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domingo, julho 29, 2018

Abandonados: os POW soviéticos no Afeganistão (3ª parte)

Praticamente abandonados pela URSS, os POW soviéticos no Afeganistão estavam em constante incerteza do amanha. Na União Soviética eram tratados como “traidores” (por ter a ousadia de não morrer em combate), no Afeganistão eram vistos como invasores, por vezes eram maltratados e alguns deles acabaram morrendo ou foram executados...     

1(23). Dois POW soviéticos, à esquerda russo Valeriy Kiselyov (22.10.1962) e à direita ucraniano Alexander Sidelnikov (de 20 anos; chamado na imprensa ocidental de “capitão de blindados”, o que é bastante improvável, devido à idade; o seu destino posterior é desconhecido), capturados pela resistência afegã do movimento Hezb-e Islami na província afegã de Zabul.
A sua foto (em cima), da autoria de AFP/GettyImages é acompanhada pela legenda algo confusa: “The prisoners had told journalists then they would be executed by the Afghan resistance for refusing to covert to Islam to make eligible to be tried by an Islamic court” (Os prisioneiros disseram a jornalistas que eles seriam executados pela resistência afegã por se recusarem a se converter ao islamismo para poderem ser julgados por um tribunal islâmico).  
Em 28 (ou 29) de abril de 1982 eles foram apresentados ao grupo de jornalistas ocidentais, iranianos e chineses no campo de treino Allah Jirgha na província de Zabul, à uma distância de apenas 19,3 km da fronteira paquistanesa. Foto (publicada pela l´Unità): AP

2(24). O soldado da guarda Valeriy Kiselyov, um operador de morteiro, foi acusado pelas autoridades militares soviéticas de abandonar a sua base na cidade de Bagram (que desde 2001 é usada pelas forças norte-americanas) na província de Parwan em 18 de fevereiro de 1982. Pela informação disponível, em 22 de agosto de 1984 ele se enforcou na cadeia do campo prisional de Mobarez (?), no Afeganistão, possivelmente juntamente com um outro operador do morteiro, POW Sergey Mesheryakov (12/07/1962 – 2/10/1984), pertencente ao mesmo 345º Regimento especial de pára-quedistas, mas capturado pelos afegãos em 03.06.1982 (outros dados apontam que Sergey Mesheryakov morreu no cativeiro afegão vítima da doença).

3(25). Quatro POW soviéticos capturados pelo movimento da resistência afegã Hezb-e Islami, a foto foi tirada no campo de treino Allah Jirgha em Zabul (Mesheryakov é primeiro à direita).
Dois recrutas do Uzbequistão e Sergey Mesheryakov, recruta da unidade militar № 53701 da Bagram (o 345º Regimento especial de pára-quedistas), em 3 de junho de 1982 saiu da sua unidade militar, armado, para visitar a cidade de Bagram, foram interceptados pela resistência afegã e capturados após uma troca de tiros.
A jornalista, escritora e ativista da ONG americana “Freedom House”, a cidadã americana de origem russo-letã Ludmilla Zemels-Thorne contou que em janeiro de 1983 viu Sergey Mesheryakov no campo de [Allah Jirgha?], onde a resistência afegã mantinha 14-15 POW cativos. Mesheryakov, reparou no seu crucifixo ortodoxo e começou à gritar: “Ludmilla, eu, tão como você, sou ortodoxo! Ludmilla, me leve consigo para América, não quero ficar aqui, me salve!”...

4(26). 2/17/83-Nova Iorque: Esses quatro desertores soviéticos sentados foram entrevistados pela ABC-News numa base rebelde muçulmana no sudeste do Afeganistão. Um dos soldados explicou a sua entrega: “eu não quero matar mulheres e crianças”. Eles disseram que a moral nos regimentos soviéticos é baixa e descreveram a existência de armas químicas, repetidamente negadas por Moscovo. @ABC News 20/20  
Em fevereiro de 1984, o deputado britânico Lord Nicholas Bethell (um dos primeiros à entrevistar Nelson Mandela na prisão Pollsmoor em 1985), visitou 10 POW soviéticos, mantidos no campo de Mobarez (?). O décimo, Sergey Mesheryakov (na foto em cima primeiro à esquerda), estava muito doente, por isso não conseguiu sair do seu cativeiro.

5(27). O campo de treino da resistência anticomunista afegã em Badaber, ao sul do Peshawar no Paquistão, à 25 km da fronteira afegã. A foto foi tirada em agosto-setembro de 1983.
No centro da foto – a ativista Ludmilla Zemels-Thorne (14/03/1938 – 15/12/2009), membro da ONG americana “Freedom House” desde os meados da década de 1970 à 1997.

Ao seu lado estão os três POW soviéticos, ucraniano Nikolay (Mykola) “Abdurahmon” Shevchenko; chuvache Vladimir Shipeev “Abdullo” (1963) e arménio Mikhail (Micael?) “Islamutdin” Varvaryan (1960), natural da região ucraniana de Luhansk e POW desde 19 de março de 1982. A figura do ucraniano Mykola Shevchenko é a mais enigmática de todos. Alegadamente, após a sua captura pela resistência afegã em 10 de setembro de 1982, na auto-estrada Termez – Herat, ele foi levado para o Irão, onde, por dois anos, estudou o Alcorão e a língua persa. Por alguma razão estranha Shevchenko voltou ao Paquistão e estava preso (em condições bastante sub-humanas), em Badaber. Praticamente, a sua história é a primeira menção da permanência dos POW soviéticos no território do Irão.
POW soviético, ucraniano Mykola Shevchenko
Segundo os dados públicos da sua biografia, Mykola Shevchenko (1956) era natural da região ucraniana de Sumy, um civil (!) sob contrato, condutor do camião da 5ª Divisão de infantaria motorizada do 40º exército soviético (chamado pela propaganda soviética de “contingente limitado” de “militares internacionalistas” na República Democrática do Afeganistão).
Cartão do registo (posterior) do Mykola Shevchenko
Em 26-27 de abril de 1985, ele participou ativamente e até liderou a revolta de Badaber, a rebelião armada dos prisioneiros de guerra soviéticos e afegãos (cerca de 10-12 e até 40, respetivamente) que estavam detidos na fortaleza de Badaber, no Paquistão. Os prisioneiros lutaram contra o exército paquistanês e os mujahidines afegãos do partido Jamiat-e Islami, numa tentativa frustrada de escapar do seu cativeiro. Possivelmente, todos os POW soviéticos e maioria dos afegãos, participantes na rebelião, foram mortos no cerco que se seguiu e a fortaleza foi destruída numa explosão do stock de munição que estava armazenado no local.
Ludmilla Thorne: "Soviet POWs in Afghanistan"
Ludmilla Thorne: “Fiquei impressionada com as notícias sobre a explosão no campo de Badaber, que ocorreu menos de dois anos após a minha estadia lá. Abdul Rahim não me disse logo que os três soldados com quem falei estavam mortos” [fonte].

