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domingo, maio 05, 2019

O que realmente aconteceu em Odessa em 2 de maio de 2014

No 9º aniversário da derrota do movimento separatista em Odessa, a propaganda anti-ucraniana novamente tentará usar a tese da “chacina” dos “pacíficos defensores da federalização da Ucrânia”. Os mesmos que naquele dia mataram Ihor Ivanov e Andriy Biryukov, ambos ativistas do Setor da Direita e russos étnicos, atingidos pela munição 5,45, disparada do AKS-74U.

1. Confrontos começaram muito antes da sua culminação no Edifício dos Sindicatos

Na cidade de Odessa estavam ativos dois grupos da ativistas — pro-Ucrânia (Samooborona/Autodefesa) e pró-russos e anti-ucranianos — Anti-Maydan; “Druzhina de Odessa” (literalmente “Pelotão de Odessa”), composta por indivíduos que nos meses anteriores atacavam e raptavam os ativistas ucranianos do movimento Maydan.
Separatistas do “Pelotão de Odessa”: “morte aos fascistas, viva Rus”
No dia 2 de maio de 2014, cerca 16h00 da tarde, na zona das ruas Deribasivska e Hretska (Grega), decorreram os confrontos entre defensores da Ucrânia e os separatistas, as duas partes usavam pedras, petardos e coquetéis Molotov. Os separatistas usam os petardos artilhados com elementos metálicos.

Os alegados “pacíficos defensores da federalização da Ucrânia” tinham essa aparência:

2. Os separatistas pró-russos usavam armas de fogo contra os defensores da Ucrânia

O separatista pró-russo Vitaly “Bootsman” Budko dispara contra os defensores da Ucrânia, usando a espingarda automática / fuzil de assalto AKS-74U, um outro separatista dispara, usando uma arma parecida com UZI.

Os ativistas pró-Ucrânia foram alvejados à partir do telhado do centro comercial/shopping “Afina” — nas vésperas o local foi tomado de assalto pelos separatistas:

3. Os primeiros mortos eram dois ucranianos
Os dois ucranianos mortos em Odessa no dia 2 de maio de 2014 — Ihor Ivanov e Andriy Biryukov [ambos ativistas do Setor da Direita e russos étnicos] — eles foram atingidos pela munição 5,45 — usada pelo AKS-74U.

4. Chefe da polícia de Odessa apoiava os separatistas

O chefe da polícia de Odessa, Dmytro Fuchedzhi (1961) não interveio para parar a desordem separatista, não reagiu, mesmo depois dos primeiros ativistas mortos – aparentemente, ele esperava que as forças separatistas sejam vitoriosas. Existem inúmeras fotos de Dmytro Fuchedzhi rodeado dos separatistas pró-russos, e muitos funcionários do Ministério do Interior afetos ao MVD de Odessa naquele dia usavam braçadeiras vermelhas, denotando pertencerem aos separatistas.
Separatistas pró-russos e chefe da polícia de Odessa Dmytro Fuchedzhi
Apesar da tentativa da propaganda russa de afirmar que as braçadeiras vermelhas eram alegadamente usadas pelos militantes do “Setor da Direita”, nas várias fotos se vê que essas braçadeiras eram usadas pelas mesmas pessoas que ostentavam a “fita de São Jorge”, um claríssimo marco dos separatistas.

Na foto em baixo à esquerda, um polícia/policial com a braçadeira vermelha, na foto à direita, os separatistas pró-russos, usando a mesma braçadeira vermelha e a “fita de São Jorge”.

O vídeo que mostra o separatista pró-russo Vitaly “Bootsman” Budko à disparar contra os defensores da Ucrânia, se escondendo atrás da fila da polícia, que não o prende, nem retira a sua arma:

Desde o dia 6 de maio de 2014 Dmytro Fuchedzhi abandonou Ucrânia, aparentemente ele vive na Rússia, onde foi lhe concedida a cidadania russa.

