domingo, julho 15, 2018

Os filmes proibidos na União Soviética

Imediatamente após a sua chegada ao poder em 1917, o regime comunista começou a censura do cinematógrafo. Os filmes ocidentais eram proibidos ou sofriam a censura, cortes, nas décadas de 1920-30 até recebiam a remontagem diferente da original e os filmes soviéticos chegavam à ser destruídos e os seus criadores despedidos, presos e mesmo mortos.

Os filmes proibidos na URSS podem ser classificados em várias categorias — filmes que não mostravam a vida no Ocidente como “inferno capitalista”, eram proibidos pois chocavam com a propaganda soviética. Filmes eróticos, alegadamente eróticos ou sobre os relacionamentos entre os géneros fora dos clichés de propaganda soviética que pretendia provar que “na URSS não há sexo”. Terceira categoria — tudo aquilo que a censura não entendia, que assustava os censores ou os fazia pensar, pelo seguro, este tipo de filmes também eram proibidos.

Dado que os filmes proibidos na URSS eram “mais que demais”, falaremos sobre os casos mais emblemáticos e mais interessantes.

Mas antes de tudo, um pouco de história. A censura soviética constantemente inventava os novos termo para explicar por que a determinada obra é “prejudicial”, os mais usados eram – “este filme distorce os factos históricos”, “este livro coloca os elementos prejudiciais e decadentes no lugar das personagens positivas”, “essa peça teatral não revela completamente a essência verdadeiramente antipopular do czarismo”. Mas um livro, peça teatral ou filme poderiam ser banidos simplesmente por serem “contra-revolucionários”, sem demais pormenores.

Uma das primeiras censoras bolcheviques foi a famosa Nadezhda Krupskaya, viúva oficial do camarada Lenine – ela ocupou o cargo de vice-comissária da Educação e criava pessoalmente as listas de livros que deveriam ser retiradas imediatamente de bibliotecas públicas. Os primeiros foram proibidos os filósofos e escritores pensadores: Nikolay Berdyaev, Mikhail Bulgakov, Nikolay Zamyatin. Krupskaya chegou à atacar violentamente o aclamado e muito popular escritor infantil Kornei Chukóvski – chamando a sua obra de “nonsense” e “estupidez burguesa”.

O número de censores soviéticos não parava de crescer e em 1940 na URSS já contava com 5.000 censores – recrutados principalmente entre as pessoas “ideologicamente certas”, mas com pouca instrução – apenas 10% deles tinham formação superior.

Naturalmente, a censura atacou em força o cinema, que o camarada Lenine considerava a mais importante das artes: “Enquanto as pessoas são analfabetas, as mais importantes para nós são o cinema e o circo”, como ele sublinhava na sua escrita.

Algumas obras mais emblemáticas, proibidas pela censura soviética, começando pelos filmes ocidentais:

1. “E o Vento Levou” (Brasil) | “E Tudo o Vento Levou” (Portugal) de 1940
Não se sabe a razão exata porque o filme foi proibido na União Soviética. Possivelmente isso aconteceu porque a película mostrava a vida dos americanos comuns, que simplesmente viviam, se amavam e planeavam o seu futuro, sem conspirar contra a URSS ou o “mundo socialista”. Ou talvez porque escravos afro-americanos possuíam no século XIV o mesmo padrão de vida (possivelmente até um pouco mais alto), que os cidadãos comuns do primeiro país dos “operários e camponeses”.

Primeiro, o livro foi publicado, e depois o filme foi demonstrado na URSS apenas em 1990, imediatamente se tornando-se um tremendo sucesso de vendas e de bilheteira.

2. «As Vinhas da Ira», (1940)
Em 1948, a URSS comprou o filme americano “As Vinhas da Ira” para mostrar ao público soviético todas as “feridas e as mazelas do capitalismo”. Em quase todas as artes na União Soviética existia um programa similar – a URSS comprava, traduzia e publicava os livros de quaisquer escritores ocidentais marginalizados ou obsoletos desde que estes criticassem fortemente o capitalismo – as suas obras eram apresentadas aos cidadãos soviéticos como “o verdadeiro retrato da vida na Ocidente putrificado e decadente”.

Mas “As Vinhas da Ira” foi removido da exibição pública quase imediatamente após o seu lançamento nos cinemas soviéticos – a censura notou, com horror, que o pobre e arruinado farmeiro americano compra um camião/caminhão usado e geralmente vivia muito melhor do que os “felizes e livres” camponeses soviéticos.

