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domingo, maio 10, 2026

Universidade pública russa treina hackers e sabotadores para a secreta militar GRU

[M] DER SPIEGEL; Fotos: Galina Savina / depositphotos / IMAGO; DER SPIEGEL; FBI (2);
Hans Christian Plambeck / laif
A Universidade Técnica Estatal «Bauman» de Moscovo (BMSTU) forma os hackers e ensina técnicas de desinformação. Alguns graduados já estão afetos à unidade militar Nrº 74455 do GRU, responsável pelos ataques às infraestruturas civis na Ucrânia e na Geórgia (o que constitui um crime de guerra). 

Uma investigação conjunta dos The Insider, The Guardian, Le Monde, Der Spiegel, Frontstory e VSquare revelou que o centro de treino militar da Universidade Técnica Estatal «Bauman» de Moscovo (BMSTU) possui um departamento secreto que forma hackers e sabotadores para a secreta militar russa GRU. Os jornalistas analisaram mais de dois mil documentos internos do departamento, incluindo currículos, contratos, cartazes de propaganda e listas de alunos, graduados e professores. Na sua investigação, as publicações detalham como os estudantes promissores são preparados para carreiras na GRU — secreta militar russa responsável por hackear as páginas oficiais de governos ocidentais, envenenar figuras da oposição russa e interferir em eleições na Europa e nos Estados Unidos. A publicação russa Meduza resume as principais descobertas da investigação. 

O Departamento nº 4 do Centro de Formação Militar de Universidade Bauman forma os alunos sob a supervisão de oficiais do GRU. Este departamento não é mencionado na página/no site da universidade na secção que descreve a estrutura do centro de formação — aí, o Departamento nº 5 segue o Departamento nº 3.

Um dos cursos do Departamento nº 4 chama-se «Neutralização da Inteligência Técnica» e abrange toda a gama de ferramentas modernas de hackers. Durante as aulas práticas, os alunos realizam «testes de intrusão» utilizando um vírus informático e, para a avaliação final, devem desenvolver o seu próprio vírus.

O departamento também ensina «propaganda, agitação, manipulação e persuasão» (assim se chama uma das palestras), e os alunos são encarregados de criar um «vídeo social sobre qualquer tópico de interesse» usando «manipulação», «pressão» e «propaganda oculta». Os alunos aprendem também os princípios de funcionamento da CIA, do FBI e da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA, e os seus trabalhos de fim de curso centram-se nas redes de computadores seguros do Pentágono. Outra secção do currículo é dedicada às tecnologias militares: os alunos estudam a experiência de combate das unidades das forças de operações especiais russas, bem como o design de vários tipos de drones ocidentais — americanos, britânicos e alemães.

O esquema que enumera os assim chamados «canais técnicos de fuga de informação»

O vice-chefe do departamento é o tenente-coronel Kirill Stupakov, que leciona um curso especial sobre tecnologias de espionagem, incluindo técnicas de escuta telefónica e vigilância. Diz aos estudantes que a a invasão russa da Ucrânia (a «operação militar especial», a SVO, no jargão patrioteiro russo), era «inevitável» porque Ucrânia era alegadamente governada por supostos «nacionalistas e neonazis», mas na correspondência privada, Stupakov refere-se a Dmitry Medvedev como «Dimon» (Dimão), Putin como «velharia» e o chefe do Estado-Maior General Valery Gerasimov como um «alcoólico todo fodido».

Todos os anos, 10 a 15 alunos do departamento são admitidos nas unidades do GRU. Alguns graduados servem na unidade militar Nrº 74455, interligada ao grupo de hackers Sandworm, que orquestrou vários grandes ataques cibernéticos nos últimos anos. Os graduados são também enviados para o Fancy Bear, um outro grupo de hackers russos igualmente notório, implicado em inúmeros grandes ciberataques.

Em abril de 2025, vladimir putin visitou Universidade Bauman, reunindo-se com estudantes e percorrendo o novo edifício e a exposição de desenvolvimento da universidade, onde lhe foi apresentado um novo drone. O presidente russo não fez qualquer menção ao 4º Departamento durante esta visita.

terça-feira, fevereiro 10, 2026

Operação do KGB no Reino Unido: «Naked Spy»

Na década de 1950, vivia em Londres um osteopata chamado Stephen Ward. Ele criou uma agência de acompanhantes para clientes de alto escalão da sociedade britânica. Na realidade agência foi criada e gerida pelo KGB. Ward era apenas uma fachada e um mero executante.

Ele praticava a terapia manual. Certamente a praticava com um alto padrão profissional. Ward também tinha um hobby: era retratista e, por algum motivo, sonhava em ir a Moscovo/ou e desenhar ou pintar retratos de membros do Politburo. Por volta de 1960, Ward conheceu e fez amizade com um oficial da inteligência militar soviética (GRU), designado para a embaixada soviética em Londres, o Capitão de 1ª Classe Yevgeny Ivanov (morreu na pobreza em Moscovo/ou em 1994).

Naquele mesmo ano, Ward fundou uma agência de acompanhantes / «garotas de programa» para clientes de alto escalão da sociedade britânica. Com o tempo, a agência ganhou outro nome: o Clube das Quintas-feiras. Representantes masculinos de alto escalão da sociedade inglesa se reuniam na casa de Ward às quintas-feiras para conhecer as meninas/garotas que ele trazia, com tudo o que se seguia.

Ivanov manteve um caso com a socialité e dançarina exótica britânica Christine Keeler, que por sua vez se envolveu, muito possivelmente através da «sugestão» do KGB com John Profumo, o Secretário de Estado da Guerra britânico. O caso extraconjugal subsequente de Profumo com Keeler ocorreu em um momento em que ela também estava tendo relações sexuais com Ivanov.

Christine Keller fotografada por Lewis Morley, 1963

Em 1963, o escândalo conhecido como Caso Profumo eclodiu, envolvendo os dois ministros da guerra implicados no escândalo e levando à sua renúncia. A contraespionagem britânica, MI5, provou, então que Ward trabalhava para KGB e produzia/coletava fotografias incriminatórias de todos os altos funcionários que haviam utilizado os seus serviços. A lista era longa e impressionante. Como resultado, o governo conservador de Harold Macmillan renunciou. Foi substituído pelo governo trabalhista de Harold Wilson, que era o preferido da liderança soviética.

Em 30 de julho de 1963, Ward foi preso e encontrado morto (oficialmente dado como suicídio por envenenamento por barbitúricos) na sua sua cela já em 3 de agosto. Ele tinha apenas 50 anos. O capitão Ivanov, juntamente com seu coautor Gennady Sokolov, publicou, na rússia em 1992, um livro sobre o caso, intitulado «O Espião Nu». No mesmo 1992, o livro também foi publicado no Reino Unido sob o título «The Naked Spy». No livro, os autores revelaram que o escritório de Ward foi criado pelo KGB. Ward era apenas uma fachada e um mero executante.

Assim, após o projeto bem-sucedido de Ivanov e Ward, o KGB repetiu a mesma operação em maior escala nos Estados Unidos, realizada por Ghislaine Maxwell e Jeffrey Epstein...

sábado, janeiro 10, 2026

«Projet Niños»: as crianças espanhóis vítimas do comunismo e da guerra fria

Foi publicado na Espanha o livro «Projet Niños» da jornalista Carol Diaz, que conta o difícil destino de crianças e adolescentes espanhóis evacuados para a URSS em 1937-1938, durante a Guerra Civil Espanhola. Embora devessem retornar para casa após o fim das hostilidades, sua saída da União Soviética foi proibida por quase duas décadas. Somente a intervenção dos Estados Unidos, que tinham um interesse especial, ajudou a resolver o problema, escreve DW.

«Projet Niños» também é o nome que a CIA deu à operação especial realizada na Espanha no final da década de 1950, com foco nas 'Crianças da Guerra'. Entre 1956 e 1960, 2.400 dos 3.000 adultos, que em crianças foram enviadas para a União Soviética duas décadas antes, foram repatriadas para a Espanha. Ao retornarem, foram submetidas aos interrogatórios pela Agência de Inteligência dos Estados Unidos. A CIA lançou a 'Operação Projet Niños' em Madrid. Os arquivos dessa operação, que permaneceram secretos por 30 anos, foram desclassificados em setembro de 1995 e formam a base da série documental do canal televisivo DMAX España.

Quantas crianças espanholas foram parar na URSS?

Durante a Guerra Civil, o governo da Frente Popular, que lutava contra o general Francisco Franco, evacuou cerca de 37.500 crianças fora do país. Segundo Maria Ángeles Ramírez, professora de história da Universidade de Madrid, a maioria dos jovens espanhóis foi levada para países da Europa Ocidental e para o México. 2.895 crianças (5.000 crianças e adolescentes pelos dados da CIA) foram levadas para a União Soviética. Em 1939, após o fim das hostilidades na Espanha, quase todas as crianças puderam retornar – com exceção daquelas que acabaram na URSS.

