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quarta-feira, setembro 02, 2026

Repressões Políticas, Violência e Resistência na Moldova socialista, 1924-1956

A 17 de agosto de 1937, o NKVD lançou oficialmente a “Operação Romena” na República Autónoma da Moldávia (parte da Ucrânia soviética). Sob o pretexto de combater a espionagem romena, NKVD realizava detenções em massa. Romenos, moldavos, ucranianos, russos, judeus, alemães e búlgaros foram o seu alvo.

As repressões no âmbito da “linha romena” foram rapidamente combinadas com purgas de pessoal. NKVD utilizou acusações de espionagem à favor da Romênia para eliminar os líderes políticos e culturais da autonomia.

Um dos objetivos oficiais da criação da ASSR da Moldávia em 1924 foi formar uma elite comunista que falasse romeno, língua que era designada por “moldavo” na URSS. Moscovo esperava utilizar os seus representantes para sovietizar a Bessarábia.

O Grande Terror destruiu uma parte significativa desta elite. Quando a URSS ocupou a Bessarábia, em 1940, quase não havia líderes que conhecessem a língua e a cultura local. Durante décadas, a liderança da RSS da Moldávia esteve entrincheirada nos quadros da antiga autonomia da margem esquerda do Dniestre, que tinham ligações com Kyiv e Moscovo.

De acordo com os dados atualmente disponíveis, 8.292 pessoas foram presos e condenadas durante a “operação romena”, das quais 5.439 condenados à pena de morte. NKVD inventou a sua própria “rede de espiões” à partir de biografias transfronteiriças, confissões sob tortura e nomes que os detidos forneceram, tentando salvar-se a si próprios e aos seus entes queridos. Entre eles não estavam apenas romenos: o nome da operação não determinava o círculo das suas vítimas.

Os registos mostram como o local de nascimento e os familiares residentes no estrangeiro, isso é, fora da URSS, eram vistos pelo NKVD como «provas de espionagem», e que os organizadores desta purga, eles próprios, se viram rapidamente vítimas de uma purga seguinte e como esta operação é hoje recordada em Moldova e na Roménia.

O material é baseado no livro de Igor Cașu «Dușmanul de clasă. Represiuni politice, violență și rezistență în R(A)SS Moldovenească,1924-1956, Cartier, 2015.» (O Inimigo de Classe. Repressões Políticas, Violência e Resistência na R(A)SS da Moldova, 1924-1956), Cartier, 2015, 389 páginas, PDF, ler e/ou descarregar/baixar gratuitamente em romeno.

A ocupação soviética da Bessarábia (região histórica, que atualmente em cerca de 70% pertence à Moldova e 30% à Ucrânia), anexada à União Soviética em 1940 e novamente, no fim da Segunda Guerra Mundial, é descrita no livro «Quanto custa uma pessoa», de uma honestidade absolutamente brutal, escrito e com as ilustrações de Eufrosínia Kersnovskaya (1907–1994), uma proprietária rural, que perdeu tudo em resultado da ocupação soviética e acabou no Gulag, que milagrosamente sobreviveu graças à sua força de vontade, saúde e educação. A descrição do início da ocupação soviética da Bessarábia faz lembrar a ocupação russa da Crimeia em fevereiro-março de 2014 — o mesmo equipamento russo que entrou sem que ninguém esperasse, e os soldados que apenas fingem serem «pessoas educadas», e na verdade — matam.

Eufrosínia Kersnovskaya «Quanto custa uma pessoa»

«Estávamos em 1940... No dia 27 de Junho, regressando do campo à noite e depois de terminar as tarefas domésticas, sentei-me com a minha mãe para tomar chá. A lâmpada não estava acesa: o pôr-do-sol brilhava lá fora, através da janela — a 'iluminação' preferida da minha mãe — e sentámo-nos junto à janela aberta, tomando chá lentamente e ouvindo o rádio. Nove horas. As últimas notícias estão a ser transmitidas de Bucareste: 'Londres informa...' Primeiro — sobre a situação em batalha, que é muito triste para a França: os alemães estão a avançar para sul sem qualquer resistência;

Devido à fome de 1947, novamente o número de mortos era tão grande que os
caixões não chegavam para todos

E de repente, com a mesma voz monótona, o locutor continua:

— A União Soviética reivindicou o território da Bessarábia. Uma comissão mista composta por... generais está a caminho de Odesa para resolver esta questão...

A minha mãe levava a chávena à boca. A mão tremia-lhe, e a chávena tilintava no pires. Lembro-me do seu olhar confuso:

— Como assim? O que será isto? O quê?

Acho que não percebi o que ouvimos. Ou pareceu-me algo fútil — mais uma “disparate”.

— Veremos o que acontece. Enquanto isso, beba o seu chá! — disse imperturbavelmente.

— «Assina! E poderás comer tudo isso e irás dormir!» (uma das técnicas de interrogação soviéticas, quando o investigador do NKVD fazia-se passar por «bom rapaz»)

Agora é até difícil imaginar que o coração, que deveria ser um presságio, não tenha previsto nada. É como se nada de semelhante tivesse acontecido nas repúblicas bálticas recentemente e como se não conseguíssemos adivinhar onde isso iria dar! Uma coisa é certa: nessa noite, sentámo-nos à mesa despreocupadamente pela última vez… Não terminámos o chá e levantámo-nos da mesa deprimidos. A mamã estava chateada, e eu… Ah, não fazia a mínima ideia do que nos esperava. À noite, carros com os faróis acesos. Pensávamos que eram romenos. Nunca nos ocorreu que tivesse sido construída uma ponte de barcas em Buzherovka e que aqueles fossem tanques e veículos blindados soviéticos.

Não fazia ideia de que uma reviravolta brusca tinha ocorrido nas nossas vidas e que tudo o que era familiar e inabalável já tinha desaparecido algures para lá do horizonte...” 

quarta-feira, agosto 12, 2026

General republicano espanól que se tornou o prisioneiro do GULAG soviético

Valentín González (conhecido na Espanha pela alcunha de «El Campesino»), foi um militar e político comunista espanhol, um dos generais republicanos durante a Guerra Civil de Espanha. Na URSS sofreu a tortura de NKVD e os horrores dos campos de concentração de GULAG. 

Esta fotografia oficial a preto e branco foi tirada por um correspondente da agência soviética Soyuzfoto a 13 de novembro de 1937 e capta um dos episódios mais dramáticos da Guerra Civil de Espanha: uma revista às tropas do Exército Popular da República, conduzida pelo Presidente da República Espanhola, Manuel Azaña, em frente a Madride, na cidade de Alcalá de Henares. 

Nesse dia, as unidades da 46ª Divisão estavam a ser inspeccionadas na Praça Cervantes. Comandada pelo lendário Valentín González, chamado/apelidado de «El Campesino» (O Camponês), surge a caminhar à direita, usando um boné e botas de cano alto com atacadores. 

