A 23 de junho de 1941, teve início uma das maiores batalhas de tanques da história da II G.M., conhecida como batalha de Brody, ocorrida na Ucrânia entre as cidades de Lutsk, Dubno, Brody e Rivne.
Aconteceu apenas um dia após a Alemanha nazi ter atacado e invadido a URSS.
O 1º Grupo Panzer do Coronel-General Ewald von Kleist rompeu as defesas soviéticas na zona da fronteira. O comando da Frente Sudoeste do RKKA ordenou que o corpo mecanizado contra-atacasse
o grupo alemão. Aproximadamente 3.000 tanques e canhões de assalto soviéticos e mais de 700 alemães participaram nos combates. O Exército Vermelho utilizou tanques ligeiros T-26, BT-5 e BT-7,
tanques de múltiplas torres T-28 e T-35, o novo tanque médio T-34 e os tanques pesados KV-1 e KV-2. As divisões alemãs possuíam tanques Panzer I, Panzer II, Panzer III, Panzer
IV, veículos Panzer 35(t) e Panzer 38(t) de fabrico checoslovaco, tanques de comando e canhões de assalto autopropulsados (howitzer) StuG III.
O blindado médio soviético T-34 à arder. Foto: Bundesarchiv
Os combates continuaram até 30 de junho de 1941, numa vasta área entre Lutsk, Dubno e Brody. Os 8º, 9º, 15º, 19º e 22º corpos mecanizados soviéticos
entraram na batalha em grupos separados, após longas marchas durante as quais os seus equipamentos consumiam o combustível, partiam-se e ficavam para trás. Partes do 8º corpo mecanizado soviético
romperam as linhas alemãs e chegaram ao Dubno a 27 de junho, onde foram atacadas por tanques, artilharia e aviões alemães. Falhas de comunicação, escassez de combustível, munições,
equipamento de reparação e transporte dificultaram a coordenação dos ataques soviéticos. No final da batalha, o corpo mecanizado soviético tinha perdido cerca de 2.500 a 2.600 tanques,
destruídos, danificados ou abandonados devido a falhas ou falta de combustível. As tropas alemãs mantiveram a sua ofensiva, tomaram Dubno e continuaram o seu avanço pelo interior da Ucrânia.
O blindado pesado soviético KV-2 danificado. Foto: Bundesarchiv
Em primeiros 3 à 4 meses da guerra nazi-soviética, os alemães capturaram cerca de 2.300 milhões de soldados e oficiais do RKKA...
Quando hoje em dia a elite política polaca produz as declarações mal-ponderadas sobre o passado histórico comum, e as figuras como o presidente Karol Nawrocki privam
o Presidente da Ucrânia de condecorações (ofendendo, assim o povo ucraniano) por causa da chamada «história problemática», surge uma questão lógica: e a história
problemática da Polónia?
Antes de fazerem juízos morais e julgarem os outros, os vizinhos da Ucrãnia deveriam recordar as páginas negras da história polaca, que, por alguma razão, a Varsóvia atual prefere ignorar. Por exemplo, sobre a estreita, cínica e totalmente oficial cooperação entre a Segunda República Polaca e a Alemanha nazi na década de 1930.
A aproximação entre os dois Estados começou em 1934, após a chegado do Hitler ao poder. Depois, a 26 de janeiro, por iniciativa de Józef Piłsudski e Adolf Hitler, foi assinada em Berlim a «Declaração
sobre a Não Utilização da Força». Depois disso, os contactos só se intensificaram, em particular, em Junho de 1934, quando Piłsudski recebeu pessoalmente o Ministro da Propaganda
do 3º Reich, Joseph Goebbels, em Varsóvia.
