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terça-feira, março 25, 2025

Os militares portugueses ao serviço da propaganda do Kremlin

Do serviço militar ao servilismo ideológico: como dois militares portugueses reformados, major-general Agostinho Costa e o major-general Carlos Branco se tornaram marionetas do Kremlin e do seu esforço propagandístico na Europa. 

Texto de Artur Gomes, o título geral é de responsabilidade do nosso blogue 

«Se há algo mais perigoso do que um ignorante, é um ignorante com megafone. E em Portugal, infelizmente, existem dois majores-generais reformados que, em vez de honrarem a farda que vestiram, optaram por transformar-se em fantoches de narrativas duvidosas, mestres da desinformação e inimigos confessos da verdade. 

O major-general Agostinho Costa e o major-general Carlos Branco são hoje símbolos vivos da degradação do comentário militar no espaço público. 

O que fazem não é análise, é propaganda disfarçada de opinião, uma mancha no debate público e um insulto à inteligência de quem os ouve. Estes dois “cavalheiros” são um risco real para a qualidade da informação e para a compreensão que os portugueses deveriam ter sobre assuntos de defesa e geopolítica. 

A ascensão de Agostinho Costa como “especialista” da guerra na Ucrânia é um caso de estudo em oportunismo e incompetência. O seu discurso é uma miscelânea de desinformação, argumentos falaciosos e uma impressionante subserviência às narrativas do Kremlin.

Desde os primeiros dias da invasão russa, Costa assumiu uma posição que pode ser descrita como tudo menos isenta. Sempre pronto a relativizar os crimes de guerra russos, minimizar os massacres em Bucha ou desacreditar a resistência ucraniana, o general tornou-se uma voz notoriamente enviesada, a ponto de alguns o acusarem, com razão, de atuar como um propagandista disfarçado de analista. 

Se fosse apenas uma questão de opinião, ainda poderíamos enquadrar as suas declarações como um exercício de liberdade de expressão. Mas a questão é que as suas análises são recheadas de erros factuais, imprecisões históricas e um desdém pela realidade que beira o criminoso.

Um exemplo gritante ocorreu quando, contra todas as evidências, Costa sugeriu que os ucranianos estavam a encenar massacres para culpar a Rússia, ecoando as teorias conspiratórias do Kremlin.

Este tipo de retórica não é apenas antiética – é perigosa. Contribui para confundir o público e dar argumentos àqueles que querem relativizar os horrores da guerra. 

E depois há a sua conduta pessoal, que espelha perfeitamente a falta de caráter que exibe na televisão. O episódio vergonhoso na CNN Portugal, onde insultou de forma grosseira e gratuita a analista Helena Ferro Gouveia nos bastidores, é uma amostra perfeita do seu temperamento tóxico. Incapaz de lidar com o contraditório, incapaz de sustentar as suas posições quando confrontado com factos, Costa refugia-se na grosseria e no insulto.

Um homem que se comporta desta maneira não merece espaço no comentário público, quanto mais ser tratado como uma autoridade em geopolítica. 

Mas este não foi um caso isolado. Agostinho Costa já protagonizou outros episódios que evidenciam a sua falta de ética e integridade. Durante várias aparições televisivas, tem mostrado uma postura de desprezo por qualquer opinião contrária, interrompendo colegas de painel e usando um tom condescendente, como se fosse o único detentor da verdade.

Para Costa, qualquer visão diferente da sua não é apenas errada – é ridicularizada, desqualificada e tratada como se fosse irrelevante. Esta atitude não é apenas arrogante; é uma forma de silenciar e desinformar. 

A influência de Costa no circuito da desinformação é tão evidente que foi incluído no Vatnik Soup, uma base de dados que expõe indivíduos que promovem narrativas pró-russas e desinformação alinhada com os interesses do Kremlin.

Esta lista, compilada pelo analista finlandês Pekka Kallioniemi, identifica agentes de propaganda e apologistas da Rússia, deixando claro que Costa não é um mero comentador excêntrico, mas sim um elemento ativo no jogo da manipulação informativa. 