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As crianças não foram libertadas pela decisão das autoridades soviéticas e liderança do partido comunista espanhol, que havia se instalado em Moscovo/ou, continuou Ramirez. Isso apesar dos apelos dos pais para que voltassem para casa. No entanto, os apelos ao governo soviético, à comunidade internacional, à imprensa e à Cruz Vermelha não surtiram efeito. Os motivos da detenção, ou seja, do sequestro das crianças, segundo ela, não foram ocultados na URSS. Declararam que elas deveriam ser criadas como uma «força de ataque» na luta pelo «futuro brilhante» da Espanha.

Criando futuros combatentes

As crianças separadas de seus pais, como se depreende de suas numerosas memórias, coletadas na época pela autora deste artigo, foram criadas de acordo com os padrões soviéticos. Eles foram aceitos como jovens pioneiros [a organização comunista para as crianças] e, nas aulas, falavam sobre as vitórias do socialismo e os vícios do capitalismo, da Igreja e de outros «inimigos do proletariado mundial». As crianças aprendiam canções patrióticas soviéticas, marchavam em formação com uma bandeira ao som de tambores. Quando cresciam, recebiam passaportes soviéticos (cerca de 35% do número geral, de acordo com a CIA).

Enquanto isso, essas crianças tiveram que suportar todas as dificuldades da Segunda Guerra Mundial, assim como todos os habitantes da União Soviética. Os mais velhos foram para a frente de batalha ou trabalharam na retaguarda. Os mais novos, que viviam em orfanatos, sofriam com a fome e as doenças. Alguns roubavam, principalmente comida, para sobreviver e acabaram no GULAG. No total, durante os anos de guerra, quase 200 menores espanhóis foram condenados a penas de cinco a oito anos por delitos menores.

A ajuda veio dos americanos e do degelo soviético

Mais tarde, a partir de meados da década de 1950, a União Soviética pareceu deixar de se opor ao retorno dos espanhóis: o «degelo» de Khrushchev entrou em vigor. Mas as autoridades espanholas, como observa Karol Díaz em seu livro, não ficaram satisfeitas com isso. O líder espanhól Franco, que saiu vitorioso da guerra civil, temia que os repatriados se juntassem às fileiras da oposição de esquerda – trazendo para a Espanha, como ele dizia «o contágio bolchevique».

Aqui os americanos intervieram na história. Naquela época, eles tinham forte influência sobre Franco. Os americanos falaram sobre direito humanitário e pressionaram o ditador para permitir o retorno dos espanhóis. Enquanto isso, o interesse dos EUA no problema, como observado no «Projet Niños», não se explicava por considerações humanitárias.

Em 1957, um acordo foi assinado entre os governos soviético e espanhol sobre o retorno de crianças deportadas anteriormente à sua pátria. Naquele mesmo ano e nos dois anos seguintes, cerca de metade (entre 1956 e 1960, 2.400 crianças, das 3.000 enviadas para a União Soviética duas décadas antes, foram repatriadas para a Espanha) dos espanhóis retornou à Espanha. A outra metade permaneceu na URSS. Primeiro, a situação política da Espanha não era particularmente atraente para eles. Segundo, muitos já tinham empregos na URSS ou haviam constituído família nessa época.

Citando fontes espanholas e americanas, Karol Diaz afirma que todas as pessoas que retornaram à Espanha foram interrogadas – frequentemente várias vezes – por representantes dos serviços secretos espanhóis, em conjunto com a CIA. Durante esses interrogatórios, que duraram quatro anos, os americanos obtiveram mais de 2.000 gravações. Um documento secreto baseado nelas foi compilado em 1963 pelo analista sênior da CIA, Lawrence E. Rogers. Esse documento foi desclassificado em setembro de 1995.

O que interessava à CIA

A autora de «Projet Niños» afirma que os espanhóis que retornaram da URSS eram de grande interesse para a CIA. Muitos deles, tendo recebido educação superior, trabalhavam em diferentes cidades e em vários setores da economia, incluindo na indústria de defesa. Além disso, eles podiam saber a localização de unidades militares e tinham informações sobre a situação e o clima social na União Soviética.

Os resultados práticos da operação

Quanto aos serviços de inteligência espanhóis, eles estavam interessados no grau de confiabilidade dos recém-chegados, bem como em informações sobre aqueles que não haviam retornado. Em Madrid, as autoridades chegaram a criar um Departamento para Repatriados da URSS sob a liderança do Major Teodoro Palacios. Tanto os espanhóis, quanto os americanos, em particular, buscavam obter informações sobre espanhóis que serviam na inteligência soviética. Aparentemente eram vários. Os mais famosos eram a coronel do NKVD-KGB Africa de las Eras, que se infiltrou na América Latina, e Ramon Mercader, o assassino de Lev Trotsky.

Vítimas de políticos

Carol Díaz chama os heróis de sua história de «vítimas da época e da política insensata». Nem às esperanças dos comunistas, nem os temores de Franco se concretizaram: os filhos que cresceram e voltaram para casa não se tornaram disseminadores do contágio bolchevique na Espanha. A tragédia de muitos deles era que se sentiam «como estrangeiros tanto na URSS, quanto em sua terra natal», onde eram submetidos a interrogatórios e exigências para denunciar seus compatriotas emigrantes.

A historiadora María Ángeles Ramírez classificou a prática de «sequestrar e manter crianças à força como imoral, devastadora e completamente desesperançosa». Ela lembrou que uma «prática vergonhosa» semelhante ainda existe em alguns países africanos, onde crianças sequestradas são usadas como soldados, e na própria rússia, no decorrer da agressão contra Ucrânia.

Agentes do KGB entre os retornados

O canal televisivo espanhol, DMAX España, produziu uma série documental, dedicada ao ‘Projet Niños’.

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Num dos depoimentos, transmitidos pelo canal, o coronel reformado do KGB, Oleg Nechiporenko, responsável pelo controlo/e dos estrangeiros na URSS (era o agente do KGB que teve contactos diretos com Lee Harwey Oswald, o presumivel assassino do John Kennedy), relata na série as operações secretas da KGB, explicando como soviéticos infiltraram os seus agentes entre os espanhóis que retornaram da URSS. «Entre os espanhóis também estavam nossos agentes, aqueles que cooperavam com o KGB», revelou ele.

Agentes do GRU entre os descendentes de espanóis 

Os dois passaportes do agente do GRU russo González-Rubtsov

Não podemos se esquecer do caso do agente russo do GRU, González-Rubtsov, que nasceu em Moscovo em 1982 numa família de imigrantes espanhóis. O seu avô, Andres González Yagüe, foi levado à URSS ainda criança, salvando-se da guerra civil espanhóla. A filha de Andres, María Elena González, casou com o cientista soviético Alexei Rubtsov; chamaram o seu filho de Pavel. “Estas famílias sempre estiveram no campo de visão da inteligência soviética e russa, eram seguidas”, explica a investigadora de inteligência e editora-chefe adjunta da página russa Agentura.ru Irina Borogan. “Porque eles, pela sua origem, falam línguas e têm parentes no estrangeiro e, por isso, são perfeitos para o recrutamento.”

quinta-feira, janeiro 08, 2026

Morreu traidor Aldrich Ames, ex-agente da CIA, que passou 32 anos na prisão


Aldrich Ames, ex-agente da CIA condenado à prisão perpétua por espionagem para Moscovo/ou, faleceu na prisão, passando lá 32 anos. Sua traição levou à morte de, no mínimo, 10 agentes americanos (entre eles um general e vários coronéis do GRU e do KGB), executados na URSS.

Aldrich Ames, ex-agente da CIA que atuou como agente para Moscovo/ou, morreu em uma penitenciária federal em Maryland. Ames tinha 84 anos. O Washington Post noticiou sua morte, citando o banco de dados de prisioneiros do Departamento Federal de Prisões.

Ames sob o nomes de código de “Alexander” e “Kolokol” (Sino) trabalhou para a inteligência soviética e, posteriormente, russa, de 1985 a 1994. Em juízo, ele admitiu ter fornecido à KGB os nomes de «praticamente todos os agentes da CIA e outros agentes americanos e do serviço exterior [na URSS] que eu conhecia», bem como «uma vasta quantidade de informações sobre política externa, defesa e segurança dos EUA». Por isso, Ames recebeu mais de um milhão de dólares (outros dados apontam de até 4,6 milões de dólares) em dinheiro e lhe foi prometido pelo menos mais um milhão de dólares e imóveis na rússia. Entre os agentes da CIA, que Ames entregou ao KGB e que foram executados estava o major-general do GRU Dimitri Polyakov e tenente-coronel Valery Martinov, o agente do KGB nos EUA, disfarçado do Adido Cultural da Embaixada soviética em Washington. Engraçado, que o neto do Martynov, Edward Coristine (2005), o famoso Big Balls, é um desenvolvedor de software, que ganhou a notoriedade em 2025 após ser nomeado para o Departamento de Eficácia Governamental (DOGE), comandado por Elon Mask.

