segunda-feira, agosto 03, 2026

Os trotsquistas ocidentais em luta na Checoslováquia e Polónia comunistas

Apesar do seu marxismo declarado, os camaradas dos serviços secretos dos países comunistas não viam as revoluções populares nos países da Europa Central como as manifestações de massas à favor da mudanças democráticas, mas antes como elementos de operações das secretas ocidentais.

Assim, em 5 de abril de 1969, o 1º Departamento do Ministério do Interior da Polónia (Inteligência externa) produziu um informe secreto sobre às atividades dos grupos ocidentais na Checoslováquia, já após o esmagamento da Primavera de Praga pelas forças militares do Pacto de Varsóvia.

As ruas de Praga em agosto de 1968

O documento defendia que os alegados «centros de sabotagem ocidentais» estavam a enviar «os grupos especiais de formação» (Sic!) para a Checoslováquia, com a tarefa de familiarizar os estudantes checoslovacos com «os métodos de organização de manifestações e combates de rua».

Como exemplo da atuação destes grupos, os polacos citam a «exibição de um filme de 45 minutos no dia 2 de abril deste ano, às 18h00, na Faculdade de Filosofia da Universidade Carolina em Praga, dedicado a manifestações estudantis em França, na República Federal da Alemanha e no Japão».

Curiosa a composição do grupo, que incluia o ativista franco-polaco Charles Urjewicz, atualmente um professor emérito da história russa e do Cáucaso, na altura o militante da organização francesa «trotskista-sionista» [assim no documento] Juventude Comunista Revolucionária (JCR), Jean-Paul Sidi, membro da mesma organização e Sibylle Plogstedt, a ativista da União Socialista dos Estudantes Alemães (Sozialistischer Deutscher Studentenbund — SDS) de Berlim Ocidental (alemã Sibylle Plogstedt, que mais tarde se tornou jornalista e publicitária, na década de 1960 era militante ativa do Grupo de Marxistas Internacionalistas, liderado por um proeminente socialista e sindicalista Jakob Moneta).

O blindado soviético esmaga um autocarro civil nas ruas de Praga, agosto de 1968

O 1º Departamento alertava os governantes polacos, que Urjewicz visitou a Polónia por diversas vezes, em 1962, 1963, 1964, 1966 e 1967, colaborando com os Komandosi, um proeminente grupo dissidente de estudantes de esquerda na Polónia comunista durante o final da década de 1960 e início da década de 1970, com figuras-chave como Adam Michnik, Jan Lityński e Seweryn Blumsztajn. O grupo foi perseguido e parcialmente desmantelado pelos serviços secretos polacos na sequência dos protestos estudantis pró-democracia em março-agosto de 1968. O documento polaco também alega, que o líder do grupo alemão SDS, Eric Nohara (1928-1990), era, alegadamente, um «agente dos serviços secretos britânico e americano».

É de notar, que o documento produzido estava sendo assinado pelo chefe do 1º Departamento do Ministério do Interior, coronel (na altura)  Miroslaw Milewski, mais tarde general da polícia, pertencente à ala estalinista da elita governante polaca (a chamada «ala do betão»), que em 1984 foi formalmente acusado de ser um dos mandantes morais do assassinato do padre católico Jerzy Popiełuszko. Como resultado destas acusações, em 1985 Milewski foi destituído de todos os cargos no partido governante e no Estado, e posteriormente reformado/aposentado. Em 1990, chegou à ser brevemente detido e morreu em 2008, aos 69 anos de idade.

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