domingo, julho 15, 2018

Os filmes proibidos na União Soviética

Imediatamente após a sua chegada ao poder em 1917, o regime comunista começou a censura do cinematógrafo. Os filmes ocidentais eram proibidos ou sofriam a censura, cortes, nas décadas de 1920-30 até recebiam a remontagem diferente da original e os filmes soviéticos chegavam à ser destruídos e os seus criadores despedidos, presos e mesmo mortos.

Os filmes proibidos na URSS podem ser classificados em várias categorias — filmes que não mostravam a vida no Ocidente como “inferno capitalista”, eram proibidos pois chocavam com a propaganda soviética. Filmes eróticos, alegadamente eróticos ou sobre os relacionamentos entre os géneros fora dos clichés de propaganda soviética que pretendia provar que “na URSS não há sexo”. Terceira categoria — tudo aquilo que a censura não entendia, que assustava os censores ou os fazia pensar, pelo seguro, este tipo de filmes também eram proibidos.

Dado que os filmes proibidos na URSS eram “mais que demais”, falaremos sobre os casos mais emblemáticos e mais interessantes.

Mas antes de tudo, um pouco de história. A censura soviética constantemente inventava os novos termo para explicar por que a determinada obra é “prejudicial”, os mais usados eram – “este filme distorce os factos históricos”, “este livro coloca os elementos prejudiciais e decadentes no lugar das personagens positivas”, “essa peça teatral não revela completamente a essência verdadeiramente antipopular do czarismo”. Mas um livro, peça teatral ou filme poderiam ser banidos simplesmente por serem “contra-revolucionários”, sem demais pormenores.

Uma das primeiras censoras bolcheviques foi a famosa Nadezhda Krupskaya, viúva oficial do camarada Lenine – ela ocupou o cargo de vice-comissária da Educação e criava pessoalmente as listas de livros que deveriam ser retiradas imediatamente de bibliotecas públicas. Os primeiros foram proibidos os filósofos e escritores pensadores: Nikolay Berdyaev, Mikhail Bulgakov, Nikolay Zamyatin. Krupskaya chegou à atacar violentamente o aclamado e muito popular escritor infantil Kornei Chukóvski – chamando a sua obra de “nonsense” e “estupidez burguesa”.

O número de censores soviéticos não parava de crescer e em 1940 na URSS já contava com 5.000 censores – recrutados principalmente entre as pessoas “ideologicamente certas”, mas com pouca instrução – apenas 10% deles tinham formação superior.

Naturalmente, a censura atacou em força o cinema, que o camarada Lenine considerava a mais importante das artes: “Enquanto as pessoas são analfabetas, as mais importantes para nós são o cinema e o circo”, como ele sublinhava na sua escrita.

Algumas obras mais emblemáticas, proibidas pela censura soviética, começando pelos filmes ocidentais:

1. “E o Vento Levou” (Brasil) | “E Tudo o Vento Levou” (Portugal) de 1940
Não se sabe a razão exata porque o filme foi proibido na União Soviética. Possivelmente isso aconteceu porque a película mostrava a vida dos americanos comuns, que simplesmente viviam, se amavam e planeavam o seu futuro, sem conspirar contra a URSS ou o “mundo socialista”. Ou talvez porque escravos afro-americanos possuíam no século XIV o mesmo padrão de vida (possivelmente até um pouco mais alto), que os cidadãos comuns do primeiro país dos “operários e camponeses”.

Primeiro, o livro foi publicado, e depois o filme foi demonstrado na URSS apenas em 1990, imediatamente se tornando-se um tremendo sucesso de vendas e de bilheteira.

2. «As Vinhas da Ira», (1940)
Em 1948, a URSS comprou o filme americano “As Vinhas da Ira” para mostrar ao público soviético todas as “feridas e as mazelas do capitalismo”. Em quase todas as artes na União Soviética existia um programa similar – a URSS comprava, traduzia e publicava os livros de quaisquer escritores ocidentais marginalizados ou obsoletos desde que estes criticassem fortemente o capitalismo – as suas obras eram apresentadas aos cidadãos soviéticos como “o verdadeiro retrato da vida na Ocidente putrificado e decadente”.

Mas “As Vinhas da Ira” foi removido da exibição pública quase imediatamente após o seu lançamento nos cinemas soviéticos – a censura notou, com horror, que o pobre e arruinado farmeiro americano compra um camião/caminhão usado e geralmente vivia muito melhor do que os “felizes e livres” camponeses soviéticos.

3. «Emmanuelle», (1974)
Naturalmente o filme foi imediatamente proibido na URSS – na União Soviética não poderia haver nenhuma “sexualidade”, muito menos a feminina, nem o sexo existia na URSS, as mulheres deveriam sonhar apenas com o comunismo, e as “relações íntimas” só existiam para poder dar ao país e ao Estado os operários e soldados saudáveis.

