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sexta-feira, maio 01, 2026

Perdas russas na Ucrânia podem atingir meio-milhão de mortos

O serviço russo da BBC e Mediazona identificaram os nomes de 216.205 militares russos mortos durante a invasão em larga escala da Ucrânia. As perdas russas totais, contando com as baixas dos separatistas das ditas «repúblicas populares» de Donetsk e de Luhansk podem ultrapassar o marco de 500.000 mortos.

Somente as baixas confirmadas de apenas duas regiões russas com o maior número de baixas militares — Bascortostão e Tartaristão — já superam o total de perdas soviéticas durante os 10 anos de guerra no Afeganistão. 

Nas últimas duas semanas, mais de 4.600 nomes foram adicionados à lista. Esse número está acima da taxa média de crescimento em comparação com os dados de 2025. No entanto, a maioria das mortes confirmados no último mês são de militares que estavam desaparecidos em combate desde 2024 e que foram posteriormente oficialmente reconhecidos como mortos pelo lado russo (em alguns casos, os corpos foram encontrados; em outros, a decisão foi tomada por tribunais com base em solicitações de familiares ou unidades militares). 

Tendências Gerais

Nas últimas duas semanas, o Bascortostão ultrapassou 9.500 baixas militares na Ucrânia, enquanto o Tartaristão ultrapassou 8.000. As perdas confirmadas somente nessas duas regiões (18.116) já superam em 20% o total de perdas soviéticas durante os 10 anos de guerra no Afeganistão (os números oficiais soviéticos apontvam cerca de 15.500 mortos). 

O Bascortostão e o Tartaristão lideram há muito tempo todas as regiões russas em número de baixas confirmadas, em parte devido ao trabalho ativo de voluntários locais e organizações públicas que coletam esses dados. 

A rússia continua a sofrer perdas em seu corpo de oficiais. Desde o início da invasão, 7.143 oficiais tiveram suas mortes confirmadas, incluindo 494 tenentes-coronéis, 164 coronéis e 15 generais, entre eles o major-general do Ministério do Interior Andrey Golovatsky, condenado, mas não destituído de sua patente, e o major-general do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) Vladimir Lyapkin, que desertou para a rússia e, segundo documentos públicos, manteve sua patente de general. 

77% de todas as baixas entre oficiais eram comandantes subalternos. Oficiais que variam de tenente a capitão são responsáveis ​​pela execução dos planos operacionais elaborados por seus superiores. Ao mesmo tempo, os próprios comandantes subalternos frequentemente carecem do apoio, dos recursos e da autoridade decisória necessários em um ambiente de rápidas mudanças. Como resultado, eles — juntamente com os soldados e sargentos — são as principais vítimas de problemas sistêmicos não resolvidos no exército russo. 

Qual é a real dimensão das perdas? 

As perdas reais da rússia excedem os dados obtidas de fontes abertas. Especialistas militares estimam que a análise de cemitérios russos, memoriais de guerra e obituários pode subestimar entre 45% e 65% do número real de mortos. 

Um dos motivos é que os corpos de muitos dos mortos nos últimos meses ainda não foram removidos do campo de batalha, já que a atividade de drones dificulta o processo de recuperação. Outro número de mortes permanece sem registro porque as autoridades locais ou familiares optam por não divulgar publicamente os óbitos. 

Com base nessas estimativas, o número real de mortos na rússia pode estar entre 332.600 e 480.500. 

O número total de baixas aumenta significativamente se incluirmos os mortos em unidades das chamadas «repúblicas populares» de Donetsk e de Luhansk. Desde dezembro de 2022, os separatistas de Donetsk deixaram de publicar dados sobre as baixas, enquanto os de Luhansk nunca os divulgaram. 

Com base na análise de obituários e relatórios de busca por combatentes das «l/dnr» que estavam incomunicáveis ​​há muito tempo, estima-se que entre 21.000 e 23.500 pessoas morreram até o final de setembro de 2025. 

Assim, de acordo com os dados coletados, as perdas totais das forças pró-rússia podem variar de 353.600 a 504.000 militares. 

Bónus 

As perdas dos equipamentos militares russos, verificáveis e confirmadas por foto e/ou vídeo, divulgadas pelo grupo OSINT Oryx no mês de março de 2026. É de notar, que em março as forças ucranianas, atingiram e danificaram, no mínimo, 4 helicópteros e 2 submarinos:

Faça click para consultar a lista completa


domingo, dezembro 28, 2025

A guerra colonial soviética no Afeganistão: as etapas de uma derrocada

Batalhões muçulmanos soviéticos no Afeganistão. Foto de arquivo

A guerra soviética no Afeganistão começou em abril de 1978. Inicialmente, a URSS negou seu envolvimento, e a guerra foi travada por batalhões muçulmanos soviéticos. A data oficial de início da guerra só veio à tona muito mais tarde, com a lei russa «Sobre Veteranos» de 2023. 

Em 24 de junho de 1979, foi criado o Batalhão Muçulmano das forças especiais do GRU do Estado-Maior Geral das Forças Armadas da URSS; seis meses depois, a unidade invadiria a residência do presidente do Afeganistão. O batalhão foi composto por naturais das repúblicas soviéticas da Ásia Central (uzbeques, tadjiques, casaques, quirguizes, turcomanos) que tinham traços físicos semelhantes aos afegãos. A ideia provinha da doutrina do KGB, chamada «maskirovka», disseminar a presença soviética no Afeganistão, ajudar a negar as suas evidências, se salvando do uso de militares, fisicamente parecidos com a população local. 

Em 12 de dezembro de 1979, numa reunião do Bureau Político da PCUS, o governo real da URSS, foi tomada a decisão final sobre invasão soviética em grande escala do Afeganistão. O KGB, o Ministério dos Negócios Estrangeiros / das Relações Exteriores e os representantes do complexo militar-industrial se manifestaram ao favor. O Estado-Maior Geral das forças armadas e os conselheiros militares apresentaram argumentos desfavoráveis. 

