terça-feira, novembro 07, 2017

O custo da revolução bolchevique em vidas humanas

O monumento ao Lenine, em Byarozavtsy, em Belarus, 2017. O texto em belaruso diz: “Arde no inferno, CARRASCO”
foto @facebook.com/nuno.rogeiro
O demógrafo americano Rudolph Rummel, o perito em contabilizar todos os homicídios em massa causados por governos, estimou o total de vidas humanas dizimadas pelo comunismo do século XX em 61 milhões na União Soviética, 78 milhões na China, e aproximadamente 262 milhões ao redor do mundo. Todas essas vítimas pereceram de inanições causadas pelo estado, coletivizações forçadas, revoluções culturais, expurgos e purificações, campanhas contra a renda não-merecida, e outros experimentos, envolvendo a engenharia social.
Ler o texto integral on-line em inglês
por: Yuri N. Maltsev, membro sênior do Mises Institute

O golpe dado por Lenine no dia 7 de novembro de 1917, o dia em que o governo provisório de Kerensky caiu perante as forças bolcheviques, abriu uma nova etapa na história humana: um regime de escravidão do povo. Marx e Engels haviam definido o socialismo como “abolição da propriedade privada”. Na prática, o componente mais fundamental da propriedade privada — a propriedade do indivíduo sobre si próprio — foi o primeiro a ser abolido.

Destruição no atacado

Os maiores alvos dos marxistas sempre foram a família, a religião e a sociedade civil — obstáculos institucionais à imposição do estado onipotente. Com os bolcheviques no poder, Lenine se dedicou com ímpeto à destruição destas instituições.

Milhões de famílias foram capturadas, presas e coercivamente realocadas para as remotas e desabitadas regiões da Sibéria e do Cazaquistão. Durante a jornada ao exílio, centenas de milhares de crianças morreram enfermas ou de inanição, sendo enterradas em volumosas covas coletivas sem qualquer identificação.

A primeira parada oficial de pioneiros em Moscovo, 1924
Em 1935, Estaline introduziu o Artigo 12 do Código Criminal da URSS, o qual permitia que crianças a partir de 12 anos de idade pudessem ser condenadas à morte ou encarceradas como adultas. Esta lei foi criada visando especificamente às crianças órfãs das vítimas do regime, sob a crença de que, se os pais eram “reacionários”, então seus filhos também seriam. Várias dessas crianças, cujos pais haviam sido encarcerados ou executados, eram conhecidas como bezprizorni, isto é, crianças de rua. Elas foram enviadas para celas imundas e desguarnecidas localizadas em gulags selvagens e violentos, onde foram misturadas a perigosos criminosos. Nestas celas, as crianças eram brutalizadas e estupradas tanto pelos guardas quanto pelos criminosos comuns.


A União Soviética foi o primeiro estado a ter como objetivo ideológico e prático a eliminação da religião — ou, em outras palavras, o extermínio físico de pessoas religiosas. Com o decreto de Lenine de 20 de janeiro de 1918, deu-se início à estatização das propriedades eclesiásticas: igrejas, catedrais, capelas, pátios das igrejas e todos os edifícios pertencentes a igrejas foram espoliados e saqueados, e todos os itens valiosos (ouro, prata, platina, quadros, ícones, artefatos históricos) foram ou roubados por comunistas ou vendidos ao Ocidente via burocratas do governo, simpatizantes comunistas, e até mesmo viajantes simpatizantes do regime, como o magnata americano Armand Hammer, que conheceu Lenine em 1921.

Ser religioso na União Soviética quase sempre significava uma sentença de morte. O objetivo era o monopólio completo e absoluto do estado sobre as idéias e o espírito das pessoas. E a maneira de fazer isso era por meio da imposição de uma religião secular, o socialismo. Praticamente todos os clérigos e milhões de devotos de todas as religiões tradicionais foram ou fuzilados ou enviados para campos de trabalhos forçados. Seminários foram fechados e publicações religiosas, proibidas.
O marxismo-leninismo almejava ser um socialismo científico, capaz de apresentar a explicação universal para a natureza, a vida e a sociedade. No entanto, quaisquer desvios em relação a esta ideologia, especialmente o uso de métodos da tradicional ciência “burguesa”, eram punidos com morte. A perseguição aos cientistas não alinhados — que deu origem ao lysenkoismo — acabou se degenerando em um verdadeiro genocídio da classe. E a ciência russa, que até então havia prosperado aceleradamente, entrou em rápido declínio.