4. «Nine 1/2 Weeks», (1986)
Classificado como “drama erótico”, «Nine 1/2 Weeks» é mais um filme sobre a complexa relação entre um homem e uma mulher, com algumas cenas eróticas (carícias de gelo com os olhos vendados; sexo nas escadas e um striptease da personagem principal, a Elizabeth).

No entanto, na URSS, o filme foi proibido e era demonstrado apenas nos salões de vídeo semiclandestinos no fim da Perestroika, em 1989-90.

5. «Padrinho», (1972)
Alguns dizem que os censores soviéticos viram em “Padrinho” a “romantização do submundo criminal”, outros argumentam que o filme foi proibido pela elite comunista (que certamente o assistiu em VHS e até em secções fechadas), devido ao facto de que a estrutura da máfia ítalo-americana era fortemente parecida com a estrutura do poder comunista na URSS.

No fim da década de 1980, o ainda proibido “Padrinho”, apareceu maciçamente nos salões de vídeo, onde praticamente não havia nenhum controlo da censura – estes locais demonstravam ao público, ao preço de 50 copeque – 1 rublo (0,85 – 1,69 dólares ao câmbio oficial antes de 1991), quer a “Emmanuelle”, quer os filmes realmente pornográficos.

6. “Guerra nas Estrelas” (Brasil) | “Guerra das Estrelas” (Portugal) de 1977
Os censores soviéticos viram na “força negra” (dark force) uma alusão à União Soviética. As coisas apenas pioraram quando em 1983 Ronald Reagan chamou a União Soviética de “império do mal” (quase exatamente o mesmo que o “Império Galáctico do Mal” em saga), servindo como a proibição definitiva e total do filme na URSS.

O filme foi exibido nos cinemas soviéticos no fim da existência da própria União Soviética, e as pessoas formavam as filas “galácticas” para ver a obra do George Lucas. Antes disso, os cidadãos soviéticos podiam ver apenas “Adolescentes no Universo” (1974), em que os pioneiros soviéticos voavam diretamente da Praça Vermelha para uma estrela distante, organizando lá uma revolução marxista-leninista:

7. “Comisário” | “Die Kommissarin” | “The Commissar”, (1967)
A censura soviética proibia também os filmes soviéticos – geralmente porque a determinada obra mostrava a realidade muito diferente da propaganda oficial de imagens glamurizadas.

Um desses filmes foi o “Comissário”, do Aleksandr Askoldov, filmado em 1967. O filme foi concebido como a saga dos “dias heróicos da revolução”, mas em vez disso, o diretor produziu um drama sombrio sobre as tragédias humanas. Na sequência da estreia do filme o realizador foi expulso do partido comunista, acusado de parasitismo social, proibido de viver em Moscovo e proibido de trabalhar em longas-metragens para o resto de sua vida, sob a acusação formal de ser “profissionalmente inapto”:

Além disso, o diretor recebeu a ordem de destruir todas os cópias do filme, o que ele desobedeceu – e agora o filme está disponível na Internet. O seu próximo filme (um documentário) saiu em 1972 e em 1992 ele teve um papel menor numa produção cinematográfica russa. Já “Comissário” ganhou o Urso de Prata – Prémio Especial do Júri no 38º Festival Internacional de Cinema de Berlim em 1988 e quatro prémios Nika, também de 1988. O realizador morreu em 21 de maio de 2018 na Suécia.  

8. “Intervenção” | “Intervention” | “Interventsiya”, (1968)
Apesar de ser ideologicamente alinhado com a ideologia e contar com uma galáxia inteira de estrelas do cinema soviético: Vladimir Vysotsky, Sergei Yursky ou Valeri Zolotukhin, o filme foi proibido pela censura sob acusação de que a “Grande Revolução de Outubro” e posterior luta bolchevique “pelos ideais comunistas” são retratados como uma farsa vulgar “risível e cómica”. O filme foi demonstrado nos cinemas soviéticos apenas em 1987:
Em geral, a lista de filmes (incluindo soviéticos), proibidos pela censura soviética é simplesmente enorme, e parcialmente pode ser consultado na Wikipedia.

Imagens: Internet | Texto: Maxim Mirovich

Abandonados: os POW soviéticos no Afeganistão (18 fotos)

Hoje o nosso blogue começará uma série de artigos sobre os POW soviéticos abandonados e esquecidos no Afeganistão. As histórias pessoais de vários deles dariam um bom livro ou um filme, tão intenso e cheio de peripécias fantásticas, que nenhum escritor simplesmente conseguiria as inventar...   