Ler mais: 1ª parte; 2ª parte 

quarta-feira, julho 18, 2018

Abandonados: os POW soviéticos no Afeganistão (2ª parte)

Desde 1982 e graças às difíceis negociações ente a URSS, governo comunista afegão, resistência anti-comunista afegã e Suíça, com a participação do Paquistão, 11 militares soviéticos foram libertados pelos mujahidines, na condição de ficarem retidos na Suíça até o fim da guerra no Afeganistão, mas no mínimo por dois anos (8 deles conseguiram permanecer no Ocidente). 

1(13). Os mujahidines afegãos mostram aos jornalistas ocidentais os dois POW soviéticos: 2º sargento Yuri Povarnitsin (de 20 anos, natural da região russa de Sverdlovsk, capturado em junho de 1981 e em 28 maio de 1982 entregue à Suíça) e soldado ucraniano, operador do blindado Valery Didenko (de 19 anos, natural da aldeia de Polohy na Ucrânia), foto tirada em 10/12/1981 no campo de treino da resistência afegã Allah Jirga (pertencente ao Hezb-e Islami do comandante Gulbuddin Hekmatyar), na província afegã de Zabol. Foto: Roland Neveu.

2(14). No campo de treino da resistência afegã Allah Jirga, juntamente com POW soviéticos M. Yazkuliev (ou Mohammed Kuli-Yazkuliev) e Yuri Povarnitsin (possivelmente os primeiros POW soviéticos poupados pelos afegãos), está o conselheiro e lobista americano Andrew Eiva (lituano de nascimento Andrius Linas Kazimieras Eitavicius), homem que fiz muito para derrotar as forças soviéticas e também para que sejam poupadas as vidas dos POW soviéticos. Foto tirada em 24/09/1981. ©www.bernardinai.lt

3(15). Algumas fontes mencionam o recruta ucraniano Valeriy Didenko como o “primeiro POW soviético, capturado desde o fim da II G.M.”, o que naturalmente não corresponde à verdade, pois Valeriy Didenko não foi o primeiro militar soviético capturado no Afeganistão. Em maio de 1982 ele foi para a Suíça (no âmbito da troca dos POW supervisionada pela Cruz Vermelha Internacional) e em agosto de 1984 voltou para União Soviética. Na URSS, em 1985, foi supostamente condenado aos 10 anos da cadeia, acusado de “traição da pátria”, notícia desmentida pela agência informativa soviética “Novosti”. De acordo com as fontes soviéticas, Valeriy Didenko: “nunca foi preso e está morando em Zaporizhia, onde trabalha como operador de guindaste”, noticiava o jornal ucraniano-americano The Ukrainian Weekly. Tendo em conta que os pais do Valeriy Didenko, alegadamente viviam em Tashkent, no Uzbequistão, e tendo em conta que soviéticos não mostraram nenhuma foto da sua vida em liberdade, é possível concluir que após retornar à União Soviética, o soldado ucraniano realmente foi preso e condenado pelas autoridades soviéticas. Foto: David Kline, publicada recentemente em 13.3.2014 em forbes.com

4(16). Os primeiros três POW soviéticos, capturados pela resistência afegã chegaram à Suíça via Paquistão em 28 de maio de 1982. A embaixada soviética em Berna, pela voz do seu embaixador Vladimir Lavrov (1919 – 2011) exigia que estes militares não tenham quaisquer contactos com o mundo exterior. Por isso, as autoridades suíças os colocaram inicialmente num campo de correcção de adultos St. Johannsen na cidade de Erlach. Depois, os militares foram movidos para a Suíça central, à herdade de «Frühbünl», onde o exército helvético mantinha a sua própria unidade de punição. Na herdade, os POW teriam que participar nos trabalhos agrícolas, oficialmente, eles deveriam contactar apenas com os representantes soviéticos. Apesar disso, os militares soviéticos regularmente tentavam a fuga, ainda mais, que do ponto de vista legal (segundo a 3ª Convenção de Genebra sobre o Tratamento dos Prisioneiros de Guerra de 1949), na Suíça eles não eram POW, mas “as pessoas temporariamente sob a custódia das autoridades suíças”.

O 2º sargento Yuriy Povarnitsin (que em algumas fontes é tido como natural da Ucrânia), falava com os jornalistas, chamando a guerra no Afeganistão de «absurdo» e criticando fortemente as autoridades soviéticas. Apesar das saudades manifestadas, tudo indica que ele ficou à viver no Afeganistão, o seu destino posterior é desconhecido (no foto em baixo no meio).
Outro militar soviético, ucraniano étnico Yuriy Vaschenko (nascido em 1964 em Kansk na Rússia), no verão de 1983 conseguiu fugir da Suíça e chegou à submeter o pedido de asilo político na Alemanha Federal. Apesar do desejo inicial da RFA de o repatriar de volta à Suíça, o MNE da Alemanha Federal acabou por garantir que o militar não será deportado da Alemanha contra a sua vontade [fonte]. Sabe-se que em 25 de janeiro de 1989 ele foi condenado, à revelia por um tribunal regional russo, pela “traição à Pátria”, no entanto o seu processo acabou por ser encerrado “devido a mudanças da situação” (possivelmente a amnistia geral decretada na União Soviética pelo seu Soviete Supremo em novembro de 1989 e extensa à todos crimes cometidos pelos militares soviéticos no Afeganistão).

