanto o terror de Estaline começou na década de 1920 e prolongou-se até 1953.”

O debate alcançou o seu auge em 1997, com a publicação do “Livro Negro do Comunismo” que foi escrito por um grupo de historiadores sob a direção do investigador francês Stéphane Courtois, que se esforçaram por fazer um balanço preciso e documentado das verdadeiras perdas humanas do comunismo. Os resultados foram esmagadores: cem milhões de mortos, quatro vezes mais do que o valor atribuído por esses mesmos historiadores ao regime de Hitler.

Apesar de tudo, estes números não eram uma novidade. Outros investigadores, como Zbigniew Brzezinski, Robert Conquest, Aleksandr Solzhenitsyn e Rudolph Rummel, já se tinham interessado anteriormente pelo Gulag, a fome causada por Estaline na Ucrânia e as deportações em massa dos dissidentes do regime soviético.

Uma das diferenças entre os dois regimes é que o GULAG soviético foi usado (principalmente, mas não só) para punir e eliminar dissidentes políticos (reais e imaginários), com o objetivo de transformar as estruturas socio-económicas do país e promover a coletivização e a industrialização. (Sem esquecer as fomes orquestradas, deportações e limpezas étnicas soviéticas, dirigidas contra os ucranianos, chechenos, tártaros da Crimeia ou alemães de Volga). Os nazis, por seu lado, usavam os campos de concentração principalmente para extermínio de vários grupos étnicos, políticos e sociais.

O regime nazi foi culpado do genocídio de cerca de 6 milhões de pessoas, incluindo judeus, ciganos, homossexuais e comunistas (vários correntes esquerdistas e centristas, como socialistas, social-democratas, etc.).

A resolução aprovada pelo Parlamento Europeu é bastante incisiva, nela se apelando, nomeadamente “a uma cultura comum da memória que rejeite os crimes dos regimes fascista e estalinista e de outros regimes totalitários e autoritários do passado como forma de promover a resiliência contra as ameaças modernas à democracia, em particular entre a geração mais jovem”. Também se manifesta “profundamente preocupado com os esforços envidados pela atual liderança russa para distorcer os factos históricos e para «branquear» os crimes cometidos pelo regime totalitário soviético, e considera que estes esforços constituem um elemento perigoso da guerra de informação brandida contra a Europa democrática com o objetivo de dividir a Europa”.

quarta-feira, agosto 21, 2019

Chornobyl: o desastre nuclear aos olhos do Politburo, do KGB e da CIA – 1ª parte

Documentos desclassificados detalham reações de alto nível, encobrimentos e críticas. Fontes incluem notas do Politburo, diários, protocolos nunca antes traduzidos ao inglês. Livro de Instruções Eletrónicas do Arquivo de Segurança Nacional (EUA) № 681.

Documentos dos escalões mais altos da União Soviética, incluindo notas, protocolos e diários das sessões do Politburo logo após o desastre nuclear de Chornobyl, em 1986, detalham uma sequência de encobrimentos, revelações, choques, mobilização, bravura individual e batalhas burocráticas da reação soviética, de acordo com o e-book “Top Secret Chernobyl” publicado pelo National Security Archive.

As principais fontes incluem protocolos do Grupo Operacional do Politburo sobre Chornobyl que foram publicados em russo pelo jornalista e ex-deputada do Soviete Supremo da URSS Alla Yaroshinskaya em 1992. A postagem começa com o ensaio de Yaroshinskaya (escrito exclusivamente para esta publicação) revendo a história de Chornobyl e os seus próprios esforços que datam de 1986 para documentar e expor as mentiras e o sigilo que cercou o desastre.

Também estão incluídos trechos do diário do membro do Politburo Vitaly Vorotnikov, notas sobre as sessões do Politburo por Anatoly Chernyaev, e trechos de raras “cópias oficiais de trabalho” das sessões do Politburo publicadas em russo pelo ex-diretor RosArchiv (Arquivo russo) Rudolf Pikhoia em 2000. A publicação também contém reações desclassificadas do departamento de inteligência do Departamento de Estado dos EUA, da CIA e do Jack Matlock do Conselho de Segurança Nacional, além de relatos do KGB da Ucrânia Soviética.