01. Afeganistão, província Helmand, 1985. Os mujahidines do comandante Haji Latif da Frente Nacional Islâmica (Mahaz-i-Milli-Islami) na companhia do militar soviético desconhecido, possivelmente natural da Ásia Central, que se juntou à resistência afegã em 1982. Desde então ele aderiu à luta armada anti-soviética. Os seus camaradas de armas, brincando, recriam o momento da sua captura. O próprio, comandante Haji Latif, morreu, envenenado, em 8 de agosto de 1989, na província de Kandahar.

02. Os mujahidines do comandante Haji Latif com o POW soviético (com as mãos levantadas).

03. Os mujahidines do comandante Haji Latif com POW soviético (no meio).

04. Os mujahidines do comandante Haji Latif, pousando junto à bomba aérea soviética de fragmentação explosiva OFAB-500 ShR de 500 kg.

05. Os mujahidines do comandante Haji Latif, pousando junto à bomba aérea soviética de fragmentação explosiva OFAB-500 ShR de 500 kg.

06. Os POW soviéticos que se tornaram mujahidines, aldeia de Parian, Vale de Panjshir, 1987.
Possivelmente o militar russo Nikolay Bystrov, nascido em 1963 ou 1964 na região russa de Krasnodar, soldado de infantaria motorizada, capturado pela resistência afegã em 1982, aderiu ao islão e adotou o nome de Islamuddin. Entre junho de 1983 ao 1994 foi guarda-costas pessoal de um dos comandantes mais notáveis dos mujahidines, tajique Ahmad Shah Massoud (a foto em cima é da autoria do Richard MacKenzie, foi tirada em 1987 e publicada na revista «Insight Magazine» em 25/01/1988). 
No Afeganistão com a esposa Odylia "Olga", 1994 ou 1995 | arquivo pessoal
Durante a entrevista televisiva de 2001, as suas últimas imagens conhecidas
Desde 1994 é casado com Odylia (ex-funcionária do KHAD e sobrinha do Shah Massoud), a família desde 1994 ou 1995 vive na Rússia, têm dois filhos (1997 e 2003) e uma filha (1995).

07. Os POW soviéticos que se tornaram mujahidines, aldeia de Parian, Vale de Panjshir, 1987.
Possivelmente o soldado ucraniano Nikolay (Mykola) Vyrodov (1960), natural da cidade ucraniana de Kharkiv. Graduado na Academia militar soviética, foi para Afeganistão como voluntário, mas desertou cerca de 3 meses depois, em 1981, após presenciar a execução sumária, efetuada pelo exército soviético, de cerca de 70 afegãos, entre eles vários civis não combatentes. Desde 1982 é combatente das forças do Ahmad Shah Massoud, com o nome islâmico de Nasradullah Mohamadullah (a foto em cima é da autoria do Richard MacKenzie, foi tirada em 1987 e publicada na revista «Insight Magazine» em 25/01/1988). 

08. A foto do Museu do Jihad na cidade afegã do Herat: “O shuravi capturado, após se juntar aos mujahidines, com as suas vestes da jihad”.
Mykola Vyrodov chegou à servir como guarda-costas pessoal do notável comandante da resistência afegã Gulbuddin Hekmatyar, o fundador e comandante do partido político/grupo paramilitar Hezb-e Islami (por duas vezes serviu como primeiro-ministro do Afeganistão). Especialista em explosivos e ideologicamente motivado, foi procurado pelas GRU e KGB soviéticos entre 1992 à 1989. 
Mykola Vyrodov | Nasradullah Mohamadullah nos meados da década de 1990
Imagem do 1º Canal da TV (Rússia) 
Mykola Vyrodov visitou Ucrânia em 1996, mas optou por voltar ao Afeganistão, até 2005 ele vivia com a sua família afegã e trabalhava na polícia na província de Baghlan.

09. Os POW soviéticos que se tornaram mujahidines, aldeia de Parian, Vale de Panjshir, 1987.
Primeiro à direita possivelmente é o moldovo Leonid Vilcu (Leonid Gheorghe Vâlcu, nascido aos 2 de julho de 1966), natural da Moldova, soldado de unidade soviética da defesa antiaérea em Salang, no Afeganistão. Foi acusado, pelo GRU soviético (a informação não confirmada), de deserção voluntária no dia 4 de outubro de 1984. Também foi acusado de participar ativamente na luta armada anti-soviética, nomeadamente: “é suspeito de participar na liquidação de vários grupos de reconhecimento [...] É necessário urgentemente neutralizá-lo. Em caso de impossibilidade de detenção, deve ser liquidado”. Realmente, fez parte das forças do Ahmad Shah Massoud, aderiu ao islão com o nome de Azizullah e em algumas fotografias está muito próximo do comandante tajique.
Leonid Vilcu ainda no Afeganistão, no início da década de 1990
Leonid Vilcu algures na Europa, 2011 | facebook.com/vilcu.leonid
No início de março de 1993 ele finalmente consegui voltar para Moldova, alegadamente viveu na Roménia e na França, onde possivelmente publicou o livro de memórias.

10. Afeganistão, Vale de Panjshir, 1985. Os mujahidines das forças do Ahmad Shah Massoud: 2º e 4º à esquerda Leonid Vilcu “Azizullah” e Nikolay Bystrov “Islamuddin”, dois ex-POW soviéticos que aderiram à resistência afegã. Foto © Reza / Webistan / Corbis.  

11. A foto feita no início da década de 1990, possivelmente no Vale de Panjshir. O 1º à esquerda é Leonid Vilcu “Azizullah”; o 2º à direita (de óculos) possivelmente também é um POW soviético, ora desconhecido. 

12. Ahmad Shah Massoud (no meio) e Leonid Vilcu “Azizullah” (de pé, último à direita), foto@ Börje Almqvist, outubro de 1985. O próprio comandante Ahmad Shah Massoud foi assassinado em 9 de setembro de 2001 pelos operativos da Al-Qaeda que se passaram pelos jornalistas da Al Jazeera.

sábado, julho 14, 2018

Como no império russo se compravam e se vendiam as pessoas

A servidão que se enraizou no império russo desde século XVI foi abolida apenas em 1861, e na época do golpe bolchevique de outubro de 1917 ainda havia as pessoas que se lembravam da servidão, eles tinham 60-70-80 anos de idade – na verdade, eram os pais e avós de alguns bolcheviques, que chegaram ao poder na sequência de um golpe militar.

De onde veio a servidão?

Servidão tomou a forma jurídica no fim do século XVI, quando aos agricultores foi finalmente vedado o direito de mudar o proprietário latifundiário rural. Em 1592 no principado de Moscovo foi abolida a “regra do dia de São Jorge” (26 de novembro (9 de dezembro)) – neste dia os camponeses tinham o direito de mudar do proprietário rural para quem trabalhariam todo o ano seguinte. Até então, os camponeses eram relativamente livres e só tinham a obrigação de cumprir corveia ou pagar o obrok (quinhão, o equivalente moderno do imposto pago por um percentual de produtos manufaturados, pós-colheita, etc.).
Depois as coisas pioraram, à partir de meados do século XVII é definido o período ilimitado de busca e captura de servos fugitivos – ou seja, o proprietário latifundiário obtinha o direito recapturar e levar à sua propriedade, tanto o servo agricultor, quer e sua família, incluindo os seus filhos. A propriedade pessoal dos servos também passou a ser considerada propriedade do latifundiário. No entanto, no século XVII, ainda não havia a venda livre e massificada dos servos – um dos Códigos reais estabelecia que “ninguém poderá vender as pessoas batizadas”.

Desde o século XVIII, as leis mudam – tornou-se possível negociar livremente os servos. Na verdade, o que começou como uma forma de uma espécie do “imposto” governamental aos camponeses agricultores (impostos obrigatórios mais a proibição da passar livremente para um outro proprietário) começou se transformar numa privação completa de quaisquer direitos civis dos camponeses – começou a escravidão real.
No século XVIII e na primeira metade do século XIX floresceu o comércio livre  de servos. Existiam algumas restrições, tais como a proibição da separação das famílias de camponeses, mas estas nem sempre eram observadas, os servos eram considerados a propriedade privada do latifundiário, e embora, se no decorrer da punição corporal este morria  o proprietário teria que responder perante a lei, mas com pouco de dinheiro escaparia qualquer punição legal ou mesmo a reprimenda cívica.

Como os servos viviam e trabalhavam

Os servos eram uma grande parte da população das grandes cidades do império russo. Na década de 1830, a população de São Petersburgo era de 450.000 pessoas, das quais servos eram 200.000 – quase a metade. Os servos eram mantidos em constante medo, de acordo com a prescrição – “eles deveriam viver em silêncio, quietos e com medo constante de punição”. Para evitar fugas os servos não recebiam os passaportes (documentos de identificação) – a mesma política, em relação aos camponeses, foi adotada pela União Soviética cerca de um século depois.
Nas cidades, os servos trabalhavam em grandes projetos de construção – erigiram a maioria dos edifícios monumentais de São Petersburgo – que, em meados do século XIX, por sinal, era uma cidade baixa com a maioria das casas feitas de madeira e não de pedra. Em grandes canteiros de obras, os trabalhadores eram supervisionados por zeladores e capatazes – muitas vezes eram pessoas livres e mesmo estrangeiros “alemães” (assim no império russo eram chamados vários estrangeiros, provenientes da Europa Ocidental protestante).

