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domingo, abril 05, 2026

KGB no ecumenismo: religiosos soviéticos na missão propagandista em Portugal

Revista «Paz e Amizade», n.º 10, ano III/78, pp. 20-22

Em abril de 1978 uma delegação eclesiástica soviética visitou Portugal. Composta por representantes católicos, ortodoxos armênios e evangélicos russos, o grupo foi chefiado pelo Bispo Makário da Igreja Ortodoxa russa (IOR), agente do KGB “Wisler”, muito ativo no Conselho Mundial de Igrejas em Genebra. 

O texto sobre a visita, da autoría da jornalista e respeitada ativista do MDM Dra. Dulce Rebelo, pode ser lido na íntegra aquí, publicado, na Revista “Paz e Amizade”, da Associação Portugal-URSS, sob forte influência dos comunistas portuguese e chefiada, na altura, pelo politico portugués, proximo ao PS, Dr. Bruto da Costa

Revista «Paz e Amizade», n.º 10, ano III/78, pp. 20-22

Como transparece o próprio texto, a principal razão da visita era simples, tentar convencer o público português do que não havia perseguição religiosa na URSS. As décadas de 1960-80, na realidade foram marcadas pela intolerância religiosa aguda do regime soviético, naturalmente, com os seus “altos e baixos” e também com os tratamentos diferenciados dispensados aos diversos credos. 

Assim, em 1961 o poder soviético inicia a sua ofensiva contra os evangélicos. No total, entre 1961 a 1988, na União Soviética foram condenados às diversaspenas prisionais cerca de 1500 pastores e sacerdotes evangélicos e batistas. O primeiro pico da repressão religiosa se deu em 1961-63, quando foram condenados cerca de 200 pastores. O pico seguinte aconteceu em 1980-82, quando as autoridades soviéticas encarceram 158 pastores evangélicos, a metade de todos os prisioneiros de consciência soviéticos, presos únicamente pela fidelidade da sua fé religiosa. 

A primeira onda represiva resultou da campanha antireligiosa do Nikita Khruschev, que tentou, de forma voluntarista, eliminar, ao máximo, a religião da vida dos cidadão, uma vez que tinha prometido, publicamente, a chegada triunfante do comunismo até 1980. Já a segunda, muito possivelmente, se deu aos vários fatores, que ditaram a agressividade adicional do regime: desde a guerra neocolonial soviética no Afeganistão até o medo de Moscovo em “perder” a Polónia, devido ao forte desempenho social do sindicato “Solidariedade”. Ao sentimento geral de paranoia do Kremlin também contribuíram os Jogos Olímpicos de Moscovo de 1980. Dados a tentação de tentar impressionar os estrangeiros que, deveriam vir em massa, ao país bastante fechado ao exterior, o regime soviético e KGB decidiram intensificar a repressão em massa, que muitas vezes culminava com a deportação, fora de Moscovo e das capitais das repúblicas soviéticas todo e qualquer tipo de dissidência: política, religiosa ou mesmo cultural. 

Em 1960, ao Conselho de Toda a União de Cristãos Evangélicos-Batistas (AUCECB), a única organização batista legal em toda a URSS, foi imposto um novo estatuto, criado e aprovado pelas autoridades soviéticas. O estatuto exortava os pastores a se abster de “tendências missionárias não saudáveis”, nomeadamente manter ao nível mínimo o batismo de jovens entre 18 a 30 anos, com a total proibição de batismo de menores de 18 anos. Os pastores eram exortados a combater as “tendências negativas” do seu clero em relação à “arte, literatura, rádio, cinema e televisão”, ou seja serem permissivos, ao máximo, em relação a propaganda soviética, impedindo, de forma absoluta, que as crianças (jovens menores de 18 anos) sejam presentes nos templos e na celebração dos cultos religiosos. 

Como é natural, a imposição do regime comunista não foi recebida com agrado por muitos dos pastores, no seio do AUCECB nasceu o assim chamado Movimento iniciativo, que reivindicava a liberdade da fé e não interferência das autoridades soviéticas na vida religiosa dos cidadãos. O conflito chegou ao ponto em que um número significativo de fiéis e pastores deixou o AUCECB, acusando sua liderança de conluio com as autoridades ateístas. Criando uma união alternativa, hoje conhecida como União Internacional de Igrejas de Cristãos Evangélicos-Batistas (IUCEB). 

O poder soviético respondeu de forma habitual: aumentando o nível da repressão contra os dissidentes e coagindo e recrutando os agentes no seio dos pastores. Um destes pastores e funcionários seniores do AUCECB foi Alexei Stoian, promovido ao posto de presidente do Departamento Internacional do Conselho dos Cristãos Baptistas Evangélicos de toda a rússia. Nessa qualidade ele visitou Portugal em abril de 1978. 

Situação na Lituânia socialista 

Em 1978, padres católicos romanos lituanos intensificaram a resistência contra a perseguição, fundado, em novembro de 1978, o Comité Católico para a Defesa dos Direitos dos Fiéis, com o objetivo de monitorar e denunciar publicamente as violações destes mesmos direitos. Figuras importantes do clero lituano, arriscaram-se à prisão para desafiar o Estado sovietico, colaborando com o jornal clandestino Crônica da Igreja Católica da Lituânia.

Os padres protestaram ativamente contra a nova Constituição soviética da Lituânia, argumentando que ela discriminava os fiéis. No início de 1978, padres da Arquidiocese de Kaunas protestaram junto ao Bispo Juozas Labukas contra a interferência das autoridades soviéticas nos assuntos da Igreja. Apesar do perigo, incluindo vigilância e ameaças de agentes da KGB, o clero catolico lituano continuou suas atividades, muitas vezes secretas, para manter a vida religiosa. Muitos padres católicos lituanos, como o Alfonsas Svarinskas e Sigitas Tamkevičius, sofreram prisão por suas atividades. 

Não consegui achar as provas diretas de que o padre Stanislovas Lidys (Dulce Rebelo o chamou de Staxis Lidis) era o agente ou informador formal do KGB. Sabe-se que o padre Lidys chegou a assinar, em 1978, a petição contra a aprovação da nova constituição da Lituânia. Ao mesmo tempo nas décadas de 1970-1980 as autoridades soviéticas costumavam colocar este sacerdote (que de 1969 a 1990 era o pároco da Igreja da Imaculada Conceição da Virgem Maria em Vílnius nas mais diversas viagens ao estrangeiro, sempre para tentar provar a tese: do que “não havia perseguição religiosa na URSS”. 

O músico jazista russo-lituano, Vladimir Tarasov, recorda no seu livro “The Drummer Diaries”, que em 1979, juntamente com padre Lidys, fui convidado para uma digressao/turnê com um dos grupos musicais juvenis da Lituânia pela África – visitando Gana e Benin. Tarasov estava perfeitamente conciente do papel do padre Lidys na delegacao soviética: “Ficou claro por que o padre católico Stanislovas Lidys [...] estava incluído em nossa delegação.Aparentemente, eles queriam mostrar aos seus amigos africanos que a religião não era proibida e que estava florescendo na Lituânia soviética”. 

Pergunta retórica. Poderia um padre católico, crítico aberto ao regime soviético de viajar ao estrangeiro e ser incluído nas delegações oficiais soviéticas ao estrangeiro? Claro que poderia, na condição óbvia do informador/agente do KGB. Muito possivelmente tivemos aqui o caso do dito “legendamento”, quando KGB criava, artificialmente, ao seu agente, a cobertura falsa, o retratando ao público geral como um dissidente. 