Consultar o arquivo.

terça-feira, julho 23, 2019

O livro “sagrado” dos rituais da ideologia comunista soviética

O livro “Ritualidade socialista” foi publicado em 1986 na Ucrânia soviética e explicava, detalhadamente, como realizar todos os tipos de rituais soviéticos “ideologicamente corretamente”, como adorar os ídolos e heróis soviéticos, como realizar ações ritualísticas para honrar vários cultos soviéticos, como o culto de pão.

O  livro é uma prova real do que a ideologia e sistema comunista é uma fé e uma seita religiosa — com os seus rituais, profetas (Marx e Engels), Messias (Lenine), cultos, paraíso (comunismo) e inferno (capitalismo).

Parcialmente é por isso se torna quase impossível convencer à realidade os amantes da URSS, anti-americanos ou anti-capitalistas – os seus pontos de vista não fazem parte do domínio de conhecimento, são a fé religiosa, que não necessita de provas e não segue a lógica linear.

02. A capa do livro “Ritualidade socialista” é feita de chita vermelha com as letras douradas, debaixo do título aparece o emblema do “ritualista socialista” – foice e martelo, embutidos numa base da estrela pentagonal. A estrela é um repto da cruz no Cristianismo, e o próprio livro deveria ser uma espécie de Auto da Fé – a publicação solene que explica como adorar apropriadamente as forças comunistas superiores.

03. Dividimos a análise do livro “Ritualidade socialista” em duas partes — textual e visual. A parte textual explica como devem ser feitos, corretamente, determinados rituais socialistas, a parte visual mostra a performance dos mesmos.

04. Praticamente todo o livro está escrito numa espécie de novilíngua bolchevique, que usa a sintaxe da língua russa, mas as frases criadas ficam sem nenhum nexo, descrevendo uma realidade paralela, inventada pelo autores da obra:
É excepcionalmente grande o papel dos feriados e rituais soviéticos na formação da consciência comunista dos trabalhadores, a mais alta qualidade característica do povo soviético.

05. O livro informa que calendário soviético possui 67 datas festivas (mais de uma por cada semana do ano), que, de acordo com os seus autores devem substituir os feriados cristãos. Os autores não escondem que querem substituir a “má religião cristã” pela “boa fé comunista”:
As tradições, feriados e cerimónias soviéticas, contribuem para a formação da cosmovisão científica e materialista dos soviéticos e são um meio eficaz de superar feriados e cerimónias religiosas.

Os autores, sem hesitar, proclamam que desde o seu nascimento, as mentes dos jovens estarão bombardeadas pela ideologia comunista, dizendo aos cidadãos que devem “avaliar os eventos” não do ponto de vista da realidade racional, mas do ponto de vista da propaganda soviética:
PCUS educará os soviéticos com um alto grau de consciência política e a capacidade de avaliar fenómenos sociais com posições de classe claras e defender os ideais e valores espirituais da sociedade socialista.

06. Um dos capítulos é chamado de “Formação e desenvolvimento de ritualidade soviética” e tem a subseção “Pré-requisitos para o surgimento e estágio inicial da formação de ritualidade soviética”. Na URSS neste tipo de pseudo-ciência eram engajados os institutos inteiros, foram defendidas milhares de “teses científicas” – tudo isso também se assemelha aos tratados teológicos, onde a “verdade” ou a “falsidade” é verificada apenas pela sua conformidade com os cânones religiosos.

07. Capítulos inteiros são dedicados à técnica do discurso ou a maneira correta de caminhar durante a execução dos ritos soviéticos:
Os ritualistas se movem não apenas no plano geral, mas também podem subir as escadas. Ao subir, é necessário colocar apenas os dedos e a base do pé no degrau, enquanto o peso do corpo se move no pé colocado no degrau superior.