Em 25 de dezembro de 1979, tropas soviéticas desembarcaram em Cabul. Oficialmente, o objetivo era «guardar o aeroporto». Um dos aviões caiu nas montanhas. Os soviéticos nunca removeram os corpos. Apenas em 2005, o Ministério da Defesa russo lançou, no local do acidente, à partir do ár, uma placa com os nomes das vítimas. 

Em 27 de dezembro de 1979, Musbat do GRU, usando os uniformes do exército afegão e a unidade «Alfa» do KGB, atacaram a residência do chefe de Estado do Afeganistão (Operação Shtorm-333). Mataram o chefe de Estado, Hafizullah Amin (o homem que convidou os soviéticos ao Afeganistão), uma parte de sua família e centenas de guardas. O chefe de Estado assassinado foi declarado o «agente da CIA», e um novo chefe de Estado afegão, Babrak Karmal, foi trazido de Moscovo/ou. 

O novo chefe de Estado declarou a «revolução de militares patriotas afegãos» e solicitou o envio de tropas soviéticas, que «pela coincidência» realizavam exercícios na fronteira afegã naquele momento. Os militares soviéticos foram indotrinados pela propaganda militar especial de que «se não fossem nós [soviéticos], as tropas da OTAN estariam lá quatro horas depois!» 

2/17/83-Nova Iorque: Esses quatro desertores soviéticos sentados foram entrevistados pela ABC-News numa base rebelde muçulmana no sudeste do Afeganistão. Um dos soldados explicou a sua entrega: “eu não quero matar mulheres e crianças”. Eles disseram que a moral nos regimentos soviéticos é baixa e descreveram a existência de armas químicas, repetidamente negadas por Moscovo. @ABC News 20/20

Em 14 de janeiro de 1980, a Assembleia Geral da ONU adotou uma resolução condenando a invasão. Sanções foram impostas à URSS. Armas chinesas e europeias começaram a ser fornecidas aos mujahidins. Essas medidas aumentaram o custo da agressão, mas não impediram a guerra. 

Em junho de 1982, começaram em Genebra as negociações «para a resolução da situação no Afeganistão». Líder soviético Leonid Brejnev morreu em novembro de 1982. O seu sucessor, ex-chefe do KGB, Yuri Andropov morreu em fevereiro de 1984. O sucessor deste, Konstantin Chernenko morreu em março de 1985. A escalada do conflito só aumentou durante esses anos. 

Em meados da década de 1980, os preços do petróleo começaram a cair. Os mujahidins receberam mísseis Stinger, o que limitou a logística aérea soviética e a capacidade de bombardear a resistência afegã impunemente. O uso generalista de minas limitou a logística terrestre. O custo da continuação da guerra aumentou. 

A propaganda visual anti-soviética afegã 

Em abril de 1988, um acordo sobre a retirada das tropas soviéticas foi assinado em Genebra. Afeganistão e Paquistão eram as partes signatárias, e a URSS tornou-se a garantidora do acordo. A retirada das tropas terminou oficialmente em 15 de fevereiro de 1989. Restaram apenas alguns «assessores». 

O contingente soviético do sudeste do Afeganistão estava sendo retirado através do estreito túnel de Salang. Representantes soviéticos iniciaram negociações de cessar-fogo com Ahmad Shah Massoud, que controlava aquela região, durante a retirada. Ahmad Shah Massoud cumpriu a sua parte do acordo. Enquanto isso, o comando soviético lançava projéteis termobáricos sobre as aldeias vizinhas. 

***

A guerra russo-ucraniana começou em abril-maio de 2014. Inicialmente, o Kremlin negou seu envolvimento, alegando que a guerra era travada por «mineiros de Donbas». A data oficial de início da guerra foi definida pela lei russa «Sobre Veteranos», aprovada em 2023. 

Em 24 de fevereiro de 2022, os paraquedistas russos tentaram ocupar o aeródromo de Hostomel. O Kremlin declarou que «tropas ucranianas patrióticas derrubarão o regime criminoso». Yanukovych foi levado, às pressas, para Minsk. Os exercícios na fronteira se transformaram numa agressão russa.

A guerra colonial soviética no Afeganistão durou nove anos

  • A URSS perdeu aproximadamente 15.000 homens (14.427 exército, 576 KGB, 28 polícia), mais de 400 desapareceram em combate ou se tornaram POW;
  • Cerca de 60.000 foram perdidos pelas forças afegãs pró-soviéticas;
  • Os mujahidines perderam aproximadamente de 75.000 à 90.000 homens. 

O Ocidente lutou no Afeganistão por 20 anos

  • O exército dos EUA perdeu 2.459 militares mortos;
  • CIA, EMP´s perderam cerca de 3.900 contratados;
  • Aliados dos EUA (NATO/OTAN): perderam aproximadamente 1.150 mortos, ou seja, o Ocidente perdeu cerca de 7.500 homens — metade das perdas soviéticas, e em um período duas vezes maior.
  • As forças governamentais afegãs sofreram aproximadamente 66.000 baixas.
  • Perdas dos mujahidin: de 51.000 à 53.000, sem muita precisão.

sábado, maio 31, 2025

Confirmada a morte de 110 mil soldados russos na Ucrânia

Os jornalistas do serviço russo da BBC e da Mediazona conseguiram identificar os nomes de 110.608 militares russos mortos (dados até o fim do maio de 2025) na invasão russa de larga escala da Ucrânia. 

Em termos de número de vítimas por população entre as regiões periféricas russas, Tuva lidera de longe (120 mortes por 10.000 homens). É seguida pela Buriácia (91 mortes) e pela república de Altai (89). 