Ao seu lado, de boné e casaco leve, está o comandante da frente de Madride, o general José Miaja, apoiado numa bengala. Ao seu lado está o Presidente da República, Manuel Azaña, e, à extrema-esquerda, o Primeiro-Ministro, Juan Negrín. 

Na altura em que esta fotografia foi tirada, Valentín González-Campesino estava no auge da sua glória militar, um dos mais reconhecidos comandantes republicanos, um herói da propaganda soviética, o «Chapayev espanhol». No entanto, este triunfo foi de curta duração...

«A vida e morte na rússia soviética»

«Fui chamado o general mais fanático da Guerra Civil de Espanha. Não me arrependo do sangue que derramei na luta contra o fascismo. Mas arrependo-me e lamento ter desejado impor ao povo espanhol um regime semelhante ao que existe na rússia. Na União Soviética, vivi a maior catástrofe da minha vida», escreveu Gonzáles a sua biografia, descrevendo os horrores que passou na União Soviética, onde viveu sob o nome de Pyotr Antonovich Komissarov. 

Após a derrota dos republicanos na guerra civil, «El Campesino», com cerca de 6.000 outros espanhóis, emigrou para a URSS. Juntamente com alguns outros militares espanhóis, foi enviado para estudar na Academia Militar «Frunze». Mas os estudos de um herói militar semi-analfabeto e bastante abrupto claramente não correram bem (ao contrário da sua vida pessoal – González se casou com Ariadna Gian, a tradutora de espanhól e filha de um coronel soviético). É conhecido um relato do clima vivido entre os cadetes espanhóis. O «El Campesino» recebia as críticas mais negativas: indisciplinado, incontrolável. «Ele critica as doutrinas de cavalaria de Budyonny». Sobre o marechal Tukhachevsky: «Em Espanha, os soldados não teriam permitido que o seu comandante fosse preso – teriam formado um quadrado à sua volta e ripostado». Além disso, Campesino era justo e orgulhoso. Discutia com praticamente toda a gente: a líder comunista Dolores Ibárruri mandou o marido para Rostov, enquanto vivia, maritalmente, com um jovem comunista espanhol. González atirou-lhe isso à cara de forma pública: «Em vez de pensar na luta, comporta-se como uma prostituta!» Mas González estava especialmente desiludido com a realidade soviética. Uma vez gritou com um empregado da mercearia: «Eu sou proletário, tu és proletário! Porque é que me estás a enganar?» Os apartamentos comunitários soviéticos, os komunalkas, horrorizavam especialmente González, ele não parava de perguntar à sua mulher: «Como é na URSS um marido e uma mulher dormirem juntos à noite, com a avó à direita e os filhos à esquerda no mesmo quarto?»

Valentín González, «Yo escogi la esclavitud», 1953
A direção da Academia decidiu expulsar o «cadete Komissarov» e outros dois espanhóis que tinham chumbado nos exames. Jesús Hernández, secretário do Comité Central, chegou para investigar o incidente. O «arquivo pessoal» do comandante da brigada foi investigado pela Comissão de Controlo da Comintern. Ela reuniu-se por mais de uma semana. A filha do González, VictoriaKravchenko (nascida em 1944): «Eles gritaram com o meu pai, e ele gritou. A minha mãe estava sentada no corredor. Finalmente, não aguentou mais: ´Vamos embora, Valentino, estas pessoas não são pessoas, são animais!´ O meu pai atirou o seu cartão de filiação partidária para a cara de Ibárruri».

Acusado de espionagem e trotskismo, foi preso pelo NKVD, enviado para a cadeia moscovita Lubyanka, onde foi torturado, ao ponto de «confessar» ser agente dos serviços secretos britânicos e americanos, e depois enviado para trabalhos forçados na construção do metro de Moscovo. Em 1944, fez a sua primeira tentativa de fuga através da fronteira soviético-iraniana; foi capturado, mas escapou ao Irão novamente, em 1948. As suas ilusões anteriores sobre um «paraíso soviético» foram destruídas: mais tarde, escreveria que a URSS de Estaline se tornou «a maior decepção e o pior fracasso de toda a sua vida». 

Caiu nas mãos dos americanos, que o enviaram para a França.

«Comunista en España y antistalinista en la U.R.S.S.», 1980

Em 1950-51, a França foi abalada pelo «julgamento de David Rousset», político socialista francês, membro da Resistência e vítima do nazismo, que expôs a verdade sobre os campos de concentração soviéticos, a primeira pessoa na França que usou o termo GULAG. O jornal comunista francês «Les Lettres Françaises» acusou Rousset de calúnia: «mas que campos de concentração no país mais livre!»

«El Campesino» participou no processo, como a testemunha abanatória do David Rousset, acabando por se tornar a maior sensação. Um grupo de espanhóis de Moscovo enviou ao tribunal de Paris uma carta a chamar González de louco. Mas a resposta de «El Campesino» à imprensa parisiense deixou claro que louco não era ele: 

«Chamaram-me o general mais fanático da guerra civil espanhola. Não me arrependo do sangue que derramei na luta contra o fascismo. Mas arrependo-me e lamento ter desejado impor ao povo espanhol um regime semelhante ao que existe na rússia. Na União Soviética, vivi a maior catástrofe da minha vida». Campesino não falou; na verdade, gritou. O juiz fez uma careta e disse ao intérprete: «Diga à testemunha para falar mais baixo.» Campesino recuou da barreira, surpreendido, batendo no peito: «Sou espanhol! Os espanhóis não conseguem falar baixo!» 

David Rousset ganhou o processo. 

González não se contentou com isso. A partir de França, se aliou aos terroristas bascos, os auxiliando nos ataques em Espanha. Em 1961, a pedido de Madrid, foi preso pelas autoridades francesas e encarcerado. Valentín González esteve 17 anos nas prisões francesas. Libertado em 1978, regressou a Espanha e anunciou o fim da sua luta: Franco estava morto e a mudança democrática estava em curso em Espanha. Faleceu em Madrid em 1983. 

Valentín González chegou de ser mencionado no livro de Ernest Hemingway «Por Quem os Sinos Dobram», através dos pensamentos de Robert Jordan, que o descreveu como corajoso e difícil: «Quando viu Campesino, com a sua barba negra, os seus lábios grossos, típicos de negros, e os seus olhos febris e inquietos, pensou que ele poderia causar muitos problemas. Era um temerário, um temerário mesmo — seria difícil encontrar um homem mais corajoso. Mas, meu Deus, como ele falava! E no calor da conversa, podia dizer qualquer coisa! Mas, como comandante de brigada, ele mostrou-se altura da situação, mesmo nas circunstâncias aparentemente mais desesperadas».

quarta-feira, julho 22, 2026

Eugeniusz Bodo: do galã do cinema polaco ao prisioneiro do GULAG soviético

Atores Eugeniusz Bodo e Helena Grossówna, década de 1930

Ator, encenador, empreendedor polaco Eugeniusz Bodo. O seu nome era Bohdan Eugène Junod; a sua mãe era polaca e o seu pai suíço, que fazia negócios e residia no império russo. Na Polónia entre as guerras, Eugeniusz era um dos principais estrelas de cinema, interpretando charmosos galãs românticos. Viveu em Lviv. Morreu num campo do GULAG soviético.

