domingo, agosto 10, 2025

De Pablo Gonzáles Yagüe a Pavel Rubtsov: agonia e queda do espião espanhol de putin

Pablo/Pavel abraçado pelo Oleg Sotnikov, responsável pelo programa dos agentes ilegais do GRU

Como vive atualmente Pablo Gonález Yagüe (alias Pavel Rubtsov), um agente do GRU russo que foi trocado por presos políticos russos há um ano? Spoiler: o agente da secreta militar russa está a tentar passar-se por um «preso político». 

Há pouco mais de um ano, a 1 de agosto de 2024, a rússia e os países ocidentais realizaram a maior troca de prisioneiros desde o fim da Guerra Fria. As autoridades russas libertaram, ao Ocidente, os presos políticos russos e devolveram, na sua maioria, os seus próprios espiões. Um deles era Pablo González Yagüe (identidade russa: Pavel Rubtsov), um agente dos serviços de informação militar russos que monitorizava os opositores russos na Europa, disfarçado de jornalista independente do País Basco. O jornal espanhol El Mundo falou com pessoas próximas de Gonzalez e descobriu como ele vive um ano depois da troca. 

Quem é Pablo González?

Por parte da mãe, é descendente de um espanhol que foi levado para a URSS durante a guerra civil espanóla. A sua mãe, Maria Elena González, casou com o cientista soviético Alexei Rubtsov, mas mais tarde divorciou-se dele e mudou-se para a sua terra natal histórica, o País Basco, levando consigo o seu filho de nove anos. Aí, o jovem russo Pavel Rubtsov tornou-se espanól/basco Pablo González Yagüe. 

Em 2003, González, de 21 anos, recebeu o passaporte russo. Os serviços de informação espanhóis suspeitaram que o serviço secreto militar russo (GRU) o recrutou sete anos depois, durante uma viagem para visitar o pai e a madrasta, escreve o El Mundo, citando o jornalista Drew Hinshaw, autor de um livro sobre a troca de prisioneiros do ano passado. Segundo a publicação russa The Insider, a madrasta de González, russa Tatyana Dobrenko, anteriormente possuia o domicílio registado na morada da sede do GRU em Moscovo. 

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González apresentou-se no mundo jornalístico como jornalista e politólogo especializado em conflitos na Europa de Leste, nos Balcãs e no Cáucaso. Viajou de facto para pontos críticos, participou em conferências europeias e era amigo de jornalistas e oposicionistas russos. González foi ao futebol com Ilya Yashin, teve um caso amoroso com Zhanna Nemtsova (filha do Boris Nemtsov) e delatou ambos ao GRU. Além disso, segundo o El Mundo, seguiu Alexei Navalny na Europa. 

Como foi detido e trocado?

Desde 2019, Gonzalez vivia na Polónia. Em 2022, poucos dias após a invasão russa da Ucrânia, foi detido pela secreta polaca ABW, após ser deportado da Ucrânia pelo SBU, perto da fronteira entre a Polónia e a Ucrânia por suspeita de trabalhar para Moscovo. As organizações jornalísticas consideraram-no inicialmente vítima de perseguição política, mas, a 1 de agosto de 2024, voou para Moscovo juntamente com outros espiões russos libertados. Gonzalez saiu do avião com uma t-shirt com a inscrição «Empire needs you» («O Império precisa de ti»), apertou a mão a Vladimir Putin e ao curador dos agentes dos serviços de informação ilegais do GRU, Oleg Sotnikov. 

Sotnikov, procurado pelo FBI por Conspiração para cometer fraude informática;
Conspiração para cometer fraude eletrónica; Conspiração para cometer branqueamento de capitais

Segundo o El Mundo, Gonzalez demonstra agora uma notável antipatia pela Polónia, onde passou dois anos e meio preso. Gonzalez não cooperou com a investigação polaca, observa o El Mundo. «Pablo considerava-se muito importante para o Kremlin. Segundo os serviços de informação polacos, disse aos investigadores que era tão valioso para a rússia que estavam dispostos a trocá-lo», disse o jornalista Drew Hinshaw à publicação. 

González acabou por ter razão. O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, foi criticado por ter concordado em trocá-lo (o jornal polaco Rzeczpospolita escreveu que isto foi feito de acordo com um procedimento «desconhecido nos nossos processos criminais»). As acusações de espionagem contra González não foram retiradas – segundo a investigação, este estava a passar informações ao GRU desde 2016 que poderiam prejudicar a Polónia. O caso foi transferido para tribunal, as audiências estão marcadas para começar no outono de 2025, e até planeiam enviar uma intimação ao acusado: não está formalmente proibido de entrar na Polónia. 

Como está ele a viver agora? 

“Ao longo destes 12 meses [...] o seu desprezo pela Ucrânia aumentou. Agora pigarreia constantemente quando fala. Como se estivesse a sufocar”, escreve o El Mundo sobre González. Segundo o jornal, o agente sofre de fibrose pulmonar, atribuindo problemas de saúde à Covid-19, que, segundo a sua própria versão, contraiu duas vezes na prisão polaca. 

O El Mundo refere que González vive em Moscovo, está a divorciar-se da sua mulher, Oihana Goiriena, que permaneceu em Espanha. Tem “dívidas na Polónia relacionadas com custos judiciais”, mas “finalmente tem um emprego”. O El Mundo não especifica exatamente que tipo de trabalho — apenas escreve que Gonzalez declinou o convite do canal de propaganda russa RT, mas «está a tentar encontrar tempo para escrever» e, a julgar pelas suas entrevistas, está a preparar alguns projetos de «formação para jornalistas e politólogos». 

Registo domiciliar da Tatyana Dobrenko, a madrasta do González/Rubtsov.
Pela coincidência ou não, o mesmo endereço da sede do GRU em Moscovo 

Na primavera de 2025, Gonzalez publicou um texto no qual jurava não ser um espião, mas um jornalista perseguido por motivos políticos: «Fui atacado por ser russo, por ser basco, pela minha posição de esquerda, por não simpatizar com o regime de Kiev» [o espião russo se esqueceu, que quando se passava por jornalista nunca mostrou nenhuma antipatia pública pela Ucrânia, alias escrevia todos os seus textos de acordo com a posição europeia/ocidental, retratando Ucrânia como a vítima da agressão militar russa, não provocada]. Segundo a afrimação do González/Rubtsov, a principal prova contra ele foi um aperto de mão com Vladimir Putin. Mas não é assim, sublinha a The Insider. De acordo com a publicação, Gonzalez usou dois passaportes (6543413** e 6465187**) da mesma série que pelo menos 15 outros espiões do GRU conhecidos pelos jornalistas — incluindo os dois envenenadores de Sergei Skripal — Boshirov e Petrov (na realidade Chepiga e Mishkin), participantes na tentativa do golpe do Estado no Montenegro, participantes no envenenamento de Yemelyan Gebrev na Bulgária, organizadores de ataques de hackers e muitos outros.

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