quinta-feira, agosto 09, 2018

Verdades e mentiras sobre os maníacos soviéticos

Os fãs da URSS acreditam que União Soviética era um “país de alta moralidade”, intocado pelas mazelas do “capitalismo putrificado”: sem prostituição, assaltos ou maníacos, mas com muito vento, céu azul e sorvete mais saboroso do mundo.

Isto, naturalmente, não era verdade, na URSS eram ativos vários maníacos – simplesmente a comunicação social soviética nunca revelava a sua existência, criando na população soviética a imagem distorcida da vida no seu próprio país – na verdade, na União Soviética, tal como no “Ocidente decadente”, existia a prostituição, assaltos sonantes e assassinos em série, como o inglês Jack, o Estripador.
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Os fãs da URSS também costumam dizer que tudo isso apareceu apenas na década de 1990, com a Perestroika, mas isso também não é verdade – nos anos 1990 a imprensa soviética foi a mais livre possível e começou a falar sobre todos os assuntos, que era tabu durante a ditadura comunista.

É interessante notar que, nos casos de muitos maníacos soviéticos, a crueldade de todo o sistema soviético pode ser claramente discernida – o próprio sistema comunista contribuiu, de alguma forma, aos futuros maníacos a se tornarem maníacos, ou então cometeu vários erros na sua busca e captura. E às vezes ambos, como no caso de Andrei Chikatilo.

Hoje falaremos sobre os três maníacos soviéticos mais famosos e terríveis, conhecidos em todo os espaço soviético e pós-soviético, e mesmo na cultura ocidental.

«Abrem porta, é da MosGaz!»

Vladimir Ionessian conhecido como “MosGaz” é considerado um dos primeiros assassinos em série, cujos crimes tornaram-se públicos, apesar do esforço do governo soviético em escondê-los – possivelmente porque que o assassino operava em Moscovo, e não em algum lugar longínquo.
O maníaco recebeu o seu nome porque tocava as campainhas das portas das suas vítimas, passando-se pelo representante o Departamento de Serviços Habitacionais (ZhEK) №13 ou então dizia que é de MosGaz, serviço municipal de gás da cidade de Moscovo. Entrando no apartamento, ela matava as suas vítimas com um machado. “MosGaz” matou 6 pessoas, foi preso no inverno de 1964 e sentenciado à pena capital. Segundo a lenda urbana, o próprio Khrushchev veio à prisão onde estava mantido o maníaco, ordenando: “que em duas semanas ele já não esteja aqui!

A sua biografia tem um detalhe curioso – na juventude era um aluno talentoso, possuía o diploma da escola de música e até foi admitido sem exames ao departamento vocal da Escola Superior de Musica de Tbilissi. Depois disso, segundo uma das versões, Ionesian foi julgado e condenado pela “evasão de cumprir o dever militar”, cumpriu o termo prisional na cadeia do regime leve na cidade georgiana de Gori – onde possivelmente enlouqueceu. O sistema soviético “ajudou-o” a se tornar um maníaco...

Andrei Chikatilo: «Stepan foi comido, vão te comer também»

Andrei Chikatilo talvez foi um dos mais famosos e mais temidos maníacos soviéticos – ele cometeu o seu primeiro assassinato comprovado em dezembro de 1978 e antes da prisão em novembro de 1990, tinha brutalmente assassinado 53 pessoas [confessou 55, mas pelos dados da polícia soviética, cometeu 65 assassinatos]. Antes de prisão, a polícia soviéticas já tinha prendido várias pessoas sob suspeita, um deles, sob tortura, chegou a confessar os “crimes”, sendo condenado pelo tribunal e fuzilado. Já o próprio Chikatilo era sempre tido como cidadão soviético exemplar, era membro do PCUS desde 1960, chegando à “ajudar” apanhar o maníaco – participou nas patrulhas nas estações de caminhos-de-ferro, inserido nos Grupos de Vigilância Popular (DND).
Andrei Chikatilo nasceu em 1936 na Ucrânia, o seu avô foi vítima da luta contra os kulaks/kurkuls, e o seu pai, um ex-comandante de uma unidade de guerrilha comunista, foi preso e enviado para GULAG. Chikatilo tinha um irmão mais velho, Stepan, que durante Holodomor de 1932-33, alegadamente, foi vítima de canibalismo, o que é muitas vezes era recordado pela sua mãe, que assustava Andrei.

Em 1946, na Ucrânia novamente foi atingida pela fome, e a mãe o proibia estritamente que sair fora do portão: “não vá lá, Stepan foi comido, vão te comer também!” — dizia ela. Naturalmente tudo isso influenciou sobremaneira Andrei Chikatilo – isso se torna especialmente óbvio se nos lembrarmos de ele tentou comer os corpos de algumas de suas vítimas. Em geral, se não fosse Holodomor e outros horrores comunistas do século XX — muito possivelmente não haveria nenhum maníaco Chikatilo.

Ver Andrey Chitatilo na entrevista:

Maníaco belaruso e 14 condenados (Sic!) falsamente

O belaruso Gennady Mikhasevich estava ativo na região entre as cidades de Vitebsk e Polatsk, por isso foi chamado de “estrangulador de Vitebsk”. Durante 12 anos de “atividade” ele matou 36 mulheres; 12 delas num único ano de 1984 [o próprio assassino confessou 43 assassinatos].
Mihasevich vivia numa aldeia nos arredores de Polatsk e era “homem soviético exemplar” – praticamente não bebia, não fumava, possuía a família, envolvia-se ativamente na vida pública socialista, era membro das DND e do partido comunista. Nas reuniões públicas, o charmoso e laborioso Mikhasevich, era habitualmente apresentado como um exemplo à seguir, em contraste com os foliões e bêbados locais.

Em parte, a sua vida pública impedia a polícia soviética de achar a trilha do maníaco, cometendo, a própria polícia, crimes e atropelos à lei mais que vários – acusados dos crimes de Mikasevich foram presas 14 pessoas (Sic!), muitos deles foram torturadas, exigindo a “confissão”. Um destes foi fuzilado, outro tentou cometer suicídio, o terceiro foi preso por 10 anos, quarto cegou na cadeia... Assim funcionava a justiça soviética. O próprio Mikasevich foi preso em 1987 e fuzilado em Minsk/Mensk numa date incerta, ora em 25 de setembro de 1987 ou então, em 3 de fevereiro de 1988.

São apenas alguns casos mais sonantes. Podemos recordar Nikolay Gridyagin, que estrangulava as moças e possuía “características totalmente positivas” do seu local de trabalho; o violador/estuprador e assassino em série Boris Gusakov que trabalhou como fotógrafo e matou 5 pessoas; maníaco Anatoly Slivko, membro do partido comunista, detentor do título pedagógico soviético de “Professor Homenageado da Rússia Soviética” (1977), responsável pela morte de 7 e tortura de mais de 40 crianças... e isso não é uma lista completa.

Como podemos ver – na URSS eram ativos bastantes assassinos em série, não menos, e talvez até mais do que no “Ocidente decadente”. Por vezes, o próprio regime soviético “participava” na formação de uma identidade viciosa do maníaco (como no caso do Holodomor ucraniano que definiu Andrei Chikatilo), e a polícia soviética frequentemente não sabia como conter este tipo de crimes – detendo e torturando inocentes – como no caso do “estrangulador de Vitebsk”.

Fotos: arquivo | Texto: Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]

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