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quarta-feira, março 11, 2026

A janela de oportunidades para 2ª frente russa contra os países da NATO e da UE

Ler o relatório em lituano, PDF
A rússia está a expandir as suas unidades militares na fronteira da NATO, proporcionando-lhes experiência de combate na Ucrânia, afirma a inteligência lituana na sua avaliação anual das ameaças à segurança em 2026.

Ao longo de toda a fronteira da NATO, estão a ser expandidas brigadas até o nível de divisões e estão a ser criadas novas unidades militares. De acordo com os serviços de informação, a maioria das unidades recém-formadas das forças armadas russas não estão totalmente equipadas e estão a ser criadas por etapas, devido à escassez de pessoal, equipamentos militares e infraestruturas. As unidades recém-formadas e os equipamentos que lhes estão atribuídos não permanecem nas suas áreas de implantação permanentes, mas estão a ser enviados para participar em operações de combate contra Ucrânia.

Anteriormente, os relatórios dos serviços de informação da Lituânia e da Estónia afirmavam que a rússia não pretendia iniciar operações militares na região do Báltico em 2026, e possivelmente em 2027, e que serão necessários cerca de seis anos para reconstruir totalmente o exército e prepará-lo para um conflito com a NATO. Depois disso, o exército russo, possivelmente, será de 30 à 50% mais forte e mais moderno. Mas isto refere-se a um conflito em grande escala com toda a NATO. Pois a rússia não precisa cumprir todos estes prazos para aterrorizar os países vizinhos com drones do tipo Shahed-136 ou organizar os separatismos locais do tipo de criação das «repúblicas populares».

Recentemente, na Estónia, a propaganda russa tenta promover a criação da uma «república popular de Narva» separatista, por enquanto nas redes sociais. No último mês, têm circulado este tipo da propaganda russs, nos canais de Telegram, VK e TikTok, espalhando ideias sobre a separação das cidades de Narva e Ida-Virumaa da Estónia e a criação de uma suposta «república popular». As descrições dos canais são muito diretas: «Esperando pela rússia».

O Ministério da Defesa russo elaborou um projeto de lei que autoriza a «utilização extraterritorial de unidades das forças armadas russas para proteger os cidadãos da federação russa». O documento, segundo a agência de notícias russa Interfax, citando uma fonte, foi aprovado por uma comissão governamental para ser submetido à Duma Estatal.

Esta é a notícia mais importante. Permitam-me recordar que exatamente isto já aconteceu duas vezes antes. A primeira vez foi a 1 de março de 2014, quando o conselho da federação (Cãmara alta do parlamento russo) autorizou o uso de tropas russas na Crimeia. A segunda vez foi a 22 de fevereiro de 2022, quando foi aprovado o uso das forças armadas russas no estrangeiro. Apenas dois dias depois, começou a invasão russa de larga escala da Ucrânia.

Neste momento, os ataques maciços contra Ucrânia praticamente cessaram, tanto nas principais cidades como ao longo da linha da frente. Nota-se uma diminuição significativa do uso de drones russo-iranianos «Shahed-136»/«Geran». Enquanto até mais recente eram usados sem parar, agora os ucranianos dormem mais descansados.

Isto pode indicar indirectamente que a rússia está a acumular recursos para um ataque noutro teatro de guerra.

Conclusão. Aparentemente, putin vê a 3ª Guerra do Golfo como uma janela de oportunidade que se abriu subitamente. O mundo inteiro está agora atento ao Irão, não há excedentes de armas, Trump não tem tempo para isso e os preços do petróleo estão novamente a subir. Uma dádiva divina.

A análise do jornalista russo, Arkady Babchenko, neste momento residente na Estónia e engajado na ajuda técnica às FAU, é bastente pessimista: Na minha opinião, a decisão de atacar os Países Bálticos já foi tomada em princípio, e a utilização extraterritorial das forçasarmadas russas para proteger os cidadãos russos é uma prova directa disso. A Duma Estatal russa nunca produz projetos de lei por iniciativa própria, a menos que a decisão já fosse tomada.E muito menos se o MinDefesa russo for o iniciador. Agora — neste preciso momento — os russos estão sentados a decidir se o momento de ataque já chegou ou ainda não.

segunda-feira, fevereiro 24, 2025

3º aniversário da invasão russa em grande escala: a necessidade crítica de assistência

Ucrânia defende a liberdade de todo o mundo democrático. A rússia continua as operações ofensivas, utilizando a tática dos “ataques de carneficina”, enviando dezenas de milhares de soldados para a frente de combate. 

Atualmente, Ucrânia carece de munições e artilharia de longo alcance – elementos-chave para uma resistência eficaz. 

