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sábado, outubro 03, 2026

Morreu Anatoly Kashpirovsky, charlatão do agonizante império soviético

Nos derradeiros anos da existência do império soviético, já em clara agonia, o «psicoterapeuta» ucraniano, Anatoly Kashpirovsky foi escolhido pelos responsáveis da televisão soviética como a figura perfeita de entreter as pessoas com um novo tipo de espetáculo — o curandeirismo televisivo. 

Em 1993 foi publicado em inglês «O Túmulo de Lenine», o primeiro livro do jornalista norte-americano David Remnick, pelo qual ele ganhou o Prémio Pulitzer em 1994. Enquanto jornalista do The Washington Post, Remnick, que mais tarde se tornou editor-chefe do The New Yorker, passou de 1985 à 1991 na URSS/rússia e documentou o colapso da União Soviética, desde o 1º Congresso dos Deputados do Povo até ao falhado golpe do Estado comunista de agosto de 1991.

David Remnick, «O túmulo de Lênin», a edição brasileira
da editora «Companhia das letras», 2017, 144,90 Reais

O texto que segue é um resumo livre do capítulo de «O Túmulo de Lenine», dedicado ao extremamente popular curandeiro, isso é, charlatão televisivo soviético, Anatoly Kashpirovsky. 

O show Kashpirovsky

Vestido todo de preto, num programa da TV soviética, chamado «Sessão de Televisão», surgia Kashpirovsky. Tinha o aspecto de um homem sob o efeito de drogas, com o cabela à Marlon Brando em «Júlio César». Começou a descrever o seu método de ligação com um «computador biológico» no corpo dos seus «pacientes», contando em como já tinha curado «centenas de milhares, talvez milhões» de tumores, hérnias e dores cardíacas, utilizando seu método. Falava devagar, em voz baixa, como se estivesse a ameaçar, como um disco de vinil de 16 rotações. Vangloriava-se de avanços médicos sem paralelo «em toda a história da humanidade», curando com sucesso pessoas de impotência, frigidez, cegueira, calvície, enfisema, quistos nos ovários, pedras nos rins, psoríase, eczema, varizes, cicatrizes, tuberculose, asma, diabetes, alergias, gaguez, astigmatismo e até «quatro casos documentados de cura de HIV-SIDA». 

Era ao mesmo tempo Deus e Ponce de León: segundo ele, os membros amputados e os dentes extraídos cresciam novamente, os cabelos grisalhos novamente escureciam e ganhavam brilho. Graças a ele, uma mulher de 70 anos voltou a menstruar e a mãe de Gorbachev ficou curada de artrite. Também existia a dieta de Kashpirovsky: um dos seus pacientes perdeu 158 quilos «sem qualquer flacidez cutânea». Pelo menos, era o que afirmava o seu médico... afiançado pelo próprio Kashpirovsky. 

Depois disso, surgia a banda sonora, uma poderosa onda eletrónica, um barroco sintetizado. 

«Liberte a sua mente de tudo», dizia Kashpirovsky, como um ventríloquo. «Liberte-a de aspirações e ambições. Feche os olhos. Deixe os seus sentimentos fluírem — o que quer que esteja a sentir agora. Terá sensações diferentes. O nosso silêncio é uma pausa, uma pausa sem palavras. As palavras são irrelevantes. Não há trabalho aqui. É difícil de compreender, porque as pessoas são treinadas para compreender a sua vida inteira. Esqueça tudo... Ouça a música... Não tenha medo do processo que começa no seu corpo... Se sentir algo a agitar-se por dentro, ignore...» 

Parecia que mal conseguia piscar. O seu rosto brilhava. Por vezes, ficava em silêncio durante longos períodos — apenas a olhar fixamente, com um leve sorriso. É isso que um convidado dominador faz quando vem jantar a sua casa, já meio embriagado: tem a certeza de que está cativado por tudo o que ele diz. 

«Alguns de vós estão agora a ver florestas, montanhas. Um... dois... três... Outros estão inundados de recordações muito tristes. Cinco... seis... Alguns estão a fazer planos para amanhã, a ponderar, a ponderar tudo... Sete...» 

Ao contar até dez, Kashpirovsky desaparecia do ecrão. «A sessão terminou», disse. 

Deveríamos estar curados. 

* * *

Após as suas primeiras sessões, Kashpirovsky ganhou uma popularidade incrível; um culto começou a formar-se. Todos conheciam o seu nome e consideravam-no um génio ou então um vigarista. Contou que o seu arquivo continha mais de um milhão de telegramas e cartas — a maioria de telepacientes agradecidos. Os estudantes e os reformados deixavam claro que estavam dispostos a tudo para estar perto dele, estudar com ele, dormir com ele. Senhoras idosas contavam que agora tinham um retrato de Kashpirovsky naquele cantinho de casa, em que outrora colocavam o retrato de Lenine. Nas províncias, os vendedores ambulantes vendiam postais do czar Nicolau II, John Lennon, Jesus Cristo e Anatoly Kashpirovsky. Era provavelmente a única pessoa em Kyiv com três carros na garagem e uma conta bancária bem grossa. Os jornais que criticavam Kashpirovsky corriam um sério risco. Quando o semanário russo «Literaturnaya Gazeta» publicou um artigo a chamar Kashpirovsky de perigoso charlatão, foi inundado por uma avalanche de cartas indignadas, ao ponto de o editor ter cancelado a reportagem seguinte. 

Alguns acreditavam que Kashpirovsky estava a curar não só as estrias e os lipomas, mas a União Soviética como um todo. Ele relutava em negá-lo. «Se eu me tornasse presidente, as pessoas beijariam as minhas pegadas após a minha morte: eu iria ao encontro do povo e agiria em seu benefício», dizia. A dimensão do seu eleitorado permanecia incerta, mas Kashpirovsky insistia que era significativo: «Ucrânia é demasiado pequena para mim». 

Os primeiras seis programas televisivos de Kashpirovsky foram transmitidas para todo o território soviético no fim de 1989. Com o surgimento de movimentos políticos independentes, muitos deles anti-comunistas, e o surgimento de primeiras greves de operários e mineiros, a Perestroika começou a sair do controlo de Gorbachev. O sistema de saúde estava devastado: as próprias autoridades admitiam que apenas 30% dos medicamentos essenciais estavam disponíveis, e até a aspirina e a penicilina estavam indisponíveis. Havia relatos constantes de hospitais onde o fornecimento de água tinha sido cortado e eram realizadas cirurgias à luz das velas. A ascensão de Kashpirovsky ocorreu precisamente numa época em que as pessoas estavam perdidas e confusas, procurando orientação espiritual. Como acontecia frequentemente na história do império russo, a desestabilização levou a um crescente interesse pela magia, profecias e bruxaria. A busca de Deus levava as pessoas não só a igrejas, mesquitas e sinagogas, mas também a impostores como Kashpirovsky. 