O caso do bispo Makário

Bispo Makário (ucraniano Leonid Svystun) muito cedo se destacou na sua colaboração com o KGB. Assim em 1969, Makário, ao pedido do KGB, escreveu uma denúncia formal contra o seu colega do seminário de Kyiv, padre dissidente russo Pavel Adelheim. Em 1970, Adelheim foi condenado a três anos de prisão num campo de trabalhos forçados sob a acusação de “difamar o sistema soviético”. O original da denúncia, assinado pelo Makário Svystun foi encontrado no arquivo do seu processo criminal. Apenas 10 dias antes da condenação do amigo ao GULAG, padre Makário se tornou o bispo, aos 32 anos de idade. 

Desde o fim da década de 1960, Makário viaja constantemente ao estrangeiro: 1967 (Suíça), 1968 (Praga e Uppsala), 1970 (Argentina e Roma), 1971 (EUA), 1975 (EUA e Quênia). Em 1968 ele estuda no Instituto Ecumênico de Bossey na Suíça. 

Em 1970 Makário é designado como Administrador das paróquias sob a jurisdição da IOR no Canadá e nos Estados Unidos. Em dezembro de 1974 foi nomeado o representante do Patriarcado de Moscovo/ou junto ao Conselho Mundial de Igrejas em Genebra e reitor da paróquia estauropégica da Natividade da Virgem Maria em Genebra. É de notar, que em Genebra Makário sucedeu o atual líder da IOR, Kirill. Os relatórios da imprensa suíça de 2023, baseados em arquivos, indicam que o Kirill (Vladimir Gundyaev), na década de 1970 era um agente do KGB em Genebra, utilizando o nome de código/codinome “Mikhaylov”. Ele servia no Conselho Mundial de Igrejas para influenciar a organização em prol dos interesses soviéticos.

Vladimir Gundyaev, década de 1980

Naturalmente, o mesmo trabalho de influenciar o Conselho Mundial de Igrejas, em prol dos interesses soviéticos, continuou o bispo Makário, o agente do KGB “Wisler”. Outras fontes baseadas nos arquivos soviéticos sugerem que «Wisler» também era usado pelo KGB na vigilância ao dissidente e escritor russo Alexander Soljenitsin, autor do «Arquipélgago GULAG», o objeto “Pauk” nos relatórios do KGB.

Missão ao Portugal 

Em 1965, o padre dissidente russo, Gleb Iakuin elaborou e enviou uma carta aberta ao Patriarca da IOR Alexy I, que descrevia detalhadamente a supressão ilegal dos direitos e liberdades dos cidadãos pelas autoridades estatais da URSS. Yakunin publicou também centenas de materiais e documentos que comprovavam as violações dos direitos dos crentes na URSS, os quais tiveram grande repercussão internacional. Em 1976, tornou-se um dos cofundadores do «Comite Cristão para a Defesa dos Direitos dos Crentes na URSS». 

Conferência da delegação de eclesiásticos soviéticos, realizada na Biblioteca Nacional (Lisboa). Da esquerda para a direita: pastor Alexei Stoian, sacerdote Sarkis Tgdjian, bispo Makário, Dr. Bruto da Costa (da Associação Portugal-URSS), e padre católico Staxis Lidis (Stanislovas Lidys).

Em novembro de 1979, foi preso e em agosto de 1980 condenado por “agitação antissoviética”, cumpriu a sua pena nos famigerados campos do GULAG soviético de Perm-35, Perm-36 e Perm-37. 

Reagindo à essa mesma repercursão internacional, em abril de 1978, o nosso grupo de sacerdotes soviéticos, acarinhados pela Associação Portugal-URSS e promovidos ao público pelas personalidades intelectuais próximas ao PCP e ao PS, veio ao Portugal em missão de comprovar o incomprovável: “ausencia da perseguição movida pelo sistema socialista a religião e aqueles que a professam”. Será que a sua missão foi bem-sucedida? Isso só podem testemunhar aqueles que acompanharam a situação de perto. O que parece mal nessa história toda, é o empenho, com que as pessoas aparentemente honradas, casos do Bruto da Costa ou da Dulce Rebelo participaram no exercício da propaganda soviética, de um regime comunista absolutamente cruel e despótico, que atentava sobre os direitos mais básicos de milhões de cidadãos da URSS. 

Será que Bruto da Costa ou Dulce Rebelo sabiam que colaboram, mesmo que indiretamente, com KGB na tentativa de manipular a opinião pública ocidental e portuguesa? Sendo intelectuais e saindo de uma outra ditadura tinham a obrigação de desconfiar do seu papel de “idiotas uteis” do regime soviético. Será que algum deles, alguma vez pediu desculpas pelas suas ações ou omissões? Aparentemente não...

Blogueiro: agradecemos ao Pavlo Sadokha a indicação da matéria.

terça-feira, março 17, 2026

A portuguesa Anita, combatente da liberdade na Ucrânia

Foto: SIC Portugal
Na Ucrânia, há portugueses que combatem no exército ucraniano e uma delas é Anita, natural de Santa Maria da Feira, que trocou um mestrado em Marketing pela linha da frente. A SIC voltou a encontrar a soldado que agora é mãe na Donbas, a cerca de 15 quilómetros da frente de combate. 

Faça click para ver o vídeo

Desde a última vez que falou com a SIC, há cerca de um ano, a vida de Anita mudou profundamente. Foi mãe, mas continua no exército ucraniano, a tentar conciliar a maternidade com a guerra.

Anita tem 27 anos, é de Santa Maria da Feira e falou com a SIC a partir de um local secreto na Donbas, no posto de comando do Batalhão Internacional, da qual faz parte. Está na Ucrânia há quatro anos. Quando chegou não tinha qualquer ligação ao país, não conhecia a língua, nem a cultura, mas dizia que queria estar do lado certo da história.

Foto: SIC Portugal

Colocou em pausa o mestrado em Marketing — que terminou mais tarde à distância — , pegou numa mochila e foi para lá e nem sequer contou aos pais. Hoje, tem uma posição firme no exército ucraniano. Vive com saudades de Portugal, mas com uma nova missão: a maternidade.

sexta-feira, janeiro 02, 2026

Miguel Castelo Branco: o espalhador luso do neofascismo russo

Recentemente, um bibliotecário de Lisboa, Miguel Castelo Branco (MCB), teve a liberdade de emitir uma opinião sobre Ucrânia, ucranianos e presidente Zelensky. Usando a mesma liberdade, decidi comentar a sua escrita.

Possivelmente, o nosso MCB, como muita boa gente nessa Europa fora, tinha dormido na última década, e por isso não se lembra, que a guerra russa contra Ucrânia começou na primavera de 2014, com a ocupação militar e anexação da Crimeia. Na altura, o futuro presidente Volodymyr Zelensky era um mero ator de cinema, exercendo também a gestão da revista à ucraniana, o «KVN». 

Na altura da invasão russa, a Ucrânia foi abandonada por todos, quer pelos EUA, quer pela Europa, mesmo pelos assinantes do Memorando de Budapeste, que deveriam garantir a inviolabilidade das suas fronteiras. Ucrânia optou por não resistir aos invasores, o resultado já conhecemos, os ocupantes russos não ficaram satisfeitos com o anschluss da Crimeia, partindo para a ocupação híbrida do leste da Ucrânia. 

MCB, com uma satisfação bastante doentia, escreve que presidente ucraniano volta dos EUA “cabisbaixo”. Livremente podemos imaginar, que algum parente do Castelo Branco, descreveu, em termos semelhantes em 1939-40, os líderes da Polónia ou dos Estados Bálticos, que viram as suas pátrias nacionais esmagadas e ocupadas pelas forças nazis e/ou comunistas. 

