sábado, julho 21, 2018

Ucrânia permite que Holanda inicie o processo criminal no caso de abate do voo MH-17

O Presidente da Ucrânia Petró Poroshenko assinou a lei sobre a ratificação do acordo com os Países Baixos da cooperação judicial internacional, que dará o direito à Holanda de organizar o processo no caso do abate do Boeing-777 do voo MH-17 na Donbas em 2014, informou o Presidente ucraniano.

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O acordo de julho de 2017 foi assinado pelo ministro da Justiça da Ucrânia, Pavló Petrenko, e pelo ministro da Segurança e Justiça dos Países Baixos, Stef Blok. Como explica o Ministério da Justiça da Ucrânia: “o documento assinado estipula que a Holanda tem competência para julgar as pessoas por crimes relacionados com abate do avião do voo MH-17”.

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O documento também estabelece que a acusação judicial de suspeitos ocorrerá num tribunal holandês – provavelmente em Haia.

Além disso, o acordo permite as audiências no modo de videoconferência. Aqueles que não podem ser extraditados para a Holanda, cumprirão as penas de prisão na Ucrânia. O Parlamento da Ucrânia ratificou o mesmo documento em 12 de julho de 2018, adotando a lei correspondente.
Os ditos "separatistas" à procura de algo valioso no local da queda do voo MH17
“Presidente Petró Poroshenko assinou a lei “Sobre a ratificação do Acordo entre Ucrânia e o Reino dos Países Baixos em matéria de cooperação jurídica internacional contra crimes relacionados ao abate da aeronave do MH-17 de Malaysian Airlines em 17 de julho de 2014” e “Sobre a implementação do acordo entre Ucrânia e o Reino dos Países Baixos em matéria de cooperação jurídica internacional em crimes relacionados ao abate do voo MH-17 da Malaysian Airlines em 17 de julho de 2014”, informa a página do presidente ucraniano.

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De acordo com o serviço de imprensa, a ratificação assegura a cooperação entre as autoridades competentes de ambos os países, define o procedimento e peculiaridades de desempenho das ações processuais específicas no âmbito de acordos para realizar um processo criminal eficaz de condenação judicial de pessoas envolvidas no abate da aeronave, no âmbito do sistema judicial dos Países Baixos.
Em particular, a lei define as características de entrega da Ucrânia à Holanda do processo criminal e a execução do pedido das autoridades competentes dos Países Baixos em assegurar a participação de um determinado acusado no processo judicial no território da Holanda em regime de videoconferência.

Jean-Claude drunker

A atmosfera em Bruxelas tornou-se, nos últimos tempos, uma reminiscência do final da era Brezhnev. Temos um sistema político dirigido por um aparato burocrático que – assim como na antiga URSS – serve para esconder as provas importantes. Especialmente quando se trata da saúde de seu líder supremo, Jean-Claude Juncker”.
AURORE BELOT/AFP/Getty Images
O beijo mais famoso foi dado pelo Brejnev ao Erich Honecker, líder da RDA, em 1979
Como estão a imaginar o pretexto próximo foram as tristes cenas protagonizadas pelo presidente da Comissão Europeia numa cerimónia da NATO, em que teve de ser amparado, entre outros, pelo primeiro-ministro de Portugal, e apesar de quando trazem um copo de água à Juncker todos sabem que é gin e de existirem os vídeos comprometedores:

Vem aqui a passagem mais política do texto de jornalista francês Jean Quatremer, que foi publicado na britânica The Spectator: “Os vídeos sugerem um homem manifestamente gravemente doente, incapaz de se mover sozinho. Em outras palavras, se levanta a questão de sua capacidade de governar. Não é por acaso que ele se tornou totalmente dependente de Martin Selmayr, seu ambicioso secretário-geral e ex-chefe de gabinete (e arquiteto de sua ascensão à chefia da UE). Não é de admirar que Juncker tenha rasgado as regras do serviço público europeu para colocar Selmayr no comando de todo o aparato [burocrático] de de 33.000 homens”.
Georg Wilhelm Friedrich Hegel: “A História nos ensina que a História não nos ensina nada”

sexta-feira, julho 20, 2018

Made in Ucrânia: morteiro lança-chamas de infantaria RPV-16

As duas instituições ucranianas da defesa, ambas a parte integrante da corporação estatal “UkrOboronProm”, primeiro desenvolveram e agora estão à produzir em série, os morteiros lança-chamas de infantaria RPV-16.