O Washington Post relata que, quando Ames foi capturado, sua espionagem havia levado à morte de pelo menos 10 agentes e constituía o vazamento mais grave da história da CIA. Ames alegou que cooperou com a KGB não por considerações ideológicas (ele chamou o sistema soviético de «regime brutal e desumano»), mas por dificuldades financeiras.

Ames foi preso em fevereiro de 1994. Um dos principais fatores que levaram à sua exposição foram seus gastos exorbitantes. Na primavera de 1994, Ames foi condenado à prisão perpétua. Enquanto estava na prisão, ele processou o Serviço de Receita Federal (IRS), que exigia o pagamento de impostos atrasados sobre mais de um milhão de dólares que ele havia recebido por espionagem para Moscou. Amer perdeu o caso.

Entre as razões da sua descoberta foi o alto número dos oficiais do KGB – agentes da CIA, que foram executados na URSS em 1986-1988, além dos gastos financeiros, muito acima da média, praticados pelo Ames e pela sua esposa, a colombiana Maria del Rosario Casas Dupuy. Aparentemente, Maria Dupuy sofria de algum tipo de distúrbio mental, sendo compradora compulsiva.

Maria del Rosario Casas Dupuy, abandona o tribunal após Ames ter recebido
uma pena de prisão perpétua, Washington DC, 28 de Abril de 1994.
(Fotografia de Larry Downing/Sygma/Sygma via Getty Images)

Juntamente com Ames foi presa a sua esposa, Maria del Rosario Casas Dupuy, a 2ª secretária da Embaixada da Colômbia no México e também agente/informadora da CIA. Apos servir 5 anos na cadeia americana, ela foi expulsa para Colombia.

domingo, dezembro 28, 2025

A guerra colonial soviética no Afeganistão: as etapas de uma derrocada

Batalhões muçulmanos soviéticos no Afeganistão. Foto de arquivo

A guerra soviética no Afeganistão começou em abril de 1978. Inicialmente, a URSS negou seu envolvimento, e a guerra foi travada por batalhões muçulmanos soviéticos. A data oficial de início da guerra só veio à tona muito mais tarde, com a lei russa «Sobre Veteranos» de 2023. 

Em 24 de junho de 1979, foi criado o Batalhão Muçulmano das forças especiais do GRU do Estado-Maior Geral das Forças Armadas da URSS; seis meses depois, a unidade invadiria a residência do presidente do Afeganistão. O batalhão foi composto por naturais das repúblicas soviéticas da Ásia Central (uzbeques, tadjiques, casaques, quirguizes, turcomanos) que tinham traços físicos semelhantes aos afegãos. A ideia provinha da doutrina do KGB, chamada «maskirovka», disseminar a presença soviética no Afeganistão, ajudar a negar as suas evidências, se salvando do uso de militares, fisicamente parecidos com a população local. 

Em 12 de dezembro de 1979, numa reunião do Bureau Político da PCUS, o governo real da URSS, foi tomada a decisão final sobre invasão soviética em grande escala do Afeganistão. O KGB, o Ministério dos Negócios Estrangeiros / das Relações Exteriores e os representantes do complexo militar-industrial se manifestaram ao favor. O Estado-Maior Geral das forças armadas e os conselheiros militares apresentaram argumentos desfavoráveis. 

Em 25 de dezembro de 1979, tropas soviéticas desembarcaram em Cabul. Oficialmente, o objetivo era «guardar o aeroporto». Um dos aviões caiu nas montanhas. Os soviéticos nunca removeram os corpos. Apenas em 2005, o Ministério da Defesa russo lançou, no local do acidente, à partir do ár, uma placa com os nomes das vítimas. 

Em 27 de dezembro de 1979, Musbat do GRU, usando os uniformes do exército afegão e a unidade «Alfa» do KGB, atacaram a residência do chefe de Estado do Afeganistão (Operação Shtorm-333). Mataram o chefe de Estado, Hafizullah Amin (o homem que convidou os soviéticos ao Afeganistão), uma parte de sua família e centenas de guardas. O chefe de Estado assassinado foi declarado o «agente da CIA», e um novo chefe de Estado afegão, Babrak Karmal, foi trazido de Moscovo/ou. 

O novo chefe de Estado declarou a «revolução de militares patriotas afegãos» e solicitou o envio de tropas soviéticas, que «pela coincidência» realizavam exercícios na fronteira afegã naquele momento. Os militares soviéticos foram indotrinados pela propaganda militar especial de que «se não fossem nós [soviéticos], as tropas da OTAN estariam lá quatro horas depois!» 

2/17/83-Nova Iorque: Esses quatro desertores soviéticos sentados foram entrevistados pela ABC-News numa base rebelde muçulmana no sudeste do Afeganistão. Um dos soldados explicou a sua entrega: “eu não quero matar mulheres e crianças”. Eles disseram que a moral nos regimentos soviéticos é baixa e descreveram a existência de armas químicas, repetidamente negadas por Moscovo. @ABC News 20/20

Em 14 de janeiro de 1980, a Assembleia Geral da ONU adotou uma resolução condenando a invasão. Sanções foram impostas à URSS. Armas chinesas e europeias começaram a ser fornecidas aos mujahidins. Essas medidas aumentaram o custo da agressão, mas não impediram a guerra. 

Em junho de 1982, começaram em Genebra as negociações «para a resolução da situação no Afeganistão». Líder soviético Leonid Brejnev morreu em novembro de 1982. O seu sucessor, ex-chefe do KGB, Yuri Andropov morreu em fevereiro de 1984. O sucessor deste, Konstantin Chernenko morreu em março de 1985. A escalada do conflito só aumentou durante esses anos. 

Em meados da década de 1980, os preços do petróleo começaram a cair. Os mujahidins receberam mísseis Stinger, o que limitou a logística aérea soviética e a capacidade de bombardear a resistência afegã impunemente. O uso generalista de minas limitou a logística terrestre. O custo da continuação da guerra aumentou. 

A propaganda visual anti-soviética afegã 

Em abril de 1988, um acordo sobre a retirada das tropas soviéticas foi assinado em Genebra. Afeganistão e Paquistão eram as partes signatárias, e a URSS tornou-se a garantidora do acordo. A retirada das tropas terminou oficialmente em 15 de fevereiro de 1989. Restaram apenas alguns «assessores». 

O contingente soviético do sudeste do Afeganistão estava sendo retirado através do estreito túnel de Salang. Representantes soviéticos iniciaram negociações de cessar-fogo com Ahmad Shah Massoud, que controlava aquela região, durante a retirada. Ahmad Shah Massoud cumpriu a sua parte do acordo. Enquanto isso, o comando soviético lançava projéteis termobáricos sobre as aldeias vizinhas. 

***

A guerra russo-ucraniana começou em abril-maio de 2014. Inicialmente, o Kremlin negou seu envolvimento, alegando que a guerra era travada por «mineiros de Donbas». A data oficial de início da guerra foi definida pela lei russa «Sobre Veteranos», aprovada em 2023. 

Em 24 de fevereiro de 2022, os paraquedistas russos tentaram ocupar o aeródromo de Hostomel. O Kremlin declarou que «tropas ucranianas patrióticas derrubarão o regime criminoso». Yanukovych foi levado, às pressas, para Minsk. Os exercícios na fronteira se transformaram numa agressão russa.

A guerra colonial soviética no Afeganistão durou nove anos

  • A URSS perdeu aproximadamente 15.000 homens (14.427 exército, 576 KGB, 28 polícia), mais de 400 desapareceram em combate ou se tornaram POW;
  • Cerca de 60.000 foram perdidos pelas forças afegãs pró-soviéticas;
  • Os mujahidines perderam aproximadamente de 75.000 à 90.000 homens. 

O Ocidente lutou no Afeganistão por 20 anos

  • O exército dos EUA perdeu 2.459 militares mortos;
  • CIA, EMP´s perderam cerca de 3.900 contratados;
  • Aliados dos EUA (NATO/OTAN): perderam aproximadamente 1.150 mortos, ou seja, o Ocidente perdeu cerca de 7.500 homens — metade das perdas soviéticas, e em um período duas vezes maior.
  • As forças governamentais afegãs sofreram aproximadamente 66.000 baixas.
  • Perdas dos mujahidin: de 51.000 à 53.000, sem muita precisão.

sábado, outubro 25, 2025

As táticas da «guerra sexual» usadas pelas espiãs chinesas e russas

Espiã russa Maria Butina julgada nos EUA em 2018

As espiãs da China e da rússia estão usando cada vez mais táticas que os especialistas chamam de «guerra sexual». Trata-se de uma campanha secreta que envolve sedução e relacionamentos românticos de longo prazo com o objetivo de penetrar na indústria de tecnologia americana, escreve The Economic Times. 