«Declaração sobre a Não Utilização da Força» ente 3º Reich e Polónia, janeiro de 1934
Quando Józef Piłsudski morreu, a 12 de Maio de 1935, Adolf Hitler declarou luto nacional na Alemanha. No seu telegrama ao governo polaco, chamou ao marechal «o criador de
um novo país» e observou: «Juntamente com o povo polaco, o povo alemão lamenta a morte deste grande patriota, que, através da sua ampla cooperação com os alemães, prestou
um grande serviço não só aos nossos países, mas também prestou uma assistência inestimável na pacificação da Europa».
Adolf Hitler na cerimónia especial de luto pelo Józef Piłsudski, Berlin, maio de 1935
Ao mesmo tempo, a publicação nazi mais extremista, o jornal «Völkischer Beobachter» escreveu: «A nova Alemanha inclina as suas bandeiras e estandartes diante
do caixão deste grande estadista, que foi o primeiro a ter uma confiança aberta e uma aliança plena com o Reich Nacional Socialista».
O alto dirigente nazi, Hermann Goering esteve pessoalmente presente no funeral de Piłsudski. Alguém já viu fotos de dirigentes do movimento nacional ucraniano, como Yevhen
Konovalets ou Stepan Bandera, ou militares do UPA juntamente com os dirigentes nazis? Já a liderança polaca tem um currículo muito rico neste domínio...
O dirigente nazi Hermann Goering no funeral de Piłsudski em Varsóvia, maio de 1935
Por exemplo, durante 1938-1939, figuras-chave do regime nazi vieram à Polónia em visitas oficiais: o chefe da polícia, o general Kurt Daluege, o ministro da Justiça,
Hermann Frank, e o líder das SS e chefe da Gestapo, Heinrich Himmler. Em resposta a estas visitas amistosas, o chefe da polícia polaca, General Zamorski, em 1938, a convite dos seus amigos nazis alemães,
participou no congresso do NSDAP em Nuremberga.
Os seus planos imperialistas não eram muito diferentes. Durante o infame Acordo de Munique (Setembro-Outubro de 1938), quando a Grã-Bretanha, a França e a Itália
cederam ao Hitler os Sudetas, a Polónia não ficou de fora, optando por abocanhar uma parte para si. Uma semana antes da assinatura do acordo de Munique, Varsóvia denunciou o seu acordo com a Checoslováquia sobre
as minorias nacionais. Isto favoreceu Hitler na perfeição, dando às suas ações a aparência de uma solução «internacional» para o problema. Logo aos 2 de outubro
de 1938, as tropas polacas ocuparam a Silésia de Cieszyn, anexando território checoslovaco com uma população de 230 mil pessoas.
O aperto das mãos entre o marechal polaco Edward Rydz-Śmigły e o adido militar alemão, coronel Bogislav von Studnitz (1888-1943) durante a parada do «Dia de Independência» em Varsóvia aos 11 de novembro de 1938
E os territórios da Ucrânia Ocidental, que os políticos polacos tanto gostam de referir? Os diplomatas polacos da época falavam abertamente dos seus apetites geopolíticos.
Por exemplo, em dezembro de 1938, o diplomata polaco Jan Karszo-Sidlowski, numa conversa com um colega alemão, afirmou directamente:
«A perspectiva política para a Europa de Leste é clara. Dentro de alguns anos, a Alemanha estará em guerra com a União Soviética, e a Polónia
apoiará a Alemanha nessa guerra... Os interesses territoriais da Polónia no Leste, principalmente à custa da Ucrânia, só podem ser garantidos através de um acordo polaco-alemão
previamente alcançado». A história ocorreu numa outra direção, porque dois maiores ditadores, Hitler e Estaline chegaram a um acordo mútuo mais rapidamente e, logo em setembro de 1939, a Alemanha
atacou os seus antigos aliados polacos. No entanto, estes factos são um lembrete vívido de que aqueles que fechavam os olhos aos crimes nazis em prol de possibilidade de obter os territórios no leste não
devem, definitivamente, dar lições aos ucranianos sobre a sua própria visão «correta» da história comum.
Naturalmente, os políticos da extrema-direita polaca, principalmente partidos PiS, Konfederacja, o presidente Nawrocki, e seus aliados, alguma pequena burguesia polaca ressentida, não representam todo
o povo polaco. Ucrânia e ucranianos estão gratos pelo apoio da Polónia, militar e logístico, dado após o início da invasão russa, em 24.02.2022. Mas os polacos precisam de perceber
uma coisa, único cominho possível de conviver em paz e respeito mútuo com Ucrânia é a formula «perdoamos e pedimos perdão». Ucrânia nunca criticou a Polónia pela glorificação
das suas forças nacionalistas e anti-comunistas da época da II G.M., como AK, BH, e outras, muitos dos quais derramaram o sangue ucraniano e cometeram crimes horríveis contra as populações ucranianas. Do mesmo jeito, Ucrânia espera que Polónia não interfira nos assuntos internos ucranianos e não tenha a fantasia de querer ditar a política da memória nacional da Ucrânia,
em relação as formações nacionalistas ucranianas, que na II G.M. lutavam contra a ocupação alemã, soviética e polaca.
Todos os presidentes ucranianos vivos, detentores da ordem polaca Águia Branca (Order Orła Białego), renunciaram a ordem, em solidariedade com presidente Volodymyr Zelensky, à quem a ordem foi retirada pela decisão unilateral do presidente Karol Nawrocki. Entre eles, o 2º presidente Leonid Kuchma (foi condecorado em 1997), 3º presidente Viktor Yuschenko e 5º Petró Poroshenko. Além disso, vários estadistas ucranianos, também renunciaram as condecorações polacas civis e militares, casos do chefe da Presidência da República, general Kyrylo Budanov e do Ministro dos Negócios Estrangeiros / das Relações Exteriores, Dr. Andriy Sibiha, entre outros.
«Lustige Blätter» (Páginas Cómicas) era a revista satírica do 2º, e depois do 3º Reich, publicada na Alemanha de 1852 à 1944. Durante todo
este período, nunca publicou uma única caricatura dos dirigentes alemães, mesmo os retratando de forma positiva.
De 1939 à 1944 um dos seus alvos preferidos era Sir Winston Churchill, o primeiro-ministro britânico. Em menor plano, a revista também caricaturava o presidente dos EUA,
Franklin D. Roosevelt e o ditador soviético Estaline. É de notar, que alguns temas e até as narrativas, textuais e visuais, criadas pela revista, hoje são reaproveitados pela propaganda gráfica
russa, tendo como alvo o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky.
«Resultados da Ofensiva de Inverno. Ele mordeu o aço». Os alemães sofreram as primeiras derrotas na Frente Leste na batalha de Moscovo no inverno de 1941. Os propagandistas tentam transformar a derrota em vitória. Edição nº 22/1942.
«A nossa proposta». A assinatura no monumento: general Lynch. «Um monumento aos negros deveria ser erigido nos Estados Unidos; provavelmente se parecerá com isso». A propaganda alemã tenta jogar a cartada racial. Edição nº 45/1943.
«Informações dos EUA». Quando o Tio Sam fala, a verdade está de pernas para o ar. Edição nº 45/1943.
«Ele parece não está gostar deste cocktail». Winston Churchill acaba de servir o leão britânico, agora bastante magro, uma mistura de sangue e lágrimas (suor e trabalho árduo omitidos). Uma referência ao primeiro discurso de Churchill como Primeiro-Ministro: «Não tenho nada para vos oferecer além de sangue, trabalho árduo, lágrimas e suor». Edição nº 17/1942.
«Sou amigo de todos os países pequenos». Churchill retira a máscara. A caricatura insinua que os britânicos usam outros países para lutar. Muito parecido com as constantes acusações russas ao Boris Johnson e outros Primeiros-Ministros britânicos. Edição nº 31/1941.
«Singapura. A Fortaleza Mais Forte do Mundo». A revista celebra os sucessos japoneses; em 15 de fevereiro de 1942, a Singapura britânica foi ocupada pelo Japão. Edição nº 7/1942.
Winston Churchill tenta manter a Inglaterra unida com tábuas etiquetadas como «promessas». Fá-lo com pregos de um cesto etiquetado como «Mentiras». Edição nº 23/1942.
«Acredite nele, Grã-Bretanha. Ele só quer protegê-la», diz Churchill. A crítica nazi da aliança entre a Grã-Bretanha e a URSS. Edição nº 18/1942.
«Gigantomania Americana». Legenda: «Não é maravilhoso? O motor é tão potente que voa sozinho, deixando o avião e a tripulação ilesos». Os nazis tentam descridibilizar a aviação americana. Edição nº 23/1942.
«A Espada do Samurai. Rasgará a Boca a Qualquer Um». A reação alemã ao ataque japonês a Pearl Harbor, a 7 de dezembro de 1941. A Alemanha e a Itália declararam guerra aos Estados Unidos a 11 de dezembro, e Roosevelt tornou-se imediatamente alvo de cartoons. Edição nº 2/1942.
«O que escondes atrás das costas, Franklin?», pergunta a América do Sul. «As nossas alianças de casamento». Os nazis acusam os Estados Unidos de tentarem subjugar a América do Sul. Edição nº 6/1942.
«Uma Criança Ambiciosa» Uma mãe para um padre: «Reverendo, não é um doce? Quer ser um comissário soviético inglês quando crescer». Uma acusação de que os britânicos, se tornariam em breve bolcheviques. Edição nº 7/1944.
«Torpedo ou Bomba? Nenhum dos dois — uma tempestade!» Janeiro de 1943, a derrota das tropas alemãs em Estalinegrado. As únicas boas notícias desse período eram dadas pela Kriegsmarine. Edição nº 5/1943.
«Abrigo Antibombas contra os Navios em Afundamento». A caricatura retrata as criaturas do mar, que procuram abrigo dos navios aliados, afundados pelos submarinos alemães. Na primavera de 1943 começaram bombardeamentos intensos anglo-americanos da Alemanha. Fonte: Edição nº 18/1943.
«O Polvo» Os tentáculos do compló judeu controlam a Inglaterra, URSS, Estados Unidos e China. Edição nº 27/1943.
«O Candelabro Americano». Outra dose de anti-semitismo. Edição nº 27, 1942.
Título da caricatura: «A transfusão de sangue». Edição nº 35, 1944.
«O Seu Caminho para 'Libertar' a Europa». A guerra está quase perdida e a propaganda alemã traça retratos cada vez mais sombrios do inimigo. Edição nº 37, 1944.
Aos 27 de maio de 1987, na auge de Perestroika, o piloto reformado/aposentado, ucraniano Roman Svistunov, desertou da Letónia soviética para a Suécia, a bordo de um avião agrícola,
o An-2P.
Um An-2 típico
Roman Svistunov (nascido em 1963), chamado na imprensa sueca de Svistonov, de acordo com as regras gramaticais suecas, tinha na altura 24 anos. Vivia em Mykolaiv na Ucrânia. Era casado e tinha uma filha e um filho, mas já não
vivia com a família. Tinha patente militar de tenente, mas foi dispensado do exército soviético e transferido para a reserva, após disso, ingressou na aviação
civil, onde trabalhou como piloto de aviões agrícolas.
Como Svistunov relatou mais tarde, depois de ter sido dispensado e transferido para a reserva, sentiu injustiçado, começando odiar o regime soviético. A sua mãe,
que não gostava do regime soviético, também o pode ter influenciado. Assim, já por volta de 1984, Roman decidiu fugir para Ocidente.
Algumas semanas antes da sua fuga, ele visitou um ex-colega na Letónia, que também era piloto. É possível que, durante este período, Svistunov, fazendo-se
passar por mecânico, tenha conseguido fazer amizade com o pessoal do aeródromo.
Na noite de 26 para 27 de maio, Roman Svistunov e o seu amigo, guarda do aeródromo do kolkhoze letão de «Druva», estavam a beber. Quando o guarda ficou embriagado,
Roman, sob o pretexto de realizar a manutenção da aeronave, entrou, no aeródromo, guardado por uma cerca semi-caída, onde embarcou num An-2R agrícola desocupado, aparelho número 70501,
e ligou o motor. Ao ouvir o barulho, o guarda correu para o exterior, sacou a sua espingarda mas não chegou à disparar. Às 5h10 o voo 70501 descolou em direção ao Mar Báltico.
A distância entre a costa da Letónia e a ilha de Gotland
Svistunov não foi o primeiro a pensar em fugir da URSS para a Suécia num avião agrícola: exactamente quatro anos antes, a 27 de Maio de 1983, o piloto letão
Voldemārs «Valdis» Vanags, de Riga, comandante de voo, também usou um An-2 na fuga para Gotland. As autoridades suecas devolveram a aeronave à URSS, mas o piloto recebeu asilo político.
No entanto, ficou na Suécia por cerca de um ano e depois voltou à União Soviética em junho de 1984, onde foi preso, cumprindo algum tempo ora na cadeia, ora no hospital psiquátrico de Riga (conhecido popularmente como «hospital na rua Tvaika»), isso é, apesar de promessa de perdão, dada pelas autoridades soviéticas.
Para evitar tentativas de fuga semelhantes, o Ministério da Aviação Civil emitiu uma instrução de obrigatoriedade de reduzir o nível de combustível
das aeronaves durante as operações aéreas. Além disso, a mesma instrução imponha o desligamento da bateria, para impedir o funcionamento do motor. No entanto, Svistunov sabia tudo
disso e percebeu que o avião estava com pouco combustível, mas isso não o demoveu.
O seu voo sobre o Mar Báltico durou mais de duas horas, durante as quais o avião percorreu aproximadamente 350 km. Junto à ilha de Österngarnsholm, o motor do avião
começou a falhar, devido à falta de combustível e, de seguida, parou completamente, levando o piloto a decidir amerissar.
Anteriormente, a força aérea sueca tinha detetado no radar uma pequena aeronave a voar em baixa altitude em direção à Suécia. Dois caças F-17
Kallinge foram enviados do aeródromo de Ronneby para a intercetar. No entanto, quando as aeronaves militares chegaram, o An-2 já tinha caído na água a aproximadamente 100 metros da costa leste da
ilha sueca de Gotland, perto da aldeia de Östergarn, e logo afundou a uma profundidade de 4 metros.
O piloto conseguiu sair da cabine de pilotagem e nadou o resto do percurso. De seguida, achou uma casa na costa, onde levou a roupa seca. Foi ali detido por Lars Flemström, um piloto de
helicóptero que chegou depois de pescadores terem reportado a queda do avião perto da costa. Roman foi levado de helicóptero para a esquadra de Visby para interrogatório, onde solicitou asilo político.
Em depoimento à polícia, Roman Svistunov disse que planeava fugir da URSS há muito tempo, mas inicialmente recusou-se a explicar os seus motivos. Disse ainda que deixou
para trás a mulher, Marina, e filhos: Kristina, de três anos, e Denis, de oito meses. Nas entrevistas posteriores Roman contou que a sua família tinha conhecimento dos seus planos de fuga, mas não
alinhou, achando demasiadamente arriscado. A polícia sueca informou ainda que Svistunov se queixou de dores no peito, mas que, de resto, estava bem de saúde.
Primeira publicação soviética sobre o caso: «No dia 27 de maio um avião An-2 do Aeroflot foi levado à Suécia. Essa ação criminosa...»