É de recordar, neste sentido, que o presidente da Letónia independente, Kārlis Ulmanis foi detido pelos ocupantes soviéticos em 1940 e deportado ao seu exílio forçado na Rússia soviética. Após o início da guerra nazi-soviética, foi preso em julho de 1941, e em 1942 levado para uma prisão no Turcomenistão. No caminho, contraiu disenteria e faleceu em 20 de setembro de 1942. O seu local de sepultamento permanece desconhecido. 

Presidente da Estónia, Konstantin Päts, foi destituído dos seus poderes pelos ocupantes soviéticos em 1940 e deportado à Rússia soviética. Preso e encarcerado em junho de 1941 na cidade russa de Ufa, os seus netos menores foram levados para um orfanato. Päts, juntamente com o filho Viktor foi enviado para a prisão moscovita de Butyrka. Passou por tratamento psiquiátrico forçado, faleceu no hospital psiquiátrico de Burashevo, na região russa de Kalinin (atual de Tver), em janeiro de 1956. O local exato de sepultamento foi achado somente em 1990. 

Apenas o presidente da Lituania, Antanas Smetona, conseguiu sair do país, chegando à Alemanha, onde solicitou oficialmente à Embaixada dos Estados Unidos em Berlim vistos americanos. O pedido foi concedido, ele morreu no seu exílio nos EUA em 1944. 

Muito possivelmente, o nosso MCB também acha que Estónia, Letónia e Lituânia proclamaram as suas independências nacionais, na sequência de desmoronamento do império russo, não pelo imperativo moral de serem nações independentes e soberanas, mas somente por se “deixaarem sugestionar pelas promessas dos americanos e europeus”. 

Não se duvida, que a humilhação de alguns, faz a alegria dos outros. Também não se duvida que a necessidade de humilhar e a alegria que se sente em ver alguém humilhado, diz muito sobre o caráter e a saúde mental dos indivíduos envolvidos. O caso do Miguel Castelo Branco não foge a essa regra. 

Miguel Castelo Branco escreve sobre “todas as oportunidades que se-lhe [ao Presidente Zelensky] ofereceram para evitar que Ucrânia se desmoronesse…” Se calhar o nosso bibliotecário nunca consultou o Memorando de Budapeste, senão saberia que este documento garantia a segurança da Ucrânia e obrigava os seus signatários (EUA, Grã-Bretanha e rússia) a não usar os meios de coerção, militares ou económicos para tentar colocar em questão a sua independência, soberania ou as fronteiras nacionais. 


A cidade ucraniana de Kupyansk, dezembro de 2025, Fotos: TG @kazansky2017

É muito claro, que o avanço militar russo no leste da Ucrânia resulta em destruição total ou parcial da infraestrutura e do tecido económico e social da região, resultando também na morte e extermínio dos ucranianos, uma espécie do etnocídio, intercalado com vários crimes de guerra praticamente diários.

Apenas nos últimos días a sociedade ucraniana ficou chocada com duas notícias graves. No dia 21 de dezembro, na cidade ucraniana de Pokrovsk, dois militares russos executaram,a sangue frio, sete civis ucranianos, cuja única “culpa” residia no facto de não possuírem nenhum álcool, exigido pelos militares russos. Após o massacre, os ocupantes incendiaram a casa, onde aconteceu o crime e informaram o seu comando de que “liquidaram um grupo ucraniano de sabotagem”.

O segundo caso, ainda mais chocante, se deu no dia seguinte, na mesma Pokrovsk. Um casal ucraniano foi espancado, maltratado e torturado por um grupo de três ocupantes russos. Apesar de, aparentemente, o casal ser favorável ou neutro perante as forças russas de ocupação (não é possível saber mais, dado que depoimento da Viktoria Shvayko, a esposa sobrevivente, foi dado à polícia militar russa em situação de clara coação). Os ocupantes russos, acabaram por executar o marido à sangue-frio e violar/estuprar a sua esposa. De uma forma repetida, de maneiras diversas, sempre muito divertidos, sozinhos e em grupo.

Exatamente este tipo de tratamento aos ucranianos, é endossado, tacitamente e de facto, por Miguel Castelo Branco. Principalmente, quando fala das bandeiras do exército russo, içadas sob os escombros das cidades ucranianas ocupadas, ou seja “libertadas”, na sua visão, objetivamente doentia. Onde a bota dos ocupantes russos está pisando as vidas e a dignidade dos ucranianos. Mortos e presos nos campos de «triagem». Das crianças ucranianas deportadas, violadas, sodomizadas. Tudo isso ao gosto particular do nosso livreiro de Lisboa. Que não se envergonha de evocar o nome de Deus perante todas essas atrocidades russas. O que faz nós recordar o slogan dos actuais neofascistas russos “somos russos, Deus está connosco”, uma reles cópia do famoso slogan nazi: “Gott mit uns”.



A cidade ucraniana de Kostiantynivka após receber a «ajuda russa». Fotos: TG @kazansky2017

Num outro trecho, MCB diz: “que triste destino da Ucrânia serve de lição para outros estados da região que se deixem sugerir…” Mas mais uma vez, podemos usar nossa imaginação e visualizar um Castelo Branco qualquer se dirigir à vítima, de um assalto ou de violência do gênero, desfeita física e emocionalmente: «que seu triste destino serva de lição para as outras que se deixem sugerir». Sugerir a trabalhar, a estudar, a ter uma vida própria... 

No fim, proponho recordar, embora muito rapidamente, o destino dos propagandistas nazis/tas e fascistas, que estes tiveram no fim da II G.M. 

Julius Streicher, o publicitário, político e criminoso da guerra alemão, foi enforcado pelos aliados em outubro de 1946. 

William Joyce, conhecido como “Lorde Haw-Haw”, um propagandista radiofônico nazista/sta anglo-americano foi enforcado pelos britânicos em janeiro de 1946. 

Ezra Pound, considerado por muitos o poeta mais influente do século XX e um radialista fascista e antissemita, passou 12 anos internado num hospital psiquiátrico, não sendo executado apenas graças ao controverso diagnóstico de “esquizofrenia paranóica com depressão”. 

Louis-Ferdinand Céline, um genial escritor francês, propagandista antissemita e pró-nazista, que costumava incentivar o ódio racial e a caça aos judeus. Passou anos fugindo pela Europa fora, cumpriu um ano e meio prisão na Dinamarca e um ano na França. 

Será que podemos esperar que o destino tocará o nosso querido MCB? Que o seu ódio xenófobo e mal disfarçado à Ucrânia e aos ucranianos seja apreciado e condenado pela justiça portuguesa ou ucraniana? Não temos a certeza que isso acontecerá num futuro próximo, mas como diz o ditado popular: “sonhar não custa”. Vários criminosos de guerra nazis/tas sempre foram encontrados pela Mossad. Vários criminosos de guerra russos já foram encontrados e sancionados pela SBU. 

Vivendo numa sociedade democrática do cunho liberal, podemos apenas desejar, que a própria sociedade portuguesa condene o MCB. Que o nosso bibliotecário de Lisboa e apoiante firme do neofascismo russo se torne «o não cumprimentável», aquele à quem a sociedade se recuse cumprimentar ou apertar a mão. Ao menos que seja isso.

quarta-feira, julho 09, 2025

RARET: a voz do mundo livre vinda de Portugal

A RARET (RÁdio RETransmissão) foi um antigo centro retransmissor, instalado em Portugal, que colocava no ár a rádio Free Europe (Europa Livre/Rádio Liberdade), que tinha como objetivo combater o comunismo, funcionando entre 1951 e 1996. 