Um dos seus filmes mais famosos é a comédia de culto «Piętro wyżej» (o título internacional «Vizinhos», 1937). Está disponível em várias versões no YouTube:

A heroína (a bela Helena Grossówna) acaba de entrar, por engano, no apartamento do herói (Eugeniusz Bodo) e, sem se aperceber que está no apartamento de outra pessoa, adormece na sua cama. Entretanto, o herói regressa a casa embriagado, descobre a bela na sua cama e deixa-a galantemente dormir, enquanto ele, vestido com um fato e gravata, vai dormir para a banheira. Naturalmente, acorda de manhã, abre a torneira e vê-se encharcado da cabeça aos pés. Naturalmente, tudo termina com um final feliz.

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A famosa comédia soviética «A Ironia do Destino» (1975) usou o mesmo enredo (troca de apartamentos, herói bêbado, uma bela desconhecida, interpretada até por uma atriz polaca), como o elemento principal do seu trama. 

Em 1939, após o início da II G.M., Bodo encontrou-se em Lviv, na União Soviética. O conceituado músico Henryk Wars organizou a orquestra Lviv Tea-Jazz, que começou a fazer digressões por toda a União Soviética com grande sucesso. Bodo cantava nesse teatro; existem muitos registos dele a cantar em russo, incluindo a tradução russa da famosa canção polaca «Somente em Lviv».

«Tea Jazz-orquestra» de Lviv

Ao mesmo tempo, Bodo tentou, usando o seu passaporte suíço de viajar para a Suíça. Após o início da guerra nazi-soviética, quando o Exército Vermelho já deixou a cidade de Lviv, mas os alemães ainda não entraram nela, dois homens com uniformes da NKVD abordaram Bodo e disseram que tinham um carro e tentariam romper as linhas inimigas para leste, convidando-o a juntar-se a eles. Percorreram estradas rurais durante vários dias e, quando finalmente chegaram ao quartel-general do Exército Vermelho, disseram-lhe que estava, na verdade, preso e enviaram-no para o NKVD.

Entretanto, a partir de 30 de Julho de 1941, sob pressão do seu novo aliado, a Grã-Bretanha, a URSS aceitou assinar um acordo com o governo polaco no exílio em Londres (o Acordo Maisky-Sikorski). De acordo com este acordo, todos os cidadãos polacos presos na URSS e nos territórios por este controlados desde 1939 receberiam amnistia. A partir destes cidadãos, começou a formar-se um exército polaco na Ásia Central soviética, sob a liderança de general Anders. A orquestra de Wars também se juntou ao exército de Anders.
A sua última foto conhecida, prisioneiro dos soviéticos...

Bodo era muito conhecido, e os representantes polacos perguntavam constantemente aos soviéticos sobre o seu destino. Mas estes lhes responderam que Bodo não era cidadão polaco, mas sim suíço, e, por isso, não tinha direito a amnistia. Morreu num campo de concentração soviético nos arredores da cidade de Kotlas, de inanição (fome severa) em outubro de 1943. Durante décadas a URSS desinformava os polacos, afirmando que Eugeniusz Bodo foi assassinado pelos alemães. Somente em 1991, as autoridades soviéticas entregaram aos polacos os documentos a ele relacionados.

Já a atriz Helena Grossówna, chegou a participar na Revolta de Varsóvia de 1944 como tenente, usava o nom de guerre / codinome de «Bystra» (Rápida), foi capturada e presa em campos alemães de prisioneiros de guerra, casou com um oficial polaco, que libertou o campo e viveu uma longa vida na Polónia, falecendo em 1994 aos 90 anos. 

Blogueiro

A ironia do destino, um polaco-suíço que nada de mal fez à URSS e foi um artista aceite e reconhecido na União Soviética, não sobreviveu o GULAG comunista. Enquanto uma combatente, que lutou contra os alemães, de armas nas mãos, sobreviveu um campo de concentração nazi...

sexta-feira, junho 05, 2026

Crianças da Ucrânia vítimas das políticas do Kremlin: de estalinismo à atualidade

«Obrigado ao camarada Estaline pela infância feliz!»
Foto no museu da colónia penal de regime especial nº 1, na aldeia de Sosnovka, Mordóvia, rússia.
Foto: Stanislav Krasilnikov / ITAR-TASS

Aos 4 de junho, Ucrânia homenageia as crianças que morreram em consequência da agressão armada russa. Os métodos criminosos do Kremlin não mudaram ao longo dos séculos. Hoje, a rússia mata crianças ucranianas com mísseis, rapta-as e tenta apagar as suas identidades, tal como fazia o regime totalitário soviético.

Documentos do Arquivo Estatal do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) mostram que, durante os anos do terror estalinista, as autoridades soviéticas perseguiram propositadamente os filhos dos «inimigos do povo». Muitas destas práticas encontram paralelos trágicos na agressão russa moderna contra Ucrânia. 

De acordo com a ordem operacional nº 00486 da NKVD, de 1937, as crianças das vítimas de repressões políticas eram retiradas em massa às suas famílias. Os bebés eram transferidos para campos com as suas mães, e as crianças mais velhas eram colocadas em orfanatos especiais isolados. Irmãos e irmãs eram separados. Os documentos eram confiscados aos pais – estas crianças simplesmente «desapareciam» no sistema.

A ordem operativa Nrº00486 do Comissário Popular do Interior,
Moscovo, 15 de agosto de 1937

Por decreto de 1935 do Comité Executivo Central e do Conselho de Comissários do Povo da URSS, o regime comunista soviético permitiu que crianças à partir das 12 anos fossem julgadas na qualidade de adultos, incluindo na aplicação da pena de morte. Os adolescentes com mais de 15 anos, definidos como “socialmente perigosos”, eram enviados para o GULAG ou aos trabalhos forçados, simplesmente por serem filhos de “inimigos do povo”.

Colocação de filhos dos condenados:
a) «Crianças de 1 - 1,5 aos 3 anos nas creches e jardins de infância».
b) «Crianças dos 3 aos 15 anos nos orfanatos [...] fora de Moscovo,
Leninegrado, Kiev, Tbilissi, Minsk, cidades costeiras e fronteiriças».
c) «Crianças maiores de 15 anos decidir questão de forma individual». 

Os documentos apresentados servem como um lembrete de que a violência contra as crianças sempre foi uma componente da política do regime totalitário soviético. Estas são práticas criminosas que a rússia continua a praticar nos dias de hoje.

21) «Bebês amamentados são enviados, juntamente com as mães condenados,
aos campos [de GULAG] da onde, ao atingir 1 - 1,5 anos são levados aos orfanatos e creches». 

No Dia da Criança, recordamos cada vida interrompida e preservamos a memória daqueles que foram vítimas do regime – tanto no passado como no presente.