Quer no império russo, quer na URSS, os curandeiros e os espiritualistas estiveram sempre presentes. Um Leonid Brejnev já bastante senil convidou secretamente a famosa vidente Eugenia «Dzhuna» Davitashvili ao Kremlin. Na era de Perestroika, quando muitos dos tabús caíram, estas pessoas podiam agir abertamente. Na era Gorbachev, as idosas vendiam pulseiras de cobre nos parques da cidade, jurando que funcionavam como vacina contra a HIV-SIDA. Os horóscopos eram publicados em jornais do PC. A agência de notícias estatal TASS noticiou que um «objeto em forma de banana» que transportava «humanoides gigantes» e um robô anão tinha aterrado em Voronezh. Testemunhas oculares descreviam a nave espacial como uma «enorme esfera brilhante» contendo «um, dois ou três extraterrestres/alienígenas com três a quatro metros de altura, mas com cabeças muito pequenas». 

Em Moscovo, um outro curandeiro charlatão e concorrente direto do Kashpirovsky, Allan Chumak lançou o seu próprio programa de TV. Chumak fazia gestos com as mãos, como se estivesse a acariciar um gato invisível, e «carregava/energizava» copos e frascos de água e todo o tipo de cremes e champós que as pessoas colocavam em frente dos seus aparelhos da TV.

«Estou em contacto com outro mundo», dizia Chumak. Ao abrir um saco de lixo, tirava um dos incontáveis telegramas: «SOU SINCERAMENTE GRATO. PNT. TINHA TAQUICARDIA CRÓNICA E GASTRITE. PNT. OS MÉDICOS NÃO CONSEGUIRAM CURAR-ME. PNT. AGORA, GRAÇAS A SI, VIVO SEM MEDICAMENTOS. PNT. OBRIGADO, SERGEY NOVOCHERKASSK». 

À cada duas semanas Chumak aparecia no pátio do prédio, onde vivia e trabalhava, para curar as centenas de pessoas ali reunidas. Uma grande multidão aguardava-o. Alguns transportavam fotografias de crianças ou parentes doentes: esperavam que o curandeiro transmitisse a sua energia através da fotografia. Chumak ficava na varanda e convidava todos para sentirem a sua aura. Mas avisava-os de antemão: não podia curar os antigos chefões comunistas. 

«As suas almas endureceram completamente», explicava. 

* * *

Kashpirovsky, considerava Chumak como um vigarista; ele próprio que não era um curandeiro comum. Era um supermédico, um sacerdote secular da alma e do corpo. «Eu não curo. Eu implemento a Grande Ideia. Mas não promovo a religião. De que serve Jesus ter andado sobre as águas há dois mil anos? Como é que isso ajuda estas pessoas?» Coçava o queixo e refletia sobre a origem do seu extraordinário dom. «O poder espiritual que guiou Jesus Cristo provavelmente também vive em mim», dizia. «Daqui a 50 anos, penso que serei venerado como um santo». 

Kashpirovsky formou-se em psicoterapia em Vinnytsya, uma cidade do interior da Ucrânia. Também trabalhou lá durante 28 anos num hospital psiquiátrico. O seu salário era modesto: para ganhar cem rublos extra por mês, carregava sacos de cimento e troncos de madeira em camiões basculantes à noite. Durante algum tempo, foi um halterofilista e pugilista/boxeador. Já com mais de 50 anos, orgulhava-se da sua boa forma física e afirmava: «Posso vencer qualquer campeão do mundo». Kashpirovsky contava que em 1975 sofreu um ataque agudo de pancreatite e quase morreu. Alegadamente esteve um ano num hospital na Ucrânia e depois foi para Sacalina, onde percorreu a ilha de uma ponta à outra, comendo, como contava, apenas um biscoito por dia. «Graças ao jejum, recuperei», afirmava. 

Kashpirovsky começou a fazer experiências com hipnose e cura em massa em 1988. Realizou cinco sessões televisionadas em Kyiv e, segundo ele, curou milhares de crianças de enurese noturna. O método de tratamento era bastante obscuro: a cura verbal, que de alguma forma restabelecia o equilíbrio natural do corpo. «As experiências de felicidade e tristeza têm uma certa base material, bioquímica. Quando estou com medo, liberto muita adrenalina. Quando estou deprimido, ainda mais», explicava Kashpirovsky. «Abrem-se portões dentro de si, e você percebe informação. Como esses portões se abrem, não sabe — este é o meu método. A informação entra em si, mas como não sabe como, permanece dentro de si. Penetro mais fundo do que a consciência, na própria essência do organismo, e curo o corpo. A minha marca permanece lá». 

Em 1989, Mikhail Nenashev, um cinzento aparatchik do PCUS e o dirigente máximo da TV estatal soviética, dizia aos seus assistentes que o principal objetivo da televisão era «acalmar e tranquilizar» as massas irrequietas. Em Kashpirovsky, Nenashev encontrou esta voz tranquilizadora. Autorizou as sessões espíritas de Kashpirovsky, que em 1989 eram transmitidas na TV não só na União Soviética, mas também na Bulgária, Polónia, Israel, Checoslováquia e países nórdicos. «Num país onde não se encontra sequer aspirina, é impossível não ter esperança num milagre», observava a jornalista moscovita Elena Chekalova. «Depois aparece alguém e oferece uma solução fácil, um milagre. Este fenómeno é bem conhecido nos países pobres e miseráveis». O conceituado pivó da televisão soviética/russa Leonid Parfenov acrescentava: «O papel de Kashpirovsky era o mesmo de Gorbachev em 1985-86. Até os gestos eram semelhantes. Os seus discursos estão repletos de absurdidades, mas mesmo assim cativavam o público e inspiravam a confiança». 

Kashpirovsky realizou o seu maior feito televisivo durante uma teleconferência entre Kyiv e Tbilissi. Uma mulher chamada Lesya Yurshova, hospitalizada em Tbilisi, precisava de uma grande cirurgia abdominal. Recusou a anestesia geral e permitiu que Kashpirovsky, que se encontrava em Kyiv, a hipnotizasse através da televisão. O resultado foi uma fantasmagoria dividida entre duas capitais.

«Feche os olhos e cante 'Álamos, álamos!'", ordenou Kashpirovsky à pobre mulher. Ela até conseguiu trautear algumas notas dissonantes.

«Feche os olhos! Feche-os! Flutue!», dizia Kashpirovsky. «O seu estômago está dormente até à coluna! Os seus olhos estão fechados! Sentirá o instrumento, mas não a dor. Depois, faremos com que a cicatriz desapareça. Se um dos especialistas me perguntar se está a dormir ou não, o que responderá?»

«Não, não estou a dormir», respondeu a mulher timidamente. «Como posso dormir se sinto tudo?»