A publicação observa que agências de inteligência chinesas e russas enviam agentes femininas para atacar engenheiros, executivos e pesquisadores no Vale do Silício. Elas estabelecem relacionamentos românticos, casam-se com seus alvos e até têm filhos. 

Tudo isso faz parte de uma estratégia de espionagem de longo prazo que lhes permite penetrar profundamente na vida pessoal de seus alvos e obter acesso a informações confidenciais. 

Essas operações são coordenadas pelos serviços de inteligência da China e da rússia, que utilizam mulheres especialmente treinadas que podem manipular emoções, construir confiança e extrair gradualmente informações secretas ao longo de muitos anos. 

Julgamento da Maria Butina que oferecia sexo à troca de informações

A tática, que tem suas raízes na espionagem da Guerra Fria, evoluiu para uma forma sofisticada de trabalho secreto, adaptada ao ambiente tecnológico mais competitivo do mundo: o Vale do Silício. 

De acordo com atuais e ex-oficiais de contrainteligência dos EUA citados pelo The Times, a abordagem combina romance, sedução e manipulação psicológica. 

«Conhecer, casar, ter filhos e, em seguida, conduzir uma operação de inteligência para a vida toda é algo muito desagradável de se pensar, mas é muito comum», disse um ex-oficial de inteligência dos EUA ao jornal. 

James Mulvenon, diretor de inteligência da Pamir Consulting e veterano em investigações de contrainteligência, disse ter visto pessoalmente o aumento dessa atividade. «Recebo muitas solicitações sofisticadas no LinkedIn do mesmo tipo de jovens chinesas atraentes», disse ele. «Parece que a situação realmente aumentou recentemente». 

Malvenon relatou um incidente em uma conferência de negócios na Virgínia, onde duas chinesas bem preparadas tentaram participar de um evento sobre riscos de investimento na China, mas foram recusadas. «É um fenômeno real», disse ele. «E vou te dizer uma coisa: é estranho». 

Um caso envolveu uma sedutora mulher russa que se casou com um engenheiro aeroespacial americano enquanto trabalhava em projetos de defesa. Depois de estudar em uma academia de modelos e fazer cursos na chamada «escola russa de soft power», ela ressurgiu alguns anos depois como especialista em criptomoedas em círculos ligados ao programa espacial militar dos EUA. Seu marido, segundo relatos, desconhecia sua verdadeira origem. 

Ler mais em inglês ou ucraniano

domingo, agosto 10, 2025

De Pablo Gonzáles Yagüe a Pavel Rubtsov: agonia e queda do espião espanhol de putin

Pablo/Pavel abraçado pelo Oleg Sotnikov, responsável pelo programa dos agentes ilegais do GRU

Como vive atualmente Pablo Gonález Yagüe (alias Pavel Rubtsov), um agente do GRU russo que foi trocado por presos políticos russos há um ano? Spoiler: o agente da secreta militar russa está a tentar passar-se por um «preso político». 

Há pouco mais de um ano, a 1 de agosto de 2024, a rússia e os países ocidentais realizaram a maior troca de prisioneiros desde o fim da Guerra Fria. As autoridades russas libertaram, ao Ocidente, os presos políticos russos e devolveram, na sua maioria, os seus próprios espiões. Um deles era Pablo González Yagüe (identidade russa: Pavel Rubtsov), um agente dos serviços de informação militar russos que monitorizava os opositores russos na Europa, disfarçado de jornalista independente do País Basco. O jornal espanhol El Mundo falou com pessoas próximas de Gonzalez e descobriu como ele vive um ano depois da troca. 

Quem é Pablo González?

Por parte da mãe, é descendente de um espanhol que foi levado para a URSS durante a guerra civil espanóla. A sua mãe, Maria Elena González, casou com o cientista soviético Alexei Rubtsov, mas mais tarde divorciou-se dele e mudou-se para a sua terra natal histórica, o País Basco, levando consigo o seu filho de nove anos. Aí, o jovem russo Pavel Rubtsov tornou-se espanól/basco Pablo González Yagüe. 

Em 2003, González, de 21 anos, recebeu o passaporte russo. Os serviços de informação espanhóis suspeitaram que o serviço secreto militar russo (GRU) o recrutou sete anos depois, durante uma viagem para visitar o pai e a madrasta, escreve o El Mundo, citando o jornalista Drew Hinshaw, autor de um livro sobre a troca de prisioneiros do ano passado. Segundo a publicação russa The Insider, a madrasta de González, russa Tatyana Dobrenko, anteriormente possuia o domicílio registado na morada da sede do GRU em Moscovo. 

Ler mais e/ou comprar o livro

González apresentou-se no mundo jornalístico como jornalista e politólogo especializado em conflitos na Europa de Leste, nos Balcãs e no Cáucaso. Viajou de facto para pontos críticos, participou em conferências europeias e era amigo de jornalistas e oposicionistas russos. González foi ao futebol com Ilya Yashin, teve um caso amoroso com Zhanna Nemtsova (filha do Boris Nemtsov) e delatou ambos ao GRU. Além disso, segundo o El Mundo, seguiu Alexei Navalny na Europa. 

Como foi detido e trocado?

Desde 2019, Gonzalez vivia na Polónia. Em 2022, poucos dias após a invasão russa da Ucrânia, foi detido pela secreta polaca ABW, após ser deportado da Ucrânia pelo SBU, perto da fronteira entre a Polónia e a Ucrânia por suspeita de trabalhar para Moscovo. As organizações jornalísticas consideraram-no inicialmente vítima de perseguição política, mas, a 1 de agosto de 2024, voou para Moscovo juntamente com outros espiões russos libertados. Gonzalez saiu do avião com uma t-shirt com a inscrição «Empire needs you» («O Império precisa de ti»), apertou a mão a Vladimir Putin e ao curador dos agentes dos serviços de informação ilegais do GRU, Oleg Sotnikov. 

Sotnikov, procurado pelo FBI por Conspiração para cometer fraude informática;
Conspiração para cometer fraude eletrónica; Conspiração para cometer branqueamento de capitais

Segundo o El Mundo, Gonzalez demonstra agora uma notável antipatia pela Polónia, onde passou dois anos e meio preso. Gonzalez não cooperou com a investigação polaca, observa o El Mundo. «Pablo considerava-se muito importante para o Kremlin. Segundo os serviços de informação polacos, disse aos investigadores que era tão valioso para a rússia que estavam dispostos a trocá-lo», disse o jornalista Drew Hinshaw à publicação. 

González acabou por ter razão. O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, foi criticado por ter concordado em trocá-lo (o jornal polaco Rzeczpospolita escreveu que isto foi feito de acordo com um procedimento «desconhecido nos nossos processos criminais»). As acusações de espionagem contra González não foram retiradas – segundo a investigação, este estava a passar informações ao GRU desde 2016 que poderiam prejudicar a Polónia. O caso foi transferido para tribunal, as audiências estão marcadas para começar no outono de 2025, e até planeiam enviar uma intimação ao acusado: não está formalmente proibido de entrar na Polónia. 

Como está ele a viver agora? 

“Ao longo destes 12 meses [...] o seu desprezo pela Ucrânia aumentou. Agora pigarreia constantemente quando fala. Como se estivesse a sufocar”, escreve o El Mundo sobre González. Segundo o jornal, o agente sofre de fibrose pulmonar, atribuindo problemas de saúde à Covid-19, que, segundo a sua própria versão, contraiu duas vezes na prisão polaca. 

O El Mundo refere que González vive em Moscovo, está a divorciar-se da sua mulher, Oihana Goiriena, que permaneceu em Espanha. Tem “dívidas na Polónia relacionadas com custos judiciais”, mas “finalmente tem um emprego”. O El Mundo não especifica exatamente que tipo de trabalho — apenas escreve que Gonzalez declinou o convite do canal de propaganda russa RT, mas «está a tentar encontrar tempo para escrever» e, a julgar pelas suas entrevistas, está a preparar alguns projetos de «formação para jornalistas e politólogos». 

