domingo, setembro 09, 2018

A decisão foi tomada: igreja ortodoxa ucraniana será absolutamente independente

Ucrânia está à apenas um passo de receber a autocefalia, a independência absoluta da sua igreja ortodoxa, situação que o país almeja desde o final do século XVII, quando a Metrópole de Kyiv foi ilegalmente ocupada pelo patriarcado de Moscovo.
Foto: Patriarquia Ecuménica de Constantinopla
Apesar dos enormes esforços da Igreja Ortodoxa Russa (IOR) e das ações, por vezes mesmo ilegais, da diplomacia russa (ler: Grécia expulsa dois diplomatas russos por práticas ilegais), a última visita-relâmpago do patriarca Cirilo ao Istambul, se revelou uma enorme derrota da diplomacia russa, considera o jornal russo Novayagazeta.
Vladimir Gundiaev (futuro Cirilo de Moscovo) na década de 1970
No dia 31 de agosto, e durante duas horas e meia, em Istambul e à porta fechada, prosseguiram as negociações entre os dois líderes mais influentes do mundo ortodoxo: patriarca Cirilo I de Moscovo (ex-agente do KGB “Mikhaylov”) e o Patriarca Ecuménico (de Constantinopla) Bartolomeu. Decidia-se o destino da Igreja Ortodoxa Ucraniana. A Constantinopla pretende conceder à Ucrânia a autocefalia e Moscovo pretende reduzir, ainda mais, a autonomia do seu braço ortodoxo na Ucrânia, lhe concedida em 1990.
O Patriarca Ecuménico Bartolomeu | foto: RIAN
As observações das partes após as conversas não deixam dúvida, Cirilo não conseguiu influenciar a posição da Igreja Ecuménica, a autocefalia será concedida. Detalhe eloquente: os moscovitas não ficaram para o jantar, e a refeição desempenha um papel importante na vida da igreja ortodoxa. O Secretário do Sínodo do Patriarcado de Constantinopla, Metropolita Emmanuel, falou sobre os resultados da reunião de forma clara e concreta:

A decisão [da autocefalia da Igreja ucraniana] foi tomada em abril [de 2018], e já estamos implementar a decisão, como o Patriarcado Ecuménico informou o Patriarca Cirilo”.

Negociações foram realizadas em Fener, na residência dos Patriarcas de Constantinopla em Istambul. A parte russa estava representada pelo Cirilo, pelo seu “ministro dos Negócios Estrangeiros / das Relações Exteriores”, Metropolita Hilarion (Alfeev), e o seu vice, protoiereu Nikolai Balashov, além das dezenas de agentes da segurança estatal russa (FSO). O Patriarcado Ecuménico foi representado por 15 bispos, incluindo 2 ucranianos étnicos.

O Patriarca Ecuménico é o “primeiro entre os iguais” no mundo Ortodoxo, ele não possui a autoridade administrativa direta sobre as Igrejas Ortodoxas locais. O seu status extraterritorial em Istambul, onde hoje não vivem mais que 2.000 crentes ortodoxos, o coloca na posição de árbitro independente das autoridades do qualquer país “ortodoxo”. Ao mesmo tempo, sob a jurisdição do Patriarcado Ecuménico estão milhões de crentes ortodoxos, em primeiro lugar nas Américas e na Europa Ocidental.

Segundo as antigas regras dos Concílios Ecuménicos, Constantinopla possui o direito exclusivo de conceder autocefalia (a independência absoluta) às novas Igrejas Ortodoxas. Além disso, o Patriarcado Ecuménico considera ilegal a ocupação física e espiritual que Patriarcado de Moscovo exerceu sobre a Metrópole de Kyiv no final do século XVII.

A última visita-relâmpago de Cirilo à Istambul tornou-se a sua tentativa desesperada, mas muito tardia, de impedir o processo de separação da Igreja Ortodoxa da Ucrânia de Moscovo. Este processo chegou à linha final em abril de 2018, como tinham informado, bastante oficialmente, Kyiv e Constantinopla. Inicialmente, o Kremlin e a IOR, com o seu (e)snobismo pós-imperial agudo, não levaram à sério essa afirmação. Embora já maio-junho de 2018, os representantes da IOR de Moscovo visitaram as Igrejas gregas e eslavas, para os colocar, de alguma forma, contra Constantinopla.