De acordo com os dados da Procuradoria militar soviética, entre dezembro de 1979 à fevereiro de 1989, os 4.307 soldados e militares do 40º Exército soviético na República Democrática do Afeganistão foram condenados pelo cometimento de diversos crimes. No momento da entrada de amnistia em vigor, mais de 420 ex-militares ainda cumpriam as suas penas da prisão.

5(17). Yuriy Povarnitsin e Valery Didenko com outro POW soviético (possivelmente Mohammed Kuli-Yazkuliev) no campo de treino Allah Jirga, em Zabol. Na Suíça, na companhia de outros seis POW soviéticos eles passaram pela cadeia militar na cidade de Zugerberg (1982-84). As autoridades soviéticas não estavam apressadas em salvar os seus próprios cidadãos, como escreveu a revista emigrante russa “Posev” № 8, de 1982, no seu artigo: “GULAG na Suíça?”: «…a imprensa soviética, não informou o seu próprio povo sobre esses três resgatados do cativeiro afegão: pois a guerra “não existe”»...

6(18). No dia 28 de maio de 1984, o prisioneiro de guerra, 2º sargento Yuri Povarnitsin, completou dois anos na sua prisão suíça. Neste dia, a Cruz Vermelha Internacional, de acordo com o plano traçado pelas autoridades soviéticas, teria que repatriá-lo à URSS. No entanto, durante sua permanência na Suíça, o militar expressou o seu firme desejo de permanecer no Ocidente (na foto ainda no Afeganistão aparecer Yuri Povarnitsin e Valeriy Didenko).

7(19). Yuri Grigorievich Povarnitsin [1962?], 2º sargento, foi chamado à cumprir o seu “dever internacionalista” da região russa de Sverdlovsk, três meses após chegar ao Afeganistão, em junho de 1981, foi capturado pelos militantes do Hezb-e Islami em Charikar (região em que a resistência afegã atacava constantemente as colunas militares soviéticas), cerca de 63 km do Cabul.
Nos dias 24-26 de setembro de 1981 o correspondente da AP fez uma série de fotos dos POW soviéticos, que estavam em poder do Hezb-e Islami no campo de Allah Jirga, nas proximidades da fronteira com o Paquistão. Na foto (em cima), por várias vezes publicada na imprensa ocidental, aparece Yuri Povartnitsin.

8(20). O POW soviético Gariardi Chariev (na imprensa ocidental grafado como Charief), de 20 anos (de pé, 4º à esquerda), do Turcomenistão, junto aos guerrilheiros da resistência afegã em 7 de outubro de 1986 algures na província de Wardak. O militar foi capturado em 11 de julho de 1986. Foto: PATRICK DAVID/AFP/Getty Images.

9(21). Os mujahidines mostram a caderneta da juventude comunista Komsomol do Gariardi Chariev. O militar foi capturado na ida ao mercado local para comprar as calças jeans, tão inacessíveis para si e para a geração inteira dos jovens soviéticos. Foto: PATRICK DAVID/AFP/Getty Images.

10(22). O POW soviético Gariardi Chariev mostra a sua caderneta de Komsomol. 7 de outubro de 1986. O seu destino posterior é desconhecido. Foto: PATRICK DAVID/AFP/Getty Images.
Os POW soviéticos mantidos na Suíça e no Afeganistão contaram com apoio e solidariedade do escritor e político russo-britânico Nikolai Tolstoy (pseudónimo literário do conde Nikolai Dmitrievich Tolstoy-Miloslavsky), presidente do Comité de salvação dos prisioneiros soviéticos no Afeganistão, criado no Ocidente em junho de 1983.

quinta-feira, julho 12, 2018

Ucrânia luta por militar, abandonado no Afeganistão pela União Soviética

União Soviética perdeu na Afeganistão cerca de 15.000 militares mortos e no mínimo 417 POW. Na realidade o número dos prisioneiros soviéticos é maior, dado que muitos deles eram dados pelas autoridades soviéticas como “mortos” ou “desaparecidos em combate”. Entre 70 à 80 deles eram ucranianos (oficialmente Ucrânia reconhece 62 militares como POW ou desaparecidos).
Ihor Bilokurov vestido à civil, nas vésperas do Afeganistão
Um deles é Ihor Bilokurov, natural da região ucraniana de Volyn, furriel do exército soviético, membro de um batalhão pára-quedista de assalto (DShB), tido como desaparecido em combate desde 9 de abril de 1988. Neste momento as autoridades ucranianas trabalham na questão do seu retorno à Ucrânia.
Ihor Bilokurov antes de 1988 e a sua mãe Antonina hoje
Como contou à agência ucraniana UNIAN, o deputado do Parlamento da Ucrânia e líder da União dos Veteranos do Afeganistão, Serhiy Kunitsin, o militar em questão foi capturado em combate em 1988 nos arredores da cidade afegã de Kandagar. Em março de 2018, e por acaso, uma expedição civil ucraniana ele foi achado no Afeganistão e manifestou o seu desejo de voltar à Ucrânia.
Ihor Bilokurov em 1988 e em 2018
Ao pedido do Presidente Petró Poroshenko foi criado um grupo de trabalho que está desenvolver as ações complexas de confirmação da entidade do cidadão (para isso a delegação ucraniana visitou Afeganistão por quatro vezes) e do seu retorno à Ucrânia.

O próprio Ihor Bilokurov conta que foi capturado pelos mujahedeenes inconsciente (ele sofreu a contusão no decorrer do ataque contra a coluna militar soviética) e por isso não possui grandes memórias do sucedido. Efetivamente, Bilokurov têm diversas cicatrizes na cabeça, são marcas de espancamento com as coronhas de armas, muito possivelmente este espancamento poderia levar à perda parcial da memória (o ex-militar não se lembrava do seu nome ucraniano, apenas dizia que vem da região de Volyn).
“Mas quando mais trabalhamos com ele, maior é a certeza que realmente é Ihor Bilokurov”, – disse Kunitsin. O deputado também explicou que o veterano entregou os seus cabelos para que Ucrânia faça a análise do ADN. No entanto, ele possui os sinais particulares, que foram apontadas pela mãe do Ihor Bilokurov, ainda à espera do filho na Ucrânia.