Registo domiciliar da Tatyana Dobrenko, a madrasta do González/Rubtsov.
Pela coincidência ou não, o mesmo endereço da sede do GRU em Moscovo 

Na primavera de 2025, Gonzalez publicou um texto no qual jurava não ser um espião, mas um jornalista perseguido por motivos políticos: «Fui atacado por ser russo, por ser basco, pela minha posição de esquerda, por não simpatizar com o regime de Kiev» [o espião russo se esqueceu, que quando se passava por jornalista nunca mostrou nenhuma antipatia pública pela Ucrânia, alias escrevia todos os seus textos de acordo com a posição europeia/ocidental, retratando Ucrânia como a vítima da agressão militar russa, não provocada]. Segundo a afrimação do González/Rubtsov, a principal prova contra ele foi um aperto de mão com Vladimir Putin. Mas não é assim, sublinha a The Insider. De acordo com a publicação, Gonzalez usou dois passaportes (6543413** e 6465187**) da mesma série que pelo menos 15 outros espiões do GRU conhecidos pelos jornalistas — incluindo os dois envenenadores de Sergei Skripal — Boshirov e Petrov (na realidade Chepiga e Mishkin), participantes na tentativa do golpe do Estado no Montenegro, participantes no envenenamento de Yemelyan Gebrev na Bulgária, organizadores de ataques de hackers e muitos outros.

sábado, agosto 09, 2025

Livros dos Viktor Suvorov são novamente proibidos na rússia

O Tribunal Distrital de São Petersburgo na rússia proibiu a distribuição de três livros do ex-oficial do GRU soviético, ucraniano Vladimir Rezun, conhecido pelo pseudónimo de Viktor Suvorov, informou a chefe do serviço de imprensa unificado dos tribunais daquela cidade. 

Ler o resumo em português, PDF

Estamos a falar dos livros «Quebra-gelo. Quem Começou a Segunda Guerra Mundial?», «Dia M. Quando Começou a Segunda Guerra Mundial?» e «Expurgos. Porque que Estaline decapitou o seu exército?». O Tribunal Distrital «Oktyabrsky» proibiu a distribuição dos livros mencionados em cinco ligações online. 

«Dia M», revisão histórica do livro, em inglês

O tribunal considerou que as obras históricas do Viktor Suvorov contêm, entre outras coisas, indícios de influência na opinião pública com o objectivo de «minar os fundamentos históricos e as tradições patrióticas associadas à defesa da pátria na federação russa»; «reforçam um estereótipo negativo, uma imagem negativa da URSS; divulgam informações falsas sobre as atividades de agências governamentais e funcionários individuais da URSS; 

O livro analisado pelo Instituto Naval dos Estados Unidos, em inglês

... divulgam informações falsas sobre veteranos da Grande Guerra Patriótica [nome russo da guerra nazi-soviética, parte da II G.M.] e profanam a memória dos defensores da pátria».

Faça click para ler mais: Os “coprófagos” do GRU e do KGB


domingo, junho 01, 2025

Os hackers do GRU do esquadrão da morte mais notório da rússia

Os jornalistas conseguiram aceder à correspondência da ala hacker da unidade Nr. 29155 do GRU russo. Foi descoberta a lista completa de alvos do GRU: desde empresas estatais ucranianas a instalações de infraestrutura na Europa, um banco do Qatar e até clínicas médicas em todo o mundo. 

A Unidade 29155 do GRU russo é mais conhecida pela sua longa lista de operações de assassinato e sabotagem, que incluem os envenenamentos de Salisbury, em Inglaterra, as explosões em depósitos de armas na República Checa e uma tentativa de golpe de Estado no Montenegro. Mas as suas actividades no ciberespaço permaneceram na sombra – até agora. Depois de analisar uma coleção de dados ocultos, o The Insider confirma que o mais notório esquadrão de operações secretas do Kremlin também mobilizou uma equipa de hackers – uma que tentou desestabilizar a Ucrânia nos meses que antecederam a invasão em grande escala pela rússia.

The Insider identificou várias dezenas de membros do grupo, incluindo hackers previamente condenados na justiça russa, estudantes recém-formados e veteranos de operações de envenenamento e sabotagem da GRU, sem nenhuma experiência em IT/TI. A maioria das operações de pirataria informática e de sabotagem de informação da Unidade 29155 falharam, o que não é surpreendente, dado que os responsáveis ​​do departamento de pirataria informática falaram publicamente sobre a sua baixa motivação, usaram identidades falsas para se encontrarem com amantes e profissionais do sexo (fornecendo, assim, os seus dados pessoais) e desviavam, ao proveito próprio, os fundos destinados às operações de sabotagem na Ucrânia. 

No entanto, o mesmo pode ser dito sobre muitas das operações da unidade, embora tenha havido alguns casos bem-sucedidos entre elas.

Em particular, entre as operações bem-sucedidas, houve o hackeamento de um banco do Qatar com a extração de uma base de dados de muitos clientes influentes, bem como o trabalho de publicação de informações confidenciais de alguns políticos polacos/poloneses no domínio público – foi feito em nome dos alegados «nacionalistas ucranianos».

Ao mesmo tempo, a maioria dos membros da unidade praticamente não tinha conhecimentos de tecnologia informática, pelo que, na verdade, especializaram-se em provocações. Por exemplo, publicaram activamente dados sobre a presença de armamento de fabrico búlgaro encontrado entre os rebeldes sírios com o objectivo de, posteriormente, pressionar o governo búlgaro.

Naturalmente, o principal alvo dos esforços era Ucrânia – os membros da unidade tentaram organizar uma série de provocações, como por exemplo, organizar a produção dos graffiti contra o presidente Zelensky, alegadamente escritas por representantes da OZSP «Azov».

A característica distintiva da unidade era o gasto de enormes somas de dinheiro em necessidades pessoais (por exemplo, com os/as amantes), bem como a baixa motivação para realizar o seu trabalho.

No final do dia, isto levou a uma série de fracassos absolutos, em particular o desperdício de grandes somas de dinheiro no recrutamento falhado de agentes na Ucrânia, nas vésperas da invasão militar russa de larga escala de 22.02.2022.

Ler mais: https://theins.press/en/inv/281731

terça-feira, março 25, 2025

Os militares portugueses ao serviço da propaganda do Kremlin

Do serviço militar ao servilismo ideológico: como dois militares portugueses reformados, major-general Agostinho Costa e o major-general Carlos Branco se tornaram marionetas do Kremlin e do seu esforço propagandístico na Europa. 

Texto de Artur Gomes, o título geral é de responsabilidade do nosso blogue 

«Se há algo mais perigoso do que um ignorante, é um ignorante com megafone. E em Portugal, infelizmente, existem dois majores-generais reformados que, em vez de honrarem a farda que vestiram, optaram por transformar-se em fantoches de narrativas duvidosas, mestres da desinformação e inimigos confessos da verdade. 

O major-general Agostinho Costa e o major-general Carlos Branco são hoje símbolos vivos da degradação do comentário militar no espaço público. 

O que fazem não é análise, é propaganda disfarçada de opinião, uma mancha no debate público e um insulto à inteligência de quem os ouve. Estes dois “cavalheiros” são um risco real para a qualidade da informação e para a compreensão que os portugueses deveriam ter sobre assuntos de defesa e geopolítica. 

A ascensão de Agostinho Costa como “especialista” da guerra na Ucrânia é um caso de estudo em oportunismo e incompetência. O seu discurso é uma miscelânea de desinformação, argumentos falaciosos e uma impressionante subserviência às narrativas do Kremlin.

Desde os primeiros dias da invasão russa, Costa assumiu uma posição que pode ser descrita como tudo menos isenta. Sempre pronto a relativizar os crimes de guerra russos, minimizar os massacres em Bucha ou desacreditar a resistência ucraniana, o general tornou-se uma voz notoriamente enviesada, a ponto de alguns o acusarem, com razão, de atuar como um propagandista disfarçado de analista. 

Se fosse apenas uma questão de opinião, ainda poderíamos enquadrar as suas declarações como um exercício de liberdade de expressão. Mas a questão é que as suas análises são recheadas de erros factuais, imprecisões históricas e um desdém pela realidade que beira o criminoso.

Um exemplo gritante ocorreu quando, contra todas as evidências, Costa sugeriu que os ucranianos estavam a encenar massacres para culpar a Rússia, ecoando as teorias conspiratórias do Kremlin.

Este tipo de retórica não é apenas antiética – é perigosa. Contribui para confundir o público e dar argumentos àqueles que querem relativizar os horrores da guerra. 

E depois há a sua conduta pessoal, que espelha perfeitamente a falta de caráter que exibe na televisão. O episódio vergonhoso na CNN Portugal, onde insultou de forma grosseira e gratuita a analista Helena Ferro Gouveia nos bastidores, é uma amostra perfeita do seu temperamento tóxico. Incapaz de lidar com o contraditório, incapaz de sustentar as suas posições quando confrontado com factos, Costa refugia-se na grosseria e no insulto.

Um homem que se comporta desta maneira não merece espaço no comentário público, quanto mais ser tratado como uma autoridade em geopolítica. 

