O jornal alemão Die Zeit (impresso e online) publicou um longo ensaio + entrevista com militares ucranianos que passaram, durante três anos, por cativeiro russo e voltaram daquele
inferno para contar as suas experiências além da tortura.
«Aqueles que foram torturados continuam torturados», escreveu o escritor judeu-austríaco e sobrevivente do Holocausto Jean Améry.
Penso nisso enquanto como um borscht cremoso e de cor vermelho-escuro.
O capitão também está a comer borscht. Apenas meia dose. Um homem tão grande — e está a comer com uma colher pequena. Muito lentamente, quase com
cautela. Ele mostra-me uma foto no seu telemóvel. Foi tirada logo após a sua captura. Perdeu cinquenta quilos lá, diz.
Tem olhos azuis claros e um sorriso quase impercetível. A sua esposa está a cuidar dele agora. Em casa, tem pensão completa.
O capitão Ruslan Odaiskyi trabalhou no mar durante toda a sua vida, quase vinte anos em Sebastopol. Em 2014, após a anexação da Crimeia, mudou-se com a família
para Kyiv. Sabia que a guerra estava a caminho. Quando a guerra começou, Odaiskyi levou a sua família para um lugar seguro e foi para a frente de batalha. Alguns meses depois, foi feito prisioneiro;
após uma explosão, acordou amarrado.
Durante dois anos e meio de cativeiro, foi transferido entre três centros russos de detenção diferentes. A cada transferência, pensava que finalmente seria libertado numa
troca de prisioneiros. Para os russos, era um jogo: torturar, dar esperança, voltar a tirá-la. Em 2025, passados quatro anos, foi libertado. Mas o que significa realmente «libertado»?
***
Por vezes, eram autorizados a escrever cartas. Nenhuma é enviada. Certa noite, um homem queixou-se de dores no coração; um guarda o tinha espancado. Quando o médico
chegou de manhã, o homem já estava morto. Não havia analgésicos. Dizem que não se morre de dor. A tortura faz parte do quotidiano. Durante os interrogatórios [os russos] trazem uma
pasta. Dentro dela, um telefone de campanha soviético, um dínamo manual. Ao rodar a manivela, a eletricidade flui. Os fios são colocados no corpo — na orelha, no dedo. Então [pessoas] se torcem
todoas.
A pior tortura é a fome. O pão é distribuído de forma desigual. Quem tem um pedaço maior é odiado — e todos se envergonham disso.
Sobreviver não é tudo.
«Pode-se tirar tudo a uma pessoa, exceto a última liberdade: a de escolher como reagir às circunstâncias», escreveu o psiquiatra austríaco-judeu e ex-prisioneiro de um campo de concentração Viktor Frankl.
Pergunto ao capitão como sobreviveu. Como os outros sobreviveram.
«É preciso manter-se unido, com os seus camaradas. Havia rituais. Quando alguém recebia uma carta, todos a liam; tornava-se uma fonte de apoio para toda a cela."
Certa vez, recebeu também uma carta, da sua mulher: "Estamos vivos, o nosso filho começou a universidade." Não escreveu mais nada, porque a carta não estava selada — a esposa sabia
que os russos a iriam ler.
Eles conversavam. Por vezes, alguém falava sobre o trabalho com detalhes minuciosos durante todo o dia. Antes de dormir, alguém da cela dizia sempre: "Boa noite. E agora
vamos pensar nas nossas famílias.»
«Nos aniversários, dávamos o nosso pão a quem quer que fosse. Sente-se muita fome; não se consegue imaginar essa fome, mas sente-se na mesma». A humanidade pode ser preservada mesmo em condições desumanas. Foi assim que sobreviveram. Juntos.
Mas sobreviver não é tudo. Primo Levi escreveu num livro que escreveu quarenta anos depois da sua experiência em Auschwitz: «Aconteceu e, consequentemente, pode voltar a acontecer: esta é a essência do que temos para dizer».
«Aqueles que sobreviveram precisam de falar. O mal que um dia se tornou possível não desaparece para sempre. Mas como continuar a viver quando se tem de falar de uma ferida
ainda recente? Será que é mesmo necessário? O capitão acha que sim. "Como sou livre, preciso de falar. É difícil. Tenho perturbação de stress pós-traumático,
flashbacks constantes. Não faço terapia, mas tenho a minha mulher e um padre. Isso mantém-me vivo.»