Como na URSS estalinista, os servos russos viviam em grandes barracas às brigadas inteiras, ou alugavam espaços grandes (também para a brigada inteira): grandes salas com várias janelas, com um fogão russo num dos cantos, e ao longo das paredes beliches de várias camadas – na sala de 30-40 m² podiam viver de 40 à 60 pessoas – homens, mulheres e crianças.

Os servos de Petersburgo comiam muito mal – a comida diária era broa simples (que levavam consigo para o trabalho), na melhor das hipóteses o pão podia ser acompanhado por um pedaço de manteiga ou uma cebola. À noite era preparada a sopa russa chamada schi – muitas vezes era apenas um repolho cortado em 4 pedaços e fervido em água salgada.

Como as pessoas eram negociadas em São Petersburgo

Jornais russos do final dos séculos XVIII-XIX estavam cheios de anúncios sobre as “pessoas para a venda”. Num dos anúncios, o proprietário vendia as suas propriedades: “tudo já foi vendido, ficou apenas uma vaca leiteira e um menino que sabe pentear o cabelo”. Um outro anúncio dizia: “se vende um pequeno de 17 anos e um conjunto de móveis”. Numa outra edição do jornal, foi publicitado que “se vende uma moça de 30 anos e um jovem cavalo”. Nos jornais do ano 1800 se podia ler: “são vendidos o marido e a sua esposa, de 40-45 anos, de bom comportamento e um jovem cavalo castanho/marrom”. Vendedores não hesitavam, descrevendo os seus produtos: “a mulher de 40 anos, bonita de cara e boa de corpo”; “menino é um mestre e sabe a arte de sapateiro”, “a gaja de 40 anos, não perde para um bom cozinheiro na preparação das refeições”.
Anúncios de um jornal russo de 22/02/1800. Sapateiro custa 500 rublos e cortador (?) 400
Além da venda de camponeses por anúncios, havia também verdadeiros mercados de escravos – eram organizados por empreendedores à imagem e semelhança dos mercados orientais. Os mercados de escravos estavam localizados nos lugares proeminentes e transitórios da capital russa da época, na ponte Potseluev ou no canal Ligovsky. Os compradores vinham e escolhiam o “produto”, agindo tal-é-qual como na compra de um cavalo – era obrigatório apalpar o servo “na questão de ferimentos e doenças”, bem como ver os seus dentes.

Os preços dos servos mudavam seguindo os tempos. Os mais caros eram mestres de seus ofícios: cozinheiros e cabeleireiros, e os mais baratos – os camponeses fracos, incapazes de trabalhar. No final do século XVIII os servos custavam, em média, até 100 rublos, em 1782 foi feito um inventário dos bens de um tal capitão Ivan Zinoviev, em que foram incluídos, os camponeses: “Leonty Nikitin, 40 anos, avaliado em 30 rublos, sua esposa Maria Stepanova, 25 anos, avaliada em 10 rublos. Efim Osipov, 23 anos, avaliado em 40 rublos, sua esposa Maria Dementeva, 30 anos, avaliada em 8 rublos”.

No século XIX, os preços começaram a subir, e os servos foram vendidos por várias centenas de rublos por cada “alma”, em São Petersburgo os preços eram particularmente altos, nas províncias – mais baixos.
São Petersburgo, meados do século XIX
Mas o preço de um bom cozinheiro poderia chegar aos milhares de rublos. Um cabeleireiro experiente custava não menos que mil rublos. Um preço especial valiam os servos, inclinados aos negócios. Os proprietários os sobrecarregaram com o quinhão considerável, e alguns desses mujiques comerciais garantiam a renda não menor de que uma grande propriedade. Um deles recordava que a sua servidão não o atrapalhava, e mesmo ajudava nos negócios. Um nobre proprietário com ótimas conexões servia como boa cobertura contra as investidas de pequenos oficiais controladores. Mas quando o quinhão começou a sobrecarregá-lo excessivamente, tirando os ativos e destruindo o comércio, ele decidiu se libertar, oferecendo ao seu dono 5 mil rublos pela sua liberdade. Ao que recebeu a resposta: “Esquece mesmo de pensar” [fonte].

