quinta-feira, dezembro 27, 2018

A chegada triunfal da McDonald's à União Soviética

No dia 31 de janeiro de 1990 em Moscovo abriu-se a primeira McDonald's na União Soviética. A empresa-mãe teve que solicitar a autorização, lhe concedida pela alta liderança do partido comunista (PCUS).

No primeiro dia de abertura, a primeira McDonald's serviu mais de 30.000 pessoas. Os cidadãos soviéticos vinham apenas ver as maravilhas do Ocidente – de tanta McDonald's era diferente do fast-food soviético opaco, sujo e cinzento – com a sua carne moída feita de pão e alho, bandejas gordurosas e mesas bambas, sempre cheias de sujidade pegajosa. De uma certa forma é possível dizer que McDonald's fez muito bastante pela desintegração da URSS.

Retrato de McDonald's no contexto da época

No início de 1990 ainda persistia uma verdadeira URSS – embora a Perestroika já estava em pleno andamento, as empresas privadas e cooperativas eram permitidas de forma limitada – mas o partido comunista ainda governava o país, criando muitas restrições e obstáculos e continuando promover a sua “economia plane(j)ada”.
Slogan numa cantina soviética: "A nossa ordem é essa — comeu, limpa atrás de si"
O fast-food soviético estava em péssimo estado – como tudo plane(j)ado e compulsório, funcionava na ausência de competição, segundo o princípio “por que arrumar a mesa, se eles vão tachar na mesma”, estava cheio de roubos e grosseria – os funcionários roubavam os alimentos, faltando respeito aos clientes: “camarada, o pão na carne moída está lá segundo o padrão estatal! O que você quer? É pegar ou largar!”

Nas cantinas e cafés soviéticos, via de regra, sempre havia mesas pegajosas e sujas, e na estação fria – o chão estava coberto da sujeira, trazida pelo calçado dos camaradas compradores. Frequentemente, no decorrer do almoço, uma faxineira qualquer, gorda e vestindo a túnica azul, saia dos fundos, enrolava um pano de linho cinza em volta de um esfregão enorme, o batia no chão e gritava: “deixem-me lavar!” Passava o esfregão sob os seus pés, depois levava o pano ao balde metálico com uma inscrição vermelha torta: “Inv. 643-14”.

Outro detalhe importante da restauração e da vida soviética em geral, é uma espécie de cinzentismo universal, e não no sentido figurado, mas no sentido literal da palavra. Todos os letreiros soviéticos, interiores, todos os tecidos de roupas, todas as impressões eram meio sem graça e desbotadas – como se fossem gastos. Parecia que havia muitas cores – mas todas elas estavam no espectro cinzento-castanho/marrom-carmesim, e para o observador casual pareciam “cinquenta tons de cinza”.

Fila à procura do respeito
A fila começou se formar na noite de 30 para 31 de janeiro na praça Pushkin em Moscovo, onde a primeira McDonald's na URSS abriu nas instalações do antigo café “Lira”.
Na madrugada do dia 31 de janeiro, a fila na porta da McDonald's já era composta por cerca de 5.000 (cinco mil pessoas). Havia na fila muitos estudantes que fugiram das suas universidades estatais apenas para ver a McDonald's, que na época era visto na União Soviética como um símbolo de “bela vida ocidental”.
Mais tarde, quando a fila se tornou realmente gigantesca, a milícia (polícia) moscovita instalou cercas metálicas (daquelas que hoje dividiam a multidão nos estádios) e colocou todos os jornalistas e equipas/es da TV num camião/caminhão com as bordas abertas.

O que viram e saborearam os cidadãos soviéticos

Os felizardos viram um interior e um serviço limpos e bonitos, sem titias soviéticas grosseiras – que na URSS já em si era uma maravilha. O interior da McDonald's, para os padrões modernos, era um tanto ingénuo e ultrapassado – mas em comparação com o quotidiano soviético da época, era um luxo cósmico.
O estabelecimento tinha um chão limpo, a limpeza era efetuada por pessoal especialmente treinado, sem perturbar os visitantes. McDonald's tinha mesas limpas – o que era algo irreal para fast-food soviético, com as suas mesas sempre pegajosas, sujas e gordurosas, às vezes cobertas com uma coberta plástica oleada e fedorenta. O serviço era incrível. Todos os caixas sorriram, pedidos pequenos como um guardanapo ou garfo extra eram imediatamente executados com o mesmo sorriso doce – ninguém gritava: “vocês são muitos, eu aqui estou sozinha!” ou “leva o que te dou, intelectual de uma figa!” Já em si mesmo, isso era algo fantástico, simplesmente impossível na URSS.
A limpeza e modernidade do WC/banheiro impressionavam. No WC/banheiro foram instaladas máquinas automáticas de sabão líquido, secadores de mãos automáticos com sensores, tudo estava perfeitamente limpo e bem iluminado, havia água quente nos lavatórios e rolos de papel higiénico. Comparada com as latrinas melhoradas soviéticas, McDonald's se parecia com uma nave espacial – a propósito, não uma nave soviética, Yuri Gagarin não tinha papel higiénico à bordo – a URSS só começou produzi-lo em 1968.

Para os cidadãos soviéticos comuns, a McDonald's era um prazer bastante caro: “Big Mac” custava 3 rublos e 75 copeque (6,35 dólares ao câmbio oficial), “Filé-o-peixe” – 4 rublos e 20 copeque (7,11 usd), hambúrguer – 1 rublo e 65 copeque (2,79 usd), um milk-shake – 90 copeques (1,52 usd), bebidas de 500 ml de “Sprite” ou “Coca-Cola” custavam 70 copeques (1,18 usd). Aos padrões soviéticos era muito caro (o almoço na cantina soviética custava cerca de um rublo), o que mais uma vez confirma o valor bastante inflacionado do rublo soviético.

Em geral, para os padrões da URSS, tanto o serviço em si, quando a ementa eram algo incrível, interessante e muito invulgar.

Contos de embalar sobre a “falta de espiritualidade ocidental”. Em vez de epílogo

Durante décadas, o governo comunista soviético contava às pessoas as histórias sobre “Ocidente decadente”, onde os trabalhadores “passam fome” e o povo sonha em fazer a uma revolução socialista/comunista... Até que no início da década de 1980 as pessoas deixaram de acreditar nessas balelas – era URSS que vivia cada vez pior, e Ocidente “em decadência” ficava cada vez mais próspero.
No final da década de 1980, todos os contos soviéticos sobre milhões de toneladas de ferro fundido, sobre o rendimento incrível das vacas leiteiras ou sobre aquela coisa cósmica incrivelmente importante (fabricada apenas na URSS) não causaram nada aos cidadãos, exceto forte irritação – ao verem apenas entorpecimento, sujeira, desespero e pobreza. A fila à McDonald's pôs fim a propaganda soviética – as pessoas ficavam horas na fila para ver com próprios olhos como as pessoas vivem nos países ocidentais desenvolvidos. Em parte, foi a McDonald's que acabou com a União Soviética – os cidadãos viram tudo e tiveram a oportunidade de comparar. Apesar do fa(c)to de que McDonald's, em geral, é um café barato com comida barata – mas na URSS, o seu nível era claramente algo cósmico e inatingível.

Pode acontecer que, daqui à uns 30 anos, alguma outra empresa ocidental irá novamente abrir um café em Moscovo, apenas para que os moscovitas pudessem simplesmente ver como é possível viver sem eterno bombeamento ideológico, cinzentismo e desespero...

Naturalmente, é uma outra história.

Fotos: arquivo | Texto: Maxim Mirovich

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