Um fracasso abjeto

Em dezembro de 1991, após setenta e quatro anos de caos, destruição e miséria, a revolução bolchevique fracassou e finalmente foi oficialmente abolida. O país mais extenso da terra, repleto de abundantes recursos naturais de todos os tipos, não mais conseguia nem sequer suprir as necessidades básicas de seus cidadãos.

Sem propriedade privada sobre os meios de produção, sem uma economia de mercado com um sistema de preços livres, e sem ter como fazer cálculo de lucros e prejuízos, o arranjo simplesmente não tinha como alocar racionalmente recursos escassos.

O mais lamentável é que tudo isso era perfeitamente evitável. Ainda em 1920, Ludwig von Mises já havia demonstrado de maneira até hoje irrefutável que o socialismo, além de utópico, era um esquema ilógico, antieconômico e impraticável em sua essência. Ele é impossível e destinado ao fracasso porque desprovido da fundamentação lógica da economia: o socialismo não fornece meio algum para se fazer qualquer cálculo econômico objetivo — o que, por conseguinte, impede que os recursos sejam alocados em suas aplicações mais produtivas. 

E a efetiva implantação prática do socialismo mostrou a total validade da análise de Mises. O socialismo tentou substituir bilhões de decisões individuais feitas por consumidores soberanos no mercado por um “planeamento económico racional” feito por uma comissão de iluminados investida do poder de determinar tudo o que seria produzido e consumido, bem como quando, como e quem faria a produção e o consumo. Isso gerou escassez generalizada, fome e frustração em massa. Quando o governo soviético decidiu determinar 22 milhões de preços, 460.000 salários e mais de 90 milhões de funções para os 110 milhões de funcionários do governo, o caos e a escassez foram o inevitável resultado. O estado socialista destruiu a ética inerente ao trabalho, privou as pessoas da oportunidade e da iniciativa de empreender, e difundiu amplamente uma mentalidade assistencialista.

O socialismo produziu monstros como Estaline e Mao Tsé-tung, e cometeu crimes até então sem precedentes contra a humanidade, em todos os estados comunistas. A destruição da Rússia e do Camboja, bem como a humilhação sofrida pela população da China e do Leste Europeu, não foram causadas por “distorções do socialismo”, como os defensores dessa doutrina gostam de argumentar. Elas são, isto sim, a consequência inevitável da destruição do mercado, que começou com a tentativa de se substituir as decisões económicas de indivíduos livres pela “sabedoria dos planeadores”.

O fracasso do socialismo não depende da cultura, da época ou da localização das vítimas. Vai da Alemanha à Venezuela; de Cuba ao Camboja; da Coreia à Nicarágua. O socialismo já é falho em seu núcleo: a propriedade “coletiva” dos meios de produção. Sendo assim, não há como criar uma versão funcional e produtiva do socialismo em lugar nenhum do mundo.

Na prática, os problemas teóricos do socialismo geram convulsões sociais e protestos, os quais são combatidos com rigor pelas forças policiais do estado, resultando em uma carnificina maior que a de todas as guerras oficiais já travadas no mundo. Quando o povo se torna faminto e infeliz, é impossível o estado sobreviver caso esse povo saiba que há pessoas em outros lugares do usufruindo uma vida muito melhor. Por isso, os estados comunistas recorrem à propaganda, à desinformação e à censura para fazer com que uma já cativa população fique ainda mais confusa e submissa.

Infelizmente, em 1920, o entusiasmo pelo socialismo era tão forte, principalmente entre os intelectuais ocidentais, que os alertas de Mises foram totalmente ignorados. E a humanidade pagou caro por isso.

A ameaça sempre existe

Tendo por base minha própria vida na União Soviética, período esse que acabou no mesmo ano em que [...] colapsou o Muro de Berlim, posso apenas atestar toda a validade da declaração feita por Ludwig von Mises de que o socialismo equivale a uma “revolta contra a economia”.