A economia russa está a operar em modo de guerra: a produção de armas e projécteis aumentou significativamente. A rússia recebe ativamente assistência da China, do Irão e da Coreia do Norte. A rússia está a explorar atrasos no apoio ocidental para aumentar as forças e alterar o equilíbrio no campo de batalha. Sem entregas rápidas de armas, a rússia continuará ocupar os territórios ucranianos.

A guerra na Europa tornar-se-á realidade se Ucrânia não se mantiver firme. A perda da Ucrânia significaria que os próximos alvos seriam a Polónia, os Países Bálticos e a Moldova. A rússia já está a preparar ataques híbridos contra países europeus – sabotagem, ataques cibernéticos, desestabilização de governos.

Cada dia de atraso no apoio à Ucrânia significa novas vítimas entre os ucranianos. Dezenas de milhares de civis morreram em consequência dos ataques russos. Ataques massivos de mísseis deixam milhões de pessoas sem luz e sem aquecimento. Todos os dias, as Forças Armadas da Ucrânia perdem soldados que poderiam ter sido salvos se o Ocidente tivesse prestado apoio mais cedo.

As sanções devem ser reforçadas, não enfraquecidas. A rússia adaptou-se às sanções e está a aumentar a produção de equipamento militar. Os esquemas de desvio por parte de países terceiros, incluindo a Turquia, os Emirados Árabes Unidos e o Cazaquistão, ainda estão em funcionamento. A UE e os EUA devem fechar todas as brechas para que a federação russa fique privada dos recursos necessários para travar uma guerra.

Ucrânia precisa de ser membro de pleno direito da NATO. A experiência de 2022-2024 mostrou que, sem garantias da NATO, a rússia não irá parar. O exército ucraniano já cumpre os padrões da Aliança. O longo atraso na adesão da Ucrânia à NATO só encoraja o Kremlin a novos ataques.

Ucrânia continua a ser o maior obstáculo às ambições imperiais do Kremlin. Sem a Ucrânia, a rússia não será capaz de restaurar o seu império. As Forças Armadas da Ucrânia aniquilaram cerca de 350.000 soldados russos durante os três anos de guerra. Ucrânia já destruiu o mito do «invencibilidade» do exército russo.

Ucrânia está a resistir, mas precisa de mais ajuda para vencer. Os ucranianos provaram a sua resiliência, mas os recursos não são ilimitados. Sem o apoio adequado, a guerra poderia prolongar-se, o que só beneficiaria a rússia. Uma assistência rápida, poderosa e contínua é o caminho para a vitória da Ucrânia e de todo o mundo democrático. 

Blogueiro 

Declarado como foto não oficial de uma remessa de tanques com rodas B1 Centauro de Itália para Ucrânia. Não há qualquer anúncio oficial. Em setembro de 2024, Ucrânia apresentou um pedido de fornecimento de armas desativadas do maior local de armazenamento de equipamento italiano na Europa.

segunda-feira, agosto 28, 2023

Ucrânia aposta na União de Defesa do Mar Báltico - Mar Negro

Durante a Cimeira da Plataforma Internacional da Crimeia, o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyi, anunciou a sua intenção de criar uma União de Defesa do Mar Báltico - Mar Negro.

Para neutralizar as atuais ameaças russas, é necessário reforçar não só o potencial militar dos países da UE e da sua indústria militar, mas também criar novas uniões que sejam capazes de responder adequadamente aos desafios e ameaças actuais.

As grandes associações e uniões supranacionais da Europa, criadas no século XX, já não satisfazem plenamente as exigências da nossa época e deveriam ser complementadas com formatos de segurança mais flexíveis. Neste momento Ucrânia está a conduzir negociações com os países da NATO, com acesso ao Mar Negro e já sentiram as consequências da transformação, pela rússia, das áreas do Mar Negro e do Mar Azov numa zona de guerra e da instabilidade.

A União de Defesa do Mar Báltico - Mar Negro deve tornar-se fiadora da integridade territorial e segurança da Europa, que será significativamente reforçada após a integração da Ucrânia nas suas estruturas supranacionais.

quinta-feira, março 02, 2023

Sérvia na sua aproximação à Europa e à Ucrânia

Sérvia vendeu recentemente 3.500 mísseis Grad à Ucrânia. O presidente sérvio Aleksandar Vučić também disse que todos os sérvios que se tornaram mercenários no Grupo Wagner serão presos assim que retornarem ao país.

Recentemente, surgiram informações de que a Sérvia vendeu 3.500 mísseis Grad à Ucrânia por meio de um país terceiro, podemos confirmar que os mísseis realmente foram entregues à Ucrânia e já estão sendo usados para aniquilar os ocupantes russos.

Mais interessante, os mísseis são «ER Grad 2000» com um alcance máximo de 40 km em vez dos habituais ~ 20 km.

