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domingo, setembro 30, 2018

Os segredos da mão azul no centro de Kyiv

No centro de Kyiv, na avenida Khreschatyk, em frente do mercado municipal Bessarabsky, recentemente foi instalada uma mão azul, que imediatamente suscitou nos ucranianos as reações bastante antagónicas de amor & ódio.   
fotos @Kievtypical
A mão que perturbou a paz mental dos puristas do realismo socialista é uma obra de arte contemporânea que se chama “Middle way” (2014) da autoria do jovem escultor romeno Bogdan Raţă (34). A escultura foi instalada em Kyiv no âmbito do projeto “Moving monuments” (Monumentos em movimento) pela iniciativa da embaixada da Roménia na Ucrânia.
Informação sobre a instalação em inglês e ucraniano
Bogdan Raţă em Cascais (Portugal)
A instalação “Middle way” é temporal, por isso todos os haters podem ficar mais tranquilos, colocando um creminho fresquinho nos seus orifícios anuais.
Baia Mare, Roménia
Cascais, Portugal
Liverpool, GB
Porto, Portugal
“Middle way” simboliza a paz e a comunicação. Aparentemente, por isso, se decidiu abandonar a cor vermelha, optando pela cor azul. O vermelho não é nada pacífico, escreve o blogueiro ucraniano Emil Salmanov.

As fotos de “Middle way” em Kyiv @Kievtypical

Bónus

A instalação deu a origem ao aparecimento dos vários memes, um dos mais engraçados e intelectuais é sem dúvida este: 

sábado, agosto 25, 2018

Dia em que Ucrânia se tornou realmente independente (14 fotos)

No dia 24 de agosto Ucrânia celebra o seu Dia da Independência – neste dia, há 27 anos, em 24 de agosto de 1991, Ucrânia se tornou um país independente e URSS deixou de existir de facto. Como frisou o Presidente da Ucrânia Petró Poroshenko – a sua independência real Ucrânia alcançou apenas em fevereiro de 2014 – quando ganhou Maydan e país começou se mover na direção à União Europeia.

Para comemorar o Dia da Independência, em Kyiv foi realizada a parada militar especial e diferente de anos anteriores – este ano Ucrânia celebra não apenas o 27º aniversário da sua Independência, mas também o centenário da proclamação da 1ª República, que ocorreu em 1918. A parada foi oficialmente chamada de “Marcha do Novo Exército” – ao público foram mostrados muitos equipamentos militares novos; marcharam cerca de 4,5 mil militares; e também, pela primeira vez em 8 anos, na parada participaram diversas unidades da aviação militar ucraniana.
Na parada também foi apresentado o novo fardamento: este ano as Forças Aerotransportadas de Assalto abandonaram boinas azuis e mudaram para boinas do padrão europeu (cor de areia). As boinas azuis, pela primeira vez foram usadas pelo exército soviético na ocupação da Checoslováquia para fazer parecer os ocupantes soviéticos com as tropas da ONU, desorientando os checos e eslovacos, e hoje os ucranianos decidiram abandonar este velho padrão completamente.

O que disse Petró Poroshenko
O presidente ucraniano disse que desde 2014 Ucrânia recuperou o seu exército e garantiu o apoio de aliados ocidentais. Presidente recordou que a luta de libertação nacional no início do século XX durou quatro anos (1917-1921), mas, os ucranianos não conseguiram defender a sua Independência – e então começou a época da repressão, fomes e tentativas de assimilar a nação ucraniana nas imensidades da Eurásia (alusão ao processo de deskulakização/deskurkulização e deportação dos ucranianos para além dos Montes Urais).

Como notou o Presidente – hoje as novas gerações de ucranianos têm a tarefa de quebrar este círculo histórico vicioso, para que a independência da Ucrânia não seja medida em meses, lamentando depois a sua perda, mas se orgulhando pelas vitórias e sucessos da Ucrânia independente.
Presidente recordou que durante os quatro últimos anos de guerra, os ucranianos preservaram e consolidaram o seu Estado, consolidaram a Nação, criaram um exército forte e escolheram o caminho do desenvolvimento, e já não podem se desviar deste, por causa de inimigos externos e seus agentes no interior do país, devendo tornar Ucrânia grande e forte, sem a chance de retornar à zona de influência russa.