08. Os cenários dos rituais soviéticos são desenhados em detalhes e são compostos de tal forma que levam as pessoas a ter sentimentos puramente religiosos – uma sensação de santidade do poder soviético e de blasfémia perante quaisquer tentativas de resistir ao sistema soviético.
Para isso às cerimónias são introduzidas os personagens puramente religiosas – o Mentor Estatal (uma espécie do Padre), Veterano (uma espécie de Ancião de cabelos grisalhos) e a Colectividade dos Trabalhadores (Povo) – perante qual é realizado este ou aquele rito e que promete punir severamente os camaradas desobedientes (hereges). É a mais pura religião medieval arcaica.

09. No final da parte textual aparecem uma espécie de orações soviéticas – dirigidas ao Comunismo e ao Culto do Pão:
Toda a terra nativa
É aquecida pelo sol do Kremlin.

Trator combinado – nos campos
Colheita – nos armazéns.

Onde os kolkhozianos se ajudarão –
Os rendimentos aparecerão.

Pão é a cabeça de tudo.
Pão é pai, água é a mãe.

Pelo curso de Lenine os povos foram –
Felicidade e liberdade  acharam.

Parte visual do livro

10. O rico material ilustrativo mostra exatamente como adorar corretamente os símbolos soviéticos e como se comportar adequadamente em vários feriados comunistas. O culto dos mortos está constantemente presente, são retratadas vários casos de caminhadas, em massa, rumo às sepulturas militares da época da II G.M.:
O ritualista, apontando para a tocha de casamento, diz: “Queridos recém-casados! Aceitem este fogo sagrado e carreguem-no através de seus corações ao longo de sua vida, multiplicando a glória de nossa Grande Pátria Soviética! Agora todos os participantes na cerimónia do casamento irão para a sepultura comum [militar].

11. Todos os feriados soviéticos também são descritos em detalhes. Onde deve ficar a mesa, a bandeira, o brasão de armas e os antepassados mortos encabeçados pelo vovô Lenine, onde devem ficar as pessoas, o que devem pensar e o que devem dizer. Dia do conhecimento. Festa popular comunista do Conhecimento Comunista:

12. Festa da Colheita – a celebração do arcaico culto de Pão, que foi celebrado na URSS.

13. O registo solene do casamento soviético.

14. Festa, detalhadamente descrita e chamada “Acompanhamento às fileiras das Forças Armadas da URSS”, se transforma num ritual completo. Citação: “O rito de passagem para as fileiras das Forças Armadas da URSS mobiliza jovens para adquirir os conhecimentos do equipamento militar moderno”.

15. Esboço gráfico da festa: “Iniciação ao operário”:

16. Esboço gráfico da “Festa do Primeiro Sino” [início do ano letivo escolar do 1º e 2º ciclo]:

17. Esboço gráfico da jubileu da “Grande Guerra Patriótica” [a guerra nazi-soviética de 1941-45. O início de uso da “fita da guarda”, que na década de 2010 se transforma em “fita de São George”]: 

18. Design do carro de transporte para os recém-casados [reles Gaz-21/24] e “estrelinhas nominais para os recém-nascidos”, uma espécie de crucifixos cristãs para a cerimónia do “estrelismo soviético”. Você recebeu uma estrela no seu nascimento, como você pode se rebelar contra o Comunismo?

19. Uma espécie de sacerdotes e sacerdotisas soviéticas – ritualistas em trajes solenes com medalhão da religião soviética:

20. [As colunas comunistas festivas no centro de Kyiv – na avenida Khreschatyk, no dia 1 de maio de 1986 vários presentes nesta coluna foram coagidos – “ou estarás presente, ou serás expulso do PCUS...”]

21. O livro era publicado “para uso oficial” dos diversos comités executivos do nível provincial, distrital e local. Para a leitura e assimilação dos diversos parasitas soviéticos. A sua tiragem inicial foi de 115.000 exemplares, a 2ª edição chegou aos 150.000 exemplares.

Imagens e texto: Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]

domingo, julho 14, 2019

Salvini, Putin e petróleo. Esquema de financiamento eleitoral ilegal

Investigação revela o conteúdo de um encontro onde italianos e russos negoceiam financiamento de milhões. Estas conversas colam a Rússia ainda mais aos movimentos populistas europeus.

por: Diogo Lopes, Observador.pt

Lega, o partido italiano de extrema-direita que tem Matteo Salvini como líder, terá procurado dezenas de milhões de euros de financiamento junto de investidores russos. Após vários meses de suspeitas, a aparente confirmação surge através da Buzzfeed News, que teve acesso à gravação de um encontro secreto onde colaboradores do atual vice-primeiro-ministro italiano negoceiam o suposto financiamento que, tudo indica, seria feito através da compra e venda de petróleo.