5. Coquetéis Molotov foram usados por duas partes

Quando os separatistas sentiram a aproximação da sua derrota, eles recuaram até o Edifício dos Sindicatos, onde, por exemplo, estavam atirar os coquetéis Molotov, à partir do telhado do edifício, contra os defensores da Ucrânia:

6. Nunca ouve nenhum «abatimento dos derrotados»

Apesar da tese da propaganda russa de que os ucranianos “queimaram vivos os pacíficos defensores da federação, dando golpes de misericórdia nos feridos”, isso nunca aconteceu. De fa(c)to, muitos que estavam dentro do Edifício dos Sindicatos tiveram a oportunidade de sair, quando o fogo estava apenas começando – e muitas pessoas fizeram exatamente isso – ninguém os tinha perseguido ou atacado. Após início de incêndio, quando começou arder a entrada principal – os ativistas pró-ucranianos ajudaram aqueles que estavam dentro do prédio, usando andaimes.

Nos materiais de investigação da televisão independente OM-TV sobre os eventos de Odessa em 2 de maio de 2014, é possível ver que a maioria das vítimas do incêndio estava nos andares superiores do Edifício dos Sindicatos – aparentemente, eles nem sequer tentaram deixar edifício nas fases iniciais do incêndio. 
A grande questão é por que não vieram os bombeiros com escadas longas, mas isso é uma questão para as autoridades da cidade [sob controlo dos separatistas e/ou seus simpatizantes].

O que realmente aconteceu em Odessa em 2 de maio de 2014

Ninguém matou “povo pacífico” – houve um confronto paramilitar entre dois grupos de ideologias definidas e opostas, durante o qual houve morte de ambos os lados, e um dos lados venceu durante os confrontos, impedindo a criação da “república popular de Odessa”.

O “pesar” por parte da imprensa/mídia propagandista [russa e qualquer outra] parece extremamente hipócrita – eles não sentem nenhuma pena das pessoas, apenas a pena por terem perdido a batalha de Odessa. Tal como a propaganda anti-ucraniana difamou a Centena Celestial que defendeu Euromaydan – que estava realmente desarmada e morreu sob as balas dos assassinos, não num incêndio.

Foto: arquivo | Texto: Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]

Um dos «pacíficos federalistas» de Odesa, o russo Gennady Kushnarev, nascido em Chelyabinsk, declarou, publicamente, no dia 2 de maio de 2014, que pegaria «numa klashnikov» e mataria ucranianos «como os cães», por discordarem da sua ideia de que «Odesa é uma cidade russa». O nosso Gennadiy foi um dos que não sobreviveu o dia 2 de maio para contemplar os resultados da sua «luta pacífica»:

Blogueiro: uma das explicações possíveis do comportamento ilógico dos separatistas no Edifício dos Sindicatos, é a alegada informação que estes receberam no dia 2 de maio: aguentar apenas algumas horas, para que, de seguida sejam apoiados pelos blindados dos separatistas da Transnístria. Naturalmente, em duas horas estes blindados não chegariam à Odessa, mas achamos bastante crível que este tipo de promessa enganosa poderia ser dada aos separatistas pelos seus curadores afetos ao Kremlin.

sexta-feira, maio 03, 2019

Rafael Lusvarghi novamente condenado aos 13 anos da prisão maior

Brasileiro Rafael Lusvarghi foi novamente condenado na Ucrânia aos 13 anos de prisão efetiva com confisco de bens, a mesma condenação à que já foi condenado pelo tribunal de Pachersk em Kyiv em janeiro de 2017, escreve a página ucraniana Novynarnia.com

A decisão foi tomada no dia 2 de maio de 2019 pelo Tribunal Interdistrital de Pavlohrad da região de Dnipropetrovsk. Como explica o procurador do processo, Dr. Ihor Vovk: “desta vez foi efetuada uma investigação pré-julgamento completa, em cada audiência do tribunal estava presente um defensor e o tradutor, Lusvarghi não foi restrito de forma alguma em nenhum direito seu. Da última vez [no julgamento em Kiev, em 2016-2017], a apreciação foi simplificada devido ao fa(c)to de que ele (Lusvarghi) se declarou culpado, o tribunal não investigou as provas”.