E, no entanto, o socialismo ainda possui milhões de simpatizantes no Ocidente. Muitos acreditam que o socialismo é bom, e que o comunismo, o fascismo e o nazismo é que são violentos e anti-democráticos. A mentalidade anticapitalista gerou homicídios em massa em todos os países socialistas, e segue gerando sofrimento até hoje nos locais em que ainda é experimentado.

A União Soviética já acabou, assim como as enormes estatuas de Marx e Lenine que literalmente emporcalhavam várias cidades do Leste Europeu. Porém, idéias têm consequências, e nenhum outro corpo de idéias atraiu um número maior de seguidores devotos do que o marxismo-leninismo.

Se o poderoso argumento da impossibilidade do cálculo econômico sob o socialismo e a astronômica carnificina gerada por esse regime ainda não foram capazes de desanimar a esquerda em suas reiteradas exortações por mais socialismo, então nada mais o fará.

Há um aforismo russo que diz: “A única lição da história é que não aprendemos nada com a história”. Para um enorme número de pessoas — que continuam ignorando que o socialismo é uma ideia falida e mortal, tanto na teoria quanto na prática — isso nunca foi tão verdadeiro.

Bónus
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A pré-publicação de um capítulo do livro-referência de Orlando Figes, editado em Portugal pela D. Quixote: 1917. Dos autocratas de Smolny à tragédia de um povo

segunda-feira, novembro 06, 2017

O início real do terror vermelho: as primeiras vítimas

A organização russa de direitos humanos Memorial recorda, numa exposição pública, o destino dos primeiros prisioneiros políticos do regime bolchevique, os cidadãos presos nos primeiros dias e meses da existência do governo soviético – desde o golpe comunista até a dispersão da Assembleia Constituinte (25 de outubro de 1917 – 4 de janeiro de 1918), escreve El Pais.
Morte à burguesia e aos seus capangas. Viva o terror vermelho!!
foto do arquivo | 1918
A exposição mostra os retratos e biografias de 54 pessoas, as primeiras vítimas da repressão política soviética. Para recuperar os seus destinos são usadas as fotografias, documentos arquivísticos (materiais dos seus processos políticos) e a publicação de numerosos jornais no final de 1917, que, apesar da censura bolchevique, conseguiriam, por alguns meses, publicar a informação sobre as práticas repressivas do novo poder soviético. A galeria de retratos fecha com imagem de Ivan Manukhin, o médico da prisão da fortaleza de Pedro e Paulo em Petrogrado, que negociou resgates pela libertação dos prisioneiros e acabou exilando-se na França.
"As cadeias bolcheviques"
Jornal "Sovremennoe Slovo", 28/12/1917
fonte @Memorial
Nesses meses turbulentos, as instituições do antigo regime entraram em colapso e os bolcheviques que depuseram o governo provisório de Alexandre Kerensky ainda não sistematizavam a polícia e o aparelho de justiça. O jornalista, historiador e editor Vladimir Burtsev foi o primeiro a ser preso quando o cruzador “Aurora” ainda não havia dado o sinal de assalto do Palácio de Inverno. Detidos de forma breve, seguiram um militar (general Jaques Bagratuni, cunhado de Kerensky) e um ministro do governo provisório. As prisões estavam cheias, havia sérios problemas como escassez, guerra, a busca de uma paz separada com a Alemanha. A resistência aos bolcheviques ainda era escassa. Os carcereiros poderiam permitir-se libertar os prisioneiros da revolução com rapidez. Os jornais da época, as memórias e os arquivos estaduais são as fontes que Borís Belenkin, membro da direção do Memorial e responsável pela sua coleção de documentos, utilizou na montagem da exposição. Alguns retângulos brancos estilizados e lacónicos, decorados com fotografias “esbatidas” marcam as paredes da sede do Memorial. Em cada retângulo, um destino, dos ministros do governo provisório dominado pela revolução, aos industriais e banqueiros, aos militares, economistas, médicos, arquitetos, sacerdotes e ateus, funcionários, estudantes, homens e mulheres, judeus e anti-semitas.
Vladimir Burtsev, fotógrafo desconhecido. Artigo sobre a sua detenção.
Jornal "Narodnoe Slovo", 28/10/1917 fonte @Memorial
Ao sair da prisão, os primeiros detidos em parte emigraram, em parte, ficaram novamente presos, no futuro. A maioria, diz Belenkin, “estão em Sainte Geneviève des Bois [cemitério de Paris onde descansam os restos de muitos emigrantes russos], pereceram em algum lugar no GULAG ou foram fuzilados e enterrados em valas comuns”.
Pedido de transferência dos presos devido à sobrelotação das cadeias.
Petrogrado, 28/11/1917 Arquivo Estatal da Federação Russa
fonte @Memorial
De sua cela na fortaleza de Pedro e Paulo, Burtsev escreveu as memórias de um ministro czarista alojado na cela adjacente, com quem se comunicava batendo na parede. Quando foi libertado, em fevereiro de 1918, ele emigrou para Paris, onde morreu na pobreza. Na prisão, o engenheiro Peter Palchinsky, que organizou a resistência ao assalto ao Palácio de Inverno, estava tecendo cestos. Libertado, mais tarde ele colaborou com as autoridades soviéticas na implementação do seu plano de eletrificação e foi fuzilado em 1929, acusado de conspirar contra a economia soviética.
A ordem de buscas domiciliares emitido em 30/12/1917 contra pianista,
maestro e compositor nascido na Ucrânia, Alexander Siloti