Fonte: Arquivo Estatal do Serviço de Segurança da Ucrânia, fundo 9, descrição 1, caso 81-sp. 

sábado, janeiro 10, 2026

«Projet Niños»: as crianças espanhóis vítimas do comunismo e da guerra fria

Foi publicado na Espanha o livro «Projet Niños» da jornalista Carol Diaz, que conta o difícil destino de crianças e adolescentes espanhóis evacuados para a URSS em 1937-1938, durante a Guerra Civil Espanhola. Embora devessem retornar para casa após o fim das hostilidades, sua saída da União Soviética foi proibida por quase duas décadas. Somente a intervenção dos Estados Unidos, que tinham um interesse especial, ajudou a resolver o problema, escreve DW.

«Projet Niños» também é o nome que a CIA deu à operação especial realizada na Espanha no final da década de 1950, com foco nas 'Crianças da Guerra'. Entre 1956 e 1960, 2.400 dos 3.000 adultos, que em crianças foram enviadas para a União Soviética duas décadas antes, foram repatriadas para a Espanha. Ao retornarem, foram submetidas aos interrogatórios pela Agência de Inteligência dos Estados Unidos. A CIA lançou a 'Operação Projet Niños' em Madrid. Os arquivos dessa operação, que permaneceram secretos por 30 anos, foram desclassificados em setembro de 1995 e formam a base da série documental do canal televisivo DMAX España.

Quantas crianças espanholas foram parar na URSS?

Durante a Guerra Civil, o governo da Frente Popular, que lutava contra o general Francisco Franco, evacuou cerca de 37.500 crianças fora do país. Segundo Maria Ángeles Ramírez, professora de história da Universidade de Madrid, a maioria dos jovens espanhóis foi levada para países da Europa Ocidental e para o México. 2.895 crianças (5.000 crianças e adolescentes pelos dados da CIA) foram levadas para a União Soviética. Em 1939, após o fim das hostilidades na Espanha, quase todas as crianças puderam retornar – com exceção daquelas que acabaram na URSS.

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As crianças não foram libertadas pela decisão das autoridades soviéticas e liderança do partido comunista espanhol, que havia se instalado em Moscovo/ou, continuou Ramirez. Isso apesar dos apelos dos pais para que voltassem para casa. No entanto, os apelos ao governo soviético, à comunidade internacional, à imprensa e à Cruz Vermelha não surtiram efeito. Os motivos da detenção, ou seja, do sequestro das crianças, segundo ela, não foram ocultados na URSS. Declararam que elas deveriam ser criadas como uma «força de ataque» na luta pelo «futuro brilhante» da Espanha.

Criando futuros combatentes

As crianças separadas de seus pais, como se depreende de suas numerosas memórias, coletadas na época pela autora deste artigo, foram criadas de acordo com os padrões soviéticos. Eles foram aceitos como jovens pioneiros [a organização comunista para as crianças] e, nas aulas, falavam sobre as vitórias do socialismo e os vícios do capitalismo, da Igreja e de outros «inimigos do proletariado mundial». As crianças aprendiam canções patrióticas soviéticas, marchavam em formação com uma bandeira ao som de tambores. Quando cresciam, recebiam passaportes soviéticos (cerca de 35% do número geral, de acordo com a CIA).

Enquanto isso, essas crianças tiveram que suportar todas as dificuldades da Segunda Guerra Mundial, assim como todos os habitantes da União Soviética. Os mais velhos foram para a frente de batalha ou trabalharam na retaguarda. Os mais novos, que viviam em orfanatos, sofriam com a fome e as doenças. Alguns roubavam, principalmente comida, para sobreviver e acabaram no GULAG. No total, durante os anos de guerra, quase 200 menores espanhóis foram condenados a penas de cinco a oito anos por delitos menores.

A ajuda veio dos americanos e do degelo soviético

Mais tarde, a partir de meados da década de 1950, a União Soviética pareceu deixar de se opor ao retorno dos espanhóis: o «degelo» de Khrushchev entrou em vigor. Mas as autoridades espanholas, como observa Karol Díaz em seu livro, não ficaram satisfeitas com isso. O líder espanhól Franco, que saiu vitorioso da guerra civil, temia que os repatriados se juntassem às fileiras da oposição de esquerda – trazendo para a Espanha, como ele dizia «o contágio bolchevique».

Aqui os americanos intervieram na história. Naquela época, eles tinham forte influência sobre Franco. Os americanos falaram sobre direito humanitário e pressionaram o ditador para permitir o retorno dos espanhóis. Enquanto isso, o interesse dos EUA no problema, como observado no «Projet Niños», não se explicava por considerações humanitárias.

Em 1957, um acordo foi assinado entre os governos soviético e espanhol sobre o retorno de crianças deportadas anteriormente à sua pátria. Naquele mesmo ano e nos dois anos seguintes, cerca de metade (entre 1956 e 1960, 2.400 crianças, das 3.000 enviadas para a União Soviética duas décadas antes, foram repatriadas para a Espanha) dos espanhóis retornou à Espanha. A outra metade permaneceu na URSS. Primeiro, a situação política da Espanha não era particularmente atraente para eles. Segundo, muitos já tinham empregos na URSS ou haviam constituído família nessa época.

Citando fontes espanholas e americanas, Karol Diaz afirma que todas as pessoas que retornaram à Espanha foram interrogadas – frequentemente várias vezes – por representantes dos serviços secretos espanhóis, em conjunto com a CIA. Durante esses interrogatórios, que duraram quatro anos, os americanos obtiveram mais de 2.000 gravações. Um documento secreto baseado nelas foi compilado em 1963 pelo analista sênior da CIA, Lawrence E. Rogers. Esse documento foi desclassificado em setembro de 1995.

O que interessava à CIA

A autora de «Projet Niños» afirma que os espanhóis que retornaram da URSS eram de grande interesse para a CIA. Muitos deles, tendo recebido educação superior, trabalhavam em diferentes cidades e em vários setores da economia, incluindo na indústria de defesa. Além disso, eles podiam saber a localização de unidades militares e tinham informações sobre a situação e o clima social na União Soviética.

Os resultados práticos da operação

Quanto aos serviços de inteligência espanhóis, eles estavam interessados no grau de confiabilidade dos recém-chegados, bem como em informações sobre aqueles que não haviam retornado. Em Madrid, as autoridades chegaram a criar um Departamento para Repatriados da URSS sob a liderança do Major Teodoro Palacios. Tanto os espanhóis, quanto os americanos, em particular, buscavam obter informações sobre espanhóis que serviam na inteligência soviética. Aparentemente eram vários. Os mais famosos eram a coronel do NKVD-KGB Africa de las Eras, que se infiltrou na América Latina, e Ramon Mercader, o assassino de Lev Trotsky.

Vítimas de políticos

Carol Díaz chama os heróis de sua história de «vítimas da época e da política insensata». Nem às esperanças dos comunistas, nem os temores de Franco se concretizaram: os filhos que cresceram e voltaram para casa não se tornaram disseminadores do contágio bolchevique na Espanha. A tragédia de muitos deles era que se sentiam «como estrangeiros tanto na URSS, quanto em sua terra natal», onde eram submetidos a interrogatórios e exigências para denunciar seus compatriotas emigrantes.