Especificações do fabricante sérvio

Cauda do míssil de caraterística única do fabricante sérvio

Na sequência dos protestos de extrema-direita sérvia, organizados pelo Damjan Knezevic em apoio ao Grupo Wagner, o presidente Vučić acusou os manifestantes de serem anti-sérvios e pagos por estrangeiros - presumivelmente pela rússia.

“Não preciso do apoio do Wagner. Não preciso que me aplaudam ou me critiquem”, disse Aleksandar Vučić. Os sérvios que foram recrutados para lutar na Ucrânia «serão presos quando voltarem para a Sérvia e [estiverem] ao alcance de nossas instituições. Você não recruta assim em um país amigo», acrescentou ele na entrevista ao Politico.

Os líderes do mundo livre em apoio à Ucrânia

Estónia, Letônia, Lituânia, Bulgária, Polónia são verdadeiros líderes do mundo livre. Os EUA alocam apenas 5,9% do seu orçamento de defesa. Portugal também pode e deve fazer mais e melhor!


domingo, janeiro 22, 2023

As teses que a propaganda russa usa na Europa


As diversas teses que a propaganda russa usa nos países da Europa. Em Portugal são usados um pouco de todas, que aparecem nessa lista. Agora que você sabe quem as criou, a sua resistência às teses do Kremlin será mais forte.  












sexta-feira, outubro 29, 2021

Os bens do consumo no “mercado paralelo” soviético

O mercado soviético sempre foi caraterizado pela falta gritante de bens mais elementares do consumo popular. As piores situações se verificavam no ramo do calçado, roupas, eletrodomésticos e viaturas.  

A tabela demonstra a falta gritante de vários bens do consumo no mercado soviético (comparação feita entre os “mercados paralelos” das cidades de Tartu na Estónia e de Moscovo, em janeiro-fevereiro de 1990): uma viatura custava 2-3 vezes acima do seu preço oficial. A máquina soviética de lavar a roupa “Vyatka" (uma cópia pirata da “Indesit” italiana) oficialmente custava 550 rublos, no mercado paralelo 2-3 vezes mais.

Os preços de eletrodomésticos ocidentais eram absolutamente proibitivos, mesmo assim constituíam o sonho da elite soviética e serviam de uma espécie de status social dos seus detentores.

É de notar que em 1990 o salário mínimo soviético era de 70 rublos. Salário médio (na educação e serviços) era de 150 rublos. Um dólar valia 0,59 copeque no câmbio oficial e 2-3 rublos no câmbio paralelo. Desde 1921 o estado soviético proibiu aos seus cidadãos todas as operações privadas com as divisas, punindo os prevaricadores com as penas entre 3 à 15 anos de cadeia efectiva com ou sem o confisco de bens. Em alguns casos a lei soviética previa a pena da morte pelas operações com as divisas estrangeiras.

Também é de mencionar que na Ucrânia os preços poderiam estar 20-30% abaixo dos praticados em Moscovo. E que os preços altos de Tartu poderiam ser explicados, parcialmente, pelo nível da vida mais alto na Estónia ainda soviética.  

Imagem original da tabela de preços @Janosh Tadeysh

sexta-feira, dezembro 18, 2020

Os genocídios soviéticos contra grupos étnicos e nações inteiras

Em 1937, na União Soviética ocorreu uma série de campanhas repressivas em massa contra os cidadãos soviéticos de etnicidade “estrangeira” (polacos/poloneses, alemães, letões, lituanos, estonianos, finlandeses, gregos, romenos, búlgaros, chineses, iranianos, afegãos e outros). 

No final da década de 1930, e de acordo com o mecanismo de responsabilidade coletiva, todos os cidadãos de etnicidade “estrangeira” (na ótica da URSS), eram vistos como base para atividades de espionagem e sabotagem de serviços de inteligência estrangeiros e como ambiente potencialmente desleal ao regime soviético, caíram sob suspeita. Os oficiais do NKVD começaram uma busca por espiões e sabotadores entre representantes de minorias nacionais muito antes do início do Grande Terror, ainda em 1934. Paralelamente, ocorreram as prisões de clérigos luteranos e católicos. A propaganda introduziu na sociedade soviética a ideia de sabotagem universal, “agentes estrangeiros”, a onipresença dos espiões ocidentais e a presença de uma “quinta coluna” na URSS. 

De agosto de 1937 à novembro de 1938, no âmbito de todas as “operações nacionais”, foram condenadas 335.513 pessoas, das quais 247.157 pessoas foram condenadas à morte, ou seja, 73,66% do total de condenados. No decorrer das “operações nacionais”, foram executados mutos comunistas e os seus simpatizantes que fugiram para a URSS, salvando-se da repressão nos seus países de origem (fonte). 