No final da operação, Kashpirovsky disse à plateia: «Agora, todos os que me assistiram podem ir ao dentista e extrair um dente. Não vai doer, garanto-vos». 

Kashpirovsky declarou que o programa tinha feito um marco histórico na medicina — «não, na história espiritual!» Mas a doente rebelou-se. Mais tarde Lesya Yurshova contou aos jornalistas que, na verdade, sentiu uma «dor monstruosa» durante a operação, mas suportou-a porque «não queria desiludir Kashpirovsky». 

O presidente da Associação Independente de Psiquiatria, médico ucraniano Yuri Savenko afirmou que a conivência do Ministério da Saúde da URSS com as sessões televisivas de Kashpirovsky era ultrajante. Considerou que se tratava de uma campanha secreta do PCUS para oferecer «pão e circo» às pessoas. Não era o único a acreditar que o PC precisava de tais programas para distrair as pessoas dos problemas e sofrimentos quotidianos. «O cristianismo é uma fina camada de verniz para os russos», dizia. «Mas, essencialmente, são pagãos. Observam os rituais sem compreender o seu significado. Na atual conjuntura política, o misticismo está a popularizar-se e, com um nível cultural tão baixo, assume formas escandalosas». Segundo Savenko, um dos seus colegas possuía «dados precisos» que comprovavam que as sessões de Kashpirovsky não só não curavam as pessoas, como, pelo contrário, levavam algumas à psicose. Nenhuma investigação foi conduzida. Não foi fácil para os jornalistas e médicos expor uma figura tão popular: em 1990, Kashpirovsky foi eleito Personalidade do Ano na URSS e tinha mais fãs do que qualquer político ou estrela de cinema. 

* * *

Em digressão pela URSS, Kashpirovsky enchia salas de concerto, armazéns industriais e até estádios de futebol. As cassetes de vídeo das suas apresentações circulavam de mão em mão, à semelhança dos livros aoutrora proibidos de antigos dissidentes. Nas províncias, as salões de vídeo e os cinemas organizavam «noites de Kashpirovsky», exibindo as aparições do artista na televisão. Como homem de negócios, Kashpirovsky incomodava-se com a distribuição pirata destas gravações. No início de uma fita, pruduzida nos EUA, o aviso padrão do FBI sobre a ilegalidade da cópia pirata da fita, era seguido por uma mensagem do próprio Kashpirovsky: «Atenção! Caso for copiada, esta fita perderá as suas propriedades curativas!» 

As digressões internacionais do Kashpirovsky eram uma mistura de New Age e Beatlemania. Ele até reconhecia que havia um «culto de Kashpirovsky», mas assegurava que «não vou ordenar que rebentem com uma central nuclear. Não há necessidade de se preocupar em tornar-se um novo Estaline ou algo do género». 

Mas o mundo, todo o universo, não estava preparado para o seu dom. «A humanidade ainda não está madura para a salvação», dizia. «As capacidades técnicas ainda não existem. Imagine: todos estão saudáveis, ninguém está a morrer, as pessoas continuam a reproduzir-se. Para onde irão? Outros planetas ainda estão desabitados. É assim que funcionam as coisas». 

No fim dos show, quando tudo terminava, Kashpirovsky ficava à beira do palco. Avós, mães e crianças apressavam-se a apertar-lhe a mão e a captar o seu olhar curador. Algumas tentavam falar com ele em privado — para lhes contar sobre os seus cancros, enxaquecas ou tumores. «Eu não sou um médico comum!», protestava Kashpirovsky, irritado. «Não me falem em doenças específicas!» No entanto, Kashpirovsky dava ocasionalmente conselhos aos pacientes que se queixavam dos seus problemas. 

«Tome, então, seus comprimidos», dizia. 

Blogueiro 

O fenómeno de Kashpirovsky não podia estar ausente do imaginário quotidiano da minha própria família. Um dos meus familiares, nasceu naquela mesma época, com a hernia hereditária. Os seus avós, casal de professores escolares, com idades superores aos 60 anos (ele, à lecionar na área de física e qúimica e ela, na área de matemática: algebra e geometria), ambos com a formação superior completa, ficaram absolutamente entusiasmados com a possibilidade de rápida e eficiente cura televisiva. O menino foi colocado em frente do televisor, com as penas abertas ao ár e a sua piloca e a hérnia ao leu. 

— Veja, exclamaram, no fim do programa, a hérnia já não está visível, o menino está curado! 

Eu, um adolescente de apenas 13 anos, não estava nada convencido da manifestação daquele milagre, embora a vontade não me falatava de ver o menino querido completamente curado. Como era de prever, a hérnia reapareceu no mesmo lugar, onde estava desde sempre. A minha confiança no curandeiroismo televisivo desapareceu para sempre. Mais tarde, pelo mesmo caminho foi a minha confiança na educação fundamental soviética, como quase sempre, «a melhor do mundo».

domingo, maio 10, 2026

Universidade pública russa treina hackers e sabotadores para a secreta militar GRU

[M] DER SPIEGEL; Fotos: Galina Savina / depositphotos / IMAGO; DER SPIEGEL; FBI (2);
Hans Christian Plambeck / laif
A Universidade Técnica Estatal «Bauman» de Moscovo (BMSTU) forma os hackers e ensina técnicas de desinformação. Alguns graduados já estão afetos à unidade militar Nrº 74455 do GRU, responsável pelos ataques às infraestruturas civis na Ucrânia e na Geórgia (o que constitui um crime de guerra). 

Uma investigação conjunta dos The Insider, The Guardian, Le Monde, Der Spiegel, Frontstory e VSquare revelou que o centro de treino militar da Universidade Técnica Estatal «Bauman» de Moscovo (BMSTU) possui um departamento secreto que forma hackers e sabotadores para a secreta militar russa GRU. Os jornalistas analisaram mais de dois mil documentos internos do departamento, incluindo currículos, contratos, cartazes de propaganda e listas de alunos, graduados e professores. Na sua investigação, as publicações detalham como os estudantes promissores são preparados para carreiras na GRU — secreta militar russa responsável por hackear as páginas oficiais de governos ocidentais, envenenar figuras da oposição russa e interferir em eleições na Europa e nos Estados Unidos. A publicação russa Meduza resume as principais descobertas da investigação. 

O Departamento nº 4 do Centro de Formação Militar de Universidade Bauman forma os alunos sob a supervisão de oficiais do GRU. Este departamento não é mencionado na página/no site da universidade na secção que descreve a estrutura do centro de formação — aí, o Departamento nº 5 segue o Departamento nº 3.

Um dos cursos do Departamento nº 4 chama-se «Neutralização da Inteligência Técnica» e abrange toda a gama de ferramentas modernas de hackers. Durante as aulas práticas, os alunos realizam «testes de intrusão» utilizando um vírus informático e, para a avaliação final, devem desenvolver o seu próprio vírus.