A historiadora María Ángeles Ramírez classificou a prática de «sequestrar e manter crianças à força como imoral, devastadora e completamente desesperançosa». Ela lembrou que uma «prática vergonhosa» semelhante ainda existe em alguns países africanos, onde crianças sequestradas são usadas como soldados, e na própria rússia, no decorrer da agressão contra Ucrânia.

Agentes do KGB entre os retornados

O canal televisivo espanhol, DMAX España, produziu uma série documental, dedicada ao ‘Projet Niños’.

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Num dos depoimentos, transmitidos pelo canal, o coronel reformado do KGB, Oleg Nechiporenko, responsável pelo controlo/e dos estrangeiros na URSS (era o agente do KGB que teve contactos diretos com Lee Harwey Oswald, o presumivel assassino do John Kennedy), relata na série as operações secretas da KGB, explicando como soviéticos infiltraram os seus agentes entre os espanhóis que retornaram da URSS. «Entre os espanhóis também estavam nossos agentes, aqueles que cooperavam com o KGB», revelou ele.

Agentes do GRU entre os descendentes de espanóis 

Os dois passaportes do agente do GRU russo González-Rubtsov

Não podemos se esquecer do caso do agente russo do GRU, González-Rubtsov, que nasceu em Moscovo em 1982 numa família de imigrantes espanhóis. O seu avô, Andres González Yagüe, foi levado à URSS ainda criança, salvando-se da guerra civil espanhóla. A filha de Andres, María Elena González, casou com o cientista soviético Alexei Rubtsov; chamaram o seu filho de Pavel. “Estas famílias sempre estiveram no campo de visão da inteligência soviética e russa, eram seguidas”, explica a investigadora de inteligência e editora-chefe adjunta da página russa Agentura.ru Irina Borogan. “Porque eles, pela sua origem, falam línguas e têm parentes no estrangeiro e, por isso, são perfeitos para o recrutamento.”

quinta-feira, outubro 02, 2025

Renascimento fuzilado: antologia da literatura ucraniana de 1917-1933

A autoria da metáfora “renascimento fuzilado” pertence ao intelectual polaco Jerzy Giedroyc. Utilizou esta expressão, pela primeira vez, numa carta em 1958, propondo-a como título de uma antologia da literatura ucraniana de 1917-1933.

Discutia-se que por um lado o título geral: “Renascimento Fuzilado. Antologia 1917-1933” soaria de uma forma impressionante. Por outro lado, o modesto título “Antologia” poderia facilitar a penetração do livro atrás da Cortina de Ferro. Decidiu-se, então, pelo título inicial. 

O Renascimento Fuzilado (também Renascimento Vermelho) é uma geração científica, educacional, espiritual, cultural, literária e artística das décadas de 1920 e 1930 na Ucrânia soviética, que produziu obras e realizações altamente artísticas nos campos da literatura, filosofia, pintura, música, teatro, cinema, educação e ciência, e que foi principalmente aniquilada fisicamente durante as duas ondas do terror comunista soviético (1935-36 e 1936-38). 

Ao longo de uma década (1921-1931), a cultura ucraniana conseguiu compensar o atraso e até superar a influência de outras culturas, em particular a russa, no território da Ucrânia (a 1 de outubro de 1925, existiam 5.000 escritores na Ucrânia socialista). 

A mais influente das associações literárias ucranianas foi «Hart», mais tarde renomeada «VAPLITE» (Academia Livre de Literatura Proletária). Foi a VAPLITE, representada por Mykola Khvylovy, que iniciou o famoso debate literário de 1925-1928 e o venceu, comprovando a existência e a necessidade de uma literatura nacional, específica e ucraniana, virada para a Europa e não para a rússia. 

Alguns dos reprimidos e perseguidos intelectuais ucranianos conseguiram escapar à morte e sobreviver nas prisões e nos campos de concentração soviéticos. Alguns deles conseguiram mesmo fugir dos campos de concentração (Ivan Bahryany). Após cumprir a sua pena, Ostap Vyshnya tornou-se um defensor obediente do regime estalinista, e Borys Antonenko-Davydovych, que só foi libertado, após a sua reabilitação em 1957, manteve-se em oposição ao regime soviético até ao fim da sua vida. 

Não existem números exatos sobre o número de intelectuais ucranianos reprimidos e perseguidos durante as repressões comunistas durante o período do Renascimento Fuzilado. Segundo algumas fontes, o número chegou às 30.000 pessoas. 

Faça click para ler mais em ucraniano

De acordo com a avaliação da Associação de Escritores Ucranianos «Slovo» (uma organização de escritores ucranianos no exílio), enviada a 20 de Dezembro de 1954 ao Segundo Congresso de Escritores da União Soviética, em 1930, eram ativos 259 escritores ucranianos e, após 1938, apenas 36 deles (13,9%) viram as suas obras publicadas. Segundo a organização, 192 dos 223 escritores «desaparecidos» foram alvos de repressões do Estado soviético (fuzilados ou presos em campos de concentração com possibilidade de fuzilamento ou morte), 16 simplesmente desapareceram e 8 suicidaram-se. 

Estes dados estão em concordância com o martirológio de escritores ucranianos, «Altar da Dor» (compilador-chefe: Oleksa Musienko), que lista 246 escritores vítimas do terror estalinista. Este número é mais do dobro do total de escritores ucranianos aí mencionados que foram alvos de repressão de outros regimes, em particular, o período da ocupação nazi (55), da era Brejnev (29), no império russo pré-1917 (11), na Áustria-Hungria (3) e outros. De acordo com outros dados, de 260 escritores ucranianos ativos na década de 1930, 228 foram alvo de repressões comunistas. 

Bónus 

A primeira exibição pública de um filme no império russo foi organizada em Kharkiv pelo fotógrafo Alfred Fedetsky em dezembro de 1896. Em 1930 aconteceu a exibição do primeiro filme sonoro soviético: «Entusiasmo: Sinfonia de Donbas» (1931), filmado por Dziga Vertov na estúdio de cinema Ukrainfilm, em Kyiv.

A foto mostra a cidade de Kyiv num quadro do filme «O Homem com uma Câmara» (1929), de Dziga Vertov e produzido pelo estúdio de cinema ucraniano «Direção de Foto e Cinema de toda Ucrânia» (VUFKU).

quinta-feira, agosto 14, 2025

Comunista letão, que lisonejava e desafiava o ditador soviético Estaline

Yan Larry «As Aventuras Extraordinárias de Karik e Valia»

Uma carta anónima foi endereçada ao Estaline em dezembro de 1940: «nunca saberá o meu nome verdadeiro», dizia o autor anónimo. Cinco meses depois ele foi condenado aos 10 anos de GULAG, mais 5 anos de perda de direitos cívicos...