Cronologia do terror comunista soviético: 

9 de março de 1934 – decreto “Sobre medidas para proteger a URSS da penetração de elementos de espionagem, terrorismo e sabotagem”;

março de 1937 – início da campanha da “saída voluntária” dos estrangeiros da URSS; prisões em massa de pessoas em contato com diplomatas estrangeiros;

25 de julho de 1937 – “Operação alemã”, foram condenadas 55.005 pessoas, das quais 41.898 foram fuziladas;

11 de agosto de 1937 – “Operação polaca/polonesa”, condenadas 139.815 pessoas, das quais 111.071 fuziladas;

17 de agosto de 1937 – “Operação romena”, condenadas 8.292 pessoas, das quais 5.439 foram fuziladas;

20 de setembro de 1937 – “Operação de Harbin”, condenadas mais de 31.000 pessoas, das quais 19 mil fuziladas;

30 de novembro de 1937 – “Operação letã”, condenadas 21.300 pessoas, das quais 16.575 fuziladas;

11 de dezembro de 1937 – “Operação grega”, cerca de 15.000 detidos, cerca de 50% foram fuziladas ou morreram no GULAG;

14 de dezembro de 1937 – a diretiva do NKVD sobre a extensão da repressão no âmbito da “linha letã” contra estónios, lituanos, finlandeses e búlgaros. 9.735 pessoas foram condenadas no âmbito da “linha da Estônia”, incluindo 7.998 pessoas condenadas à morte, 11.066 pessoas foram condenadas no âmbito da “linha da Finlândia”, 9.078  foram condenadas à morte;

29 de janeiro de 1938 – “Operação iraniana”, condenadas 13.297 pessoas, das quais 2.046 à morte. 

Em 31 de janeiro de 1938, a Resolução do Politburo do Comité Central do Partido Comunista de União Soviética foi emitida sobre a extensão das operações nacionais até 15 de abril de 1938

1 de fevereiro de 1938 – “operações nacionais” contra búlgaros e macedônios;

16 de fevereiro de 1938 – “Operação afegã”, 1.557 pessoas foram condenadas, 366 à morte. 

Em 26 de maio de 1938, a Resolução do Politburo do Comité Central do Partido Comunista da URSS foi emitida sobre a extensão das operações nacionais até 1 de agosto de 1938. 

De acordo com essas e outras operações, os seguintes deveriam ser submetidos à repressão: alemães, romenos, búlgaros, polacos/poloneses, finlandeses, noruegueses, estónios, lituanos, letões, pachtuns, macedônios, gregos, persas, mingrelianos, laks, curdos, japoneses, coreanos, chineses, carelianos, etc. 

Com início da II G.M. outros 10 povos foram submetidos à deportação total com base na etnia: coreanos, alemães, finlandeses da Ingermanland, karachais, calmuques, chechenos, inguches, balcares, tártaros da Crimeia e turcos da Mesqueta. Sete deles – alemães, carachais, calmuques, inguches, chechenos, balcares e tártaros da Crimeia – também perderam as suas autonomias nacionais.

Muitas outras categorias étnicas, étnico-confessionais e sociais de cidadãos soviéticos foram submetidas a deportações na URSS: cossacos, kulaks/kurkuls de várias nacionalidades: polacos/poloneses, belarusoss, azeris, curdos, assírios, chineses, russos, iranianos, judeus iranianos, ucranianos, moldavos, lituanos, letões, estónios, gregos, italianos, búlgaros, armênios, hemichis, armênios “dachnacos”, turcos, tajiques, iacutos, abecasos, entre outros.

quarta-feira, dezembro 11, 2019

sábado, outubro 06, 2018

GULAG: o sistema de campos de concentração do regime comunista soviético

O entomologista e melitologista russo Viktor Grebennikov foi um dos prisioneiros dos campos de concentração comunistas, ele publicou as suas memórias e desenhos. O GULAG comunista em nada diferia dos campos nazis — os nazis queimavam as pessoas nos crematórios e os comunistas — atiravam os corpos dentro de minas abandonadas ou os enterravam nas valas comuns anónimas.

Viktor Grebennikov entrou no GULAG soviético aos 20 anos, presenciando todos os horrores dos campos comunistas na sua própria experiência – em 1947, e para não morrer de fome, ele falsificou um talão de racionamento. Foi apanhado, julgado como “inimigo político do Estado” e enviado para GULAG por 20 anos. Inicialmente trabalhou na mina de cobre de Karabash, em poucos meses se transformou num “acabado”, após disso foi admitido na unidade “cultural e educacional” do seu campo, para produzir a propaganda visual – o que salvou a sua vida. Viktor passou seis anos no GULAG e foi libertado, com a remoção completa das acusações, em 1953, após a morte do Estaline.