Fim da servidão e a guerra na Crimeia do século XIX

Ironicamente, a razão para a abolição da servidão não era nenhum “humanismo” (aceite por um pequeno punhado de intelectuais que liam livros e escreviam artigos nos jornais), mas a banal falta de dinheiro – entre 1853 à 1856, nas vésperas da famosa “reforma camponesa” de 1861, a Rússia entrou na Guerra da Crimeia, que arruinou o seu sistema financeiro. Rússia teve de recorrer à impressão de bilhetes de tesouro não garantidos, e o rublo se desvalorizou em metade. A servidão tornou-se um fardo não lucrativo para o débil corpo de uma economia já bastante frágil – e foi decidido aboli-la.
Naturalmente a decisão foi apresentada ao “zé povão” como a maior misericórdia real – o rei acordou numa manhã e decidiu dar a liberdade aos servos. O manifesto real foi chamado “Sobre a mais Graciosa Dádiva às pessoas servas do direito de habitantes rurais livres”. Traduzido, isso significa que agora os camponeses não-livres eram equiparados aos camponeses livres.
Essa nova “liberdade” não era muito diferente da anterior falta dela – sim, as pessoas deixaram de serem a mercadoria, mas agora eles tiveram que pagar o aluguer/l ao proprietário rural pela terra que usavam, ou tinham que servir ao latifundiário. Em geral, a “vitória da Crimeia” não fez os ex-servos mais felizes.

Ecos da servidão. Em vez de um epílogo

A escravidão foi abolida há pouco mais de 150 anos, e os bolcheviques, que chegaram ao poder em 1917, eram descendentes diretos dos servos da primeira e segunda geração. Por um lado, as pessoas tentavam se livrar da “antiga opressão”, que conheciam das histórias de seus pais/avós, e, por outro lado, elas mesmas, sem saber, absorviam completamente os hábitos familiares e o modo de vida dos ex-servos.
A fuga da servidão comunista kolkhoziana à mendicidade
Moscovo (?), 1947
Na verdade, o sistema económico construído na URSS não era muito diferente da servidão czarista e, em alguns casos, a superou – as pessoas continuavam a viver sem possuir os direitos, na URSS não existiam os sindicatos reais para proteger estes direitos e os camponeses nem possuíam os passaportes (documentos de identificação) desde a década de 1930 até os anos 1970 – os kolkhozes soviéticos não diferiam muito da comunidade feudal. Na época da servidão, acreditava-se que o senhorio tinha um “poder supremo” sobre os seus servos, na URSS, o “Estado” abstrato passou a deter o tal poder, que considerava os habitantes do país não como cidadãos livres, mas como súditos.

O que é interessante é que muitos publicistas russos hoje novamente consideram a servidão como algo de bom, criando pérolas como “a servidão era um componente orgânico e necessário da realidade russa”.

Fotos: Internet | Texto: Maxim Mirovich

sexta-feira, julho 13, 2018

Guccifer 2.0 e mais 11 oficiais da GRU foram acusados nos EUA

foto @Tom Williams / CQ Roll Call / Sipa USA / Scanpix / LETA
Em 13 de julho de 2018 o Procurador-Geral Adjunto dos EUA, Rod Rosenstein, acusou formalmente os 12 funcionários da GRU russa de interferência nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. Os acusados hackearam o servidor de e-mail do Partido Democrata, publicaram os documentos roubados e acederam ilegalmente aos dados dos eleitores norte-americanos.

Os acusados

Os 12 acusados (Victor Netyksho, Boris Antonov, Dmitry Badin, Ivan Ermakov Aleksey Lukashev, Sergei Morgachev, Nicholay Kozachek, Pavel Ershov, Artem Malyshev, Alexander Osadchuk, Alexey Potemkin e Anatoly Kovalev) são funcionários da GRU (com vários patentes militares, 1º e 2º tenentes, coronéis, ou referidos simplesmente como “militares”). Todos, exceto Alexander Osadchuk e Alexei Potemkin, serviram na unidade militar № 26165, localizado na avenida Komsomolsky Prospekt em Moscovo, onde, como se sabe servem os criptógrafos, criadores de algoritmos para descodificação e outros especialistas de TI). Osadchuk e Potemkin  serviram na unidade № 74455, supostamente situado na rua Kirov № 22, no bairro moscovita de Khimki; este lugar na acusação é também chamado de “Torre”.
A unidade militar № 26165, na avenida Komsomolsky Prospekt em Moscovo | Google Earth
Os agentes são conectados entre eles, por exemplo, Boris Antonov e Dmitry Badin efetuavam a supervisão geral das atividades de vários outros funcionários da lista (por exemplo, Ivan Ermakov, Alexey Lukashev, entre outros).

Sabe-se que Sergey Morgachev, Nikolay Kozachek, Pavel Ershov e Alexander Osadchuk desenvolveram, testaram e aplicaram software malicioso X-Agent (desenvolvido pelo grupo hacker Fancy Bear, ligado à Rússia).

O procurador especial Robert Mueller e a sua equipa de investigação conhecem os nomes de código que os agentes russos usaram, executando ações, que neste momento levaram à sua acusação. Nikolai Kozachek é referido como “kazak” e “blablabla1234565”. Lukashev criou usuários “Den Katenberg” e “Juliana Martynova”, Ivan Ermakov – “Keith S. Milton”, “James McMorgans”, “Karen W. Millen”. Alexander Osadchuk e Alexey Potemkin usavam os pseudónimos DC Leaks e Guccifer-2.0; através deles eram distribuídos os documentos roubados da sede de Hillary Clinton e do Comité Nacional do Partido Democrata dos Estados Unidos.

A acusação

De acordo com a investigação, oficiais da GRU atacaram os computadores de mais de 300 pessoas ligadas ao Comité Nacional do Partido Democrata dos Estados Unidos, o comité do partido nas eleições ao Congresso e da campanha presidencial de Hillary Clinton. Eles enviaram cartas em nome do Google, supostamente contendo uma notificação de configurações de segurança. Dentro havia um link que levava ao site criado pelo GRU. Para disfarçar, usaram o serviço de encurtamento de ligações URL. Em março de 2016, o correio do chefe da sede eleitoral de Clinton John Podesta foi hackeado. Na caixa dele estavam mais de 50 mil correspondências.

Em abril de 2016, os acusados criaram uma caixa de correio cujo endereço diferia em apenas uma letra do endereço de um dos participantes da campanha de Clinton. Deste endereço eles enviaram os e-mail de phishing aos mais de 30 funcionários da sede da candidatura presidencial. As cartas supostamente continham uma referência ao documento .xlsx com os ratings da Hillary Clinton. Na verdade, a ligação levava para um site criado pela GRU.

Ao mesmo tempo, oficiais da GRU atacaram os sistemas de computação do comité do Partido Democrata para as eleições ao Congresso. O acesso foi obtido usando um e-mail de phishing enviado para uma das funcionárias do comité. Ela passou pelo link enviado para ela e digitou a senha. Em abril-junho de 2016, os acusados instalaram o programa de spyware X-Agent em pelo menos 10 computadores conectados à rede do comité do Partido Democrata. O programa gravou as teclas digitadas pelo usuário e tirou fotos da tela de seu computador, transferindo depois os dados roubados para o servidor que a GRU alugou no Arizona.

Com a ajuda do X-Agent, foram roubadas as senhas de um funcionário do comité do Partido Democrata para as eleições ao Congresso, que também teve acesso à rede do Comité Nacional do Partido Democrata. Assim, pelo menos 33 computadores conectados à esta rede foram hackeados.

Nos computadores hackeados, os acusados procuraram documentos que mencionassem Hillary Clinton, Donald Trump e o candidato republicano Ted Cruz. Eles também copiaram pastas com informações sobre a investigação do ataque dos militantes islâmicos contra a Embaixada dos EUA em Benghazi em 2012 (Hillary Clinton na época serviu como Secretária de Estado dos EUA, ela depôs sobre o caso nas audiências do Congresso). Além disso, oficiais da GRU obtiveram acesso aos documentos financeiros – em particular, aos planos de arrecadar doações para a campanha de Clinton.

Para divulgar estes documentos, os membros da GRU criaram o suposto hacker romeno Guccifer 2.0. Como é referido no documento, quando em junho de 2016 Guccifer 2.0 foi acusado de ser a cobertura dos serviços de inteligência russos, de um dos servidores da unidade militar russa № 74455 foram feitas as consultas sobre algumas frases em inglês (por exemplo, o pedido da tradução da frase “tradução bem conhecida” ou ortografia da palavra illuminati). Cerca de duas horas depois, essas frases apareceram em um dos comunicados de Guccifer 2.0, onde o suposto hacker negou categoricamente a sua conexão com a Rússia.
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Ao mesmo tempo, em junho de 2016, os acusados ​​lançaram o site do DCLeaks, onde publicaram uma parte da correspondência roubada. Para promovê-lo, as contas foram criadas no Facebook e em outras redes sociais. Além disso, eles passaram os documentos roubados aos terceiros, que na acusação americana se menciona como Organização 1. Muito provavelmente é o projecto WikiLeaks.

Osadchuk e Kovalev também são acusaram de que no verão de 2016 eles hackearam a página da comissão eleitoral de um dos estados dos EUA e roubaram dados pessoais de cerca de meio milhão de eleitores. Eles também invadiram o site da empresa, que produzia software para verificar os dados dos eleitores. Um pouco mais tarde, o FBI descobriu o ataque e apurou algumas das suas circunstâncias; neste ponto, Kovalev e seus cúmplices apagaram/deletaram as contas usadas nesta operação.

Contra os nazis, marchar, marchar!

imagem @facebook.com/aleshastupin
Num país com os índices de leitura mais baixos da Europa, num país de invencíveis analfabetos, alguns doutorados, de repente, mil e um especialistas em história da Europa Central brotaram do chão.

por: Bruno Vieira Amaral, Observador.pt

Esta manhã, enquanto preparava o pequeno-almoço, recebi uma mensagem alarmante:

Cabrões dos nazis! Allez les bleues [sic]!”

Como demoro sempre a entrar no ritmo, continuei a fazer o café, as torradas e o sumo de bagas colhidas minutos atrás nos arbustos defronte da minha casa. O remetente da mensagem, pessoa que nunca me dera motivos para desconfiar da sua sanidade mental, insistiu:

Que nojo de país! Detesto a história dos gajos! Vão ser goleados.

Neste momento, fiquei um pouco perturbado, mas aprecio tanto o ritual do meu café pela manhã que nenhum lunático, mesmo que recentemente assumido, é capaz de mo estragar. A meio da manhã, terceira mensagem:

Vais torcer por quem? Pelos nazis?

Ontem, ao final da noite, quando me fui deitar depois de ver o jogo e escrever a crónica, tinha deixado o mundo entretido com um Mundial. De manhã, estávamos de volta à Segunda Guerra Mundial, com hordas de internautas a apontar o dedo à Croácia e aos jogadores croatas, como se nas últimas quatro semanas Modrić, Rebić, Mandzukić e os outros tivessem aproveitado os intervalos entre jogos e treinos para conduzir judeus para as câmaras de gás, como se festejassem os golos brandindo exemplares d’A Minha Luta, como se tivessem suásticas tatuadas no meio da testa.

Num país com os índices de leitura mais baixos da Europa, num país de invencíveis analfabetos, alguns deles doutorados, de repente, mil e um especialistas em história da Europa Central brotaram do chão. Ontem, a Croácia adormeceu eufórica. Hoje, pelo menos aqui para os nossos lados, acordou anatemizada, considerada indigna de pertencer ao concerto das nações por causa do que aconteceu durante a Segunda Guerra (coisas terríveis, fascistamente terríveis, até a resistência croata aos nazis tinha qualquer coisa de nazi). Da Croácia disse-se hoje o que o Irão não disse dos Estados Unidos – o Grande Satã – quando as selecções dos dois países se enfrentaram no Mundial de França.

Ah, os franceses! Claro. Parece que temos o dever multicultural de torcer pela França porque a diversidade da seleção vai inspirar todos os cidadãos e os filhos dos imigrantes sentir-se-ão de imediato membros de pleno direito da República. Não haverá mais atentados, nem motins, nem caixotes do lixo incendidados. Não foi esse, afinal, o efeito da vitória de 1998? Se for a Croácia a ganhar, adivinham-se tempos negros para a Europa.

O fascismo alastrará por todo o continente já não de botas cardadas, mas de chuteiras. Já não de uniforme cinzento, mas envergando as enganadoramente simpáticas camisolas axadrezadas. Felizmente para o mundo, um conjunto de heróicos resistentes, comandados por um punhado de irredutíveis portugueses [e já agora brasileiros], impedirá a consumação da tragédia e rechaçará com galhardia e pundonor a ofensiva croata, obrigando-os a regressar à sua condição clandestina de nazis nos clubes europeus em que se movimentam, condição essa mui oportunamente denunciada graças à perspicácia e à intuição lusas [e naturalmente brasileiras] de alguns dos nossos mais brilhantes compatriotas, que, como os áugures liam o futuro no voo das aves, conseguiram decifrar o código insidiosamente inscrito nos passes fascistas de Modrić, nas defesas totalitárias de Subasić, na pérfida disposição da equipa num 4-2-3-1 riefenstahliano.

Por mim, está decidido. Vou torcer pela França. E também pela Croácia. E que fique registado que, ganhe quem ganhar, ofereço-me desde já para colaborar activamente com as autoridades do país vencedor no dia a seguir à final. Como disse um imperador bem conhecido dos gauleses: “Veni! Vidi! Vichy!”

Blogueiro: a brilhante crónica do Bruno Vieira Amaral aplica-se, por inteiro, quer à Ucrânia (onde até a resistência ucraniana aos nazis é vista pela esquerda caviar como a coisa faxista), quer à esquerda Ballantines brasileira, que também, e muito repentinamente produziu mil e um especialistas em história da Ucrânia e da Europa Central.
Ler a resposta ucraniana
Ler a resposta da Embaixada da Ucrânia no Brasil à um destes “especialistas”.