Um em cada quatro residentes de Tuva que morreram era um ex-prisioneiro, enviado para a guerra a partir de uma colónia penal. Este número é uma vez e meia superior à média da rússia. Tuva ocupa o primeiro lugar na rússia em termos de criminalidade por cada 100 mil habitantes há mais de 10 anos. Ao mesmo tempo, de acordo com as estatísticas disponíveis, nesta república, mais frequentemente do que noutras regiões da federação russa, as pessoas são condenadas por danos intencionais à saúde, homicídio e tentativa de homicídio. 

Mas a maior categoria de perdas entre os residentes de Tuva são os soldados profissionais, escreve a BBC. Representam um terço de todas as perdas confirmadas na república, o que é 1,5 vezes superior à média russa. 

A 55ª brigada de fuzileiros motorizados está sediada em Tuva, que participou na invasão de larga escala contra Ucrânia desde os primeiros dias e sofreu perdas significativas, observa a publicação. 

“Tuva é uma região pobre e desfavorecida, sem mobilidade social. Além disso, a taxa de criminalidade é elevada. Nesta região, os homens são geralmente mais propensos a comportamentos de risco. E é mais fácil envolvê-los na guerra – de forma voluntária ou voluntariamente forçada”, explicou à BBC um cientista russo especializado em questões demográficas que pediu anonimato devido à sensibilidade do tema. 

Na Buriácia, uma em cada cinco pessoas mortas era um soldado mobilizado. Isto é quase o dobro da média russa. A Buriácia, tornou-se um dos símbolos do modelo de mobilização rigoroso na rússia. Segundo os activistas dos direitos humanos, a região foi uma das líderes tanto no número de homens convocados para o exército, como no número de queixas de familiares e dos próprios recrutas. 

Na república de Altai, a mobilização foi realizada «de forma branda» e as autoridades locais contaram com voluntários, escreve a BBC. Como resultado, nesta região, a proporção de voluntários mortos foi de 47% do total de vítimas, o que representa 1,9 vezes a média russa. 

Para efeito de comparação, os jornalistas citam dados de Moscovo. Aí, há apenas três mortes por cada 10.000 homens. Destes, apenas 10% são prisioneiros, 26% são voluntários, 15% são soldados mobilizados e 20% são militares profissionais. 

Jornalistas do Mediazona e do serviço russo da BBC, com a ajuda de uma equipa de voluntários, têm contabilizado relatos de mortes de soldados russos desde o primeiro dia da invasão russa em grande escala na Ucrânia — nos meios de comunicação social, em sites governamentais ou nas redes sociais. A contagem não inclui as perdas das formações militares das autoproclamadas repúblicas populares, ditas «l/dnr». Desde 16 de maio, quando os dados sobre os mortos foram publicados pela última vez, os jornalistas e voluntários descobriram mais 2.000 nomes de russos mortos. 

Os jornalistas sublinham que as perdas reais do exército russo na guerra russo-ucraniana são maiores, uma vez que nem todos os relatos de mortes de soldados russos chegam às fontes abertas. 

Números reais de baixas russas 

Os números reais de baixas russas são obviamente muito superiores aos que podem ser estabelecidos através de fontes abertas. Os especialistas militares sugerem que a análise dos cemitérios, memoriais de guerra e obituários russos pode abranger entre 45% e 65% do número real de mortos. 

Perdas russas conjuntas (KIA, MIA, WIA, POW)

Isto porque os corpos de um número significativo de soldados russos mortos nos últimos meses podem ainda estar no campo de batalha. Removê-los exige riscos adicionais para a saúde dos soldados sobreviventes, que poderiam ser atingidos por ataques de drones. 

Dada esta estimativa, o número real de baixas russas pode situar-se entre 170.000 e 246.000 pessoas. 

O número total de baixas russas aumenta significativamente se incluirmos aqueles que lutaram contra Ucrânia como parte das autoproclamadas «repúblicas populares» de Donetsk e Luhansk. Desde 22 de dezembro de 2022, os separatistas das ditas «l/dnr» deixaram de publicar dados sobre as suas perdas militares. 

Depois de analisar os obituários publicados e os relatórios de buscas por militares da das ditas «l/dnr» que não se manifestaram como vivos durante um longo período, chega-se à uma conclusão de que, entre 21.000 e 23.500 pessoas poderiam ter morrido. 

Portanto, com base nos dados que foram recolhidos, se pode presumir que o número total de militares russos e pró-russos mortos pode estar na faixa de 191.000 a 269.000 pessoas.

Um exemplo da mortalidade russa escondida 

Povoação de Alekseyevka, região de Samara, federação russa. População: 4.380 pessoas em 2021.

Número de mortos:

  • Guerra de Afeganistão (1979-1989): 2 pessoas
  • 1ª guerra na Chechénia (11 de dezembro de 1994 – 31 de agosto de 1996), 2ª guerra na Chechênia (7 de agosto de 1999 – 30 de abril de 2000), fase de insurgência (1 de maio de 2000 – 16 de abril de 2009): 1 pessoa
  • Guerra na Ucrânia (desde 22.02.2022): 34 pessoas

quinta-feira, maio 02, 2024

Como espiões russos do GRU participaram em bombardeios e envenenamentos em toda a Europa

A Unidade GRU 29155, o esquadrão de assassinato e sabotagem da Rússia, explodiu armazéns de munições na República Tcheca. Teve a ajuda de Elena e Nikolai Šapošnikov, uma família de espiões russos disfarçados que trabalhavam como traficantes de armas. 

Nikolay Šapošnikov nasceu em 1961 em Severodvinsk, no extremo noroeste da Rússia, numa família de engenheiros militares. Em 1983, formou-se no departamento de engenharia da Escola de Comando Militar de Baku e foi nomeado comandante de uma empresa de rifles motorizados em Baku, capital do Azerbaijão. Os registos mostram que a unidade de Šapošnikov foi enviada para o Afeganistão entre 1983-1986, durante a ocupação soviética do país. Em 1985, ele se divorciou de sua primeira esposa, Natalia, e casou-se imediatamente com Elena Šapošniková (nascida Lisetskaya), uma engenheira nascida em Kyiv e filha de um tenente-coronel que lecionava no instituto de comando militar de Kyiv. Na época do casamento, ela trabalhava no Instituto de Física de Baku no Azerbaijão. Elena teve um filho, Pavel, de um casamento anterior. Ela e Nikolay tiveram uma filha, Valeria, nascida em 1986. 