Em liberdade Victor Grebennikov tornou-se um conhecido entomologista, especialista em reprodução e proteção dos insetos, e durante algum tempo dirigiu a escola de arte para as crianças.

Mas até o fim de seus dias, Victor era atormentado por pesadelos do GULAG, ele sonhava, de forma recorrente – que polícia secreta soviética o prende à noite [como era a prática recorrente do NKVD-MGB], e o leva de volta aos campos de concentração para “servir” os restantes 14 anos da sua pena “estalinista”. No fim da URSS Victor publicou as memórias e desenhos, que mostram o GULAG soviético por dentro, visto pelas suas vítimas, na sua maioria pessoas completamente inocentes.

Auto-retrato e «Minhas Universidades»

Neste auto-retrato Victor Grebennikov tem 22 anos, ele escreveu: 

«Agora tenho 61 anos, mas ainda duas ou três vezes por semana tenho sonhos terríveis com detalhes naturalistas: os tempos mudaram, fui levado à cumprir os meus 14 anos “estalinistas” e estou novamente no GULAG, na etapa ou transferido entre os campos. Tudo isso — vividamente, super-real, com um anseio terrível e desesperado por filhos, netos, coisas inacabadas, livros inacabados, tristeza por todos os infelizes, mais uma vez impelidos por novos déspotas atrás do arame farpado, estes pesadelos me impedem de trabalhar, de concentrar-se e eu vivo por muito tempo nestes dois mundos simultaneamente – atual e GULAGianao”.

O mapa dos campos do GULAG que Victor chamou com a triste ironia de “Minhas Universidades” [em alusão ao livro homónimo do Maksim Gorki].
1. Miass, 1947. Tenho 20 anos. A prisão. “Celas da Detenção Preliminar” (KPZ), os primeiros horrores prisionais.
2. Zlatoust, 1947-1948. Uma das maiores e piores prisões da URSS. A investigação. A sessão externa do tribunal regional: 20 anos de campos de concentração. Etapa para a cidade de Chelyabinsk.
3. Chelyabinsk. 1948. Transferência entre os campos. Eu já sou um “acabado”, quase morto, espiritualmente quebrado.
4. Karabash, 1948–1950. Campo: o comandante é major Durakov (literalmente tolo, estúpido), um monstro sádico. Os criminosos comuns e os prisioneiros do artigo 58º (políticos), 1000-1200 pessoas. Minas de cobre, mineração de turfa, carreira de cal, carpintaria. Depois de um curto período de tempo parei no “campo zero” – praticamente a morte certa (as zonas fechadas em Karabash permaneceram ativas até o fim da URSS, não se sabe como estão agora).
5. Kyshtym, 1950–1951. Campo: cerca de 800 «inimigos do povo» e criminosos comuns. Transbordo do minério e do cobre da bitola estreita para a larga. Trabalho como pintor na unidade “cultural e educacional”.
6. Uvildy. 1951–1953. Campo: cerca de 1000 prisioneiros, políticos e criminosos comuns. Comandante – major Lavrov (um pessoa nada má – um caso raro). Trabalhos de construção civil, na fábrica de grafite, outras unidades, no abate de madeira. Sou um pintor, um topógrafo. Morreu Estaline, e no verão mais feliz de 1953, estou livre.
7. Odlyan – campo para jovens. De lá, até os campos de adultos regularmente eram enviadas as gerações crescidas com uma boa “experiência”. Odlyan até hoje continua o seu terrível “trabalho” mesmo agora (referindo-se aos últimos anos da URSS).
8. Linhas de alta tensão Taiginka — Uvildy. Não suspeitava que em 1952-1953 eu erguesse com as minhas próprias mãos um monumento aos aqui detidos – a linha de alta tensão. Que este meu memorial de muitos quilómetros (em vez de cruzes – torres) fica aqui para sempre.
9. «Chelyabinsk-40» (desde 1994 a cidade se chama de Ozyorsk). Primeira na URSS fábrica da morte atómica. Diversos campos de concentração. Aqui trabalhavam os [de facto] condenados à morte.

Como realmente vivia o GULAG soviético?

«Em cada dos muitos campos do sul dos Urais, havia cerca de mil pessoas – exceto nos campos maiores. Aquele em que entrei, com o nome de gozação “1º de maio”, foi misturado: os criminosos comuns foram mantidos juntos com os prisioneiros do artigo 58º “inimigos do povo”. Poucos sobreviveram aqui. Após o primeiro, segundo mês – o campo ficava visivelmente com poucas pessoas. Os meus beliches ficavam na tal posição que, pelo canto da janela, podia-se ver como, à noite, os cadáveres eram retirados da zona em trenós, puxados por um touro negro com apenas um chifre.