A gravação desta reunião dura pouco mais de uma hora e é a mais recente (e sólida) prova das ligações entre os movimentos populistas de extrema-direita e Moscovo. A prestigiada newsmagazine italiana L’Espresso já tinha lançado esta história, a 21 de fevereiro de 2019, mas só agora foram divulgados os áudios da suposta reunião.

De acordo com o BuzzFeed (jornais como o italiano la Reppublica, por exemplo, também já reportaram a história, entretanto), o acordo envolveria uma petrolífera russa com três milhões de toneladas métricas de petróleo (aproximadamente 22 milhões de barris de petróleo) para vender à energética italiana Eni ao longo de um ano e em troca de 1.3 mil milhões de euros. Intermediários venderiam, comprariam e desviariam o dinheiro que iria para aos cofres do partido italiano, isto graças a um desconto a ser aplicado na transação.

“É muito simples”, ouve-se um italiano a dizer nas gravações divulgadas pelo Buzzfeed News. “O planeamento feito pelos nossos tipos da política fala de um desconto de 4%, que equivale a 250 000 [toneladas métricas; equivalente a cerca de 2 milhões de barris de petróleo] mais 250 000 por mês, durante um ano — isto consegue financiar uma campanha.” Ou seja, a Eni acordava comprar petróleo à dita empresa russa (o artigo da Buzzfeed News fala na possibilidade de ser a Rosneft e/ou a Lukoil) que aceitava fazer o tal desconto, eventualmente não declarado. O dinheiro saíria da Eni, ela receberia a matéria prima a um preço mais barato, a petrolífera da Rússia recebia o montante negociado menos o tal desconto, uns 58 milhões de euros. Essa quantia ficava, portanto, nas mãos de intermediários que tinham como única missão redirecionar o dinheiro para os cofres do partido de Salvini. 

A dada altura da gravação um dos italianos comenta que “vão ter problemas com a AM [regras anti-lavagem de dinheiro]” mas para Gianluca Savoini, braço direito de Salvini e um dos homens identificados nas gravações, a única coisa que interessava era a vontade de “mudar a Europa”. Aliás: “É preciso criar uma nova Europa que esteja mais próxima da Rússia, como costumava estar, porque queremos manter a nossa soberania.”

Na semana passada Savoini participou num jantar do governo russo, em Moscovo, onde esteve com Vladimir Putin. Salvini, por sua vez, não esteve nem nesse jantar de Estado nem na tal reunião onde se discutiu o esquema do petróleo. Ainda não se sabe ao certo se o esquema chegou a ir em frente ou se a Lega recebeu algum financiamento russo — tanto Salvini como Savoini recusaram comentar as alegações da Buzzfeed.

O mesmo site noticioso afirmou que não foi capaz de identificar os russos que participaram nesse encontro secreto que decorreu no histórico hotel Metropol, em Moscovo (onde foi feito o esboço da primeira Constituição soviética).

A Lega negou repetidamente as acusações de ter recebido dinheiro de financiadores estrangeiros, algo que seria uma quebra da lei eleitoral italiana. Contudo, Salvini já foi franco àcerca do seu apoio ao governo russo: depois das eleições europeias posou para uma fotografia com uma imagem de Vladimir Putin bem visível na estante que estava atrás dele.

A ter existido de facto este financiamento, não seria o primeiro caso de um partido da extrema-direita a aceitar dinheiro da Rússia. Marine Le Pen, por exemplo, recebeu empréstimos no valor de 11 milhões de euros provenientes de bancos russos, em 2014.

O financiador principal da campanha pelo Brexit, Arron Banks, também já foi acusado de fazer acordos de compra e venda de ouro e diamantes com a embaixada russa, de forma a financiar o referendo de 2016. Está a ser investigado, inclusive, pela National Crime Agency britânica, apesar de negar de forma veemente todas as acusações.

Também na Áustria, o partido de extrema-direita de Heinz-Christian Strache, o FPO, abdicou do cargo, depois de ser filmado a discutir um acordo segundo o qual contratos públicos eram usados como moeda de troca para receber apoio da Rússia na sua campanha eleitoral.

Blogueiro: no seu livro “Processo de Moscovo”, o dissidente soviético Vladimir Bukovsky descreveu um esquema absolutamente semelhante usado na década de 1970 pelo KGB para financiar o PC italiano.

Crimes soviéticos: a deportação dos boykos ao Donbas

Em 1951 mais de 10.000 boykos foram deportados da região de Drohobych para Donbas, atual região de Donetsk. Aconteceu na sequência da troca de populações e dos territórios entre URSS e Polónia comunista.
O processo de deslocalização forçada e começo da vida em um novo lugar foi muito difícil. Foi difícil deixar suas casas, nas quais os boykos viveram por séculos. Na região de Donetsk os boykos foram reassentados de forma compacta nos distritos de Olexandrivskiy e Bahmutskiy, na aldeia durante Novohryhorivka nos arredores de Druzhkivka. Agora muitos deles, especialmente os seus filhos que nasceram já depois da deslocalização, vivem nas cidades de Kramatorsk e Slovyansk.

Os deportados levados para o leste da Ucrânia se distinguiam dos locais pela sua fala regional e por outras características culturais. Por causa disso, às vezes havia atrito entre eles. Por exemplo, muitos dos heróis do filme lembram-se de serem chamados de “banderas” (nome genérico russo dado aos ucranianos vistos como patriotas da Ucrânia, e não necessariamente aos seguidores do líder da OUN-R, Stepan Bandera).
No filme aparecem os boykos que sobreviveram à deportação em 1951 e agora vivem na região de Donetsk. No momento do reassentamento eles tinham de 5 à 25 anos de idade. Foi perguntado à eles o que se lembravam da sua vida na Ucrânia Ocidental, sobre o processo de reassentamento e como eles viviam em um novo lugar, e se eles gostariam de um dia voltar para casa.

Ver o filme “Uzhe ne vernemos” (Já não voltaremos) no YouTube:

1ª parte (23'34''):

2ª parte (20'48''):

terça-feira, julho 09, 2019

Como União Soviética ocultava os casos do terror político

O ato terrorista mais famoso da URSS ocorreu em 8 de janeiro de 1977 — uma série de explosões bombistas em Moscovo matou 7 e feriu 37 pessoas. Os três alegados responsáveis foram fuzilados e os materiais do caso estão sob segredo da justiça russa até hoje.

Como tudo ocorreu?

A primeira explosão atingiu a carruagem de metro/ô de Moscovo. O explosivo foi colocado numa panela especial de metal pesado, aparafusada e soldada – como resultado da explosão 7 passageiros do metro/ô foram mortos e 37 feridos.
A 1ª explosão no metro/ô | arquivo
A segunda explosão ocorreu 32 minutos após a primeira – uma bomba explodiu numa mercearia na atual rua Bolshaya Lubyanka. Ninguém ficou ferido na explosão. A terceira bomba explodiu cinco minutos depois da segunda – o dispositivo estava escondido numa lata de lixo, junto à uma mercearia da atual rua Nikolskaya. Nesta explosão, também, ninguém morreu – a forte urna de ferro fundido resistiu à explosão, e a onda de choque se dirigiu ao alto.
A 2ª explosão na mercearia | arquivo
KGB e polícia soviética começaram as buscas pelos responsáveis. Na cidade russa de Tambov foi interrogado o suspeito inicial cidadão Potapov, preso após detonar uma bomba que matou a esposa e duas filhas do vizinho. Potapov rapidamente confessou que também estava por trás dos atos terroristas em Moscovo. No entanto, rapidamente se percebeu que isso foi uma confissão forçada e, após a investigação formal que durou um mês, o caso foi abandonado pelo KGB.