“Neste momento Ihor Bilokurov vive numa aldeia, é pai de cinco filhos e dono de algumas lojas [uma espécie de cantinas]. Ele se esqueceu da língua ucraniana (embora possivelmente procedeu assim por questões de segurança pessoal), se expressa em farsi e atualmente participa nas operações militares do governo afegão contra o movimento Taliban”, – contou o deputado ucraniano que também disse que Ihor quer visitar Ucrânia e ver a sua mãe Antonina, que após 20 anos de espera, construiu um túmulo simbólico em memória do filho, na sua aldeia natal de Nova Glusha na região ucraniana de Volyn.
Antonina junto ao túmulo simbólico do filho
Neste momento Ucrânia está tratar as questões da emissão de visto e dos documentos ucranianos para Ihor Bilokurov, pois juridicamente ele é cidadão da União Soviética, o país que deixou de existir desde 1991. Para sobreviver, Ihor Bilokurov, aderiu à fé islâmica, mudou o nome ao Amriddin. Apesar disso, sendo ucraniano nascido na Ucrânia, o estado ucraniano fará todos os possíveis para levar o ex-militar à sua terra natal.

O ex-militar foi achado no Afeganistão por membros de uma expedição ucraniana, que estava na procura de lençóis de água. Num dos assentamentos eles viram o homem que foi chamado de “shuravi”, ex-militar do exército soviético. Já ele próprio contou que foi capturado no Afeganistão, aceitou o Islão e ficou à viver no país. Mais tarde se soube que se trata de ucraniano Ihor Bilokurov, ele foi reconhecido pelos moradores da sua aldeia natal de Volyn.

A região ucraniana de Volyn conta com apenas três militares “desaparecidos em combate” no Afeganistão: a morte de um deles já foi confirmada, outro desapareceu numa região localizada longe do Kandagar.

O caso do Gennady Tsevma
Gennadiy Tsevma “Niqmohamat”
Ucraniano Gennady Tsevma, de Amvrosiivka, na região de Donetsk, com apenas 18 anos, na primavera de 1983 foi chamado à cumprir o seu “dever internacionalista” no Afeganistão e quase imediatamente foi capturado pela resistência afegã (“bebi, e sai do quartel para ir ver a liturgia islâmica, namaz”, conta ele com um sorriso triste), passando seis anos no cativeiro, foi forçado aderir ao islão e lutar contra as tropas soviéticas. 
Gennadiy Tsevma, o jovem recruta, 1983
Gennadiy Tsevma com o seu pai em 1992 no Afeganistão, a 1ª tentativa de voltar
Se converteu ao islão a adotou o nome de Niqmohamat; hoje mora em Kunduz com sua esposa e tem quatro filhos (no vídeo em baixo, Gennadiy Tsevma encontra o seu irmão, que viajou para o Afeganistão, 30 anos depois da separação):

Em 2012 Gennadiy Tsevma finalmente viajou para Ucrânia, onde encontrou a sua irmã, irmão, tia, ambos os seus pais tinham morrido, sem mais ver o filho, ele viveu apenas 18 anos na Ucrânia e quase 30 no Afeganistão. 
Gennadiy Tsevma “Niqmohamat” com outro POW ucraniano, Olexander Levenets “Ahmet”, natural de Luhansk
No cemitério local Gennadiy visitou os túmulos dos seus pais, prometendo à mãe que iria à visitar anualmente. Em menos de dois anos depois a sua região natal também conheceu a guerra, Amvrosiivka foi ocupada pelas forças russo-terroristas...

Ver o filme documental “Último shuravi” (2013):

terça-feira, junho 05, 2018

Piloto soviético achado no Afeganistão: no mínimo quatro nomes possíveis

No Afeganistão foi encontrado vivo o piloto militar soviético, desaparecido em combate na década de 1980. A informação surgiu graças aos militares americanos, no âmbito da comissão mista americano-russa dos POW e MIA. 
Esquadrão dos MiG-17 soviéticos no Afeganistão, década de 1980, Kandahar (?)
foto: RR
O nome do piloto não foi mencionado publicamente, alegadamente por questões de privacidade. Agência russa TASS considera que o piloto é Alexander Mironov. O seu MiG-21R foi abatido em 13 de agosto de 1982 nos arredores de Cabul, o seu corpo nunca foi encontrado.
Esquadrão dos MiG-17 soviéticos no Afeganistão, Kandahar, 5/02/1980
foto © theatlantic.com / TASS
Quatro aviões militares soviéticos estavam bombardear as posições da resistência anticomunista afegã à uma distância de apenas 35 km da capital Cabul, quando o MiG-21R do Mironov explodiu, colidindo com a terra. Os helicópteros soviéticos do serviço do resgate (PSO), começaram bombardear o local da queda de aparelho, alegadamente para impedir a captura do piloto, na realidade para impedir que o piloto seja capturado vivo. Um dos aparelhos aterrou e os militares soviéticos acharam o assento de ejeção ensanguentado, mas vazio, com cintos de segurança cortados. Isso indicava que o piloto foi ferido, mas poderia sobreviver. 
Pilotos soviéticos no Afeganistão | foto TASS
O comando soviético tentou contactar os representantes dos mujahedines, mas sem sucesso. Alguns meses mais tarde, já em 1983, a imprensa paquistanesa publicou um artigo com a fotografia de um piloto soviético, que alegadamente se entregou à resistência. Os oficiais do KGB interrogaram um dos colegas que conhecia bem Mironov, para a sua identificação, mas este negou categoricamente que esta estava na foto.
Helicóptero soviético abatido no Afeganistão | foto RR
Outro piloto soviético, de facto, desaparecido no Afeganistão, era o chefe de inteligência do 378º Regimento Separado de Aviação de Assalto, capitão Alexander Plyusnin (1955). O seu avião foi atingido por um mandpad (possivelmente FIM-92 Stinger) em 26 de dezembro de 1987, à noite, nos arredores da localidade de Abdibay, na província de Parwan. O piloto foi dado como morto. O seu avião caiu à uma distância de seis quilómetros do aeródromo, mas ninguém viu o momento da morte do capitão, nem o seu corpo foi encontrado, já que o território era rigidamente controlado pela resistência afegã [fonte].
Afegão com um manpad FIM-92 Stinger
O piloto achado também pode ser o capitão Vitaly Lishenkov, cujo Su-17, pertencente ao 217º Regimento de aviação de bombardeiros (baseado no aeródromo de Shindand), não voltou de uma missão de combate em 8 de setembro de 1981. As circunstâncias do caso nunca foram esclarecidas, não existe nenhuma informação sobre o destino do piloto [fonte]. 