O guarda que entrega os cadáveres – um punhado de quase esqueletos congelados vindos do necrotério – afasta a lona, ​​e o receptor os conta, partindo os crânios com um martelo ferroviário de cabo longo: por assegurar que ninguém saia vivo e para a facilidade de contagem. Verificando os números num pedaço de papel, saem do portão».
Nossos cadáveres são retirados do campo, perfurando as cabeças com um martelo. Karabash, 1948
«Transportavam, dessa forma não para muito longe, até o depósito velho de minério de uma mina de cobre abandonada. Assim até a próxima etapa, quando os vagões de carga, cheios de pessoas, chegavam através da bitola estreita e a zona mais uma vez ficava lotada.

Uma vez um guarda bêbado me confidenciou: receberam 14 cadáveres, mas transportaram até o destino... 13! Afinal de contas, perfuraram as cabeças de todos – onde é que os maldito zek (prisioneiro) se meteu? Acompanhantes são dois, um não confia no outro, voltaram. Fizeram metade do caminho: “aqui está ele, mardito, nu, numa vala à beira da estrada – escorregou, como um pedaço de gelo, enquanto trenó estava saltando no caminho. Ficamos encantados: partimos lhe a cabeça com força com um ferro, chegamos ao local, empurramos todos os 14 mina abaixo. Inicialmente ficamos com bastante medo, depois disso estávamos muito bem e calmos».
O “acabado” da categoria “nula”. Muitos deles ferviam o pão desfeito da sua dose diária em água salgada.
O resultado – inchaço, necrotério, o poço da mina abandonada. Karabash, 1948
«Eu sobrevivi por um milagre. Sobreviver um ano na categoria “nula” (a categoria de prisioneiros incapazes de trabalhar devido a fome e sofrimento) e não ficar no fundo da velha mina com a cabeça quebrada me ajudaram os estónios. Uma barraca estava totalmente ocupado por eles; todos eram condenados ao abrigo do artigo 58º, se mantinham juntos, unidos, e dos caçadores das encomendas de casa – “urki”, “semicoloridos”, “chacais” – se defendiam de uma maneira organizada, usando os bastões.

Eu lhes pintava os pequenos retratos a lápis, que eles conseguiam, de alguma forma, enviar para a liberdade, contornando a censura, para a sua distante Estónia. Talvez, os filhos ou netos desses maravilhosos modelos ainda mantenham os meus desenhos de GULAG. Ganhando, assim, o meu próprio pedaço de pão, eu tinha certeza de que os criminosos comuns não o tirariam: eu praticamente não saía da barraca dos estónios durante alguns meses. A distrofia “nula”, escorbuto, pelagra começaram a diminuir, a tuberculose desapareceu...»
Categoria “nula” no banho. Nós tínhamos a caudas reais – sobressaia o cóccix.
Eu conseguia fechar com as palmas das mãos a minha cintura – os dedos se tocavam. Karabash, 1948
«Outro quadro. Alinhamento, isto é, a saída até a zona para trabalhar. Os portões do campo estão abertos, atrás deles estão os guardas armados, gritos ásperos dos guardas e latidos caninos de cortar o coração. O sol baixo matinal vai dourando, de forma indiferente as montanhas, as torres e o vapor da boca das brigadas em construção. À esquerda – a nossa orquestra: trompete, trombone, acordeão, tambor, violino, o maestro-violinista era um prisioneiro idoso, o estónio Rimus, que usava pince-nez/pincenê.

De pé! Em sentido! Dar as mãos! Música! Os cinco primeiros – para frente! Woof, woof! Os cinco à seguir: Woof! uau! uau! Terceiros!... Toca a marcha, os pastores alemães latem roucamente, cinco, cinco, rapidamente, quase correndo... À direita do portão, para que todos possam ver, estão dois novos cadáveres, com grossas pontas de perfurações de AK – à queima-roupa – buracos no peito, no estômago, no rosto; acima está uma placa de contraplacado, na qual eu (já era pintor na unidade “cultural e educacional”) escrevi: “Assim será com todos que tentarem fugir”. Do lado de fora do portão, os guardas gritam ao alto a fórmula que recordo para sempre:
Ida das equipas/es aos locais de trabalho. Karabash, Chelyabinsk, 1950. Vou caminhando, como geodesista, instalar uma linha de alta tensão, entre a fábrica de grafite até o campo, escoltado, na qualidade do prisioneiro condenado à uma longa pena de prisão. Aos moços à direita, isso já não se aplica, eles são semi-libertos, Taiginka-Uvildy, 1952
— Brigada, aviso! A tentativa de fuga, o não cumprimento das exigências dos guardas no caminho e no local do trabalho, os guardas usarão armas! Passo à esquerda, passo à direita são considerados uma fuga! Sigam em frente!