Informação ocultada ao público

Quase imediatamente, todas as informações sobre os ataques foram classificadas – nenhum jornal ou programa de televisão soviético falaram sobre o que estava acontecendo. Mas os rumores terríveis estavam rastejando pelo Moscovo, as pessoas nas filas das compras estavam cochichando sobre o que tinha acontecido, era simplesmente impossível esconder mais a informação.

Como no caso de Chornobyl – as informações sobre a tragédia foram divulgadas 48 horas depois, passadas pela censura do KGB. No dia 10 de janeiro, a agência soviética TASS divulgou a nota que dizia que em 8 de janeiro, ocorreu “uma pequena explosão no metro/ô de Moscovo, todas as vítimas foram socorridas”. A informação ocultava o número de vítimas e que a explosão foi um ato terrorista.

Os materiais completos deste caso ainda estão classificados pela justiça russa.

O que aconteceu na realidade?

As buscas pelos responsáveis foram infrutíferas – mas por sorte, cerca de 10 meses depois – também em Moscovo, foi achada uma outra bomba que levou KGB aos terroristas. Eram três arménios étnicos – Hakob Stepanyan, Zaven Baghdasaryan e Stepan Zatikyan – este último foi tido como líder do grupo. Após um julgamento secreto e fechado ao público, em 24 de janeiro de 1979 os réus foram considerados culpados pelo tribunal e sentenciados à pena capital – execução. Em 30 de janeiro, o Presidium do Soviete Supremo da URSS rejeitou a sua petição de clemência, e no mesmo dia eles foram executados. A única informação oficial sobre o julgamento e sobre o veredicto foi uma breve nota no jornal soviético “Izvestia” em 31 de janeiro de 1979, onde apenas se mencionava o apelido/sobrenome e as iniciais do Stepan Zatikyan.
Stepanyan (1947-1977) e Baghdasaryan (1954-1977) após a detenção
Segundo a versão oficial da acusação – os três pertenciam ao clandestino “Partido da Unidade Nacional da Arménia” (NOP) e tinham como objetivo criar Arménia independente, separada da URSS. Essa versão possui uma série de inconsistências, apontados pelo académico e dissidente soviético Andrey Sakharov – NOP não tinha terror nos seus princípios, os terroristas não divulgaram nenhumas reivindicações após as explosões, as ações semelhantes não aconteceram antes e não se repetiram depois.
O líder Stepan Zatikyan (1946-1979) após a detenção
Na versão não oficial – as ações foram iniciadas pelos serviços secretos soviéticos (KGB), para iniciar a onda de terror contra os dissidentes – e apenas a divulgação pública do caso (incluindo através do Andrey Sakharov) impediu de fazê-lo. A versão de provocação do KGB é apoiada pelo facto do que o jornalista soviético Victor Louis (informador e conhecido agente-provocador do KGB), imediatamente após o ataque, lançou na imprensa britânica a acusação genérica contra os “dissidentes”, pelo seu alegado envolvimento nos atentados – como se preparando a opinião pública ocidental ao ataque contra o movimento dissidente na URSS.

[O fundador e um dos líderes do Partido Neocomunista da União Soviética, Alexander Tarasov relata nas suas memórias que quatro meses após as explosões ele foi detido [pelo KGB] por suspeita da sua organização e libertado somente depois de provar “por trezentos por cento” o seu álibi (ele estava no hospital durante o ataque terrorista).

O coronel da 1ª Direcção/Diretoria do KGB Oleg Gordievsky, que fugiu para o Ocidente, é da opinião de que os três arménios foram escolhidos, neste caso, como bodes expiatórios. O dissidente soviético Sergei Grigoryants afirma que as explosões foram realizadas pelo grupo Alfa do KGB sob as instruções de Yuri Andropov e Filip Bobkov (o chefe da 5ª Direção/Diretoria “ideológica” do KGB)].

Em jeito de epílogo

Qualquer ataque terrorista é terrível, mas pior ainda quando o Estado esconde de seus cidadãos a verdade sobre o que realmente está acontecendo – não informa sobre o desastre de Chornobyl ou sobre os ataques terroristas ocorridos em Moscovo em 1977. Os cidadãos possuem uma imagem bastante distorcida do que realmente está acontecendo – é assim que nascem os mitos sobre “a vida soviética calma e pacífica na companhia do melhor sorvete do mundo – o soviético”.

Após o fim da URSS, as pessoas perceberam que esse era um beco sem saída – e nas Constituições da maioria dos países pós-soviéticos foram colocadas as normas do que ninguém tem o direito de esconder dos cidadãos a verdade sobre desastres ambientais ou naturais, ataques terroristas ou outros incidentes semelhantes – todos e cada um tem o direito de receber e divulgar livremente essas informações.
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No entanto, nos últimos anos, aqui e ali, mais uma vez houve o “retorno à espiritualidade tradicional”, que pode ser traduzido da seguinte forma – o Estado novamente quer se engajar em negócios obscuros, ocultando, aos cidadãos, todas as informações sobre acidentes e incidentes...

Fotos: arquivo | Texto: Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]

segunda-feira, julho 08, 2019

Uso do trabalho escravo na União Soviética comunista

GULAG soviético era composto por cerca de 53 campos de concentração com milhares de unidades e sucursais, 425 colónias correcionais, 50 colónias para menores, mais de 2.000 kommandanturas especiais. Mais de 30.000 locais de detenção. Milhões de escravos de mão-de-obra gratuita. O segredo da industrialização soviética.

Todas as conquistas da URSS foram baseadas no verdadeiro trabalho escravo, que, de uma ou de outra forma, foi usado durante toda a existência da União Soviética. Isso foi especialmente perceptível nas décadas do reinado do Estaline/Stalin – de fa(c)to, todas as conquistas daquela “verdadeira URSS” foram criadas por escravos que não tinham direitos e viviam sob a mais real servidão.

Como a escravidão foi consagrada na lei soviética
Até 1 de setembro de 1931 na URSS era vigente o sistema laboral com duas formas de funcionamento – trabalho contínuo ou a semana britânica de cinco dias. Tanto no primeiro, quanto no segundo caso, o trabalhador tinha o direito de 72 dias de folga por ano. Mas em 1/09/1931 foi introduzida a semana de seis dias laborais, o número de dias de folga foi diminuído e as mulheres foram enviadas para trabalhos pesados ​​em igualdade com os homens.

Em 1940, Estaline/Stalin assinou pessoalmente o decreto sobre a semana laboral de sete dias, com introdução de responsabilidade criminal por abandono não autorizado do posto de trabalho, atrasos e absenteísmo. O faltoso era condenado à um trabalho correcional por um período de seis meses, geralmente no mesmo local do seu trabalho. Durante o “trabalho correcional”, uma parte do seu salário era deduzida ao favor do Estado. Havia dinheiro suficiente para a compra dos alimentos mais básicos – para não morrer de fome.

Além disso, os cidadãos foram proibidos de abandonar voluntariamente o seu posto de trabalho – para isso precisavam obter uma “autorização” de seus superiores, e se uma pessoa saísse de sua livre vontade ou protestasse de alguma outra forma, era enviada aos campos de concentração soviéticos de GULAG. Além disso, os trabalhadores soviéticos comuns viviam frequentemente em apartamentos comunais ou em um quarto em uma barraca de madeira – como verdadeiros escravos. Na pobreza absoluta e sem o direito de escolher seu próprio caminho na vida.

Dalstroy. Escravos de campos de concentração

Em 1931 na URSS também foi criada a organização criminosa Dalstroy, que usava o trabalho forçado dos prisioneiros na construção das diversas obras faraónicas do regime soviético. Dalstroy respondia diretamente ao NKVD e quase toda a sua liderança era formada pelos órgãos repressivos do estado soviético.
Dalstroy usava os prisioneiros dos campos de concentração na procura de ouro e na construção de infra-estruturas nos territórios inabitados da Rússia soviética. Nas incrivelmente difíceis condições do norte, os prisioneiros construíram cidades e vilas e trabalharam nas minas – morrendo aos milhares de fome, frio e condições gerais desumanas.