POW soviéticos no Afeganistão, a primeira imagém é do moldovo Leonid Vilcu “Azizullah” e 2º homem no depoimento é ucraniano Victor Nazarov “Mohhamd Islam” de Mariupol (voltou à Ucrânia independente 9 anos após a sua captura, em 1993):

O jornal russo Kommersant pensa que o piloto é Sergey Pantelyuk — único piloto soviético que oficialmente é tido como desaparecido em combate em 1987.
Ucraniano étnico, Pantelyuk nasceu em 19 de agosto de 1962 na cidade russa de Zelenograd, nos arredores de Rostov-no-Don. Era filho da gente pobre, pai era operário, mãe trabalhava numa cantina.

No 4º ano da academia, ele foi transferido para o grupo de inteligência tática – fotografia aérea dos campos de batalha. Em maio de 1987 ele foi colocado no Afeganistão, no 263º Esquadrão separado de reconhecimento aéreo. A sua esposa Irina estava grávida no 7º mês de gestação.

Pertencentes à elite do exército soviético, os pilotos oficiais viviam em condições melhores de que simples soldados da infantaria: «Temporariamente vivemos no prédio, quando os colegas vão embora – vamos morar em módulos. Lá há geleiras/geladeiras, e televisores, e rádio-gravadores e até mesmo o ar condicionado. Em suma, se pode viver, servir também. Hoje recebemos os macacões/fatos-macacos.…»


Até o seu desaparecimento em 28 de outubro de 1987 Pantelyuk efetuou 118 missões de combate. Naquele dia, após o tempo piorar, ele e o seu par receberam a ordem de retornar a base. Logo depois, o seu Su-17 desapareceu do radar, algures na província de Kunar; o rádio também não funcionou. O avião nunca foi encontrado, as suas fotos foram entregues aos agentes de contra-inteligência afegã, inseridos nas unidades dos mujahedines, mas essas buscas também não resultaram em nada.
Livro russo sobre Afeganistão, com artigo dedicado ao Pantelyuk
A sua mãe ainda está viva, agora com 80 anos ela continua à espera do filho. Sua filha Larissa, agora tem 31 anos, a sua esposa Irina nunca mais se casou, o assunto do desaparecimento do marido e pai era tabu até Larissa completar os 16 anos.

Pelos dados oficiais, entre 1979 à 1989, pelo Afeganistão passaram quase 620.000 soldados e oficiais soviéticos, mais de 15.000 deles morreram, a força aérea soviética perdeu no conflito 125 aparelhos, entre aviões e helicópteros.
Os mujahedines da «Sociedade Islâmica do Afeganistão» com a metralhadora pesada soviética
DShK, Afeganistão, 1987. Foto: Commons.wikimedia.org/ Erwin Franzen
Os números dos MIA soviéticos são avaliados entre cerca de 300 (29-27 deles ainda estão vivos, 22 deles retornaram ao espaço pós-soviético) e apenas 54 ex-militares. Alguns POW soviéticos foram levados do Afeganistão para as zonas tribais do Paquistão. Em abril de 1985, um grupo de militares soviéticos (cerca de 13-15) e afegãos (cerca de 40) participaram na revolta de Badaber, que terminou com a morte dos militares revoltosos. Um dos líderes da revolta foi soldado sob contrato, ucraniano Nikolai/Mykola “Abdurahman” Shevchenko (1956), morto em resultado de explosão de um armazém de munições.   
Alguns dos ex-militares soviéticos passaram ao islão e se casaram (alguns têm mais que uma esposa). Muitos desertaram por causa de dedovshina, outros, fugido do exército soviético, “causaram estragos”. Eles permaneceram no Afeganistão, temendo processos criminais.
POW´s para sempre
O fotógrafo russo Alexei Nikolaev, tentou, em 2015 arrecadar os fundos através do crowdfunding, para publicar um documentário fotográfico sobre ex-militares soviéticos que se tornaram POW no Afeganistão. Ele encontrou vários homens no Afeganistão que decidiram não retornar, primeiro à URSS e depois ao espaço pós-soviético. Um deles fugiu da sua unidade em 1985 e foi capturado pelos mujahedines. Logo se casou com uma moça local – e ainda hoje vive na mesma aldeia.
Ucraniano Gennady Tsevma, de Donetsk, foi capturado em 1983 e passou seis anos no cativeiro afegão, foi forçado à lutar contra as tropas soviéticas. Ele se converteu ao islão a adotou o nome de Negmamad; mora em Kunduz com sua esposa e tem quatro filhos (no vídeo em baixo, Gennadiy Tsevma encontra o seu irmão, que viajou para o Afeganistão, 30 anos depois da separação):
Finalmente, em 2013, Gennadiy Tsevma viajou para Ucrânia, onde encontrou a sua família, irmã, tia, mas já não conseguiu ver a sua mãe que durante vários anos esperava pelo filho...
Faça click para ver vídeo
Uzbeque Bahretdin Khakimov de Samarkand foi capturado em 1980, gravemente ferido na cabeça. Os afegãos o salvaram, hoje ele vive no museu da jihad afegão [fonte].

No total, de acordo com os dados OSINT, entre 1979 e 1989, a força aérea soviética perdeu no Afeganistão 125 aeronaves: 36 aparelhos Su-25; 34 caças-bombardeiros Su-17 (um dos regimentos Su-17 estava estacionado em Shindand), 21 caças MiG-21.
Aviões soviéticos no céu sobre Cabul, 1987 © Valery Zufarov, Boris Kavashkin / TASS
O Estatuto de serviço interno das Forças Armadas da URSS (aprovado por Decreto do Presídio do Soviete Supremo da URSS de 30 de julho de 1975; com adendas e modificações em 01.08.1977; 13.04.1979; 16.10.1980; 24.12.1980 e 26.04.1984), diz no seu artigo 1º:

OS MILITARES E AS RELAÇÕES ENTRE ELES
Deveres gerais dos militares
3. [...] Ele é obrigado a cumprir o seu dever militar para com a Pátria Soviética até o fim. Nada, incluindo a ameaça de morte, deverá fazer um militar das Forças Armadas da URSS se render.
A traição à Pátria é o crime mais grave diante do povo soviético [fonte].

Talvez este ponto explica, de forma suficientemente clara, a razão porque tantos militares soviéticos não tinham nenhuma pressa de regressar à “pátria socialista”, preferindo a morte ou a vida do exílio forçado e quase eterno, que em alguns casos já dura mais de 30 anos...

sábado, maio 26, 2018

Retornado do Afeganistão: as memórias de um combatente soviético

O belaruso Aliaksandr Goshtuk serviu no Afeganistão em 1982-84, numa unidade de spetsnaz, como dizia a propaganda soviética “no contingente limitado dos internacionalistas soviéticos” que ajudavam a República Democrática do Afeganistão (RDA).

A primeira coisa que Aliaksander pediu na entrevista, é para que não se fale de nenhumas “bravuras”, nem “heroísmos” daquela guerra, mas das coisas que realmente aconteciam. Na verdade, o ex-comando soviético Aliaksander, mais uma vez confirmou a ideia de que a aventura afegã era uma guerra desnecessária – tanto aos afegãos, que perderam quase um milhão de pessoas [e tiveram cerca de 5 milhões de deslocados], e para as mães soviéticas, muitas das quais perderam lá os seus filhos. Uma aventura de um governo de velhos, fora de qualquer controlo da sociedade e fora da escolha popular.

Chegada ao Afeganistão

– Aliaksandr, como você parou no Afeganistão?

Quando chegou a hora de servir no exército, foi convidado pelo comissariado militar aos cursos da sociedade DOSAAF para fazer alguns saltos de para-quedas, saltei três vezes. Não tinha um desejo especial de servir nas forças aerotransportadas, mas percebi que eles me preparavam para isso. Na chamada militar, ainda em Belarus, eu e mais 8 rapazes foram designados ao Afeganistão. Mais tarde entrei nas forças especiais, outros dois – no batalhão para-quedista de assalto (DShB), ambos morreram...
De Belarus fomos enviados ao Chirchiq nos arredores de Tachkent, no Uzbequistão – no caminho soube que iríamos ao Afeganistão. O Chirchik estava estacionada a Brigada de Forças Especiais, que incluiu o famoso “batalhão muçulmano”, que em 1979 atacou o palácio de Amin – lá serviam principalmente tajiques e uzbeques, e em 1982 foram enviados para lá cerca de 120 recrutas eslavos, eu era um deles.

— Em Chirchik vocês receberam algum treino?

Tivemos apenas a formação padrão de jovem recruta com duração de um mês – disparamos um bocado, corremos, aprendemos “liquidar o vigia”, tivemos as corridas de cross-country de oito quilómetros para o polígono e de volta. Os sargentos tiveram que correr um pouco mais – voltavam periodicamente ao final da coluna e davam os pontapés nos traseiros dos mais atrasados.

Não nos ensinaram as especialidades militares – de franco-atiradores, operadores de metralhadoras ou morteiros. Mas participamos na colheita local, descarregávamos os vagões com água mineral, trabalhávamos num talho industrial... Foi chamado à tropa em 20 de março [de 1982] e já aos 12 de junho, após toda essa “aprendizagem” foi enviado ao Afeganistão.

Nem sequer prestei o juramento militar. Antes da partida para o Afeganistão, o batalhão fez o juramento, mas queriam me deixar na União Soviética, porque eu tinha carta de condução / carteira de motorista, assim não prestei o juramento. No último momento, na URSS ficou alguém com “boas conexões” e eu fui novamente enviado ao batalhão. Ao prestar o juramento, alguém, aparentemente, assinou por mim.

Primeiros meses no Afeganistão

Ao chegar ao Afeganistão – a primeira coisa que vi – eram veteranos, indo pela pista de aeródromo até os helicópteros. Chegando mais perto, ouvimos – “se enforquem, novatos”. Depois da primeira noite, foi difícil abrir os olhos – todo o rosto estava coberto com a fina poeira afegã.
Foi colocado no 6º pelotão, unidade mecânica, mas não fiquei lá por muito tempo. Participei em algumas operações militares. Lembro-me de um episódio, nós, forças especiais, estávamos levar um camião/caminhão cisterna afegão, alguém correu, todos começaram a atirar. Eu também atirei. Puxei a trava de segurança mais forte do que era necessário – e coloquei meu AK no regime de tiro simples. Durante muito tempo não conseguia entender por que todo mundo estava atirando com rajadas e eu disparava tiros esporádicos.

Algum camponês em roupas afegãs subiu ao muro da aldeia e o nosso operador de rádio o atingiu com o fogo de metralhadora. Aparentemente, acertou nos pulmões – saiu a espuma cor-de-rosa. Então, eu completamente me desinteressei dessa guerra, tinha pensamentos sobre o que estava fazendo aqui. Nosso alferes acenou para o operador, e ele acabou por abater o homem – então eu me “desliguei” totalmente, cabeça começou a girar e passei mau. O homem afegão, à propósito, provavelmente era um civil não combatente...