Juntamente à carta, o autor, que assinava como «Kulidzary» (assim era chamado o exército persa, constituído por cristãos convertidos ao islão) enviou ao Estaline os primeiros capítulos do seu romance futurista «O Visitante Celestial», cujo texto fala sobre a pobreza do povo, discursos intermináveis nas reuniões, incompetência, liberdade de imprensa apenas imaginária, etc.

O nosso escritor anónimo diz que escreverá somente para Estaline: «Nenhuma figura histórica teve alguma vez o seu próprio escritor. Um escritor que escrevesse apenas para um grande homem. No entanto, na história da literatura, não encontrará escritores que tenham um único leitor... [...] Escreverei apenas para si, sem exigir para mim quaisquer medalhas, honorários, honrarias ou glória».

A transcrição da carta original do arquivo do Estaline

O primeiro capítulo começa quando um representante de Marte chega à Terra, onde, o poder soviético existe há 117 anos (ano 2034). O extraterrestre/alienígena estuda a vida na URSS e tira conclusões, muitas vezes pouco abonatórias: «Moscovo tornou-se a única cidade onde as pessoas vivem, e todas as outras cidades se transformaram numa província remota, onde as pessoas existem apenas para cumprir as ordens de Moscovo».

Imediatamente foi lançada uma investigação criminal, a carte e o manuscrito foram exaustivamente estudados pelas autoridades. Após quatro meses e sete capítulos enviados, o autor foi descoberto e preso pelo NKVD a 11 de abril de 1941. Era um escritor comunista, de origem letã, Yan Larry. Nem o início da guerra nazi-sovética impediu que o seu julgamento se realizasse a 5 de julho de 1941. O conselho judicial do Tribunal da Cidade de Leninegrado condenou Larry, nos termos do artigo 58-10 do Código Penal da rússia soviética («posição anti-soviética»), a uma pena de prisão de dez anos, seguida de perda de direitos cívicos por mais cinco anos.

Yan Larry após a sua detenção pelo NKVD

Do texto da acusação: “... Os capítulos desta história enviados por Larry ao Comité Central do Partido Comunista (Bolcheviques) foram escritos por ele a partir de uma posição anti-soviética, onde distorceu a realidade soviética na URSS e fez uma série de invenções caluniosas anti-soviéticas sobre a situação dos trabalhadores na União Soviética.”

O comunista convicto, que pretendeu lutar contra as «deficiências» do comunismo cumpriu os seus 15 anos do início ao fim e regressou a Leninegrado apenas em 1956, nas vésperas do XX Congresso do PCUS e da denúncia do culto da personalidade de Estaline. Em 1956 Larry foi reabilitado, em termos judiciais: «A sentença do Tribunal da Cidade de Leninegrado de 5 de julho de 1941 referente a Larry Yan foi anulada, e o caso foi encerrado devido à ausência de corpo de delito nas suas ações. Larry Yan foi reabilitado neste caso». Após a sua reabilitação, o ele continuou a escrever para crianças. Morreu e foi sepultado em Leninegrado. 

Bónus

Por favor, divulgue essa imagem e o hashtag em todo o lado (assustar putin o impedindo de visitar Alasca):

  • #ArrestPutinInAlaska
  • #arrestputininalaska
  • #PrendaPutinNoAlasca

sábado, julho 12, 2025

O GULAG digital à chinesa, chegará à rússia já neste setembro

Artista russo Vasya Lozhkin, quadro: «Pátria Oiça», 2016

A Duma Estatal russa aprovou a lei que, a partir de 1 de setembro de 2025, o mensageiro russo Max será obrigatoriamente pré-instalado em todos os smartphones e tablets vendidos na rússia. Trata-se de uma tentativa russa de copiar o sistema chinês de vigilância total e absoluta da sociedade.

Trata-se de uma tentativa de copiar o WeChat chinês – uma super-aplicação que combina o WhatsApp, o Facebook, o Instagram, o PayPal, a Uber, o Tinder, o Skype, o Yelp, a App Store e o portal dos Serviços Estatais. Além disso, a conta bancária de cada utilizador está ligada ao WeChat. Pode pagar tudo através de um código QR: desde comprar uma garrafa de água numa banca de rua até contas de serviços públicos, aluguer de apartamentos, bilhetes de avião/comboio/trêm e pagamento de impostos. O dinheiro em numerário praticamente desapareceu na China.

Em vez disso, o Big Brother sabe tudo sobre si. O sistema verifica automaticamente todas as conversas (mesmo as privadas) em busca de palavras-chave «sensíveis». Se o sistema detetar uma palavra deste tipo, a mensagem simplesmente não chega ao destinatário, e o remetente nem sequer sabará disso. Desaparece no «vazio digital».

Em caso de violações sistemáticas ou «contravenções» graves, a conta do utilizador pode ser bloqueada para sempre. Para um chinês, isto equivale à morte social: perde o acesso ao dinheiro, aos contactos e a todos os serviços.

O sistema sabe tudo sobre uma pessoa:

— dados reais do ID/Cartão do Cidadão/passaporte, biometria (desbloqueio facial para pagamentos);

— geolocalização está constantemente rastreada;

— histórico de todas as compras;

— gráfico completo de ligações sociais, conteúdo de conversas;

— histórico clínico e todas as consultas médicas [conveniente para «apagar» uma pessoa indesejável, camuflando a sua morte pelas «causas naturais»];

p.s.

Os blogueiros/atores/artistas/pessoal do stand-up/inluenciadores russos pró-regime [na rússia praticamente não restaram outros] já fazem a publicidade do Max. Os programadores russos desajeitados, vindos a rede social VK, vão, naturalmente, deixar «cair» o sistema constantemente. Mesmo assim, a aplicação obtém acesso, em tempo real, à geolocalização, à câmara, às chamadas, ao Bluetooth e aos contactos.

O Max está constantemente ativo, impedindo o telefone de entrar em modo de espera e envia todos os dados aos servidores do VK. Para o pessoal do FSB [e departamento «K» da polícia russa, criado para combater quaisquer dissidência organizada, desde grupos ecologistas até os swingers. Não é por acaso, todas as sociedades totalitárias e autoritárias desejam manter o controlo sobre a vida sexual dos seus súbditos. Partindo do símples princípio que nenhum aspeto da vida privada deve ficar fora do controlo do Estado, senão o cidadão irá encorrer nos pensamentos libertários, logo «desviantes»].