RPV-16 é uma arma termobárica, desenvolvida e produzida na Ucrânia pelo Instituto Estatal de Pesquisa Científica de Produtos Químicos de Kyiv, em cooperação com a fábrica estatal “Artem”, também de Kyiv, para o exército ucraniano e sob o Contrato estatal. Em 2017 o morteiro passou, com sucesso, os testes de polígono e no futuro próximo (espera-se que até o fim de 2018) será fornecido às unidades militares na linha da frente.
A especial granada reativa termobárica
O morteiro lança-chamas de infantaria está equipado com uma especial granada reativa que usa a mistura termobárica especial. A arma atinge as forças inimigas criando um impulso de alta temperatura no decorrer da explosão, acompanhado por uma queda acentuada na pressão. Também é conhecida como a munição de uma explosão à granel.
O impacto do disparo de RPV-16 (usando a munição especial de 93 mm) é equivalente à ação de um projétil de artilharia de grande calibre. Como tal, a arma ucraniana é capaz de destruir a força de infantaria e mesmo os alvos de blindagem ligeira à uma distância máxima de cerca de um quilómetro.

O 1º lote é composto por 6.700 munições e 148 sistemas de lançamento.
As novas granadas RGT-27S e RGT-27S2
Além disso, a fábrica estatal “Artem” de Kyiv (também parte integrante da corporação “UkrOboronProm”), apresentou as suas novas granadas RGT-27S e RGT-27S2. As granadas com a massa de até 600 gramas, criam, durante dois segundos, a nuvem de fogo não inferior aos 13 m³, com a temperatura que atingem até 2500Cº. Estas caraterísticas permitem atingir com sucesso quer as forças de infantaria, quer também eliminar os alvos de blindagem ligeira.

Mariia Butina: a espia russa que oferecia sexo por informações confidenciais

Nos EUA, a FBI deteve a cidadã russa Mariia Butina, auto-proclamada nacionalista, apoiante dos terroristas de Donbas, lobista ilegal e muito próxima aos círculos conservadores que apoiam Donald Trump.

Uma descrição bastante detalhada do que se sabe, até agora, sobre essa rapariga, pode ser lido no blogue LawFare: Latest Russia twist: criminal charges against Mariia Butina

As acusações do FBI:

Mariia Butina se envolveu numa conspiração com um funcionário do governo russo, a fim de suavizar a abordagem política dos EUA em relação à Rússia, em nome de Moscovo e sem notificar devidamente o Departamento de Justiça americano (que é um crime nos EUA). Ela fez isso, usando as relações com funcionários de grupos políticos conservadores e influentes, incluindo a National Rifle Association (NRA, o poderoso lobby das armas).
Butina (última à direita) com os apoiantes do Trump 
O funcionário russo em questão é “um oficial de alto escalão do governo russo” que era “anteriormente membro da legislatura” – a descrição que combina com a biografia de Alexander Torshin, ex-senador na Câmara alta do Parlamento russo (por mais de 10 anos) e que mais tarde o vice-governador do Banco Central russo. Múltiplas notícias nos últimos meses relataram o apoio dele e da Butina à NRA. De facto, Butina e Torshin são membros vitalícios da NRA: em 2016, Torshin twittou que ele e Butina eram os únicos russos que podiam reivindicar essa distinção. De acordo com a acta de acusação da queixa criminal, Torshin “dirigia” Butina nas suas atividades nos Estados Unidos.



Para já não está totalmente claro se a detenção da Butina é realmente um big deal. Mas é claro que, ao contrário de outros russos, que o procurador especial Robert Mueller acusou recentemente, e que provavelmente não serão interrogados por estarem escondidos na Rússia, Butina já está presa nos EUA. Quer dizer, seguramente ela será interrogada.
fonte@ FB da Mariia Butina
Também é de notar que essa detenção não foi a ação da equipa do Robert Mueller, mas da Divisão de Segurança Nacional do Departamento de Justiça. A prisão foi realizada de acordo com uma queixa criminal apresentada por agente especial do FBI Kevin Helson, mas as acusações contra Butina ainda não foram apresentadas formalmente.

Interessante que foi exatamente a Mariia Butina que em 2015 perguntou Donald Trump sobre as sanções dos EUA contra Rússia:
Na altura Trump respondeu que conhece Putin e que, quando for o presidente, não precisará de sanções, porque se dará realmente muito muito bem com Putin (will get along really really well with Putin).