O departamento também ensina «propaganda, agitação, manipulação e persuasão» (assim se chama uma das palestras), e os alunos são encarregados de criar um «vídeo social sobre qualquer tópico de interesse» usando «manipulação», «pressão» e «propaganda oculta». Os alunos aprendem também os princípios de funcionamento da CIA, do FBI e da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA, e os seus trabalhos de fim de curso centram-se nas redes de computadores seguros do Pentágono. Outra secção do currículo é dedicada às tecnologias militares: os alunos estudam a experiência de combate das unidades das forças de operações especiais russas, bem como o design de vários tipos de drones ocidentais — americanos, britânicos e alemães.

O esquema que enumera os assim chamados «canais técnicos de fuga de informação»

O vice-chefe do departamento é o tenente-coronel Kirill Stupakov, que leciona um curso especial sobre tecnologias de espionagem, incluindo técnicas de escuta telefónica e vigilância. Diz aos estudantes que a a invasão russa da Ucrânia (a «operação militar especial», a SVO, no jargão patrioteiro russo), era «inevitável» porque Ucrânia era alegadamente governada por supostos «nacionalistas e neonazis», mas na correspondência privada, Stupakov refere-se a Dmitry Medvedev como «Dimon» (Dimão), Putin como «velharia» e o chefe do Estado-Maior General Valery Gerasimov como um «alcoólico todo fodido».

Todos os anos, 10 a 15 alunos do departamento são admitidos nas unidades do GRU. Alguns graduados servem na unidade militar Nrº 74455, interligada ao grupo de hackers Sandworm, que orquestrou vários grandes ataques cibernéticos nos últimos anos. Os graduados são também enviados para o Fancy Bear, um outro grupo de hackers russos igualmente notório, implicado em inúmeros grandes ciberataques.

Em abril de 2025, vladimir putin visitou Universidade Bauman, reunindo-se com estudantes e percorrendo o novo edifício e a exposição de desenvolvimento da universidade, onde lhe foi apresentado um novo drone. O presidente russo não fez qualquer menção ao 4º Departamento durante esta visita.

quinta-feira, março 19, 2026

O patriarca ortodoxo, um ex-agente do KGB, Ilia, morre na Geórgia

Na Geórgia, faleceu o Patriarca Ilia (nascido Irakli (Erekle) Gudushauri-Shiolashvili), o patriarca da igreja ortodoxa georgiana e grande amigo do Kremlin, da IOR, da rússia e do putin.


Foi o chefe da Igreja Ortodoxa Georgiana durante quase 50 anos. Desde os tempos do socialismo científico até à luta pela independência sob a liderança de Zviad Gamsakhurdia, a guerra civil, duas guerras perdidas contra a rússia, as reformas de Mikheil Saakashvili e a contra-reforma de Bidzina Ivanishvili.

Ficha do agente do KGB, recrutado em 10.I.1962

Foi verdadeiramente um ícone nacional, uma autoridade pública indiscutível. Nem mesmo a revelação, no início da década de 1990, de que era um agente do KGB sob o pseudónimo de «Iverieli» mudou alguma coisa. Batizou pessoalmente dezenas de milhares de crianças, e estes afilhados e as suas famílias tornaram-se os seus guardiões. Mas permaneceu um homem sovietizado, incapaz de romper com Moscovo. Não permitiu que a igreja georgiana reconhecesse nem a Igreja Ortodoxa da Ucrânia - Patriarcado de Kyiv, nem a nova Igreja Ortodoxa da Ucrânia. O seu sentimento anti-ocidental, o ultraconservadorismo da igreja tornaram-se a base da viragem anti-ocidental, levada a cabo nos últimos anos em prol dos interesses da rússia. Com completo silêncio, ou seja, a aprovação tácita do patriarca.

Para ele, o suposto liberalismo da Europa imaginária revelou-se mais terrível do que a ocupação russa real e a subjugação efectiva do Estado e da igreja georgianos aos interesses do Kremlin. Toda a sua vida viveu apenas em cenários russos. Mesmo sendo georgiano, porque como agente do KGB escolheu ser «Iverieli».

domingo, dezembro 07, 2025

NPCUS: o partido clandestino da extrema-esquerda soviética

Em setembro de 1974, dois grupos radicais clandestinos de esquerda soviética russa, o Partido dos Novos Comunistas (PNC) e a «Escola da Esquerda», se uniram, no também clandestino Partido Neocomunista da União Soviética (NKPSS / NPCUS), organização que contestava o «socialismo real» soviético. 

O PNC nasce, quando na viragem/virada do ano de 1972 para 1973, junto a uma árvore de Ano Novo, dois estudantes do ensino médio de Moscovo/ou — Aleksandr Tarásov (1958) e Vasily Minorsky — decidem fazer a revolução marxista num país do «socialismo triunfante» — União Soviética. 

Uma revolução precisa de um partido clandestino, alias, são necessários grupos clandestinos dos quais o partido emergirá. Paralelamente a esses dois revolucionários, na mesma Moscovo/ou, no início de 1973, surge um outro grupo comunista clandestino, chamado «Escola da Esquerda», composto por seis alunas, unicamente as meninas, estudantes do 2º ano do Instituto Pedagógico Estatal de Moscovo/ou, liderado pela Natalia Magnat (1954-1997) e Olga Barash (1955). 

Natalia Magnat em 1979

Em setembro de 1973, alguns membros de dois grupos participam, de forma independente, num encontro público, conduzido pelo propagandista soviético Valentim Zorin, debatendo a questão da situação no Chile. Pelas perguntas sobre a esquerda ocidental, movimento estudantil, os Panteras Negras, a contracultura, colocadas pela Natalia Magnat, Tarasov, presente no encontro, percebe que encontrou as suas almas gémeas. Nenhum dos dois suspeitava que o outro também fosse membro de um grupo clandestino. 

Após meses de intercomunicação, em maio de 1974 surge uma situação que deixa de ser simplesmente romântica e se torna teatral, dramática e até cômica também. Os dois grupos tentam recrutar um ao outro: “Temos nossa própria organização – talvez vocês devessem se juntar a nós?” Ambos retornam correndo para seus respectivos grupos, relatando: «Nós, os recrutadores, estamos sendo recrutados!» 

Olga Barash (1955)

Em setembro de 1974, os jovens marxistas formam o Partido Neocomunista da União Soviética (NKPSS em russo, ou seja NPCUS). A organização se beaseia ideologicamente nos «Princípios do Neocomunismo» que foram revisados ​​por Tarasov em maio-junho de 1974 e adotados como documento programático. A liderança soviética pós-Lenine traiu a causa da revolução. O país está entrando em estagnação. O número de pessoas com mentalidade burguesa e consumista está crescendo. Com tal liderança e estado de espírito geral, a pressão ocidental não pode ser resistida. Os dissidentes [soviéticos] não são melhores que o governo, mas piores [por serem, na sua maioria liberais, pró-Ocidente e/ou anti-comunistas]. No final do século XX, o colapso da URSS e o ressurgimento do capitalismo se aproximam, e as coisas piorarão ainda mais. Mesmo assim, NKPSS ainda acredita que o socialismo foi construído na URSS. Acreditam que União Soviética precisa de uma revolução puramente política, sem alterar o sistema económico. 

Os jovens marxistas estão profundamente desiludidos com a sua própria geração. Com uma certa razão, pois a juventude soviética das décadas 1970-80 está profundamente apolítica e consumista. Ninguém sequer se interessa pelo Ché ou Gramsci, mas todos queriam saber onde podiam «arranjar» isso é, comprar calças jeans. Nem que sejam os jeans da Índia, já que um par de jeans de marca ocidental, custam, no mercado negro, dois salários do engenheiro soviético, os 250 rublos (cerca de 431 dólares ao câmbio oficial soviético). 

Graças à imensa vontade e muita procura, a organização encontra os camaradas com ideias semelhantes, em Leningrado, Dnipropetrovsk (célula liderada pela Galina/Halyna Tyukavkina), Kaliningrado, Kirov, Riga, em Tbilissi e Rustavi na Geórgia, extremamente poucas e muito distantes entre si. O NKPSS cresceu para 32 membros. Outras, cerca de trinta pessoas foram notavelmente influenciadas.

No verão de 1974, os ativistas deram um passo arriscado: pintaram slogans nas paredes dos prédios: «Revolução – já!», «Tirem os idiotas do poder!», «Dez anos são suficientes!» (do governo de Brejnev). As inscrições à giz estavam desbotadas e frágeis; panfletos foram guardados para o futuro. Era tudo muito romântico, recordou Tarasov mais tarde, com humor. «Um escreve, dois vigiam – será que a polícia está vindo?» 

Disiplina notável e medidas de conspiração excepcionais 

O NPCUS foi marcado por um altíssimo grau de disciplina partidária e uso de medidas de conspiração excepcionais. Membros ocultavam cuidadosamente suas identidades. Há um camarada que teve medo de se filiar ao partido, mas concordou em guardar o seu arquivo. Nenhuma prova incriminatória foi encontrada durante as buscas, pelo KGB, nas casas dos militantes. Toda comunicação era feita somente através caixas postais e cabines de telefones públicos. Os números de telefone eram memorizados. Os números secundários anotados nas páginas de livros, disfarçados de números de página. Pseudónimos nunca eram associados aos nomes reais, isso é, Tarasov nunca seria «Taras» ou Magnat não seria «Magna». Correspondência com células regionais era cifrada, usando a tinta invisível. 

Como a KGB os descobriu? Conversas abertas e descuidadas, feitas por alguns membros. De oitenta à cem pessoas poderiam tê-los denunciado. Alguém o fez, de uma ou de outra forma. 

Logo após as festas de Ano Novo de 1975, KGB lançou a operação para aniquilar o partido. De uma única vez foram presos 10 membros da célula moscovita (mas somente em 1980, foram descobertos e presos Irina Borisenkova-Orlova e Vadim Makin, a célula da cidade de Kirov). Os camaradas de Kirov eram muito ativos nos círculos artísticos e teatrais locais, promovendo as ideias da “nova esquerda”, principalmente as ideias do “protestos juvenis da década de 1960” e da contracultura da esquerda ocidental. As meninas da «Escola de esquerda» nunca foram apanhadas. Todas os outros foram presos no mesmo dia, exceto Tarasov, que viajava no comboio/trem Leningrado-Moscou. KGB não sabia onde ele estava — naquela época, as passagens eram vendidas sem apresentação do documento de identidade. Ao saber das prisões, Tarasov conseguiu queimar todos os documentos do arquivo. No fim, KGB o esperava em casa. 

Os presos tiveram relativa sorte. Não existindo os documentos escritos que confirmassem a existência do partido, então acusação só podiam se basear na transcrição de conversas. Em segundo lugar, eram extremamente jovens; um dos membros tinha apenas quatorze anos. O caso nunca foi a julgamento — Tarasov, Dukhanov e Nikolai Nikitin foram internados em hospitais psiquiátricos especiais, isso é, destinados aos psicopatas reais e também aos dissidentes. Oficialmente, a lei soviética não permitia a permanência, num hospital psiquiátrico, superior aos seis meses, sem uma sentença judicial. Para os demais, a punição foi a expulsão do ensino superior e/ou da juventude comunista Komsomol, chamada, às pressas, ao serviço militar, outras medidas de coersão. 

Durante os interrogatórios do KGB, os membros da organização alegaram que aderiam principalmente às ideias do marxismo-leninismo, considerada a ideologia oficial na URSS, e que os seus desvios ideológicos ao trotskismo, o anarquismo e o existencialismo não podiam ser considerados crimes, pois «na URSS as pessoas não eram julgadas por suas opiniões, mas sim por suas ações». 

Um dos membros da organização era familiar do Semyon Tsvigun, um dos vices do chefe do KGB Yuri Andropov e próximo ao assim chamado «grupo do Brezhnev». Muito provávelmente que tenha sido Tsvigun quem substituiu a prisão real por enternamento num hospital psiquiátrico — ter um parente prisioneiro político era muito mais ruinoso para a carreira de um alto burocrata soviético, do que ter um parente insano. 

No entanto, na psiquiatria punitiva soviética existiam várias maneiras de levar dissidentes à loucura. ECT (eletroconvulsoterapia), coma insulínico, doses maciças de antipsicóticos. Grandes doses de antipsicóticos fazem com que a pessoa gire em torno do próprio eixo (no jargão dos pacientes, «torce»). A cabeça gira para trás, o corpo se inverte. Os ossos podem se deslocar. A ECT pode causar perda de memória, como aconteceu com camarada Igor Dukhanov, responsável pela segurança do partido. 

Seis meses depois, Tarasov foi interrogado por uma comissão: «[...] Havia cerca de cinco pessoas lá: meu médico, o chefe do departamento e três desconhecidos.Um deles provavelmente era o médico-chefe, e os outros dois, presumo, eram do KGB. Claro, todos usavam batas brancas. Fizeram-me várias perguntas — sobre meu estado, minhas opiniões, se eu entendiaonde estava, em que cidade estava, que dia era, que ano era, e assim por diante. Pediram-me para andar de um lado para o outro várias vezes. Fizeram perguntas sobre minha atitude em relação às autoridades,se eu achava certo estar ali, se eu me lembrava dos nomes dos meus pais, as datas da Grande Guerra Patriótica... [...] Dois homens desconhecidos eram os mais importantes – […] eles faziam perguntas aos outros,até mesmo ao médico-chefe; às vezes nem sequer faziam perguntas, apenas olhavam para o médico-chefe ou o chefe do departamento – e rapidamente explicavam algo a eles. Um dos homens da KGB,aparentemente o mais importante, não me fez nenhuma pergunta, falando apenas com os médicos. A segunda pessoa, que me fez perguntas, não era psiquiatra – dá para perceber pelo jeito de falar(todos os psiquiatras soviéticos falam com os pacientes de uma maneira particular – você percebe imediatamente que eles o consideram inferior e o tratam como se estivesse doente – em parte com simpatiae carinho, como uma criança ou um gatinho, em parte com desdém. Você percebe que suas palavras não são uma fonte confiável de informação para eles; eles conhecem a realidademelhor do que você)». Uma cena verdadeiramente shakespeariana. 

A primeira comissão considerou o camarada Tarasov insuficientemente insano. Ele deu respostas corretas demais, lembrou-se de muita coisa. A eletroconvulsoterapia, à insulina e aos antipsicóticos, acrescente-se espancamentos, com as mãos algemadas. Tarasov afirma ser vítima de espancamentos, recebendo os golpes na virilha, nos rins e na cabeça. Não por enfermeiros, mas por «militares» (?), que se faziam passar por profissionais da saúde (as vezes, eles se esqueciam da conspiração dirigindo-se uns aos outros pelo seu patente). 

É de notar que vários outros ex-membros do NPCUS consideram as memórias do Tarasov parcialmente mitómanas, não porque o seu camarada é um mentiroso compulsivo, mas porque considerava toda a sua escrita como a continuação da luta pelo ideal marxista, tal como ele o imagina. 

Seis meses depois, o rapaz de dezessete anos é finalmente libertado – deficiente, com hipertensão, reumatismo, espondilite anquilosante, doenças hepáticas e pancreáticas, incapaz de se mover sem analgésicos. Perante a segunda comissão, o prisioneiro consegiu representar um papel semelhante ao de Hamlet, o de um louco, tornado inofensivo. Se a avaliação da primeira comissão era shakespeariana em caráter e profundidade, agora as analogias são literais. Além disso, ele está realmente em péssimo estado físico. Além disso, segundo a legislação soviética, era impossível mantê-lo preso por um ano sem julgamento. O Ministério Público, em teoria, poderia se irritar com o KGB, e o diretor do hospital poderia, também em teoria, ser demitido. Existia uma bastante frágil sombra de «legalidade socialista» – as autoridades soviéticas fingiam seguir as normas. 

Tarasov, após a sua libertação do internamento psiquátrico em 1976

A ala feminina do partido, Natalia Magnat e Olga Barash, diariamente esperavam serem presas, desenvolvem a insônia crônica e dependem de remédios para dormir. Magnat, que se tornou responsável de toda a organização durante esse período, é acometida por anorexia e, mais tarde, pela doença de Crohn. Vários membros abandonaram o partido. Inna Okup emigra para Israel. 

Em 8 de janeiro de 1977, vários atentados bombistas perpetrados por, alegados nacionalistas armênios abalaram Moscovo/ou. KGB se lança na investigação de todos os potenciais suspeitos. Tarasov, detido e interrogado pelo KGB, escapou à uma prisão real por um raro golpe de sorte: no dia do atentado, ele estava enternado no Instituto de Reumatismo, à vista de todos, possuindo um álibi perfeito. Mesmo assim, até 1982, Tarasov, como alguns outros ativistas do NPCUS viviam sob a vigilância constante do KGB.

Espaço da loja nº 15, Moscovo, 8.01.1977


Carruagens do metro de Moscovo, 8.01.1977

Após a primeira onda de prisões em janeiro de 1975, Natalia Magnat assumiu a liderança daquilo que restou do partido, que não havia ter sido descoberto, conduzido a organização ainda mais para a clandestinidade, salvou-a da destruição completa — até que a restauração do partido re-começou em 1977-1980. Entertanto, percebendo a falta de quisquer possibilidades de influenciar a sociedade, o NPCUS foi auto-dissolvido, por decisão dos seus membros, em janeiro de 1985. 

A razão da repressão soviética? 

Porque razão o Estado soviético usou toda a sua máquina repressiva para perseguir e aniquilar um minúsculo grupo marxista, mesmo que discordante de alguns aspetos do regime vigente? Temos que entender, que o regime soviético / russo sempre estava e está muito desconfiado de todos aqueles que acreditando em algo, possuem a sua própria opinião, independente das narrativas do regime. Tal como URSS perseguia implacavelmente os marxistas, o regime russo pré-2014/2022, bastante neo-fascista, na sua essência, perseguia os nazis e fascistas russos (com uma «amnistia» temporária e não oficial para aqueles que aceitem participar na guerra contra Ucrânia). O regime do Kremlin pretendia, desde sempre, que cidadão não tenha nenhuma posição sua própria, e que, sem nenhuma sombra de dúvida, acate, quaisquer mudança do discurso ou de atitude, à esquerda ou à direita, imposta pelo poder russo. O cidadão exemplar, como dizia a velha piada soviética: «se desvia somente em sintonia com a linha geral do partido». 

Os jovens marxistas, membros e simpatizantes do NPCUS, ousaram questionar a autoridade suprema do Estado soviético. Amanhã poderiam protestar, nem que seja nas conversas das suas cozinhas moscovitas e depois de manhã, até, quem sabe, poderiam aderir às táticas bombistas dos revolucionários russos dos séculos XIX-XX, como tal, mais valia se prevenir, do que os remediar, achava o KGB. 

A trajetória do Tarasov pós-NPCUS 

Após o início da Perestroica e do fim das repressões políticas na URSS, ele oteve a formação superior em economia e história, se profissionalizando como sociólogo e cientista político. Ainda em 1999, Tarasov exigiu a introdução do estatuto de agente estrangeiro na rússia, e a consequente repressão contra aqueles que o recebessem. Reagiu negativamente aos protestos democráticos da rússia putinista (dezembro de 2011 e fevereiro de 2012), caracterizando-os como protestos da pequena burguesia e de uma «revolta dos consumidores». Em 2012, acusou o regime de putin de supostamente subfinanciar o complexo militar-industrial russo, apesar dos elevados gastos militares da rússia.

Alexander Tarasov em 1990-92

Em 2013-14, Tarasov categoricamente e ativamente opôs-se à Revolução de Dignidade (Movimento Maydan) da Ucrânia. Posicionou-se publicamente ao lado das ditas «repúblicas populares» de Luhansk e Donetsk, apelou aos esquerdistas russos, para que participassem, com as armas nas mãos, na guerra contra Ucrânia e ao lado das forças russas e separatistas pró-russos. 

Texto em português @Universo Ucraniano

sexta-feira, agosto 08, 2025

17 anos atrás começou a guerra e invasão militar russa na Geórgia

Hoje, assinalam-se 17 anos desde o início da guerra russo-georgiana, em agosto de 2008 — uma página trágica na história moderna da Europa. A famosa «guerra de 5 dias» que o mundo deixou passar, apenas abrindo os apetites ao regime neofascista russo. 

Segundo dados oficiais:

  • 170 militares do Ministério da Defesa da Geórgia foram mortos;
  • 14 funcionários do Ministério do Interior morreram;
  • 224 civis foram mortos;
  • Mais de 2.200 pessoas ficaram feridas, das quais 1.045 eram militares;
  • Cerca de 30.000 pessoas foram forçadas a abandonar as suas casas;
  • 20% do território da Geórgia ainda está sob ocupação russa.

A rússia não cumpriu os termos do acordo de cessar-fogo de 12 de agosto de 2008 — em particular, não retirou as suas tropas para posições anteriores à guerra. A ocupação e a militarização da Abecásia e da região de Tskhinvali continuam. A federação russa está a reforçar as linhas de demarcação com arame farpado e barreiras artificiais, a realizar exercícios militares ilegais e a sequestrar os civis georgianos.

Revista ucraniana «Ukrayinskiy Tyzhden», 15-21 de agosto de 2008 avisa, de forma
extremamente clarividente: «Ucrânia será próxima». Pouca gente percebeu o perigo...

Não nos resignamos à ocupação.

Acreditamos que a Geórgia será unificada e livre.

sexta-feira, junho 27, 2025

Estaline, o assaltante de bancos, que se tornou ditador comunista

Em 26 de junho de 1907, ocorreu um assalto, com o assassinato de guardas, de um coche de transporte de valores em Tíflis (atual Tbilissi), organizado por um grupo de bolcheviques, sob a liderança de Ter-Petrosyan («Kamo»). O jovem Iosif Dzhugashvili («Estaline») participou no assalto. 

O assalto, no decorrer do qual, os bolcheviques usaram pistolas e bombas/granadas, resultou em cerca de cinquenta feridos. As autoridades anunciaram três mortos, mas documentos dos arquivos da Okhrana indicam que na realidade havia cerca de quarenta mortos. 

É e notar que expropriação foi realizada pelos bolcheviques apenas algumas semanas após a conclusão do Congresso de Londres do Partido Social-Democrata russo (POSDR), que adotou uma resolução proibindo expressamente as expropriações. Nesta medida o assalto piorou as relações do centro bolchevique com os grupos sociais-democratas europeus. 

Apesar do sucesso do roubo, os bolcheviques não conseguiram usar a maioria das notas de alto valor, pois a polícia sabia o número das notas. Lenine havia planeado um saque simultâneo de notas de alto valor por vários indivíduos em vários bancos da Europa em janeiro de 1908, mas o plano fracassou, resultando na prisão de vários participantes e na repercussão do caso em todo o mundo, além de reações negativas dos social-democratas europeus. 

Na historiagrafia da era soviética, esse assalto era chamado de «expropriação». Foi a segunda grande ação de assalto, sob a liderança de «Kamo». O primeiro assalto transcorreu sem consequências para os participantes, e o dinheiro foi usado para financiar a revolução russa de 1905-1907. Com o segundo assalto, não se sabem muito bem, para onde foi uma parte considerável do dinheiro roubado. 

Interessante o destino posterior do Ter-Petrosyan. Após a vitória dos bolcheviques ele trabalhou em agências alfandegárias. Existe a versão de que ele próprio desejava trabalhar nas estruturas das agências de repressão comunista, mas a sua mentre o «tornou mentalmente instável e, Estaline decidiu não correr riscos”. Ou seja, «Kamo» possuia a personalidade tão psicótica, que o próprio Estaline achou que seria demais lhe confiar quaisquer tarefa mais violenta. 

Morreu, em julho de 1922, atropelado por um camião em Tbilissi. Embora não haja evidências de assassinato deliberado, existem teorias de que Estaline ordenou sua morte para se livrar de uma testemunha inconveniente.

As ações exatas de Estaline no dia do roubo são desconhecidas e controversas. No seu livro «Stalin: Uma Avaliação do Homem e Sua Influência», Lev Trotsky analisou inúmeras publicações que descreviam a expropriação de Tíflis e outras operações bolcheviques da época e concluiu que Estaline comandava as operações à distância. 

De acordo com o historiador Roman Brackman, alguns dias após o roubo, Mukhtarov, um agente da Okhrana, interrogou Estaline em um apartamento secreto. Na sequência deste encontro Estaline recebeu ordens de deixar Tíflis e ir para Baku para aguardar uma decisão sobre o caso. Estaline deixou Baku com 20.000 rublos de dinheiro roubado em julho de 1907. Apesar das alegações de Brackman de ter encontrado evidências da colaboração de Estaline com a Okhrana (a polícia czarista), a questão permanece em debate entre historiadores por muitas décadas e até hoje não foi resolvida. 

Ver e ler: Brackman R. The Secret File of Joseph Stalin: a Hidden Life. — Portland: Frank Cass Publishers, 2000. — 466 p. — ISBN 978-0-7146-5050-0.

sexta-feira, junho 30, 2023

Voluntários espanhóis defendem Ucrânia na Legião georgiana

A Legião georgiana é onde todos os combatentes internacionais se reúnem. Este é um exército temido por seu alto grau de preparação e comprometimento. Aqui estão combatentes de mais de 30 nacionalidades, incluindo a espanhola. 

Desde o início da guerra, conhecemos vários espanhóis que se juntaram ao lado ucraniano para ajudar este país a repelir a invasão russa do seu território. Os voluntários espanhóis estão integrados na temida Legião da Geórgia e nestes dias estão a treinar num acampamento militar perto de Kyiv, preparando-se para ir para a frente. As notícias da Telecinco os acompanharam enquanto se preparavam para entrar na batalha com outros combatentes de diferentes países.

Faça click para ver o vídeo

A Legião da Geórgia é onde todos os combatentes internacionais se reúnem. Este é um exército temido por seu alto grau de preparação e comprometimento. Aqui estão mais de 30 nacionalidades, incluindo a espanhola. Astray, o sargento deste pelotão, é de Barcelona. Faça seis missões internacionais. Esta é a segunda vez que você está na Ucrânia. Em Mykolaiv, ele perdeu parte de sua equipa/e. Uma dura experiência que ajuda a abrir os olhos de quem ainda não experimentou o sangue na frente.

Na Legião da Geórgia também está Nandi, que veio de Valência para a Ucrânia. Ele garante que não está neste país com a ideia de matar russos e que sua presença em Kyiv o confrontou com sua família. Segundo este combatente, eles acreditam que existem outras formas de ajudar o povo ucraniano.

Ler mais AQUI e AQUI

Bónus

Os militares ucranianos estão atualmente treinando na Espanha, no uso de veículos blindados espanhóis URO VAMTAC ST5. Anteriormente, foi relatado sobre a transferência de 20 desses veículos blindados.

sexta-feira, maio 05, 2023

Infantilismo cósmico do atual liberalismo russo

Sem quiser entrar em discussões sobre a possível mentalidade escrava da sociedade russa, uma coisa é indiscutível: algum tipo de infantilismo cósmico é inerente à sua parte supostamente mais avançada e educada.

De momento, a Internet russa está em discussão épica sobre a ética das doações financeiras às Forças Armadas da Ucrânia (os liberais russos, dos absolutamente anónimos, aos mais proeminentes criticam a ativista russa Anna Veduta por causa disso). Do tipo, mas como você ousou ajudar as FAU!!! 🤦🤦🤦

O blogueiro georgiano Zurab Chitaia tentou analisar a lógica do discurso do atual liberalismo russo, que é todo anti-guerra e por isso fugiu para Geórgia (spoiler: simplesmente não existe).

Então:

1. Nos, os russos, não somos maus, mau é putin.

2. Putin é nosso inimigo comum e deve ser derrotado.

3. Quem deve derrotá-lo? Claro, os ucranianos.

4. Por que não nós? Bem, porque não temos força e capacidade para isso. Ou seja, não temos ARMAS com as quais poderíamos derrotar putin. Além disso, somos multados, espancados e presos, por isso estamos com medo. É melhor partirmos para Geórgia e esperar que os ucranianos derrotem putin.

5. Apoiamos os ucranianos? Bem, em geral, sim, eles estão derrotando putin para nós. Então, sim, enviamos a eles vibes de apoio.

6. Sim, mas você não pode derrotar Putin com vibes, os ucranianos precisam de ARMAS. Portanto, você precisa ajudá-los a comprá-las, certo?

7. Não. Com essas armas os ucranianos vão matar os nossos pobres soldados, então apoiar financeiramente os militares ucranianos é impossível.

8. Mas para derrotar putin, você precisa matar ou forçar seus soldados a capitular! Eles estão lutando, não putin pessoalmente.

9. Sim, provavelmente.

10. Como fazer isso tudo sem armas? Como você propõe vencer uma guerra sem guerra e sem as baixas?

11. Não sabemos.

12. Quem você acha que deveria vencer esta guerra (uma guerra supostamente comum contra um inimigo supostamente comum), se você sente pena daqueles que parecem querer a derrota e se recusa a ajudar aqueles de quem você parece esperar a vitória?

13. Não sabemos. Abaixo a guerra!

(Desaparece numa scooter elétrica para beber a saborosa cidra georgiana)

quarta-feira, março 01, 2023

Os estrangeiros que deram a sua vida pela Ucrânia

150 voluntários da Legião Internacional da Ucrânia perderam a vida ajudando Ucrânia a derrotar os ocupantes russos.
Página da Legião na Facebook

São 39 georgianos; 17 americanos; 15 belarusos, 6 colombianos; 4 israelitas; 3 brasileiros; entre outros. Poucos eram ucranianos étnicos, como paramédico canadiano e filho de um milionário, Hrigorii Tsekhmistrenko. Ou brasileira Thalita do Vale, voluntária peshmerga na guerra contra o Daesh/ISIL. A maior parte dos heróis eram pessoas simples, que sentiram a obrigação moral de defender um país face à agressão injustificada russa.

Como se alistar na Legião

Todos eles são verdadeiros heróis.

Bónus

Um voluntário japonês, ex-yakuza, está defendendo Ucrânia nas fileiras da Legião Georgiana!



Fotos: Toru Yokota (para Friday Digital); vídeo (não funciona nos EUA e na UE)

quarta-feira, fevereiro 15, 2023

A operação humanitária americana «Provide Hope»

Em 10 de fevereiro de 1992, 12 aeronaves americanas de transporte decolaram de três aeródromos na Turquia e na Alemanha. Eles entregaram 500 toneladas de ajuda humanitária a 11 capitais das antigas repúblicas do URSS e ao São Petersburgo. Assim começou a operação humanitária americana «Provide Hope» (Providenciar Esperança).






A ajuda consistia principalmente em fornecimento de enlatados, leite em pó, massas, legumes e frutas e papinhas para bebês. As entregas abrangeram várias dezenas de cidades da ex-URSS. A ajuda humanitária foi entregue não apenas a lojas, mas também a famílias numerosas, hospitais, orfanatos.






A Operação «Provide Hope» durou pouco mais de 20 anos. O último voo 984 ocorreu em setembro de 2012. Equipamentos médicos e equipa/e médica voluntária saíram de Maryland nos EUA e foram entregues na Chisinau, em Moldova.

segunda-feira, julho 15, 2019

Voluntários ucranianos na guerra da Abecásia

Em 15 de julho de 1993 a unidade voluntária ucraniana “Argo” participou no seu primeiro combate na guerra de Abecásia, onde os ucranianos defendiam a soberania e independência da Geórgia.
O combate se deu nos arredores da aldeia de Starushkino (até 1989 habitado maioritariamente pelos arménios). Os primeiros voluntários ucranianos vieram em apoio à Geórgia em junho de 1993. Eles participaram na tomada da aldeia de Shroma, na defesa da cidade de Sukhumi, nos combates pelo vale de Kodori. No total, as forças ucranianas perderam na guerra da Abecásia 7 voluntários.
Pelos combates da independência da Geórgia 14 ucranianos foram condecorados pela ordem militar Vakhtang Gorgasali, 7 deles ao título póstumo.
Na primeira foto os voluntários ucranianos da UNA-UNSO na costa georgiana do Mar Negro. Um dos combatentes segura já bastante rara espingarda/fuzil Mosin-Nagant. À sua esquerda está o comandante da unidade «Argo» centurião Valeriy Bobrovych (nascido em 1951, na sua juventude ele participou na guerra do Vietname do lado soviético). As fotos foram publicadas no seu livro «Diário do centurião Ustym. Como os cossacos guerrearam o Cáucaso».
Unidade "Argo" na aldeia georgiana de Shroma (?)
Ler mais em português ou em inglês.
Ver o vídeo "Os combatentes da UNSO. Sempre prontos ao combate" (28:32).
from a-ingwar on Vimeo.

Blogueiro: a diferença entre os voluntários ucranianos na Geórgia e terroristas pró-russos (de várias nacionalidades) na Donbas é simples. Os ucranianos estavam defender um Estado internacionalmente reconhecido contra os separatistas armados; os ucranianos não recebiam da parte georgiana nenhuma recompensa monetária (apenas o armamento e alimentação); os voluntários ucranianos naquela altura foram perseguidos pelo Estado ucraniano e vigiados pela secreta ucraniana SBU.