sábado, julho 14, 2018

Como no império russo se compravam e se vendiam as pessoas

A servidão que se enraizou no império russo desde século XVI foi abolida apenas em 1861, e na época do golpe bolchevique de outubro de 1917 ainda havia as pessoas que se lembravam da servidão, eles tinham 60-70-80 anos de idade – na verdade, eram os pais e avós de alguns bolcheviques, que chegaram ao poder na sequência de um golpe militar.

De onde veio a servidão?

Servidão tomou a forma jurídica no fim do século XVI, quando aos agricultores foi finalmente vedado o direito de mudar o proprietário latifundiário rural. Em 1592 no principado de Moscovo foi abolida a “regra do dia de São Jorge” (26 de novembro (9 de dezembro)) – neste dia os camponeses tinham o direito de mudar do proprietário rural para quem trabalhariam todo o ano seguinte. Até então, os camponeses eram relativamente livres e só tinham a obrigação de cumprir corveia ou pagar o obrok (quinhão, o equivalente moderno do imposto pago por um percentual de produtos manufaturados, pós-colheita, etc.).
Depois as coisas pioraram, à partir de meados do século XVII é definido o período ilimitado de busca e captura de servos fugitivos – ou seja, o proprietário latifundiário obtinha o direito recapturar e levar à sua propriedade, tanto o servo agricultor, quer e sua família, incluindo os seus filhos. A propriedade pessoal dos servos também passou a ser considerada propriedade do latifundiário. No entanto, no século XVII, ainda não havia a venda livre e massificada dos servos – um dos Códigos reais estabelecia que “ninguém poderá vender as pessoas batizadas”.

Desde o século XVIII, as leis mudam – tornou-se possível negociar livremente os servos. Na verdade, o que começou como uma forma de uma espécie do “imposto” governamental aos camponeses agricultores (impostos obrigatórios mais a proibição da passar livremente para um outro proprietário) começou se transformar numa privação completa de quaisquer direitos civis dos camponeses – começou a escravidão real.
No século XVIII e na primeira metade do século XIX floresceu o comércio livre  de servos. Existiam algumas restrições, tais como a proibição da separação das famílias de camponeses, mas estas nem sempre eram observadas, os servos eram considerados a propriedade privada do latifundiário, e embora, se no decorrer da punição corporal este morria  o proprietário teria que responder perante a lei, mas com pouco de dinheiro escaparia qualquer punição legal ou mesmo a reprimenda cívica.

Como os servos viviam e trabalhavam

Os servos eram uma grande parte da população das grandes cidades do império russo. Na década de 1830, a população de São Petersburgo era de 450.000 pessoas, das quais servos eram 200.000 – quase a metade. Os servos eram mantidos em constante medo, de acordo com a prescrição – “eles deveriam viver em silêncio, quietos e com medo constante de punição”. Para evitar fugas os servos não recebiam os passaportes (documentos de identificação) – a mesma política, em relação aos camponeses, foi adotada pela União Soviética cerca de um século depois.
Nas cidades, os servos trabalhavam em grandes projetos de construção – erigiram a maioria dos edifícios monumentais de São Petersburgo – que, em meados do século XIX, por sinal, era uma cidade baixa com a maioria das casas feitas de madeira e não de pedra. Em grandes canteiros de obras, os trabalhadores eram supervisionados por zeladores e capatazes – muitas vezes eram pessoas livres e mesmo estrangeiros “alemães” (assim no império russo eram chamados vários estrangeiros, provenientes da Europa Ocidental protestante).

Como na URSS estalinista, os servos russos viviam em grandes barracas às brigadas inteiras, ou alugavam espaços grandes (também para a brigada inteira): grandes salas com várias janelas, com um fogão russo num dos cantos, e ao longo das paredes beliches de várias camadas – na sala de 30-40 m² podiam viver de 40 à 60 pessoas – homens, mulheres e crianças.

Os servos de Petersburgo comiam muito mal – a comida diária era broa simples (que levavam consigo para o trabalho), na melhor das hipóteses o pão podia ser acompanhado por um pedaço de manteiga ou uma cebola. À noite era preparada a sopa russa chamada schi – muitas vezes era apenas um repolho cortado em 4 pedaços e fervido em água salgada.

Como as pessoas eram negociadas em São Petersburgo

Jornais russos do final dos séculos XVIII-XIX estavam cheios de anúncios sobre as “pessoas para a venda”. Num dos anúncios, o proprietário vendia as suas propriedades: “tudo já foi vendido, ficou apenas uma vaca leiteira e um menino que sabe pentear o cabelo”. Um outro anúncio dizia: “se vende um pequeno de 17 anos e um conjunto de móveis”. Numa outra edição do jornal, foi publicitado que “se vende uma moça de 30 anos e um jovem cavalo”. Nos jornais do ano 1800 se podia ler: “são vendidos o marido e a sua esposa, de 40-45 anos, de bom comportamento e um jovem cavalo castanho/marrom”. Vendedores não hesitavam, descrevendo os seus produtos: “a mulher de 40 anos, bonita de cara e boa de corpo”; “menino é um mestre e sabe a arte de sapateiro”, “a gaja de 40 anos, não perde para um bom cozinheiro na preparação das refeições”.
Anúncios de um jornal russo de 22/02/1800. Sapateiro custa 500 rublos e cortador (?) 400
Além da venda de camponeses por anúncios, havia também verdadeiros mercados de escravos – eram organizados por empreendedores à imagem e semelhança dos mercados orientais. Os mercados de escravos estavam localizados nos lugares proeminentes e transitórios da capital russa da época, na ponte Potseluev ou no canal Ligovsky. Os compradores vinham e escolhiam o “produto”, agindo tal-é-qual como na compra de um cavalo – era obrigatório apalpar o servo “na questão de ferimentos e doenças”, bem como ver os seus dentes.