3. «Emmanuelle», (1974)
Naturalmente o filme foi imediatamente proibido na URSS – na União Soviética não poderia haver nenhuma “sexualidade”, muito menos a feminina, nem o sexo existia na URSS, as mulheres deveriam sonhar apenas com o comunismo, e as “relações íntimas” só existiam para poder dar ao país e ao Estado os operários e soldados saudáveis.

4. «Nine 1/2 Weeks», (1986)
Classificado como “drama erótico”, «Nine 1/2 Weeks» é mais um filme sobre a complexa relação entre um homem e uma mulher, com algumas cenas eróticas (carícias de gelo com os olhos vendados; sexo nas escadas e um striptease da personagem principal, a Elizabeth).

No entanto, na URSS, o filme foi proibido e era demonstrado apenas nos salões de vídeo semiclandestinos no fim da Perestroika, em 1989-90.

5. «Padrinho», (1972)
Alguns dizem que os censores soviéticos viram em “Padrinho” a “romantização do submundo criminal”, outros argumentam que o filme foi proibido pela elite comunista (que certamente o assistiu em VHS e até em secções fechadas), devido ao facto de que a estrutura da máfia ítalo-americana era fortemente parecida com a estrutura do poder comunista na URSS.

No fim da década de 1980, o ainda proibido “Padrinho”, apareceu maciçamente nos salões de vídeo, onde praticamente não havia nenhum controlo da censura – estes locais demonstravam ao público, ao preço de 50 copeque – 1 rublo (0,85 – 1,69 dólares ao câmbio oficial antes de 1991), quer a “Emmanuelle”, quer os filmes realmente pornográficos.

6. “Guerra nas Estrelas” (Brasil) | “Guerra das Estrelas” (Portugal) de 1977
Os censores soviéticos viram na “força negra” (dark force) uma alusão à União Soviética. As coisas apenas pioraram quando em 1983 Ronald Reagan chamou a União Soviética de “império do mal” (quase exatamente o mesmo que o “Império Galáctico do Mal” em saga), servindo como a proibição definitiva e total do filme na URSS.

O filme foi exibido nos cinemas soviéticos no fim da existência da própria União Soviética, e as pessoas formavam as filas “galácticas” para ver a obra do George Lucas. Antes disso, os cidadãos soviéticos podiam ver apenas “Adolescentes no Universo” (1974), em que os pioneiros soviéticos voavam diretamente da Praça Vermelha para uma estrela distante, organizando lá uma revolução marxista-leninista:

7. “Comisário” | “Die Kommissarin” | “The Commissar”, (1967)
A censura soviética proibia também os filmes soviéticos – geralmente porque a determinada obra mostrava a realidade muito diferente da propaganda oficial de imagens glamurizadas.

Um desses filmes foi o “Comissário”, do Aleksandr Askoldov, filmado em 1967. O filme foi concebido como a saga dos “dias heróicos da revolução”, mas em vez disso, o diretor produziu um drama sombrio sobre as tragédias humanas. Na sequência da estreia do filme o realizador foi expulso do partido comunista, acusado de parasitismo social, proibido de viver em Moscovo e proibido de trabalhar em longas-metragens para o resto de sua vida, sob a acusação formal de ser “profissionalmente inapto”:

Além disso, o diretor recebeu a ordem de destruir todas os cópias do filme, o que ele desobedeceu – e agora o filme está disponível na Internet. O seu próximo filme (um documentário) saiu em 1972 e em 1992 ele teve um papel menor numa produção cinematográfica russa. Já “Comissário” ganhou o Urso de Prata – Prémio Especial do Júri no 38º Festival Internacional de Cinema de Berlim em 1988 e quatro prémios Nika, também de 1988. O realizador morreu em 21 de maio de 2018 na Suécia.  

8. “Intervenção” | “Intervention” | “Interventsiya”, (1968)
Apesar de ser ideologicamente alinhado com a ideologia e contar com uma galáxia inteira de estrelas do cinema soviético: Vladimir Vysotsky, Sergei Yursky ou Valeri Zolotukhin, o filme foi proibido pela censura sob acusação de que a “Grande Revolução de Outubro” e posterior luta bolchevique “pelos ideais comunistas” são retratados como uma farsa vulgar “risível e cómica”. O filme foi demonstrado nos cinemas soviéticos apenas em 1987:
Em geral, a lista de filmes (incluindo soviéticos), proibidos pela censura soviética é simplesmente enorme, e parcialmente pode ser consultado na Wikipedia.

Imagens: Internet | Texto: Maxim Mirovich

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