Edifício da RARET, na Glória do Ribatejo | Foto: D.R. via 'Restos de Coleção

Dois trabalhadores numa das torres da RARET / Foto: Roberto Caneira

Foi instalada em 1951, na Herdade da Nossa Senhora da Glória, no coração do Ribatejo, a 73 km de Lisboa, segundo o blog A Minha Rádio. Na antiga Glória do Ribatejo, em Salvaterra de Magos, e hoje se situa um grande complexo abandonado e devoluto. Em tempos, a RARET (Sociedade Anónima de Rádio Retransmissão, SARL) foi um antigo centro retransmissor, instalado em Portugal pelos americanos, e que colocava no ar a Rádio Free Europe (Europa Livre/Rádio Liberdade), que tinha como objetivo conter o comunismo. RARET funcionou durante 45 anos neste local, entre 1951 e 1996, e colocou esta região quer na rota da Guerra Fria, quer nos programas bastante robustos do desenvolvimento social local.

Edifício da RARET, na Glória do Ribatejo | Foto: D.R. via ‘Restos de Coleção’

Funcionário a trabalhar numa das antenas da RARET / Foto: Roberto Caneira

A RARET chegou a Portugal no início da década de 1950, com um acordo entre os governos de Portugal e dos Estados Unidos para construir uma estação de rádio para emitir informação livre aos países da Europa comunista. De estação de rádio, depressa passou a uma comunidade. Lá, foi construída uma escola, complexo desportivo, piscina, área residencial para funcionários e até uma maternidade, usadas, pela população local de forma gratuíta.

Faça click para a ver a reportagem da TVI sobre a RARET

Na rádio, ouvia-se a informação do e sobre o mundo ocidental, notícias, sem censura, vindas das nações cativas, leituras de livros prescritos e proibidos e a transmissão de música proibida pela censura comunista, assim como a divulgação da música popular portuguesa, geralmente a de fadista Amália Rodrigues.








RARET em pleno funcionamento, 1951-1980

O objetivo era difundir a informação livre entre as nações sob ocupação comunista, situadas atrás da «cortina de ferro», crinado as condições para que estas nações se revoltassem, em busca de liberdade. Em 1960, a RARET passou a transmitir programas em 18 línguas para os países e nações sob ocupação ou sob a influência da União Soviética. 

A RARET revolucionou a vida da população de Glória do Ribatejo. Os serviços públicos por si prestados eram gratuítos, como, por exemplo, uma escola, um posto médico, a escola profissional, de técnicos de rádio. A realidade da época é retratada na série “Glória”, a primeira produção portuguesa da Netflix, anunciada como «sendo uma história de ficção assente num contexto e em factos reais».

Ler os trechos do livro que deu a origem à série «Glória»

“Glória” é um thriller de espionagem histórico, centrado na RARET, em pleno Portugal da década de 1960. A série mostra como a vila da Glória, se tornou um improvável palco da Guerra Fria, local, à volta da qual se competiam as forças ocidentais e soviéticas.

No centro desta história está a personagem, pressupõe-se fictícia, de João Vidal, um jovem de uma família influente, com ligações ao Estado Novo português, recrutado pelo KGB depois de se politizar no decorrer da Guerra Colonial. João ver-se-á envolvido nas intrincadas teias do jogo da espionagem e, no final de contas, se torna um assassino friou e calculista, traindo o seu país, lutando, com todas as suas forças para transformar Portugal numa ditadura comunista, o que não consegue, mas não por falta da vontade. 

Escola local construída e financiada pela RARET

Posto médico local, construído e financiado pela RARET

A maioria dos portugueses que trabalhava na RARET não se ineressavam muito pela finalidade do centro transmissor. Eram apenas técnicos, sem muita cultura geral e sem as ligações político-partidárias, algo garantido pela secreta PIDE, a congénere portuguesa do KGB. Os primeiros anos de vida da rádio não foram fáceis. A RARET interferia, com muita facilidade, nas frequências, usadas pelas transmissões soviéticas, mas graças a um dos funcionários, o italiano Pasqualino, que conseguia distinguir a língua russa, o erro era rapidamente resolvido. 

A primeira retransmissão decorreu em 4 de julho de 1951

Em maio de 1985, a RARET foi alvo de um atentado terrorista bombista falhado, junto à uma das antenas e exatamente nas vésperas da visita do presidente americano Ronald Reagan, reinvidicado por um grupo, que surgiu de nada e que desapareceu sem deixar os rastos, auto-denominado «Grupo anti-capitalista e antimilitarista». Não houve vítimas, apenas pequenos danos materiais, o que levou a que, nesse ano, houvesse um grande investimento na modernização das instalações da RARET. Muitas das vezes os atentados deste tipo são organizados pelos serviços secretos. Embora em 1985 na URSS começa a Perestroika, as posições do KGB eram fortes, e isso podeia ser uma espécie de aviso aos americanos e aos portugueses para retirar o RARET de Portugal. O que realmente acabou por acontecer, embora 11 anos mais tarde... 

A rádio estava funcionando de vento em popa até 1989, quando se deu a queda do Muro de Berlim, estabelecendo uma ponte entre os países comunistas e o ocidente. Depois, a sua importância foi gradualmente diminuíndo e em 1996, as instalações da RARET fecharam oficialmente e, dois anos depois, estavam completamente abandonadas, permanecendo assim até hoje. 

O abandono das instalações em 2021

As antigas instalações em 2016



As instalações da RARET em 2013 (as 3 últimas fotos)

Imagens: Instagram; Espalha FactosMotorcycle Riders, blogues A Última Pedra e Restos da Colecção; NIT

domingo, junho 08, 2025

General VHS: o porta-voz de putin em regime de teletrabalho

Através das narrativas importadas do Moscovo, conhecemos o verdadeiro Agostinho Costa: irritado, apoplético, truculento, gaguejante, paternalista, uma mistura de marechal Zhukov com taberneiro do Sabugal, mas sem o carisma do primeiro ou a autenticidade do segundo. 

Com a gravidade de um sacristão apanhado a beber o vinho da missa assegurou que o problema é a “escalada”. Pelos vistos bombardear uma base militar russa é mais grave do que raptar crianças ucranianas.

por: José António Rodrigues Carmo

Há quem fale por ignorância, quem fale por vaidade e quem fale por fanatismo. O general Agostinho Costa conseguiu, com louvável dedicação ao dislate, reunir as três categorias num só uniforme engomado. É um caso raro de fidelidade vocal ao Kremlin com sotaque do Beato, uma espécie de “Russia Today” em versão Viva o Gordo.

Um general do Exército português que, não sabendo sê-lo, encontrou vocação no ofício de descomandar a paciência dos telespectadores. Sempre pronto para mais uma aparição televisiva, nem que seja para explicar que a culpa da guerra é de quem não se deixa invadir com educação, surge invariavelmente com o ar inchado de quem acabou de ser promovido a «marechal honorário do Donbass» e com aquele brilho nos olhos típico de quem decorou os editoriais do Pravda de 1983.

A televisão portuguesa, num bizarro fetiche necro-soviético, continua a sentá-lo em cadeiras de comentador como se a sua opinião acrescentasse algo mais do que apenas embaraço, bocejos e o ocasional “sotor” sibilado com solenidade. Agostinho Costa é o enviado especial à Realidade Paralela e correspondente oficioso do Kremlin em Lisboa. Entre dois “sotoras” e três piscadelas cúmplices ao pensamento putinista, vai-nos evangelizando com o entusiasmo de um candeeiro a petróleo, sobre os perigos de resistir a uma invasão.