Segundo Dr. Vovk, foram ouvidas duas testemunhas de acusação, incluindo um militar das Forças Armadas da Ucrânia, que tinha ouvido, na interceptação de comunicações via rádio das forças russo-terroristas, o nome do código do Lusvarghi – “Rafael” ou “brasileiro”.

Além disso, o tribunal analisou três vídeos nos quais Lusvarghi contava em detalhes os combates nas quais participou.

“Em particular, foi vista a entrevista que ele deu numa cama de hospital, quando foi tratado após a ferida recebida durante os combates perto do aeroporto de Donetsk”, enfatizou o Promotor.
A detenção cívica do Lusvarghi em 4 de maio de 2018 em Kyiv
O tribunal ucraniano também examinou itens apreendidos durante a prisão do Lusvarghi – o cartão militar da dita “dnr”, dados do hospital, que indicavam que ele foi ferido no aeroporto Donetsk, os documentos mencionavam até a unidade ilegal armada para onde brasileiro foi enviado após a sua saída do hospital.

O Tribunal também tinha apreciado a “medalha” atribuída ao Lusvarghi pelo terrorista russo Igor “Strelkov” Girkin e a bênção do Patriarcado de Moscovo/u à guerra na Ucrânia.

A acusação apresentou no tribunal a intercepção de comunicações do Rafael Lusvarghi, nomeadamente a sua correspondência via e-mail em que ele contava sobre a sua participação em combates ao lado das unidades ilegais armadas das ditas “dnr/lnr”.

“Ele também postava nas redes sociais fotografias com pano de fundo dos equipamentos militares da dita “dnr”, usando o fardamento militar dessa organização. A investigação de todas estas evidências, revisão de vídeos e depoimentos de testemunhas foi suficiente para aprovar um novo veredicto, que repetiu a decisão do tribunal de Pechersk”, explicou Ihor Vovk.

Na penúltima sessão do tribunal Pavlohrad, Rafael Lusvarghi se considerou culpado em relação à participação das atividades de grupos armados ilegais – 2ª parte do art. № 260 do Código Penal da Ucrânia, mas não reconheceu a mesma participação nas atividades de organizações terroristas – 1ª parte do artigo № 258-3 do CP da Ucrânia.

Dr. Ihor Vovk observa que Lusvarghi irá cumprir a pena menor que os 13 anos, decididos pelo juiz: “... o tribunal levou em conta o período da sua detenção desde o início da investigação pré-julgamento. Isto são 2 e alguns dias, que se multiplicam por dois – de acordo com a “lei Savchenko”. Assim, considera-se que ele já cumpriu cerca de 4 anos e 130 dias”.

“Ele (Lusvarghi), sem dúvida, irá apelar, porque tem interesse em ficar em custódia por mais tempo, para que cada dia conte por dois”, diz Dr. Vovk.

Rafael Lusvarghi permanecerá na cadeia SIZO № 4 na cidade de Dnipro, numa cela comum. No tribunal em Pavlohrad, tal como em Kyiv, ele se queixou das “ameaças” por parte de outros prisioneiros.
Ler mais sobre a nova casa do Rafael Lusvarghi
A este respeito, o tribunal distrital de bairro Pechersk de Kyiv decidiu mantê-lo em confinamento solitário. Quanto ao Dnipro, o brasileiro não teve este privilégio.

No dia de anúncio do veredicto, bem como em muitas sessões anteriores neste processo, na sala de audiências estavam presentes os ativistas da organização nacionalista “Sich” (na foto em baixo) da cidade de Dnipro, a mesma que efetuou a detenção cívica de Lusvarghi em 4 de maio de 2018 em Kyiv.
Ler sobre a condenação do Lusvarghi em inglês. 