— Tu, corre lá para buscar a tábua!
— Chefe, mas vais me matar...
— O que, queres eu te repetir? – e o pobre coitado, provavelmente sentindo que isso é a morte, ia até lá quase com alegria. De repente, os guardas ordenam: — Brigada, deite-se! – e uma longa rajada acima de suas cabeças com um cheiro forte de pólvora, e aquele que foi buscar a tábua – levou nas costas, na cabeça, no peito, e depois com as botas, com a coronha, com os cães... Não acho que apenas o sadismo fosse um incentivo para as execuções dos “fugitivos”, diziam que para abatido os guardas recebiam o dinheiro do Estado soviético. Seria muito necessário estabelecer agora quais dos incentivos realmente funcionavam».
Os “inimigos do povo” – os habitantes da barraca estónia. À esquerda – o violinista chamado Rimus. Karabash, 1949. Propaganda visual nos portões do campo (a placa de identificação da minha autoria). Karabash, 1949
«Desde 1948, já não fomos mais atirados/jogados em minas, mas enterrados na terra. Há minhas contribuições modestas para este procedimento triste. Produzia duas etiquetas de contraplacado para os mortos: uma letra e um número de dois ou três dígitos, uma etiqueta maior – para cavilha no cemitério, a outra com um buraco, pequeno – era amarrado, com a corda de juta, à perna do cadáver.

Em cada seção das barracas eram pendurados os “Deveres e direitos dos presos” – um terrível documento assinado pelo Ministro do Interior da URSS, Lavreniy Beria. Alguém guardou uma cópia daquele documento sinistro? Eu, recebia regularmente, do chefe da unidade “cultural e educacional” um novo conjunto de advertências, avisos e apelos do GULAG, que escrevia com a guache em letras grossas nas quatro paredes acima dos beliches superiores de cada seção. “Só pelo trabalho honesto você ganhará o direito à liberdade condicional” – isso era um escárnio, dado que as compensações (por exemplo, por cada ano e meio de GULAG, ao prisioneiro eram contabilizados dois anos, o que, por exemplo, era praticado no Kolyma para os criminosos comuns, de condenações relativamente curtas), simplesmente não eram praticadas nos Urais.
Desenho slogans na seção (quarto) de uma barraca residencial. Nossos beliches de quatro níveis; As roupas já várias vezes remendadas. Karabash, 1950. Comandante do campo major A. Durakov. Mutas vezes bêbado, e todo o caminho da latrina até a administração prisional, abotoando as calças, não conseguia as fechar. Karabash, 1949
Naturalmente não conheço nenhum único nome dos guardas sádicos. Esqueci os seus patentes, nomes dos comandantes de supervisão, do comando, dos agentes. E mesmo assim, lembro me de um deles. Este é o comandante do campo, major Durakov (literalmente tolo, bobo, estúpido; sem brincadeira, o sobrenome real), cujo hobbie era “inspecionar” os corpos dos prisioneiros abatidos em “fuga”; o meu supervisor imediato da unidade “cultural e educacional”, o 1º tenente Ryazantsev — intelectualmente limitado e mal-intencionado oficial dos quadros de Beria; dos guardas internos, os sargentos com os nomes de Stolbinsky e Haylo distinguiam-se pela crueldade e ódio aos prisioneiros».

Victor Grebennikov termina o livro de suas memórias assim

«Por que os criminosos de guerra nazis(tas) que exterminaram os soviéticos foram condenados, os ainda escondidos – são procurados, mas o comando do GULAG de Beria, dos campos, das prisões, os guardas, as escoltas, que fizeram virtualmente o mesmo em relação aos seus sofridos soviéticos, estão vivos e bem com medalhas, boas reformas? Afinal de contas, esses sátrapas estalinistas, semianalfabetos no seu passado, se escondendo por trás de jovens apoiantes e adoradores, podem se unir e causar os danos irreparáveis. Ah, como eu hoje reconheço a voz deles nas publicações de alguns jornais e revistas!

...Saindo do GULAG em 1953, eu me comprometi, por escrito, perante o estado soviético de que não revelarei tudo que passei. Fiquei em silêncio, especialmente na era Brejnev, quando o nome de Estaline novamente provocava ovações e aplausos no Palácio dos Congressos [em Moscovo], quando novamente, apareceu o legado monstruoso de Trofim Lysenko, e o povo novamente começou olhar para trás das costas e falar sussurrando. E agora, na época de Glasnost e já velho, eu me considero livre em esquecer aquela assinatura e contar tudo o que vi e presenciei, através dos meus próprios desenhos documentais».
Victor Grebennikov (1927 — 2001) | Wikipédia
Os desenhos e textos-memórias de Victor Grebennikov foram publicados, pela primeira vez, na revista soviética “Nauka e Zhizn” (Ciência e Vida) em 1990. Na Wikipédia, no artigo sobre Viktor Grebennikov, não se mencionam, nem a sua passagem pelo GULAG, nem os desenhos do GULAG por ele produzidos...

