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domingo, maio 10, 2026

Os «regimentos mortais» de mutilados e fecapocalipse russo

A marcha de «regimento imortal» russo em Augsburg, na Alemanha

A cidade russa de Engels, de onde partem bombardeiros estratégicos russos para atacar Ucrânia, celebrou o 9 de Maio totalmente encharcada em excrementos. A cidade de Almetyevsk na Tartaristão, aceitou o desafio e colocou os mutilados à marchar.

 

A cidade inteira de Engels está a afundar-se em merda há uma semana. Devido à destruição de um sistema de esgotos, as ruas estão cheias de poças de fezes. 

As autoridades municipais, regionais e federeis russos podiam aplicar os fundos existentes num novo sistema de esgotos e ter reparado completamente os serviços públicos da cidade. Em vez disso, dia e noite fabricam os mísseis para matar os ucranianos e destruir os centrais termoelétricas de Kyiv e outras cidades ucranianas. Destruir e estragar a vida civil dos outros é mais importante para os russos do que viver a sua própria vida normal. Depois afogam-se em merda e os seus filhos respiram o esgoto.


Na cidade de Almetyevsk, na região de Tartaristão, foi organizado o desfile alusivo ao dia 9 de maio, no qual participaram os novos mutilados, os homens, na sua maioria jovens, que perderam os braços ou pernas algures nas estepes da Ucrânia. No decorrer da dita «SVO», ou a «operação militar especial». O nome do jargão para a guerra, segundo as regras da «nova normalidade» russa, em vigor naquele país desde 24.02.2022. 

Mais um dia normal na rússia, o país, cujos filhos e filhas nascem e vivem para «transformar Kafka na realidade», como rezava o famoso trocadilho soviético... 

Fontes: kazansky2017; ButusovPlus; kazansky2017

terça-feira, março 10, 2026

O primeiro Taras Shevchenko em África

Ocorreu um acontecimento histórico na República do Botswana: naquele país foi erguido o primeiro monumento ao poeta-mor da Ucrânia, Taras Shevchenko, no continente africano, informou o ministro dos NE/RI da Ucrânia, Dr. Andrij Sybiha. 

Fonte: threads.com/@anastasia_elenok

A inauguração do monumento decorreu na maior instituição de ensino do país, a Universidade do Botswana, com a participação da direção, professores, estudantes, corpo diplomático estrangeiro, comunidade ucraniana e jornalistas. 

O monumento foi criado em bronze botsuano pelo escultor Franois Koteze. Durante a cerimónia, o Decano da Faculdade de Ciências Humanas, Tapelo Otlokhetswe, leu a sua própria tradução do «Testamento» para a língua nacional do Botswana, o setswana. 

Existem 1.384 monumentos ao Taras Schevchenko, conhecido como «Kobzar» no mundo, a maioria na Ucrânia, mas 128 estão em 35 outros países. Agora, o primeiro Estado africano, o Botswana, junta-se a eles.

Monumento do Shevchenko metralhado pelos ocupantes russos em Bucha, 2022

Estou grato à Diretora do nosso Departamento de África e Organizações Regionais, Lyubov Abravitova, ao Embaixador da Ucrânia no Botswana, Oleksiy Sivak, e à equipa da embaixada pela implementação desta importante iniciativa, à direção da Universidade do Botswana pela sua cooperação e à nossa comunidade pela sua preocupação. O primeiro Kobzar em solo africano representa a universalidade das ideias de Shevchenko, a intemporalidade das suas palavras e o poder do seu pensamento, que ao longo dos séculos uniu o povo ucraniano e o mundo inteiro em torno dos valores universais da liberdade, da justiça e da identidade nacional, - escreveu o ministro na sua página do Facebook.

Testamento, poema do Taras Shevchenko (1814-1861) 

Quando eu morrer, me enterrem

Na minha amada Ucrânia,

Meu túmulo ficará sobre um monte elevado grave

Em meio à planície se espalhando,

Assim como os campos, as estepes sem limites,

A margem que mergulha do Dnipro.

Meus olhos já podem ver, meus ouvidos ouvem

O rugido poderoso do rio.

 

Quando da Ucrânia

lançado será ao mar azul profundo

o sangue dos inimigos

Então, eu vou deixar

Esses montes e campos férteis

e voar para longe

Para a morada de Deus,

E então eu irei rezar.

Mas até esse dia

Eu nada saberei de Deus.

 

Depois de me enterrar, levantem-se

E rasguem as grilhetas que nos prenderam,

lancem na água o sangue dos tiranos

e comemorem a liberdade

que conquistarão.

E na grande família nova,

A família do livre, do Justo e do Fraterno,

Com fala mansa, e palavras amáveis,

Lembrem-se também de mim.

Tradução livre por Jaime Leitão (com algumas correções do nosso blogue)

É de recordar, que em abril de 2025, a estudante russa de 19 anos, Daria Kozyreva, foi condenada a 2 anos e 8 meses de prisão por ter colado um pedaço de papel com o poema «Testamento» no monumento de poeta ucraniano Taras Shevchenko em São Petersburgo.

Foto: VK da Daria Kozyreva


sexta-feira, fevereiro 13, 2026

A enciclopédia ilustrada dos horrores e abominações do GULAG soviético

A fazendeira e escritora Eufrósínia Kersnovskaya passou 12 anos da sua vida aprisionada no GULAG soviético. Produziu centenas de pinturas, que com a precisão fotográfica mostram os horrores e abominações dos campos de concentração comunistas da União Soviética. 

Eufrósínia Kersnovskaya

Há uma verdadeira enciclopédia nessas imagens. Elas contêm um material tão informativo que nenhum memorialista consciencioso ou coleção de documentos poderia fornecer. O olhar perspicaz da artista captura situações que jamais poderiam ser registradas por fotografia e cinema (fotógrafos e cinegrafistas eram simplesmente proibidos no GULAG): a vida em confinamento solitário e celas compartilhadas, os horrores dos embarques, as etapas, a vida nos campos de Estaline, o trabalho dos prisioneiros em hospitais e serrarias, em necrotérios e nas minas, escreve blogue Antisovetsky

Chegada de uma nova etapa ao «campo corretivo-laboral» do GULAG
Kersnovskaya se lembra de tudo — como eram as parashas (latrinas), como os prisioneiros se vestiam, como aconteciam os interrogatórios, os shmons (rusgas), as lutas corporais, a lavagem nos banhos públicos e as rotinas de necessidades fisiológicas, os enterros dos mortos, os amores e romances.

«Descanso curto ao caminho da cova»

Com uma lapidação precisa, ela retrata seus anos de GULAG e nos trabalhos forçados, seus camaradas na desgraça e seus carrascos. Todos os tipos de personagens existem nesses desenhos: guardas prisionais, urkas (criminosos), professores doutores, delatores, presos especiais, menores, dokhodyagi (quase-mortos), camponeses, zhuchkas ((1) jovem prostitutas; 2) ladras; 3) concubina fieis)), brigadeiros laborais, koblas (lésbicas ativas), padrinhos (oficiais do NKVD encarregados da segurança interna dos campos), prostitutas. E tudo isso foi capturado por Kersnovskaya com precisão cinematográfica. Quase não há estática – tudo se move, age, vive, nas suas imagens. A carga psicológica e emocional das imagens está no limite! 

«Dúzia dos quase-mortos são levados aos trabalhos» 

Eufrósínia nasceu em em 1908 no sul da Ucrânia, em Odessa. Sua mãe era professora de inglês e francês. Seu pai era advogado e criminologista. Eufrósínia recebeu uma excelente educação e falava nove idiomas, no entanto optou por se formar em veterinária. 

Fugindo dos horrores do comunismo e do terror vermelho, após a queda da República Popular da Ucrânia (UNR), família conseguiu fugir à Romênia. Lá, na região de Bessarábia, perto da cidade de Soroki, na vila de Tsepilovo, ficava uma propriedade da família. No final da década de 1930, seu pai faleceu. A filha e a mãe teriam continuado morando em sua casa até que em agosto de 1939, a Alemanha nazi e URSS comunista assinaram um pacto de não agressão, que dividia as suas «esferas de influência» na Europa Oriental. O Exército Vermelho veio do oeste, e as pessoas da sua «esfera de influência» foram enviadas para a Sibéria em vagões de gado. Kersnovskaya também foi deportada, por ser «uma proprietária» e representante de uma «família rica». Ficou presa de 1942 a 1952, período durante o qual lavava roupas de cama de hospitais, passou pelo localidade de Zlobino, como ela chamava de «mercado de escravos de Norilsk». 

Uma lição de «economia» socialista 

«Aqui, crianças estão espalhadas em fila ao longo de um campo de trigo não colhido, a professora está explicando algo... Finalmente, entendi: essas crianças magras e famintas estão queimando o trigo...»

«... Galopando pelo campo... Não sei quem era. Aquele cavaleiro parecia mais um oprichnik! Só que na sela não havia uma cabeça de cachorro ou uma vassoura, mas um monte de mochilas. O que está acontecendo? O que aquelas crianças magras e as velhas fizeram de errado enquanto colhiam espigas de milho? Elas me explicaram na aldeia: 'Não recebes nada por um dia de trabalho. Quando você colhe espigas de milho, pode levar/pegar até 10 quilos... 

Mas as espigas de milho vão se perder de qualquer jeito! – 'Vão se perder mesmo. Mas se você permitir que colham as espigas de milho, ninguém vai trabalhar? Ou talvez elas deixarão as espigas [no campo] de propósito.'» 

Uma lição de alfabetização política 

Quando Kersnovskaya estava numa prisão na região de Altai, ela aprofundou os seus conhecimentos políticos. Ela escreve: «Uma jovem que saiu para passear conosco foi presa por não denunciar um homem que, usando quinze fósforos, formou o número «fatal» 666, depois a palavra «serpente» e, finalmente, «Lenine». Para mim, com minhas «limitações europeias», parecia que [cidadão] só se podia ser responsabilizado por seus próprios atos. Comecei a perceber, com dificuldade, que aqui, neste país, até mesmo palavras ditas são consideradas um crime. Mas ser mandada para a prisão por algo que se ouviu — não! Isso supera qualquer coisa que um louco possa imaginar em meio ao delírio!»

Uma lição de ateísmo

«Às vezes, um grupo [de mulheres] se reunia na pocilga... Uma vez, Irma Melman trouxe uma coleção de poemas antirreligiosos. É difícil dizer qual desses poemas era o mais estúpido e vulgar». 

«Qual a minha opinião sobre essa 'poesia'?», você pergunta. 

«Bem, uma pocilga é o lugar mais apropriado para ler tais poemas. Uma lixeira serviria igualmente bem...» Dei de ombros, respondendo às perguntas de Irma Melman, e fui alimentar os leitões. Longe de pensar que isso selava meu destino... Fui acusada de agitação antissoviética e atividade subversiva em uma granja de porcos, e também de ódio ao 'orgulho da poesia soviética — Maiakovski'." 

Sob essa acusação Eufrósínia Kersnovskaya foi enviada para Norillag.

Uma lição de «racionalização» soviética (a experiência de Norillag

Antes da II G.M., os prisioneiros eram enterrados em caixões rudimentares; durante a guerra, o número de cadáveres aumentou tanto que inventaram o chamado carro funerário — uma caixa sobre rodas onde os cadáveres nus eram colocados, em forma sobreposta. Ironicamente, o inventor desse «carro funerário» morreu subitamente e estava em uma das primeiras viagens. Em 1947, começaram a transportar prisioneiros em caixões novamente dos quais, aliás, eram lançados/jogados às valas comuns. 

«No momento da chamada todos devem estar presentes, Mesmo os mortos» 

Uma lição de humanismo socialista 

Enquanto trabalhava no hospital central do campo de prisioneiros de Norilsk, sua primeira morte ocorreu em serviço. «Um tártaro, originário da Crimeia, estava morrendo. Reunindo suas últimas forças, ele se sentou, me chamou e disse: 'Irmã! Aqui está o endereço da minha esposa... Escreva para ela.' Eu fiz o que ele pediu. Me meti em encrenca por isso! Mal sabia eu que um prisioneiro moribundo não tem o direito de se despedir — nem mesmo por carta — de sua família? Se eu ousar relatar outra morte, eles me mandarão para um campo penal para cavar areia». 

Uma lição sobre a verdade comunista

Em 1960, sete anos após a morte do Estaline e em pleno «degelo» de Khruschev, Eufrósínia Kersnovskaya, uma operária de explosivos da mina 13/15, escreveu uma carta ao jornal da cidade «Zapolyarnaya Pravda» sobre violações de normas de segurança no trabalho. Uma prestigiosa comissão, a pedido da redação, verificou os fatos e concluiu que a denúncia era uma calúnia contra cidadãos soviéticos.

No texto publicado em resposta, Eufrósínia foi acusada de «maldade», de ser proveniente de uma família rica e que os seus pais «fugiram para o exterior». O texto a acusava de «malícia contra tudo o que é soviético, herdada de seus pais», dizia que ela «apoia abertamente os nazistas» (?) e que «mesmo depois de cumprir sua pena, continua seu trabalho sujo» (?). Em resumo, os mineiros soviéticos estão lutando pelo título de uma mina de trabalho comunista, e Eufrósínia «ainda tem veneno nos lábios» (artigo se chamava «Uma Mosca Não Pode Eclipsar o Sol»). 

Houve então uma reunião no local de trabalho de Eufrósínia Kersnovskaya, mas as autoridades soviéticas sofreram uma derrota esmagadora: os mineiros saíram em sua defesa. Disseram que Kersnovskaya era uma excelente técnica de explosivos, uma camarada confiável e uma pessoa bondosa. A tentativa de prisão da investigadora fracassou... Então ela foi «aconselhada» a deixar Norilsk. Pediu para trabalhar por mais um ano e quatro meses até completar o tempo que lhe permitiria se reformar/aposentar mais cedo. O pedido foi negado. Assim, ela deixou para sempre a odiada Norilsk em 1959.

Um selo postal da Moldova, dedicado à Eufrósínia Kersnovskaya

Eufrósínia Kersnovskaya morreu em 8 de março de 1994 na cidade russa de Yesentuki. Autora de um livro de memórias (2.200 páginas manuscritas), acompanhado por 700 desenhos, sobre sua infância em Odesa e na Bessarábia, sua deportação e a sua prisão no GULAG. O texto completo das memórias de Evfrosinia Kersnovskaya, em seis volumes, foipublicado somente em 2001–2002.

Ler o livro de suas memórias «Quanto custa uma pessoa», +18, em russo


sexta-feira, dezembro 12, 2025

A política literária do 3º Reich: a “revolução cultural” nazi

A Política Literária na Alemanha nazi”, de Jan-Pieter Barbian, é um estudo sobre como o regime totalitário nazi de Hitler travou uma guerra contra os livros, decidindo conquistar a literatura e as consequências dessa guerra, escreve a Novaya Gazeta Europa.

Até 1933, a Alemanha era o líder europeu em literatura, dominando tanto o volume total de publicações, quanto os lançamentos. Os irmãos Mann, Remarque, Hesse, Zweig, Brecht, Döblin e outros clássicos do modernismo trabalharam na República de Weimar. Havia um público leitor vibrante, um sistema de bibliotecas bem desenvolvido, inúmeras editoras e livrarias. É claro que o regime de Hitler não podia ignorar toda essa riqueza. As montanhas de livros queimadas em praças públicas permanecem como uma metáfora da relação dos nazis/tas com a literatura. Iniciadas por estudantes alemães e amplamente apoiadas por muita gente e pelo regime nazi, as fogueiras foram acesas em até 93 locais diferentes em toda Alemanha.

Mas essa imagem vívida da mídia era apenas a ponta do iceberg da “revolução cultural” lançada pelos nazis/tas. Na literatura, como em muitos outros campos, um processo chamado de “Gleichschaltung” — o apagamento da cultura liberal anterior e sua substituição pela emergente cultura nazi/sta — estava em curso.

Em 2018 em Moscovo foi fechada e destruída a única biblioteca pública ucraniana na rússia

Barbian fala da “revolta das imagens” que a propaganda nazi/sta promoveu contra a República de Weimar. A ideia incutida era a de que a genuína literatura alemã havia sido relegada à clandestinidade entre 1918 e 1933 pelas obras de “burgueses de esquerda de todos os matizes” que haviam estabelecido monopólios culturais injustos. O futuro residia na vingança e no renascimento de uma nobre tradição.

A citação, extraída do texto do funcionário do MNE alemão e um jornalista pró-nazi Friedrich Hussong, soa absolutamente idèntico à de uma postagem numa publicação de um propagandista russo atual: “Algo milagroso aconteceu. Eles não existem mais. As pessoas que eram as únicas a serem ouvidas se calaram. Os onipresentes, que pareciam ser os únicos, desapareceram. [...] Nunca antes houve uma ditadura mais vergonhosa do que a ditadura dos 'intelectuais democráticos' e escritores humanistas. [...] Do fundo de nossos corações, desejamos a todos uma fuga bem-sucedida”.

Em essência, os nazistas orquestraram uma “revolução de cima para baixo” e, entre seus muitos inimigos, viam seu próprio país em um estágio anterior de sua existência. Isso ativou a mecânica da guerra civil, onde cidadãos leais ao Terceiro Reich tentavam destruir, suprimir ou reeducar tanto aqueles que permaneceram leais ao mundo da República de Weimar, quanto aqueles que eram fiéis a imagens alternativas da Alemanha.

2025. A edição russa do livro «How to Be Authentic: Simone de Beauvoir and the Quest for Fulfillment» de Skye Cleary

Os inimigos do regime eram divididos em “raciais” e “políticos”. Este último grupo incluía comunistas e socialistas, pacifistas, católicos fervorosos e qualquer pessoa abertamente crítica ao regime. A estética modernista e teorias inteiras (como a psicanálise) também eram alvos. Literatura sobre aborto, gênero e sexualidade, por exemplo, foi proibida. O expurgo começou com a lei “inofensiva” chamada “Sobre a Proteção dos Jovens contra Literatura Sensual e Obscena”.

Funcionários indesejáveis da biblioteca eram demitidos ou forçados a passar por cursos de endoutrinação nazi/sta. Somente membros da Câmara de Literatura do Reich tinham o direito de se dedicar à produção literária, mas nem todos eram aceitos e podiam ser expulsos a qualquer momento. Assim, um autor indesejável era proibido de exercer sua profissão. A recusa de admissão era baseada na insuficiência de “confiabilidade e adequação”. A eliminação dos inimigos não aconteceu da noite para o dia — eram muitos, difíceis de substituir imediatamente, e a síndrome do “sapo na água fervente” ainda persistia.

A biblioteca dos Tártaros da Crimeia, foi liquidada pelas
forças de ocupação russas, logo em agosto de 2014

Em 1934, os 428 escritores judeus, que tinham o estatuto de soldados da linha de frente, viúvas de guerra ou simplesmente idosos, ainda eram membros da Câmara de Literatura do Reich. Em 1935, o serviço prestado à pátria e as dificuldades sociais deixaram de ser levados em consideração. No entanto, com permissão especial de Goebbels, certos “meio-judeus” e escritores casados/as com judeus foram autorizados a permanecer na Câmara do Reich. Primeiro, foram colocados sob a espada de Dâmocles e, depois, no final da década de 1930, tiveram seus laços cortados. Nos primeiros anos do regime nazista, livros do emigrado Thomas Mann ainda eram vendidos na Alemanha, e Erich Koestner chegou a receber um período probatório, após o qual pôde se tornar membro da Câmara do Reich. A expulsão dos indesejáveis era um processo irreversível — após o aperto dos parafusos, podia haver uma trégua, mas nunca um relaxamento.

Editores “não arianos”, relacionados com os judeus ou editores politicamente indesejáveis eram forçados a sair de suas próprias empresas usando o mesmo esquema — perdendo sua filiação ao Reichschaft e sendo proibidos de exercer sua profissão. Eles eram obrigados a vender seus negócios para proprietários ditos “arianos”, geralmente profundamente enraizados no sistema, e a um preço muito reduzido.

A influência dos antigos proprietários, por meio de diretores de fachada, era combatida. Essencialmente, os próximos ao regime obtiveram uma oportunidade legal para se apropriar de empresas bem-sucedidas. O mesmo aconteceu com as livrarias — algumas eram empresas familiares com histórias que abrangiam décadas, até mesmo um século, mas essas circunstâncias, é claro, não foram levadas em consideração. É verdade que houve exceções em todas as áreas — por exemplo, aquelas que receberam permissões especiais quando, aparentemente, não deveriam tê-las recebido.

Destruição de livros ucranianos nos territórios temporariamente ocupados do leste da Ucrânia

O famoso editor Ernst Rowohlt tentou se encaixar na nova realidade. Ele se filiou ao NSDAP, mas se recusou a demitir seus funcionários judeus. Publicou um livro do judeu Bruno Adler sob um pseudônimo e continuou a imprimir as obras de Hans Fallada, um autor extremamente controverso para o regime. Mesmo assim, permaneceu à frente da Rowohlt Verlag até 1938, quando conseguiu passá-la para seu filho. Além de Fallada, Günther Weisenborn, que no início da década de 1930 era “conhecido como um dos piores agitadores comunistas nas universidades alemãs”, continuou a publicar na Alemanha até sua prisão em 1942. O ex-membro do partido comunista, Axel Eggebrecht, teve permissão para escrever roteiros de cinema até a queda do regime.

Às vezes, essas inconsistências eram explicadas pelo teatro manipulador de Goebbels, que não era dogmático, considerava a propaganda “a arte da elasticidade” e tentava explorar até os intelectuais críticos ao nazismo. Outras vezes, a razão residia nos benefícios económicos das empresas. Uma das ideias centrais do livro é que o regime nazi/sta estava longe de ser idealista e frequentemente negligenciava seus próprios valores ideologicops por razões egoístas. Em conclusão, Barbian descreve a política nazista como o “niilismo cínico” de bandidos vendiveis e carreiristas.

Outro motivo para a inconsistência foi que a literatura alemã ficou sob a alçada de vários departamentos simultaneamente. Cada um de seus líderes tinha sua própria visão para reformular o processo literário, o que levou ao confronto das abordagens. Em parte, os conflitos entre camaradas fortaleceram a liderança única de Hitler, e ele deliberadamente criava o terreno fértil para isso.

A literatura alemã, que havia experimentado um rápido florescimento na década de 1920, foi esmagada durante o Terceiro Reich. Quase todos os autores importantes se viram exilados, interna ou externamente, tiveram relações difíceis com o regime ou se tornaram suas vítimas (além das vitimas de repressoes, vários autores cometeram suicídio). O expurgo nazista foi bem-sucedido e a maioria da comunidade literária, segundo Barbian, sucumbiu à submissão geral (apenas uma minoria absoluta ousou protestar). No entanto, a segunda parte do plano — impor livros nazistas aos leitores — enfrentou sérios problemas.

A distopia clarividente «O Dia de Oprichnik» do Vladimir Sorokin,
o autor e os seus livros são proibidos na rússia atual

A literatura oficial gozava de amplo apoio informativo e considerável apoio financeiro do Estado. Goebbels idealizou grandes feiras de livros, habilmente associando livros (“armas do espírito pacífico do desenvolvimento”) ao militarismo e ao serviço ao poder. Mas, por algum motivo, os leitores não se mostraram muito entusiasmados. O novo diretor da biblioteca a encheu de jornalismo e ficção nazistas, o que levou a uma queda acentuada na frequência — “ninguém lê” esses livros. Os leitores migraram para bibliotecas pagas, que ofereciam uma “dieta mais leve”.

O material de leitura mais popular, como antes, eram romances policiais, de aventura e românticos, todos sem relação com o nazismo. A literatura de entretenimento gozou de incrível popularidade no Terceiro Reich, e essa popularidade só aumentou. O autor de maior sucesso da época acabou sendo o humorista Heinrich Spoerl. Durante a Segunda Guerra Mundial, Goebbels descreveu isso dessa forma: “As pessoas fogem dos fardos e dificuldades da vida quotidiana para espaços espirituais que nada têm a ver com a guerra”.

O público em geral aprecia literatura de entretenimento, mas ela se torna especialmente popular quando o mundo ao seu redor está doente. A década de 2020 ilustra bem isso: o desejo coletivo de “consumir para esquecer” anda de mãos dadas com a demanda por literatura leve e que distraia. Os ideólogos de Hitler não levaram em conta que o totalitarismo, em essência, cria uma realidade doentia. Uma pessoa em um ambiente totalitário se depara constantemente com sua própria impotência, humilhação, culpa por concessões quase inevitáveis e medo.

O abuso mental prolongado exaure o corpo. A busca escapista por cultura surge da necessidade de encontrar um lugar seguro, ao menos temporariamente — de transportar o próprio mundo interior para um lugar onde a autonomia possa ser preservada e onde não possa ser alcançada por um agressor com seus expurgos e reeducações. A televisão ou o rádio podem fornecer ruído de fundo. A concordância passiva com o apresentador não exige muito do espectador. Mas um livro é um meio complexo. Ele não funciona sem envolvimento. E as pessoas geralmente não estão dispostas a dedicar seus esforços a algo que as engane e as paralise.

Blogueiro

A política literária da rússia atual se assenta em 3 pilares: a perseguição dos escritores e editores russos, a proibição da publicação de livros (sob vários pretextos, geralmente o «extremismo» e a «propaganda lgbt») e a destruição da cultura e literatura ucraniana (assassinato dos escitores e destruição de livros nos territórios temporariamente ocupados). Aos escritores russos, o estado russo, impõe o estatuto de «agente estrangeiro», um espécie de aviso que o cidadão contemplado é obrigado a colocar em todas as suas publicações, em todas as plataformas (livros, artigos, publicações no YouTube e postagens em todas as redes sociais, etc), mesmo comunicando uma infelicidade na família ou publicitando um evento dos terceiros. A falha é sancionada com a multa, duas multas ao ano dão direito ao processo criminal com as penas de prisão efetiva. Desde meados de 2025 a legislação foi agravada e agora basta apenas uma não-publicação de aviso ao ano, para se iniciar o processo criminal contra o «infrator».

Os escritores ucranianos vítimas de perseguições políticas

O nosso «3º Roma» ainda não chegou totalmente aos padrões do 3º Reich, mas está caminhando nessa direção. Assim, alguns deputados da Duma Estatal já começaram propor uma espécie de corporatização da literatura. Ou seja, a futura legislação que irá impor a solução usada pelo 3º Reich: apenas os escitores filiados na União dos Escritores da rússia (uma espécie de Câmara de Literatura do Reich) vão ter o direito de serem publicados na rússia. Com todas as consequências inerentes: só os escritores afetos ao regime serão admitidos e nenhum escitor fora da corporação será publicado sem uma permissão específica. Por enquanto a ideia não passa de um projeto. Mas não haja dúvidas, é um projeto que tem «pernas para anadar» na rússia atual. Cada vez mais e mais semelhante ao 3º Reich, cujas políticas está copiando talvez, de forma ainda mais acentuada, do que as políticas soviéticas do mesmo período.

terça-feira, outubro 28, 2025

«G», a proibida e «burguesa» letra do alfabeto ucraniano

O alfabeto ucraniano possuia um elemento «nacionalista-burguês» – a letra «ґ», que foi eliminada do alfabeto em 5 de setembro de 1933. Foi no auge das repressões estalinistas que uma nova grafia foi aprovada na Ucrânia, sob instruções de Moscovo/ou. Essa grafia substituiu a chamada «skrypnykivka» – a grafia em vigor desde 1928.

Assim, as autoridades soviéticas eliminavam as diferenças linguísticas entre o idioma ucraniano e o russo, recorda o Instituto Ucraniano da Memória Nacional.

A letra «ґ», que denotava um [g] forte, voltou a ser usada oficialmente apenas em 1990. Mas durante todo esse tempo foi usada de forma facultativa – pelos linguístas, por algumas publicações, na Diáspora, em palavras específicas como: ґанок (quintal/pórtico), ґрунт (solo), ґатунок (grau/tipo), ґудзик (botão), ґава (corvo/a), em palavras do origem estrangeira e em nomes próprios e georgáficos, etc.

O alfabeto ucraniano também é uma luta, ainda que por sua própria identidade. Mesmo uma letra, um som «nacionalista-burguês» pode ser um sinal de resistência ao colonizador.

Hoje, é importante lembrar: língua ucraniana não precisa de ser igual ou melhor de nenhuma outra. Ela contém a experiência, maneira de pensar, o caráter muito próprios do povo ucraniano.

Portanto, é precisa valorizar e usar qualquer coisa especial – mesmo que seja apenas uma letra, porque ela torna os ucranianos quem eles são.

Convidamos todos a participar do Ditado Radiofônico da Unidade Nacional – vamos escrevê-lo juntos para sentir novamente como a língua une, apesar da distância, apesar da guerra e da letra «ґ», outrora banida pelo regime colonial soviético.

sexta-feira, outubro 24, 2025

A vida e morte do poeta ucraniano num cartoon animado de Lego

A vida do poeta e ativista de direitos humanos ucraniano Vasyl Stus, que morreu no GULAG soviético em 1985, contada num cartoon animado de Lego, pelo realizador ucraniano Oles Vorona de apenas 14 anos. 

A animação de 5 minutos em inglês conta a vida e a morte de Vasyl Stus, que Oles Vorona, um estudante de 14 anos de Lviv, criou sozinho a partir de bonecos e peças de Lego.

Original não apenas em termos de forma. Um conteúdo tão sincero e significativo, criado por crianças ucranianas em tempos de guerra, é mais valioso do que ouro e mais eficaz do que um Ministério da Cultura adulto inteiro.

Hoje, as crianças ucranianas contam e mostram ao mundo quem são os ucranianos e «onde estão os seus Prêmios Nobel». Elas fazem com ousadia e talento o que país tinha feito de forma bastante fraca nos 30 anos anteriores, escreve a blogueira ucraniana Tetiana Popovych. 

Como diz o próprio Oles: «levei 4 meses e mais de 4.000 frames para terminar o trabalho. Agora — você está aqui».

sábado, outubro 11, 2025

Jornalista, blogueira, franco-atiradora e oficial ucraniana se tornou a mãe

A jornalista, blogueira, oficial do exército e, no passado, uma das primeiras franco-atiradoras ucranianas, Olena Bilozerska, deu à luz o seu primeiro filho aos 46 anos. Ela mostrou que as mulheres ucranianas podem fazer tudo!

Olena Bilozerska e comandante Dmytro Yarosch (DUK PS e depois UDA), 2014

A Sra. Olena tornou-se a figura importante da história ucranaiana contemporânea, mesmo antes da invasão em grande escala – na altura, era oficial das Forças Armadas da Ucrânia e comandante do segundo pelotão de tiro de uma bateria de artilharia autopropulsada no 503º Batalhão Separado do Corpo de Fuzileiros Navais.

Na sede da NATO em 2015

Olhando para esta frágil loira (apenas 50 kg!) de olhos azuis, sem uniforme, nunca imaginaria que carrega facilmente uma AK e comanda homens. Até o seu discurso inteligente e letrado sugere que Olena não é uma soldado, mas uma humanitária a 100% – uma professora, filóloga ou especialista em comunicação. Na verdade, Bilozerka é jornalista profissional e, antes da guerra, trabalhou como editora durante mais de dez anos. Ao mesmo tempo, tornou-se conhecida como blogueira, empenhou-se na luta pelos direitos humanos, esteve no Maydan e compreendeu claramente: se a guerra começar, o seu marido, todos os membros do grupo e, por isso, ela irão para a frente de combate. Foi assim que aconteceu...

Algures na retaguarda russa

Olena foi para a guerra em 2014, praticamente nos primeiros dias, como atiradora comum, juntamente com o marido, um dos comandantes do batalhão de socorro. Em 2022, serviu na unidade especial «Artan» e, desde 2023, deixou o seu posto de combate por motivos de saúde. Agora, Olena está a pintar uma série de retratos comoventes para o projeto «Ucranianas heróicas caídas na guerra», para preservar a sua memória.

Linha da frente em Vodiane, 2017

Alguns dias atrás, em outubro de 2025, a Sra. Olena deu à luz um filho! «Quem, aos 46 anos, durante a guerra, decidiu ter um primogénito — sou eu. O meu pequeno Pavló veio ao mundo. Tem 3.700, 54 cm. Desejo ao meu filho, sabem o quê?», escreveu Olena Bilozerska na sua página de Facebook.

Na linha da frente em Vodiane, 2017

Os meios de comunicação social ucraniana felicitam a mãe pelo benjamim — desejamos-lhe tudo de bom e partilhamos a sua entrevista sobre as mulheres no exército, o serviço com o marido, os medos, os sinais na linha da frente e a resiliência feminina. A conversa não perdeu a sua relevância e prova mais uma vez: as mulheres ucranianas podem fazer qualquer coisa, e a idade, o género e o estatuto são apenas convenções que não são decisivas para nós. 

O livro da Olena Bilozerska: «Diário de um soldado ilegal»

Ler a sua entrevista AQUI (em ucraniano)

Bónus

Em 13 de junho de 2014 as forças ucranianas libertaram a cidade estratégica de Mariupol, fotos da Olena Bilozerska:

O lendário blindado popular «Pryanik», usado pelas forças ucranianas na libertação do Mariupol

No dia 6 de julho de 2014, o Corpo voluntário ucraniano (DUK) do “Setor da Direita”, em conjunto com as unidades do exército ucraniano e um pelotão do batalhão “Donbas”, participou na operação militar na aldeia Karlivka na região de Donetsk, fotos da Olena Bilozerska:

Comandante Dmytro Yarosh e seus homens na batalha de Karlivka, 2014


quinta-feira, outubro 02, 2025

Renascimento fuzilado: antologia da literatura ucraniana de 1917-1933

A autoria da metáfora “renascimento fuzilado” pertence ao intelectual polaco Jerzy Giedroyc. Utilizou esta expressão, pela primeira vez, numa carta em 1958, propondo-a como título de uma antologia da literatura ucraniana de 1917-1933.

Discutia-se que por um lado o título geral: “Renascimento Fuzilado. Antologia 1917-1933” soaria de uma forma impressionante. Por outro lado, o modesto título “Antologia” poderia facilitar a penetração do livro atrás da Cortina de Ferro. Decidiu-se, então, pelo título inicial. 

O Renascimento Fuzilado (também Renascimento Vermelho) é uma geração científica, educacional, espiritual, cultural, literária e artística das décadas de 1920 e 1930 na Ucrânia soviética, que produziu obras e realizações altamente artísticas nos campos da literatura, filosofia, pintura, música, teatro, cinema, educação e ciência, e que foi principalmente aniquilada fisicamente durante as duas ondas do terror comunista soviético (1935-36 e 1936-38). 

Ao longo de uma década (1921-1931), a cultura ucraniana conseguiu compensar o atraso e até superar a influência de outras culturas, em particular a russa, no território da Ucrânia (a 1 de outubro de 1925, existiam 5.000 escritores na Ucrânia socialista). 

A mais influente das associações literárias ucranianas foi «Hart», mais tarde renomeada «VAPLITE» (Academia Livre de Literatura Proletária). Foi a VAPLITE, representada por Mykola Khvylovy, que iniciou o famoso debate literário de 1925-1928 e o venceu, comprovando a existência e a necessidade de uma literatura nacional, específica e ucraniana, virada para a Europa e não para a rússia. 

Alguns dos reprimidos e perseguidos intelectuais ucranianos conseguiram escapar à morte e sobreviver nas prisões e nos campos de concentração soviéticos. Alguns deles conseguiram mesmo fugir dos campos de concentração (Ivan Bahryany). Após cumprir a sua pena, Ostap Vyshnya tornou-se um defensor obediente do regime estalinista, e Borys Antonenko-Davydovych, que só foi libertado, após a sua reabilitação em 1957, manteve-se em oposição ao regime soviético até ao fim da sua vida. 

Não existem números exatos sobre o número de intelectuais ucranianos reprimidos e perseguidos durante as repressões comunistas durante o período do Renascimento Fuzilado. Segundo algumas fontes, o número chegou às 30.000 pessoas. 

Faça click para ler mais em ucraniano

De acordo com a avaliação da Associação de Escritores Ucranianos «Slovo» (uma organização de escritores ucranianos no exílio), enviada a 20 de Dezembro de 1954 ao Segundo Congresso de Escritores da União Soviética, em 1930, eram ativos 259 escritores ucranianos e, após 1938, apenas 36 deles (13,9%) viram as suas obras publicadas. Segundo a organização, 192 dos 223 escritores «desaparecidos» foram alvos de repressões do Estado soviético (fuzilados ou presos em campos de concentração com possibilidade de fuzilamento ou morte), 16 simplesmente desapareceram e 8 suicidaram-se. 

Estes dados estão em concordância com o martirológio de escritores ucranianos, «Altar da Dor» (compilador-chefe: Oleksa Musienko), que lista 246 escritores vítimas do terror estalinista. Este número é mais do dobro do total de escritores ucranianos aí mencionados que foram alvos de repressão de outros regimes, em particular, o período da ocupação nazi (55), da era Brejnev (29), no império russo pré-1917 (11), na Áustria-Hungria (3) e outros. De acordo com outros dados, de 260 escritores ucranianos ativos na década de 1930, 228 foram alvo de repressões comunistas. 

Bónus 

A primeira exibição pública de um filme no império russo foi organizada em Kharkiv pelo fotógrafo Alfred Fedetsky em dezembro de 1896. Em 1930 aconteceu a exibição do primeiro filme sonoro soviético: «Entusiasmo: Sinfonia de Donbas» (1931), filmado por Dziga Vertov na estúdio de cinema Ukrainfilm, em Kyiv.

A foto mostra a cidade de Kyiv num quadro do filme «O Homem com uma Câmara» (1929), de Dziga Vertov e produzido pelo estúdio de cinema ucraniano «Direção de Foto e Cinema de toda Ucrânia» (VUFKU).

sábado, setembro 13, 2025

Ivan Kotliarevsky: o pai da literatura moderna ucraniana

A 9 de setembro de 1769, nasceu em Poltava Ivan Kotlyarevsky, fidalgo, maçon, escritor, poeta e dramaturgo, o pai da literatura moderna ucraniana, o primeiro que começou à escrever as suas obras em língua comum ucraniana. Autor do poema «Eneida» (versão burlesca ucraniana da obra original do Virgílio) e de várias peças teatrais. 

Sobre os seus ombros surgiu a literatura ucraniana moderna, que contribuiu para a formação da identidade nacional ucraniana, o estabelecimento da língua literária ucraniana, a formação da cultura e da arte. Este é um acto revolucionário que elevou a nação ao nível da cultura dos países europeus, uniu os cidadãos em torno de prioridades de valores e direccionou-os para a restauração da sua soberania.

«Iluminada pelo sol, inflamada pelas paixões terrenas, a Eneida», de Ivan Kotlyarevsky (nas palavras do escritor ucraniano Oles Honchar), foi o primeiro monumento impresso da nova literatura ucraniana, uma enciclopédia da vida popular que revelou ao mundo a história da luta de uma grande nação, velada pelos costumes originais, pela vida quotidiana, pelo humor e pela sabedoria popular.

A ilustração de «Eneida» da autoria do Anatoliy Bazylevych

Um poema burlesco que, tendo iniciado um diálogo com o próprio Virgílio, atingiu um elevado nível europeu e uma grande popularidade. Não se trata apenas do passado heróico, da cultura, dos valores, bem como de um diálogo franco em pé de igualdade com a antiguidade, mas, sobretudo, do despertar da autoconsciência nacional, tão importante em todas as encruzilhadas do destino. É o que acontece também nas peças teatrais «Natalka Poltavka» e «Moskal-charivnyk» (Moscovita-curandeiro). São uma página brilhante do novo drama e teatro ucraniano, que fortaleceram o código cultural ucraniano. 

Ver «Natalka Poltavka» (filme ucraniano de 1978)

A historiadora ucraniana Hanna Cherkaska:

Jovem Ivan estudou no Seminário Teológico de Poltava, onde prevalecia um regime rigoroso. O maior inferno para ele era decorar a «Eneida» de Virgílio em latim. A falta de pedagogia irritava de tal modo Kotlyarevsky que começou a escrever poesia, seleccionando rimas engraçadas com habilidade e chegou a parodiar a «Eneida». Em companhia de outros estudantes lia as primeiras páginas da sua «Eneida», escrita por diversão.

Em 1808, o enérgico Kotlyarevsky ocupou o posto do diretor do Lar de Educação de Filhos de Nobres Pobres de Poltava. Serviu ali durante mais de um quarto de século. Os alunos, nada fáceis de lidar, adoravam Kotlyarevsky, cativava-os com o seu carácter: corajoso, decidido e, ao mesmo tempo, simpático e generoso. Despreocupado e otimista, nunca se queixava: «Não sou um mestre da piedade: tenho medo das lágrimas e do amor.» Após o fim da guerra napoleónica, em 1812, o czar russo Alexandre I assinou a reforma de Kotlyarevsky com o posto de major do exército e o direito de usar a uniforme. Kotlyarevsky recebeu um anel de diamantes e uma pensão de 500 rublos anuais, muito dinheiro na época. Uniformizado, viveu uma vida aventureira como nobre, frequentador de teatros e amante das mulheres. Em Poltava, com uma população de 8.000 habitantes, não havia jornal nem teatro, e as lojas maçónicas também estavam proibidas, pelo que Ivan Kotlyarevsky decidiu abrir um teatro. Abriu-o e, depois de ganhar experiência, foi para Kharkiv, onde visitou o Teatro Stein, criado e dirigido por encenador teatral ucraniano Kvitka-Osnovyanenko. Kotlyarevsky observou atentamente a prestação dos melhores atores da trupe e convidou-os a ir a Poltava em nome do Governador-Geral militar, Príncipe M.G. Repnin. O jovem major chamou a atenção da prima-dona do teatro de Kharkiv, Tetiana Pryzhenkivska. A animada cantora e dançarina gostou de Hryhoriy Kvitka-Osnovyanenko, conheceram-se e amaram-se. Kvitka pretendia se casar, mas a sua mãe fidalga disse categoricamente «não». Em consequência, Tetiana se casou com alguém que não amava, não perdoando Kvitka por isso.

«Marusia», o drama romántico de Hryhoriy Osnovyanenko, pulicado em Lviv, edição de 1849

A 1 de setembro de 1819 se estreia a primeira peça teatral ucraniana profissional da autoria de Ivan Kotlyarevsky, «Natalka Poltavka», se estreiou no palco do Teatro de Poltava. O papel de Natalka foi interpretado por Tetiana Pryzhenkivska.

Kotlyarevsky brilhava sempre com um sorriso amigável, repleto de piadas e elogios subtis. Alguns admiravam-no, como escritor ucraniano Gulak-Artemovsky, que escreveu que nada poderia ser melhor do que a «Eneida»; outros chamaram o poema de «brincadeira inteligente».

Pouco antes da sua morte, Ivan Kotlyarevsky libertou todos os seus criados (duas famílias, 6 pessoas no total) e distribuiu os seus bens móveis e imóveis entre os parentes e amigos. Legou uma casa no valor de 6.000 rublos à viúva de um suboficial, Motra Veklecheva, a sua governanta. Não deixou descendentes diretos e não passou os direitos autorais das suas obras a ninguém.

Faleceu a 10 de novembro de 1838, com 70 anos. Enterraram alguém que amava a vida, que sabia rir e amava rir, em mau tempo, à chuva, cujas gotas lavavam as lágrimas brilhantes dos habitantes de Poltava — o sentimento de perda indescritível era universal e sincero.

A sua obra-prima, a «Eneida» demorrou 26 anos para ser escrita. O poema foi publicado na íntegra em 1942 em Kharkiv já após a morte do autor.

O monumento do Ivan Kotlyarevsky em Poltava. Foto: visitpoltava

O czar russo Nicolau II permitiu a inauguração do monumento de Ivan Kotlyarevsky em Poltava em 1903, não em homenagem à um escritor ucraniano, mas na sua qualidade de um herói da guerra napoleónica de 1812. 

A primeira imagem ilustrativa de Natalka Poltavka, que, provavelmente Kotlyarevsky (na sua própria definição uma «ópera») chegou à ver. 

Publicação: Estrela da Manhã. Recolha de artigos em verso e prosa. Livro 2. – Kharkov, 1833. – No verso da página de rosto: Na Tipografia da Universidade, 1834. – VII, 100 p. 

Hoje, recordamos o seu primeiro amor, a maçonaria, padroeira secreta, a respeito do Taras Shevchenko e a versão mais popular da «Eneida», que foi publicada e reimpressa quase vinte vezes. A ilustração inicial é do famoso desenhador ucraniano Anatoliy Bazylevych.

quinta-feira, setembro 11, 2025

Os EUA estão prestes à ajustar as contas consigo mesmos?

Quando em 2018 Chuck Palahniuk (escritor de ficção científica e jornalista freelancer de origem americano-ucraniana) publicou o seu romance «O Dia do Ajuste», os críticos classificaram-no como mais uma obra de sátira grotesca — um retrato exagerado da cultura americana, da polarização acentuada da sociedade e do descontentamento em massa.

por: Dmytro Malyuk, o título do artigo é de responsabilidade do nosso blogue.

No entanto, em 2025, as imagens distópicas deste romance já não parecem ficção absurda, mas antes um reflexo perturbador da modernidade. O livro retrata os Estados Unidos a devorar-se em divisões internas. Um manifesto clandestino apela ao «Dia do Ajuste» — um momento de ajuste de contas em que os cidadãos se levantam contra políticos, académicos e elites. A violência irrompe, o governo cai e o país divide-se em enclaves raciais e ideológicos: Blacktopia, Caucásia, Gaysia e outros. Cada fação estabelece uma ordem social rígida através da exclusão e da violência. Não se trata de uma guerra civil clássica do tipo «Norte contra Sul», mas de uma fragmentação em dezenas de tribos irreconciliáveis.

