domingo, agosto 25, 2013

Pela vossa e nossa liberdade! A manif em Moscovo...

Cartaz com o slogan: "Pela vossa e nossa liberdade"
No dia 25 de agosto de 1968, oito dissidentes soviéticos se manifestaram pacificamente na Praça Vermelha em Moscovo contra a invasão de Checoslováquia pela URSS e pelo Pacto de Varsóvia, ocorrida na noite de 20 à 21 de agosto de 1968. Todos eles pagaram bastante caro pela sua posição cívica pública...

Os dissidentes simplesmente sentaram-se no local, chamado Lobnoye Mesto (literalmente Local da Testa), para evitar ao máximo acusação de violação de ordem pública. Oito ativistas: Larisa Bogoraz, Konstantin Babitsky, Vadim Delaunay, Vladimir Dremliuga, Pavel Litvinov, Natalya Gorbanevskaya, Viktor Fainberg e Tatiana Baeva seguravam a bandeira de Checoslováquia e cartazes com diversos slogans:

“Nos perdemos melhores amigos”; “Ať žije svobodné a nezávislé Československo!” (Longa vida a Checoslováquia livre e independente), “Vergonha aos ocupantes!”; “Mãos fora da ČSSR!”; “Pela vossa e nossa liberdade”; “Liberdade ao Dubchek!”

A manifestação durou apenas alguns minutos, os ativistas foram espancados e detidos pelos agentes do KGB, a bandeira checoslovaca foi rasgada e os cartazes confiscados. Os dissidentes convenceram a jovem estudante Tatiana Baeva (1947), de dizer que estava no local por acaso e assim ela foi liberada (mesmo assim expulsa da Instituto de Arquivos Históricos sem direito de recuperação da matrícula; emigrou aos EUA em 1992). Os cartazes foram considerados pelo KGB como anti-soviéticos.
Tatiana Baeva, aos 21 anos
Em resultado do processo criminal os ativistas foram condenados aos diversos termos de prisão e degredo, cadeia, campos de concentração e tratamento compulsivo em hospitais psiquiátricos:

Konstantin Babickiy (15/05/1929 — 14/09/1993) — linguista, tradutor, foi condenado aos 3 anos de deportação pela “difamação do sistema soviético” e “atividades de grupo que violam a ordem pública de forma aguda”. Após sua libertação não foi lhe permitido o regresso à linguística, trabalhou como carpinteiro, fazia traduções da poesia romena. Nunca emigrou.
Konstantin Babitsky, em 1972
Larisa Bogoraz (8/08/1929 — 6/04/2004) — nascida na Ucrânia, linguista, professora de língua ucraniana, com doutoramento em linguística (1965), pela sua ação foi condenada à quatro anos de degredo na província russa de Irkutsk (1968—1971). Nunca emigrou. 
Larisa Bogoraz, aos 39 anos
Natalya Gorbanevskaya (26/05/1936 — 29.11.2013) – poetisa, tradutora, dissidente, por ser mãe recentemente foi presa apenas em dezembro de 1969, em abril de 1970 foi lhe diagnosticada a “esquizofrenia atónita  (sem apontar nenhum sinal da suposta doença), durante 2 anos e dois meses foi submetida ao tratamento compulsório em um hospital psiquiátrico do tipo prisional. A cantora Joan Baez dedicou lhe uma canção chamada “Natalia”, do álbum “From Every Stage” (1976). Em dezembro de 1975 migrou para França, desde 2005 vivia na Polónia, obtendo a nacionalidade polaca/polonesa. 
Natalya Gorbanevskaya, aos 32 anos 
Vadim Delaunay (22/12/1947 — 13/06/1983) – foi condenado aos 2 anos e 10 meses de campos de concentração, acusação nos termos do artigo 190-1 da RSFSR (“Divulgação de invenções, à priori falsas, que difamam o sistema estatal e social soviético”). Emigrante na França desde 1975, poeta e dissidente morreu aos 35 anos de idade.
Vadim Delaunay, aos 20 anos
Vladimir Dremliuga (19/01/1940 — 26/05/2015) – estudante de História, historiador, pela sua atividade política foi expulso da universidade, trabalhou como eletricista, pela sua ação em Moscovo se tornou prisioneiro político entre 1968—1974, desde 1974 foi obrigado à emigrar aos EUA (sob ameaça de ser novamente preso e condenado).
Vladimir Dremliuga, aos 28 anos
Pavel Litvinov (1940) – físico, neto do comissário do povo soviético dos Negócios Estrangeiros Litvinov, pela sua ação passou meio ano na cadeia, depois deportação à província russa de Chita, onde entre 1968 e 1972 trabalhou como eletricista nas minas de urânio, na emigração nos EUA desde 1974.
Pavel Litvinov durante a sua deportação forçada
Viktor Fainberg (26/11/1931, de Kharkiv, Ucrânia) – crítico de arte, filólogo, compulsivamente internado no hospital psiquiátrico especial de Leninegrado entre janeiro de 1969 à fevereiro de 1973. O famoso dramaturgo britânico Tom Stoppard dedicou ao Viktor Fainberg a sua peça Every Boy Deserves Favour («Cada menino merece o favor»). Desde 1974 é emigrante na França, juntamente com a sua esposa Marina Vaikhanska, a médica psiquiatra que ajudava aos dissidentes e que foi despedida do seu emprego por causa disso.
Victor Fainberg
Informação do KGB ao CC do PCUS sobre a manifestação (5.IX.1968):
http://psi.ece.jhu.edu/~kaplan/IRUSS/BUK/GBARC/pdfs/dis60/kgb68-5.pdf

2 comentários:

Anónimo disse...

Muita coragem! Um pena que os atuais governos da República Tcheca e da Hungria esqueçam o passado e se aproximem cada vez mais de Moscou, claro que aí tem o dedo sujo do Kremlin influenciando nas eleiçoes desses países e, claro, a conivência do Ocidente, sobretudo os EUA do Sr. Obama que desde que assumiu a presidencia dos EUA entregou a Europa do Leste inteira a Rússia semelhante fez seu correligionário ao final da Segunda Guerra Mundial.

Por falar em Hungria eu estava vendo umas fotos das cidades de Chernivtsi e Uzhgorod. Duas cidades lindas, principalmente a primeira. Chernivtsi é uma cidade que, embora esteja em território ucraniano é habitada por romenos pois já pertenceu à Romênia. É muito linda, talvez até mais que Lviv. Bem européia, herança da época do Império Austro-Hungaro. Nao tao bonita quanto Chernivtsi é Ushgotod habitada por hungaros, tb tem seu charme. Pertenceu a Hungria e a Eslováquia.

Jest nas Wielu disse...

Apenas para chamar a necessidade de confirmar os dados. Demografia de Uzhhorod (censo de 2001):
ucranianos (incluindo sub-etnia rusyn): 77.8%; húngaros: 6.9%
http://en.wikipedia.org/wiki/Uzhhorod

Demografia de Chernivtsi (censo de 2001):
ucranianos (79.8%), romenos (4.4%) moldovos (1.6%)
http://en.wikipedia.org/wiki/Chernivtsi