Esta semana, por exemplo, quando até analistas sobriamente racionais reconheceram a ousadia e precisão cirúrgica do ataque ucraniano à aviação estratégica russa, uma operação que destruiu aeronaves com manutenção mais cara que o orçamento do SNS, lá apareceu o general Costa, com o ar pesaroso de quem viu cair mais um ícone da URSS.

Garantiu, com a gravidade de um sacristão apanhado a beber o vinho da missa, que o verdadeiro problema é a “escalada”. Porque, pelos vistos, bombardear uma base militar russa é mais perigoso do que raptar crianças ucranianas e “temos de perceber” que “estamos a brincar com o fogo, sotora”.

Não bastando a bizarria da análise, o general teve ainda tempo para oferecer aos portugueses um momento inesquecível de comentário geopolítico em línguajar torturado: Bom, sotor, temos de perceber… que, na verdade… isto pode levar a consequências… infantários, humm… em Kiev, percebem? Não, Sr. General, não percebemos nada mais do que a pouca-vergonha de alguém que se atreve a verbalizar tal palavreado.

Num país com um pingo de decência, a frase “infantários em Kiev” dita com tom de ameaça passivo-agressiva, teria valido o despedimento imediato do autor, usado para macular as Forças Armadas e exaltar, com brilho nos dentes, a tropa russa movida a vodka e obscenidades. Mas em Portugal, Agostinho Costa é tratado como uma espécie de oráculo atoleimado da Donbass, a quem se deve respeito pelo simples facto de já ter usado farda e ter aprendido a dizer “geopolítica” sem se engasgar, embora nem sempre.

A sua lógica é uma cartilha soviética remendada com fita-cola. Se a Rússia bombardeia, é “reação”. Se a Ucrânia responde, é “terrorismo”. Se Putin invade, é “estratégia”. Se Zelensky resiste, é “provocação”. Tudo servido com a entoação de um papagaio emproado, que entra em ebulição sempre que um colega de painel ousa contrariar a narrativa importada do Leste. É então que conhecemos o verdadeiro Agostinho Costa: irritado, apoplético, truculento, gaguejante, paternalista, uma mistura de Marechal Zhukov com taberneiro do Sabugal, mas sem o carisma do primeiro ou a autenticidade do segundo.

Não faltam episódios que deviam fazer corar qualquer produtor televisivo com dois neurónios e meio: quando garantiu que “a Crimeia nunca foi verdadeiramente ucraniana” (uma pérola geopolítica só ao alcance dos manuais soviéticos de 1975), ou quando afirmou, com ar compenetrado, que “a Rússia apenas reagiu às provocações da NATO” , como quem justifica um assalto porque o banco estava de portas abertas.

Quando confrontado com os crimes de guerra documentados em Bucha, Costa teve o atrevimento de pedir “ponderação na análise” e sugeriu que “muito do que se vê pode ser encenação”. Encenação, note-se, dita com o mesmo tom de quem duvida da existência de Júpiter, porque não o viu com os próprios olhos.

O general Costa não é só enviesado. É um sintoma triste. Um produto da mistura letal entre ignorância letrada e reverência pós-soviética à propaganda russa. Para ele, a integridade territorial da Ucrânia é um pormenor irrelevante, enquanto a sensibilidade emocional do Kremlin merece tratamento diplomático e sessões de aromaterapia.

É preciso algum talento e muito descaramento para assistir à destruição de bombardeiros estratégicos russos em solo russo, e reagir com o pesar de quem perdeu a final da Taça. Para Agostinho Costa, o erro da Ucrânia é recusar-se a morrer em silêncio, e o erro do Ocidente é acreditar que ainda há lados certos numa guerra.

O nosso problema, no entanto, é termos de aturar esta cassete VHS arranhada e tartamuda, segundo a qual a coragem dos ucranianos é adjectivada de “nazismo”, e onde as palavras “NATO”, “provocação” e “sotor” são usadas em proporções nada homeopáticas.

Enquanto este general de sofá continuar a ser promovido como “especialista”, estamos condenados a ver a guerra através das lentes sujas do Kremlin, segundo as quais destruir bombardeiros é uma provocação perigosa, mas usá-los para arrasar cidades é apenas “dinâmica estratégica”. 

Blogueiro

Exorto os leitores à assinar a petição chamada «Retirar tempo de antena a todos os defensores do Estado terrorista da federação russa» (não precisa do registo, apenas de um e-mail válido, demora 2 minutos): https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT113934

sábado, junho 07, 2025

«Crianças-Heróis»: Yana Stepanenko, 13 anos

Em 8 de abril de 2022, Yana, sua mãe e seu irmão Yaroslav aguardavam um comboio/trem de evacuação em Kramatorsk. Um ataque repentino de míssil russo ceifou a vida de 61 pessoas e feriu outras 121.

Yana Stepanenko perdeu as duas pernas em consequência daquele terrível bombardeio. Dois anos depois, a menina não só retornou à vida ativa, como também começou a participar de competições desportivas internacionais.

Em 2024 Yana correu a Maratona de Boston para arrecadar fundos para uma prótese desportiva para o futebolista ucraniano Oleksandr Ryasny. Este ano, ela assumiu um desafio ainda mais ambicioso: a Maratona de Tóquio para arrecadar fundos para próteses desportivas para Oleksandr Zhavnenko.

As histórias dos participantes do evento de caridade «Crianças-Heróis» serão publicadas nas redes sociais do Ministério do Interior / de AssuntosInternos da Ucrânia e na página oficial do Ministério, para que todos possam conhecer seus feitos incríveis. 

Faça click para ler mais

De recordar que o crime russo em Kramatorsk, foi um dos casos emblemáticos em que todos os agentes russos em Portugal, especialmente general Agostinho Costa, negavam, de pés juntos, que o ataque na cidade foi de responsabilidade russa. Apesar de o casco do míssil russo, semi-intacto, ostentar a inscrição feita em russo.

quinta-feira, junho 05, 2025

Arquivo Mitrokhin: a rede do KGB em Portugal (II)

Hoje publicamos a 2ª parte do estudo, que o jornal português “Expresso” dedicou ao Arquivo Mitrokhin, guardado na Universidade de Cambridge. A publicação é sobre os segredos da KGB em Lisboa e as suas ligações com Portugal (ler a 1ª parte do estudo).

«Eventos Activos» em Portugal 

O arquivo Mitrokhin inclui vários testemunhos sobre as atividades da residentura do KGB em Lisboa. Assim, em 1979, os principais esforços da residentura foram dirigidos para a oposição à realização de uma conferência sobre a ameaça soviética (foram organizadas ‘conversas’ para influenciar os líderes de opinião pública, foram impressos folhetos e feitas publicações). Entre os “principais objectivos” da residentura nesse ano estavam “a propaganda dos ideais do não alinhamento; o fortalecimento das relações de Portugal com os países em desenvolvimento; o estreitamento dos laços políticos e económicos [entre Portugal] e os países socialistas, em particular, a criação de ideias que apoiem a causa soviética nos assuntos internacionais”. 

Já em 1979, os alvos do trabalho operacional da residentura do KGB em Lisboa eram a base da NATO, a Rádio Europa Livre e as embaixadas de três estados africanos de língua portuguesa (Angola, Moçambique e Guiné-Bissau). São também referidos alvos menores, como os gabinetes do presidente e do primeiro-ministro da república, a infiltração nos círculos parlamentares e a recolha de informações em sindicatos, nos meios de comunicação social, em organizações de esquerda e nas organizações «pró-RP da China». 