Também é interessante o que Michael Isikoff escreveu sobre o episódio da pergunta Butina ao Trump, no seu livro “Russian Roulette”. O tweet à seguir mostra a página do texto do livro no Isikoff:







Mais tarde, os assessores de campanha de Trump assistiram ao vídeo desse encontro e se perguntaram sobre isso. Steve Bannon levantou a questão com o presidente do RNC, Reince Priebus. Como aconteceu que aquela mulher russa apareceu em Las Vegas naquele evento? E como aconteceu que Trump lhe deu abertura para a pergunta? E a resposta de Trump? Era estranho, pensou Bannon, que Trump tivesse uma resposta totalmente pronta. Priebus concordou que havia algo estranho com a Butina. Sempre que havia eventos realizados por grupos conservadores, ela estava sempre por perto, ele disse ao Bannon.
Julia Ioffe, foto de 7 de janeiro de 2017
E no fim, simplesmente um facto interessante. O artigo de Julia Ioffe (a jornalista russa que foi expulsa do projeto Politico por inventar que Trump tinha alguma relação inapropriada com a sua própria filha, e que mais recentemente, em julho de 2018, inventou o boato de que Trump decidiu reconhecer a ocupação da Crimeia), publicado en novembro de 2012 na The New Republic, que contava a história, como ela, na companhia da mesma Mariia Butina, estavam disparando os tiros em Moscovo, nas instalações, antigamente pertencentes ao KGB.
Mariia Butina: "não queres me contar nada?!! Então vamos ter SEXO!"
Blogueiro: os nossos leitores têm todo o direito à perguntar, mas cadê o sexo? Meus queridos, confesso-vos, Mariia tinha desenvolvido uma técnica absolutamente cruelmente mortal e infalível. Quando um americano, daqueles que Lenine caraterizava como “idiota útil” acordava de manha cedo ao seu lado, Mariia lhe atirava na cara com a escolha ineqivocamente objetiva. Ela dizia: “ou você me contará absolutamente TUDO do que sabe, ou então, nós vamos ter SEXO!” Como a carne é fraca, a grande maioria das suas vítimas realmente contava tudo que sabia, e mesmo aquilo que nem por isso...

“Escravo do PCUS” e “Escravo da URSS”: as tatuagens proibidas dos prisioneiros soviéticos

Em agosto de 1967, dois jovens prisioneiros foram levados para o hospital prisional da cadeia operativa (SIZO №1) da cidade de Donetsk. Eles foram trazidos para a enfermaria não para os tratamentos – foram lhes dissecadas as tatuagens de “conteúdo hostil”.

por: Eduard Andryushchenko, Ostro.org

As personagens dessa história eram jovens delinquentes reincidentes. Olexander Zhuravskiy (1944), vivia em Avdiivka e aos 23 anos já teve 4 condenações prévias: hooliganismo, fuga da prisão, roubo e destruição de propriedade estatal por via do incêndio. Pavló Topchiy (1945), aos 22 anos já foi preso por tentativa de estupro e por assalto qualificado.

Zhuravskiy, estando na cela de detenção, fez a tatuagem na barriga com a frase: “Sou escravo do PCUS [Partido Comunista]” e “Fora com Brezhnev Kasygin” (com erros ortográficos). Usado, como muitos outros prisioneiros, meios improvisados ​​– uma placa metálica e borracha queimada de sapatos.
Olexander Zhuravskiy (1944)
Topchiy, por violação maliciosa do regime prisional primeiro foi transferido para uma cela de regime severo. Lá ele escreveu na própria testa: “Escravo da URSS”. A tatuagem foi removida pelas autoridades (na foto são visíveis os cicatrizes na testa). Mas o prisioneiro não desistiu: cerca de um mês depois, ele usou um prego e, com a mesma borracha queimada, fez vários tatus. O retrato de Lenine no peito [os prisioneiros comuns soviéticos acreditavam, de forma ingénua, que a imagem do Lenine no peito, impediria as autoridades soviéticas de os fuzilar], e logo abaixo – a frase “Sou escravo da União da URSS” e “Vítima do Saulin”.
Pavló Topchiy (1945)
O apelido possivelmente pertence à algum membro da administração prisional. Antes de fazer a segunda tatuagem, Topchiy exigiu uma transferência para outra colónia penal.

Talvez os prisioneiros fizeram as tatuagens com ajuda de companheiros de cela, mas não os denunciaram. É curioso que ambos os episódios ocorreram no mesmo dia – 17 de agosto de 1967. Mas, muito provavelmente, isso é apenas uma coincidência, é improvável que Zhuravsky e Topchiy conseguiriam se contatar para coordenar as suas ações.