Hoje, o Centro de Inteligência Checo para o Combate ao Terrorismo e Crime Organizado divulgou as conclusões de uma investigação de anos sobre o papel da Unidade 29155 na destruição de dois depósitos de armas e munições geridos pelo governo checo em 2014 em Vrbětice, uma pequena cidade no sul da Morávia, região da Chéquia. Esses ataques, que resultaram na expulsão de Praga de 18 oficiais da inteligência russa que operavam no país sob cobertura diplomática, foram conduzidos com dispositivos explosivos colocados pelos agentes mais conhecidos da Unidade 29155: Alexander Mishkin, 44, e Anatoly Chepiga, 45. Ambos ganhariam notoriedade internacional. por tentar assassinar Sergei Skripal, um oficial do GRU que se tornou agente duplo britânico, junto com sua filha Yulia, em Salisbury, Inglaterra, em 2018, com o agente nervoso de nível militar Novichok. 

Os Šapošnikovs não só conseguiram que Mishkin e Chepiga tivessem acesso a dois armazéns diferentes em Vrbětice, mas também comunicaram diretamente com o general Andrei Averyanov, 58, comandante fundador da Unidade 29155, que os encarregou de facilitar a violência contra a sua nação adotiva. 

O GRU, tal como o SVR, o serviço de inteligência estrangeiro da Rússia, mantém há muito tempo o seu próprio programa de ilegalidades. Mas os Šapošnikovs são o primeiro caso conhecido de afiliação à Unidade 29155, cuja missão é estritamente cinética. Em março o The Insider junto com seus parceiros investigativos 60 Minutes e Der Spiegel descobriram evidências que implicavam a Unidade 29155 em ataques energéticos direcionados que se acredita serem a causa da Síndrome de Havana o nome dado a uma coleção de doenças médicas debilitantes que afligem os oficiais de inteligência americanos e diplomatas em todo o mundo. 

Embora ambos os cônjuges Šapošnikov envolvidos em espionagem para a Rússia tenham ajudado nas operações de sabotagem do GRU, a esposa, Šapošnikova, 62 anos, parece ter sido diretamente integrada na Unidade 29155, como evidenciado tanto pelas conclusões dos investigadores checos como pela descoberta independente de provas documentais pelo The Insider. Como tal, concluíram os investigadores checos, ela provavelmente dirigiu e supervisionou as atividades do seu marido – e possivelmente do seu filho – em apoio aos interesses do Estado russo. As funções clandestinas da família iam desde a recolha de informações até à facilitação logística, proporcionando refúgios seguros, esforços de recrutamento e até ajudando a garantir o acesso físico aos agentes do GRU que conduziam missões de sabotagem. 

O Insider também descobriu que Šapošnikova possuía até um passaporte secreto de serviço russo de uma série especial reservada para espiões da Unidade 29155. Ela até recebeu o Herói da Federação Russa, a mais alta honraria estatal concedida àqueles que prestam “serviço ao Estado russo e nação, geralmente associada a um feito heróico de valor”. O próprio Putin concedeu o título a Šapošnikova numa cerimónia secreta em Moscovo, após as operações de sabotagem da Unidade 29155 na Chéquia e na Bulgária. 

Em 2023, as autoridades checas, depois de conduzirem uma investigação criminal independente sobre o papel dos Šapošnikovs nos atentados bombistas de 2014 em Vrbětice, declararam o casal “pessoas de interesse” e solicitaram o seu interrogatório às autoridades gregas. Nikolay e Elena Šapošnikov apresentaram uma declaração às autoridades gregas alegando que são perseguidos pela República Checa e são “bodes expiatórios em nome de interesses desconhecidos”. Nikolay Šapošnikov morreu de ataque cardíaco na Grécia em fevereiro de 2024, aos 62 anos.

domingo, julho 09, 2023

Os crimes de guerra soviéticos no Afeganistão

Os crimes dos «libertadores» soviéticos cometidos no Afeganistão entre 1979 à 1989. Faltavam 19 anos antes da guerra contra Geórgia e 25 antes de início da guerra de larga escala contra Ucrânia...

As «memórias heroicas» dos monstros que hoje defendem o avanço do «mundo russo» na Ucrânia e no resto da Europa:

“... na aldeia, um dos sargentos, sem esconder as emoções, notou que “as jovens são boas”.

As palavras do sargento, como uma faísca, incendiaram todos os outros e, então, tirando o sobretudo, dirigiu-se a uma das mulheres:

— Agarrem, rapazes!

Na frente dos mais velhos e das crianças, nossos internacionalistas abusaram das mulheres à vontade. O estupro durou duas horas. As crianças, amontoadas em um canto, gritavam e gemiam, tentando, de alguma forma, ajudar suas mães. Os velhos, tremendo, oraram, pedindo a seu Deus misericórdia e salvação.

Então o sargento ordenou: «Fogo!» — e atirou primeiro na mulher que acabara de estuprar. Eles rapidamente acabaram com todos os outros. Então, por ordem de K., o combustível foi drenado do tanque de gasóleo do BMP, os cadáveres foram encharcados com ele, foram jogados sobre eles com roupas e trapos que caíram debaixo do braço, também foram poucos móveis de madeira — colocados no fogo. Uma chama se acendeu dentro do casa tradicional, a samanka ...»

“... ordem: envenenar os poços que encontrarmos. Deixe-os morrer para o inferno!

E como envenenar? Pegue um cachorro vivo, por exemplo. E você joga lá. O veneno cadavérico fará então o seu trabalho ... "

“...sempre estivemos com facas.

— Por que?

— Mas porque. Quem viu o grupo não é mais inquilino!

— O que isso significa?

— Esta é a lei das forças especiais. Quando o grupo está em missão, ninguém nos deve ver. Mas não é fácil matar um homem. Especialmente quando não é um dushman brutal lá, mas um velho está de pé olhando para você. E tudo a mesma coisa. Quem viu o grupo não é mais inquilino [deste mundo]. Era uma lei de ferro…”

“... sim, nas caravanas, você pega na mira e mostra com a mão, aqui, dizem, vem. Ele se aproxima, você o revista, e o que fazer com ele a seguir? Amarrá-los? Sentar-se com eles, os guardar? Por que isso é necessário? Revistou e é tudo — aniquilar. Com facas. No final, o sentimento de pena em nós desapareceu, foi exterminado. Na verdade, não existia.

Chegou a essas situações em que eles até brigavam, tipo, dizem, você limpou da última vez, deixa eu agora ... »

“... Lyokha, vendo o movimento à sua frente, e percebendo que o grupo foi detectado, completou sua missão de combate — mirou e atirou.

Disparo. Atirou bem.

Uma munição [com a velocidade reduzida] de calibre 7,62 voou à cabeça da menina, mutilando essa criação divina além do reconhecimento. O alferes empurrou friamente o corpo com o pé para verificar as mãos do cadáver. Não há nada neles além de um galho.

Eu vi apenas com o canto do olho como uma perna pequena, de alguma forma desajeitada, ainda estava se contorcendo. E então congelou…”

“... amarramos o afegão com uma corda a um veículo blindado e o arrastamos como um saco o dia todo, atiramos nele com metralhadoras no caminho e, quando restava apenas uma perna e metade de seu corpo, cortamos a corda...”

Em novembro de 1989, o Soviete Supremo da URSS anunciou uma amnistia para todos os crimes cometidos pelos invasores soviéticos no Afeganistão.

Antes de «podermos repetir» na Geórgia faltavam 19 anos, antes de «podermos repetir» na Ucrânia — 25...

Fonte1 Espelho1 Fonte2 Espelho2

Tradução: (c) Universo Ucraniano

quarta-feira, março 22, 2023

As mortes da província russa na guerra contra Ucrânia

A cidade soviética de Kamyshin perdeu 18 homens em 9 anos da guerra colonial soviética no Afeganistão. A cidade russa de Kamyshin perdeu 41 homem em 11 meses da guerra colonial russa contra Ucrânia.

Uma placa memorial com uma lista de nomes dos militares russos mortos, residentes da cidade de Kamyshin, na região de Volgogrado, no período entre 24 de fevereiro de 2022 à 23 de janeiro de 2023. Durante os 9 anos da guerra no Afeganistão, 18 moradores de Kamyshin foram mortos e, em menos de um ano da guerra na Ucrânia, foi morta 41 pessoa — mais que o dobro. Ao mesmo tempo, para a Rússia, cuja população é metade da URSS, as perdas são muito maiores em termos percentuais.

População da cidade: 122.463 (censo de 1989) e 107.927 (censo em 2021).

sexta-feira, fevereiro 15, 2019

O 30º aniversário do fim da guerra colonial soviética no Afeganistão

Hoje é o 30º aniversário da retirada das tropas soviéticas do Afeganistão. Oficialmente, cerca de 3.500 ucranianos morreram nesta guerra colonial, a quem os líderes comunistas soviéticos tiveram o descaramento ideológico de chamar de “dever internacionalista”.
A guerra mostrou que a URSS tinha um enorme exército, mas não conseguia combater a guerrilha sem sofrer grandes perdas, apesar de sua esmagadora superioridade técnica. A guerra também mostrou que as pessoas não estavam prontas para derramar a sangue num jogo político estúpido, mesmo que isso tenham sido enganadas pela propaganda comunista.
Propaganda soviética: «páraquedistas soviéticos contam às crianças afegãs sobre Lenine»
O aniversário da retirada das tropas não é nenhum feriado. Mas este é o dia em que é necessário, com dignidade, lembrar os mortos e os sobreviventes dessa tragédia que durou dez anos, e não esquecer as suas lições. Os soldados ucranianos de 18-20 anos não carregam as culpas de União Soviética que lhe deu a ordem, embora são responsáveis pelos crimes que eventualmente cometeram contra os civis afegãos. A URSS não existe mais – a guerra afegã injusta e desnecessária tornou-se um dos principais fa(c)tores no colapso do império soviético. Vários veteranos ucranianos da guerra no Afeganistão vieram em defesa do seu país após a agressão armada da federação russa em 2014, e havia entre eles heróis que tinham sobrevivido Afgan e deram suas vidas lutando contra a nova aventura de Moscovo na Ucrânia. Devemos lembrar todos deles.
Monumento aos ucranianos mortos no Afeganistão na cidade ucraniana de Khmelnytskiy
A foto mostra o sargento da 56ª Brigada Aerotransportada, ucraniano Oleh Mikhnyuk, um dos heróis da guerra no Afeganistão depois de voltar para casa em 1989.
Em 2014, a “sua”, mas já russa, 56ª Brigada Aerotransportada participou da invasão da Ucrânia. Oleh Mikhnyuk (que na Maydan era comandante da 8ª centena “afegã”) se tornou voluntário do batalhão “Aydar” e teve a morte heróica nos combates nos arredores de Luhansk, postumamente ele foi reconhecido como Herói da Ucrânia.
Oleh Mikhniyk (27/10/1965 — † 20/08/2014),
foto de 2014 @LionKing
O desconhecimento da história faz apenas com que as pessoas cometem os mesmos erros repetidas vezes.
Historiador Volodymyr Viatrovych: “Recordamos, mas não sentimos orgulho”...
Ler mais:
Abandonados: os POW soviéticos no Afeganistão: 1ª parte; 2ª parte; 3ª parte

quinta-feira, novembro 08, 2018

Novas perdas russas na Síria

https://el-murid.livejournal.com/3963276.htm
Após a recente informação sobre o ataque contra as forças russas em Deir ez-Zor, que matou de 7 à 6 mercenários, chega a nova informação de Deir ez-Zor do novo ataque do Daesh/EI contra as posições das EMP russas, que resultou na morte dos 11 mercenários russos.

Nenhum dos episódios foi confirmado pelo Ministério da Defesa russo, que apenas acusa os EUA de deixarem de controlar a situação na “sua” margem do rio Eufrates. Como escreve o blogueiro militarista russo el-murid, acusações até tem uma certa base factual. Se na margem direita do rio Eufrates (controlada pelas forças russo-iranianas) Daesh/EI está engajado na luta esporádica e não controla os territórios, na margem esquerda (curdo-americana) Daesh/EI ocupa os territórios e as localidades, empurrando os curdos na direcção oposta a da fronteira iraquiana.
  
Além disso, Daesh/EI agora passa esporadicamente para a margem “russa”, atacando, quer os proxies iranianos xiitas, quer os militares (privados ou estatais) russos.

Blogueiro: a situação pode significar que os EUA conseguiram, de certa forma, dominar Daesh/EI e neste momento usam, indirectamente, as suas forças para combater certos “não crentes” (russos e xiitas), tal como na década de 1980 foi feito, com bastante sucesso, pela administração do Ronald Reagan no Afeganistão. E claro, sem esquecer que cerca de 3/4 efetivos da EMP Vagner passaram pelo leste da Ucrânia, nas suas mãos está sangue dos ucranianos...

domingo, julho 29, 2018

Abandonados: os POW soviéticos no Afeganistão (3ª parte)

Praticamente abandonados pela URSS, os POW soviéticos no Afeganistão estavam em constante incerteza do amanha. Na União Soviética eram tratados como “traidores” (por ter a ousadia de não morrer em combate), no Afeganistão eram vistos como invasores, por vezes eram maltratados e alguns deles acabaram morrendo ou foram executados...     

1(23). Dois POW soviéticos, à esquerda russo Valeriy Kiselyov (22.10.1962) e à direita ucraniano Alexander Sidelnikov (de 20 anos; chamado na imprensa ocidental de “capitão de blindados”, o que é bastante improvável, devido à idade; o seu destino posterior é desconhecido), capturados pela resistência afegã do movimento Hezb-e Islami na província afegã de Zabul.
A sua foto (em cima), da autoria de AFP/GettyImages é acompanhada pela legenda algo confusa: “The prisoners had told journalists then they would be executed by the Afghan resistance for refusing to covert to Islam to make eligible to be tried by an Islamic court” (Os prisioneiros disseram a jornalistas que eles seriam executados pela resistência afegã por se recusarem a se converter ao islamismo para poderem ser julgados por um tribunal islâmico).  
Em 28 (ou 29) de abril de 1982 eles foram apresentados ao grupo de jornalistas ocidentais, iranianos e chineses no campo de treino Allah Jirgha na província de Zabul, à uma distância de apenas 19,3 km da fronteira paquistanesa. Foto (publicada pela l´Unità): AP

2(24). O soldado da guarda Valeriy Kiselyov, um operador de morteiro, foi acusado pelas autoridades militares soviéticas de abandonar a sua base na cidade de Bagram (que desde 2001 é usada pelas forças norte-americanas) na província de Parwan em 18 de fevereiro de 1982. Pela informação disponível, em 22 de agosto de 1984 ele se enforcou na cadeia do campo prisional de Mobarez (?), no Afeganistão, possivelmente juntamente com um outro operador do morteiro, POW Sergey Mesheryakov (12/07/1962 – 2/10/1984), pertencente ao mesmo 345º Regimento especial de pára-quedistas, mas capturado pelos afegãos em 03.06.1982 (outros dados apontam que Sergey Mesheryakov morreu no cativeiro afegão vítima da doença).

3(25). Quatro POW soviéticos capturados pelo movimento da resistência afegã Hezb-e Islami, a foto foi tirada no campo de treino Allah Jirgha em Zabul (Mesheryakov é primeiro à direita).
Dois recrutas do Uzbequistão e Sergey Mesheryakov, recruta da unidade militar № 53701 da Bagram (o 345º Regimento especial de pára-quedistas), em 3 de junho de 1982 saiu da sua unidade militar, armado, para visitar a cidade de Bagram, foram interceptados pela resistência afegã e capturados após uma troca de tiros.
A jornalista, escritora e ativista da ONG americana “Freedom House”, a cidadã americana de origem russo-letã Ludmilla Zemels-Thorne contou que em janeiro de 1983 viu Sergey Mesheryakov no campo de [Allah Jirgha?], onde a resistência afegã mantinha 14-15 POW cativos. Mesheryakov, reparou no seu crucifixo ortodoxo e começou à gritar: “Ludmilla, eu, tão como você, sou ortodoxo! Ludmilla, me leve consigo para América, não quero ficar aqui, me salve!”...

4(26). 2/17/83-Nova Iorque: Esses quatro desertores soviéticos sentados foram entrevistados pela ABC-News numa base rebelde muçulmana no sudeste do Afeganistão. Um dos soldados explicou a sua entrega: “eu não quero matar mulheres e crianças”. Eles disseram que a moral nos regimentos soviéticos é baixa e descreveram a existência de armas químicas, repetidamente negadas por Moscovo. @ABC News 20/20  
Em fevereiro de 1984, o deputado britânico Lord Nicholas Bethell (um dos primeiros à entrevistar Nelson Mandela na prisão Pollsmoor em 1985), visitou 10 POW soviéticos, mantidos no campo de Mobarez (?). O décimo, Sergey Mesheryakov (na foto em cima primeiro à esquerda), estava muito doente, por isso não conseguiu sair do seu cativeiro.

5(27). O campo de treino da resistência anticomunista afegã em Badaber, ao sul do Peshawar no Paquistão, à 25 km da fronteira afegã. A foto foi tirada em agosto-setembro de 1983.
No centro da foto – a ativista Ludmilla Zemels-Thorne (14/03/1938 – 15/12/2009), membro da ONG americana “Freedom House” desde os meados da década de 1970 à 1997.

Ao seu lado estão os três POW soviéticos, ucraniano Nikolay (Mykola) “Abdurahmon” Shevchenko; chuvache Vladimir Shipeev “Abdullo” (1963) e arménio Mikhail (Micael?) “Islamutdin” Varvaryan (1960), natural da região ucraniana de Luhansk e POW desde 19 de março de 1982. A figura do ucraniano Mykola Shevchenko é a mais enigmática de todos. Alegadamente, após a sua captura pela resistência afegã em 10 de setembro de 1982, na auto-estrada Termez – Herat, ele foi levado para o Irão, onde, por dois anos, estudou o Alcorão e a língua persa. Por alguma razão estranha Shevchenko voltou ao Paquistão e estava preso (em condições bastante sub-humanas), em Badaber. Praticamente, a sua história é a primeira menção da permanência dos POW soviéticos no território do Irão.
POW soviético, ucraniano Mykola Shevchenko
Segundo os dados públicos da sua biografia, Mykola Shevchenko (1956) era natural da região ucraniana de Sumy, um civil (!) sob contrato, condutor do camião da 5ª Divisão de infantaria motorizada do 40º exército soviético (chamado pela propaganda soviética de “contingente limitado” de “militares internacionalistas” na República Democrática do Afeganistão).
Cartão do registo (posterior) do Mykola Shevchenko
Em 26-27 de abril de 1985, ele participou ativamente e até liderou a revolta de Badaber, a rebelião armada dos prisioneiros de guerra soviéticos e afegãos (cerca de 10-12 e até 40, respetivamente) que estavam detidos na fortaleza de Badaber, no Paquistão. Os prisioneiros lutaram contra o exército paquistanês e os mujahidines afegãos do partido Jamiat-e Islami, numa tentativa frustrada de escapar do seu cativeiro. Possivelmente, todos os POW soviéticos e maioria dos afegãos, participantes na rebelião, foram mortos no cerco que se seguiu e a fortaleza foi destruída numa explosão do stock de munição que estava armazenado no local.
Ludmilla Thorne: "Soviet POWs in Afghanistan"
Ludmilla Thorne: “Fiquei impressionada com as notícias sobre a explosão no campo de Badaber, que ocorreu menos de dois anos após a minha estadia lá. Abdul Rahim não me disse logo que os três soldados com quem falei estavam mortos” [fonte].

Ler mais: 1ª parte; 2ª parte 

quarta-feira, julho 18, 2018

Abandonados: os POW soviéticos no Afeganistão (2ª parte)

Desde 1982 e graças às difíceis negociações ente a URSS, governo comunista afegão, resistência anti-comunista afegã e Suíça, com a participação do Paquistão, 11 militares soviéticos foram libertados pelos mujahidines, na condição de ficarem retidos na Suíça até o fim da guerra no Afeganistão, mas no mínimo por dois anos (8 deles conseguiram permanecer no Ocidente). 

1(13). Os mujahidines afegãos mostram aos jornalistas ocidentais os dois POW soviéticos: 2º sargento Yuri Povarnitsin (de 20 anos, natural da região russa de Sverdlovsk, capturado em junho de 1981 e em 28 maio de 1982 entregue à Suíça) e soldado ucraniano, operador do blindado Valery Didenko (de 19 anos, natural da aldeia de Polohy na Ucrânia), foto tirada em 10/12/1981 no campo de treino da resistência afegã Allah Jirga (pertencente ao Hezb-e Islami do comandante Gulbuddin Hekmatyar), na província afegã de Zabol. Foto: Roland Neveu.

2(14). No campo de treino da resistência afegã Allah Jirga, juntamente com POW soviéticos M. Yazkuliev (ou Mohammed Kuli-Yazkuliev) e Yuri Povarnitsin (possivelmente os primeiros POW soviéticos poupados pelos afegãos), está o conselheiro e lobista americano Andrew Eiva (lituano de nascimento Andrius Linas Kazimieras Eitavicius), homem que fiz muito para derrotar as forças soviéticas e também para que sejam poupadas as vidas dos POW soviéticos. Foto tirada em 24/09/1981. ©www.bernardinai.lt

3(15). Algumas fontes mencionam o recruta ucraniano Valeriy Didenko como o “primeiro POW soviético, capturado desde o fim da II G.M.”, o que naturalmente não corresponde à verdade, pois Valeriy Didenko não foi o primeiro militar soviético capturado no Afeganistão. Em maio de 1982 ele foi para a Suíça (no âmbito da troca dos POW supervisionada pela Cruz Vermelha Internacional) e em agosto de 1984 voltou para União Soviética. Na URSS, em 1985, foi supostamente condenado aos 10 anos da cadeia, acusado de “traição da pátria”, notícia desmentida pela agência informativa soviética “Novosti”. De acordo com as fontes soviéticas, Valeriy Didenko: “nunca foi preso e está morando em Zaporizhia, onde trabalha como operador de guindaste”, noticiava o jornal ucraniano-americano The Ukrainian Weekly. Tendo em conta que os pais do Valeriy Didenko, alegadamente viviam em Tashkent, no Uzbequistão, e tendo em conta que soviéticos não mostraram nenhuma foto da sua vida em liberdade, é possível concluir que após retornar à União Soviética, o soldado ucraniano realmente foi preso e condenado pelas autoridades soviéticas. Foto: David Kline, publicada recentemente em 13.3.2014 em forbes.com