No ano seguinte, talvez em consequência da vitória da coligação Aliança Democrática de Sá Carneiro e Freitas do Amaral nas eleições parlamentares portuguesas de Dezembro de 1979, a lista de tarefas era bem diferente: “Influenciar a opinião pública para promover a chegada ao poder de um governo mais moderado [de esquerda]; determinar os planos do governo português quanto à destruição da Revolução de Abril; conduzir trabalhos de inteligência contra a NATO, os Estados Unidos e a China”. 

Para atingir estes objetivos, os agentes do KGB em Portugal empreenderam uma série de «medidas ativas». Assim, em 1979 eram 33. No ano seguinte, foram 59. O termo “medidas activas”, comum no jargão dos serviços secretos soviéticos, implicava toda uma série de acções subversivas destinadas a enfraquecer o Ocidente, bem como a posição dos Estados Unidos aos olhos do público europeu, provocando a discórdia entre os aliados ocidentais ou influenciando o curso de acontecimentos de importância global. 

O programa de residentura do KGB em Portugal para 1980, por exemplo, previa a implementação de “medidas activas” para “comprometer o Adversário Principal [na gíria dos serviços especiais soviéticos – os Estados Unidos]”. Outras medidas visavam «tentativas de romper os laços de Portugal com os países da NATO» ou «retardar o processo de integração na CEE». Os registos do KGB relatam com orgulho “27 conversas importantes, um discurso no parlamento, a organização de três reuniões, cinco discursos em eventos públicos, uma exibição de um filme e três jornais”. 

Estas “medidas activas”, que são ensinadas em cursos especiais nas escolas do KGB, foram realizadas utilizando uma variedade de métodos: propaganda pura, desinformação, manipulação dos meios de comunicação social, falsificação de documentos oficiais, infiltração nas igrejas, partidos e outras organizações. Em casos extremos, poderiam incluir «ações especiais» que envolvam vários graus de violência. Abrangiam também medidas de apoio a partidos comunistas e socialistas no estrangeiro ou que serviam de fachada para organizações internacionais como o Conselho Mundial da Paz. 

Os materiais revelados por Vasily Mitrokhin sobre Portugal incluem alguns exemplos de «medidas activas» deste tipo. «Durante a campanha eleitoral de 1976, a residentura de Lisboa lançou as operações «Coilebra» e «Fado» [para imprimir] panfletos que ajudariam a fortalecer a posição do PCP nas eleições parlamentares», relata uma das entradas. Uma outra operação, com o nome de código «Praza», tinha como objectivo «impedir a entrada de Portugal e Espanha na CEE, aumentando as tensões entre os dois países e a França/Itália». Uma longa entrada de Mitrokhin de 1978 detalha o plano do KGB para conter a divulgação de informação — ou, nas palavras da residência soviética, para «reduzir a ressonância» — sobre uma conferência planeada em Lisboa sobre «o imperialismo russo, a falta de liberdade e as violações dos direitos humanos na URSS» (uma das medidas previstas era «uma conversa para influenciar» a escritora Natália Correia, uma das organizadoras da conferência). Em Fevereiro de 1981, o grupo parlamentar da UEDS (União de Esquerda para a Democracia Socialista) de António Lopes Cardoso apresentou um projecto de lei que proibia a presença e instalação de instalações de armas nucleares em Portugal. Segundo Mitrokhin, este projeto foi um resultado direto da intervenção do KGB. 

Um outro evento da residentura do KGB em Lisboa, também no início de 1981, teve como objectivo criar um movimento de trabalhadores e sindicatos contra a NATO e os EUA, bem como contra a presença de armas nucleares no país. Esta operação («Operação Maré») foi lançada por uma conferência sobre desarmamento e segurança europeia presidida pelo antigo Presidente da República Francisco da Costa Gomes (nome de código: «Cavaleiro»). A conferência foi organizada sob a égide do Conselho Português para a Paz e Cooperação, uma associação portuguesa que fazia parte do Conselho Mundial da Paz, sob influência de Moscovo. De acordo com uma nota muito curta copiada por Mitrokhin, «a influência foi exercida sobre o 'Cavaleiro'» através do agente «Shalim» — identificado como «um estudante de Direito, filho do antigo presidente português Costa Gomes». 

[Se trata de Francisco Varajão da Costa Gomes, nascido a 16 de agosto de 1956, em Lisboa, empenhado membro da liga comunista UEC, utilizado muitas vezes como veículo de pressão e comunicação entre o PCP e Costa Gomes. Depois do 25 de Novembro de 1975 foi estudar para Cuba. Mais tarde, regressado a Portugal, viria a suicidar-se, em 1991, aos 35 anos, quem sabe, possivelmente pelo desgosto de ver desaparecer o regime da sua escolha, o comunismo]. 

Francisco da Costa Gomes, à esquerda, e o seu único filho, Francisco, ainda criança,
Lisboa, 1960 Autor: Claudino Madeira // © Museu da Presidência da República

Para além dos materiais de Mitrokhin, existem outras fontes que mencionam a influência passada de Costa Gomes (o filho) sobre Costa Gomes (o pai). O autor da biografia Marechal Costa Gomes: «No Olho do Furacão» (2008), Luís Nuno Rodrigues, cita fontes americanas que, por exemplo, relatam que “a maior influência do PCP sobre o presidente foi através do seu próprio filho, membro da Juventude Comunista, que chegou a ameaçar o pai com uma greve de fome caso este não tomasse determinada posição favorável ao PCP”. A ex-líder comunista Zita Seabra, por sua vez, confirma que o partido incluiu Chico, filho do general Costa Gomes, nas suas fileiras. «Em momentos críticos, falava diretamente com Chico e transmitia-lhe o que me ordenavam. Houve momentos em que esse contacto se revelou decisivo para a tomada de decisão do general», escreve Zita Seabra no seu livro «Era Assim» (2007). 

Um dos projetos mais ousados ​​do KGB de 1976 recebeu o nome de código «Tejo» e envolveu a criação de uma organização para promover interesses sociais e políticos que, na prática, serviria como máquina de propaganda contra a NATO. A organização tinha um jornal próprio, cuja gestão estava a cargo do agente “Brown” – nome de código do jornalista e economista Eduardo Maia Cadete (1942-1999), um dos fundadores e históricos do Partido Socialista, que participou na fundação do partido em 1973 na Alemanha. “[A organização de fachada] levará a cabo medidas activas e, assim, terá uma influência frutuosa na opinião pública portuguesa”, lê-se em Mitrokhin. No final, em 1979, o projeto foi abandonado devido a “dificuldades relacionadas com o agente operativo no país”. “Além disso, em Portugal existem organizações de esquerda e meios de comunicação social suficientes sob o controlo do PCP que podem realizar este trabalho”, refere a documentação. Um dos filhos de Eduardo Maia Cadete, contactado pelo Expresso, afirma desconhecer quaisquer ligações do pai ao KGB. 

Jornalistas verificados 

Para manipular os meios de comunicação social, a residentura do KGB em Lisboa contou com a ajuda de jornalistas de confiança. Em 1977, o KGB conseguiu publicar artigos na imprensa nacional que atacavam duramente o governo britânico pela expulsão do ex-agente da CIA Philip Agee, autor de vários livros críticos da agência secreta americana. O arquivo Mitrokhin cita publicações de artigos que incluíam “expressões de apoio de Sakharov à junta chilena de Pinochet” — factos fabricados em novembro de 1975 sob as ordens do próprio chefe do KGB, Yuri Andropov, a fim de desacreditar o dissidente e vencedor do Prémio Nobel da Paz, Andrei Sakharov. Outra «medida ativa» na imprensa foi a publicação, sem assinatura, de um pequeno artigo no Diário de Lisboa, a 7 de agosto de 1979, que relacionava a elevada taxa de mortalidade infantil em Nápoles com o desaparecimento de um dos contentores da base militar norte-americana de Bagnoli, no sul de Itália. As notas de Mitrokhin indicam que a publicação deste artigo foi o resultado de uma operação do KGB. 

Duas entradas do arquivo Mitrokhin apresentam um jornalista chamado Jorge Feio (nome de código «Fred»), descrito como «um jornalista progressista, um distinto editor da secção internacional do jornal português Diário de Notícias, que foi recrutado pelo KGB em 1977». Além de ser um agente «fornecedor de informações extremamente valiosas», o «Fred» era também utilizado nas operações ativas. Através dele, a residentura [do KGB] em Lisboa publicou artigos nos semanários Extra e Diário de Notícias. Os materiais de Mitrokhin falam também, de forma algo difusa, do envolvimento de Jorge Feio em medidas activas que envolviam «o uso secreto de fontes menos significativas no chamado 'mercado de boatos'». Feio morreu em novembro de 1990, aos 64 anos. 

[KGB usava habitualmente os boatos, quando pretendia passar as informações, que de outra forma poderiam ser vistos, pelo público, com a maior desconfiança. Por exemplo, após a fuga, em 1976 ao Japão do piloto soviético Viktor Belenko, KGB disseminava diveros boatos sobre o homem, desde «morreu de alcoolismo», «voltou, arrependido, à URSS e está cumprir uma pena prisional» até, piscando olho ao público: «morreu, num acidante de viação». Na realidade Belenko morreu nos EUA em setembro de 2023]. 

Outro dos nomes mais referidos na obra de Mitrokhin é o do agente “Careca” – o escritor e jornalista Mário Ventura Henriques (1936-2006), duas vezes vencedor do prémio literário do PEN Clube e principal inspirador do Festival Internacional de Cinema de Troia. Contacto de trabalho da residência do KGB em Lisboa. Testado via PCP. “Envolvido em operações activas durante o período de 1977-82”, lê-se num dos documentos de arquivo. Um outro documento relata que «Careca» esteve envolvido na publicação de artigos que comprometiam Frank Carlucci, o antigo embaixador dos EUA em Lisboa. Estes artigos foram publicados “de acordo com as instruções recebidas do centro [quartel-general do KGB em Moscovo]”. Uma das notas de Mitrokhin refere que a cooperação do agente “Careca” com o KGB terminou depois de este ter levantado “a questão do apoio financeiro integral e exigido garantias para o futuro”. Fernanda Silva, companheira de Mário Ventura durante os últimos 16 anos de vida do escritor, admitiu que o conteúdo das notas de Mitrokhin, tal como lhe foi relatado pelo Expresso, lhe foi uma “grande surpresa”. “Sei que ele foi à rússia várias vezes, mas não faço ideia. «Nunca ouvi falar disso», disse ela. 

Para além da participação na operação «Tejo», Eduardo Maia Cadete («Brown») esteve envolvido em eventos de imprensa. “Graças à influência do agente do KGB ‘Brown’”, lê-se nos documentos de Mitrokhin, “foram tomadas medidas activas para publicar textos em jornais portugueses e espanhóis”. Maia Cadete colaborou com o jornal «República» e com a revista «Vida Mundial». Os seus artigos incluíam alguns que comprometiam a Rádio Europa Livre, uma estação subsidiada pelo governo dos EUA que transmitia para os países do bloco soviético. A ligação de «Brown» ao KGB foi quebrada depois de este ter manifestado discordância com as políticas adotadas pela URSS e «ambições materiais completamente injustificadas que excederam significativamente as suas capacidades pessoais». 

A lista de Mitrokhin inclui ainda o jornalista Jorge Máximo Heitor (agente «Emil»), «recrutado em 1980 enquanto trabalhava para a agência ANOP em Moçambique». “Antes de passar pela formação de agente, ‘Emil’ foi verificado através da sua filiação no PCP”, refere a nota. Em 1982 regressou a Lisboa. O contacto com ele não foi retomado.» Heitor, antigo jornalista da agência Lusa e do jornal Público, agora reformado — «porque o patrão precisa de poupar dinheiro», afirma —, confirma a sua ligação ao PCP até meados dos anos 1980, mas nega qualquer ligação ao KGB. 

Imagem @Facebook do Jorge Máximo Heitor em janeiro de 2022

«Em Moçambique, jantei muitas vezes em casa do meu colega, correspondente da agência noticiosa soviética. Lembro-me bem dele, um homem baixo e forte. Éramos amigos próximos. Serviram iguarias deliciosas, bebidas e petiscos muito bons. Então, fez imensas perguntas: qual é a sua opinião sobre isto, sobre aquilo? Nunca me ocorreu. Só mais tarde percebi que a sua posição na agência era uma camuflagem.» 

O jornalista e escritor brasileiro Josué Guimarães (agente «Gosha»), correspondente do jornal brasileiro «Correio do Povo» em Lisboa, é descrito como “um cidadão brasileiro, figura pública em Portugal, progressista, conhecedor dos métodos e técnicas dos serviços soviéticos […] e incluído na residentura de Lisboa em 1976. Foram realizados 42 encontros com o agente «Gosha», sendo 38 em Lisboa, dois no Rio de Janeiro e mais dois em Buenos Aires”, referem os autos. Os dados biográficos e profissionais de Josué Guimarães — como acontece em todos os outros dossiers copiados por Vasily Mitrokhin a que o Expresso teve acesso — são apresentados com grande detalhe e estão correctos. O escritor brasileiro morreu em 1986. 

Os documentos de Mitrokhin referem que o antigo diretor da agência ANOP/Lusa, Fernando Lima (nome de código «Taor»), foi alvo de trabalho de inteligência por parte da residentura do KGB em Lisboa entre 1976 e 1982 e que «forneceu informações políticas». Alguns eventos ativos foram realizados através dele. Em 1981, chegou-se à informação de que «Taor» tinha ligações à extrema-direita e aos círculos militares americanos. 

Fernando Lima, Imagem: Porto Editora

Lima, antigo jornalista do Jornal de Notícias, diretor do Diário de Notícias, assistente de Durão Barroso e Cavaco Silva, respondeu ao texto de Mitrokhin com risos: “Em 1974, tornei-me amigo de um correspondente soviético [oficial do KGB Eduard Kovalev, que trabalhou em Portugal sob o disfarce legal do correspondente da agência noticiosa soviética TASS. Na década de 1980 Kovalev publicou, sob o seu nome e em co-autoria, a meia-dúzia de livros propagandistas em que acusava a Europa Ocidental de «se tornar um dos polos mais perigosos do terrorismo internacional»].

Eduard Kovalev: «Terror: Inspiradores e executantes», Moscovo, 1984

Mais tarde, é revelado que era coronel do KGB. Jantei com ele mais do que uma vez, assim como com muitos outros correspondentes estrangeiros. Era jornalista e tive a oportunidade de conversar com muitas pessoas. Provavelmente, gostaram de ouvir os meus comentários políticos. “Era tudo open source, não tinha acesso a nada”, diz Fernando Lima insiste que não sabe “o que poderiam significar” as medidas ativas referidas na nota. 