Em geral, esses casos não eram muito incomuns nas cadeias e campos de concentração soviéticos. As frases “Escravo do PCUS” e “Escravo da URSS” – são as mais comuns de tatus proibidas pelas autoridades prisionais. Muitas vezes eram escritas na testa, tal como fez Topchiy.

Essas tatuagens dificilmente podem ser consideradas como uma manifestação da posição cívica ou política. Mais certo, era uma das formas primitivas de protesto contra o Estado soviético, as partes integrantes do qual eram o odioso sistema legal e penitenciário.

Uma história semelhante – com as tatuagens em forma de suásticas. Naquela época, as suásticas dos prisioneiros comuns soviéticos também simbolizavam a sua posição “anti-sistema”, e não as tendências nazis/nazistas. Aliás, os presos políticos, ao contrário dos criminosos, nunca fizeram este tipo de tatuagens.

As autoridades prisionais informaram o KGB, os chekistas de Donetsk passaram as informações para Kyiv, na capital ucraniana foi elaborado um relatório especial ao primeiro secretário do Partido Comunista da Ucrânia, Petró Shelest. O documento, que estava na mesa da líder comunista da Ucrânia Soviética agora é guardado no arquivo do SBU, onde essa história foi encontrada. Junto ao documento foram anexados as fotos dos prisioneiros, o que é um caso muitíssimo raro (fotos de tatuagens proibidas são, em princípio, pouquíssimos).
Relatório especial do KGB ao Petró Shelest
Zhuravsky e Topchiy, já sem tatus, mas com costuras e cicatrizes, voltaram para as suas celas. A procuradoria provincial instaurou os processos criminais contra eles, incriminando-lhes “a disseminação de invenções conscientemente falsas, desacreditando o Estado e o sistema social soviéticos”.

O seu destino posterior é desconhecido, o arquivo de SBU não possui nenhuma informação ao seu respeito. Se tal incidente ocorresse alguns anos antes, quando o “liberal” Nikita Khrushchev estava no poder, ambos poderiam ser executados.

Por exemplo, é conhecido o caso dos criminosos russos comuns Chukhlantsev e Sattarov, que em 1963 foram fuzilados por fazerem as tatuagens “hostis” (por exemplo “Khrushchev é vampiro”). Em 1964, a URSS foi liderada por Leonid Brezhnev, e as punições tornaram-se mais suaves. Existem as referências que no início da década de 1970 em alguns casos semelhantes, os portadores de tatuagens “anti-soviéticas” levavam o acréscimo de entre 1 à 1,5 anos da prisão efetiva. Muito provavelmente, o mesmo destino esperava os jovens prisioneiros de Donbas: Topchiy e Zhuravsky...

quinta-feira, julho 19, 2018

O motivo da queixa ao KGB: rótulo “Lenine-bastardo”

Como é sabido, o líder bolchevique Vladimir Ulianov (Lenine) sofria de dislalia, não conseguindo pronunciar bem a letra “r”, um pouco à semelhança da personagem Cebolinha da “Turma da Mônica”. Uma anedota soviética contava que Lenine dizia “Leninegad (ou seja bastardo) em vez de “Leninegrado”.
O artigo no jornal soviético "Pravda" de 23/04/1931 com o mesmo erro, falata a letra "r" no nome do Leninegrado
Mas nos arquivos da secreta ucraniana SBU, existe registado um caso real, que hoje soa como uma má anedota.

No dia 4 de maio de 1982, na Direção regional do KGB na cidade ucraniana de Zhytomyr apareceu o tenente-coronel Mulyar, comunista e docente de Escola superior de mísseis e artilharia local. Consigo o militar trouxe o rótulo de uma camisa que ele comprou nas vésperas na loja de departamentos da sua guarnição militar. A camisa foi costurada numa fábrica de Leninegrado. O nome da cidade indicado no rótulo não tinha a letra “r”.
“... como resultado, o nome do fundador do Estado soviético fica desacreditado”, explicavam os KGBists num informe oficial, endereçado às suas chefias.

As camisas “malditas” foram retiradas com urgência das lojas (o KGB conseguiu “capturar” 33 camisas das 190 recebidas em Zhytomyr em 7 de abril de 1982). A Direção do KGB de Zhytomyr enviou a orientação para outras regiões da Ucrânia Soviética, bem como para a cidade de Leninegrado. Foi lá que KGB tinha que descobrir, e eventualmente punir o culpado deste escárnio do santo comunista soviético. Infelizmente, dificilmente saberemos o que aconteceu com o culpado, pelo menos até a abertura dos arquivos russos do KGB. Ou seja, provavelmente nunca [fonte].

quarta-feira, julho 18, 2018

Porque as mulheres soviéticas envelheciam tão precocemente?

Nas fotos e nos filmes soviéticos é notável que as mulheres naqueles anos pareciam 10-15 ou mesmo 20 anos mais velhas do que a sua idade biológica e do que as suas pares hoje. A aparência da mulher soviética mostrava imediatamente e de forma inequívoca as verdadeiras prioridades da URSS, muito distantes do bem-estar dos seus próprios cidadãos.

Como os fãs da URSS imaginam as mulheres soviéticas

Os fãs e amantes da URSS imaginam as mulheres soviéticos parecidas com os desenhos do artista Valeriy Barykin – de corpos bonitos, com tudo no lugar, vestidas de forma elegante e sensual, com boa pele e dentes, sempre à sorrir e prontas para tudo. Muitos fãs da URSS partilham estes desenhos na rede social russa OK com legendas: “curte, se você se lembra como era bom viver na URSS!”
Na realidade o artista criou uma série de desenhos que de forma irónica copiavam o estilo americano “moças pin-up”, colocando as situações frívolas imaginárias nas decorações da era soviética. As mulheres soviéticas reais nunca se vestiam, nem se pareciam assim (nem União Soviética produzia este tipo de vestidos ou roupa interior), e toda a sua aparência e poses são copiadas de cartazes americanos desenhados para animar os soldados nos quartéis (daí o nome – “pin up”, coloque na parede), por isso todas as mulheres adotam as poses sexy e frívolas.

Como as mulheres soviéticas eram na realidade
Nina Khrusheva e Jackelin Kennedy
A foto em baixo mostra as duas personagens do drama romântico soviético “Maratona de Outono” (1979), atrizes soviéticas Marina Neelova e Natalia Gundareva – as mulheres soviéticos com aparência “acima da média soviética”, porque cuidavam da sua imagem e porque as suas actividades profissionais não eram demasiadamente pesadas (não trabalhavam na construção de estradas, na construção civil ou nas fábricas, não derrubavam as árvores na floresta, etc.).
Quantos anos você dá às atrizes na foto? Por uma questão de interesse, mostre a foto aos amigos e conhecidos e faça essa mesma pergunta. Na nossa experiência recebemos as seguintes respostas: “à de esquerda (Neelova) tem 52-54 anos, e à da direita (Gundareva) – 60 anos”. Realmente, o oval da cara, o contorno das pálpebras, rugas e cabelos dão a impressão dessa mesma idade das atrizes.

Na realidade das filmagens Neelyova tinha 32 anos e Gundareva – cerca de 30 anos. Hoje em dia no espaço pós-soviético as mulheres aos 30 anos parecem com jovens adolescentes – na URSS já eram “tias/titias encalhadas”, com os rostos caídos e olhares extintos.
É possível dizer que a culpa é das personagens e da maquilhagem, mas na realidade, quer Neelova e Gundareva, quer o resto das atrizes soviéticas, na sua maioria, não irradiavam a juventude. Basta se lembrar, por exemplo, da atriz Svetlana Nemoliaeva (na foto em cima) no filme Sluzhebnyy roman (1977), no momento das filmagens ela tinha 39 anos, mas parece ter cerca de 60, senão mais.

Porque as mulheres soviéticas envelheciam tão precocemente?
Nisso residia um complexo de razões, consistindo no próprio modo de vida e no modo de pensar de uma mulher soviética. Primeiro, ter uma boa aparência e cuidar de si na URSS era considerado como mau tone – uma mulher que tinha boa aparência era vista como a “mulher de vida fácil” ou como um “elemento não produtivo”. A mulher na União Soviética – tinha que trabalhar com os dormentes, recuperar as terras virgens, ou na pior das hipóteses – ser a mãe do soldado, o seu propósito é se matar para servir o Estado. Nos filmes soviéticos e em outros tipos de propaganda de todas as formas e maneiras possíveis eram ridicularizadas as mulheres de boa aparência, eram habituais anti-heróis, às contrapondo à uma simples e heróica Maria, que num casaco acolchoado, à noite, no frio de -30ºC vai trepando o poste de eletricidade de alta tensão para concertar o fio elétrico rompindo.
Como consequência dessa doutrina – na União Soviética não havia bons meios de cuidar dos cabelos, dentes e pele – as trabalhadoras da construção civil, recuperadores das terras virgens e maquinistas de gruas não deviam cuidar de si mesmas, precisavam é de trabalhar diariamente e sonhar com o comunismo. O país, que lançou o homem ao espaço, era incapaz de produzir os pensos higiénicos / absorventes femininos e creme para o rosto, e para os cuidados dentários vendia o pó abrasivo (Sic!) que desgastava totalmente os dentes até 35 anos, se não for antes.
As senhoras que escaparam do trabalho duro e mais ou menos se estabeleceram na vida (como as atrizes já citadas), mesmo assim não estavam protegidas da escravidão soviética diária – na União Soviética, acreditava-se que a mulher deve “puxar a família”, lavar e cozer para todos, preparar o pequeno-almoço, o almoço de três entradas e o jantar, seguir os assuntos escolares das crianças, levar as crianças para os clubes e secções desportivas, motivar e agradar, de todas as maneiras o seu marido (e muitas vezes aturar o seu alcoolismo) – exatamente assim viviam na União Soviética 85% (se não mais) mulheres.
Ainda é preciso acrescentar o peso diário de passar horas nas filas para fazer compras, escândalos e tensões, os maus alimentos – e você verá todas as razões pelas quais as mulheres soviéticas na faixa dos 30 anos pareciam com às de 50 ou mais velhas.