Mas este não foi um caso isolado. Agostinho Costa já protagonizou outros episódios que evidenciam a sua falta de ética e integridade. Durante várias aparições televisivas, tem mostrado uma postura de desprezo por qualquer opinião contrária, interrompendo colegas de painel e usando um tom condescendente, como se fosse o único detentor da verdade.

Para Costa, qualquer visão diferente da sua não é apenas errada – é ridicularizada, desqualificada e tratada como se fosse irrelevante. Esta atitude não é apenas arrogante; é uma forma de silenciar e desinformar. 

A influência de Costa no circuito da desinformação é tão evidente que foi incluído no Vatnik Soup, uma base de dados que expõe indivíduos que promovem narrativas pró-russas e desinformação alinhada com os interesses do Kremlin.

Esta lista, compilada pelo analista finlandês Pekka Kallioniemi, identifica agentes de propaganda e apologistas da Rússia, deixando claro que Costa não é um mero comentador excêntrico, mas sim um elemento ativo no jogo da manipulação informativa. 

Se Agostinho Costa é um problema, Carlos Branco não lhe fica atrás. Branco tem um currículo de serviço militar que, no papel, lhe daria legitimidade para falar sobre geopolítica.

Mas o que faz com essa credibilidade? Usa-a para distorcer a história e espalhar teses revisionistas perigosas. A sua tentativa de reescrever a história do genocídio nos Balcãs é um insulto à memória das vítimas e um atentado contra a verdade.

No seu livro «A Guerra nos Balcãs: Jihadismo, Geopolítica e Desinformação», Branco tenta inverter a narrativa de Srebrenica, sugerindo que o verdadeiro genocídio ocorreu na Krajina e não no massacre reconhecido internacionalmente como um dos maiores crimes de guerra da história recente.

Esta posição não é apenas controversa – é irresponsável. É um ato deliberado de desinformação, um exercício de manipulação que coloca Branco na mesma categoria daqueles que negam genocídios e tentam justificar atrocidades históricas.

Além disso, a sua ligação ao Valdai Club, um 'think tank' russo conhecido por promover as políticas do Kremlin, levanta sérias questões sobre a sua imparcialidade. Ser membro deste clube implica uma proximidade ideológica com a narrativa russa, o que compromete a sua credibilidade como analista independente.

A presença de Branco neste círculo coloca-o ao lado de figuras que servem de peões estratégicos do Kremlin, e a sua participação nestas redes de influência deveria ser analisada com muito maior escrutínio. 

Porque é que os media portugueses continuam a amplificar estas figuras? A responsabilidade da comunicação social é imensa. Não basta dar tempo de antena a qualquer ex-militar que aparece com um palpite sobre geopolítica. O jornalismo sério deve filtrar as vozes que merecem ser ouvidas e eliminar os charlatões. O problema não é apenas a incompetência de Costa e Branco – é a irresponsabilidade dos media em continuar a dar-lhes palco. 

É tempo de os portugueses exigirem melhor. É tempo de recusar a mediocridade e a desinformação disfarçada de análise. O país precisa de especialistas sérios, rigorosos e comprometidos com a verdade.

O que não precisa é de generais reformados que trocaram a honra pela propaganda, a verdade pela conveniência e a seriedade pela farsa. 

Agostinho Costa e Carlos Branco não são analistas – são farsantes. São um embaraço para as Forças Armadas, uma nódoa na credibilidade do comentário militar e um cancro no debate público. E quanto mais cedo saírem da televisão nacional, melhor será para a informação, para o país e para a dignidade dos verdadeiros especialistas.»

terça-feira, outubro 15, 2024

Pablo González: o espião russo do GRU desde 2010

O jornalista do The Guardian Shaun Walker descobriu, com ajuda do Christo Grozev, um dos principais investigadores do Bellingcat, as informações interessantes sobre Tatyana Dobrenko, madrasta russa do espião do GRU Pablo González (Pavel Rubtsov), que recentemente foi incluído na troca entre Ocidente e a rússia. 

Para começar, existem registos russos de duas Tatyana Dobrenkos diferentes, uma nascida em 1954 e outra em 1959, mas ambas ligadas ao mesmo número de segurança social. Ainda mais curiosos foram os seus endereços oficiais ao longo do tempo. Antes de chegar ao apartamento onde vivia o pai de González, ela estava registada no 76 Khoroshevskoye Shosse. Esta morada, no nordeste de Moscovo, alberga um bloco de apartamentos da era soviética que não tem nada de especial, exceto uma coisa: o enorme edifício mesmo ao lado, no 76B. O edifício é vulgarmente conhecido como «Aquário» e alberga a sede do GRU. Por si só não prova a filiação no GRU. «Mas vemos que é também o endereço de casa de outros funcionários conhecidos do GRU”, explica Grozev. Foi certamente uma coincidência surpreendente para alguém cujo enteado era agora acusado de ser oficial do GRU. Dobrenko recebeu um pedido para comentar, via Telegram, leu e bloqueou o jornalista sem responder. 

No ano passado, o meio de investigação russo exilado «Agentstvo» publicou uma história baseada numa base de dados de reservas de voos russos que foi divulgada. Uma das reservas parecia mostrar que, em junho de 2017, dois bilhetes de ida e volta de Moscovo para São Petersburgo tinham sido comprados numa única transação: um para Pablo González, utilizando o seu passaporte russo, e outro para um homem chamado Sergei Turbin. Há fortes indícios, segundo Agentstvo, de que Turbin é um oficial do GRU. Grozev concordou, referindo que a sua investigação mostra que Turbin trabalhava para o 5º Departamento do GRU, que lida com agentes ilegais. A Turbin não foi encontrado para comentar. 

No cerne do caso dos procuradores polacos está uma série de relatórios que González terá escrito ao longo de vários anos, aparentemente aos seus supervisores no GRU. “Estes eram relatórios típicos de inteligência sobre instalações, infraestruturas e pessoas com quem contactar”, explica Stanisław Żaryn, conselheiro de segurança nacional do Presidente da Polónia. Outra fonte disse que estes relatórios fazem frequentemente referência ao “Centro”, código de espionagem russo para a sede de inteligência. Acredita-se que alguns dos relatórios incluíram perguntas de acompanhamento, aparentemente de um responsável. Num de 2018, González terá escrito aos seus supervisores que tinha “destruído os dispositivos eletrónicos conforme ordenado”, despedaçando-os e atirando-os para o oceano. 

Um relatório continha alegadamente cópias de e-mails pessoais escritos pelo Boris Nemtsov, o pai assassinado de Zhanna Nemtsova. Nemtsova não tem permissão para falar sobre o caso, uma vez que está a cooperar com a investigação e assinou um acordo de sigilo, mas confirmou que possuía o antigo portátil pessoal de Boris Nemtsov, trazido de Moscovo pelo seu advogado. Ela recordou ainda que o emprestou a González numa ocasião, quando ele alegou que o seu próprio computador tinha avariado.

Espião russo desde quando?

Reportagem da Antena3 sugere que González estava na folha de pagamentos do GRU desde pelo menos 2010. Christo Grozev considera que Pablo foi recrutado ainda em 2004, quando solicitou o seu primeiro passaporte russo. Consistente com outros casos que investigámos, em que jovens de origem parcialmente russa foram recrutados pela rezidentura do GRU de Barcelona, disfarçados de funcionários consulares.

Espião do GRU desde 2010

A Antena 3 Noticias teve acesso a informações que confirmam que Pablo González estava a trabalhar para o GRU, o serviço militar de inteligência russo, durante cerca de 15 anos (no mínimo). Sabe-se disso porque existe um documento de 2017 em que Pablo pede um aumento de soldo. Naquele momento cobrava 3.100€ mensais, viagens a parte. Pablo/Pavel escreve: «recebo este valor desde 2010». Nesta mesma mensagem ele também pede um aumento, querendo receber 4.300€ mensais, o que justifica com a inflação elevada; pedindo que se reconhece a sua antiguidade, solicitando uma vivienda em Moscovo e uma pensão para quando se retirar do serviço.

A sua função: 'targeting'

De acordo com as fontes consultadas pela Antena 3 Noticias, Pablo González trabalha na Linha N do GRU. O departamento de serviço militar de inteligência russo onde se depara com chamados «agentes ilegais»: são aqueles que trabalham fora do seu país, mas não têm qualquer suporte legal por parte da sua embaixada. Neste caso usando a cobertura do jornalista, sem necessidade de obter uma identidade falsa. Hoje sabemos que Pablo González se dedicava ao chamado 'targeting': identificar e sinalizar personas e lugares «de interesse» que, mais tarde, se poderiam converter no objectivo do Kremlin.

segunda-feira, outubro 14, 2024

Israel detêm dois agentes iranianos – o casal de emigrantes russos

A secreta israelita «Shin Bet» divulgou os nomes de dois agentes iranianos detidos – o casal de emigrantes russos: Anna Bernstein, de 18 anos, e o marido Vladislav Victorsson, de 30 anos. O casal vivia na cidade de Ramat Gan e as suas tarefas vinham desde propagação dos incêndios, pulverização de graffiti e afixação de panfletos, até ao assassinato dos militares e oficiais israelitas de alto escalão, informa YnetNews 

Engraçado que o apelido supostamente “judeu” de Vladislav foi muito provavelmente fabricado na sede do GRU russo, por pessoas sem ideias claras da história dos nomes judeus. É de salientar, que três anos atrás, Vladislav fez uma publicação (que já foi apagada, mas as almas bondosas tiveram o cuidado de a documentar) sobre a sua detenção e tentativa de se defender das acusações de estupro/violação.