Meia tonelada de informações secretas em Moscovo 

Os materiais copiados por Vasili Mitrokhin incluem referências a vários arquivos dos antigos serviços de informação portugueses (nome de código «Mosaica»). “No final de 1975, a residentura do KGB em Portugal recebeu do PCP o arquivo dos serviços secretos portugueses”, lê-se numa das entradas. Noutra passagem, Mitrokhin apresenta uma longa lista dos materiais recebidos: “Os comunistas portugueses forneceram ao KGB materiais sobre as operações e os planos da polícia política PIDE/DGS (Direção-Geral de Segurança); do serviço de segurança SDCI, criado após 25 de abril de 1974 e extinto após os acontecimentos de 25 de novembro de 1975; da segunda secção do EMGFA (Informação Militar), bem como materiais contendo informações sobre as operações do PCP no período de 1937 a 1975. O peso total dos materiais é de 474 quilogramas, incluindo 37 quilogramas recebidos em 26 de Março de 1977.” 

Em Janeiro de 1976, foi criado um grupo especial no 5º Departamento (responsável, entre outras coisas, por Portugal) da Primeira Direcção do KGB para processar os arquivos portugueses. Para efeitos de “segurança adicional”, escreve Mitrokhin, “foram feitos 67.138 microfilmes”. O material principal foi posteriormente distribuído por vários serviços e departamentos, incluindo o Comité Central do PCUS, a GRU (agência de inteligência militar) e outros departamentos da Primeira Direcção. Vários materiais foram entregues a “amigos de outros países socialistas” (o chefe do KGB deu, entretanto, ordens para proibir o acesso a quaisquer cópias dos documentos). 

As notas de Mitrokhin indicam o volume e a importância destes materiais. “Foram obtidas informações extremamente importantes sobre a estrutura, métodos de trabalho e rede de agentes dos serviços especiais dos EUA, França, Alemanha e Espanha no território de Portugal; sobre a sua colaboração (com a PIDE/DGS) e sobre a rede de agentes da PIDE/DGS em Portugal e nas ex-colónias; sobre as forças armadas de Portugal e de vários outros países; sobre os métodos de trabalho dos serviços especiais portugueses no combate à URSS e a outros países socialistas; sobre a situação operacional dos agentes no país, bem como sobre indivíduos de interesse do KGB.” 

O professor da Universidade de Cambridge, Christopher Andrew, num livro que coescreveu com Mitrokhin em 1999, acrescenta que o Serviço A (responsável pela «desinformação e medidas activas») utilizou alguns destes documentos para desacreditar os serviços de informação americanos, franceses e alemães. Por exemplo, a revista «Le Nouvel Observateur» publicou uma cópia de uma das cartas de Allen Dulles (Diretor da CIA entre 1953 e 1961), testemunhando a relação de confiança que ligava os serviços de informação portugueses e americanos. Uma outra reportagem publicada na revista «Jeune Afrique», sobre o assassinato do fundador do PAIGC, Amílcar Cabral, por sua vez, relatava pormenores comprometedores aos serviços de informação francês e alemão. 

Vasily Mitrokhin não é o primeiro a relatar a transferência destes arquivos para Moscovo. No seu livro de 1994, «Memórias de um Espião», o antigo general do KGB Oleg Kalugin descreve uma operação «incrivelmente ousada» na qual um camião cheio de «dados secretos de inteligência» foi transportado para a embaixada soviética em Lisboa (e depois levado de avião para Moscovo). Segundo Kalugin, o arquivo continha também materiais de “interesse limitado” sobre as operações militares americanas na Europa. O mais importante, escreve Kalugin, era “uma lista de milhares de agentes e informadores que trabalhavam para a ditadura”: “Mais tarde, as nossas autoridades usaram esta informação para forçar alguns destes agentes a trabalhar para nós [o KGB].” 

No prefácio da edição portuguesa de «O Arquivo Mitrokhin», José Pacheco Pereira destaca o “grande potencial operacional” dos arquivos da PIDE, que “permitiam fazer tudo: expor informadores, identificar fugas de informação, fazer chantagens, etc. Em nenhum outro lugar estes arquivos desempenharam um papel tão trágico como em Angola, Moçambique e Guiné”. «Os ficheiros estão a matar 'Memórias de um Espião'. Mitrokhin sabia disso e, claro, Cunhal também.» 

As provas de Kalugin (1994) e posteriormente de Mitrokhin (1999) foram sempre negadas pelo PCP. Os dirigentes do partido criticaram o facto de «esta história se basear em apenas dois dissidentes cujo testemunho não vale muito porque foi obtido em troca de mudança de lado». Numa entrevista publicada no «Avante!» à 13 de outubro de 1994, Álvaro Cunhal criticou a «campanha provocatória desencadeada contra o partido» após a publicação do livro de Kalugin. O líder histórico do PCP, por seu lado, admite que, em consequência “da própria invasão das instituições da PIDE (incluindo arquivos) por pessoas das mais diversas visões políticas imediatamente a seguir ao 25 ​​​​de Abril, houve um roubo de documentos que foram parar aos mais diversos locais por iniciativas individuais e incontroláveis”.

Blogueiro: algumas notas explicativas 

O KGB atribuía os nomes de código não apenas aos seus agentes e informadores, mas também aos adversários, às pessoas por si vigiadas e perseguidas. Os dissidentes soviéticos, vítimas das «medidas ativas» do KGB figuravam nos seus documentos secretos sob os códigos e não sob os seus nomes reais. Uma das razões era para minimizar o perigo de fuga de informação, mesmo no caso de ser originária dentro do próprio KGB: os chekistas temiam quer as estenografistas, quer os seus colegas, oficiais do KGB, que tempo à tempo, se refugiavam no Ocidente. Como tal, o facto de presidente Costa Gomes ser tratado pelo seu nome de código «Cavaleiro» não significa que ele era o agente do KGB, mas que, para as questões conspirativas, assim era tratado nos documentos da secreta soviética. No antanto, naturalmente, um destacado militar e ex-presidente da república não poderia desconhecer que o Conselho Mundial da Paz é uma criação soviética, uma «cobertura legal» às operações do KGB. 

Outro ponto: os agentes do KGB costumavam tentar valorizar o seu esforço operativo, pois, dessa forma, poderiam residir mais tempo no Ocidente, em vez de voltar à ao «socialismo real» na URSS cinzenta. Por isso, era algo costumeiro, exagerar os seus feitíos nos relatórios, usando às pessoas «às cegas». Ou seja, o caso do Fernando Lima pode ser semi-verídico: por um lado, o jornalista português certamente deveria desconfiar que está conversando não com o jornalista, mas com agente do KGB, e por outro lado, poderia, perfeitamente, contar-lhe as estórias open source, sem traír o seu país. Questão em aberto: se no caso do agente Kovalev o benefício é óbvio, obtenção de informação, no caso do Lima o benefício não se vislumbra tão facilmente. Jantares e almoços fartos gratuítos? Bem, algumas pessoas realmente se vendiam até por menos...

Finalmente, comparando os objetivos do KGB em 1979 e algumas narrativas de alguns partidos portugueses em 2025 chegaremos à uma semelhança incrível, com pequenos toques da modernidade: “a propaganda dos ideais do não alinhamento (no sentido mais abrangente); o fortalecimento das relações de Portugal com os países em desenvolvimento; o estreitamento dos laços políticos e económicos [entre Portugal] e a rússia, em particular, a criação de ideias que apoiem a causa russa nos assuntos internacionais”.