fonte @Memorial
Entre os primeiros a serem presas, também estava Sofia Pánina, uma rica aristocrata russa a quem chamavam de “princesa vermelha”. Filantropa e promotora do movimento de libertação feminina, Pánina construiu uma casa de aldeia para receber e educar crianças e adultos em São Petersburgo. Foi deputada da Duma municipal de Petrogrado e participou no Governo Provisório. Os bolcheviques a acusaram de desperdiçar fundos públicos. Pánina ajudou o movimiento branco (monárquico), emigrou e está enterrada em Nova Iorque.
Sofia Pánina em 1913 e artigo sobre a sua prisão, jornal "Sovremennoe Slovo", 03/12/1917
fonte @Memorial
Interessante é a figura de Pavel Dolgorukov, um dos líderes dos cadetes (do partido liberal dos Democratas Constitucionais, conhecido como KD em sua sigla russa), formado em física e matemática, proprietário de terras, pacifista e seguidor de escritor Lev Tolstoi. Ele foi exilado da Crimeia e queria estabelecer ligações entre a emigração e a Rússia soviética, onde ele chegou ilegalmente duas vezes. Na segunda vez, em 1926, foi detido e preso. Foi fuzilado em Kharkiv com cerca de 20 outros reféns em retaliação pelo assassinato do representante soviético na Polónia.

Nomes ilustres
A permissão, dada à esposa, para visitar na cadeia o advogado e político Fyodor Kokoshkin.
Assassinado, à sangue frio, no hospital prisional, sofrendo de tuberculose, em 7(20) de janeiro de 1918.
fonte @Memorial 
Na fortaleza, Alexandr Vyshnegradski, banqueiro, industrial e filho de um ministro das finanças czarista, compunha música e uma de suas obras foi tocada nas instalações do Memorial na abertura da exposição. Entre os detidos também estava Vladimir Nabokov, professor de Direito e pai do escritor do mesmo nome. Ele morreu assassinado em Berlim em 1922. Serguéi Tretyakov, fabricante e membro da família fundadora da famosa galeria de Moscovo, que recebeu o nome dele, teve pouca sorte. Tretyakov colaborou com o governo soviético e morreu em um campo de concentração alemão, fuzilado pela Gestapo em 1944. Mónaco foi o destino final de Mikhail Teréshchenko, Ministro das Finanças e dos Negócios Estrangeiros do Governo Provisório, industrial e empresário açucareiro. Da família Teréschenko existem em Kyiv, na Ucrânia, as mansões que abrigam o Museu da arte russa [desde março de 2017 o Museu Nacional “Galeria de Arte de Kyiv”] e o Museu de Arte Ocidental.
Mikhail Teréshchenko foto @Wikipédia
Belenkin estima que nos últimos meses de 1917, várias centenas de pessoas foram presas em Petrogrado e várias centenas mais em Moscovo. A polícia política do novo regime foi sistematizada apenas à partir de dezembro de 1917 quando foi criada a Comissão Extraordinária de Luta com a Contra-revolução e Sabotagem [a famigerada CheKa]. A exposição não documenta qualquer pena de morte. Em vez disso, inclui algumas vítimas de linchamentos, um padre, um deputado da Duma e dois líderes dos cadetes.

Por que os judeus americanos idealizam o comunismo soviético?

A revista judaica americana The Tablet analisa uma pergunta ainda perturbadora: Por que os judeus americanos idealizam o comunismo soviético? A revista argumenta que isso não tem qualquer racionalidade, até porque a experiência comunista nunca verdadeiramente favoreceu os judeus, mesmo sendo judeus alguns dos seus líderes:
[...] Quanto aos judeus e ao judaísmo, o comunismo soviético proibiu a prática da religião e o estudo do hebraico. A seção judaica do Partido Comunista assumiu a liderança na perseguição de rabinos e professores, matando alguns, enviando outros para a morte certa. Os soviéticos elogiaram os massacres árabes de judeus na Palestina em 1929 como o início da Revolução Comunista Árabe e formularam os slogan anti-sionistas que são a base do antisemitismo na América hoje. A propaganda soviética acusou os judeus do imperialismo na década de 1930 e (com os árabes) de racismo na década de 1970. (...) Os soviéticos usaram o Comité anti-fascista judeu para ganhar o apoio americano durante a II Guerra Mundial e então executaram a sua liderança em 1952.

[...] Este é o comunismo soviético de que estamos falando – que matou cerca de 30 milhões de seus próprios cidadãos, inclusive através de uma fome reforçada pelo governo na Ucrânia, os detalhes do qual até as pessoas endurecidas pela literatura sobre Holocausto têm problemas para ler. Hitler matou um milhão de crianças judaicas; Estaline sozinho matou mais de dobro de crianças ucranianas.

[...] Os judeus aceitaram a Torá no Sinai para salvá-los das consequências malignas das boas intenções. As proibições da Torá contra a idolatria visavam proteger-nos justamente dos horrores que as “boas intenções” do comunismo impuseram no seu lugar. O idealismo não é uma justificativa para os atalhos morais, e a revolução não substitui a civilização.

Ler artigo completo em inglês.

sábado, novembro 04, 2017

“Lenine, o Ditador — Um Retrato Íntimo” do Victor Sebestyen

O historiador e jornlalista húngaro, Victor Sebestyen, vê publicado em Portugal o seu livroLenine, o DitadorUm Retrato Íntimo”, uma biografia íntima do primeiro ditador soviético, um trabalho ímpar sobre uma das figuras mais significativas o século XX.
Comprar o livro
Lenine acreditava que “o político é o pessoal”, e, de modo algum ignorando sua vida política, o foco de Sebestyen será sobre Lenine, o homem – um homem que amou a natureza quase tanto quanto amava fazer a revolução e cujos laços e as amizades estabeleceu-as com mulheres. A sua largamente escondida ménage a trois com a esposa, Nadezhda Krupskaya, e a amante e camarada, Inessa Armand, revela uma personagem diferente da figura fria e unidimensional da lenda.
As personagens do ménage a trois revolucionário (de esquerda para direita): Krupskaya, Lenine e Armand
A jornalista portuguesa Isabel Lucas entrevistou o historiador para o jornal Publico:
Victor Sebestyen na foto do @Nuno Ferreira Santos
“Lenine tomou o poder à maneira russa, e criou uma autocracia brutal”. Esta passagem da conversa entre os dois ajuda a compreender o título: “Como é que alguém que durante grande parte da vida viveu em pensões em várias cidades da Europa arranca com vinte seguidores e toma conta de um dos maiores impérios do mundo? Foi mais prático do que ideológico, tinha um programa e sabia como se organizar. Enquanto uns estavam no café a discutir a revolução, Lenine foi para o terreno pô-la em prática, como só era capaz de fazer alguém tão obcecado com o poder. Foi um dos indivíduos que fazem a História. Ele teria sempre tido sucesso em alguma coisa e provavelmente seria na política, qualquer que fosse a sua ideologia. Era russo e isso diz mais sobre ele do que o facto de ser marxista.”

No seu livro diz que Lenine criou Estaline.
Absolutamente. Lenine criou todas as instituições de terror que Estaline usou de modo mais eficaz. Estaline acreditava que estava a seguir o grande líder. E estava. Era muito mais brutal, mais paranóico, mas também acreditava que os fins justificavam os meios e que o terror não fazia mal porque se estava a criar o tal estado utópico. Isso é Lenine.
Lenine e Estaline em Gorky
Escreve também que ele fundou o comunismo enquanto religião.
Sim, muitas pessoas discordam disso. O Marxismo sempre acreditou que era científico, mas pertencer ao partido comunista, ser bolchevique, não era muito diferente de pertencer a uma igreja com um líder. A ambição de Lenine era enorme. Ele não queria mudar apenas a estrutura política, ou o sistema social, ou o sistema económico. Ele achava que se eliminasse os chamados mecanismos de exploração criava um novo tipo de homem. Acreditava profundamente nisto, que era capaz de mudar a natureza humana, o que é uma ideia muito religiosa. Lenine e os bolcheviques acreditavam que salvavam almas e o fervor com que acreditavam nisso é muito religioso. Não é uma crença política democrática. É muitos mais como um culto religioso do que como um partido político. 

sexta-feira, novembro 03, 2017

Socialismo bolivariano às portas do default (12 imagens)

O presidente da Venezuela, Nicolas Maduro afirmou que país pretende reestruturar a sua divida externa, logo que a petrolífera estatal, PDVSA pagar a última tranche no valor de 1,1 biliões de dólares. No essencial isso significa o default.

A economia da Venezuela está numa profunda crise, a nação sobrevive apenas graças ao facto de que quase todas as famílias terem alguém que trabalha no estrangeiro e apoia os seus. E como em quase todas as países em crises profundas, na Venezuela se tornaram populares as lotarias que prometem a fortuna fácil “aqui e agora”.

02. Uma das lotarias mais populares de Venezuela se chama “Animalitos Activos”. No essencial é uma loteria normal, onde os apostadores devem escolher vários números dos 36 disponíveis, mas aqui foram adicionadas as imagens dos animais, o que torna a lotaria mais interessante, pois assim, cada número possui a sua própria “personagem totem” )

03. Loteria possui prémio altos, por acertar em vários números e também os bónus menores por apostar num único animal. O galo é um dos mais populares, ora pois as pessoas gostam do galo ora do número “redondo” de 25, a sua responsabilidade na loteria “Animalitos Activos”.

04. Alguns apostadores apontam todos os animais “ganhadores”, tentando apostar segundo o “sistema”. Na realidade, não existe nenhum “sistema”, os números são aleatórios, escolhidos segundo a teoria de probabilidade, mas o povo não perca a esperança de enriquecer de noite para o dia.

05. Para a compra dos bilhetes da lotaria são precisos os maços de notas cada vez maiores — a moeda nacional está caindo em pico, o anúncio do default, feito pelo Maduro, poderá apenas acelerar essa queda.

06. As filas para comprar os bilhetes de lotaria:

07. As maças cada vez mais grossas dos bolívares cada vez menos valiosos.

08. Um homem com a lápis, certamente tenta apostar pelo “sistema” )

09. Os apostadores:

10. Mais uma casa lotérica.

E vocês, os nossos queridos leitores, o que acham, conseguirá o galo № 25 salvar o socialismo bolivariano?

Fotos @GettyImages | Texto Maxim Mirovich   

Bónus
No dia 2 de novembro o presidente Maduro também anunciou a entrada em circulação da nova nota de 100.000 bolívares (que atualmente vale cerca de 2 €). A nova nota circulará juntamente com as notas antigas de 500, 1.000, 2.000, 5.000, 10.000 e 20.000 bolívares, usadas atualmente.
Segundo o banco de investimento norte-americano Torino Capital, especialista na elaboração de estatísticas económicas e análise da opinião pública na Venezuela, o país fechará o ano com uma inflação de 1,033% e prevê para o ano 2018 uma inflação próxima aos 5.000% anuais.

Nenhuma economia moderna, por mais robusta que seja, não aguenta tanto socialismo e por tento tempo...            

As baixas russas na Síria em outubro de 2017

Os dados da agência Moata mostram as perdas de coligação anti-Daesh/EI no Iraque e na Síria em outubro de 2017. Apesar de diminuição do seu território e da influência, a máquina do EI foi enfraquecida, mas ainda não foi aniquilada.

