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segunda-feira, agosto 31, 2026

A repressão comunista da era Brejnev, que visava os dissidentes ucranianos

Artista e dissidente ucraniano Opanas Zalyvakha. Foto do KGB.

No final de agosto de 1965, o KGB da Ucrânia soviética lançou uma operação especial de grande envergadura contra a intelectualidade ucraniana. Era o início das várias outras purgas dirigidos contra os dissidentes ucranianos. 

Dados sobre os detidos devido às «atividades nacionalistas»:
23 pessoas, região de Kyiv: 7; região de Lviv: 9

Mais de 20 figuras foram presas em Kyiv, Lviv, Ivano-Frankivsk, Ternopil e Lutsk. Entre elas estavam Ivan Svitlychny, os irmãos Mykhaylo Horyn e Bohdan Horyn, Ivan Gel, Valentyn Moroz...

Processo do Mykhaylo Horyn (1930-2013)

Nos relatórios do KGB, estes jovens intelectuais eram chamados de “moralmente instáveis”, “caluniadores”, “distribuidores de propaganda hostil”.

Processo do Bohdan Horyn

Na cidade de Ivano-Frankivsk foi preso o artista Opanas Zalyvakha. Hoje, documentos desclassificados do seu processo criminal permitem-nos ver como o regime tentou eliminar a resistência cultural ucraniana.

De que foi acusado o artista?

Da “agitação anti-soviética”: produção, armazenamento e distribuição de literatura samizdat (em particular, obras sobre a russificação da Ucrânia).

Arte do Opanas Zalyvakha

Da “sabotagem ideológica” na arte: um ano antes da sua detenção, Zalyvakha, em colaboração com artista monumental Alla Horska, criou o vitral “Shevchenko. Mãe” para a Universidade Estatual de Kyiv «Taras Shevchenko». O partido comunista declarou a obra como “ideologicamente hostil” – essa foi destruída ainda antes de quaisquer veredicto oficial.

Arte que assustou o regime soviético ao ponto de ser destruído.
«Shevchenko. Mãe», 1964

Sentença e “condições especiais”

Zalyvakha foi condenado a 5 anos de regime fechado nos campos de GULAG em Mordóvia. A administração recebeu uma instrução clara: estava categoricamente proibido de pintar, tal como aconteceu mais de 100 anos antes, no regime czarista russo, ao póprio Taras Shevchenko, que foi condenado ao serviço militar obrigatório com a clara menção real: «com a proibição de pintar e desenhar». 

Pedido de clemência, endereçado ao Tribunal Supremo da Ucrânia Soviética,
em abril de 1966, por parte da classe artística ucraniana. Em vão.

Apesar da reação negativa da sociedade e das cartas coletivas que expressavam esperança no “espírito humanitário das leis soviéticas”, as purgas continuaram. A operação especial do KGB de 1965 tinha como objectivo intimidar os dissidentes e impedir a disseminação de ideias livres. No entanto, os documentos de arquivo comprovam que a tentativa de suprimir o movimento levou à sua radicalização e internacionalização.

Fonte: Arquivo Estatal do Serviço de Segurança da Ucrânia, fundo 16, descrição 1, processo 952; Direção do SBU na região de Ivano-Frankivsk, processo 8311-p; Direção do SBU na região de Lviv, processo 20227-p.

segunda-feira, junho 23, 2025

Os crimes do comunismo soviético: as táticas da «terra queimada»

A 8ª Divisão de Infantaria da Guarda «Bandeira Vermelha» do Exército Vermelho, sob o comando do general Vasily Revyakin, queimou, em dezembro de 1941, 59 localidades, aldeias, vilas e assentamentos da União Soviética. 

As vilas, cujos nomes são sublinhadas na carta, endereçada em dezembro de 1941 ao Conselho Militar do 16º Exército do RKKA, foram completamente queimadas. Outras, possuem o marco percentual das casas queimadas: 60%, 25%, outras ainda foram queimadas apenas parcialmente, 20 casas aqui, 10 alí...

A ação soviética, em teoria, era criada para garantir que as unidades de Wehrmacht não tenham locais para se aquartelar. Na realidade, apenas condenava à morte os próprios camponeses russos, pois enquanto os soldados e oficiais do Wehrmacht poderiam se alojar em qualquer localidade e em qualquer casa, os camponeses não tinham alternativa e iriam morrer de fome e frio, uma morte bastante dolorosa.

Aparentemente, o acesso público à estes documentos foi banido na rússia até 2040, passando 99 anos após os acontecimentos históricos. 

A 8ª Divisão de Infantaria foi formada em junho-agosto de 1941 como a parte da 316ª Divisão de Infantaria, composta por residentes do Cazaquistão e do Quirguistão. Tornou-se famosa nas batalhas pelo Moscovo/ou, combatendo as unidades avançadas do Grupo de Exércitos Centro do Wehrmacht em outubro e novembro de 1941. A Divisão se tornou conhecida na mitologia militar soviética devido ao mito de «28 homens de Panfilov» – a morte heróica dos 28 combatentes da 316ª Divisão do RKKA em novembro de 1941, contendo o avanço alemão na vila de Dubosekovo. Batalha que nunca aconteceu e foi inteiramente inventada pela propaganda militar soviética (como atesta o relatório elaborado na base de investigação fatual, assinado em 10 de maio de 1948 pelo Procurador-chefe militar das forças armadas da URSS, Nikolai Afanasyev). 

Faça click para ler o caso dos «28 homens de Panfilov»

A investigação revelou-se necessária porque desde 1942 surgiram a aparecerem vivos os militares pertencentes aos ditos “28 homens do Panfilov”, que foram dados como mortos. Quando apareceu vivo o sétimo “ressuscitado”, começou a investigação formal. Os resultados foram entregues ao todo-poderoso Andrei Zhdanov, o Secretário de Ideologia do Comité Central do PCUS.

domingo, junho 22, 2025

Os retornados ucranianos: da Argentina peronista à Ucrânia comunista

Nos meados da década de 1950, principalmente após a morte do Estaline, a União Soviética redobrou os esforços para atrair à URSS os emigrantes da dita emigração «económica», os que emigraram à procura de uma vida melhor, alguns deles pertencendo aos circúitos da esquerda. 

Assim, no biénio de 1954-56 só a região ucraniana de Volyn recebeu 1370 retornados, ou na linguagem soviética, usada pelo KGB, os «re-emigrantes», divididos de seguinte forma pelo país da proveniência: 

  • Argentina: 1166 pessoas;
  • Brasil: 40 pessoas;
  • Canadá: 77 pessoas;
  • Paraguai: 16 pessoas;
  • Uruguai: 71 pessoa. 

Naturalmente, KGB não perdeu o tempo, passando vigiar de perto todos estes «alvos operativos». Para o efeito, a secreta soviética recrutou 21 agente entre os próprios retornados (17 deles somente em 1956), outros 18 cidadãos foram recrutados entre a comunidade local, para espiar os recém-chegados. No total, KGB usava um pequeno exército de 127 agentes seus, somente para controlar os retornados em Volyn. Embora além de Volyn os retornados viviam nas regiões ucranianas de Chernivtsi, Dnipropretrovsk, Kharkiv, Kherson, Kyiv, Luhansk, Lviv, Odessa, Rivne, Staline (Donetsk), Stanislaviv (Ivano-Frankivsk) e Ternopil. 

Informe, 22.IX.1956 / declassificado pelo SBU em junho de 2013

Interessado em conseguir atrair o número máximo de re-emigrantes, o Estado soviético tentava, de uma certa forma, acarinhar estas pessoas, oferecendo lhes algum tipo de alojamento decente, empregos razoavelmente bem renumerados e mesmo alguns subsídios monetários. Tudo isso para que o choque, entre as expetativas ideológicas e a realidade soviética não seja tão abrupto. 

No entanto, já em 1956-58, entre os retornados, principalmente da Argentina, surge um movimento considerável de pessoas, rapidamente desencantadas com a realidade comunista, desejosos de voltar à Argentina. Algo que o estado soviético não queria permitir, usando diversos meios, ao alcance do KGB, como forma de coagir os retornados. Geralmente, os operativos do KGB, através da sua rede de agentes e informadores identificavam aqueles que mais desejavam sair da URSS, pressionando essas pessoas para mudarem das suas ideias. Estando, na assim chamada, época de «degelo» de Khruschev, KGB não usava a violência física, mas uma série de técnicas e truques de persuasão. Por exemplo, num dos documentos internos, de 1959, o oficial do KGB encarregue destes casos, informava os seus superiores de que, serão empreendidos os esforços de persuadir um certo jovem ucranianos, nascido na Argentina à não voltar para o seu país natal. Caso este recusar à assinar uma declaração formal neste sentido, KGB planeava pressionar o seu pai para declarar que o menino se encontrava sob o «efeito negativo dos funcionários de embaixada aregentina», que alegadamente manipulavam a vontade do jovem.

Declaração de 28-02-1959, «totalmente secreto», 2º exemplar

Tudo, para mais tarde apresentar ao Cônsul Geral da Argentina em Moscovo, «Davila» ou «Pietropaolo» (não se sabe se é a mesma pessoa, ou são duas, possivelmente nas cadências dos embaixadores Emilio Donato del Carril e Leopoldo Bravo), como a prova do que os retornados estão muito felizes na URSS e o seu desejo de voltar à Argentina deve ser ignorado. Numa outra passagem o oficial do KGB propõe enviar à embaixada da Argentina em Moscovo o agente «Dalekiy», emigrante ucraniano que antes de 1941 tinha posições mais «nacionalistas», mas depois, ainda na Argentina, se transformou num «progressista», isso é, pró-soviético. O ex-agente (por alguma razão o KGB decidiu de o colocar fora da sua rede formal) deveria tentar persuadir os diplomatas argentinos do que todos os retornados que desejam voltar à Argentina «simplesmente não queriam trabalhar!» Não se deve procurar a lógica formal nessa narativa soviética, pois é evidente, que os ditos re-emigrantes ucranianos estavam trabalhando na Ucrânia (dado que a legislação soviética, proibia o dito «parasitismo», isso é, a ausência de um emprego fornmal), possuindo os empregos, ganhando, dessa forma, o sustento pessoal e familiar.

Para servir de justificativa da viagem do agente «Dalekiy» ao Moscovo, essa foi legendada como a sua visita ao «Comité de Todos os Eslavos da União Soviética» (1941-1962), uma organização de fachada do NKVD-MGB-KGB, fundada com aval do próprio Estaline em 1941, com a tarefa de «unir todos os eslavos na luta contra o nazismo e o fascismo». 

Capa da revista «Slavyane» (Eslavos), publicada pelo Comité, maio de 1945

O retornado Petró Schagan, residente em Kharkiv, pelo menos desde 1958-59 estava na mira do KGB como a pessoa que pretendia voltar à Argentina e à quem as autoridades soviéticas não pretendiam dar essa permissão. Juntamente com um outro re-emigrante, Mykhaylo Indyk, os dois eram seguidos de perto pelos agentes e informadores do KGB, nomeadamente a agente «Lyuba». O KGB os via como uma célula sibversiva e até lhes atribuiu o nome próprio, «Os Fugitivos», classificando os dois retornados como «aqueles que mostram a hostilidade, nutrindo as intenções de imigração». 

Outro dos retornados inconformados com a realidade soviética era Ivan Kotsyumbas, ucraniano nascido em 1923, que após voltar à sua amada Ucrânia trabalhava em Lviv, como torneeiro, numa fábrica secreta, chamada simplesmente de «caixa postal número 125». Dessa forma, na União Soviética eram designadas as fábricas ligadas, mesmo que apenas parcialmente, ao setor da defesa. Em vez de ter o nome pomposo do tipo «Fábrica de calochas Vitória do Comunismo» ou «Cooperativa de botas de feltro Camaradas Lenine e Estaline», as unidades fabris do setor armamentista eram designdas apenas com o número da caixa postal, através do qual recebiam a sua correspondência oficial. 

Operário qualificado, Ivan Kotsyumbas, era razoavelmente bem tratado pelas autoridades soviéticas. Além de trabalhar na fábrica ligada à defesa, e como tal, mais próspera do que as unidades viradas à desinteressante «economia popular», Kotsyumbas vivia num «apartamento bem equipado», embora partilhado como o filho bebê Ivan (Juan Carlos), esposa Anna e a sua velha mãe, o informe do KGB não preservou nos o nome da senhora. As autoridades, possivelmente municipais, chegaram de lhe atribuir uma espécie de subsídio, embora pago uma única vez, no valor de 1200 rublos (ao câmbio oficial soviético cerca de 204 dólares americanos da época ou seja $2,255.91 em 2025).

Apesar de toda essa fartazana soviética, já em novembro de 1956 Ivan Kotsyumbas visitou a embaixada da Argentina em Moscovo, após disso, pediu, por escrito, ao Ministério do Interior (na época já separado do KGB), emitir-lhe, assim como aos seus familiares, os documentos de viagem que permitissem o regresso à Argentina. O seu desejo de sair da URSS argumentou pelos «salários baixos, dificuldades financeiras, hábitos de vida e do clima da Argentina». Como se pode calcular, KGB não ficou nada contente com toda essa situação, deixando sem resposta o pedido do nosso retornado. Não se sabe se os chekistas exerceram algum tipo de coersão sobre Kotsyumbas. Única certeza que podemos ter, é que nem ele, nem a família foram deixados à sair da União Soviética, carinhosamente chamada pelos ucranianos de «cadeia dos povos» ou «prisão das nações».

Juan-Carlos Kotsyumbas, década de 1970

O jovem Juan-Carlos Kotsyumbas, nascido em 1955, se tornou um dos primeiros roqueiros da Ucrânia ainda soviética, foi o batarista e vocalista da banda de rock «Super Vuyki» (ou simplesmente «Vuyki»), o primeiro grupo de rock da história da música ucraniana. Os «Super Vuyki», foi fundado em 1975, quando este estilo musical era muito mal visto, e na maioria dos casos simplesmente proibido e perseguido pelas autoridades soviéticas. O grupo era bastante popular entre a comunidade hippie não somente da Ucrânia, mas também no sul da rússia, onde costumavam tocar. 

Juan-Carlos Kotsyumbas, primeiro à esquerda

Infelizmente, como muitos músicos e ainda mais, os roqueiros da sua geração, Juan Carlos, conhecido no meio underground de Lviv como “Carlo” ou “Katsamonya”, cedo entrou no mundo dos excessos, acabando por falecer, vítima de uma overdose, em novembro de 1984, aos 29 anos de idade. O seu pai faleceu um ano depois, também bastante jovem, aos 62, muito possivelmente abalado pela morte do seu filho único. 

A tumba do pai e filho Kotsyumbas no cemitério de Sykhiv em Lviv. Foto: Ihor Monchuk

Ivan Kotsyumbas, juntamente com Juan Carlos, que teve o seu nome sovietizado para a forma de «Carlos Ivanovich Kotsyumbas», estão sepultados, lado ao lado, no Sykhiv, um dos cemitérios históricos da cidade de Lviv. A foto não deixa mentir, a sepultura familiar está bastante bem tratada e arrojada. Significa que a sua memória não foi esquecida e ainda hoje há quem cuida do espojo de dois ucranianos simples, que tiveram o azar de entrar nos dentes do moinho histórico, que tanto castigou a Ucrânia e a sua gente durante todo o século XX, e continua, à castigar no século XXI. 

No entanto a história não para nem por um minuto. Chegamos ao ano de 1962. A União Soviética sobreviveu a Crise dos mísseis de Cuba (também conhecido como a Crise de Outubro ou Crise do Caribe). Prosseguindo com a sua política de «degelo», Khruschev permite a publicação do conto «Um dia na vida de Ivan Denisovich», de Alexander Solzhenitsin, que teve o efeito de uma bomba atómica na sociedade soviética. A primeira denúncia pública dos horrores do GULAG e do estalinismo comunista, ainda mais oficialmente publicado na URSS. 

Tudo isso, muito naturalmente, não trava o KGB na sua luta ferroz e constante aos retornados ucranianos. Em abril de 1962, o KGB, através do agente «Sasha», recebe a informação do que, o já conhecido, por eles e agora por nos, Petró Schagan, de Kharkiv, pretende viajar à Moscovo, para se manifestar publicamente contra a recusa soviética de deixar os retornados de voltar à Argentina. Mais uma vez, KGB se recusa de se dar por vencida e estabelece os objetivos estratégicos: «tomar as medidas de redobramento da vigilância aos re-imigrantes com as tendências de emigração e impedir a sua viagem ao Moscovo ou ao Kyiv para evitar uma provocação possível». 

Informe aos chefes do KGB de todas as regiões da Ucrânia, 6-04-1962
/ declassificado em junho de 2013

No final da década de 1950, o KGB estabelecia os protocolos de tratamento aos cidadãos, que pretendiam visitar as embaixadas ou consulados estrangeiros em Moscovo: «deter, sob pretexto plausível, no local da residência ou no meio da viagem, impedindo a sua chegada ao Moscovo». Assim, em agosto de 1958, duas senhoras ucranianas re-emigrantes, Paulina Orenchuk e Ustynya Pylypchuk tentaram visitar a embaixada da Argentina em Moscovo. Foram detidas pela polícia, que os levou à esquadra, onde levaram o sermão, chamado «conversa explicativa». Não convencidas, as senhoras, nos próximos três dias tentaram exercer o seu direito de serem atendidas numa embaixada do país, que consideram também como seu. No fim, foram simplesmente expulsas de Moscovo, às custas do KGB. Casos do género eram vários, alguns dos retornados conseguiam ligar para a embaixada/consulado, relatando a sua situação. Naturalmente, os diplomatas argentinos, mesmo por muita vontade, não podiam fazer quase nada, a União Soviética continuava ser uma «cadeia dos povos», que não aceitava libertar nenhuma presa, apanhada nas teias do seu esforço propagandista. Imaginem só, se os retornados voltariam à Argentina e contassem publicamente como, realmente, era a vida no «primeiro país socialista». Seria um escàndalo e KGB estava lá para os evitar. À qualquer custo. 

Pedro Conde Magdaleno, o adido operário da Argentina na URSS (1947-48), foi o
autor do livro-denúncia «Por que os espanhóis exilados na URSS fogem em baús?», 1951.

O já lembrado aqui Solzhenitsin (dissidente, nacionalista e monarquista xenófobo russo), memorizou estes tempos, com o título da sua biografia, «O carvalho e o bezerro», evocando a luta desesperada de um bezerro, na tentativa pouco realista de derrubar o carvalho. Parecia coisa completamente inútil e desesperante. Os dissidentes nunca derrubarim KGB. Os retornados ucranianos nunca mais voltariam à Argentina. No entanto, quando foi menos esperado, o «colosso com pés de barro», a União Soviética tombou e se desfez em pedaços. Ucrânia sentiu a sua chance histórica e proclamou de imediato, a restauração da Independência nacional. Algo que salvou o país do abismo em 1991 e permitiu, apesar de tudo, sobreviver nos dias de hoje. Embora isso é uma outra história.

Agradecimentos:

  • Arquivo Estatal Setorial do SBU
  • Historiador ucraniano Eduard Andrusenko
  • A tumba familiar dos Kotsyumbas foi encontrada pelo necropolista ucraniano Ihor Monchuk, autor da foto.

sábado, junho 21, 2025

As campanhas de desinformação criadas pelos serviços secretos soviéticos e russos

Um cartaz de 1986 das Filipinas mostra o sucesso da campanha para culpar os EUA pela SIDA/VIH. Foto: Peter Charlesworth/Getty Images

Durante mais de meio-século, o KGB soviético orquestrava e dirigia várias campanhas de desinformação, as chamadas «medidas ativas» da era pré-Internet, usadas em todo o mundo, mas pensadas, sobretudo, para influenciar o público ocidental. Foi o KGB que lançou a campanha global de desinformação, alegando que o VIH-SIDA tinha sido descoberto no Pentágono.

A conversa com Dr. Todd Leventhal sobre as campanhas de desinformação soviéticas na era pré-Internet, as «medidas ativas», usadas pelo KGB em todo o mundo, como os Estados Unidos as combateram na década de 1980 e deixaram de o fazer. Também sobre paralelos históricos que nos vêm à mente no contexto moderno. 

O nosso interlocutor tem cerca de 25 anos de experiência em desinformação soviética, russa, irlandesa e de outros países, teorias da conspiração e histórias falsas. Trabalhou para a Agência de Informação dos EUA (USIA) e para o Departamento de Estado dos EUA. Foi autor e coautor de vários relatórios nesta área, entre os quais “Soviet Active Measures in the Postwar Era” in 1992 and “Rumors of Child Organ Trafficking: A Modern Urban Legend” in 1994. 

Após a sua reforma, o Sr. Leventhal desempenhou as funções de Consultor Sénior para a Desinformação sobre a Rússia na Divisão de Envolvimento Global do Estado (GEC) do Departamento de Estado até 2022. 

— Fale-nos dos exemplos mais memoráveis ​​de desinformação durante o seu trabalho. 

Eu era especialista em desinformação soviética e, mais tarde, russa, iraquiana e em qualquer outra desinformação estrangeira que se espalhasse pelo mundo. Os casos mais poderosos de desinformação que encontrei foram a história sobre a criação artificial da SIDA-AIDS nos Estados Unidos, histórias sobre o alegado rapto de crianças para transplantes de órgãos e teorias da conspiração sobre os ataques do 11 de Setembro. 

A desinformação baseia-se frequentemente em histórias que ameaçam os valores mais profundos das pessoas, causando medo, raiva e ressentimento, e aumentando o ódio e o confronto entre diferentes comunidades, grupos sociais ou países. 

Por exemplo, durante a Guerra do Golfo de 1991, espalharam-se pelos territórios palestinianos rumores de que soldados americanos em Meca e Medina tinham bebido cerveja no túmulo do Profeta e caminhado nus nestas duas cidades holandesas do Islão. 

É exatamente este tipo de história sobre a violação de normas sagradas que atrai muita atenção e indignação. Claro que não era verdade. Não havia permissão para soldados americanos perto de Meca ou Medina. Mas as pessoas da região acreditaram, repetiram e contaram a outros esta história porque violava os seus valores mais sagrados. 

Outro exemplo é a falsa história de que os americanos terão viajado para a América Latina para adoptar ou raptar crianças pequenas e bebés, a fim de os matar e extrair os seus órgãos para transplantes nos seus filhos americanos nascidos naturalmente. Diferentes versões da história do transplante de órgãos em crianças espalharam-se pelo mundo. Começaram logo após a invenção dos medicamentos que tornaram os transplantes de órgãos possíveis na década de 1980. 

O governo soviético espalhava frequentemente histórias de terror nas quais as pessoas acreditavam e estavam dispostas a aceitar. Quanto mais terríveis eram os detalhes destes rumores nas histórias, mais as pessoas acreditavam, porque as coisas horríveis atraem a atenção. 

As novas tecnologias criam espaço para rumores, manipulação e desinformação. Por exemplo, na década de 1970, muitas pessoas tinham inicialmente medo do micro-ondas, que se tornou comum nesta época. Estes receios deram origem à história com o rumor de que alguém tentou secar um gato molhado no micro-ondas e este explodiu. Tanto quanto sei, isso nunca aconteceu, mas já ouvi esta história, assim como muitas outras. Foi popular porque expressava, sob a forma de uma história fácil de repetir, os receios sobre o que era uma tecnologia nova para muitas pessoas na década de 1970. 

— E quanto à história do rapto de crianças «para obtenção de órgãos»? 

— Assumiu diferentes formas nos diferentes países, mas geralmente envolvia os ricos a explorar os pobres. Por exemplo, um amigo meu da República Checa contou-me que ouviu do pai, na década de 1980, que os alemães vinham ao seu país roubar crianças. Os checos não gostavam dos alemães desde a Segunda Guerra Mundial, pelo que esta história rapidamente ganhou popularidade. 

(No período pós-soviético, surgiram rumores na rússia e na Ucrânia de que os americanos adotavam crianças para extração de órgãos. Os cidadãos pós-soviéticos não conseguiam compreender porque outra razão os americanos adoptariam as crianças indesejáveis, abandonadas, com problemas físicos. A dominação comunista, que durou mais de 70 anos, aniquilou os sentimentos da bondade ou de compaixão como os valores-base da sociedade). Na comunidade negra dos Estados Unidos, corria um falso rumor afirmando que os negros seriam mortos num hospital para que os seus órgãos pudessem ser transplantados para as pessoas brancas, para salvar as suas vidas. 

As pessoas pertencentes a um determinado grupo que se sentem discriminadas são mais propensas a acreditar em várias teorias da conspiração sobre determinados grupos ou forças poderosas que tentam prejudicá-las. O governo dos EUA tem sido frequentemente visto como uma força desse tipo. 

Estas histórias são baseadas no medo e incitam ao ódio. As pessoas que acreditam em teorias da conspiração tendem a acreditar em teorias diferentes, mesmo que se contradigam. 

Mitos sobre o VIH-SIDA e as armas biológicas

— Que temas da propaganda soviética «herdou» a propaganda russa? 

As histórias falsas sobre o desenvolvimento de armas biológicas pelos Estados Unidos sempre foram um tema favorito dos serviços de informação soviéticos, porque estas armas assustam as pessoas. Os russos ainda exploram este tema, espalhando mentiras sobre a alegada operação de laboratórios biológicos americanos na Ucrânia. 

Desinformação sobre os laboratórios biológicos americanos na Ucrânia espalhada pelo Ministério da Defesa russo em março de 2022

Na década de 1980, a desinformação soviética afirmava que o VIH-SIDA tinha sido inventado como arma biológica em Fort Detrick (um laboratório do Exército dos EUA localizado em Frederick, Maryland, a 64 quilómetros de Washington, D.C.). Este laboratório foi o centro de desenvolvimento e testes de armas biológicas de 1943 a 1969, até que o presidente Nixon anunciou a sua destruição nos Estados Unidos. 

Em 1983, as agências de informação soviéticas publicaram uma notícia falsa no jornal indiano «Patriot» sobre a descoberta do VIH-SIDA como arma biológica. Como soubemos mais tarde por desertores soviéticos, o jornal foi fundado em Nova Deli por agentes do KGB. Conheci um homem que o fez e que mais tarde fugiu para o Ocidente. Esta publicação fazia parte de uma campanha regional contra o Paquistão. O artigo continha uma mentira descarada de que o Paquistão estava a usar armas biológicas contra a Índia. 

Declaração nº 2955 do KGB [à Segurança Estatal Búlgara], 7 de setembro de 1985.
Fonte: CDDAABCSSISBNA-R, Fundo (F.) 9, Opis (Op.) 4, A.E. 663, pp. 208-9.

Dois anos depois, o KGB lançou uma campanha global de desinformação, alegando que o VIH-SIDA tinha sido descoberto no Pentágono durante experiências com armas biológicas. Sabemos exatamente o que aconteceu através de investigadores que encontraram documentos nos arquivos do serviço de informações búlgaro. Os russos referiram o artigo mencionado no jornal «Patriot» e uma publicação na publicação soviética «Literaturnaya Gazeta», que o KGB utilizava frequentemente para disseminar desinformação (o artigo de Valentin Zapyevalov, «Pánico no Ocidente, ou o que está por detrás da sensação da AIDS», publicado a 30 de outubro de 1985). 

«Literaturnaya Gazeta», 30 de outubro de 1985

Esta publicação fazia parte de uma campanha de desinformação do KGB com o objetivo de desacreditar os Estados Unidos no panorama internacional. Afirmava que o vírus da imunodeficiência humana tinha sido criado nos Estados Unidos no âmbito de um programa de desenvolvimento de armas biológicas. 

A notícia foi publicada pela agência de notícias soviética «Novosti» (agência de Imprensa «Novosti», APN — uma organização de propaganda fundada em 1961, que fazia parte da Primeira Direcção Principal do KGB da URSS, que se dedicava a operações de inteligência e especiais no estrangeiro). 

O serviço secreto da Alemanha de Leste, Stasi, divulgou esta história, acrescentando pormenores: as pessoas infectadas pelo VIH-SIDA terão fugido do laboratório de Fort Detrick e chegado à grande cidade mais próxima — Nova Iorque, onde a SIDA foi descoberta pela primeira vez. A história, que foi divulgada pela Stasi, continha apenas alguns factos. No entanto, espalhou-se massivamente, pois continha informações sensacionalistas, embora falsas, sobre a origem de um novo perigo que ninguém conhecia na altura. É assim que funciona a publicidade. Se uma farsa contém cinco factos, três verdadeiros e dois fictícios, é mais fácil acreditar. 

Medidas Ativas

— Como descobriu que esses rumores e histórias eram fruto dos serviços secretos soviéticos? 

Os desertores soviéticos e do bloco soviético falaram-nos sobre isso. Por exemplo, Ladislav Bittman, que tinha sido vice-chefe do departamento de desinformação do serviço de informações estrangeiras da Checoslováquia de 1964 à 1966, contou ao governo americano as suas atividades, realizadas em cooperação com o KGB soviético, quando desertou em 1968. Posteriormente, escreveu um livro sobre as suas ações, chamado «The Deception Game», publicado em 1972. O seu livro dedicado às operações dos StB/KGB no Brasil na década de 1960, «A KGB e a Desinformação Soviética — Uma Visão Em Primeira Mão», foi publicado no Brasil em 2019. 

Consultar o livro

Outro desertor, Stanislav Levchenko, chefiou o departamento de medidas ativas da residência do KGB em Tóquio, no Japão. Desertou em 1979. As suas revelações, e outras, levaram a administração Reagan a criar o Grupo de Trabalho de Medidas Ativas Interagências do governo americano em 1981 para rastrear, expor e combater a desinformação soviética e outras operações de influência política. 

Consultar o livro

Em 1992, Vasily Mitrokhin, um major reformado do KGB que tinha sido arquivista sénior no arquivo de informações estrangeiras do KGB de 1972 a 1984, desertou para o Reino Unido. Revelou ter feito notas secretas sobre milhares de documentos secretos do KGB, que os serviços de informação britânicos transportaram secretamente para o Ocidente. Estas notas constituíram a base dos seus livros posteriores sobre as actividades do KGB em todo o mundo, particularmente no Ocidente, e tornaram-se manuais sobre a desinformação soviética e as operações de influência secreta para os serviços de informação ocidentais. 

Certificado, foto oficial e identificação do oficial do KGB do Mitrokhin
Imagem: Amazon

Posteriormente, Mitrokhin editou um dicionário de termos de inteligência do KGB. Inclui o termo «medidas ativas», que o KGB utilizava para se referir a operações secretas de influência estrangeira. Estas consistiam em atividades destinadas a prejudicar o inimigo, enfraquecê-lo através da agitação da situação, fomentar controvérsias, aumentar a desconfiança nos governos visados ​​e destruir a reputação dos seus representantes. Podem incluir qualquer coisa que atenda ao objetivo geral.

domingo, maio 25, 2025

Anti-semitismo estatal soviético: KGB à procura do sionismo

Imagens do filme anti-semita soviético «O oculto e claro
(Os Objectivos e os Actos dos Sionistas)», Moscovo, 1973

As décadas de 1960-1990 foram marcadas, na União Soviética, pela luta implacável contra o sionismo e «cosmopolitismo sem raízes». Qualquer manifestação da religiosidade ou de outros elementos de judaismo, eram perseguidos de uma forma bastante paranóica. 

A propaganda estatal soviética rotulou a religião judaica como a «base ideológica do sionismo». «O judaísmo, tal como o sionismo, é uma ideologia reaccionária e nacionalista, imbuída de misticismo e dirigida contra as tarefas revolucionárias internacionais do proletariado», rezava o livro soviético «Judaísmo sem adornos», citado no artigo histórico da página ucraniana Verdade Histórica. 

A minúcia do KGB no combate aos «agentes do sionismo» roçava muitas vezes a paranóia. Sinais de propaganda hostil foram procurados e encontrados até em caixas de doces e decorações de árvores de Natal. 

«Miragem deliriosa»: propaganda visual soviética anti-Israel.
Revista satírica «Crocodilo», 1970.

Entre as maiores «ameaças a toda a humanidade progressista», com que a propaganda da URSS do pós-guerra assustava persistentemente os seus próprios cidadãos, o sionismo ocupava um dos lugares de liderança. A ideologia e o movimento político que visavam o regresso dos judeus à sua terra natal histórica adquiriram características demoníacas na boca das autoridades soviéticas. «Reacionário», «agressivo», «racismo», «imperialismo» e, claro, «fascismo» — estes rótulos estavam abundantemente espalhados em cada um dos milhares de artigos, panfletos e livros da época dedicados ao «nacionalismo burguês judaico». 

«Sionismo vs fraternidade dos trabalhadores». 
Cartoon do livro de Trokhym Kichko «Judaísmo sem adornos», 1963.

Com igual zelo, os porta-vozes do regime soviético «desmascararam» tanto a política de Israel (apoiando constantemente os países árabes que lhe eram hostis) como os verdadeiros e supostos apoiantes do sionismo entre os seus próprios cidadãos. 

O rótulo «sionista» podia ser colado à qualquer cidadão de origem judia, independentemente das suas opiniões. As autoridades sublinharam diligentemente que «não há anti-semitismo na URSS» e até criaram um «comité antisionista», formado pelos «judeus domesticados», uma parte da elite judaica, leal ao regime comunista. 

«Comité anti-sionista do público soviético»

As campanhas «anti-sionistas» soviéticas tornaram-se particularmente agudas durante a Crise do Suez (1956-1957), a Guerra dos Seis Dias (1967) e a Guerra do Yom Kippur (1973), e no contexto da luta dos judeus soviéticos pelo seu direito de emigrar. 

Hoje falaremos de cinco casos mais caricatos em que a caça aos «sionistas» tomou na Ucrânia soviética. Todas as histórias remontam ao reinado de Leonid Brejnev e foram encontradas em arquivos do KGB da RSS da Ucrânia, que estão atualmente armazenados no Arquivo Setorial Estatal do SBU. 

Os documentos são, na sua maioria, em forma de chamadas «mensagens informativas» em que o KGB reportava à alta direção do Partido Comunista da Ucrânia sobre acontecimentos extraordinários que ocorriam na república. 

1. 1968. Na cidade ucraniana de Odessa, o professor local e guia turístico Arnold Vdovets (1937) é detido e preso preventivamente. Vendia, dentro da sinagoga, e ao preço de 50 copeque, as «emblemas sionistas» metálicas.


O documento não especifica o aspeto destas emblemas. Muito provavelmente eram estrelas de seis pontas (estrela «Magen David»). Este símbolo, que tem sido utilizado sob vários nomes por muitos povos há milénios e está localizado na bandeira de Israel, causava uma «alergia» particularmente aguda no regime soviético. 

As autoridades expuseram um «grupo criminoso» de Odessa-Leningrado pela produção e venda de emblemas «sionistas». Foi instaurado um processo-crime contra Vdovets nos termos do art. 148.º do Código Penal da Ucrânia soviética — «Pratica da atividade comercial ilegal», punível de até três anos de prisão efetiva. Mais tarde, e com a ordem expressa do Procurador-geral da URSS, Vdovets foi transferido de Odessa para o Leninegrado, onde o caso seria investigado e possivelmente julgado. O seu desfecho e o destino posterior dos praticipantes é desconhecido. 

O documento do KGB sublinha que não havia nada de «antissoviético» nas ações dos detidos — é puro comércio. Entretanto, na URSS houve casos em que todos compreendiam: uma pessoa era acusada de crimes económicos, mas o verdadeiro motivo da perseguição era a «nocividade ideológica» daquilo que se vendia ou fabricava. 

Não é por acaso que o texto realça que as emblemas eram «sionistas». Por exemplo, na década de 1970-80, centenas de pessoas surdas e mudas (ou que se passavam por estas) vendiam, nos comboios suburbanos os calendários de bolso com retratos de Estaline (e também as imagens eróticas) — dificilmente corriam o risco de ir para a prisão por causa do retrato de Estaline, como aconteceu com Arnold Vdovets.

2. O KGB e os cidadãos vigilantes podiam encontrar «propaganda sionista» não só nas emblemas, mas também nos objectos completamente inesperados. Aconteceu, por exemplo, na cidade mineira de Shakhtarsk, na região de Donetsk. 

O ano novo de 1981 aproximava-se, e as decorações «natalinas» para árvores de Ano Novo apareciam nas prateleiras das lojas locais, como é habitual. Os cidadãos vigilantes repararam numa «estrela de seis pontas semelhante ao símbolo sionista» no brinquedo «Cometa».

A venda de «Cometas» foi interrompida. A fábrica de Terebovlya, na região de Ternopil, onde foi feito o brinquedo «destrutivo», foi investigada pelo departamento local do KGB. Os agentes descobriram onde foram entregues as decorações de Ano Novo e enviaram informações aos colegas de outras regiões.

Um dos sites de classificados está a vender um brinquedo soviético «Cometa» com uma estrela de seis pontas. Talvez os produtos da fábrica de Terebovlya que indignaram os habitantes de Shakhtarsk fossem exatamente iguais.

3. A fábrica de chocolate «Svitoch», de Lviv, opera há quase um século e meio. Para celebrar o aniversário da revolução bolchevique de outubro de 1917, em 1967 a fábrica lançou um lote especial de doces «Leite de pássaro». Os rebuçados com o novo design de caixa foram chamadas «Fogo de artifício festivo». Estaria tudo bem, até que alguém (não se sabe se foi o próprio KGB ou «cidadãos vigilantes») reparou que o desenho no pacote repetia o desenho de um selo postal israelita. 

Se comparar duas fotos do ficheiro, a semelhança não é óbvia. Mas tudo isto é uma cópia a preto e branco de baixa qualidade. Se encontrar o mesmo selo na Internet, torna-se claro: a imagem de fogo de artifício é realmente a mesma. 

O design de doces (à esquerda) e o selo Israelita (à direita)

O selo original foi emitido pelos Correios de Israel em 1966 para o Dia da Independência. Foi uma série inteira desenhada pelo famoso artista israelita Eliezer Weishoff. Ele é autor de centenas de cartazes, postais e selos, moedas e notas, logótipos, ilustrações para livros infantis, monumentos e esculturas. Weishoff ainda está vivo, tem 87 anos. 

 Fontes: fineartamerica.com, cafepress.com

É o trabalho deste artista que vimos na editora, chamado «Fogo de artifício sobre Tel Aviv». Está numa base de dados de imagens que várias empresas comerciais podem imprimir na sua t-shirt, almofada, caneca e assim por diante. 

Há uma outra ligação ténue entre Weishoff à Ucrânia. É coautor do desenho da nota de 50 shekels de 1985. A nota retrata o escritor e Prémio Nobel Shmuel Yosef Agnon, que nasceu em Buchach, vila na atual região ucraniana de Ternopil. 

O Prémio Nobel Shmuel Yosef Agnon, natural de Buchach,
região de Ternopil, é destacado na nota de 50 shekels. Imagem: wikipedia

Mas voltemos à Direcção do KGB de Lviv. O artista desenhador da caixa de doces, Petró Chekanov, foi trazido ao KGB, onde confessou tudo: sim, um amigo judeu polaco enviou-lhe exatamente este selo israelita para a sua coleção. O artista gostou do desenho e decidiu pedi-lo «emprestado». Exclusivamente com fins lucrativos e, como consta no documento, «sem qualquer intenção». 

Qual poderá ser a tal «intenção» neste caso? Porque razão o caso interessou ao KGB em primeiro lugar? Seguramente o KGB não estava preocupado com os direitos de propriedade intelectual de Eliezer Weishoff. Obviamente, a questão era que o selo não era um selo qualquer, mas sim, um selo israelita. Embora não existia nenhuma imagem «criminosa» como a estrela de seis pontas no desenho, o KGB mesmo assim teve de perguntar se Chekanov estava de alguma forma secretamente a pretender promover ideias sionistas. Aparentemente, o artista de Lviv não foi mais afetado neste caso. Ao contrário de Weishoff, a Google não sabe nada sobre o destino posterior do Chekanov. 

4. Os postais israelitas que vinham de Israel para cidadãos soviéticos. Em 1970, os funcionários do KGB, que violavam o segredo da correspondência nas estações de correio, reuniram uma «colecção» inteira de panfletos «de natureza militarista, exortando o poder do exército israelita». 

Informe do KGB sobre os «postais de caráter militarista» com anexo de 18 postais

Um dos postais, retirados, ilegalmente, pelo KGB do correio

A maioria delas são fotos a cores de desfiles militares e de soldados das Tsahal/FDI na Velha Jerusalém, de que Israel assumiu o controlo muito recentemente — durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967. O conjunto incluía ainda um postal americano com a inscrição impressa: «Dos judeus dos EUA para os judeus da URSS. Não nos esquecemos de vós e não vos esqueceremos.» No verso, há sobretudo saudações escritas à mão por familiares, histórias sobre a vida em Israel e comentários sobre as fotos. Os originais destes postais estão armazenados no arquivo do SBU — o que significa que, na altura, não chegaram aos seus destinatários. 

«Querida Anna, Syoma e Khayechka!»

5. O judaísmo não foi formalmente proibido na URSS, mas os fiéis e o clero estavam constantemente sob pressão das autoridades. A propaganda soviética rotulou a religião judaica de «base ideológica do sionismo». 

«O judaísmo, tal como o sionismo, é uma ideologia reaccionária e nacionalista, imbuída de misticismo e dirigida contra as tarefas revolucionárias internacionais do proletariado», escreveu o publicista e candidato a ciências filosóficas Trokhym Kichko no seu livro «Judaísmo sem adornos» (1963). 

Na mesma obra, o autor queixa-se de que «a imprensa burguesa está a fazer alarido sobre o anti-semitismo fabricado e o encerramento 'administrativo' de sinagogas na União Soviética». 

Embora, foi precisamente este encerramento administrativo da sinagoga que ocorreu na cidade ucraniana de Mykolaiv em 1962. Era a única sinagoga em funcionamento em toda a região. O comité executivo regional cancelou o registo da comunidade religiosa.

Informe do KGB sobre cancelamento do registo da comunidade judaica de Mykolaiv

O relatório do KGB enfatizou que os membros da comunidade «apoiavam os fundamentos reacionários do judaísmo e incitavam tendências nacionalistas entre uma certa parte da população judaica». Durante vários anos consecutivos, os judeus de Mykolaiv tentaram devolver o registo da comunidade e retomar o funcionamento da sinagoga, mas tudo em vão. Depois, começam a reunir-se para orações nas casas dos representantes da comunidade. 

Tais reuniões (no judaísmo são designadas por minyans, e nos documentos do KGB eram designadas pelo termo pejorativo de «encontrões») eram, obviamente, proibidas na URSS. Além disso, como observam os chekistas, alguns dos participantes dos «encontrões» comentavam a política soviética no Médio Oriente sob «posições ideologicamente prejudiciais». 

Um dia, em 1968, a polícia e as autoridades locais organizam uma rusga numa «sinagoga ilegal». Estavam no local 35 pessoas. O ficheiro do SBU contém imagens das filmagens operacionais da rusga. 

Minyan na sinagoga de Mykolaiv

Os autores do documento realçam dois pontos. Primeiro, a comunidade recolheu donativos, que foram gastos (sem qualquer controlo estatal) para ajudar aos judeus necessitados. A criação de um fundo de caridade deste tipo, como consta no documento, supostamente enfatizava a separação dos judeus e «incitava neles tendências nacionalistas». Em segundo lugar, alguns dos participantes nos «encontrões» não eram crentes, pelo que a «sinagoga clandestina» era, ao mesmo tempo, uma espécie de «clube nacional». 

Informe do KGB sobre a «sinagoga clandestina»

Quatro organizadores dos «encontrões» (todos anciões com idades superiores aos 70 anos) foram responsabilizados administrativamente por «violar a legislação soviética sobre a separação entre a Igreja e o Estado». 

Como esclarece o investigador Viktor Voynalovych no seu artigo «Pressão às comunidades judaicas na Ucrânia nas décadas de 1950 e 1960», todos os quatro receberam multas de 50 rublos cada (valor equivalente aos 84,74 dólares americanos ao câmbio oficial soviético). O dinheiro e os bens apreendidos foram confiscados. A imprensa local escreveu sobre a exposição do «grupo de elementos clericais». 

O historiador Volodymyr Shchukin escreve que, no início da década de 1970, o minyan continuaram sendo organizados durante algum tempo, apesar da perseguição. Entretanto, devido à pressão e intimidação das autoridades por parte de familiares dos seus membros activos, as reuniões para orações conjuntas foram gradualmente cessando por completo. 

A sinagoga de Mykolaiv retomou as suas atividades em 1992, já após a proclamação da Independência da Ucrânia.

terça-feira, dezembro 28, 2021

Fundação memorial das repressões comunistas é proibida na Rússia

O Supremo Tribunal da Federação Russa ordenou a liquidação da Memorial International, uma das organizações de direitos humanos mais antigas e reverenciadas, que narrava a repressão política comunista e se tornou um símbolo da democratização russa à seguir do colapso da União Soviética. 

A razão formal reivindicada pelo Gabinete do Procurador Geral é a recusa de Memorial de colocar o rótulo do “agente estrangeiro” nas suas publicações. 

Mas no tribunal, foi finalmente dita a verdadeira razão para a eliminação de Memorial Internacional: o Gabinete do Procurador Geral afirma que organização estava interpretando incorretamente a história soviética, “criando uma visão enganadora da URSS como um estado terrorista”, “despeja as críticas sobre as autoridades do estado”. 

A decisão da Suprema Corte confirmou novamente que a história do terror político, organizada e efectuada pelo poder do Estado não, para a Rússia não é um tema acadêmico que se interessa apenas aos especialistas, mas um problema agudo da modernidade. Rússia é um país que precisa de uma compreensão honesta e conscienciosa do passado soviético; nisso é a chave do seu futuro. É impossível acreditar que a eliminação judicial do Memorial Internacional removerá esta questão da agenda. A memória das tragédias do passado é necessária à sociedade russa e pós-soviética. 

Memorial Internacional já informou que pretende recorrer da decisão do Supremo Tribunal russo, possivelmente apelando ao Tribunal Internacional dos Direitos Humanos. No entanto, no dia 29 de Dezembro o mais que provável que outro fecho espera o “Centro dos Direitos Humanos Memorial”, nas mãos do Tribunal de Moscovo. 

Como melhor descreveu a situação um dos internautas russos: “a vingança dos capangas de Estaline/Stalin leva irreversivelmente a uma nova catástrofe”.