Imagens: Victor Grebennikov | Texto: Maxim Mirovich | Tradução: Ucrânia em África

Blogueiro: podemos imaginar que os apoiantes do comunismo irão dizer: “Victor Grebennikov cometeu um crime e pagou pelo mesmo”. Tal, como NKVD soviético, os comunistas atuais dividem as pessoas (os prisioneiros do GULAG) em duas categorias: “inimigos do povo” e “cidadãos socialmente próximos”. Quando um criminoso socialmente próximo rouba, mata ou estupra, os comunistas dizem que “entendem a lógico do roubo”, já sobre as vítimas do comunismo afirmam “que Estaline fuzilou é pouco”. Como sempre, os comunistas não pensam que um dia poderá chegar a sua vez...

domingo, agosto 26, 2018

Memorial das vítimas do comunismo foi inaugurado em Tallinn na Estónia

Em 23 de agosto, em Tallinn, na colina de Maarjamäe, foi oficialmente inaugurado o memorial das Vítimas do Comunismo na Estónia de 1940-1991. No local são gravados os nomes dos 22.000 estónios, vítimas da primeira onda da ocupação e das repressões do regime soviético.
O regime do terror comunista foi estabelecido no país com a ocupação da Estónia pelas tropas soviéticas em 17 de junho de 1940 e terminou com a restauração da independência do país em 20 de agosto de 1991. Como consequência da política soviética de ocupação, Estónia perdeu um em cada cinco cidadãos, que viviam no país até 1940, no total mais de um milhão de pessoas, dos quais mais de 75.000 foram assassinadas, presas ou deportadas. A grande maioria deles descansa em sepulturas anónimas. Em memória de todas as vítimas do comunismo na Estónia, o povo e o Estado estónios criaram este memorial, inaugurado em agosto de 2018.
A presidente da Estónia Kersti Kaljulaid
Toda a ideologia totalitária é a inimiga de liberdade já pela sua própria natureza, e nós sabemos o seu alto preço pela nossa própria experiência histórica”, disse a presidente da Estónia Kersti Kaljulaid no discurso de abertura do memorial.
O Memorial, chamado Eesti kommunismiohvrid (https://www.memoriaal.ee/en) têm duas partes – a “Viagem”, um corredor, formado por duas altas paredes, com as placas que indicam os nomes das vítimas, que na sua maioria morreram longe da Estónia, e cujo local de enterro é praticamente desconhecido. O corredor simboliza o carinho humano e a hostilidade do regime totalitário. O “Jardim da Casa” simbólico possui vários textos informativos e pedras de localização, marcando os locais do terror. A paz e segurança simbolizam as macieiras no Parque Memorial e as abelhas na parede lateral do memorial. Um monumento aos oficiais militares estónios que foram vítimas do terror comunista também faz parte do Memorial.
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Os cidadãos da Estónia encaram os dois regimes de ocupação, soviética e nazi, de mesma forma. Embora, naturalmente existem diferenças temporais, devidas, sobretudo, à duração da ocupação da Estónia por estes dois regimes. A ocupação soviética durou 51 anos (1940-1991) e a ocupação nazi apenas 3 (1941-1944).  
Como tal, na Estónia também existem os monumentos em memória das vítimas do nazismo, como os memoriais de vítimas do Holocausto, também foram preservados os monumentos aos militares soviéticos que morreram durante a re-ocupação da Estónia em 1944.
A primeira pedra do memorial em Maarjamäe foi lançada em 4 de maio de 2018 e a data de inauguração no dia 23 de agosto simboliza a memória do tristemente conhecido pacto Molotov-Ribbentrop, assinado pela Alemanha nazi e URSS comunista em 1939, que dividiu a Europa entre as zonas de influência nazi e soviética, traçando, e marcando para sempre, o destino de milhões de pessoas na Polónia, Ucrânia, Belarus, Moldova e Países Bálticos.
Konstantin Päts (1874-1956), Presidente da Estónia (24/04/1938 — 21/06/1940);
morreu no hospital psiquiátrico russo, acusado de (entre outras coisas):
“Reivindicação persistente de ser o presidente da Estónia”...
Konstantin Päts (1874-1956), foto tirada na cadeia de NKVD em 1941.
Todas as fotos do memorial @AronUrb