terça-feira, abril 16, 2019

As ameaças e propaganda fake anti-Ucrânia da extrema-esquerda grega

Na cidade grega de Atenas, neste 13 de abril foi exibido o filme documental ucraniano “Mito”, dedicado ao barítono da ópera de Paris, Wasyl “Mif” Slipak, que tombou na defesa da Ucrânia na Donbas. A extrema-esquerda grega respondeu com ameaças violentas e falsificação ideológica.
Instigados pela propaganda anit-ucraniana, os ditos “antifascistas” constantemente ameaçavam os proprietários e gestores da sala (pelo telefones, telemóveis e nas redes sociais) de queimar o cineteatro, “se vingar”, no caso da exibição da película ucraniana (que eles não chegaram de ver, mas que de imediato apelidaram de “nazi/sta”):

A exibição estava ameaçada, até a intervenção primordial da secreta ucraniana SBU e do embaixador dos EUA na Grécia, Geoffrey R. Pyatt. O cineteatro foi protegido pela polícia civil e antimotim grega, assim como pela segurança dos diplomatas ocidentais presentes no certame, nomeadamente a segurança do embaixador americano. Muito possivelmente, sem a intervenção do SBU, a Diáspora ucraniana na Grécia não conseguiria garantir este nível de proteção e segurança dos espetadores.
O embaixador dos EUA na Grécia, Geoffrey R. Pyatt (2º à esquerda)
A exibição do próprio filme decorreu muitíssimo calmamente, os “antifascistas” foram embora, imediatamente após o início da sessão. Pela primeira vez na história o filme “Mif” foi o alvo de ataque da intolerância ideológica, vindo da extrema-esquerda. [Embora o país é conhecido pela notável implementação das ideias totalitárias dos diversos grupos extremistas de cunho esquerdista]. De qualquer maneira, a luta pela Ucrânia – continua, escreveu Ivan Yasnij, um dos ativistas ucranianos no país.

Desde que a extrema-esquerda, grega, ou qualquer outra, vive constantemente, da falsificação dos factos e da história, a imagem propagandista, usada no cartaz anti-ucraniano exibido na entrada do evento como a “prova” das “atrocidades ucranianas” da guerra no leste da Ucrânia, na realidade pertence ao filme A resistência, uma co-produção belarusso-russa, conhecido pelo seu título internacional de “Fortress of War” (2010).
Ler mais

domingo, fevereiro 24, 2019

Ler e baixar o livro “Hugo Chávez: o Espectro” de Leonardo Coutinho

Neste livro, o jornalista Leonardo Coutinho revela – com base em milhares de páginas de documentos, muitos deles secretos, e mais de uma centena de entrevistas em dez países – como as digitais de Hugo Chávez estão espalhadas em todo o mundo, desde a explosão da violência na América Central e no México, até o financiamento de organizações terroristas como o grupo Estado Islâmico.

O que levou um país rico, dono das maiores reservas de petróleo do planeta e com uma localização estratégica ao maior colapso financeiro e institucional do Ocidente? A destruição da Venezuela é apenas a face mais evidente de uma intrincada rede de organizações políticas e criminosas que foram criadas ou alimentadas por Hugo Chávez como parte de seu sonho de reengenharia global. Eleito em 1998 com a promessa de tirar a Venezuela da crise e com o compromisso de conduzir os venezuelanos ao desenvolvimento, Hugo Chávez desperdiçou a fortuna arrecadada durante a bonança petroleira para financiar um modelo de mundo que fosse o seu espelho: caótico e subversivo. Apesar de sua morte, em março de 2013, em decorrência de um câncer, Chávez segue presente “assombrando” o mundo com os efeitos destrutivos de sua combinação de tráfico de cocaína, terrorismo e corrupção. Um legado que o presidente Nicolás Maduro soube herdar e manter, conduzindo o país a um colapso económico e institucional sem precedentes.