A situação geral no sul da Síria e no Iraque:
As perdas russas são avaliadas em +20 combatentes, entre militares regulares e mercenários. Apenas uma fração das perdas foi reconhecida pelo estado russo. Tendo em conta a chegada à Rússia dos seus caixões, informação, geralmente, divulgada apenas na imprensa regional, os números apresentados pelo Daesh/EI parecem bastante exatos, principalmente comparadas com os dados oficiais russos.

Neste aspeto aos ucranianos e aos amigos da Ucrânia interessa apenas a morte dos terroristas, com a passagem anterior pela Donbas. Como já escrevemos antes, não importa quem matou esta ou aquela criatura: Daesh/EI, malária ou vodca de má qualidade. Todos os que cometeram os crimes na Ucrânia e contra os ucranianos devem morrer, é a vontade do Deus que, naturalmente, pode escolher os meios mais variados.  
No dia 1 de novembro na Síria morreu o terrorista russo Sergey Karpunin (foto em cima). O local exato da sua morte é desconhecido. Natural de Oremburgo, este “cossaco russo” participou nas atividades terroristas no leste da Ucrânia. No dia 4 de novembro na cidade russa de Saratov foi sepultado o terrorista russo Alexander “Livonets” Nikitaev (foto em baixo), que no passado recente participou nas atividades terroristas russas no leste da Ucrânia, inserido no bando ilegal armado “batalhão Prizrak” (Fantasma).
No dia 27 na Síria (outros dados apontam que foi na Donbas), em um local ora desconhecido foi liquidado Andrey “Noname” Schegortsov (29.03.1986), mercenário russo, natural de Novossibirsk, com passagem terrorista pelo leste da Ucrânia.

Orlando Figes descodificando a sua “A Tragédia de um Povo”

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“A Tragédia de um Povo”, de Orlando Figes, agora editado em Portugal, é um dos estudos clássicos da revolução russa, das suas origens e consequências. O jornalista José Manuel Fernandes entrevistou o historiador.

A revolução não aconteceu, como Marx tinha previsto, num país industrializado, antes na velha Rússia czarista onde 80% da população ainda trabalhava nos campos. Orlando Figes defende que sem compreender as raízes camponesas das revoltas que levaram, primeiro, à revolução frustrada de 1905, depois à revolução de fevereiro de 1917, que afastou o czar Nicolau II do poder, e por fim à revolução de outubro, não conseguimos perceber o que se passou há 100 anos nas ruas e palácios de Petrogrado, hoje São Petersburgo.

Nesta história que quis contar como se fosse uma tragédia grega, um drama de todo um povo, emergem contudo algumas figuras centrais, como Nicolau II, cujo imobilismo e inépcia permitiram o agudizar de sucessivas crises, e sobretudo Lenine, que percebeu que podia fazer uma revolução organizando um golpe de Estado e tomando o poder. “Foi esse o génio de Lenine, é esse o seu modelo de revolução”, explicou-nos o historiador numa entrevista em que também exploramos outros mistérios, como o da incapacidade de, em 1917, os socialistas moderados fazerem frente aos bolcheviques.
Ler a entrevista na íntegra
Numa Rússia onde o povo foi educado, gerações atrás de gerações, regimes atrás de regimes, à passividade, a prevalência atual de um autocrata como Putin também não surpreende Figes, para quem o erro do Ocidente foi sempre sobrestimar a força da intelligentsia liberal. Por isso, se este “A Tragédia de um Povo” termina o seu relato em 1924, com a morte de Lenine, o destino da Rússia mesmo depois de 1991 continuou a ser, como ele diz, a “tragédia de um povo”.


LMF: Publicou “A Tragédia de um Povo” há 20 anos, pouco tempo depois da abertura dos arquivos soviéticos. Com o que sabemos hoje, com o que já se descobriu nesses arquivos, mudaria alguma coisa em “A Tragédia de um Povo”?