E situação agora?

Os fãs da URSS não se cansam de dizer que na União Soviética a taxa de natalidade era bem alta! Mas a taxa alta de natalidade é uma caraterística especial dos países menos desenvolvidos, onde não há meios de contracepção, e onde a maioria das crianças, nascidas desta forma, não são bem-vindas (o que coloca uma marca em toda a sua vida).

As mulheres modernas do espaço pós-soviético parecem 20 anos mais jovens do que as suas pares na URSS. A moça atual de trinta anos é uma menina, a atual dama de cinquenta, muitas vezes é tratada como “moça”. As suas pares na URSS já tinham costas curvadas, dentes de ouro, usavam os lenços de babushka e andavam em todo o lado com os cestos sobre rodas (no caso de acharem algum alimento à venda livre).

É um forte indicador de progresso – para saber a verdade sobre a vida em um determinado país se deve olhar para as suas mulheres e não ouvir as histórias sobre armas no espaço ou bombas nucleares – coisas que nada têm à ver com a vida de 99,99% da sua população.

Fotos: Internet | GettyImages | Texto: Maxim Mirovich

Os realizadores perseguidos: Oleg Sentsov e Aleksandr Askoldov

Em 1967 o realizador Aleksandr Askoldov foi expulso do cinema soviético para o resto de sua vida sob a acusação de ser “profissionalmente inapto”. Em 2015, e seguindo as velhas táticas comunistas, a justiça russa condenou o realizador ucraniano Oleg Sentsov aos 20 anos da prisão severa, impedindo o seu trabalho cinematográfico. 

«Gamer», (2011) – o filme realista sobre as ilusões
As capas, russa e holandesa, do filme "Gamer"do Oleg Sentsov
“Gamer” é a única longa metragem do diretor, até hoje, que custou apenas 20.000 dólares. O filme é sobre as ilusões do mundo virtual e o materialismo do mundo quotidiano. O herói, provavelmente é o alter ego do realizador que no passado era um gamer e dono do clube de jogos na sua cidade. Nas filmagens participaram os amigos do realizador: uma pessoa ofereceu o seu apartamento para as filmagens, outros ajudaram com os adereços ou até apareceram nos papéis terciários. Todos os atores não são profissionais. No lançamento do filme, o cinema “Cosmos” da cidade de Simferopol não conseguia acomodar todos os espectadores. Depois disso, Oleh Sentsov fechou o seu clube, o filme influenciou a realidade:

“Comisário” | “Die Kommissarin” | “The Commissar”, (1967)
O “Comissário”, do Aleksandr Askoldov, filmado em 1967, foi concebido como a saga dos “dias heróicos da revolução”, mas em vez disso, o diretor produziu um drama sombrio sobre as tragédias humanas. Na sequência da estreia do filme o realizador foi expulso do partido comunista, acusado de parasitismo social, proibido de viver em Moscovo e proibido de trabalhar em longas-metragens para o resto de sua vida, sob a acusação formal de ser “profissionalmente inapto”.

Além disso, o diretor recebeu a ordem de destruir todas os cópias do filme, o que ele desobedeceu – e agora o filme está disponível na Internet. O seu próximo filme (apenas documental) saiu em 1972 e em 1992 ele teve um papel menor numa produção cinematográfica russa. Já “Comissário” ganhou o Urso de Prata – Prémio Especial do Júri no 38º Festival Internacional de Cinema de Berlim em 1988 e quatro prémios Nika, também de 1988. O realizador morreu em 21 de maio de 2018 na Suécia. 

Abandonados: os POW soviéticos no Afeganistão (2ª parte)

Desde 1982 e graças às difíceis negociações ente a URSS, governo comunista afegão, resistência anti-comunista afegã e Suíça, com a participação do Paquistão, 11 militares soviéticos foram libertados pelos mujahidines, na condição de ficarem retidos na Suíça até o fim da guerra no Afeganistão, mas no mínimo por dois anos (8 deles conseguiram permanecer no Ocidente). 

1(13). Os mujahidines afegãos mostram aos jornalistas ocidentais os dois POW soviéticos: 2º sargento Yuri Povarnitsin (de 20 anos, natural da região russa de Sverdlovsk, capturado em junho de 1981 e em 28 maio de 1982 entregue à Suíça) e soldado ucraniano, operador do blindado Valery Didenko (de 19 anos, natural da aldeia de Polohy na Ucrânia), foto tirada em 10/12/1981 no campo de treino da resistência afegã Allah Jirga (pertencente ao Hezb-e Islami do comandante Gulbuddin Hekmatyar), na província afegã de Zabol. Foto: Roland Neveu.

2(14). No campo de treino da resistência afegã Allah Jirga, juntamente com POW soviéticos M. Yazkuliev (ou Mohammed Kuli-Yazkuliev) e Yuri Povarnitsin (possivelmente os primeiros POW soviéticos poupados pelos afegãos), está o conselheiro e lobista americano Andrew Eiva (lituano de nascimento Andrius Linas Kazimieras Eitavicius), homem que fiz muito para derrotar as forças soviéticas e também para que sejam poupadas as vidas dos POW soviéticos. Foto tirada em 24/09/1981. ©www.bernardinai.lt

3(15). Algumas fontes mencionam o recruta ucraniano Valeriy Didenko como o “primeiro POW soviético, capturado desde o fim da II G.M.”, o que naturalmente não corresponde à verdade, pois Valeriy Didenko não foi o primeiro militar soviético capturado no Afeganistão. Em maio de 1982 ele foi para a Suíça (no âmbito da troca dos POW supervisionada pela Cruz Vermelha Internacional) e em agosto de 1984 voltou para União Soviética. Na URSS, em 1985, foi supostamente condenado aos 10 anos da cadeia, acusado de “traição da pátria”, notícia desmentida pela agência informativa soviética “Novosti”. De acordo com as fontes soviéticas, Valeriy Didenko: “nunca foi preso e está morando em Zaporizhia, onde trabalha como operador de guindaste”, noticiava o jornal ucraniano-americano The Ukrainian Weekly. Tendo em conta que os pais do Valeriy Didenko, alegadamente viviam em Tashkent, no Uzbequistão, e tendo em conta que soviéticos não mostraram nenhuma foto da sua vida em liberdade, é possível concluir que após retornar à União Soviética, o soldado ucraniano realmente foi preso e condenado pelas autoridades soviéticas. Foto: David Kline, publicada recentemente em 13.3.2014 em forbes.com

4(16). Os primeiros três POW soviéticos, capturados pela resistência afegã chegaram à Suíça via Paquistão em 28 de maio de 1982. A embaixada soviética em Berna, pela voz do seu embaixador Vladimir Lavrov (1919 – 2011) exigia que estes militares não tenham quaisquer contactos com o mundo exterior. Por isso, as autoridades suíças os colocaram inicialmente num campo de correcção de adultos St. Johannsen na cidade de Erlach. Depois, os militares foram movidos para a Suíça central, à herdade de «Frühbünl», onde o exército helvético mantinha a sua própria unidade de punição. Na herdade, os POW teriam que participar nos trabalhos agrícolas, oficialmente, eles deveriam contactar apenas com os representantes soviéticos. Apesar disso, os militares soviéticos regularmente tentavam a fuga, ainda mais, que do ponto de vista legal (segundo a 3ª Convenção de Genebra sobre o Tratamento dos Prisioneiros de Guerra de 1949), na Suíça eles não eram POW, mas “as pessoas temporariamente sob a custódia das autoridades suíças”.