Bónus

É de reconhecer que para já batalha de entrega da ajuda humanitária (marcada ao dia 23 de fevereiro de 2019) foi ganha pelo regime bolivariano. Agentes da secreta venezuelana, o SEBIN, travestidos de titushki “coletivos”, queimaram camiões de ajuda humanitária em Ureña, na fronteira colombiana. Houve vários feridos entre o povo presente.
Cerca de 23 militares, guardas e polícias venezuelanos abandonam os seus comandantes, alguns pediram o asilo na Colômbia. O major-general Alexis López Ramírez (ex-secretário executivo do Consejo de Defensa de la Nación (Codena) pediu aos colegas para que reconheçam o presidente legítimo Juan Guaidó e deixem de apoiar o regime criminoso de Maduro.
O major-general Alexis López Ramírez, ex-secretário executivo do Codena
Os 13 oficiais venezuelanos que abandonam o regime do Maduro, 23/02/2019
O regime do Maduro mata o seu povo para que este não seja alimentado por “los americanos”, muito semelhante a posição do Estaline em 1932-33 em relação os ucranianos, que morriam de fome no Holodomor, mas estado soviético não aceitava e até rejeitava toda e qualquer ajuda alimentar ocidental...

O ataque das forças leais ao regime socialista bolivariano da Venezuela contra camião/caminhão de ajuda humanitária em Ureña (twitter do presidente Juan Guaidó):



sexta-feira, fevereiro 22, 2019

Crimeia: cinco anos de ocupação russa

A Crimeia costumava ser uma pacífica região solarenga. Ninguém imaginara que, um dia, aquele resort costeiro se encontrasse sob ocupação, tornando-se numa base militar atrás de arame farpado. Mas tal aconteceu.

por: Inna Ohnivets, Embaixadora da Ucrânia em Portugal
Há uns anos atrás, respondendo à sua própria pergunta “Onde terminam as fronteiras da Rússia?”, Putin disse, em tom jocoso, que “As fronteiras da Rússia não terminam em ponto nenhum”. É claro que os impérios não gostam nada de ter as suas fronteiras delimitadas, e sempre as desejam expandir.

Recorrendo à violação flagrante dos princípios e normas do Direito Internacional, a Rússia decidiu expandir o seu território por conta do território ucraniano.

Ora bem. A Crimeia, península ucraniana, tem uma história rica e cativante e é o lar de muitas minorias e de populações indígenas, como os tártaros da Crimeia. Como é sabido, a história da península pode ser traçada ao longo de 3.000 anos, enquanto a sua associação ao império russo e soviético remonta a apenas dois séculos e meio, durante os quais os tártaros da Crimeia sofreram vários genocídios e, em 1944, muitos foram deportados para regiões a milhares de quilómetros para leste, só podendo voltar a casa quando a Ucrânia conquistou a sua independência.

É, portanto, um facto objectivo e documentado que os russos não são uma população originária da Crimeia, mas, em 2014, inventaram e lançaram o mito da “Crimeia sempre foi russa”, um mito político que engloba um sistema de falsos conceitos históricos destinados a validar o direito exclusivo da Rússia para se apoderar da Crimeia, com o objetivo de justificar a ocupação russa aos olhos do mundo. A Crimeia costumava ser uma pacífica região solarenga. Ninguém imaginara que, um dia, aquele resort costeiro se encontrasse sob ocupação, tornando-se numa base militar atrás de arame farpado. Mas tal aconteceu.
O mês de fevereiro de 2014 tornou-se um ponto de viragem para a história europeia moderna: a Rússia levou a cabo uma intervenção militar no território soberano da Ucrânia e ocupou parte dele. Soldados russos de uniforme sem insígnia bloquearam unidades militares ucranianas nas suas próprias bases. Ao mesmo tempo, os oficiais russos falsificaram os resultados do referendo na Crimeia, alegando que os residentes tinham concordado em juntar-se à Rússia. Hoje, todos sabemos que o chamado referendo foi conduzido sob a mira das armas russas. O próprio Presidente russo assumiu publicamente este facto. Foi assim que a Rússia iniciou uma guerra híbrida não declarada, usando táticas militares e de informação não convencionais, com o objectivo de mudar as fronteiras legais da Ucrânia.

A comunidade internacional não podia aceitar tal audácia russa, condenando, portanto, a ocupação ilegal da Crimeia numa série de deliberações de organizações internacionais, incluindo a ONU, o Conselho da Europa e a OSCE. Contudo, tal não preveniu a Rússia de ir ainda mais longe.