— No seu pelotão havia gente que gostava matar as pessoas, os afegãos?

Não conheci nenhum que gostava de matar, acho que é algum tipo de patologia, nós não os tivemos. Num episódio os membros do KHAD (secreta comunista afegã) capturaram os prisioneiros e disseram-nos para os fuzilar – não houve um único que quisesse, nós não faríamos o tal absurdo. Os prisioneiros foram entregues aos responsáveis, só isso.
Após a unidade mecânica entrei na unidade paramédica – também aconteceu por acaso. Eu disse que não entendo disso, que tenho medo de sangue – me responderam que não era nada, que irei aprender. Tudo era assim... O operador da metralhadora era alguém culpado – recebia a metralhadora para carregar como um castigo, porque era pesada. Também não tínhamos os franco-atiradores – atirar para onde? Estávamos cercados pelas montanhas.

— Você próprio disparou contra as pessoas?
Disparei sim, mas para onde? Quando era visível em quem disparar – o melhor era não atirar. Apenas parece – somos lançados do helicóptero em grupo de 12 pessoas, marchamos carregados de munição, como os verdadeiros rangeres, mas quando somos alvo de fogo inimigo, saltamos/pulamos para a vala, para a lama, e pensamos – “Meu Deus, o que estou fazendo aqui?” Numa guerra real, os seis carregadores de AK na melhor das hipóteses chegam para meia hora de combate.

Os horrores da guerra afegã

Num dos primeiros dias de serviço como paramédico, foi enviado para lavar o corpo do soldado morto, de apelido/sobrenome Shapovalov, ele levou um tiro sob a clavícula – eu tinha que lavar o corpo, amarrar a mandíbula, para a boca não se abrir e dobrar as mãos corretamente. Comecei a lavá-lo, o virei – nas costas havia uma bolha do sangue coagulado. A ferida verteu mas algum sangue, eu tremia todo...
Mais tarde você se acostuma com essas coisas, uma vez me trouxeram doze pessoas que se pisaram o nosso próprio campo minado – uma mistura de ossos... E você simplesmente faz o seu trabalho. Porque se não for você – quem o fará? Depois de Afgan achavam que eu deveria entrar na medicina – respondi que não, tinha medo de sangue.

A escritora belarusa Svetlana Alexievich, no seu livro Rapazes de Zinco descreve como nos caixões de zinco, muitas vezes, para a União Soviética era enviada simplesmente a terra no lugar de corpos, você testemunhou algo assim?
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É possível. Nós tínhamos um necrotério no aeroporto – não havia geleiras/galadeiras, apenas um abrigo na terra. Entravam lá os mangustos e roíam os corpos... Além disso, o calor era muitas vezes superior aos +50ºC – até à União Soviética chegava uma papa/mingau. Conheço apenas um caso quando o tradutor do comandante do batalhão foi enterrado como mandam as regras – ele levou um tiro na testa em Aybak (antiga Samangan), especialmente para ele foi encomendado gelo, ele estava vestido em um fardamento de desfile...

No Afeganistão, fiquei doente com febre tifóide e icterícia. Eu peguei icterícia, aparentemente, no decorrer de uma operação militar – estava num MTLB (rebocador blindado leve, armado e com lagartas) como operador de metralhadora, percebi que os meus olhos se tornaram amarelados. E assim não foi chamado para uma próxima incursão. Eu pergunto – “então quem estará com a metralhadora?” —  não há problema”, – me responderam, – “vais ensinar um jovem”.
O meu MTLB explodiu naquela incursão, pisando um obus – a torre onde eu deveria estar, voou por cerca de 200 metros. Apenas um soldado, com alcunha de “Tártaro”, sobreviveu – ficou vivo, mas perdeu um pé – cortado pela própria blindagem da viatura atingida. Para retirar o nosso cirurgião que estava lá, MTLB caiu-lhe em cima, tiveram que reunir os “macacos” de toda a coluna.

Após saber da notícia – fiquei absolutamente “abatido”, com uma temperatura de +40ºC entrei no hospital em Pol-e Khomri. Me propuseram ficar lá, mas pedi para voltar – eu era para-quedista, membro das forças especiais. Naquela época, isso me parecia algo importante...

— Vocês tiveram os casos dos militares que se feriam propositadamente?

Sim, houve casos, muitos ficavam com medo. Tivemos um moscovita, com apelido/sobrenome Pevtsov, era considerado “filho do papai”, ninguém gostava dele. Ele disparou com AK no seu estômago – queria provocar a ferida leve e passar à reserva, mas atingiu o próprio fígado e morreu. Outro se suicidou em Jalalabad – a rajada de três munições na cabeça, não aguentou o serviço. Outro moscovita bebeu urina icterícia e passou à reserva – não participava nas missões, mas escrevia aos seus pais as estórias do tipo: “Estou escrevendo-vos essa carta numa trincheira, por cima de um capacete, seguro nas minhas mãos o último carregador...” Normalmente, escrevíamos aos nossos pais que estamos passear todos os dias e não fazíamos nada de especial.

A vida do spetsnaz soviético

No quartel improvisado da nossa unidade vivíamos em construções feitas por nós mesmos – cavamos o solo num metro de profundidade, surgiu algo parecido com um abrigo. Depois fizemos a fundação, erguemos as paredes, usando adobe, por cima colocamos a lona. No interior, havia beliches em que dormíamos. As paredes de adobe poderiam aguentar o fogo de armas ligeiras, mas isso nunca aconteceu, não deixávamos ninguém se aproximar – mesmo se aparecesse algum pastor à um quilómetro da distância, imediatamente era alvo de fogo direto até que apague o seu fogareiro.
No quartel tínhamos uma cantina – mas após um ano de serviço, ninguém comia lá, só levávamos lá o pão. Na tenda, usando o fogão feito de um tambor, preparávamos aquilo que era possível de arranhar, fritávamos as nossas batatas. Na cantina comiam apenas os “novatos” – na sopa aguada se afogava uma centena de moscas até que a levas à mesa. Nossa unidade também tinha cozinhas de campo próprias e uma padaria, nas proximidades funcionava um bazarinho local – lá vendiam o leite condensado, biscoitos e limonada em lata [o produto absolutamente inexistente na União Soviética, onde todos os refrescos eram produzidos em garrafas 0,33 – 0,5 L].