“Todos sonhávamos com a troca. Por vezes, davam-nos lâminas de barbear — talvez um sinal. Pensávamos que provavelmente nos levariam para outra prisão.
Colocaram-nos numa carrinha de transporte de prisioneiros. Cinco ou seis horas sem parar. Um guarda disse: ‘Se não fizerem asneiras, estarão em casa dentro de uma hora.’ Ninguém acreditou nele.”
“Só quando nos meteram num avião é que surgiu a esperança. Aterrámos na Belarus, em Homel. Tiraram-nos as vendas, verificaram os nossos
nomes e levaram-nos até à fronteira de autocarro. Então, alguém entrou no autocarro e disse: ‘Glória à Ucrânia.’ Eu só pensei: não mereço isto,
esta felicidade. E depois, aquele corredor de familiares. Mostram fotografias, perguntam: Viste o meu? Sabes alguma coisa? Ele está vivo?”
***
Juan Leyva-García é meio ucraniano, meio cubano, estudou nos EUA, mas voltou para defender o seu país.
Foi feito prisioneiro na primavera de 2022, defendendo a fábrica de aço Azovstal em Mariupol, que os russos acabaram por destruir. Após a ordem ucraniana para terminar
a defesa e abandonar a central, foi detido na rússia. Juan ficou detido em quatro locais diferentes. Primeiro, foi levado para um campo em Olenivka, na região de Donetsk, ocupada pelos russos. O caos reinava
ali: nenhuma higiene, fome, desordem total. Depois, a colónia penal na região de Luhansk, em Dovshansk – durante um ano e meio. De seguida, o centro de detenção provisória em Taganrog,
no sul da Rússia – nove meses. Depois, mais um ano numa colónia penal na região de Perm.
Havia algum guarda prisional humano entre os russos? Juan sorri ironicamente.
Uma vez, um deu-lhe um cigarro. Outro quase nunca lhe batia. Duas pessoas em três anos. Os outros espancavam-no e abusavam dele. “Na prisão, obrigavam-nos a ler livros
russos. Livros sobre a Segunda Guerra Mundial. Um deles fazia-nos decorar poemas de Pushkin. Se alguém recitasse algo errado, era brutalmente espancado.”
Havia também mulheres na colónia penal. Na região de Perm, diz, a situação era particularmente má. Frio. Fome. As pessoas eram obrigadas a estar
de pé durante quase o dia inteiro. Uma mulher, jornalista, morreu de fome e de exaustão.
Juan escondia-se nos seus sonhos, que ninguém lhe podia tirar: estavam fechados como um armário, cuja chave só ele e a sua noiva tinham. Durante três anos, ela
manteve-o a salvo. Mesmo sem saber se ainda estava vivo. Agora estão juntos.
O capitão volta a viver em Kyiv com a mulher e o filho. O filho estuda alemão e quer ser filólogo; o pai diz que tem orgulho nele. Ele próprio continua a ser um
prisioneiro de guerra.
Muitos órgãos de comunicação recusaram a publicação porque o tema é difícil e sombrio. Após um mês de edição,
conversas com editores e corte do quase metade do tamanho original, o texto foi publicado num veículo de grande influência — o equivalente ao New York Times para os leitres de língua alemã.
«Tentei escrever de uma forma que incluísse muitas alusões à experiência, literatura e cultura alemãs. Para que o texto chegasse ao coração
e ao código cultural. Para que as pessoas não o idealizassem e percebessem com o que estavam a lidar. Com um grande e banal mal ao qual não se pode ceder», — explica a jornalista ucraniana
Iryna Fingerova.
Enquanto escrevia, lia Varlam Shalamov, parte de “Arquipélago Gulag”, Viktor Frankl e Primo Levi.
Esta é uma entrevista muito honesta e muito difícil.
Esta é também uma tentativa de análise, por que isto não é apenas a “guerra de Putin” — uma ideia muito popular na Alemanha [e no resto
da Europa também]. Porque existe responsabilidade coletiva e como viver com ela?
Não sei como aconteceu. Nem sei se tinha o direito de escrever sobre o assunto. Mas escrevi-o porque precisa de ser discutido, sem rodeios e em pormenor.