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| Pablo/Pavel abraçado pelo Oleg Sotnikov, responsável pelo programa dos agentes ilegais do GRU |
Há pouco mais de um ano, a 1 de agosto de 2024, a rússia e os países ocidentais realizaram a maior troca de prisioneiros desde o fim da Guerra Fria. As autoridades russas libertaram, ao Ocidente, os presos políticos russos e devolveram, na sua maioria, os seus próprios espiões. Um deles era Pablo González Yagüe (identidade russa: Pavel Rubtsov), um agente dos serviços de informação militar russos que monitorizava os opositores russos na Europa, disfarçado de jornalista independente do País Basco. O jornal espanhol El Mundo falou com pessoas próximas de Gonzalez e descobriu como ele vive um ano depois da troca.
Quem é Pablo González?
Por parte da mãe, é descendente de um espanhol que foi levado para a URSS durante a guerra civil espanóla. A sua mãe, Maria Elena González, casou com o cientista soviético Alexei Rubtsov, mas mais tarde divorciou-se dele e mudou-se para a sua terra natal histórica, o País Basco, levando consigo o seu filho de nove anos. Aí, o jovem russo Pavel Rubtsov tornou-se espanól/basco Pablo González Yagüe.
Em 2003, González, de 21 anos, recebeu o passaporte russo. Os serviços de informação espanhóis suspeitaram que o serviço secreto militar russo (GRU) o recrutou sete anos depois, durante uma viagem para visitar o pai e a madrasta, escreve o El Mundo, citando o jornalista Drew Hinshaw, autor de um livro sobre a troca de prisioneiros do ano passado. Segundo a publicação russa The Insider, a madrasta de González, russa Tatyana Dobrenko, anteriormente possuia o domicílio registado na morada da sede do GRU em Moscovo.
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González apresentou-se no mundo jornalístico como jornalista e politólogo especializado em conflitos na Europa de Leste, nos Balcãs e no Cáucaso. Viajou de facto para pontos críticos, participou em conferências europeias e era amigo de jornalistas e oposicionistas russos. González foi ao futebol com Ilya Yashin, teve um caso amoroso com Zhanna Nemtsova (filha do Boris Nemtsov) e delatou ambos ao GRU. Além disso, segundo o El Mundo, seguiu Alexei Navalny na Europa.
Como foi detido e trocado?
Desde 2019, Gonzalez vivia na Polónia. Em 2022, poucos dias após a invasão russa da Ucrânia, foi detido pela secreta polaca ABW, após ser deportado da Ucrânia pelo SBU, perto da fronteira entre a Polónia e a Ucrânia por suspeita de trabalhar para Moscovo. As organizações jornalísticas consideraram-no inicialmente vítima de perseguição política, mas, a 1 de agosto de 2024, voou para Moscovo juntamente com outros espiões russos libertados. Gonzalez saiu do avião com uma t-shirt com a inscrição «Empire needs you» («O Império precisa de ti»), apertou a mão a Vladimir Putin e ao curador dos agentes dos serviços de informação ilegais do GRU, Oleg Sotnikov.
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| Sotnikov, procurado pelo FBI por Conspiração para cometer fraude informática; Conspiração para cometer fraude eletrónica; Conspiração para cometer branqueamento de capitais |
Segundo o El Mundo, Gonzalez demonstra agora uma notável antipatia pela Polónia, onde passou dois anos e meio preso. Gonzalez não cooperou com a investigação polaca, observa o El Mundo. «Pablo considerava-se muito importante para o Kremlin. Segundo os serviços de informação polacos, disse aos investigadores que era tão valioso para a rússia que estavam dispostos a trocá-lo», disse o jornalista Drew Hinshaw à publicação.
González acabou por ter razão. O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, foi criticado por ter concordado em trocá-lo (o jornal polaco Rzeczpospolita escreveu que isto foi feito de acordo com um procedimento «desconhecido nos nossos processos criminais»). As acusações de espionagem contra González não foram retiradas – segundo a investigação, este estava a passar informações ao GRU desde 2016 que poderiam prejudicar a Polónia. O caso foi transferido para tribunal, as audiências estão marcadas para começar no outono de 2025, e até planeiam enviar uma intimação ao acusado: não está formalmente proibido de entrar na Polónia.
Como está ele a viver agora?
“Ao longo destes 12 meses [...] o seu desprezo pela Ucrânia aumentou. Agora pigarreia constantemente quando fala. Como se estivesse a sufocar”, escreve o El Mundo sobre González. Segundo o jornal, o agente sofre de fibrose pulmonar, atribuindo problemas de saúde à Covid-19, que, segundo a sua própria versão, contraiu duas vezes na prisão polaca.
O El Mundo refere que González vive em Moscovo, está a divorciar-se da sua mulher, Oihana Goiriena, que permaneceu em Espanha. Tem “dívidas na Polónia relacionadas com custos judiciais”, mas “finalmente tem um emprego”. O El Mundo não especifica exatamente que tipo de trabalho — apenas escreve que Gonzalez declinou o convite do canal de propaganda russa RT, mas «está a tentar encontrar tempo para escrever» e, a julgar pelas suas entrevistas, está a preparar alguns projetos de «formação para jornalistas e politólogos».
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| Registo domiciliar da Tatyana Dobrenko, a madrasta do González/Rubtsov. Pela coincidência ou não, o mesmo endereço da sede do GRU em Moscovo |
Na primavera de 2025, Gonzalez publicou um texto no qual jurava não ser um espião, mas um jornalista perseguido por motivos políticos: «Fui atacado por ser russo, por ser basco, pela minha posição de esquerda, por não simpatizar com o regime de Kiev» [o espião russo se esqueceu, que quando se passava por jornalista nunca mostrou nenhuma antipatia pública pela Ucrânia, alias escrevia todos os seus textos de acordo com a posição europeia/ocidental, retratando Ucrânia como a vítima da agressão militar russa, não provocada]. Segundo a afrimação do González/Rubtsov, a principal prova contra ele foi um aperto de mão com Vladimir Putin. Mas não é assim, sublinha a The Insider. De acordo com a publicação, Gonzalez usou dois passaportes (6543413** e 6465187**) da mesma série que pelo menos 15 outros espiões do GRU conhecidos pelos jornalistas — incluindo os dois envenenadores de Sergei Skripal — Boshirov e Petrov (na realidade Chepiga e Mishkin), participantes na tentativa do golpe do Estado no Montenegro, participantes no envenenamento de Yemelyan Gebrev na Bulgária, organizadores de ataques de hackers e muitos outros.




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