Depois da ocupação e da tentativa de anexação da península da Crimeia e da invasão subsequente em Donbas, em 2014, a Rússia abriu uma nova frente, agora no mar, destinada à ocupação do Mar de Azov e do Estreito de Kerch, efetuando a militarização acelerada da região, o que já teve consequências no equilíbrio da segurança da mesma.

A situação dos direitos humanos na Crimeia, após a ocupação russa, tem-se degradado. A atmosfera de medo, intimidação, pressão física e psicológica forçou cerca de 35-40 mil cidadãos ucranianos (incluindo cerca de 25 mil tártaros da Crimeia) a deixar a Crimeia ocupada e a instalar-se noutras regiões da Ucrânia. As autoridades russas usam tais métodos para eliminar qualquer dissidência ou oposição pública à ocupação da Crimeia.

O Kremlin continua a manter nas suas prisões os reféns ucranianos. Entre eles, nomeadamente, estão agora os 24 marinheiros ucranianos que foram feitos prisioneiros de guerra, o Prémio Sakharov, Oleg Sentsov, bem como tártaros da Crimeia, que neste momento estão a passar por um segundo genocídio e uma segunda deportação.

A guerra russa contra a Ucrânia já quase entrou no seu sexto ano. Porém, apesar de todos os acontecimentos dos últimos cinco anos, em particular os acima descritos, continua a haver pessoas pelo mundo, jornalistas, políticos, etc., a acreditar nos mitos russos, apoiando as ações do Kremlin e negando a verdadeira natureza dos referidos acontecimentos. E é por isso que a luta ucraniana contra os mitos políticos russos é uma condição essencial para a própria existência do nosso país. Se nós não chamarmos as coisas pelos seus nomes, o Kremlin irá ainda mais longe, e isto preocupará não apenas a Ucrânia. Se a Ucrânia não resistir, isto apenas irá fomentar os apetites imperiais russos por outras partes do mundo, incluindo a Europa.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.
O título original do artigo: “Cinco anos de ocupação”.

Bónus
Inna Ohnivets, terceira à esquerda com a camisa do SLB com o seu nome
No dia 20 de fevereiro de 2019, a Embaixadora da Ucrânia em Portugal, Inna Ohnivets, participou na cerimónia de assinatura do acordo de cooperação entre a Benfica Escola de Futebol da Ucrânia e SL Benfica (fotos).

quinta-feira, fevereiro 21, 2019

Em memória da Centena Celestial (19 fotos)

Cinco anos atrás morreu em Kyiv a Centena Celestial — assim na Ucrânia são chamados os manifestantes que foram assassinados ou mortalmente feridos em confronto com polícia do regime do presidente Yanukovych no decorrer do movimento Maydan — principalmente nos dias 18, 19 e 20 de fevereiro de 2014.

Exatamente nesses dias Yanukovych tentava impedir a votação no Parlamento ucraniano (Rada Suprema) pelo retorno à Constituição de 2004 [que limitava os poderes presidenciais e transformava Ucrânia numa república semipresidencialista], apostando na última tentativa desesperada de derrotar o movimento Maydan.

Nos dias 18 e 19 de fevereiro, decorreu a tentativa de assalto das barricadas de Maydan, por parte das forças do regime (destacamento “Berkut”), e em 20 de fevereiro, os manifestantes na rua Institutska foram alvos de armas do exército, principalmente AK e espingardas/rifles de precisão. Yanukovych tentou com todas as suas forças reprimir o Maydan, mas não conseguindo e, assustado com suas próprias ações, acabou por fugir, com todas as suas propriedades para a cidade russa de Rostov. O dia 20 de fevereiro também é considerado o dia da vitória de Maydan – na sua última batalha, os ucranianos não cederam, Maydan sobreviveu e derrotou o tirano.

Como tudo começou?