Na questão de fardamento estávamos razoavelmente bem, usávamos os padrões soviéticos “areia” e “químico” – os fardamentos camuflados de malha, de kit de proteção química, eram confortáveis no clima quente. Tínhamos os coletes à prova de bala, mas ninguém os usava – era muito quente. Nem usávamos os capacetes, exceto nas operações nas montanhas – por causa do perigo de pedras. Não usávamos os cintos de cabedal/couro, tentamos obter os de construção civil, de lona – estes não se esticavam, carregados de bolsas pesadas.

Como calçado usávamos sapatilhas/tênis – os “arranjávamos” nas batalhas, ou comprávamos ali mesmo, no bazarinho. Praticamente não tivemos os coletes de descarga – usávamos coletes de natação, tirávamos de lá polietileno e metíamos os carregadores de AK.

Absolutamente mal estávamos com medicamentos – basicamente, tudo que usávamos eram troféus. Apanhamos muitos medicamentos de troféu [no decorrer dos combates] no desfiladeiro de Marmol – havia sistemas muito bons de soro e tudo o resto. Na União Soviética nada disso existia!

Todos usavam drogas no Afeganistão – não tínhamos nada para fazer entre as operações, acontecia que as pessoas fumavam droga as vezes até dez vezes ao dia. Em Aybak se usava anasha [calão soviético genérico para canábis sativa e haxixe], e as unidades que ficaram em Cabul – a heroína mais pura.

Vocês tiveram o assim chamado dedovshina [sistema de abusos e bullying, perpetuado pelos soldados veteranos]?

Dizer que em Afeganistão existiu o dedovshina é não dizer nada, em Aybak tudo era executado à correr – se um novato apenas caminhava – ele apanhava dos “avós” (veteranos). Se um veterano mandava buscar uma peça de pão – você poderia sair de manha e voltar só à noite, no caminho alguém o iria interceptar – “oi, novato, estas muito folgado, faz isso e mais aquilo”... Voávamos como os diabos! Numa incursão de combate – você estaria colado ao “seu” veterano, mas dentro da unidade era assim.

Todos pediam para ir às operações de combate – na unidade não havia nada para fazer, era um tédio, na operação se podia “arranjar” alguma coisa.

Vocês tiveram alguma “preparação política”? Os vice-comandantes políticos (zampolit, uma espécie de comissário político do exército soviético) tentavam vos endoutrinar?

Não, praticamente não tivemos coisas deste tipo. Oficial da secreta militar e zampolit corriam principalmente à cheirar o ár para ver quem é que fuma a maconha. Pessoalmente, eu nunca teve nenhum “sentimento de dever internacionalista”.

A vida depois
Fiquei no Afeganistão por mais de dois anos – falei com vários veteranos, ninguém ficou mais tempo. Do Afeganistão voltei em 1984, na época, ainda tentavam ocultar a guerra de todas as maneiras possíveis – recebi um documento chamado Certificado de direito aos benefícios, sem quaisquer pormenores. Nos jornais, na imprensa e na TV não se dizia uma única palavra – como se nos nunca estivéssemos lá.

Quando voltei para casa, os primeiros meses tudo era muito estranho, sentia até raiva das pessoas, do tipo, “vocês – aqui, e nós – lá”... Mas isso rapidamente me passou. Todas essas histórias que as pessoas sentem muita dificuldade em se adaptar – muitas vezes são alguns estereótipos, que passam do veterano ao veterano. Aquele que se perdeu na bebida – o mais provavelmente se teria perdido sem passar pelo Afeganistão, apenas estava para ai virado.
Eu não vós mandei ao Afeganistão...
Cartoon soviético da época de Perestroika, 1987 (?)
Na década de 1980 fui trabalhar na polícia, em 1986, trabalhei em Chornobyl, depois entrei na polícia de choque, OMON, que então tinha apenas sido criado – era muito legal e interessante, uma nova unidade de combate contra os criminosos, pensei – mesmo à calhar para mim! Mas depois eu saí de lá – e mesmo sendo um ateu, dou graças ao Deus por não me meter no atual OMON, que surgiu depois de 1994, após a dissolução do Conselho Supremo [da Belarus].

— O que você pensa sobre os veteranos do Afeganistão?

Assisti um par de vezes o dia das forças aerotransportadas (VDV), mas rapidamente foi embora. Infelizmente, a maioria dos ex-veteranos do Afeganistão sentem a nostalgia pela URSS – na verdade, eles são realmente nostálgicos pela sua juventude, depois da qual não fizeram nada de excepcional. Para meu grande pesar, muitos dos ex-veteranos [da Belarus] agora estão na Donbas, lutando pelas repúblicas autoproclamadas – até os entendo de alguma forma. As pessoas vivem em algum cú distante e vão para a Donbas para lutar contra a rotina da sua vida, são os alcoólatras de ontem que, de repente, querem ser heróis. Da mesma forma, como em Afgan queríamos ir às operações de combate – dentro da unidade reinava dedovshina e um tédio mortal...

— O que você faz agora?

Eu tenho uma boa família, trabalho num dos serviços do táxi de Minsk, ganho bem, sou um capataz. Conduzo um Toyota híbrido – sigo a tecnologia, estou interessado em todas as novidades, o meu próximo carro será elétrico) Tento não me recordar da guerra, ocasionalmente assisto os filmes militares. Bons filmes sobre a guerra são aqueles, assistindo quais, você nunca terá o desejo de ir à guerra.

— A última pergunta. Será que o Afeganistão e tudo o que aconteceu lá de alguma forma influenciou a formação de suas convicções democráticas?

Para ser sincero – não sei. Afeganistão e tudo o que aconteceu comigo lá – foi em alguma infância distante.

Texto e fotos atuais Maxim Mirovich