4(16). Os primeiros três POW soviéticos, capturados pela resistência afegã chegaram à Suíça via Paquistão em 28 de maio de 1982. A embaixada soviética em Berna, pela voz do seu embaixador Vladimir Lavrov (1919 – 2011) exigia que estes militares não tenham quaisquer contactos com o mundo exterior. Por isso, as autoridades suíças os colocaram inicialmente num campo de correcção de adultos St. Johannsen na cidade de Erlach. Depois, os militares foram movidos para a Suíça central, à herdade de «Frühbünl», onde o exército helvético mantinha a sua própria unidade de punição. Na herdade, os POW teriam que participar nos trabalhos agrícolas, oficialmente, eles deveriam contactar apenas com os representantes soviéticos. Apesar disso, os militares soviéticos regularmente tentavam a fuga, ainda mais, que do ponto de vista legal (segundo a 3ª Convenção de Genebra sobre o Tratamento dos Prisioneiros de Guerra de 1949), na Suíça eles não eram POW, mas “as pessoas temporariamente sob a custódia das autoridades suíças”.

O 2º sargento Yuriy Povarnitsin (que em algumas fontes é tido como natural da Ucrânia), falava com os jornalistas, chamando a guerra no Afeganistão de «absurdo» e criticando fortemente as autoridades soviéticas. Apesar das saudades manifestadas, tudo indica que ele ficou à viver no Afeganistão, o seu destino posterior é desconhecido (no foto em baixo no meio).
Outro militar soviético, ucraniano étnico Yuriy Vaschenko (nascido em 1964 em Kansk na Rússia), no verão de 1983 conseguiu fugir da Suíça e chegou à submeter o pedido de asilo político na Alemanha Federal. Apesar do desejo inicial da RFA de o repatriar de volta à Suíça, o MNE da Alemanha Federal acabou por garantir que o militar não será deportado da Alemanha contra a sua vontade [fonte]. Sabe-se que em 25 de janeiro de 1989 ele foi condenado, à revelia por um tribunal regional russo, pela “traição à Pátria”, no entanto o seu processo acabou por ser encerrado “devido a mudanças da situação” (possivelmente a amnistia geral decretada na União Soviética pelo seu Soviete Supremo em novembro de 1989 e extensa à todos crimes cometidos pelos militares soviéticos no Afeganistão).

De acordo com os dados da Procuradoria militar soviética, entre dezembro de 1979 à fevereiro de 1989, os 4.307 soldados e militares do 40º Exército soviético na República Democrática do Afeganistão foram condenados pelo cometimento de diversos crimes. No momento da entrada de amnistia em vigor, mais de 420 ex-militares ainda cumpriam as suas penas da prisão.

5(17). Yuriy Povarnitsin e Valery Didenko com outro POW soviético (possivelmente Mohammed Kuli-Yazkuliev) no campo de treino Allah Jirga, em Zabol. Na Suíça, na companhia de outros seis POW soviéticos eles passaram pela cadeia militar na cidade de Zugerberg (1982-84). As autoridades soviéticas não estavam apressadas em salvar os seus próprios cidadãos, como escreveu a revista emigrante russa “Posev” № 8, de 1982, no seu artigo: “GULAG na Suíça?”: «…a imprensa soviética, não informou o seu próprio povo sobre esses três resgatados do cativeiro afegão: pois a guerra “não existe”»...

6(18). No dia 28 de maio de 1984, o prisioneiro de guerra, 2º sargento Yuri Povarnitsin, completou dois anos na sua prisão suíça. Neste dia, a Cruz Vermelha Internacional, de acordo com o plano traçado pelas autoridades soviéticas, teria que repatriá-lo à URSS. No entanto, durante sua permanência na Suíça, o militar expressou o seu firme desejo de permanecer no Ocidente (na foto ainda no Afeganistão aparecer Yuri Povarnitsin e Valeriy Didenko).

7(19). Yuri Grigorievich Povarnitsin [1962?], 2º sargento, foi chamado à cumprir o seu “dever internacionalista” da região russa de Sverdlovsk, três meses após chegar ao Afeganistão, em junho de 1981, foi capturado pelos militantes do Hezb-e Islami em Charikar (região em que a resistência afegã atacava constantemente as colunas militares soviéticas), cerca de 63 km do Cabul.
Nos dias 24-26 de setembro de 1981 o correspondente da AP fez uma série de fotos dos POW soviéticos, que estavam em poder do Hezb-e Islami no campo de Allah Jirga, nas proximidades da fronteira com o Paquistão. Na foto (em cima), por várias vezes publicada na imprensa ocidental, aparece Yuri Povartnitsin.

8(20). O POW soviético Gariardi Chariev (na imprensa ocidental grafado como Charief), de 20 anos (de pé, 4º à esquerda), do Turcomenistão, junto aos guerrilheiros da resistência afegã em 7 de outubro de 1986 algures na província de Wardak. O militar foi capturado em 11 de julho de 1986. Foto: PATRICK DAVID/AFP/Getty Images.

9(21). Os mujahidines mostram a caderneta da juventude comunista Komsomol do Gariardi Chariev. O militar foi capturado na ida ao mercado local para comprar as calças jeans, tão inacessíveis para si e para a geração inteira dos jovens soviéticos. Foto: PATRICK DAVID/AFP/Getty Images.

10(22). O POW soviético Gariardi Chariev mostra a sua caderneta de Komsomol. 7 de outubro de 1986. O seu destino posterior é desconhecido. Foto: PATRICK DAVID/AFP/Getty Images.
Os POW soviéticos mantidos na Suíça e no Afeganistão contaram com apoio e solidariedade do escritor e político russo-britânico Nikolai Tolstoy (pseudónimo literário do conde Nikolai Dmitrievich Tolstoy-Miloslavsky), presidente do Comité de salvação dos prisioneiros soviéticos no Afeganistão, criado no Ocidente em junho de 1983.