Segundo o relatório oficial, desde agosto de 2024 que Vladislav Victorsson comunicava em hebraico e por vezes em inglês nas redes sociais com uma pessoa sob a alcunha de “Mari Hossi” (a julgar pelo texto da acusação, a comunicação era realizada via Telegram). Seguindo as instruções desta pessoa, o suspeito fez grafitis e afixou panfletos (o relatório do procurador esclarece que se tratava de grafitis e panfletos contra o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu - por exemplo, «Bibi destruiu o estado de Israel», «Bibi = Hitler», «Bibi organizou o Holocausto dos reféns», «Bibi é mau para Israel»), escondeu dinheiro em locais específicos e até incendiou veículos na zona de Yarkon Park, em Telavive. 

Carros incendiados perto do Parque Yarkon, em Telavive, alegadamente a mando
de agentes iranianos, numa foto sem data. (Foto: Polícia de Israel)

Mais tarde, Vladislav foi encarregado de destruir as infraestruturas de comunicação e os ATM, bem como incendiar a floresta, informou a polícia. Algumas das tarefas descritas foram documentadas (foram tiradas fotografias e vídeos) e foram pagos mais de 5.000 dólares pela sua conclusão. Vlad recusou algumas tarefas, temendo pela sua saúde. De acordo com a investigação, Vladislav chegou a aceitar cumprir a tarefa de matar uma pessoa em Israel e lançar uma granada contra uma casa, e posteriormente os agentes iranianos envolveram-no na compra de armas, incluindo espingardas de precisão, pistolas e granadas para a realização de ataques terroristas. A acusação informa que ele próprio tentou fabricar um engenho explosivo.

Para cumprir as suas tarefas, Vladislav envolveu mais dois cidadãos, incluindo a sua esposa Anna Bernstein, de 18 anos, que participou em algumas tarefas, informou a polícia. Além disso, Vladislav foi instruído para encontrar assistentes adicionais que realizariam diversas tarefas, em particular, fotografar manifestantes durante ações de protesto (para o efeito ele procurava aliciar os desempregados, toxicodependentes e outras pessoas em situação sócio-económica precária).

O Ministério Público israelita esclarece: “Por cada graffiti que os arguidos pintaram em Petah Tikva e Ramat Gan, receberam 20 dólares – um total de cerca de 2.000 dólares. Total de 145 dólares em criptomoeda e um valor adicional de 2.850 dólares como adiantamento para atear fogo a veículos no futuro.»

De salientar que os arguidos sabiam que desempenhavam as tarefas de um agente estrangeiro inimigo e estavam envolvidos em atividades subversivas e terroristas contra Israel.

Outro assistente envolvido de Victorsson foi um tal de Moshe Lukov (também um emigrante russo), a quem disse que estava a realizar tarefas por dinheiro através do Telegram. Os agressores usaram Moshe como motorista. Mais tarde, Moshe recusou-se a participar nesta atividade, percebendo que os serviços especiais inimigos estavam por detrás das tarefas.

As “taxas” aumentaram gradualmente. A acusação refere que, no dia 22 de setembro de 2024, o agente ofereceu ao arguido que disparasse sobre outra pessoa que se encontrava “no quinto andar de um prédio em Telavive, por um total de 40 mil dólares”. Nesta fase, o agente iraniano afirmou que após o homicídio iria saldar as dívidas do arguido, organizando a sua saída de Israel, apesar da existência de uma ordem de restrição contra o arguido. Prometeu que Vladislav e Anna se encontrariam «com um agente na rússia que cuidaria deles para uma vida confortável num terceiro país». Nenhum homicídio foi cometido. Victorsson recusou-se a matar com uma pistola com silenciador e propôs matar à longa distância, utilizando uma espingarda com mira óptica. Mas isso não foi mais discutido.

No dia 23/09/2024 Victorsson e os seus cúmplices foram detidos. No dia 14 de outubro de 2024, os detidos foram formalmente acusados.

A julgar pelo relatório da polícia e do Shin Bet, Vladislav Victorsson foi recrutado pelos serviços secretos iranianos, provavelmente com a ajuda da federação russa. Os russos continuam a ser seguidores e traidores do Kremlin, mesmo quando se mudam para outro país e mudam de cidadania. Alguém ficou surpreendido?, pergunta o político ucraniano Borislav Bereza. 

quinta-feira, agosto 15, 2024

O caso do agente do GRU, o russo-espanhól Pablo González Yagüe

O cidadão russo-espanhól Pablo González (nascido Pavel Rubtsov) é um espião do secreta militar russa GRU. Foi desoberto pelo SBU, capturado pela secreta polaca ABW em 2022 e agora regressou à rússia no âmbito da troca dos prisioneiros entre Ocidente e rússia. 

Oito pessoas regressaram à rússia das prisões ocidentais a 1 de Agosto, por causa das quais o Kremlin libertou 16 presos políticos e os extraditou para o estrangeiro. Entre aqueles que Vladimir Putin acolheu pessoalmente em Moscovo estava o oficial dos serviços de informação Pablo González, também conhecido por Pavel Rubtsov, que foi preso na Polónia nos primeiros dias de uma guerra de grande escala. Cidadão da rússia e de Espanha, González trabalhou disfarçado durante vários anos como jornalista e correspondente militar, comunicou extensa e confidencialmente com oposicionistas russos (incluindo Ilya Yashin e Vladimir Kara-Murza) e transmitiu informações sobre eles a Moscovo. A publicação russa Meduza conta a incrível história de talvez o mais talentoso dos oito espiões russos que participaram na histórica troca. 

Rubtsov foi detido na Polónia a 28 de fevereiro de 2022, no quarto dia de uma invasão russa em grande escala, a sete quilómetros da fronteira com Ucrânia. O russo acusado de trabalhar para o GRU passou mais de dois anos em regime de solitária. Durante todo este tempo, continuou a insistir que não era um espião, mas estava a filmar uma reportagem sobre refugiados da Ucrânia para os meios de comunicação espanhóis. 

O momento da detenção do Rubtsov na Polónia / ABW

Foi como o jornalista e politólogo espanhol Pablo González Yagüe (tinha um passaporte com esse nome), e não como o oficial dos serviços de informação ilegais Pavel Rubtsov, que os jornalistas de Madrid, as organizações especializadas europeias e a oposição russa o conheceram. Além disso, o seu desfarce – ao contrário das coberturas defeituosas de outros espiões russos expostos era bastante forte. 

Dois passaporte do González-Rubtsov com os nomes diferentes

González-Rubtsov não fingiu ser espanhol - na verdade nasceu em Moscovo em 1982 numa família de imigrantes espanhóis. O seu avô, Andres González Yagüe, foi levado à URSS ainda criança, salvando-se da guerra civil espanhóla. A filha de Andres, María Elena González, casou com o cientista soviético Alexei Rubtsov; chamaram o seu filho de Paul. “Estas famílias sempre estiveram no campo de visão da inteligência soviética e russa, eram seguidas”, explica a investigadora de inteligência e editora-chefe adjunta da página russa Agentura.ru Irina Borogan. “Porque eles, pela sua origem, falam línguas e têm parentes no estrangeiro e, por isso, são perfeitos para o recrutamento.”

Após o divórcio dos pais e a queda do Muro de Berlim – Pavel tinha nove anos na altura – a sua mãe levou-o de volta à sua terra natal histórica, o País Basco, e mudou o nome do filho para Pablo González Yagüe. Segundo o The Objective, que estudou o livro de família emitido pelo cartório de registo civil e departamento de adoção do Consulado Geral de Espanha em Moscovo, este foi feito de acordo com a lei: María Elena apresentou ao consulado uma certidão de divórcio e registou o seu filho em o registo civil com a versão espanhola do seu nome e apelido.

González tinha dois nomes desde a infância, mas começou a escondê-los mais tarde. Em 2003, aos 21 anos, Pablo recebeu um passaporte interno russo em nome de Pavel Rubtsov, e em 2016 - um passaporte estrangeiro. No entanto, na oposição política russa e entre a emigração pré-guerra, era conhecido exclusivamente como cidadão espanhol. Sempre defendeu este desfarce - por exemplo, queixava-se de que não sabia como obter um visto de trabalho russo (na realidade visitava constantemente o pai em Moscovo).