Somente no final de julho de 2018, durante a celebração em Kyiv e em Moscovo dos 1030 anos do Baptismo da Rus de Kyiv, patriarca Cirilo percebeu toda a seriedade da situação.
O Patriarca Ecuménico (de Constantinopla) Bartolomeu na Ucrânia em 2018
Convidados pela IOR à Moscovo, os líderes das Igrejas ortodoxas mundiais ignoraram o convite (veio apenas o patriarca de Alexandria). Na Ucrânia, a delegação de alto nível da Constantinopla praticamente não teve qualquer contato com os representantes do Patriarcado de Moscovo, que teima em afirmar que “controla” a maioria dos ortodoxos na Ucrânia. Ucrânia é um grande trunfo político e um importante ativo económico da IOR: no país existem cerca de 12.000 paróquias da Igreja Ortodoxa Ucraniana – Patriarcado de Moscou, cerca de um terço do seu número total no espaço europeu.
O Patriarca da Ucrânia Filaret (Denysenko)
A IOR e o patriarca Cirilo tiveram a chance real de participar da separação civilizada da Igreja ucraniana. No outono de 2017, o líder da Igreja Ortodoxa Ucraniana – Patriarcado de Kyiv, o Patriarca Filaret (Denysenko), que controla mais de 5.000 paróquias, apelou ao Moscovo, pedindo a reconciliação e a sua delegação oficial foi recebida pelas estruturas oficiais da IOR. O Conselho de Bispos da IOR (que em 1997 lhe aplicou a excomunhão), aceitou gentilmente a carta do Patriarca Filaret e até formou uma comissão para o diálogo com os “cismáticos”.

No entanto, alguns dias depois, e sob a influência de fatores políticos, IOR deu o “dito por não dito”, a comissão nunca funcionou e a retórica da IOR contra os “cismáticos ucranianos” foi reforçada. Neste momento o processo da autocefalia ucraniana está em andamento e o mesmo Patriarca Filaret é o único candidato real para a liderança da recém-criada Igreja Autocéfala ucraniana, reconhecida pela Constantinopla.

A perca da Ucrânia como “território canónico” exclusivo da IOR será um grande golpe na posição do patriarca Ciril, não só dentro da igreja mundial, mas também no interior da Rússia. O secretário do Sínodo do Patriarcado de Kyiv, o arcebispo Yevstratiy (Zorya), chega a sugerir que a derrota de Cirilo em Istambul levará a sua renúncia da posição patriarcal. O Kremlin até já tem um candidato pronto, com a reputação de confessor pessoal do Putin – Tikhon (Shevkunov), recentemente nomeado Metropolita de Pskov.
O Metropolita Tikhon é um adepto confesso da ideologia do “mundo russo” e do messianismo moscovita, ao passo que passado do Cirilo está “manchado” pelas simpatias ecuménicas aos “hereges ocidentais”. Além disso, nas condições de cada vez mais rígida “vertical de poder” e controlo/e total sobre a vida religiosa na Rússia, por parte do estado, Kremlin considera como absolutamente inaceitável qualquer reivindicação de um líder religioso à um papel político independente.

Olhando ao calendário do Patriarcado de Constantinopla, a data mais provável de adopção da Tomos (decreto formal) de autocefalia calha aos 10-12 de outubro, a próxima reunião do Sínodo. No inverno na Ucrânia começa o ciclo eleitoral, as eleições presidenciais em março de 2019 e depois as legislativas. Não é do interesse da jovem Igreja ucraniana e do venerável Constantinopla colocar o tema da autocefalia na luta pré-eleitoral. De acordo com o ex-secretário do primaz da Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo, hoje apoiante da autocefalia, protoiereu Georgiy Kovalenko, “mesmo que em outubro não haverá a decisão final, será feito o próximo passo [...] o Tomos da autocefalia não é o objetivo final, mas apenas um mecanismo que pode acelerar a construção de uma Igreja Ortodoxa independente na Ucrânia”.

As ameaças e insultos eclesiásticos russos

No seu comunicado oficial, publicado na página do patriarcado de Moscovo, a liderança (sínodo) da IOR acusa o Patriarcado Ecuménico de “levar à um impasse entre as igrejas, russa e de Constantinopla, criando uma ameaça real à unidade de todo o mundo ortodoxo”.

O Sínodo da IOR também declara que “toda a responsabilidade por esses atos anticanónicos recai sobre o Patriarca Bartolomeu e sobre as pessoas da Igreja de Constantinopla que as apoiam” e promete “as ações em resposta [...] muito em breve”.