Não é muito difícil prever o que vai acontecer a seguir — as pessoas terão dois telemóveis. Um para mostrar à polícia (certamente que haverá rusgas para verificar os telemóveis). E um outro, limpo, para si. Mas, gradualmente, o número de telefones limpos na rússia irá diminuir, e o número de telefones transparentes para as autoridades irá aumentar. Telefones transparentes = cérebros transparentes.

sábado, junho 07, 2025

Alexander Weisberg-Cybulski: físico entregue pela URSS ao Gestapo

«A Grande Carrossel»
A editora polaca «Znak», publicou um livro de Irena Grudzińska-Gross, dedicado à vida do notável físico polaco-austríaco, Alexander Weisberg-Cybulski, que trabalhou na Ucrânia foi entregue pela URSS, mesmo sendo judeu, ao Gestapo.
Na década de 1930, o cientista viveu na Ucrânia, em Kharkiv, trabalhando ao convite do Instituto Ucraniano de Física e Tecnologia. Foi preso no «caso UFTI» («organização contra-revolucionária de físicos»). O próprio Einstein e o casal Joliot-Curie pediram ao Estaline que ajude na revisão do caso. Não ajudou em nada: depois de quatro anos nas prisões soviéticas (em particular, Kholodna Hora em Kharkiv e Lukyanivska em Kyiv), o cientista (um judeu e comunista convicto) foi entregue ao Gestapo. Escapou do gueto de Cracóvia, participou na Revolta de Varsóvia e, depois da guerra, estabeleceu-se no Ocidente. O seu depoimento no julgamento David Rousset vs. Les Lettres Françaises e o livro de memórias sobre a sua prisão, «The Accused», que se tornou um best-seller, contribuíram significativamente para divulgar o conhecimento na Europa Ocidental sobre o terror estalinista e os julgamentos políticos ensaiados na URSS da década de 1930.

Alexander Weisberg-Cyblski no GULAG soviético

Autora do livro, Irena Grudzińska-Gross, na década de 1960, pertencia ao mesmo círculo de jovens oposicionistas polacos que Jacek Kuroń e Adam Michnik. Em 1968, emigrou para Itália e depois aos Estados Unidos, recorda o historiador ucraniano Eduard Andrusenko.

segunda-feira, janeiro 30, 2023

A criação do novo GULAG russo na Ucrânia

Dentro do prédio que a rússia usou como prisão na província de Kherson, em 19 de setembro de 2022. Foto: ANADOLU AGENCY (GETTY)

Para fortalecer a repressão contra Ucrânia e ucranianos, o Kremlin pretende construir 28 prisões e cadeias em forma de colónias penais nos territórios ocupados da Ucrânia, sanções máximas devem ser impostas contra o regime russo.

O Kremlin pretende aprofundar seu controlo das zonas ocupadas pela rússia na Ucrânia, construindo uma grande rede prisional. O governo russo planeia construir 25 prisões e três campos de trabalhos forçados nos quatro territórios que anexou ilegalmente no ano passado: Zaporizhzhia, Kherson, Donetsk e Luhansk. O principal objetivo do plano é controlar a população dessas áreas. Para atingir esse objetivo, Moscou também criou oficialmente um novo departamento do serviço federal de segurança (FSB) na região leste de Donetsk.

Pelo decreto, assinado pelo primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, serão instaladas 12 colónias penais (como são conhecidas as prisões de regime geral na rússia) em Donetsk, sete em Luhansk, três em Kherson e outras três em Zaporizhzhia. A ordem também inclui a construção de quatro prisões médicas, uma para cada território, bem como três campos de trabalhos forçados: dois em Luhansk e um em Donetsk. Moscovo/u não forneceu detalhes sobre muitos detentos que podem ser alojados nessas instalações, escreve El Pais.

Tornaram-se conhecidos os planos da Rússia de construir quase três dúzias de prisões nos territórios ocupados da Ucrânia, além das existentes. Este é um número sem precedentes para uma área relativamente pequena e evidência de repressão planeada contra os ucranianos. Putin está revivendo o terror de Estaline e não pode inventar nada além de perseguição e intimidação. Em 2014, a Rússia transformou os territórios do chamado «l/dnr» em uma «zona cinzenta» onde floresceram a ilegalidade, o terror e a repressão. Agora Putin quer transformar os territórios ocupados da Ucrânia em um Gulag completo, no qual os ucranianos serão mortos. Isso não é exagero, mas uma tragédia para toda a nação, que pode ser evitada com os esforços conjuntos de todo o mundo civilizado

O objetivo de Putin é uma grande guerra na Europa, que ele vê como uma espécie de «coroa de seu governo» e para isso está pronto para matar milhões de russos. Não conseguiu capturar a Ucrânia com rapidez e delicadeza, como lhe garantiram os corruptos generais russos, além disso, não atingiu nenhum dos objetivos traçados no início da invasão. Portanto, ele escolheu outra opção: táticas de «terra queimada», violência e deportação da população civil, renascimento dos campos de concentração de estilo soviético. Esta é uma tática diabólica para destruir todos os seres vivos nos territórios ocupados. Para isso, até o final deste ano, Putin quer criar 28 prisões nos territórios ocupados da Ucrânia, que serão usadas para repressão contra os ucranianos. É significativo que, desde o início da guerra, mais de dois milhões de civis dos territórios ocupados da Ucrânia tenham sido realocados à força para regiões remotas e deprimidas da federação russa. Putin quer transformar a Ucrânia em um território esgotado e desolado, que ele transformará em um trampolim para uma nova ofensiva na Europa. O totalitarismo estalinista, absurdo e inimaginável no século 21, de facto revivido por Putin, é uma ameaça sem precedentes para a Europa, cuja arquitetura é intensamente preparada no Kremlin e planeada para ser implementada com a ajuda de milhões de «assassinos profissionais de escravos» - russos que se orgulham de sua condição de escravos e estão prontos para matar e morrer pelos interesses de seu líder. Putin, sem dúvida, quer transformar a Europa - próspera e desenvolvida, em um deserto. O Ocidente a priori não tem outra escolha senão defender-se pela força. A Rússia não deixou outras opções. Portanto, o fornecimento de todas as armas necessárias para a Ucrânia é o único caminho possível para a paz e um investimento no futuro pacífico da Europa.

quarta-feira, outubro 13, 2021

O retrato do património ucraniano destruído pela União Soviética

A história incrível de dois cientistas ucranianos que viajavam por quase toda Ucrânia nas décadas de 1920-30, fotografando o país da ápoca pré-Holodomor e registando as suas obras de arte perdidas para sempre. 

Stefan Taranushenko e Pavlo Zholtovsky conseguiram retratar o mundo ucraniano, gradualmente perdido devido as políticas culturais do estado comunista soviético, que pretendia apagar as memórias culturais e religiosas dos ucranianos. Em 1933, os cientistas foram presos e condenados, acusados de pertencerem ao “bloco fascista russo-ucraniano”. 

90 anos atrás, dois estudiosos de arte viajaram por quase toda Ucrânia com as suas câmaras fotográficas, tirando milhares de fotos e desenhos de igrejas e sinagogas, casas, cidades, aldeias e outros monumentos históricos únicos que foram posteriormente destruídas pelo regime soviético. Eles também visitaram as regiões predominantemente ucranianas na província russa de Bryansk. Os cientistas fizeram isso no ponto de viragem da coletivização – antes do Holodomor – no final da década de 1920, no início da década de 1930. Uma incrível história das viagens dos estudiosos permaneceu conhecida apenas entre os cientistas. Radio Liberdade, se baseando nas fotos originais das Taranushenko e Zholtovsky, conta como era Ucrânia antes do Holodomor e o que o país perdeu para sempre. 

De acordo com avaliação do historiador Viktor Vechersky, das mais de 170 igrejas descritos ou mencionados como existente na década de 1930 no estudo de Stefan Taranushenko, apenas 16 sobreviveram até os dias de hoje. 

No outono de 1933 Zholtovsky e Taranushenko foram presos num processo fabricado. Na companhia de outros cerca de 20 museólogos, os cientistas foram acusados ​​de participar no “bloco fascista russo-ucraniano”. Zholtovsky foi condenado aos 3 anos de GULAG, Taranushenko – aos 5 anos. Entre muitas acusações, este último foi acusado de organizar as expedições científicas “para intensificar as atividades da organização contra revolucionárias, na margem direita do rio Dnipro, recrutamento novos membros na periferia”. 

Apenas após o fim da II G.M. aos cientistas foi permitido retornar à Ucrânia. Zholtovsky voltou à cidade de Lviv em 1946,e Taranushenko em 1953 – à Kyiv. Ambos foram politicamente reabilitados em 1958. 

No tempo do pós-guerra Pavlo Zhultovsky tornou-se um dos melhores estudiosos de arte da Ucrânia: escreveu dezenas de artigos, publicou várias monografias, recebeu prémios estatais. “Em geral, tudo é amargo e pesado, assim como o feliz, e bonito na minha vida pessoal, lembrava Zholtovsky, está intimamente ligado aos monumentos da antiguidade: quando eles eram destruídos - Eu vim junto com outras figuras da nossa cultura para os campos de concentração: quando terminou a época misteriosamente chamada de “culto de personalidade”, eu tive a sorte de voltar ao meu trabalho outra vez, já como um especialista respeitado”. Até o final da sua vida ele sempre participava nas expedições. Durante uma destas expedições, com 81 anos de idade ele morreu. 

Stefan Taranushenko publicou em 1976 um estudo fundamental chamado “Arquitetura monumental de madeira da região [da margem esquerda do rio Dnipro] da Ucrânia”. No entanto, o texto do seu trabalho foi cortado era ao meio, retirando as informações sobre as igrejas ucranianas da região de Bryansk, e os textos com as descrições das igrejas foram muito reduzidos. No mesmo ano, com idade de 86 ele morreu. Apenas em 2012 e 2014 o seu trabalho foi publicado na versão integral. 

Ler mais sobre os dois cientistas.

segunda-feira, julho 19, 2021

Armadilhas de Estaline: entre o retorno impossível e a morte

Após a II G.M., entre 8.000 à 10.000 cidadãos franceses de origem russa ou casados ​​com russos responderam ao apelo de Estaline e retornaram à União Soviética. Quase todos eles morreram atrás da Cortina de Ferro, nunca tendo visto a França novamente.

Em 1946-48, após o fim da II G.M., as autoridades soviéticas lançaram em França o apelo à emigração russa de retornar à URSS, oferecendo a atribuição da cidadania soviética e garantindo a amnistia ampla à emigração “branca”. Os cidadãos do império russo, de diversas origens étnicas, genericamente conhecidos na Europa como “russos brancos”, membros dos diversos exércitos russos que lutaram contra o bolchevismo, seus familiares e descendentes ficaram radiantes. As embaixadas e consulados soviéticos passaram à recebê-los de braços abertos, abrindo as cantinas e bibliotecas, mostrando filmes sobre as maravilhas da vida na União Soviética, país que participou decisivamente na luta e na vitória contra o nazismo alemão, aliando-se às mais proeminentes democracias ocidentais: Grã-Bretanha, EUA, França…

Uma parte da emigração russa na França olhava para Estaline como o grande líder que reabriu as igrejas e parou/abrandou as repressões contra a Igreja Ortodoxa Russa (IOR), devolveu as alças aos oficiais do exército, fechou o Internacional Comunista Komintern, fez o famoso brinde público “ao grande povo russo” e usou publicamente o termo “irmãos e irmãs” em vez de “camaradas” em Junho de 1941, quando o 3º Reich atacou a URSS.

A IOR, radiante com o seu novo papel na URSS ajudava, consciente ou não, à enganar os cidadãos, que simplesmente confundiram a luta soviética contra o nazismo com a chegada da democracia à URSS.

As pessoas que acreditavam em toda essa propaganda entregavam os seus passaportes franceses ou “apátridas” nos consulados soviéticos, recebendo em troca, a cidadania da URSS. Depois disso, pegando os filhos, haveres e esposas francesas viajavam à União Soviética. À partir de 1948-49, com uma nova onda de repressões de larga escala, muitos deles foram fuzilados ou condenados às pesadas penas no GULAG soviético, onde acabaram por desaparecer para sempre. Outros foram deportados às partes longínquas do império, os seus filhos foram enviados aos orfanatos. Mesmo querendo, a França nada poderia fazer por eles, no momento da sua detenção na URSS todos eles já eram cidadãos soviéticos.

Pouquíssimos conseguiram voltar à Europa Ocidental. Milhares desapareceram no GULAG sem deixar rastos. Centenas conseguiram sobreviver sem nunca mais sair da URSS. As vezes, eles até entendiam, que foram enganados, quando logo na entrada da URSS, eram retirados das carruagens ferroviárias ocidentais, colocados nos vagões de gado, que os soviéticos usavam para transportar os prisioneiros. As pessoas, que na sua massa geral eram bastante positivos em relação à URSS, nem sequer chegaram à perceber por que razão a sua pátria histórica os castigou tão pesadamente, por alegados crimes, que eles nem sequer cometeram. Possivelmente foi uma simples vingança do poder comunista às pessoas que ousaram abandonar a “pátria socialista”, o “crime” mais pesado no Código Penal soviético, “crime” que na era Estaline era punido com a pena capital. Quem é que pensavam que eram todos estes russo-gauleses para se recusar à se empenhar na construção das “amanhãs cantantes”?

Parcialmente a tragédia dos reemigrantes foi contada no filme franco-russo-ucraniano Est-Quest (1999), mas sem mostrar nem a envergadura da tragédia e se socorrer de um final semiaberto e meio-feliz. Na realidade, milhares de pessoas cavaram as suas próprias covas, colocando lá os seus filhos absolutamente inocentes.

 

O realizador francês Nicolas Jallot conseguiu encontrar e conversar com os últimos sobreviventes dessa história comovente que abrange quase todo o século XX. Cinquenta anos após a morte, em março de 1953, do “grande pai dos povos”, que foi um dos maiores ditadores sanguinários que o século XX produziu, eles contam pela primeira vez a pungente história de um retorno impossível.

Ver o filme Pièges par Staline: L'impossible retour:

Faça click para ver o filme (será preciso fazer um registo)

O mesmo realizador também publicou na França o livro documental baseado na sua pesquisa, chamado Piegés par Staline (2004).

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Ler, em russo, as memórias de uma das retornadas, que consegui se repatriar a França somente em Abril de 1974 (!)