OF: Acho que a resposta é: não muito. Não há muito mais sobre este período. Teria escrito o livro de maneira diferente? Sim, talvez mudasse uma coisa ou duas. Daria mais ênfase à I Guerra e ao seu impacto na revolução. Daria mais importância às nacionalidades. Olharia mais profundamente para a Ucrânia e para o “fator Ucrânia” na revolução. Seria um livro mais empírico do que é. Mas se há alguma coisa que teria de ser completamente reescrita? Acho que não.
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quarta-feira, novembro 01, 2017

Estaline, atirado fora do mausoléu do Lenine (7 fotos)

No dia 31 de outubro de 1961, o corpo do Estaline foi retirado do mausoléu de Lenine. Decisão do XXII Congresso do PCUS, na sequência da denúncia do culto de personalidade do ditador soviético, iniciada pelo Nikita Khrushev em fevereiro de 1956.
Yuri Gagarine no mausoléu Lenine-Estaline 
Em outubro de 1961, no Palácio de Congressos de Kremlin, decorria o 22º congresso do PCUS. O secretário-geral do PCUS, Nikita Khrushev, decidiu a retirada do corpo do Estaline do mausoléu, inicialmente construído para o Lenine e que levou o nome duplo, após a morte do ditador em 1953.
Após a mudança
Ao mando do Khrushev, foi preparada a intervenção do delegado Ivan Spiridonov, líder comunista do distrito de Leninegrado, que em nome da sua distrital do PC propôs a retirada do corpo do Estaline do mausoléu. Khrushev se preparava para exercer a coerção necessária aos delegados, no caso do surgimento da oposição à sua decisão. Mas a maioria dos delegados, acostumada à apoiar toda e qualquer iniciativa do partido, e votar de acordo com a sua “linha geral”, apoiou a proposta. No entanto, a decisão final foi tomada pelo plenário do Comité Central do PCUS. Sua reunião foi realizada em 31 de outubro de 1961.
No mesmo dia, cerca das 18h00, os destacamentos da milícia de segurança pública começaram a expulsar o público da Praça Vermelha. Sob o pretexto de ensaiar a passagem dos equipamentos militares da guarnição de Moscovo numa próxima parada militar.
O lugar da escavação foi iluminado com um holofote forte, e os funcionários do regimento do Kremlin começaram à cavar. Trabalharam sem intervalos. Os trabalhos foram supervisionados pelo comando do regimento e pelos representantes do KGB. Por volta das 21h horas da noite, o túmulo foi pronto. Às 22h15, dentro da sepultura e junto ao murro do Kremlin foi criada uma espécie de sarcófago, onde foi colocado o caixão com o corpo do Estaline. Os soldados taparam o túmulo, fazendo um pequeno montículo acima dele. Nele, foi instalada uma placa com as datas de nascimento e morte de Iosif V. Estaline (Dzhugashvili).
(@fonte)
As fotos da revista Life foram feitas junto ao muro do Kremlin, após a transladação dos restos do Estaline. Por um longo período do tempo, a sepultura do ditador tinha a forma de uma pequena campa, coberta por duas placas de granito. Somente no final de 1969, por ocasião do 90º aniversário do nascimento do Estaline, na sua sepultura foi colocado um busto de granito da autoria do arquiteto N. V. Tomsky.

Holodomor em exposição na FASBAM em Curitiba

A história do Holodomor (a Grande Fome) que matou entre 3,5 à 7 milhões de ucranianos durante o regime soviético será exposta entre 10 à 30 de novembro no FASBAM em Curitiba no Brasil.  

Holodomor é uma palavra ucraniana que é uma junção de palavras fome e morte, significa deixar morrer de fome e que, portanto, representa a grande fome ocorrida de maneira proposital pela União Soviética, sob o comando de Iosif Estaline, contra o povo ucraniano entre os anos de 1932 e 1933.

As pessoas interessadas em visitar a exposição poderão se dirigir a Faculdade São Basílio Magno, de segunda-feira à sexta-feira, das 8h às 16h. A entrada é gratuita.

A exposição faz parte da recordação do Holodomor pelo mundo que acontece sempre no quarto sábado de novembro. A sua estrutura é composta por 54 painéis que retratam a tirania do governo stalinista por meio de textos e imagens e de diversos materiais que estarão disponíveis para consulta.


“Assumindo o compromisso com a comunidade ucraniana no Brasil, a FASBAM pretende reforçar os valores ucranianos e manter viva essa história que ficou encoberta até a queda do regime comunista soviético e que ainda é desconhecida por muitos”, destaca o Professor Irineu Letenski, Diretor da Faculdade São Basílio Magno – FASBAM.