quinta-feira, julho 12, 2018

Ucrânia luta por militar, abandonado no Afeganistão pela União Soviética

União Soviética perdeu na Afeganistão cerca de 15.000 militares mortos e no mínimo 417 POW. Na realidade o número dos prisioneiros soviéticos é maior, dado que muitos deles eram dados pelas autoridades soviéticas como “mortos” ou “desaparecidos em combate”. Entre 70 à 80 deles eram ucranianos (oficialmente Ucrânia reconhece 62 militares como POW ou desaparecidos).
Ihor Bilokurov vestido à civil, nas vésperas do Afeganistão
Um deles é Ihor Bilokurov, natural da região ucraniana de Volyn, furriel do exército soviético, membro de um batalhão pára-quedista de assalto (DShB), tido como desaparecido em combate desde 9 de abril de 1988. Neste momento as autoridades ucranianas trabalham na questão do seu retorno à Ucrânia.
Ihor Bilokurov antes de 1988 e a sua mãe Antonina hoje
Como contou à agência ucraniana UNIAN, o deputado do Parlamento da Ucrânia e líder da União dos Veteranos do Afeganistão, Serhiy Kunitsin, o militar em questão foi capturado em combate em 1988 nos arredores da cidade afegã de Kandagar. Em março de 2018, e por acaso, uma expedição civil ucraniana ele foi achado no Afeganistão e manifestou o seu desejo de voltar à Ucrânia.
Ihor Bilokurov em 1988 e em 2018
Ao pedido do Presidente Petró Poroshenko foi criado um grupo de trabalho que está desenvolver as ações complexas de confirmação da entidade do cidadão (para isso a delegação ucraniana visitou Afeganistão por quatro vezes) e do seu retorno à Ucrânia.

O próprio Ihor Bilokurov conta que foi capturado pelos mujahedeenes inconsciente (ele sofreu a contusão no decorrer do ataque contra a coluna militar soviética) e por isso não possui grandes memórias do sucedido. Efetivamente, Bilokurov têm diversas cicatrizes na cabeça, são marcas de espancamento com as coronhas de armas, muito possivelmente este espancamento poderia levar à perda parcial da memória (o ex-militar não se lembrava do seu nome ucraniano, apenas dizia que vem da região de Volyn).
“Mas quando mais trabalhamos com ele, maior é a certeza que realmente é Ihor Bilokurov”, – disse Kunitsin. O deputado também explicou que o veterano entregou os seus cabelos para que Ucrânia faça a análise do ADN. No entanto, ele possui os sinais particulares, que foram apontadas pela mãe do Ihor Bilokurov, ainda à espera do filho na Ucrânia.

“Neste momento Ihor Bilokurov vive numa aldeia, é pai de cinco filhos e dono de algumas lojas [uma espécie de cantinas]. Ele se esqueceu da língua ucraniana (embora possivelmente procedeu assim por questões de segurança pessoal), se expressa em farsi e atualmente participa nas operações militares do governo afegão contra o movimento Taliban”, – contou o deputado ucraniano que também disse que Ihor quer visitar Ucrânia e ver a sua mãe Antonina, que após 20 anos de espera, construiu um túmulo simbólico em memória do filho, na sua aldeia natal de Nova Glusha na região ucraniana de Volyn.
Antonina junto ao túmulo simbólico do filho
Neste momento Ucrânia está tratar as questões da emissão de visto e dos documentos ucranianos para Ihor Bilokurov, pois juridicamente ele é cidadão da União Soviética, o país que deixou de existir desde 1991. Para sobreviver, Ihor Bilokurov, aderiu à fé islâmica, mudou o nome ao Amriddin. Apesar disso, sendo ucraniano nascido na Ucrânia, o estado ucraniano fará todos os possíveis para levar o ex-militar à sua terra natal.

O ex-militar foi achado no Afeganistão por membros de uma expedição ucraniana, que estava na procura de lençóis de água. Num dos assentamentos eles viram o homem que foi chamado de “shuravi”, ex-militar do exército soviético. Já ele próprio contou que foi capturado no Afeganistão, aceitou o Islão e ficou à viver no país. Mais tarde se soube que se trata de ucraniano Ihor Bilokurov, ele foi reconhecido pelos moradores da sua aldeia natal de Volyn.

A região ucraniana de Volyn conta com apenas três militares “desaparecidos em combate” no Afeganistão: a morte de um deles já foi confirmada, outro desapareceu numa região localizada longe do Kandagar.

O caso do Gennady Tsevma
Gennadiy Tsevma “Niqmohamat”
Ucraniano Gennady Tsevma, de Amvrosiivka, na região de Donetsk, com apenas 18 anos, na primavera de 1983 foi chamado à cumprir o seu “dever internacionalista” no Afeganistão e quase imediatamente foi capturado pela resistência afegã (“bebi, e sai do quartel para ir ver a liturgia islâmica, namaz”, conta ele com um sorriso triste), passando seis anos no cativeiro, foi forçado aderir ao islão e lutar contra as tropas soviéticas. 
Gennadiy Tsevma, o jovem recruta, 1983
Gennadiy Tsevma com o seu pai em 1992 no Afeganistão, a 1ª tentativa de voltar
Se converteu ao islão a adotou o nome de Niqmohamat; hoje mora em Kunduz com sua esposa e tem quatro filhos (no vídeo em baixo, Gennadiy Tsevma encontra o seu irmão, que viajou para o Afeganistão, 30 anos depois da separação):

Em 2012 Gennadiy Tsevma finalmente viajou para Ucrânia, onde encontrou a sua irmã, irmão, tia, ambos os seus pais tinham morrido, sem mais ver o filho, ele viveu apenas 18 anos na Ucrânia e quase 30 no Afeganistão. 
Gennadiy Tsevma “Niqmohamat” com outro POW ucraniano, Olexander Levenets “Ahmet”, natural de Luhansk
No cemitério local Gennadiy visitou os túmulos dos seus pais, prometendo à mãe que iria à visitar anualmente. Em menos de dois anos depois a sua região natal também conheceu a guerra, Amvrosiivka foi ocupada pelas forças russo-terroristas...

Ver o filme documental “Último shuravi” (2013):

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