González-Rubtsov com o pai, sua esposa e meia-irmã em Londres

Após a detenção de Pablo, tanto os seus colegas espanhóis como a mãe dos seus três filhos, a espanhola Oiana Goiriena, insistiram na sua inocência e, numa entrevista, referiu que não há “nada de excepcional” em ter dois passaportes com dois nomes diferentes. Até a Amnistia Internacional e os Repórteres Sem Fronteiras se manifestaram em apoio de Rubtsov. 

No entanto, até agosto de 2024, a Polónia continuou a deter o oficial dos serviços de informação, que, segundo os serviços de informação, realizou “operações a favor da Rússia”. Varsóvia enfatizou que o seu “estatuto de jornalista” lhe permitiu “viajar” para “zonas de conflitos militares” e “tensões políticas”. No entanto, não foi formalmente acusado.

“Exigia orçamentos de media aos meus curadores”

Na Universidade de Barcelona Rubtsov estudou jornalismo e concluiu o mestrado em filologia eslava. Fez carreira como jornalista, posicionando-se como um especialista na Europa de Leste, nos Balcãs e em todos os conflitos quentes e territórios não reconhecidos que aí surgiram após o colapso da URSS, desde a «dnr» e a Transnístria até ao Kosovo e Alto Karabakh. Acabou por lançar o seu próprio website chamado Eulixe, que se auto-intitula “meios de comunicação independentes” que se opõem às “elites”. 

De acordo com os relatórios descobertos pela ABW nos dispositivos de Rubtsov, Pablo “exigia orçamentos de media aos seus curadores” - para “um site que criou que “refletia a informação correta”. Por “apenas algumas centenas de euros por mês”, a sua página, Eulixe apresentou, por exemplo, material de uma conferência de imprensa da Bonanza Media, uma publicação que, sob o controlo do GRU russo, tentou negar o papel da rússia no derrube do voo MH17. 

Rubtsov-González posicionou-se também como politólogo: graças à sua “especialização” nos países do espaço pós-soviético e na região dos Balcãs, integrou-se no meio especializado de Madrid. Em particular, Pavel colaborou com o importante grupo analítico European Council on Foreign Relations (ECFR), cujos membros incluem vários antigos presidentes e primeiros-ministros de países da NATO. Juntamente com co-autores do ECFR, Rubtsov escreveu o livro “Ucrânia: da Revolução Maidan à Guerra no Donbass”. Foi publicado em 2016 com o nome de Gonzalez na capa. No livro Rubtsov chamava a agressão russa de “intervenção direta” e “guerra híbrida”. 

Rubtsov conseguiu também infiltrar-se na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (PACE), onde, aparentemente, foi acreditado como jornalista. Após a sua detenção, a PACE chegou a pedir a libertação de González, comparando-o com Julian Assange. 

Rubtsov participou também em várias conferências na Polónia. No fórum de Rzeszow, foi mesmo convidado para moderar um painel – após o evento, escreveu num relatório aos seus curadores: “Parece que consegui plantar a semente da dúvida entre os euro-atlantistas”. Os jornalistas locais descobriram mais tarde que, ao comunicar com os polacos, González “estava concentrado em intensificar... narrativas que eram importantes do ponto de vista dos interesses da federação russa”.

Algumas de publicações do González na rede X

Em 2019, Rubtsov mudou-se para Varsóvia e começou a comunicar com muitos jornalistas estrangeiros aí sediados. Tinha também a namorada local chamada Magda, que “conheceu num evento qualquer em Alto Karabakh”, combinando a sua nova relação com um casamento oficial em Espanha. 

Rubtsov-González compilou um dossier detalhado sobre a sua nova amante, que enviou ao GRU. “Usar mulheres é uma tática padrão dos oficiais ilegais dos serviços de informação russos; foi utilizado nas décadas de 1930 e 1940. Um homem solitário levanta sempre suspeitas, mas uma mulher local pode encaixa-o em qualquer lugar. “Que tipo suspeito anda por aí?” — “Ah, é o namorado da Magda!” 

O agente do GRU infiltrou-se na Fundação Nemtsov em 2016 graças à acreditação jornalística no PACE. A fundação organizou então um evento à margem do Conselho da Europa apelando à nomeação de um relator especial do PACE no caso do assassinato de Boris Nemtsov. O Pablo apareceu e pediu à Zhanna [Nemtsova] uma entrevista em russo muito bom. 

Pablo González, Alisa Ganieva, Ilya Yashin, Pavel Elizarov (entre Outubro de 2021 era noivo e depois marido da Zhanna Nemtsova. Casamento terminou em Outubro de 2023).
Foto: do arquivo pessoal de Alisa Ganieva.

A entrevista de Nemtsova saiu em basco, e o “jornalista espanhol” interessado na rússia foi incluído na lista de discussão dos eventos da organização. Graças a eles, ao longo de vários anos, González teve acesso aos políticos Ilya Yashin, Vladimir Kara-Murza, Mikhail Kasyanov, aos advogados Ilya Novikov e Vadim Prokhorov (do portátil pessoal de Zhanna Nemtsova o agente russo copiou até as cartas do seu pai).

Os truques psicológicos da secreta militar russa

Sobre a guerra russa na Ucrânia (2014-2022): geralmente González “expressava total simpatia pelo lado ucraniano e não apoiava os separatistas”. Noutras conversas Rubtsov dizia que era “do País Basco livre”, que travou a sua própria luta armada pela independência, e que “compreende o povo de Donbas que quer a sua auto-determinação.»

Com Ilya Yashin, que Gonzalez entrevistou, encontraram o interesse comum no futebol. ”... alguns anos depois, este homem do GRU e eu acabámos em Madrid ao mesmo tempo e divertimo-nos muito no jogo local do Atlético”, contou Yashin.

Durante todo este tempo, González-Rubtsov escreveu relatórios detalhados aos curadores sobre muitos dos seus amigos e conhecidos. Compilou informações não só sobre oposicionistas proeminentes, mas também sobre participantes comuns da escola da Fundação Nemtsov que vieram da Ucrânia e dos Estados Unidos para o curso intensivo (Pablo suspeitava que um deles trabalhasse para a CIA). González-Rubtsov também era fotógrafo – tirava fotografias a toda a equipa da Fundação Nemtsov, agora está claro para onde foram todas estas fotos.

Os relatórios de González ao GRU, consistiam geralmente em três partes: uma descrição dos contactos realizados, uma avaliação dos custos financeiros de sua “inserção” (com um pedido de compensação financeira) e uma história sobre os planos para o futuro. Na tentativa de demonstrar aos seus curadores do GRU que estava a receber acesso exclusivo à oposição russa, Rubtsov incluiu não só as moradas, números de telefone e descrições dos familiares das pessoas à quem espiava, mas também histórias detalhadas sobre os próprios esforços para estabelecer contacto - até que marca de vinho comprou no presente e de que forma exatamente este vinho foi presenteado.

Rubtsov também fazia longas disserções sobre os traços de caráter das pessoas por ele espiadas, uma espécie do retrato psicológico detalhado.

Os investigadores russos especializados nos serviços de informação, Andrei Soldatov e Irina Borogan acreditam que o trabalho de Rubtsov, homem que recolhia informações sobre “os opositores de Putin, que são depois perseguidos e presos”, foi, útil para o Kremlin:

«Krasikov (o assassino russo preso na Alemanha, o principal interesse russo na recente troca) é apenas um executante e, ao contrário de Pablo, nunca conseguirá infiltrar-se em lado nenhum. Uma das tarefas de um agente “ilegal” como González é precisamente identificar pessoas que possam ser posteriormente recrutadas. Descubrindo mais sobre a sua vida pessoal. Recrutam as pessoas não com base em opiniões: “Dizem que é a fã de Navalny - não quer trabalhar para Putin?” A abordagem é feita quando descobrem que a tua mãe [por exempo] está doente e precisa de ajuda no hospital.»

Em relatórios aos seus curadores, Pablo escreveu diretamente que, por cautela, usaria apenas cartões bancários ligados a familiares – e abriu um deles em nome do seu pai que vivia em Moscovo. Alexey Rubtsov enviava-lhe ao 350 euros mensais. Os familiares de Pablo alegavam que Rubtsov pai apenas sustentava financeiramente o seu filho: enviava-lhe, um freelancer sem rendimentos estáveis, “dinheiro pelo aluguer de vários apartamentos da sua avó em Moscovo”.

Pelo contrário, nunca pareceu aos conhecidos de González que este precisasse de dinheiro - o “jornalista” comprava regularmente o equipamento mais caro e, na fronteira polaco-ucraniana, nos primeiros dias da guerra, trabalhou no mais recente MacBook Pro.