Os preços dos servos mudavam seguindo os tempos. Os mais caros eram mestres de seus ofícios: cozinheiros e cabeleireiros, e os mais baratos – os camponeses fracos, incapazes de trabalhar. No final do século XVIII os servos custavam, em média, até 100 rublos, em 1782 foi feito um inventário dos bens de um tal capitão Ivan Zinoviev, em que foram incluídos, os camponeses: “Leonty Nikitin, 40 anos, avaliado em 30 rublos, sua esposa Maria Stepanova, 25 anos, avaliada em 10 rublos. Efim Osipov, 23 anos, avaliado em 40 rublos, sua esposa Maria Dementeva, 30 anos, avaliada em 8 rublos”.

No século XIX, os preços começaram a subir, e os servos foram vendidos por várias centenas de rublos por cada “alma”, em São Petersburgo os preços eram particularmente altos, nas províncias – mais baixos.
São Petersburgo, meados do século XIX
Mas o preço de um bom cozinheiro poderia chegar aos milhares de rublos. Um cabeleireiro experiente custava não menos que mil rublos. Um preço especial valiam os servos, inclinados aos negócios. Os proprietários os sobrecarregaram com o quinhão considerável, e alguns desses mujiques comerciais garantiam a renda não menor de que uma grande propriedade. Um deles recordava que a sua servidão não o atrapalhava, e mesmo ajudava nos negócios. Um nobre proprietário com ótimas conexões servia como boa cobertura contra as investidas de pequenos oficiais controladores. Mas quando o quinhão começou a sobrecarregá-lo excessivamente, tirando os ativos e destruindo o comércio, ele decidiu se libertar, oferecendo ao seu dono 5 mil rublos pela sua liberdade. Ao que recebeu a resposta: “Esquece mesmo de pensar” [fonte].

Fim da servidão e a guerra na Crimeia do século XIX

Ironicamente, a razão para a abolição da servidão não era nenhum “humanismo” (aceite por um pequeno punhado de intelectuais que liam livros e escreviam artigos nos jornais), mas a banal falta de dinheiro – entre 1853 à 1856, nas vésperas da famosa “reforma camponesa” de 1861, a Rússia entrou na Guerra da Crimeia, que arruinou o seu sistema financeiro. Rússia teve de recorrer à impressão de bilhetes de tesouro não garantidos, e o rublo se desvalorizou em metade. A servidão tornou-se um fardo não lucrativo para o débil corpo de uma economia já bastante frágil – e foi decidido aboli-la.
Naturalmente a decisão foi apresentada ao “zé povão” como a maior misericórdia real – o rei acordou numa manhã e decidiu dar a liberdade aos servos. O manifesto real foi chamado “Sobre a mais Graciosa Dádiva às pessoas servas do direito de habitantes rurais livres”. Traduzido, isso significa que agora os camponeses não-livres eram equiparados aos camponeses livres.
Essa nova “liberdade” não era muito diferente da anterior falta dela – sim, as pessoas deixaram de serem a mercadoria, mas agora eles tiveram que pagar o aluguer/l ao proprietário rural pela terra que usavam, ou tinham que servir ao latifundiário. Em geral, a “vitória da Crimeia” não fez os ex-servos mais felizes.

Ecos da servidão. Em vez de um epílogo

A escravidão foi abolida há pouco mais de 150 anos, e os bolcheviques, que chegaram ao poder em 1917, eram descendentes diretos dos servos da primeira e segunda geração. Por um lado, as pessoas tentavam se livrar da “antiga opressão”, que conheciam das histórias de seus pais/avós, e, por outro lado, elas mesmas, sem saber, absorviam completamente os hábitos familiares e o modo de vida dos ex-servos.
A fuga da servidão comunista kolkhoziana à mendicidade
Moscovo (?), 1947
Na verdade, o sistema económico construído na URSS não era muito diferente da servidão czarista e, em alguns casos, a superou – as pessoas continuavam a viver sem possuir os direitos, na URSS não existiam os sindicatos reais para proteger estes direitos e os camponeses nem possuíam os passaportes (documentos de identificação) desde a década de 1930 até os anos 1970 – os kolkhozes soviéticos não diferiam muito da comunidade feudal. Na época da servidão, acreditava-se que o senhorio tinha um “poder supremo” sobre os seus servos, na URSS, o “Estado” abstrato passou a deter o tal poder, que considerava os habitantes do país não como cidadãos livres, mas como súditos.

O que é interessante é que muitos publicistas russos hoje novamente consideram a servidão como algo de bom, criando pérolas como “a servidão era um componente orgânico e necessário da realidade russa”.

Fotos: Internet | Texto: Maxim Mirovich

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