Presidente também observou que Ucrânia está se tornando a parte do espaço europeu – por mais de um ano funciona o sistema de abolição de vistos com a União Europeia; foi assinado o acordo de associação com a UE e foi feita a escolha estratégica para se tornar a parte da União Europeia; por mais de 1.000 dias Ucrânia deixou de comprar o gás russo, ganhou o caso na arbitragem de Estocolmo contra Gazprom, o obrigando à pagar 4,5 bilhões de dólares, está se preparando para criação de uma igreja ortodoxa local, separada de Moscovo (obtendo o tomos, a independência religiosa).

No fim, presidente Petró Poroshenko acrescentou que sem Ucrânia, a UE seria um projeto inacabado – a fronteira da Europa agora passa pela fronteira leste da Ucrânia – e a entrada da Ucrânia na UE e na NATO/OTAN deve ser consolidada de forma constitucional.

Em memória dos Heróis

No fim do discurso de Petró Poroshenko, houve um minuto de silêncio em memória de todos que deram suas vidas pela independência da Ucrânia, bem como em memória de civis e militares mortos [na atual guerra russo-ucraniana]. Neste momento, no leste da Ucrânia, continua um conflito militar – no dia 23 de agosto morreram em combates cinco militares do exército ucraniano (FAU). Presidente Poroshenko enfatizou que Ucrânia nunca esquecerá e não perdoará aos agressores as suas vítimas.
Presidente ainda disse que submeteu ao Parlamento ucraniano o projeto-lei para que a saudação “Glória à Ucrânia – Glória aos Heróis” de agora em diante seja a saudação oficial do exército ucraniano [assim como o hino da OUN, que se tornou, em forma estilizada, o novo hino oficial das FAU]:

Marcha do novo exército da Ucrânia

01. Após o discurso do Presidente, pela avenida Khreshchatyk desfilaram as colunas do exército ucraniano. A unidade mista das Forças Terrestres da Ucrânia em um novo fardamento de campo. Os militares calçam novas botas táticas, vestem um uniforme novo com coletes de descarga, as suas armas e equipamentos seguem os padrões da NATO/OTAN. Os 16 militares das forças terrestres foram condecorados com o título de Herói da Ucrânia, e mais de cinco mil receberam diversas outras condecorações oficiais.

02. Os militares da 36ª Brigada dos fuzileiros navais, também em nova uniforme de campo, em vez das boinas negras soviéticas – a nova boina turquesa, tudo o resto também à um bom nível. Desde 2018 o Corpo de Fuzileiros Navais da Ucrânia irá comemorar o seu dia em 23 de maio. Depois dos fuzileiros, marcham as Forças Aerotransportadas de Assalto, ostentando as suas boinas novas, de parada, cor-de-carmesim.

03. A unidade feminina mista do Instituto Militar “Taras Shevchenko”. Hoje, no exército da Ucrânia servem cerca de 55 mil mulheres, desempenhando várias tarefas e ocupando diversos postos do comando [nas três primeiras fotos, os militares desfilam com a pistolas automáticas “Fort”, fabricadas na Ucrânia – a cópia licenciada do “Tavor” israelita/israelense].
Foto da UNIAN tirada no ensaio geral nas vésperas da parada
04. Os militares dos EUA na parada – este país oferece à Ucrânia um apoio militar muito importante. Na parada de Kyiv também participaram militares de muitos países da UE, que fornecem todo o apoio possível à Ucrânia – Lituânia, Letónia, Estónia, Finlândia, Suécia, Polónia, Roménia, Moldova e muitos outros.

05. Passagem da coluna mecanizada. Os tanques principais de batalha (MBT) da série T-64 modernizada, da produção ucraniana.

06. As unidades antitanque – blindados ligeiros Varta, armados com mísseis americanos Javelin:

07. Sistemas de fogo simultâneo Grad-24 modificados, da produção ucraniana:

08. Novos sistemas de mísseis de artilharia “Vilkha”.
Foto tirada no ensaio geral nas vésperas da parada
09. Aviação (apenas uma pequena fracção dos equipamentos mostrados na parada):

Futuro da Ucrânia

Apesar de tudo, e desde 2014, Ucrânia realmente conseguiu criar um exército moderno, e este Dia da Independência é apenas uma confirmação – apesar de todas as circunstâncias adversas, a Ucrânia é, e continua a ser um país independente, e que assim seja para sempre.

Fotos: GettyImages | Genya Savilov | NurPhoto | Texto: Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]

domingo, agosto 12, 2018

Começou o Maydan da Roménia (12 fotos)

Mais de 100.000 romenos participaram na manif anti-governamental em Bucareste. Os manifestantes exigem a demissão do governo e do parlamento e convocação das eleições antecipadas, considerando que os seus poderes legislativo e executivo são absolutamente corruptos.
Os romenos também exigem o novo governo tecnocrata e legislativas antecipadas. O governo respondeu coma gás pimenta e canhões de água, foram feridas cerca de 440 pessoas, entre eles mais de 20 polícias.

02. O centro de Bucareste preenchido pelos manifestantes:

03. As manif diurnas, há muita gente à protestar.

04. O governo lançou contra os manifestantes a polícia de choque:

05. Os bairros próximos do boulevard Bulevardul Unirii, nas imediações o palácio do ex-ditador comunista Nicolae Ceauşescu (que os seus bajuladores apelidavam, entre outras coisas, de “Génio dos Cárpatos”).

06. Uso de gás pimenta pela polícia:

07. Uso de canhões de água:

08. Uma moça cadeirante entre os manifestantes:

09. Detenção dos manifestantes:

10. mais detenções:

11. Os resultados da carga policial:

12. Uma mulher ferida é levada pelos paramédicos:

Os romenos à comentarem a ação do seu governo (ver mais tweets):



[Não é nada fácil vencer o governo corrupto através das ações estritamente legalistas e absolutamente não violentas...] O que acham os nossos leitores?

Foto: apostrophe.ua; AP/Vadim Ghirda; Reuters/Octav Ganea | 
TextoMaxim Mirovich e [Ucrânia em África]

terça-feira, junho 12, 2018

O mistério dos estrangeiros raptados pela Coreia do Norte

Regime comunista de Coreia do Norte terá raptado mais de 80 mil sul-coreanos durante a Guerra da Coreia, quase quatro mil sul-coreanos nos anos seguintes, cerca de 100 japoneses, 200 cidadãos chineses (a maioria de origem coreana) e pelo menos 25 pessoas de outras nacionalidades.

por: Cátia Bruno, Observador.pt (a versão curta)

A Comissão de Inquérito aos Direitos Humanos na Coreia do Norte, da ONU, estima que cerca de 200 mil pessoas terem sido raptadas pelo regime de Pyongyang desde o início da Guerra da Coreia até aos dias de hoje. As Nações Unidas concluíram, sem margem para dúvidas, que “a República Popular da Coreia do Norte, desde os anos 50 até ao presente, levou a cabo uma política sistemática de raptos, recusas de repatriamento e subsequentes desaparecimentos forçados de pessoas de outros países, a larga escala e como política oficial do Estado”. Os familiares dos desaparecidos continuam sem saber pormenores do que aconteceu aos seus pais, filhos, irmãos — e olham com esperança para a cimeira do dia 12, que pode ser uma oportunidade para obter mais respostas.

É uma página negra na longa história de violações de direitos humanos norte-coreana, mas é quase desconhecida no mundo ocidental, ao contrário do que acontece em países como o Japão. O alcance desta política de raptos, contudo, vai mais longe do que a Ásia: há provas de que terão sido levados cidadãos de países como o Líbano, a Roménia ou a França, e são vários os casos de coreanos e japoneses aliciados em países ocidentais como a Alemanha, a Noruega ou até Espanha. No relatório Taken! de 2011, feito a pedido da ONG Comité pelos Direitos Humanos na Coreia do Norte, o investigador Yoshi Yamamoto calcula que Pyongyang terá raptado mais de 80 mil sul-coreanos durante a Guerra, quase quatro mil sul-coreanos nos anos seguintes, cerca de 100 japoneses, 200 cidadãos chineses (a maioria de origem coreana) e pelo menos 25 pessoas de outras nacionalidades.
Junichiro Koizumi, antigo primeiro-ministro japonês, no encontro de 2002 com Kim Jong-il (AFP/GettyImages)
Em 2002, o antigo líder Kim Jong-il reconheceu esta prática num encontro com o homólogo japonês, Junichiro Koizumi. “As forças especiais deixaram-se levar numa busca imprudente pela glória. É lamentável e quero pedir as mais sinceras desculpas. Já tomei passos para garantir que isto não volta a acontecer”, declarou à altura Kim, decretando depois o regresso de oito dos japoneses raptados, argumentando que os restantes já teriam morrido. A realidade, no entanto, não parece ser assim tão simples. Milhares de pessoas como Hwang Won desapareceram sem deixar rasto e as suas famílias continuam sem saber do seu paradeiro — e do seu destino.