Se Agostinho Costa é um problema, Carlos Branco não lhe fica atrás. Branco tem um currículo de serviço militar que, no papel, lhe daria legitimidade para falar sobre geopolítica.

Mas o que faz com essa credibilidade? Usa-a para distorcer a história e espalhar teses revisionistas perigosas. A sua tentativa de reescrever a história do genocídio nos Balcãs é um insulto à memória das vítimas e um atentado contra a verdade.

No seu livro «A Guerra nos Balcãs: Jihadismo, Geopolítica e Desinformação», Branco tenta inverter a narrativa de Srebrenica, sugerindo que o verdadeiro genocídio ocorreu na Krajina e não no massacre reconhecido internacionalmente como um dos maiores crimes de guerra da história recente.

Esta posição não é apenas controversa – é irresponsável. É um ato deliberado de desinformação, um exercício de manipulação que coloca Branco na mesma categoria daqueles que negam genocídios e tentam justificar atrocidades históricas.

Além disso, a sua ligação ao Valdai Club, um 'think tank' russo conhecido por promover as políticas do Kremlin, levanta sérias questões sobre a sua imparcialidade. Ser membro deste clube implica uma proximidade ideológica com a narrativa russa, o que compromete a sua credibilidade como analista independente.

A presença de Branco neste círculo coloca-o ao lado de figuras que servem de peões estratégicos do Kremlin, e a sua participação nestas redes de influência deveria ser analisada com muito maior escrutínio. 

Porque é que os media portugueses continuam a amplificar estas figuras? A responsabilidade da comunicação social é imensa. Não basta dar tempo de antena a qualquer ex-militar que aparece com um palpite sobre geopolítica. O jornalismo sério deve filtrar as vozes que merecem ser ouvidas e eliminar os charlatões. O problema não é apenas a incompetência de Costa e Branco – é a irresponsabilidade dos media em continuar a dar-lhes palco. 

É tempo de os portugueses exigirem melhor. É tempo de recusar a mediocridade e a desinformação disfarçada de análise. O país precisa de especialistas sérios, rigorosos e comprometidos com a verdade.

O que não precisa é de generais reformados que trocaram a honra pela propaganda, a verdade pela conveniência e a seriedade pela farsa. 

Agostinho Costa e Carlos Branco não são analistas – são farsantes. São um embaraço para as Forças Armadas, uma nódoa na credibilidade do comentário militar e um cancro no debate público. E quanto mais cedo saírem da televisão nacional, melhor será para a informação, para o país e para a dignidade dos verdadeiros especialistas.»

quinta-feira, janeiro 02, 2025

A guerra híbrida russa na Europa: desafios e contramedidas

O analista militar dinamarquês Anders Nielsen aborda a questão de novos ataques híbridos russos no Mar Báltico. O resumo dos seus pontos mais importantes:

• Os russos utilizaram recentemente a âncora do petroleiro Eagle S para cortar as comunicações subaquáticas entre a Finlândia e a Estónia. Este é já o terceiro caso deste tipo de ações em pouco mais de um ano, sendo que o anterior aconteceu apenas um mês antes do último. São atos de guerra híbrida — ações hostis que se situam abaixo do limiar da guerra aberta. Os russos estão a travar muitos outros actos de guerra híbrida na Europa — incêndios criminosos, ataques cibernéticos, operações de informação e psicológicas, houve mesmo uma tentativa de homicídio.

• O objetivo dos russos é intimidar os europeus, fazê-los sentir-se vulneráveis ​​e exigir proteção do Estado. Isto poderia reduzir o apoio à Ucrânia, uma vez que os recursos militares seriam gastos na protecção da população da UE em vez de serem transferidos para Ucrânia. Os governos ocidentais mantiveram-se deliberadamente em silêncio sobre estes ataques, impedindo os russos de utilizar o efeito dos media para semear o medo.

• Quanto mais próxima a guerra estiver do congelamento e quanto pior se tornar a situação para os russos, mais intensamente se envolverão em sabotagem na Europa. As roturas de cabos são provavelmente uma expressão desta intensificação. Em geral, é difícil monitorizar o mar — as pessoas comuns exageram frequentemente o grau de controlo sobre o mar. Os grandes navios mercantes são relativamente fáceis de seguir, mas os navios mais pequenos, como os iates, passam praticamente despercebidos. Os navios de guerra também não ligam os transponders e devem ser monitorizados diretamente. As comunicações subaquáticas estendem-se por milhares de quilómetros. Mesmo os países com grandes frotas não conseguem monitorizar toda a sua infraestrutura.

• Assim, é impossível proteger todas as infraestruturas, sendo necessário tomar outros caminhos: dificultar ao máximo a sabotagem dos russos e também tornar as consequências mínimas. Para minimizar as consequências, Nielsen aconselha a seguir o exemplo dos ucranianos: são muito bons a reparar infraestruturas danificadas, o que permite que a sociedade continue a funcionar apesar dos poderosos ataques de mísseis russos.

• Ao mesmo tempo, é muito importante que a Finlândia tenha detido o petroleiro e aberto um processo-crime. Os russos estão a recrutar capitães de navios para interromper as comunicações, provavelmente prometendo-lhes muito dinheiro por tal sabotagem. Se mostrarmos que, em vez de dinheiro, este capitão pode passar um tempo considerável na prisão, o número de pessoas dispostas a ganhar dinheiro extra desta forma irá diminuir, complicando a procura de agentes para novas sabotagens.

• De uma forma ou de outra, a guerra híbrida dos russos contra a Europa pode muito bem começar a entrar numa nova fase. E, como resultado, a reacção da Europa pode mudar para uma resposta mais robusta. E de uma forma ou de outra, precisamos de nos preparar para isso.

domingo, agosto 27, 2023

Neonazi e criminoso de guerra russo detido na Finlândia

Na Finlândia foi detido e preventivamente preso o neonazi e criminoso de guerra russo, um dos comandantes do bando DShRG «Rusich», Jan Petrovsky, que notabilizou-se pela tortura sádica e execução dos POW ucranianos. 

Jan Petrovsky (que também usa o nome de Voyslav Torden), nom de guerre «Slavyan», é o amigo e associado mais próximo de um outro conhecido neonazi russo, Alexei Milchakov. Juntos, eles torturaram e mataram os ucranianos na Ucrânia ocupada em 2014-16. Os líderes do bando «Rusich» eram camaradas de armas do brasileiro Rafael Lusvarghi, que se queixava, mais tarde, de ser chamado, juntamente com outros mercenários brasileiros de «macacos».

Milchakov (de capacete) e Petrovsky (de óculos) na Ucrânia ocupada, 2014

Sabe-se que desde 2004 Petrovsky/Torden vivia na Noruega, devido ao casamento da sua mãe. Em 2014-2016 ele participou na agressão militar contra Ucrânia, inserido na unidade neonazi russa «Rusich», afiliada com EMP «Wagner». Em 2022, após os ferimentos do líder do grupo, neonazi Alexey «Fritz» / «Serb» Milchakov, Jan Petrovsky assumiu o comando do unidade. Aparentemente, ele foi expulso da Noruega e detido na Finlândia, quando se preparava para voar à Nice. Após a sua detenção, Petrovsky/Torden tentou pedir, através do seu advogado o «asilo político» na Finlândia. 

Em 5 de setembro de 2014, bando «Rusich» sob o comando de Milchakov e Petrovsky organizou uma emboscada contra a coluna ucraniana de batalhão «Aydar» perto de Luhansk. Os POW ucranianos sobreviventes ao ataque foram torturados e mortos no local, os neonazis russos filmavam e fotografavam as atrocidades praticadas. Os vídeos já foram removidos da Internet, as fotos ainda podem ser encontradas. Milchakov e Petrovsky cortavam as orelhas aos ucranianos feridos, marcavam as suas faces com a imagem de suásticas, executando 6 prisioneiros com tiros na cabeça.

Por exemplo, na imagem do vídeo do canal propagandista russo Lifenews, é possível ver um soldado ucraniano ainda vivo, à quem os nazis russos cortaram na face o emblema do seu bando, a «suástica russa», famoso «kolovrat». Mais tarde, eles executaram este soldado, que se chamava Ivan Isyk.

Fragmento de uma conversa gravada em 2015 com os líderes do grupo neonazi «Rusich» Alexei Milchakov e Jan Petrovsky. Na conversa Petrovsky confessa que matou 6 prisioneiros de guerra ucranianos que foram capturados na batalha perto de Luhansk em 5 de setembro de 2014:

Fotos ainda mais horríveis foram postadas por Petrovsky e Milchakov de Debaltseve em 2015. Lá eles cortavam a pele dos rostos dos militares ucranianos capturados. Todas essas imagens são muito perturbadores, mas precisam de serem divulgadas para que fique muito claro quem exatamente foi preso na Finlândia.

@kazansky2017

Neste momento Ucrânia exige oficialmente a extradição do Jan Petrovsky, pela sua participação ativa nos crimes de guerra, cometidos na Ucrânia conta os cidadãos ucranianos. 

Escritório do PGR da Ucrânia ao Ministério da Justiça da Finlândia

Os próprios membros do bando neonazi já informaram, através do seu TG canal que se recusam de participar na guerra russa até que o seu «camarada» não seja libertado e entregue à rússia. 

Ultimato dos neonazis russos às autoridades russas:
«até que a situação ... não seja resolvida ... (entrega à rússia)
- «Rusich» para a execução de todas as tarefas de combate»

Por sua vez, aparentemente, a propaganda russa recebeu as ordens de se distanciar dos «nazis», afirmando literalmente que «participação nos combates não é uma indulgência ao nazismo» e que os membros do bando «não podem chantagear a pátria».

Propagandista russa 9 anos depois: «Participação nos combates na Donbas
desde 2014 não é indulgência ao nazismo».

Traidor Khodakovsky repara 9 anos depois: «difícil seguir a linha de denazificação
se alguém, nas próprias fileiras, exibe com orgulho a simbologia nazi».

O bando «Rusich» é notável pela ideologia nazi/neonazi dos seus membros. Nas suas páginas nas redes sociais a unidade advoga o extermínio total da Ucrânia e dos ucranianos, independentemente da sua idade ou gênero, incluindo as crianças. 

«matar todos os inimigos (não olhar ao género e idade)»

«Rusich»: «achamos que toda a população da Ucrânia (feminina desde 10 anos,
masculina desde 5 anos) não branca deve ser exterminada fisicamente»... «meninas... sejam entregues aos soldados russos em 2-3 unidades para cada...» 

O bando faz apologias ao estupro das ucranianas e à transformação das meninas ucranianas em escravas de procriação entregues aos «vencedores russos».  

Bónus

Nos arredores da vila de Kakhovka foi atingida a coluna logística dos ocupantes russos, pertencente à 205ª brigada separada de infantaria motorizada do exército russo. A mesma brigada que costuma reclamar o envio dos seus afetivos às ilhas do rio Dnipro, onde a unidade já perdeu bastantes homens e equipamentos.


sábado, fevereiro 11, 2023

Ville Haapasalo, o finlandês que se estrelou na rússia e que apoia Ucrânia

Ville Haapasalo, o astro finlandês dos filmes russos sobre bebedeiras e banhos, fechou seus negócios na rússia, abriu uma cadeia de comida georgiana em Helsinque e montou um roulote perto da estação dos caminhos-de-ferro, onde vende borscht e bolinhos ucranianos. Ele doa 2 euros em cada sopa e 50 cêntimos em cada bolinho às necessidades das crianças ucranianas.

Kukuscka / Cuco (2002), foi um dos poucos filmes russos, onde Ville Haapsalo fez um papel dramático, numa estória antimilitarista, filmada numa rússia que apenas começou à abraçar a ideologia do neofascismo russo, e que mais tarde se chamou de «mundo russo» e que levou, desde então, às três guerras agressivas, contra Geórgia em 2008 e contra Ucrânia em 2014 e 2022.