No entanto, o chefe do Departamento de Relações Externas da IOR, o metropolita Hilarion de Volokolamsk foi mais longe nas ameaças e mesmo nos insultos contra o Patriarca Bartolomeu e contra o Patriarcado Ecuménico.
O agente do KGB “Mikhailov” (futuro patriarca da IOR Cirilo), a vidente soviética Eugenia Davitashvili
(“Juna”; 1949-2015) e alegada amante (oficialmente a irmã) de Vladimir Gundyaev – Lydia Leonova.
Na entrevista ao canal televisivo russo Rossiya24, o metropolita Hilarion afirmou que caso Constantinopla conceder a autocefalia à igreja ucraniana, IOR “romperá e cessará a comunicação com Constantinopla”. Na sua comunicação pública, agressiva e mesmo messiânica, o religioso russo usava os termos bastante queridos à propaganda estatal soviética de era comunista: “uma maneira descarada e cínica”; “plano traiçoeiro”; “acto desprezível e traiçoeiro”, etc.

Autocefalia da Ucrânia em dados técnicos (por Meduza.io):

Números: neste momento a Igreja Ortodoxa da Ucrânia – Patriarcado de Moscovo controla 12.000 paróquias; a Igreja Ortodoxa da Ucrânia – Patriarcado de Kyiv – cerca de 5.000 e a Igreja Ortodoxa Aucocéfala da Ucrânia – cerca de 1.000. As duas últimas não possuem o reconhecimento oficial das outras 15 igrejas ortodoxas, consideradas “canónicas”. Caso Ucrânia receber a sua independência e o reconhecimento do status canónico, país terá a sua própria igreja local, independente de Moscovo e reconhecida pelo Patriarca ecuménico.

As datas: é provável que tudo acontecerá muito em breve. No dia 7 de setembro o Patriarcado de Constantinopla oficialmente nomeou para Ucrânia dois bispos Exarcas (representantes legais), ambos ucranianos étnicos [Arcebispo Daniel da Panfília (EUA) e o bispo Hilarion de Edmonton (Canada)].

Em outubro de 2018, o Sínodo se reunirá em Istambul e é muito possível que será tomada a decisão formal de publicar Tomos (decreto oficial) da autocefalia da nova Igreja Ortodoxa Ucraniana. Depois irá decorrer uma reunião magna de unificação, com a presença de representantes de todas as Igrejas Ortodoxas na Ucrânia – incluindo dos bispos da Igreja Ortodoxa Ucraniana – Patriarcado de Moscovo, que apoiam autocefalia (em minoria dentro da sua igreja). Depois, a nova igreja escolherá o patriarca e receberá Tomos de Constantinopla. Espera-se que a reunião será realizada em setembro-outubro de 2018, mas ainda sem uma data exata.

As ameaças russas: a IOR já ameaçou “romper as comunicações” com Constantinopla. Isso já aconteceu na história recente das relações entre Moscovo e Constantinopla. Em 20 de fevereiro de 1996, o Patriarca Bartolomeu declarou que aceitava sob a sua jurisdição a Igreja Ortodoxa Apostólica da Estónia. Três dias depois, o patriarca Alexis II anunciou o fim da comunhão eucarística e deixou de mencionar o Patriarca Bartolomeu nas orações patriarcais. Após as negociações em maio do mesmo ano, a comunicação foi restaurada. Na Estónia, desde então, existem duas igrejas ortodoxas – uma com autonomia assegurada pelo Moscovo, a outra – por Constantinopla. Na vida dos paroquianos comuns, isso não se reflete de uma forma particularmente importante.

As razões das reações russas: se Ucrânia tiver a sua própria igreja local canónica independente, muitas paróquias e dioceses inteiras da Igreja Ortodoxa Ucraniana – Patriarcado de Moscovo irão mudar de jurisdição. E então Moscovo perderá na Ucrânia a sua posição dominante da principal jurisdição ortodoxa.

A posição dos fiéis: desde 2014, cerca de uma dúzia de paróquias do Patriarcado de Moscovo se filiaram no Patriarcado de Kyiv, IOR de Moscovo trata o processo como “apropriação dos cismáticos”.

De acordo com a pesquisa realizada no verão de 2017 pelo grupo sociológico ucraniano “Rating”, 42% dos paroquianos do Patriarcado de Moscovo não querem a criação de uma nova igreja local; 23% são ao favor e 36% não se importam, não sabem ou não quiseram responder.

Apoios internacionais na questão da Ucrânia: de acordo com a imprensa/mídia estatal russa, “quase todas as igrejas locais no conflito em torno da Ucrânia apoiam a IOR”. Na sua maioria essas afirmações não contêm as citações concretas. Ainda não sabemos quem e quando reconhecerá a nova igreja autocéfala da Ucrânia, certamente esse processo levará o seu devido tempo.

Sem comentários: