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terça-feira, julho 07, 2026

Crimes de guerra russos em Kyiv: ataques aéreos que matam os civis ucranianos

Em dois ataques russos de drones e mísseis, de 2 e de 6 de julho de 2026, a rússia já matou 42 civis ucranianos, outros 162 civis foram feridos na capital ucraniana, cidade de Kyiv. Ucrânia respondeu, de forma adequada e proporcional, atingindo o petróleo russo em Omsk.



No ataque de 6 de julho 11 pessoas morreram, cerca de 60 ficaram feridas e edifícios residenciais por toda a cidade foram danificados. As operações de busca e salvamento ainda estão em curso.

Durante a noite, Ucrânia intercetou muitos drones e mísseis de cruzeiro. Mas os mísseis balísticos russos causaram danos e destruição em Kyiv, porque Ucrânia não despõe mísseis intercetores em número suficiente. Atrasos no fornecimento de meios de defesa aérea, incluindo mísseis «Patriot», custa vidas. Embora quer, a os EUA, quer a Europa dispõem dos meios necessários para ajudar a pôr fim ao terror aéreo russo.



Foi um dos ataques mais brutais, com dezenas de mísseis balísticos. Uma terrível sucessão de explosões violentas, uma após outra. Os terroristas russos atacaram civis enquanto dormiam, atingindo edifícios residenciais de vários andares para maximizar o número de vítimas.

Num dos bairros, uma família inteira foi retirada sem vida dos escombros: mãe, pai e filho. As operações de busca e salvamento continuam e, infelizmente, é provável que o número de vítimas aumente.

Já não é tempo para medidas tímidas. Essas apenas encorajarão Moscovo a prosseguir e a alargar o terror para além da Ucrânia. O resultado mais significativo da Cimeira de Ancara seria reforçar as capacidades da Ucrânia para proteger as nossas crianças do terror balístico russo. Ucrânia precisa de decisões concretas.



Os mísseis PAC-3 foram concebidos precisamente para proteger vidas humanas desta barbárie. Existem milhares destes mísseis armazenados em todo o mundo, reservados para potenciais ameaças.

Na Ucrânia, porém, a ameaça não é potencial. Os mísseis russos matam pessoas todas as semanas.

Atualmente, a Ucrânia é o único país do mundo sujeito a ataques balísticos semana após semana. Os meios para proteger a população deste terror têm de estar aqui.

Precisamos de todas as decisões relativas ao reforço da defesa aérea agora, e não mais tarde. Para nós, o tempo mede-se em vidas humanas», sublinhouo Ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andrii Sybiha.

O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andrii Sybiha: «A Ucrânia solicita uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU na sequência dos ataques massivos da Rússia.

Cada míssil russo lançado contra a Ucrânia transmite uma mensagem que vai muito além das nossas fronteiras. Pretende convencer o mundo de que a violência pode substituir a lei, de que o medo é mais forte do que a solidariedade e de que a crueldade pode permanecer impune.

Mensagem da Ucrânia à Cimeira da NATO/OTAN de Ancara

Apelamos à presidência da República Democrática do Congo e aos membros do Conselho para que apoiem o pedido da Ucrânia.

A demora ou uma resposta fraca não são capazes de travar o terror. Apenas ações firmes, baseadas em princípios e tomadas atempadamente o podem fazer.

A comunidade internacional deve unir-se para conter o agressor e continuar a promover uma paz abrangente, justa e duradoura, em conformidade com a Carta das Nações Unidas», disse Dr. Andrii Sybiha.

e a resposta proporcional e adequada da Ucrânia... 

As imagens históricas do dia 6 de julho de 2026, quando os drones ucranianos de ataque atingiram a refinaria de petróleo de Omsk, uma das apenas duas refinarias russas, situadas além dos Montes Urais, à mais de 3.000 km da ronteira da Ucrânia.

A imagem de satelite após os impactos mais recentes na refinaria de petróleo de Omsk


Um dos vídeos mostra as manobras do drone ucraniano FP-1, antes de se aproximar ao alvo numa das maiores refinarias da rússia. Outro vídeo mostra os resultados do assim chamado «controlo objetivo do alvo» a partir do local, filmado pelos moradores locais. Uma das vozes explica que dos 12 drones que se dirigiam ao alvo, houve 11 impactos e apenas 1 drone foi interceptado, possivelmente desviado.

Também em Belgorod, o aeroporto local foi atingido por um míssil. Após o impacto, deflagrou um incêndio nas instalações.


 

quarta-feira, março 11, 2026

A janela de oportunidades para 2ª frente russa contra os países da NATO e da UE

Ler o relatório em lituano, PDF
A rússia está a expandir as suas unidades militares na fronteira da NATO, proporcionando-lhes experiência de combate na Ucrânia, afirma a inteligência lituana na sua avaliação anual das ameaças à segurança em 2026.

Ao longo de toda a fronteira da NATO, estão a ser expandidas brigadas até o nível de divisões e estão a ser criadas novas unidades militares. De acordo com os serviços de informação, a maioria das unidades recém-formadas das forças armadas russas não estão totalmente equipadas e estão a ser criadas por etapas, devido à escassez de pessoal, equipamentos militares e infraestruturas. As unidades recém-formadas e os equipamentos que lhes estão atribuídos não permanecem nas suas áreas de implantação permanentes, mas estão a ser enviados para participar em operações de combate contra Ucrânia.

Anteriormente, os relatórios dos serviços de informação da Lituânia e da Estónia afirmavam que a rússia não pretendia iniciar operações militares na região do Báltico em 2026, e possivelmente em 2027, e que serão necessários cerca de seis anos para reconstruir totalmente o exército e prepará-lo para um conflito com a NATO. Depois disso, o exército russo, possivelmente, será de 30 à 50% mais forte e mais moderno. Mas isto refere-se a um conflito em grande escala com toda a NATO. Pois a rússia não precisa cumprir todos estes prazos para aterrorizar os países vizinhos com drones do tipo Shahed-136 ou organizar os separatismos locais do tipo de criação das «repúblicas populares».

Recentemente, na Estónia, a propaganda russa tenta promover a criação da uma «república popular de Narva» separatista, por enquanto nas redes sociais. No último mês, têm circulado este tipo da propaganda russs, nos canais de Telegram, VK e TikTok, espalhando ideias sobre a separação das cidades de Narva e Ida-Virumaa da Estónia e a criação de uma suposta «república popular». As descrições dos canais são muito diretas: «Esperando pela rússia».

O Ministério da Defesa russo elaborou um projeto de lei que autoriza a «utilização extraterritorial de unidades das forças armadas russas para proteger os cidadãos da federação russa». O documento, segundo a agência de notícias russa Interfax, citando uma fonte, foi aprovado por uma comissão governamental para ser submetido à Duma Estatal.

Esta é a notícia mais importante. Permitam-me recordar que exatamente isto já aconteceu duas vezes antes. A primeira vez foi a 1 de março de 2014, quando o conselho da federação (Cãmara alta do parlamento russo) autorizou o uso de tropas russas na Crimeia. A segunda vez foi a 22 de fevereiro de 2022, quando foi aprovado o uso das forças armadas russas no estrangeiro. Apenas dois dias depois, começou a invasão russa de larga escala da Ucrânia.

Neste momento, os ataques maciços contra Ucrânia praticamente cessaram, tanto nas principais cidades como ao longo da linha da frente. Nota-se uma diminuição significativa do uso de drones russo-iranianos «Shahed-136»/«Geran». Enquanto até mais recente eram usados sem parar, agora os ucranianos dormem mais descansados.

Isto pode indicar indirectamente que a rússia está a acumular recursos para um ataque noutro teatro de guerra.

Conclusão. Aparentemente, putin vê a 3ª Guerra do Golfo como uma janela de oportunidade que se abriu subitamente. O mundo inteiro está agora atento ao Irão, não há excedentes de armas, Trump não tem tempo para isso e os preços do petróleo estão novamente a subir. Uma dádiva divina.

A análise do jornalista russo, Arkady Babchenko, neste momento residente na Estónia e engajado na ajuda técnica às FAU, é bastente pessimista: Na minha opinião, a decisão de atacar os Países Bálticos já foi tomada em princípio, e a utilização extraterritorial das forçasarmadas russas para proteger os cidadãos russos é uma prova directa disso. A Duma Estatal russa nunca produz projetos de lei por iniciativa própria, a menos que a decisão já fosse tomada.E muito menos se o MinDefesa russo for o iniciador. Agora — neste preciso momento — os russos estão sentados a decidir se o momento de ataque já chegou ou ainda não.

sexta-feira, janeiro 09, 2026

«A Força Aérea ucraniana sobreviveu; a de Taiwan quase certamente não conseguiria»

O think tank australiano The Strategist divulga a «Escolha do Editor 2025» — o texto «A Força Aérea Ucraniana Sobreviveu; a de Taiwan quase certamente não conseguiria», de David Axe, publicada inicialmente em abril de 2025. 

Em fevereiro de 2022, a Força Aérea Ucraniana entrou na guerra contra as forças invasoras russas com apenas 125 aeronaves de combate concentradas em cerca de uma dúzia de bases. Dada a superioridade esmagadora da rússia — centenas de aeronaves implantadas e milhares de mísseis — poucos esperavam que as forças ucranianas sobrevivessem às primeiras horas da guerra.

Mas elas sobreviveram. E 38 meses depois, ainda sobrevivem — realizando missões defensivas e ofensivas diariamente.

Foi um feito incrível. A força aérea de Taiwan conseguirá repetir essa conquista?

Quase certamente não. A geografia e a escala da ameaça chinesa representarão um teste muito mais difícil para a força aérea de Taiwan e seus 400 caças.

A Força Aérea Ucraniana evitou a destruição no ataque inicial russo ao receber informações antecipadas e dispersar pessoal e aeronaves para longe das principais bases aéreas. As forças foram espalhadas por dezenas de pequenos aeródromos e até mesmo trechos de autoestradas/rodovias.

«Os alvos de cada ataque mudavam à medida que os mísseis atingiam seus pontos designados», escreveram os analistas Justin Bronk, Nick Reynolds e Jack Watling em um estudo para o Royal United Services Institute, em Londres.

Os ucranianos mantiveram essa prática durante toda a guerra. Além disso, sofreram suas maiores perdas quando relaxaram seus controles de dispersão. Em julho [de 2025], uma série de ataques com mísseis balísticos russos destruiu várias aeronaves, incluindo caças Su-27, em bases aéreas próximas às linhas de frente. Mesmo com a vigilância constante que os ucranianos não conseguiram manter, os taiwaneses podem não conseguir escapar dos mísseis chineses.

«A geografia limita a dispersão», diz Eric Heginbotham, pesquisador sênior do Programa de Estudos de Segurança do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

A Ucrânia é 20 vezes maior que Taiwan e possui muito mais aeródromos: mais de 900, em comparação com os cerca de 50 de Taiwan. Isso limita a capacidade da força aérea taiwanesa, muito maior, de sobreviver dispersando-se.

A Base Aérea de Taitung, em Taiwan, possui abrigos subterrâneos que poderiam acomodar algumas aeronaves, mas o enorme e crescente arsenal de mísseis balísticos e de cruzeiro da China poderia anular tais esforços.

Em uma série de rigorosos exercícios militares conduzidos pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) em janeiro de 2023, Heginbotham e outros analistas chegaram consistentemente à mesma conclusão:

«Uma invasão sempre começa da mesma forma: nas primeiras horas de combate, inicia-se uma campanha de bombardeio, destruindo grande parte da marinha e da força aérea de Taiwan».

O think tank RAND defende há muito tempo que Taiwan gaste menos em caças e mais em sistemas de defesa aérea, que seriam mais fáceis de ocultar no terreno acidentado de Taiwan.

Se há motivo para um otimismo cauteloso, é que as forças de mísseis da China operariam sob severas limitações em caso de conflito. Apesar de possuir milhares de mísseis, seu arsenal foi construído ao longo de décadas e não pode ser reabastecido rapidamente.

E os remanescentes da Força Aérea de Taiwan ainda poderiam exercer alguma influência no curso de uma guerra. No entanto, seria insensato esperar que Taiwan protegesse sua força aérea extremamente vulnerável, concentrada em algumas poucas bases, de uma invasão chinesa.

Quando os defensores da reforma da defesa de Taiwan imploram ao governo que aumente os gastos com mísseis furtivos e pequenos drones, eles não estão simplesmente defendendo novas tecnologias de ponta. Eles reconhecem uma realidade inconveniente, mas inegável: em uma guerra em grande escala, a Força Aérea de Taiwan quase certamente teria uma vida útil surpreendentemente curta. 

via: Yigal Levin

Bónus 

Desde o início da guerra russa de larga escala, que começou em 24.02.2022, rússia e Ucrânia tiveram as seguintes baixas de aviação, apenas os números com a verificação positiva em fotos e/ou vídeo da comunidade OSINT Oryx: 

rússia:

  • Aeronaves (174 + 4 em dezembro, das quais destruídas: 150, danificadas: 24);
  • Helicópteros (166 + 0 em dezembro, dos quais destruídos: 132, danificados: 32, capturados: 2)

Ucrânia:

  • Aeronaves (112, das quais destruídas: 107, danificadas: 4, capturadas: 1), entre eles: 4 F-16 e 1 Mirage 2000-5F 
  • Helicópteros (53, dos quais destruídos: 47, danificados: 3, capturados: 3), entre eles: 1 Airbus H225 de transporte e 1 Westland Sea King (danificado além de reparabilidade).

Além disso, desde 24.02.2022 Ucrânia recebeu ou receberá, dos seus aliados ocidentias e da NATO mais de 122 aeronaves (soviéticas e ocidentias, das quais 81 já foram entregues e outras 41 são prometidas). Assim, como mais de 96 helicópteros de ataque, transporte e utilitários (dos quais 71 entregues e mais de 25 prometidos).

segunda-feira, novembro 24, 2025

FAU operam um dos mais pequenos veículos blindados: Ferret Mk1

As Forças Armadas da Ucrânia receberam um dos mais pequenos veículos blindados do mundo: o histórico veículo de reconhecimento britânico Ferret Mk1, armado com a metralhadora italiana Beretta MG 42/59.

Foi criado na década de 1950 para o exército britânico — pequeno, rápido, com um motor a gasolina Rolls-Royce e uma velocidade de até 93 km/h. Este é um clássico do estilo retro blindado que continua em força. Ferret passou por guerras coloniais, missões de paz e está agora de volta à batalha — sob a bandeira ucraniana.

Em março de 2025, este veículo blindado foi visto como parte da 3ª brigada de assalto separada das FAU durante a libertação da aldeia de Nadiya, na região de Luhansk.

O Ferret Mk1 entrou ao serviço das FAU graças às iniciativas privadas. Por exemplo, em agosto de 2022, a Tanks-A-Lot preparou e transferiu para a Ucrânia o Ferret Mk1, adquirido por particulares. Em outubro de 2022, os militares do Azov receberam veículos blindados Ferret Mk1, nos quais foram instaladas metralhadoras italianas Beretta MG 42/59 (na foto).

quinta-feira, novembro 20, 2025

A guerra de jogos do poder em curso na Igreja Ortodoxa russa (IOR)

O Patriarca russo Kirill (Gundiaev) demitiu abruptamente e colocou em julgamento eclesiástico o seu representante máximo na Europa Ocidental, incluido em Portugal e na Espanha, o Metropolita Nestor (Evgeny Sirotenko), escreve Novaya Evropa.

Na noite de sábado, 8 de novembro, um breve comunicado apareceu no site oficial da IOR: “Por ordem de Sua Santidade Kirill [..] o Metropolita Nestor de Korsun e da Europa Ocidental foi destituído de seu cargo como chefe do Exarcado Patriarcal da Europa Ocidental, bem como das dioceses e paróquias de Korsun, da Diocese Hispano-Portuguesa e das paróquias do Patriarcado de Moscovo/ou na Itália, em decorrência dos processos judiciais eclesiásticos instaurados contra ele. A administração temporária das referidas estruturas canônicas foi confiada ao Metropolita Mark de Ryazan e de Mikhailov.”

Acredita-se que o referido Mark possui o passaporte de um dos paises da União Europeia. Há um ano atrás, na auge do escândalo de cariz homosexual, envolvendo a demissão do Metropolita de Budapeste e da Hungria — Hilarion (Alfeyev), Mark foi encarregado da administração das paróquias da IOR na Hungria.

O Estatuto da IOR não concede ao patriarca russo o direito de destituir unilateralmente exarcas e administradores diocesanos. Tais decisões são geralmente tomadas por um órgão colegiado — o Santo Sínodo. No entanto, a própria existência deste tribunal e a legitimidade de sua composição são temas de debate entre especialistas em direito canônico.

Por um lado, poucos se surpreendem com o facto de o patriarca Kirill governar a IOR de uma forma absolutamente arbitrária, desconsiderando os cânones e as leis. Por outro lado, isso desvaloriza suas decisões — pelo menos aos olhos das estruturas e crentes ortodoxos ao nível internacional, fora da IOR. Por exemplo, o Patriarcado de Constantinopla não tem problemas em aceitar clérigos “expulsos” pela IOR por sua posição contra a guerra russa na Ucrânia, considerando as suspensões moscovitas como canonicamente nulas e sem nenhum efeito.

Bispo Nestor durante a visita de putin ao Centro Espiritual e Cultural Russo em Paris,
29 de maio de 2017. Foto: kremlin.ru

O Metropolita Nestor (Evgeny Sirotenko na vida civil), de 51 anos, desde 1999 serviu na França e na Espanha. Não tem histórico de envolvimento em escândalos públicos. É responsável pelas paróquias da IOR da Europa Ocidental (França, Inglaterra, Bélgica, Holanda, Espanha, Portugal e Itália). Em 2022-23, ele se permitiu uma discreta dissidência contra o Kremlin — por exemplo, não perseguiu, como era exigido por Moscovo, o Arcipreste de Madrid, Andrei Kordochkin, que denunciou a “natureza satánica” da guerra russa na Ucrânia. De momento os paroquianos da Catedral da Trindade em Paris já estão reunindo/coletando assinaturas em apoio ao seu bispo e, em conversas informais, expressaram inclusive a disposição de apoiar sua saída da IOR, talvez para o Patriarcado de Constantinopla. Afinal, o rebanho ortodoxo no Ocidente é diferente do da rússia, e os paroquianos se insurgem contra as decisões não transparentes da liderança da igreja moscovita.

Evgeny Sirotenko nasceu em 4 de setembro de 1974, em Moscovo/ou. Formou-se na Faculdade de Ciência da Computação do Instituto Histórico e Arquivístico da Universidade Estatal russa de Humanidades e trabalhou no Ministério das Relações Econômicas Externas/Exteriores da federação russa.

“Rejeitando o Mal e a Guerra”

Em 6 de abril de 2022, o Metropolita Nestor e o Arcebispo Francisco Javier Martínez, representante da Conferência Episcopal Espanhola, publicaram uma declaração conjunta condenando as ações da rússia no território soberano da Ucrânia. O texto ainda está disponível no site oficial da Diocese Hispano-Portuguesa da IOR, mas somente em espanhol. O documento começa com uma expressão de solidariedade “aos nossos irmãos ortodoxos, católicos e pessoas de todas as fés em relação à invasão da Ucrânia pela rússia”. Recordando os mandamentos pacifistas do Evangelho, o Exarca Patriarcal da IOR, juntamente com seu homólogo católico, apela para “o fim da violência e da barbárie, e para que se ouça na consciência a voz de Deus, que rejeita o mal e a guerra”.

Quando o Patriarca Kirill, de forma não canônica, suspendeu o Arcipreste Andrei Kordochkin, reitor da Catedral de Madrid de seu ministério, o Metropolita Nestor o protegeu tacitamente e não o demitiu oficialmente da Diocese. Isso provocou a ira de um dos bispos mais agressivos da IOR — o “Exarca da África”, Metropolita Leonid (Gorbachev) que advertiu: “Ninguém está nos pedindo para se lançarmos às baionetas, mas devemos permanecer fiéis. Teremos que tanto ouvir, quanto obedecer”. Apesar desses alertas, em fevereiro de 2023, o vigário de Nestor, Bispo Petru (Prutyanu), concedeu uma entrevista a uma publicação católica na qual expressou uma certa simpatia pela Ucrânia, chamando a guerra russa na Ucrânia de “escandalosa”.

A continuidade dessa linha de ação por parte da liderança do Exarcado da Europa Ocidental, e em particular da Diocese Hispano-Portuguesa, é evidenciada pelo encontro informal de Nestor com o Metropolita Olexandre (Drabinko), figura conhecida na Igreja Ortodoxa da Ucrânia, que Moscovo/ou habitualmente chama de “cismática” e “nacionalista”. O encontro ocorreu em Madrid, em meados de outubro de 2025, quando ambos os metropolitas estavam presentes, e foi inteiramente fraternal. 

Encontro do Drabinko (à esquerda) e Nestor (mais alto) em Madrid

A IOR não apenas proibiu oficialmente aos seus subordinados qualquer contato com a Igreja Ortodoxa da Ucrânia e com o Patriarcado de Constantinopla, como também considera Drabinko um “traidor” e “desertor”, visto que até 2018 ele era um hierarca de alto escalão da IOR na Ucrânia. No contexto da nova onda de emigração ucraniana em massa, gerada pela guerra russa contra Ucrânia, no Ocidente, a IOR tenta se beneficiar da presença ucraniana em massa, atraindo os crentes ucranianos às suas paróquias europeias.

“Jogos, Trapaças e Bispos Fumegantes”

Formalmente, Kirill ordenou que o Supremo Tribunal da Igreja avaliasse a participação do Nestor em torneios internacionais de pôquer (!) e o uso de fundos da igreja para esse fim. Dois Cânones Apostólicos (a parte do direito canônico da IOR) — o 42º e o 43º — preveem a perda da posição de um bispo que “joga dados”, ou seja, participa nos jogos de azar. Um cânone posterior (o 50º do Concílio de Laodiceia) proíbe o clero até mesmo de visitar locais onde tais jogos são realizados. No entanto, no mundo moderno, o pôquer é considerado um desporto/esporte e, em muitos países, existem federações registradas ao nível nacional.

Metropolita Nestor num jogo do pôquer. Foto: pokernews.com

O Metropolita Nestor joga ao nível quase profissional, participando de torneios internacionais sob as bandeiras russa e francesa com seu nome civil, Evgeny Sirotenko. Em 2024 ele ficou em 20º lugar no Campeonato Francês e alcançou o terceiro lugar em um torneio internacional em setembro de 2025. Uma lista completa das conquistas do Metropolita em várias ligas de pôquer pode ser facilmente encontrada no Google. De acordo com as estatísticas oficiais do “The Hendon Mob”, os ganhos totais de Nestor em torneios ao longo dos anos ultrapassaram US$ 47.000, com sua maior vitória individual chegando a mais de US$ 8.000.

Ranking internacional de pôquer do Nestor-Sirotenko. 
Imagem: pokerdb.thehendonmob.com

Segundo o diácono Andrei Kuraev, declarado como “agente estrangeiro” pelas autoridades russas e atualmente residente em Praga, as acusações óbvias contra Nestor “não merecem, de forma alguma, um julgamento”. A IOR passa anos sem reagir as acusações significativamente mais graves — por exemplo, o Metropolita Georgy (Danilov) de Nizhny Novgorod, que construiu um heliporto privado nos terrenos de monumentos históricos protegidos e em cuja igreja eran filmados filmes pornográficos gay, permanece intocável. Uma fonte de uma das paróquias da IOR na Europa Ocidental disse que a ira do Kirill não foi causada pelo jogo de pôquer em si, mas pelo facto de essa informação ser divulgada ao público.

Acredita-se que o posto de Nestor pode ser ocupado pelo atual favorito do Kirill, o metropolita Anthony (Sevryuk), de 41 anos, presidente do Departamento de Relações Externas da IOR. Outro possível candidato ao cargo vago é o bispo Matthew (Andreyev) leal à “política externa pacifista” do Kremlin.

Paróquias russas de inteligência externa

Ao final do quarto ano da guerra russa contra Ucrânia as elites políticas ocidentais começaram a suspeitar que a IOR — no seu formato concebido por Estaline/Stalin em 1943 — dificilmente pode ser chamada de uma organização religiosa. A função principal de muitos de seus clérigos no exterior não era o trabalho pastoral ou o culto, mas sim o desempenho de tarefas muito mais delicadas. Já em 1946, o primeiro presidente do Departamento de Relações Externas, o Metropolita Nikolai (Yarushevich), que viajava livremente pelos países ocidentais, exortava os emigrantes russos a “retornarem à pátria que os aguarda”. Quase todos que acreditaram nele foram presos imediatamente ao cruzar a fronteira soviética e nunca mais retornaram vivos do GULAG. O sucessor imediato de Nikolai e pai espiritual do atual Patriarca da IOR, o Metropolita Nikodim (Rotov) era agente do KGB “Svyatoslav”. Ele abençoava os seus subordinados a colaborar com KGB e até tentou recrutar a liderança do Vaticano, mas morreu (possivelmente envenenado) durante uma audiência com o Papa João Paulo I, conhecido como “Papa Vermelho”. Graças à desclassificação dos arquivos da KGB na Ucrânia, tornou-se público que, nas primeiras décadas após o restabelecimento do Patriarcado de Moscovo/ou ordenada pelo Estaline/Stalin, praticamente 100% de seus bispos foram recrutados pelo KGB e se tornaram agentes ativos. Após o início da guerra russa na Ucrânia em 22.02.2022, a imprensa suica (Sonntagszeitung e Le Matin Dimanche) publicou os materiais da inteligência suíça, com as provas do que o jovem arquimandrita Kirill (Gundyaev), que serviu como representante da IOR no Conselho Mundial de Igrejas em Genebra na década de 1970, era o agente da KGB “Mikhailov”.

Kirill (Gundiaev) de 24 anos, já agente do KGB «Mikhailov» na Suíça

Atualmente, existem aproximadamente 300 paróquias da IOR em funcionamento na União Europeia, no Reino Unido e na Suíça, muitas das quais com uma função de “dupla utilização”. As autoridades da Noruega, Suécia, República Checa, Grécia, Bulgária, Macedônia do Norte e dos Estados Bálticos reconheceram a gravidade do problema dos centros de inteligência russos que operam sob os auspícios de estruturas da IOR. Por exemplo, as igrejas da IOR em Bergen e Stavanger (Noruega) estão localizadas de forma suspeita perto de bases da OTAN, e representantes dessas paróquias tentaram comprar terrenos próximos a outras instalações militares importantes. As autoridades suecas acusaram a paróquia local da IOR de se transformar em uma “plataforma de coleta de informações”. O governador civil do Monte Atos — uma república monástica semi autônoma na Grécia — Anastasios Mitsialis, que chegou ao cargo diretamente da comunidade de inteligência, estava ciente dos riscos do uso contínuo do Monte Atos para atividades subversivas pela federação russa. Representantes da IOR foram declarados persona non grata e expulsos de vários países da UE: em 2023, o arquimandrita Vassian (Zmeyev) e o arcipreste Yevgeny Pavelchuk, clérigos da IOR em Sófia; em 2024, o arcipreste Nikolai Lishchenyuk, reitor do metóquio da IOR em Karlovy Vary em Chéquia. O metropolita Hilarion (Alfeyev) serve atualmente nesta igreja e também se queixa de ameaças das autoridades checas relacionadas à publicação de novas revelações do seu ex-namorado japonês e ao aparecimento de um video de Hilarion num campo de tiro do FSB. Existem, é claro, muitos outros casos de agências de inteligência russas operando sob os auspícios da IOR na Europa, mas métodos eficazes para combater esse tipo de “ministério” da IOR ainda não foram encontrados. Apesar do envolvimento óbvio e comprovado do Patriarca Kirill na incitação à agressão e nas atividades dos serviços secretos, a UE não conseguiu incluí-lo em suas listas de sanções devido à oposição da Hungria e aos esforços do lobby russo. Em suma, a IOR provou ser um bastião confiável dos interesses russos em áreas onde funcionários públicos e os agentes de inteligência russos comuns agora encontram extrema dificuldade de acesso. A a substituição do exarca da IOR, conhecido pela sua postura reconciliadora e mais pacífica, por alguém leal ao FSB/GRU parece perfeitamente lógico para o atual regime russo.

sexta-feira, junho 27, 2025

Política externa russa — uma ameaça direta à segurança global

Arte do Alesha Stupin - Rublev

putin aprovou a agressão iraniana contra os Estados Unidos, continuando a desempenhar o papel de «arquiteto do caos» no Médio Oriente, o que demonstra a extrema radicalização da política externa russa — uma ameaça direta à segurança global. 

A visita do Ministro dos Negócios Estrangeiros /das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araqchi, a Moscvo/ou em 22 de junho de 2025, antes dos ataques às bases americanas no Qatar, Iraque e Síria, não é uma coincidência, mas mais uma confirmação da estreita coordenação militar-estratégica entre o Kremlin e Teerão. Segundo a Reuters e a Al Jazeera, na manhã de 23 de junho, foram registrados ataques com mísseis contra instalações americanas no Qatar, em particular a base de Al-Udeid – logo após o encontro de Araqchi com Lavrov em Moscovo/ou. Isso prova mais uma vez: rússia não apenas apoia, mas coordena ações de ataque contra o Ocidente, usando Teerão como um intermediário estratégico. 

Ex-presidente russo, Dmitry Medvedev mencionou publicamente a possibilidade de transferir armas nucleares para o Irão, o que demonstra a extrema radicalização da política externa russa. Isso não é mais apenas retórica geopolítica — é uma ameaça direta à segurança global. A resposta contundente de Donald Trump nas redes sociais mostra que a Casa Branca está ciente do nível de ameaça representado pelo novo «eixo do mal» entre Moscovo/ou e Teerão. 

Moscvo/ou e Teerão são uma aliança de duas autocracias que coordenam suas ações para desestabilizar a situação internacional. O ataque do Irão à base americana na província síria de Al-Hasakah e o ataque no Qatar são identificados por especialistas como operações coordenadas acordadas com o Kremlin. Não se trata de cooperação episódica, mas de uma estratégia de longo prazo para minar a influência do Ocidente. 

O apoio russo ao Irão também representa um desafio direto aos EUA e à NATO/OTAN. Segundo a nota de Interfax, de 22 de Junho, Moscvo/ou «condenou veemente» o ataque americano ao Irão, embora tenha realizado ataques diários contra cidades, bairros e civis ucranianos pelo terceiro ano consecutivo. Essa duplicidade de critérios expõe o Kremlin como um aliado hipócrita do Irão e um desestabilizador sistêmico da segurança. 

Neste momento, o Irão se tornou a ferramenta de Moscovo/ou para abrir uma nova frente contra o Ocidente. O regime de ayatollah, caiu no servilismo objetivo ao «pequeno satanas», como Teerão costumava chamar o regime de Moscovo no decorrer da «Guerra fria».

sábado, maio 24, 2025

Embaixador da Ucrânia em Moçambique: «Antes das negociações precisamos de um cessar-fogo»

A entrevista do Embaixador da Ucrânia em Moçambique, Dr. Rostyslav Tronenko, com o jornalista de semanário «Savana», Fernando Gonçalves, está disponível na página da Embaixada da Ucrânia em Moçambique. 

Consultar a entrevista na Web e em PDF:

sexta-feira, março 14, 2025

O apoio ocidental à Ucrânia é uma necessidade estratégica

Foto: twitter.com/DeptofDefense

Quando a rússia lançou uma invasão em grande escala da Ucrânia em 2022, muitos especialistas previram que Kyiv não seria capaz de resistir por muito tempo. Entretanto, três anos depois, Ucrânia não apenas mantém suas posições, mas também continua travando uma luta ativa, recebendo apoio internacional sem precedentes.

Os críticos da ajuda ocidental à Ucrânia frequentemente enfatizam seu alto custo para os contribuintes nos Estados Unidos e na Europa. No entanto, a realidade é diferente. Os gastos de guerra da rússia excedem significativamente o valor que os países ocidentais estão gastando para apoiar Kyiv. Em 2024, Moscovo/ou gastou mais de 40% de seu orçamento federal em necessidades militares, um recorde em toda a sua história moderna.

Para efeito de comparação, os EUA destinaram cerca de US$ 61 bilhões em 2024 para assistência militar e econômica à Ucrânia. Isso é menos de 0,3% do PIB americano e é significativamente inferior aos gastos em outros programas internacionais. Na Europa, o apoio à Ucrânia também não cria um fardo crítico nos orçamentos dos países, e uma parte significativa dos fundos é devolvida na forma de encomendas para a indústria de defesa local.

A principal razão para tal apoio são os interesses estratégicos. Os países ocidentais percebem que concessões à rússia só alimentarão sua agressão. Os investimentos na defesa da Ucrânia são muito mais baratos do que a potencial necessidade de deter Moscovo/ou já nas fronteiras dos países da NATO/OTAN.

Além disso, se o Ocidente não acreditasse na vitória da Ucrânia, não continuaria a fornecer-lhe armas modernas. Em 2024, Kyiv recebeu artilharia de longo alcance, sistemas de defesa aérea de nova geração e drones modernos, o que lhe permite resistir efetivamente aos ataques russos e planear as operações futuras.

No ano passado, Ucrânia se concentrou em ataques direcionados aos postos de comando, depósitos de munição e centros logísticos russos. Essa tática de «1.000 cortes» permitiu que o inimigo infligisse perdas significativas, reduzindo sua capacidade de lançar ofensivas em larga escala.

Apesar das tentativas da rússia de avançar em certos setores da frente, a iniciativa estratégica continua com Ucrânia. Analistas indicam que Moscovo/ou não tem reservas suficientes para um avanço em larga escala, e suas perdas em 2025 excedem 30.000 pessoas somente em fevereiro.

Outro mito é a narrativa russa de que a economia da Ucrânia está supostamente à beira do colapso. De fato, graças aos empréstimos do FMI, UE e Banco Mundial, Kyiv continua a financiar o exército e a manter a estabilidade macroeconômica. Ao mesmo tempo, o país está desenvolvendo ativamente seu próprio setor de defesa, o que garante sua estabilidade a longo prazo na guerra.

Ucrânia provou que é capaz não apenas de resistir, mas também de se adaptar às novas condições de guerra. A ajuda ocidental desempenha um papel fundamental nessa luta, mas não representa um fardo financeiro crítico para os países doadores. Pelo contrário, é um investimento na segurança de toda a Europa e na dissuasão de novas agressões russas. O Ocidente está apostando na Ucrânia, e essa aposta é totalmente justificada.

segunda-feira, fevereiro 24, 2025

3º aniversário da invasão russa em grande escala: a necessidade crítica de assistência

Ucrânia defende a liberdade de todo o mundo democrático. A rússia continua as operações ofensivas, utilizando a tática dos “ataques de carneficina”, enviando dezenas de milhares de soldados para a frente de combate. 

Atualmente, Ucrânia carece de munições e artilharia de longo alcance – elementos-chave para uma resistência eficaz. 

A economia russa está a operar em modo de guerra: a produção de armas e projécteis aumentou significativamente. A rússia recebe ativamente assistência da China, do Irão e da Coreia do Norte. A rússia está a explorar atrasos no apoio ocidental para aumentar as forças e alterar o equilíbrio no campo de batalha. Sem entregas rápidas de armas, a rússia continuará ocupar os territórios ucranianos.

A guerra na Europa tornar-se-á realidade se Ucrânia não se mantiver firme. A perda da Ucrânia significaria que os próximos alvos seriam a Polónia, os Países Bálticos e a Moldova. A rússia já está a preparar ataques híbridos contra países europeus – sabotagem, ataques cibernéticos, desestabilização de governos.

Cada dia de atraso no apoio à Ucrânia significa novas vítimas entre os ucranianos. Dezenas de milhares de civis morreram em consequência dos ataques russos. Ataques massivos de mísseis deixam milhões de pessoas sem luz e sem aquecimento. Todos os dias, as Forças Armadas da Ucrânia perdem soldados que poderiam ter sido salvos se o Ocidente tivesse prestado apoio mais cedo.

As sanções devem ser reforçadas, não enfraquecidas. A rússia adaptou-se às sanções e está a aumentar a produção de equipamento militar. Os esquemas de desvio por parte de países terceiros, incluindo a Turquia, os Emirados Árabes Unidos e o Cazaquistão, ainda estão em funcionamento. A UE e os EUA devem fechar todas as brechas para que a federação russa fique privada dos recursos necessários para travar uma guerra.

Ucrânia precisa de ser membro de pleno direito da NATO. A experiência de 2022-2024 mostrou que, sem garantias da NATO, a rússia não irá parar. O exército ucraniano já cumpre os padrões da Aliança. O longo atraso na adesão da Ucrânia à NATO só encoraja o Kremlin a novos ataques.

Ucrânia continua a ser o maior obstáculo às ambições imperiais do Kremlin. Sem a Ucrânia, a rússia não será capaz de restaurar o seu império. As Forças Armadas da Ucrânia aniquilaram cerca de 350.000 soldados russos durante os três anos de guerra. Ucrânia já destruiu o mito do «invencibilidade» do exército russo.

Ucrânia está a resistir, mas precisa de mais ajuda para vencer. Os ucranianos provaram a sua resiliência, mas os recursos não são ilimitados. Sem o apoio adequado, a guerra poderia prolongar-se, o que só beneficiaria a rússia. Uma assistência rápida, poderosa e contínua é o caminho para a vitória da Ucrânia e de todo o mundo democrático. 

Blogueiro 

Declarado como foto não oficial de uma remessa de tanques com rodas B1 Centauro de Itália para Ucrânia. Não há qualquer anúncio oficial. Em setembro de 2024, Ucrânia apresentou um pedido de fornecimento de armas desativadas do maior local de armazenamento de equipamento italiano na Europa.

domingo, fevereiro 23, 2025

3º aniversário da invasão russa em grande escala: conquistas diplomáticas da Ucrânia

Foto: Getty Images/BBC

Apesar da situação extremamente difícil na frente, Ucrânia conseguiu manter e expandir o apoio internacional. Graças ao persistente trabalho diplomático, Kyiv continua a receber ajuda, alarga a sua coligação de aliados e aproxima-se da adesão à UE e à NATO.

Ucrânia tornou-se um actor geopolítico de pleno direito. Kyiv está agora não apenas a conduzir a diplomacia, mas a moldar a agenda no cenário internacional. Ucrânia tornou-se um estado fundamental para garantir a segurança europeia. A questão ucraniana continua a ser central para a política mundial.

Ucrânia tornou-se o primeiro país do mundo a receber e a utilizar eficazmente armas da NATO na guerra contra a federação russa. Os EUA, a UE, o Reino Unido e o Canadá forneceram à Ucrânia mais de 100 mil milhões de dólares de apoio militar. Aeronaves F-16, sistemas de defesa aérea Patriot, MBT Abrams e Leopard, sistemas de mísseis HIMARS – Ucrânia recebeu tudo isto graças à diplomacia persistente.

Ucrânia já faz parte da Aliança, de facto, pois recebe assistência militar e passa por treinos de acordo com as normas da NATO. A cimeira da NATO em 2024 confirmou que Ucrânia seria membro da Aliança após a guerra. Os militares ucranianos são treinados nos países da NATO, o que aumenta significativamente o seu nível de prontidão para o combate.

Ucrânia interpôs ações judiciais em tribunais internacionais pedindo indemnização por danos e confisco de bens russos. A questão de estabelecer um tribunal internacional para crimes russos está a ser ponderada. Os activos russos congelados nos EUA e na UE (mais de 300 bilhões de dólares) podem ser transferidos para ajudar a reconstruir Ucrânia.

Mais de 50 países em todo o mundo apoiam Ucrânia financeira, política e militarmente. A expansão do formato Ramstein permitiu um fornecimento constante de equipamentos militares.

Ucrânia restabeleceu contactos com países de África, América Latina e Ásia. A iniciativa dos cereais provou que Kyiv se preocupa com a segurança alimentar global, ao contrário da federação russa. A rússia perdeu parte do apoio entre os países neutros.

sábado, fevereiro 22, 2025

3º aniversário da invasão russa: heroísmo da Ucrânia e conquistas no campo de batalha

No terceiro aniversário da invasão russa em grande escala, Ucrânia continua a manter a sua posição e a infligir graves perdas à federação russa. Apesar da falta de recursos, as Forças Armadas da Ucrânia demonstram resiliência, desenvoltura e destreza em combate.

A rússia já sofreu uma derrota estratégica: não conseguiu destruir a Ucrânia. Os militares ucranianos provaram que conseguem derrotar a rússia.

Ucrânia deteve o exército russo, que em 2022 era considerado «o segundo do mundo». As contra-ofensivas nas regiões de Kharkiv e Kherson em 2022 tornaram-se um avanço estratégico. O esgotamento das forças russas em Bakhmut, Avdiivka e Kupyansk em 2023-2024 mostrou a eficácia da defesa das Forças Armadas da Ucrânia.

A iniciativa militar é mantida – mesmo em condições difíceis. As tropas ucranianas continuam a atacar instalações de retaguarda russas, atingindo bases, armazéns e quartéis-generais inimigos.

Os militares ucranianos adaptam-se às mudanças no campo de batalha mais rapidamente do que os russos. A utilização de drones FPV permite destruir eficazmente o equipamento inimigo, mesmo quando há escassez de projéteis.

Os ataques ucranianos destruíram parte da frota russa do Mar Negro, tornando-a incapaz de combater. O regresso do controlo sobre as rotas marítimas permitiu que as exportações de cereais fossem retomadas sem a «permissão» do Kremlin. A federação russa já não pode dominar o Mar Negro – este é um sucesso estratégico para Ucrânia.

Repelir os ataques russos é uma vitória fundamental em 2024-2025. Os militares ucranianos impediram ataques russos maciços perto de Pokrovsk e Kupyansk, o que impediu a federação russa de avançar significativamente mais. O sucesso das operações defensivas ucranianas significa que, mesmo com menos recursos, a Ucrânia pode infligir pesadas perdas à federação russa.

A desocupação da Crimeia já não é uma fantasia. Ucrânia continua a atacar instalações militares na Crimeia, destruindo armazéns, defesas aéreas e aeronaves inimigas. As perdas russas no Mar Negro significam que a Crimeia está a tornar-se cada vez mais vulnerável. A federação russa já não se pode sentir segura nos territórios temporariamente ocupados (TOT) da Ucrânia.

A resistência ucraniana está operar ativamente no TOT, em particular em Melitopol, Berdyansk, Luhansk e Crimeia. Os ataques aos colaboradores russos minam o controlo da federação russa sobre os territórios ocupados. O movimento de resistência demonstra: mesmo nas condições mais difíceis, os ucranianos não desistem.

Durante os três anos de guerra, a rússia perdeu mais de 800.000 soldados (KIA, MIA, feridos). Mais de 6.000 tanques e veículos blindados, dezenas de navios e até 1 submarino foram destruídos. O ritmo de mobilização na federação russa mostra que o exército está a ser esgotado, e isso é mérito das Forças Armadas da Ucrânia.

As táticas de combate ucranianas estão a mudar as regras da guerra. O uso de drones, reconhecimento em tempo real e mapas de combate digitais tornou-se o padrão da guerra moderna. Os inventores ucranianos estão a desenvolver novas tecnologias que ajudam a derrotar o inimigo. O exército ucraniano está a tornar-se um dos mais fortes do mundo, integrando-se de facto na NATO.

O espírito ucraniano é a principal arma contra a rússia. Mesmo nos momentos mais difíceis, a Ucrânia não perdeu a fé na vitória. O movimento voluntário continua a ajudar o exército, apoiando a frente e a retaguarda.

terça-feira, janeiro 14, 2025

Como Ucrânia provou a sua capacidade de resistir à rússia

Imagem ilustrativa: Defence Imagery / OGL v3.0
A rússia continua a tentar minar a confiança na Ucrânia – tanto a nível interno como internacional. Estão a ser utilizadas uma variedade de narrativas de propaganda: desde a alegada incapacidade das autoridades ucranianas para conduzir uma mobilização eficaz até à possível cessação da assistência dos parceiros internacionais.

Quando a rússia lançou uma invasão em grande escala, a 24 de fevereiro de 2022, um número significativo de países ocidentais duvidou da capacidade da Ucrânia para resistir a um inimigo dez vezes superior. Mas a realidade superou todas as expectativas. A liderança político-militar ucraniana demonstrou coerência, determinação e eficiência. O Presidente Volodymyr Zelensky tornou-se um símbolo de resiliência, os seus discursos inspiraram milhões de ucranianos e a comunidade internacional a lutar.

Hoje, o exército ucraniano continua a demonstrar ao mundo a sua capacidade não só de defender o país, mas também de manter eficazmente os territórios libertados. As Forças Armadas da Ucrânia estão a implementar com sucesso três tarefas principais: impedir avanços em larga escala das tropas russas na linha da frente, dissuadir o exército inimigo e destruir as suas forças. Os militares ucranianos interromperam a ofensiva das forças russas na região de Kharkiv e impediram o seu ataque à região de Sumy, impedindo o inimigo de criar uma «zona tampão» no nordeste da Ucrânia. Em agosto de 2024, as FAU lançaram uma operação na região russa de Kursk, que obrigou o comando russo a transferir mais de 50.000 militares para esta zona, enfraquecendo as suas posições noutras frentes. Em 2024, os militares ucranianos destruíram mais pessoal e equipamento inimigo do que nos anos anteriores da guerra, o que enfraqueceu significativamente o potencial ofensivo do exército russo.

As autoridades ucranianas são acusadas de viverem o «caos de mobilização», mas os fatos indicam o contrário. Ucrânia está a implementar uma abordagem sistemática para mobilizar e formar os seus defensores. Com o apoio dos parceiros dos países da NATO, dezenas de milhares de militares ucranianos foram treinados de acordo com os padrões mais modernos. A eficácia de combate das FAU tornou-se óbvia até para os militares russos, que reconheceram repetidamente o profissionalismo do exército ucraniano. As alegações de «deserção em massa», incluindo histórias mal contadas dos soldados que foram treinados em França, são infundadas. Assim, a 155ª Brigada «Anna de Kyiv» capturou 4 soldados russos na direção de Pokrov há alguns dias. Apesar de todos os problemas, a brigada continua a ganhar experiência de combate. Os soldados ucranianos continuam a demonstrar uma motivação e um patriotismo incríveis, o que se tornou um fator decisivo para dissuadir o agressor.

Os meios de comunicação russos propagam regularmente a ideia de que os EUA e a Europa estão «cansados» de ajudar Ucrânia e que o financiamento será interrompido. Contudo, na realidade, o apoio à Ucrânia só está a aumentar. Por exemplo, os EUA decidiram repetidamente por novos pacotes de assistência militar e financeira, e a UE continua a investir na estabilidade da Ucrânia. Na cimeira da Força Expedicionária Conjunta (JEF) em Tallinn, os países participantes concordaram em prestar assistência militar à Ucrânia em 2025, num total de 12 mil milhões de euros. A questão do apoio à Ucrânia tornou-se fundamental para o mundo democrático.

A propaganda russa afirma que «o tempo está a trabalhar contra Ucrânia». Mas a realidade é diferente. As sanções, o isolamento económico e a escassez de recursos estão a minar a capacidade da rússia para continuar a guerra. Entretanto, a Ucrânia está a receber cada vez mais armas, incluindo sistemas de longo alcance que lhe permitem atacar centros logísticos em território russo. A economia ucraniana está a adaptar-se aos desafios da guerra, enquanto a economia russa está a mergulhar na crise. O mundo compreende que um conflito prolongado será desastroso para a rússia, e não para Ucrânia.

Apesar da rússia estar a tentar desacreditar a Ucrânia através da sua propaganda, a verdade e os factos continuam do lado do povo ucraniano. Ucrânia está a demonstrar ao mundo que é capaz de defender eficazmente as suas fronteiras, mobilizar recursos e manter-se resiliente para repelir a agressão russa. O Ocidente continuará a ajudar Ucrânia, porque esta é uma luta não só pela integridade territorial de um Estado, mas também pelo futuro de toda a Europa.

domingo, outubro 20, 2024

As interferências do Kremlin nos processos democráticos europeus

Nos últimos anos, a interferência da rússia nos assuntos internos de outros países tornou-se um fenómeno que preocupa seriamente a comunidade internacional. O exemplo mais recente é a Moldova. As autoridades moldovos acusaram a rússia de tentar minar o referendo sobre a adesão do país à União Europeia. Este incidente faz parte de uma estratégia mais vasta do Kremlin que já foi ativamente utilizada em vários países europeus, por exemplo, na Ucrânia.

O governo moldovo informou recentemente que a rússia transferiu mais de 15 milhões de dólares para as contas dos cidadãos moldovos, a fim de influenciar os resultados do referendo e impedir a adesão do país à UE. Segundo o chefe da Polícia Nacional da Moldova, Viorel Cernauteanu, o dinheiro foi transferido por um banco afiliado no Ministério da Defesa russo. De seguida, os destinatários foram instruídos via Telegram sobre como votar e espalhar desinformação sobre a UE. Em particular, a rússia tentou manipular mais de 130 mil cidadãos para espalhar notícias falsas, provocar agitação e atacar instituições governamentais. Este é um exemplo claro de como a rússia utiliza métodos subversivos para interferir nos processos políticos dos Estados soberanos e sabotar o seu desenvolvimento democrático.

Outros países têm problemas semelhantes. Há interferência da rússia não só nos países pós-soviéticos, mas também nos países da UE e da NATO. Devemos recordar as eleições presidenciais dos EUA em 2016 e em 2020, quando os responsáveis ​​russos lançaram campanhas de desinformação e ataques cibernéticos, minando significativamente a confiança no sistema eleitoral americano. A rússia também fez o mesmo no Reino Unido para influenciar o referendo do Brexit, bem como as eleições em França e na Alemanha, recorrendo a ataques cibernéticos e à desinformação. O principal objectivo é minar as instituições democráticas, semeando a discórdia e a desconfiança entre os cidadãos, enfraquecendo as democracias ocidentais e minando a sua estabilidade.

Para além da subversão, a rússia tenta que os seus agentes de influência ocupem altos cargos noutros países, de forma a influenciar a tomada de decisões. Um exemplo são as tentativas de interferir nas eleições para o Parlamento Europeu, onde políticos pró-rússia foram apoiados para fortalecer a influência do Kremlin nas organizações europeias e promover decisões que minam a unidade da UE. De acordo com as investigações, existem ligações entre alguns políticos europeus, incluindo membros do Parlamento Europeu, e os serviços de informação russos ou o seu apoio a posições pró-russas, como sanções anti-russas e políticas contra Ucrânia. O Chipre é aqui o melhor exemplo, onde as forças pró-rússia e os lobistas tentaram promover os interesses de Moscovo utilizando a alavancagem financeira e as ligações para influenciar as instituições europeias, incluindo o Parlamento Europeu.

Na Ucrânia, a interferência da rússia foi ainda mais agressiva. Em 2014, a rússia organizou um referendo na Crimeia sob a mira de uma arma, anexando ilegalmente a península. Estas acções foram acompanhadas por declarações falsas sobre a necessidade de “proteger a população russófona”, mas na realidade esconderam as ambições imperiais do Kremlin – tomar o máximo de território possível. Um cenário semelhante está a ocorrer nos territórios temporariamente ocupados (TOT) do leste da Ucrânia. Os padrões internacionais não foram cumpridos durante os chamados referendos. Foi realizada sob total controlo dos militares russos e sem a participação de observadores internacionais.

A rússia utiliza a retórica de protecção e alegado apoio aos falantes de russo para justificar as suas acções na arena internacional. Contudo, na realidade, isto é apenas um pretexto para continuar a expansão agressiva e tentar restaurar a influência na região. É importante compreender que qualquer interferência nos assuntos internos dos Estados soberanos (desinformação, pressão financeira, promoção de agentes de influência ou agressão aberta) mina a paz e a estabilidade na Europa e no mundo inteiro.

A comunidade internacional deve condenar veementemente a interferência da rússia nas eleições e nos referendos de outros países e pôr fim a tais incidentes. A soberania e a autodeterminação são os fundamentos do direito internacional e não podem ser postas em causa por ações agressivas externas.

quarta-feira, setembro 18, 2024

Chantagem nuclear russa e mísseis ocidentais de longo alcance


putin está mais uma vez a ameaçar o mundo com armas nucleares, utilizando a sua habitual retórica de ameaças e chantagem. Desta vez, o seu objetivo é impedir a concessão de permissão à Ucrânia para utilizar armas de longo alcance ao território russo.

O Kremlin está a tentar impedir ataques a alvos estratégicos no seu território, percebendo que isso enfraquecerá seriamente as suas capacidades militares. Apesar de tais ameaças, o mundo está cada vez mais a perceber que este é mais um bluff por parte do líder russo.

A situação está a tornar-se tão absurda que, segundo a publicação alemã Der Spiegel, putin chegou mesmo a recorrer a consultas com xamãs mongóis para obter “permissão espiritual” para usar armas nucleares. Esta não é a primeira vez que recorre aos xamãs, pois antes da invasão em grande escala da Ucrânia visitou Tuva, considerando estas visitas importantes para o seu poder. Embora este relatório pareça uma manchete de um tablóide, provém de uma fonte séria, o que mostra o nível de desespero a que o líder russo atingiu.

Embora putin ameace o mundo, os especialistas e políticos ocidentais não consideram as suas ameaças sérias. O ministro dos Negócios Estrangeiros polaco, Radoslaw Sikorski, disse que o Ocidente não deve temer a chantagem nuclear. Segundo ele, os aeródromos russos onde assenta a aviação estratégica são um alvo legítimo para a Ucrânia, e é tempo de levantar todas as restrições ao uso de armas ocidentais nestas instalações. “putin não vai iniciar uma guerra com a NATO, as suas ameaças nucleares continuam vazias”, observou Sikorsky.

Entretanto, a Ucrânia continua a sofrer diariamente com os ataques russos. Segundo o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, as aeronaves russas estão a utilizar bombas teleguiadas contra as infraestruturas ucranianas, destruindo cerca de 80% da rede energética do país. Cada novo ataque do Kremlin prova que é vital para a Ucrânia obter permissão para atacar alvos militares russos. Sem isso, a Ucrânia não será capaz de proteger eficazmente as suas cidades e os seus cidadãos.

Os apelos a tais poderes são cada vez mais elevados. Cinco ex-ministros da Defesa do Reino Unido já pediram ao governo que permita à Ucrânia utilizar mísseis Storm Shadow em território russo. Este apoio, juntamente com as ações dos Estados Unidos, França, Alemanha e Itália, poderá reforçar significativamente as capacidades defensivas da Ucrânia.

As conclusões são óbvias: o atraso custa a vida aos ucranianos. Cada dia de destruição e de morte aproxima a tragédia de toda a Europa. A perda da Ucrânia nesta guerra não será apenas a sua derrota - será um golpe para a NATO e para todo o mundo democrático. Proteger os ucranianos é proteger toda a Europa e os aliados devem agir imediatamente para evitar novas catástrofes.

quinta-feira, setembro 05, 2024

A “inocência imperial”: a especialidade intelectual do imperialismo russo

Muitos russos, mesmo entre os que se opõem à guerra da Rússia contra Ucrânia, ainda hesitam em assumir responsabilidades, atribuindo a invasão à provocação da NATO ou a teorias da conspiração sobre a intromissão dos EUA e um golpe de Estado. Os especialistas dizem que isto acontece porque a mentalidade de “vítima” persiste hoje na sociedade russa. Mas porque é que isso acontece? 

Esta foi a primeira pergunta à Dra. Botakoz Kassymbekova, professora assistente de História Moderna na Universidade de Basileia, especializado em história imperial soviética e russa.

Como sabem, Catarina, a Grande, justificou a colonização do Cáucaso como uma missão cristã de bondade. Os historiadores russos liberais, críticos fervorosos de Vladimir Putin, como Yuri Pivovarov, afirmam que o colonialismo russo foi benéfico ou mesmo crucial para a sobrevivência dos colonizados. Recentemente, sugeriu que os não-russos beneficiaram do império russo porque os seus autores foram traduzidos para a língua russa e tornaram-se conhecidos por mais pessoas, sugerindo que de outra forma os “selvagens” nem sequer seriam conhecidos pelo mundo.

É claro que ele pensa que a desintegração da federação russa não será benéfica para as repúblicas não russas. A ideia de que a rússia civiliza e permite prevaleceu desde a minha infância, com os professores russos a afirmarem que deveríamos estar gratos por termos evitado o destino da Índia sob o domínio colonial britânico. Esta auto-imagem de um poder benevolente e sacrificado está profundamente enraizada no discurso russo.

Quando vejo com que violência desumana os soldados russos colonizam a Ucrânia, traço paralelos entre este discurso de benevolência e inocência e a violência extrema, ambos estão interligados. Defendo que esta violência decorre de um desejo de punir. Portanto, o exército russo não se limita a ocupar, quer castigar os ucranianos por não sentirem gratidão pela grandeza russa, pela deslealdade. Os ucranianos para eles são traidores, que não apreciaram o sacrifício russo. A mensagem é clara: 'Trouxemos-lhe bondade, sofremos e deve estar grato. Caso contrário, será punido. Este pensamento paternalista acaba por se traduzir em desumanidade. A extrema crueldade a que assistimos na Ucrânia está enraizada nesta narrativa imperial mais ampla, alimentada pelo regime, pela sociedade e pelos intelectuais russos.”

A expansão colonial russa envolveu frequentemente o envio de prisioneiros ou párias, que de outra forma poderiam ser aprisionados, para territórios distantes como a Sibéria, o Cáucaso e a Ásia Central. Isto também se verificou na fundação do sistema Gulag, que se destinava à colonização de áreas remotas. Este conceito, conhecido como colonização penal, foi também praticado para colonizar a Austrália.

Há uma narrativa forte que combina a vitimização e a expansão imperial. Mesmo como prisioneiros, os russos foram colonizadores destes lugares distantes, o que fortaleceu a identidade cultural de sofrimento e sacrifício. Esta experiência produziu uma figura cultural do colonizador que era também um cativo, mais fortemente expressa na figura do Cativo Caucasiano, primeiro criado por Pushkin e depois recontado por Tolstoi, Lermontov, autores soviéticos e depois russos pós-soviéticos. A ideia base é que a Rússia sacrificou os seus melhores filhos para salvar (leia-se colonizar) os não-russos. Esta narrativa está também ligada à ideia da rússia como a “Terceira Roma”, responsável por proteger os valores cristãos e encarnar o dever moral de sofrer.

Tenho notado que os russos reivindicam frequentemente o estatuto de vítimas quando discutem história e política, como o Holodomor ou o “Renascimento Executado” na Ucrânia. Sempre que eu mencionava estes acontecimentos com os russos, eles rapidamente apontavam que também eram vítimas, como se isso fosse uma defesa útil.

“Sim, é compreensível porque muitos russos sofreram de facto. No entanto, o conceito de vitimização varia consoante o contexto. A nação ucraniana, por exemplo, enfrentou tentativas de apagar a sua literatura, pensamento e independência. Embora muitos russos, incluindo críticos do regime, tenham sido presos e sofridos sob o domínio soviético, as experiências diferem significativamente. A cultura, a língua e a literatura russas foram celebradas e preservadas, mesmo durante a era soviética. Em treze dos quinze hinos republicanos soviéticos, os não-russos tiveram de agradecer aos russos a sua felicidade. Em contraste, as culturas ucraniana, cazaque, chechena e outras culturas foram suprimidas e as suas línguas lutaram para sobreviver.

A diferença na vitimização reside não só nos números – como a morte catastrófica de 40% da população do Cazaquistão – mas também no impacto cultural mais amplo. Embora os intelectuais e os clássicos russos prosperassem, também porque os recursos estavam concentrados nas metrópoles, muitas outras culturas não conseguiram desenvolver-se de forma semelhante ou foram extintas. Esta disparidade pode ser difícil de reconhecer, especialmente quando se considera a cultura de alguém como especial e benéfica para os outros. No início da década de 1990, alguns intelectuais russos reconheceram e falaram sobre esta questão, mas tais vozes tornaram-se mais raras desde a década de 2000. O desejo de grandeza nacional ofusca, muitas vezes, a capacidade de reconhecer os outros como iguais e dignos de reconhecimento. Ainda não se sabe se isso vai mudar.”

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