Da estratégia de guerra ao rapto de pescadores

Tudo começou durante a Guerra entre as duas Coreias, nos anos 1950. A comissão de inquérito das Nações Unidas concluiu que, entre 1950 e 1953, milhares de civis sul-coreanos foram raptados para ajudar no esforço de reconstrução do Estado norte-coreano. “Pensa-se que os objetivos destes raptos em tempo de guerra seriam o recrutamento de força de trabalho e de conhecimento, ao mesmo tempo que se esvaziavam as capacidades do Sul”, pode ler-se no relatório, que dá como exemplo o caso de Park Myung-ja, que regressou à Coreia do Sul e contou a sua experiência.
Ler o relatório em inglês
Park foi levada do Hospital da Universidade de Seul, onde estava a trabalhar durante a guerra, juntamente com os colegas: “Estávamos exaustos — médicos, enfermeiras e pessoal administrativo. As nossas pernas estavam cansadas e eles disseram que os que estavam exaustos deviam sair. Os que levantaram os braços e saíram primeiro foram mortos. Nós estávamos tão assustados que não tivemos escolha, saímos também.” Os sobreviventes acabariam por ser levados para montar um hospital em Hamhung — a mesma cidade para onde o voo da Korean Airlines onde Hwang Won seguia seria desviado, anos depois, em 1969.

A política de raptos poderia ter sido enterrada com a assinatura do armistício entre as duas Coreias, mas não foi o caso. “Logo a seguir à Guerra da Coreia, a Guerra Fria estava em pleno andamento. A Coreia do Norte decidiu então usar os raptos como um instrumento para deixar a Coreia do Sul à defesa.” A explicação é avançada ao Observador por Go Myong-hyun, especialista do Instituto Asan de Estudos Políticos e autor do estudo “O Rapto como forma de Política Externa: a História norte-coreana dos Raptos patrocinados pelo Estado”.

“Começaram então a raptar pescadores sul-coreanos no Mar Amarelo [que banha as duas Coreias e a China]. A marinha sul-coreana não tinha à altura equipamento suficiente para conseguir impedir isto. Mas muitos deles acabavam por ser devolvidos, porque o principal objetivo era colocar a marinha sul-coreana à defesa.”

Um desses pescadores foi Lee Jae-gun, cujo barco onde seguia com 27 colegas, o Bongsan, foi raptado em 1970. Os pescadores sul-coreanos estavam a lançar as redes, à noite, quando um barco colidiu com o seu. “Querem morrer? Saiam!”, gritaram-lhes homens armados, que saltaram entretanto para o convés. O Bongsan foi depois rebocado para águas do Norte. Lee contaria mais tarde ao jornalista norte-americano Robert Boynton, autor do livro “The Invitation-Only Zone” (sem edição em português), que foi recebido como um herói. “Ao desembarcar do navio, foi cumprimentado por seis mulheres que o encheram de flores. ‘Não regresses para o Sul! Fica a viver connosco no paraíso na terra que é o Norte’, imploraram-lhe. Muitos dos pescadores raptados eram devolvidos algumas semanas ou meses depois, na esperança de que contassem como tinham sido bem tratados”, pode ler-se no livro.

Outros, como Lee, eram escolhidos pelas suas capacidades e enviados para uma escola, a fim de serem treinados como espiões. Este pescador, contudo, sempre sentiu que não era tratado da mesma forma que os norte-coreanos — dando como exemplo o facto de o seu filho, nascido já no país, ser impedido de entrar no ensino superior. Depois de várias tentativas de fuga, Lee acabaria por regressar ao seu país 30 anos depois, graças aos esforços da Associação de Familiares de Raptados da Coreia do Sul. Mas muitos dos milhares de pescadores sul-coreanos raptados acabariam por passar o resto da sua vida na Coreia do Norte.

Os pescadores não foram, no entanto, os únicos sul-coreanos raptados por Pyongyang. A ONU estabeleceu que pelo menos outros 70 sul-coreanos foram raptados por agentes do Norte. Cinquenta deles, como Hwang Won, estavam no fatídico voo da Korean Airlines. Outros, como cinco adolescentes, foram raptados em praias. Foi o caso de Kim Young-nam, um jovem de 16 anos que, chateado com os amigos, se isolou na praia de Seonyu e acordou num barco em alto-mar, a caminho do porto de Nampo, na Coreia do Norte.
Kim Young-nam levanta o filho para este se despedir da avó, que acabou de conhecer. Kim e a mãe reuniram-se graças ao programa de reunificação familiar, em 2006 (Lee Hun-Koo/GettyImages)
À altura, as autoridades sul-coreanas concluíram que o jovem se teria afogado. A família de Young-nam só soube a verdade anos depois, contactada pelos serviços secretos sul-coreanos. “Estávamos assustados, não tínhamos pensado nem por um minuto na possibilidade de ele estar vivo na Coreia do Norte”, revelou a irmã. Em 2006, a mãe e a irmã tiveram possibilidade de se encontrar com ele do lado Norte da fronteira, através do programa de reunificação familiar das duas Coreias. Contudo, Kim Young-nam continua a viver na Coreia do Norte ainda hoje. Diz não ter sido raptado, mas sim salvo de afogamento.

Os casos emblemáticos: o casal de cineastas e a adolescente japonesa

“É preciso entender que a Coreia do Norte nunca foi uma nação rica, não apenas em recursos naturais mas também em recursos humanos. É por isso que os sul-coreanos começaram a ser raptados pelo Norte, para contribuírem para o avanço do conhecimento e da cultura.” Yoshi Yamamoto, autor do relatório “Taken!” começa por explicar assim ao Observador a razão pela qual Pyongyang decidiu enveredar por esta estratégia de raptar sul-coreanos. “Dito isto, a Coreia do Norte nunca conseguirá ter talento suficiente, já que determina que ninguém pode ser mais sábio do que a família Kim. Não há um sistema de educação montado nem a intenção de desenvolver o talento das pessoas.”

O rapto de sul-coreanos cumpria assim uma dupla função: se inicialmente servia para trazer os conhecimentos que faltavam aos locais, os raptados acabavam por ser mantidos no país para efeitos de propaganda. O caso mais óbvio de todos é o de Choi Eun-hee e Shin Sang-ok. A atriz, apelidada de Elizabeth Taylor da Coreia do Sul, foi a primeira a ser raptada em Hong Kong, em 1978. O marido e realizador foi à sua procura e acabou por encontrar o mesmo fim.

O casal foi depois utilizado para realizar e protagonizar vários filmes. À Coreia do Sul, a mensagem que chegava era a de que Shin e Choi tinham desertado voluntariamente para o Norte, levando o seu talento e arte para Pyongyang. A verdade só seria conhecida oito anos depois, quando a atriz e o realizador aproveitaram a ida a um festival de cinema em Viena para fugir. Consigo traziam uma cassete de um encontro com o próprio Kim Jong-il, que gravaram às escondidas, onde o levaram a admitir que tinham sido raptados.

“Eu disse às pessoas: o Shin e a Choi vieram para cá porque nós temos um sistema superior. Vocês vieram para cá voluntariamente. Não revelei as minhas verdadeiras intenções”, pode ouvir-se o líder dizer na gravação. “A realidade é que eu sou um político, com desejos e caprichos. Vocês foram exigidos por esses desejos e caprichos. Por isso, cá estão.” A história de Shin e Choi acabaria por ser contada num documentário de 2016, intitulado “The Lovers and the Despot” (Os Amantes e o Déspota).

Go Myong-hyun não tem dúvidas em afirmar que o próprio Kim Jong-il criou uma estratégia sua relacionada com os raptos: “Em meados dos anos 1970, a situação interna da Coreia do Norte começa a mudar. Kim Jong-il desenvolve a ideia de raptar sul-coreanos, mas sobretudo japoneses, para torná-los espiões e é aí que se entra nesta operação surreal de raptar japoneses”. Contudo, seria fácil atrair coreanos que viviam no Japão para os treinar como espiões. Por que razão arriscaram tanto os norte-coreanos ao raptar cidadãos japoneses? “Penso que Kim Jong-il estava muito interessado em conseguir uma revolução global, também”, explica o académico.

O Gabinete 35 do Partido dos Trabalhadores da Coreia, encarregado de levar a cabo os raptos, passou então a focar atenções no Japão. A estratégia passava por raptar pessoas em zonas costeiras, muitas vezes casais. Atualmente, Pyongyang admite o rapto de 13 japoneses — o Governo japonês coloca o número em 17. As associações de familiares falam em centenas de casos.
Fotografias de Megumi Yokota numa exposição em Tóquio (KAZUHIRO NOGI/AFP/GettyImages)
Megumi Yokota, raptada aos 13 anos, tornou-se o símbolo máximo desta realidade. “Ela representava a total e completa inocência dos japoneses que foram levados”, resume ao Observador Robert Boynton, o norte-americano que investigou a fundo o rapto de estrangeiros pela Coreia do Norte, sobretudo japoneses. “Se olharmos para a forma como as meninas são muitas vezes representadas na Manga [BD japonesa], são muito parecidas com ela. Ela é o símbolo derradeiro de uma inocência que foi roubada.” O caso de Megumi inspirou vários documentários, uma peça de teatro, programas de televisão e desenhos animados.
Shigeru Yokota, pai de Megumi Yokota, mostra uma fotografia da filha em criança
 e outra que lhe foi dada de Megumi já adulta (GettyImages)
Casamentos forçados e educação dos filhos. A vida possível na Coreia do Norte

“Havia um padrão na forma como as vítimas raptadas eram tratadas”, explica Yamamoto, que entrevistou dezenas de pessoas que estiveram retidas na Coreia do Norte. “Eles nunca foram verdadeiramente expostos à sociedade norte-coreana, apenas a uma limitada elite que tinha como obrigação treinar espiões. Por isso, os raptados eram forçados a viver sozinhos ou em pequenos grupos entre eles ou a casarem uns com os outros.”

O rapto de japoneses passou a ter um modus operandi específico, como explica Boynton. Na maioria das vezes, eram raptados casais, que depois eram separados assim que chegavam à Coreia do Norte. “O isolamento era chave. O regime percebeu que geralmente era necessário ano e meio para quebrar um indivíduo até um estado psicológico de desespero, durante o qual lhe podiam ensinar a língua coreana e apresentá-lo à Juche, a ideologia oficial do regime”. Mas demasiado isolamento poderia levar à depressão e ao suicídio, razão pela qual ao fim de uns tempos eram novamente reunidos com o companheiro ou companheira.

“Se fosse alcançado o equilíbrio correto e o casal fosse separado, treinado e depois reunido, as opções eram ilimitadas”, pode ler-se em “The Invitation-Only Zone” — precisamente o nome dado ao complexo onde vivia a maioria dos raptados japoneses, perto de Pyongyang. Aí, podiam levar a cabo uma vida a dois relativamente pacífica, com uma alimentação frugal mas suficiente, tarefas fixas (traduzindo jornais japoneses, por exemplo) e até, em alguns casos, com a possibilidade de fazer viagens pontuais pelo país, desde que acompanhados. A maioria acabaria por ter filhos e criá-los ali, muitas vezes não lhes revelando as suas origens.

O comité da ONU concluiu que estas vítimas “foram poupadas ao impacto brutal da fome dos anos 1990 e tiveram acesso a serviços médicos”, mas nem por isso tiveram uma vida fácil: “Impedidos de se integrarem na sociedade norte-coreana, era-lhes negado o direito ao trabalho, eram impedidos de sair da sua zona de residência e de se mover livremente na sociedade, não podiam escolher o tipo de educação que queriam para os filhos e enfrentavam violações sexuais e de género, como avanços sexuais indesejados por parte dos seus vigilantes, bem como casamentos forçados.”
O desertor americano Charles Jenkins (à direita) com as suas duas filhas e
com a filha de Megumi Yokota (de casaco claro) (GettyImages)
O investigador Yamamoto não tem dúvidas em classificar o tratamento dado aos raptados como um que “viola os direitos humanos mais básicos”. E conta ao Observador uma história para ilustrá-lo: “Quando estava presa numa casa, a japonesa Yaeko Taguchi apegou-se a um cão que lá estava. Sem ninguém com quem pudesse falar, tornou-se muito próxima do cão e deu-lhe o nome de Julie em homenagem a uma estrela rock do Japão. Os guardas viam como ela se apegou ao cão e um dia levaram-no. Suponho que sabe que os coreanos, à semelhança dos chineses, apreciam bastante carne de cão…”, declara o investigador, dando a entender que terá sido esse o destino de Julie. “É claro que isto são coisas pequenas quando comparadas com, por exemplo, os casamentos forçados. Mas destaco este ato cobarde das autoridades norte-coreanas como um exemplo de como mantinham os raptados emocionalmente instáveis para os controlar mais facilmente. Esta ideia de controlarem todos os aspetos da vida deles, grandes ou pequenos, foi o que me chocou mais ao fazer este trabalho.”
Ação de protesto de familiares sul-coreanos de vítimas raptadas (JUNG YEON-JE/AFP/GettyImages)
Mas, à medida que os anos passavam, as mulheres japonesas não foram as únicas raptadas para serem entregues em casamento — a japoneses, sul-coreanos e, inclusivamente, aos restantes soldados americanos. “Eles tentaram alargar a operação. Tornou-se mais direcionada, com menos vítimas, mas passou a incluir o resto do mundo. Foram raptadas pessoas em Hong Kong, na Tailândia, na Europa. Alguns países acabaram por ter embaixadas [da Coreia do Norte] que eram usadas como bases operativas. Foi o caso da Alemanha”, explica Go Myong-hyun. Outro conhecido caso foi o da embaixada em Zagreb, durante a Guerra Fria.
Donald Trump encontra-se com familiares de vítimas raptadas (KIMIMASA MAYAMA/AFP/GettyImages)
Muitas mulheres de várias nacionalidades foram raptadas ou atraídas em sítios tão distintos como Macau, Singapura, Londres ou França. Alguns estudiosos do tema, como Boynton, questionam-se ainda se todas as mulheres dos membros do Exército Vermelho japonês (Yodo-go no original, um grupo terrorista de extrema-esquerda composto por japoneses que desviaram um avião para Pyongyang e lá se instalaram em 1970, com laços posteriores à Palestina) terão ido para o país de livre vontade.

Certo é que algumas delas, como Yoriko Mori e Sakiko Kuroda, acabariam elas próprias por aliciar estrangeiros para a Coreia do Norte anos mais tarde. Pelo menos dois estudantes japoneses foram atraídos pela dupla de mulheres em Barcelona, em 1980.

quinta-feira, maio 31, 2018

Precedente franco-romeno da morte encenada do Arkady Babchenko

O “assassinato” encenado do jornalista russo anti-Kremlin Arkady Babchenko surpreendeu os observadores e enfureceu os ditos profissionais dos direitos humanos e a Rússia, apontada pela Ucrânia como autora de conspiração para matar o jornalista, uma façanha, que na verdade tem um precedente histórico.

Foi em 1982 que os serviços secretos da Roménia comunista planeavam assassinar o dramaturgo, escritor e dissidente romeno Virgil Tănase, residente na França.
Paris, 1980, Virgil Tănase em greve de fome conta tortura na Roménia | @contemporanul.ro
Após a publicação na revista francesa Actuel do panfleto do Tănase “Sua Majestade Ceauşescu, o Primeiro, o Rei dos Comunistas”, texto altamente crítico do regime do ditador comunista Nicolae Ceauşescu, Bucareste incumbiu o seu agente na França, Matei Pavel Haiducu, para matar o autor, então cidadão francês.

Mas Pavel Haiducu não pretendia se tornar um assassino (ele se dedicava à espionagem industrial, especialmente na área de tecnologia nuclear), por isso revelou o plano de assassinato e toda a conspiração romena aos serviços secretos franceses, juntamente com a segunda tarefa que recebeu, assassinato de um outro escritor e dissidente romeno, Paul Goma (devido aos relatos de repressão política na Roménia no seu livro “Os Cães da Morte”).

Foi então que as autoridades francesas encenaram o sequestro do Tănase.

“Virgil Tănase era um refugiado romeno na França que os serviços romenos (de inteligência), a famosa Securitate, queriam eliminar e a DST (Direction de la surveillance du territoire) escondeu por um certo tempo, fazendo pensar que estava morto”, conta Eric Denece, chefe do Serviço de inteligência francês CF2R, na conversa com à AFP.

Jacques-Marie Bourget e Yvan Stefanovitch escreveram um livro – “Des affaires très spéciales:1981-1985” (Os assuntos muito especiais:1981-1985) – sobre este caso.
Ler o livro em francês on-line de graça
“Em 20 de maio de 1982, Virgil Tanase foi sequestrado fora de sua casa em Paris”, escreveram os dois. Sua esposa, preocupada em não ter notícias, ligou à DST. No dia seguinte, acompanhada por dois gentes da DST, ela participou o desaparecimento de seu marido na esquadra / delegacia de polícia local.
Imprensa francesa de época fala do misterioso desaparecimento em Paris do escritor romeno
“Ela estava mais que perfeita no papel de esposa preocupada porque não sabia o que tinha acontecido com o marido”.

Este é um outro paralelo ao caso da Ucrânia, já que a esposa de Arkady Babchenko não tinha a menor ideia de que a morte de seu marido havia sido encenada – algo pelo que ele pediu perdão quando ressurgiu.

Virgil Tănase foi levado para uma casa segura na Bretanha, onde esteve por três meses, enquanto a secreta romena Securitate foi publicamente acusada pelos franceses da sua morte.

Os três meses eram necessários para evitar levantar suspeitas na Roménia e dar tempo ao Matei Pavel Haiducu de organizar a fuga de sua família. A DST francesa ajudou ao agente romeno de fingir que o plano de assassinato estava sendo executado segundo as ordens do Bucareste, recebendo a concordância de cooperar, das suas duas “vítimas”, Virgil Tănase e Paul Goma.
foto: AFP / PIERRE GUILLAUD
Até que em 31 de agosto de 1982 o jornal parisiense Le Matin, publicou um artigo escrevendo que o rapto foi encenado pela inteligência francesa. No mesmo dia Tănase, Goma e Haiducu (apresentado ao público apenas como senhor Z) apareceram nas instalações da revista Actuel (foto em cima) para dar uma entrevista coletiva.
 FRENCH FAKE A MURDER TO AID RUMANIAN SPY | The New York Times
Foi um caso de muito sucesso da contra-espionagem francesa.

O caso, digno de um drama de espionagem, obrigou o então presidente francês François Mitterrand (que conhecendo a realidade dos factos, fez o seu papel até o fim), declarou publicamente no dia 9 de Junho de 1982 que temendo a “trágica hipótese” de um assassinato sancionado por um Estado estrangeiro, cancela a sua viagem marcada para Bucareste.
Virgil Tănase, 2012, Bucareste (?)
Tănase, hoje com 72 anos, retornou à sua carreira como escritor e dramaturgo. Haiducu se estabeleceu na França e viveu no país sob o nome de Mathieu Forestier, casando-se com uma cidadã francesa e tendo dois filhos. Em 1984, ele publicou o livro (J'ai Refusé De Tuer – “Recusei-me a Matar”) com detalhes sobre o caso. Ele morreu em 1998.
Ler mais e/ou comprar o livro
Existem várias versões bastante complexas daquilo que realmente aconteceu. Uma das versões diz que Matei Haiducu tentou recrutar como agente da Securitate o ministro francês da Defesa, socialista e mação Charles Hernu, que Bucareste sabia que tinha colaborado com a inteligência soviética no passado. Além disso, em fevereiro de 1982, a noiva do terrorista esquerdista Ramirez Sanchez (Carlos, o Chacal) Magdalena Kopp foi presa na França. Ela confessou seus crimes e foi condenada a quatro anos de prisão por tentativa do cometimento de um ato terrorista. Carlos respondeu com vários atentados na França. As autoridades francesas sabiam tanto da tentativa de recrutar Hernu, quanto da cooperação de Carlos com a Securitate, mas Mitterrand não podia apresentar essas acusações contra Ceauşescu, por isso para o rompimento das relações com Bucareste foi usado o caso de Virgil Tănase.