No dia 18 de fevereiro de 2014 o Parlamento da Ucrânia deveria votar a lei que previa o retorno à Constituição de 2004 – uma das demandas mais importantes de Euromaydan, que privaria Yanukovych do seu poder ditatorial. Do lado de Maydan, colunas de manifestantes se dirigiram ao Parlamento (na rua Hrushevsky) para apoiar os deputados nesta votação – as pessoas estavam vestidas de forma festiva, havia, entre eles, pouca gente pertencente às unidades da autodefesa de Maydan.
A coluna foi atacada por forças de segurança – que, aparentemente, pretendiam, por ordem de Yanukovych, interferir na votação parlamentar. Destacamento da polícia “Berkut” começou espancar todos os cidadãos que estavam se dirigir ao Parlamento. “Berkut” era apoiado pelos bandos chamados de “titushki” (parcialmente polícias vestidos à civil, parcialmente marginais contratados), que espancavam, com muita crueldade, os que caíssem no chão. As primeiras mortes da futura Centena Celestial surgiram naquele momento.
As colunas de manifestantes se retiraram até Maydan, onde sob as coberturas das barricadas tinham único lugar no centro de Kyiv, à salvo da polícia e dos titushki. As forças de segurança pressionavam – aparentemente cumprindo a ordem de Yanukovych – e os manifestantes começaram criar uma cortina de fumaça e de fogo, incendiando os pneus, colchões e até mesmo sacos de roupas quentes.
Em 19 de fevereiro, durante o assalto ao Euromaydan, polícias e SBU queimaram o Prédio dos Sindicatos de Kyiv, que na época era a sede do comando do Euromaydan. Um número, até hoje, indeterminado dos manifestantes ucranianos feridos morreu naquele fogo, pois os andares de cima serviram de hospital de campanha.
Jovens delinquentes, conhecidos como titushki, armados com as pistolas se escondem atrás da polícia ucraniana.
Após o seu ataque frustrado na noite de 18 à 19 de fevereiro, as forças de segurança e “Berkut” deixaram as suas posições apressadamente. Quando os manifestantes novamente foram marchar até o Parlamento, subindo a rua Institutska completamente vazia, foram alvo direcionado de armas automáticas – uma emboscada planeada.
Fogo contra os manifestantes foi aberto por uma unidade especial trajada de preto, muito possivelmente a unidade especial das tropas do Ministério do Interior (VV) da Crimeia, chamada “Tin” [literalmente “Sombra”, aparentemente comandada pelo coronel da polícia ucraniana e SBU Serhiy Asavelyuk, que já em abril de 2014 participou nos primeiros e duríssimos combates da OAT contra os grupos organizados de mercenários russos, demonstrando a bravura em combate]. As forças de segurança atiraram contra as pessoas quase à queima-roupa, esperando que quando matarem os mais ativos, Maydan simplesmente se dispersaria.
Os atiradores do coronel Serhiy "Asa" Asavelyuk
Apesar de serem alvejados por armas de fogo, e tendo apenas os escudos metálicos e até de contraplacado, os manifestantes ucranianos caiam, morriam, mas não recuavam, tentando salvar seus companheiros e carregando os feridos por cima dos escudos. Um dos vídeos mais terríveis foi filmado naquele dia na rua Institutska. Mostra um menino ucraniano muito jovem [músico e estudante Dmytro Holubnichiy de Lviv de apenas 16 anos, o mesmo que aparece no filme documental Winter of Fire] que está na primeira linha de confronto. Vemos uma das barricadas móveis se movendo para frente. Neste momento, Dmytro recebe a chamada da mãe – e diz “sim, mãe, neste momento estamos com o pai à comer no refeitório, ... ouvi que na Institutska estão à disparar, ... mãe, eu te amo”. 
De seguida, ele olha para a barricada – acompanhado pela câmara e, naquele momento, a barricada improvisada já está sob o fogo cerrado das forças de segurança, um dos manifestantes está sendo alvejado mortalmente:

Apesar do fogo da polícia, os manifestantes conseguiram recuperar rapidamente suas posições, perdidas em 18 de fevereiro, e até mesmo expandir o território de Maydan. O movimento Euromaydan sobreviveu.
Dezenas de cadáveres e fogo de armas automáticas no centro de Kyiv impressionaram até mesmo vários membros e ex-membros do “Partido das Regiões” – Yanukovych definitivamente se transformou num ditador como Ceauşescu, e o Parlamento da Ucrânia votou pela sua remoção do poder e pela detenção.
Nos dois dias seguintes, Maydan enterrou os seus heróis mortos – dezenas de milhares de moradores de Kyiv saíram para se despedir daqueles que morreram na rua Institutska. Rada Suprema vota favoravelmente o retorno à Constituição de 2004, saída compulsiva das forças de segurança de Kyiv e retirada do ditador Yanukovich do poder – que, juntamente com vários camiões/caminhões de dinheiro e bens, com ajuda das forças russas foge para a cidade de Rostov.

Centena Celestial

Para não tornar o texto muito longo, falaremos brevemente sobre sete pessoas – tão diferentes, mas muito semelhantes na sua rejeição ao mal e da ditadura.
Até o dia 24/02/2014 foram identificados 81 manifestantes e 12 polícias mortos.
Os manifestantes eram da Ucrânia, Geórgia (3) e Rússia (2).
Vitaly Vasiltsov, 36 anos, pai de duas filhas. Vitaly trabalhou como paisagista, amava a terra, a natureza e as plantas, mas acima de tudo – a esposa Natalia e duas filhas - Ivanka e Darynka. Morreu, atingido pelo disparo do franco-atirador.

Antonina Dvoryanets, 61 anos, reformada/pensionista, da cidade-satélite de Kyiv –Brovary. Foi morta em 18 de fevereiro, quando correu em defesa dos jovens espancados pelo destacamento “Berkut”.

Dmytro Maximov, 19 anos. Medalhista de prata e bronze das Surdolimpíadas de judo/ô. Morreu na noite de 19 a 20 de fevereiro, durante o assalto das forças de segurança ao Maydan – na explosão de uma granada perdeu um braço e morreu por perda de sangue no Edifício dos Sindicatos.

Victor Shvets, 58 anos de idade, reformado/pensionista, vivia nos arredores de Kyiv. Foi ferido na rua Institutska, retirado de debaixo do fogo, mas morreu à caminho de hospital. Na ambulância, mortalmente ferido, Victor conseguiu ligar para a esposa e dizer “está tudo bem comigo”.

Olexander Plekhanov, 22 anos, estudante de Arquitetura, praticava ciclismo e escultura. Morreu em 20 de fevereiro de 2014, atingido pelo franco-atirador nas barricadas da rua Institutska.

Oleksandr Khrapchenko, 26 anos, cidade de Rivne, realizador teatral de formação, trabalhava no Teatro Dramático de Rivne. Foi morto por um franco-atirador na manhã de 20 de fevereiro na primeira barricada na rua Institutska.

Ivan Nakonechny, cidade de Kiev, 83 anos de idade. Na sua juventude, Ivan serviu como marinheiro em Sebastopol, foi formado na escola naval, tornou-se tenente. Ivan estava no Maydan desde início, disse que prestou o juramento militar e deveria estar ao lado de seu povo. Recebeu ferimentos graves no momento do ataque do “Berkut” em 19 de fevereiro de 2014, e morreu, devido aos ferimentos em março do mesmo ano.

Nova Ucrânia. Em vez de epílogo

Em 20 de fevereiro, após Maydan sobreviver o ataque de fogo, ficou óbvio que Euromaydan tinha vencido. Naquele dia uma nova Ucrânia nasceu nas pedras negras da fuligem e das pedras vermelhas do sangue das calçadas de Kyiv. E ao mesmo tempo o acabou o mito do “mundo tríuno russo” – este mito imperial teve o seu fim lógico na rua Institutska. 

Depois se segui a ocupação e anexação da Crimeia – Ucrânia seguiu seu próprio caminho rumo a Europa, e a Rússia de Putin foi na direção oposta – mergulhando cada vez mais nas profundezas da habitual servidão eclesiástico e das sanções.

Foto: GettyImages | arquivos pessoais | Internet | Texto Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]

Dmytro Holubnichiy em janeiro de 2019 toca a sua bandura na Maydan: