Esta fotografia oficial a preto e branco foi tirada por um correspondente da agência soviética Soyuzfoto a 13 de novembro de 1937 e capta um dos episódios mais dramáticos da Guerra Civil de Espanha: uma revista às tropas do Exército Popular da República, conduzida pelo Presidente da República Espanhola, Manuel Azaña, em frente a Madride, na cidade de Alcalá de Henares.
Nesse dia, as unidades da 46ª Divisão estavam a ser inspeccionadas na Praça Cervantes. Comandada pelo lendário Valentín González, chamado/apelidado de «El Campesino» (O Camponês), surge a caminhar à direita, usando um boné e botas de cano alto com atacadores.
Ao seu lado, de boné e casaco leve, está o comandante da frente de Madride, o general José Miaja, apoiado numa bengala. Ao seu lado está o Presidente da República, Manuel Azaña, e, à extrema-esquerda, o Primeiro-Ministro, Juan Negrín.
Na altura em que esta fotografia foi tirada, Valentín González-Campesino estava no auge da sua glória militar, um dos mais reconhecidos comandantes republicanos, um herói da propaganda soviética, o «Chapayev espanhol». No entanto, este triunfo foi de curta duração...
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| «A vida e morte na rússia soviética» |
Após a derrota dos republicanos na guerra civil, «El Campesino», com cerca de 6.000 outros espanhóis, emigrou para a URSS. Juntamente com alguns outros militares espanhóis, foi enviado para estudar na Academia Militar «Frunze». Mas os estudos de um herói militar semi-analfabeto e bastante abrupto claramente não correram bem (ao contrário da sua vida pessoal – González se casou com Ariadna Gian, a tradutora de espanhól e filha de um coronel soviético). É conhecido um relato do clima vivido entre os cadetes espanhóis. O «El Campesino» recebia as críticas mais negativas: indisciplinado, incontrolável. «Ele critica as doutrinas de cavalaria de Budyonny». Sobre o marechal Tukhachevsky: «Em Espanha, os soldados não teriam permitido que o seu comandante fosse preso – teriam formado um quadrado à sua volta e ripostado». Além disso, Campesino era justo e orgulhoso. Discutia com praticamente toda a gente: a líder comunista Dolores Ibárruri mandou o marido para Rostov, enquanto vivia, maritalmente, com um jovem comunista espanhol. González atirou-lhe isso à cara de forma pública: «Em vez de pensar na luta, comporta-se como uma prostituta!» Mas González estava especialmente desiludido com a realidade soviética. Uma vez gritou com um empregado da mercearia: «Eu sou proletário, tu és proletário! Porque é que me estás a enganar?» Os apartamentos comunitários soviéticos, os komunalkas, horrorizavam especialmente González, ele não parava de perguntar à sua mulher: «Como é na URSS um marido e uma mulher dormirem juntos à noite, com a avó à direita e os filhos à esquerda no mesmo quarto?»
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| Valentín González, «Yo escogi la esclavitud», 1953 |
Acusado de espionagem e trotskismo, foi preso pelo NKVD, enviado para a cadeia moscovita Lubyanka, onde foi torturado, ao ponto de «confessar» ser agente dos serviços secretos britânicos e americanos, e depois enviado para trabalhos forçados na construção do metro de Moscovo. Em 1944, fez a sua primeira tentativa de fuga através da fronteira soviético-iraniana; foi capturado, mas escapou ao Irão novamente, em 1948. As suas ilusões anteriores sobre um «paraíso soviético» foram destruídas: mais tarde, escreveria que a URSS de Estaline se tornou «a maior decepção e o pior fracasso de toda a sua vida».
Caiu nas mãos dos americanos, que o enviaram para a França.
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| «Comunista en España y antistalinista en la U.R.S.S.», 1980 |
Em 1950-51, a França foi abalada pelo «julgamento de David Rousset», político socialista francês, membro da Resistência e vítima do nazismo, que expôs a verdade sobre os campos de concentração soviéticos, a primeira pessoa na França que usou o termo GULAG. O jornal comunista francês «Les Lettres Françaises» acusou Rousset de calúnia: «mas que campos de concentração no país mais livre!»
«El Campesino» participou no processo, como a testemunha abanatória do David Rousset, acabando por se tornar a maior sensação. Um grupo de espanhóis de Moscovo enviou ao tribunal de Paris uma carta a chamar González de louco. Mas a resposta de «El Campesino» à imprensa parisiense deixou claro que louco não era ele:
«Chamaram-me o general mais fanático da guerra civil espanhola. Não me arrependo do sangue que derramei na luta contra o fascismo. Mas arrependo-me e lamento ter desejado impor ao povo espanhol um regime semelhante ao que existe na rússia. Na União Soviética, vivi a maior catástrofe da minha vida». Campesino não falou; na verdade, gritou. O juiz fez uma careta e disse ao intérprete: «Diga à testemunha para falar mais baixo.» Campesino recuou da barreira, surpreendido, batendo no peito: «Sou espanhol! Os espanhóis não conseguem falar baixo!»
David Rousset ganhou o processo.
González não se contentou com isso. A partir de França, se aliou aos terroristas bascos, os auxiliando nos ataques em Espanha. Em 1961, a pedido de Madrid, foi preso pelas autoridades francesas e encarcerado. Valentín González esteve 17 anos nas prisões francesas. Libertado em 1978, regressou a Espanha e anunciou o fim da sua luta: Franco estava morto e a mudança democrática estava em curso em Espanha. Faleceu em Madrid em 1983.
Valentín González chegou de ser mencionado no livro de Ernest Hemingway «Por Quem os Sinos Dobram», através dos pensamentos de Robert Jordan, que o descreveu como corajoso e difícil: «Quando viu Campesino, com a sua barba negra, os seus lábios grossos, típicos de negros, e os seus olhos febris e inquietos, pensou que ele poderia causar muitos problemas. Era um temerário, um temerário mesmo — seria difícil encontrar um homem mais corajoso. Mas, meu Deus, como ele falava! E no calor da conversa, podia dizer qualquer coisa! Mas, como comandante de brigada, ele mostrou-se altura da situação, mesmo nas circunstâncias aparentemente mais desesperadas».




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