Essa imagem mostra “Os maiores locais de construção do segundo plano quinquenal”, orgulhosamente exibida pela propaganda soviética:
O mapa dos campos do GULAG coincide quase exatamente com todas essas “conquistas da indústria” e “construções quinquenais”, servidos pelo trabalho escravo dos prisioneiros dos campos de extermínio soviéticos.
Várias vezes, estas “construções quinquenais” eram completamente insanas. Como a construção do caminho-de-ferro/ferrovia Salekhard – Igarka  (conhecida como “Ferrovia da morte”) – uma das construções do socialismo triunfante soviético das décadas de 1940 – início de 1950.
GULAG e "Ferrovia da morte"
Centenas de milhares de prisioneiros do GILAG foram lançados/jogados nos pântanos da Sibéria, morrendo também aos milhares. O projeto acabou sendo abandonado como absolutamente desnecessário. Deixando atrás de si cerca de 700 quilómetros de trilhos enferrujados – torcidos em diversos ângulos incríveis devido às difíceis condições naturais, pontes apodrecidas e trançadas, locomotivas ao vapor enferrujadas e abandonadas para sempre, os restos de campos de concentração – à cada 10 quilómetros do caminho-de-ferro / da ferrovia aparecem torres de guardas do GULAG, ainda preservadas.
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Não muito tempo atrás, os entusiastas que visitaram esses locais criaram o modelo 3D do campo de concentração de Barabanikha – localizado na área da auto-estrada/rodovia Transpolar. Acima dos portões do campo de concentração estava pendurado o slogan “Trabalho na URSS é uma questão de honra, uma questão de glória, uma questão de valor e do heroísmo” – o equivalente soviético da frase nazi(sta) “Arbeit macht frei”.

Escravatura soviética no campo

No mesmo ano de 1931, nos kolkhozes soviéticos foi introduzido o sistema de “dias-de-trabalho”. O sistema consistia no fato de que os camponeses deixaram de receber quailquer salário e, em vez disso, a sua assiduidade era controlada através dos “dias-de-trabalho”.
O camponês já não era deportado para as áreas remotas e terríveis do norte, mas usado como um escravo na sua própria comunidade. A pessoa trabalhava em trabalhos físicos pesados ​​no kolkhoz e, em vez de receber, pelo seu trabalho, recebia uma “varinha” no livro de controlo kolkhoziano. Mais tarde, esses “varinhas” podiam ser trocadas por algum alimento – outras poderiam ser canceladas como castigo por algum “erro”, como o não cumprimento de normas extremamente altas – à conta disso os camponeses perdiam até ¼ dos seus “dias-de-trabalho”.

Em 1932, quando a vida nos kolkhozes soviéticos tornou-se absolutamente insuportável, os bolcheviques deixaram de emitir aos camponeses os passaportes (documentos de identificação), legalizando a escravidão servil. A URSS retornou ao sistema de semiescravidão czarista pré-1861 – os camponeses não podiam se mover livremente, escolher o tipo de atividade, escolher o tipo de instituição de ensino para si ou para os filhos – tudo isso precisava de permissão do novo “senhor feudal” – o chefe do kolkhoz.

Neste sistema esclavagista soviético não havia pensões/reformas – naquelas décadas, os camponeses idosos recebiam cerca de 2 rublos por mês (3,38 dólares ao mês), o que era praticamente igual ao zero. Os “dias-de-trabalho” foram cancelados somente em 1966 e, no mesmo ano, os camponeses dos kolkhozes começaram a receber passaportes (documentos de identificação) – durante meio século, a maior parte da existência da URSS, eles viviam como verdadeiros escravos.

País construído por escravos. Em vez do epílogo
Imagem de cima "Indústria na URSS" | Imagem em baixo "Maiores campos de concentração na URSS"
Os fãs e amantes da URSS adoram Estaline/Stalin e seus “grandes projetos de construção” – pagos pelo preço exorbitante de milhões de vidas perdidas (muitas vezes em projetos desnecessários como caminho-de-ferro/rodovia Traspolar). Nesse sentido, a URSS era um império clássico, semelhante aos impérios do passado – construídos por escravos. A única diferença é que os antigos impérios usaram para esses fins prisioneiros de guerra capturados em outros países – as autoridades comunistas soviéticas transformaram em escravos a população do seu próprio país...

Imagens: arquivo | Texto: Maxim Mirovich