Hoje, o futuro imaginário de Palahniuk lembra demasiado certos momentos da nossa realidade. Esta semana, os Estados Unidos ficaram chocados com dois homicídios de alto perfil, sem uma ligação entre si. À 10 de setembro, o ativista conservador [MAGA] radical Charlie Kirk foi morto na Universidade do Utah. Charlie Kirk foi recordado pelos ucranianos nos Estados Unidos pela sua retórica radical e pró-russa sobre o fim de toda a ajuda americana à Ucrânia.

Este assassinato já foi incluído na lista de crimes com motivações políticas. Líderes de diferentes lados condenaram o ataque, mas o simbolismo é assustador: as disputas políticas estão a ser cada vez mais resolvidas não com palavras ou protestos, mas com balas. Recorde, sejam reais ou encenados, os tiroteios durante a campanha de Trump. De qualquer forma, este acontecimento só irá polarizar ainda mais a sociedade americana e a divisão entre apoiantes de Democratas e Republicanos só irá aumentar.

O segundo caso extremamente trágico que Trump já está a utilizar activamente para os seus propósitos políticos é o brutal assassinato da emigrante ucraniana Iryna Zarutska num comboio urbano em Charlotte, na Carolina do Norte. O crime hediondo, cometido por um agressor [afro-americano] portador da doença mental, reacendeu a discussão sobre a saúde mental, a segurança pública e a vulnerabilidade dos [emigrntes e] refugiados. Embora os motivos sejam diferentes, o sinal é o mesmo: as ruas, os campus universitários e os sistemas de transportes dos Estados Unidos estão a tornar-se cada vez mais inseguros.

A isto acresce a alarmante tendência para a militarização. O Presidente Trump enviou a Guarda Nacional a Washington e também planeia medidas semelhantes em Chicago, justificando-as com o combate ao crime e à migração. A imagem é clara: soldados a patrulhar as cidades, a trabalhar em conjunto com os serviços de imigração e a mudar o próprio espírito da vida civil.

Para os apoiantes, esta é uma promessa de ordem. Para os críticos, é um sinal de pendor autoritário, quando o governo é incapaz de governar a sociedade sem um exército. Esta é a espiral que Palahniuk descreveu: quando o Estado e o povo trocam não a confiança, mas a suspeita e a violência.

Em «O Dia do Ajuste», o colapso dos Estados Unidos não acontece de um dia para o outro. Começa pela desilusão, alimentada pela propaganda que legitima a violência. As pessoas passam a acreditar que só a força pode devolver-lhes a dignidade. O resultado final é a fragmentação do país em enclaves que prometem segurança e pureza, mas trazem novas formas de tirania.

Os acontecimentos de hoje recordam esse processo. A retórica dos «amigos versus estranhos», os assassinatos políticos e a presença militar nas cidades são as sementes da divisão. E cada vez que a violência se torna a norma, empurra o país para mais perto do ponto de não retorno.

Se os Estados Unidos se atolarem finalmente na sua própria instabilidade, as consequências para o [Muno e ao] Canadá serão tangíveis e multifacetadas. Em primeiro lugar, atingirão a economia. Afinal de contas, os Estados Unidos continuam a ser o principal parceiro comercial do Canadá, e quaisquer perturbações no país afectarão imediatamente os mercados canadianos, o custo dos produtos e até o número de empregos.

Mas não é só a economia que pode ser abalada. Quando as pessoas fogem do caos, procuram locais mais seguros. Se uma crise grave se desenrolar nos Estados Unidos, milhares de famílias americanas poderão migrar para o Canadá, criando um fluxo de refugiados com o qual o sistema canadiano poderá simplesmente não conseguir lidar.

Há um outro aspecto, mais subtil, mas não menos perigoso: o ideológico. Os movimentos radicais americanos há muito que encontram resposta no Canadá. Se os Estados Unidos «falharem», a sua influência poderá aumentar, destabilizando a sociedade canadiana.

E, finalmente, não devemos esquecer a dimensão da segurança global. Se os Estados Unidos se envolverem em conflitos internos, a sua capacidade de defender a América do Norte enfraquecerá inevitavelmente. Isto significaria que o Canadá enfrentaria ameaças externas sem o apoio sólido de que passou a depender.

É cada vez mais claro que parte da polarização, da desinformação e da radicalização nos Estados Unidos está a ser activamente alimentada pela rússia, que vê uma América dividida como uma América fraca. Há muito que Moscovo utiliza ataques cibernéticos, propaganda e campanhas de influência secreta para desestabilizar as democracias ocidentais. A divisão nos Estados Unidos não só distrai Washington da Ucrânia, como também prejudica a capacidade da NATO de responder colectivamente à agressão russa.

Os Estados Unidos continuam a ser o pilar fundamental da segurança ocidental. Se a sua instabilidade interna, exacerbada pela interferência externa, enfraquecer a sua capacidade de liderança, os adversários aproveitar-se-ão disso. A rússia pode intensificar a sua agressão para além da Ucrânia. A China pode tentar uma «reunificação» forçada com Taiwan. Os regimes autoritários de todo o mundo testarão a capacidade de resposta do Ocidente.

A sátira de Palahniuk não é uma receita, mas um aviso. O romance exagera as falhas americanas, mas ao mesmo tempo expõe as suas fontes: a desconfiança nas instituições, o medo, o ressentimento e a tentação de soluções fáceis.

O mundo real ainda não se transformou no mosaico de enclaves do romance. Mas os sinais de desintegração ou de conflito já estão parcialmente presentes: uma sociedade fortemente polarizada, violência política, militarização, declínio das instituições e ameaças externas. Este deve ser um sinal de alerta para os Estados Unidos e para o Canadá.

A democracia não cai de um dia para o outro. Desintegra-se passo a passo, à medida que o autoritarismo, a ilegalidade, a violência e a impunidade se tornam a nova norma. «O Dia do Ajuste» recorda-nos que, uma vez atingido um ponto crítico, pode não haver volta a dar. A distopia de Palahniuk não é inevitável. Mas é uma possibilidade real. A questão é se os Estados Unidos, o Canadá e o mundo ocidental atenderão ao aviso — ou, inversamente, seguirão o caminho para o seu próprio «Dia do Ajuste». 

Bónus 

A congressista Marjorie Taylor Greene tentou, mais uma vez, bloquear o apoio dos EUA à defesa da Ucrânia, mas foi novamente derrotada. Desde 2022, a republicana «Marjorie de Moscovo» já tentou bloquear o apoio dos EUA à defesa da Ucrânia aproximadamente 11 vezes, tanto em projectos de lei próprios como em projectos de lei da sua co-autoria.