O 2º sargento Yuriy Povarnitsin (que em algumas fontes é tido como natural da Ucrânia), falava com os jornalistas, chamando a guerra no Afeganistão de «absurdo» e criticando fortemente as autoridades soviéticas. Apesar das saudades manifestadas, tudo indica que ele ficou à viver no Afeganistão, o seu destino posterior é desconhecido (no foto em baixo no meio).
Outro militar soviético, ucraniano étnico Yuriy Vaschenko (nascido em 1964 em Kansk na Rússia), no verão de 1983 conseguiu fugir da Suíça e chegou à submeter o pedido de asilo político na Alemanha Federal. Apesar do desejo inicial da RFA de o repatriar de volta à Suíça, o MNE da Alemanha Federal acabou por garantir que o militar não será deportado da Alemanha contra a sua vontade [fonte]. Sabe-se que em 25 de janeiro de 1989 ele foi condenado, à revelia por um tribunal regional russo, pela “traição à Pátria”, no entanto o seu processo acabou por ser encerrado “devido a mudanças da situação” (possivelmente a amnistia geral decretada na União Soviética pelo seu Soviete Supremo em novembro de 1989 e extensa à todos crimes cometidos pelos militares soviéticos no Afeganistão).

De acordo com os dados da Procuradoria militar soviética, entre dezembro de 1979 à fevereiro de 1989, os 4.307 soldados e militares do 40º Exército soviético na República Democrática do Afeganistão foram condenados pelo cometimento de diversos crimes. No momento da entrada de amnistia em vigor, mais de 420 ex-militares ainda cumpriam as suas penas da prisão.

5(17). Yuriy Povarnitsin e Valery Didenko com outro POW soviético (possivelmente Mohammed Kuli-Yazkuliev) no campo de treino Allah Jirga, em Zabol. Na Suíça, na companhia de outros seis POW soviéticos eles passaram pela cadeia militar na cidade de Zugerberg (1982-84). As autoridades soviéticas não estavam apressadas em salvar os seus próprios cidadãos, como escreveu a revista emigrante russa “Posev” № 8, de 1982, no seu artigo: “GULAG na Suíça?”: «…a imprensa soviética, não informou o seu próprio povo sobre esses três resgatados do cativeiro afegão: pois a guerra “não existe”»...

6(18). No dia 28 de maio de 1984, o prisioneiro de guerra, 2º sargento Yuri Povarnitsin, completou dois anos na sua prisão suíça. Neste dia, a Cruz Vermelha Internacional, de acordo com o plano traçado pelas autoridades soviéticas, teria que repatriá-lo à URSS. No entanto, durante sua permanência na Suíça, o militar expressou o seu firme desejo de permanecer no Ocidente (na foto ainda no Afeganistão aparecer Yuri Povarnitsin e Valeriy Didenko).

7(19). Yuri Grigorievich Povarnitsin [1962?], 2º sargento, foi chamado à cumprir o seu “dever internacionalista” da região russa de Sverdlovsk, três meses após chegar ao Afeganistão, em junho de 1981, foi capturado pelos militantes do Hezb-e Islami em Charikar (região em que a resistência afegã atacava constantemente as colunas militares soviéticas), cerca de 63 km do Cabul.
Nos dias 24-26 de setembro de 1981 o correspondente da AP fez uma série de fotos dos POW soviéticos, que estavam em poder do Hezb-e Islami no campo de Allah Jirga, nas proximidades da fronteira com o Paquistão. Na foto (em cima), por várias vezes publicada na imprensa ocidental, aparece Yuri Povartnitsin.

8(20). O POW soviético Gariardi Chariev (na imprensa ocidental grafado como Charief), de 20 anos (de pé, 4º à esquerda), do Turcomenistão, junto aos guerrilheiros da resistência afegã em 7 de outubro de 1986 algures na província de Wardak. O militar foi capturado em 11 de julho de 1986. Foto: PATRICK DAVID/AFP/Getty Images.

9(21). Os mujahidines mostram a caderneta da juventude comunista Komsomol do Gariardi Chariev. O militar foi capturado na ida ao mercado local para comprar as calças jeans, tão inacessíveis para si e para a geração inteira dos jovens soviéticos. Foto: PATRICK DAVID/AFP/Getty Images.

10(22). O POW soviético Gariardi Chariev mostra a sua caderneta de Komsomol. 7 de outubro de 1986. O seu destino posterior é desconhecido. Foto: PATRICK DAVID/AFP/Getty Images.
Os POW soviéticos mantidos na Suíça e no Afeganistão contaram com apoio e solidariedade do escritor e político russo-britânico Nikolai Tolstoy (pseudónimo literário do conde Nikolai Dmitrievich Tolstoy-Miloslavsky), presidente do Comité de salvação dos prisioneiros soviéticos no Afeganistão, criado no Ocidente em junho de 1983.