Quando a notícia da fuga se espalhou pela URSS, a 28 de maio, Roman Svistunov foi acusado de sequestrar o avião, e a Suécia foi presssionada pelo regime soviético
para devolver o piloto e a aeronave. Nesse mesmo dia (28 de maio), a agência soviética TASS publicou informações sobre as acusações contra o piloto, exigindo a sua extradição
para a União Soviética. Contudo, no momento da publicação, a embaixada sueca já havia encerrado o expediente, pelo que não houve resposta imediata. Um funcionário da embaixada
soviética e um representante do Ministério da Aviação Civil da URSS (proprietário da aeronave) também se deslocaram a Visby para se encontrarem com o fugitivo, mas este recusou terminantemente
a oferta.
Artigo no jornal soviético «Izvestia» sobre o caso Svistunov
Ao mesmo tempo, a propaganda soviética começou a denegrir Svistunov, alegando que, após se ter dispensado da aviação, vivia de rendimentos ilícitos
e estava envolvido no chamado «mercado paralelo». No entanto, quando a Suécia questionou os soviéticos sobre o motivo da demissão de Roman da aviação, não foi dada qualquer
resposta adequada.
A Suécia não extraditou Roman Svistunov, mas um tribunal sueco condenou-o a dois anos de prisão suspensa; no dia 4 de setembro, recebeu uma autorização de
residência. Roman trabalhou durante dois anos na pizzaria-restaurante Söderports, seguidos de mais um ano noutra pizzaria. Em 1990, deixou Gotland para trabalhar como chef noutros países europeus. Em 1992,
Svistunov regressou à Suécia, mas não sozinho, mas sim com a sua família ucraniana de Mykolaiv (a sua mulher e os filhos).
Alguns anos mais tarde, o An-2 foi içado e entregue a Gotland, onde uma equipa composta por Nils-Åke Stenström, Thor Carlsson e Lars Boström passou dois anos a restaurá-lo.
An-2P do Svistunov após ser retirado do Mar Máltico
A 28 de maio de 2016, para assinalar o 29º aniversário da fuga, foi inaugurada uma exposição dedicada à história soviética no Museu da Defesa
de Gotland, em Visby, tendo o voo número 70501 como uma das principais peças expostas.
Roman Svistunov em 2016
Um dos convidados da cerimónia de abertura, surpreendentemente, foi o próprio Roman Svistunov, que se destacou da multidão e abraçou Stenström, um dos homens
que restaurou a aeronave sequestrada. Quando perguntaram ao ex-sequestrador se alguma vez tinha considerado a possibilidade de uma exposição como aquela enquanto pilotava um pequeno avião sobre o mar,
Roman respondeu: «Não estava a pensar em nada. Só queria sobreviver».
A 27 de maio de 1973, o mecânico soviético Yevgeny Vronsky realizou, com sucesso, a sua ideia de desertar para o Ocidente ao bordo de um bombardeiro Su-7BM. O seu plano era simples: levantar
voo do aeródromo Großenhain, na RDA e voar para Alemanha Ocidental.
Su-7BM com número «52» usado pelo Vronsky
Para contornar o seu problema maior, de não ser um piloto, o 1º tenente Vronsky conseguiu fazer amizade com um instrutor que ensinava pilotos em simuladores especiais e pôde praticar nas horas vagas. Após a sua fuga descobriu-se que Yevgeny, de apenas
23 anos, praticava mais tempo no simulador do que os pilotos soviéticos dos Su-7BM, dominando facilmente as habilidades básicas de pilotagem. É certo que só aprendeu a descolar e a controlar uma aeronave no ar; não sabia como aterrar. Contudo, este aspecto crucial da pilotagem
não influenciou a sua decisão de voar para Ocidente.
Uma vez levantando o voo, Vronsky, subiu a uma altitude de 500 metros e voou a baixa velocidade em direção à Alemanha Ocidental. Ignorou as instruções e não
recolheu o trem de aterragem, temendo que a aeronave perdesse o equilíbrio.
Local da queda do Su-7BM do Vronsky
O comando da Força Aérea Soviética emitiu uma ordem imediata para interceptar o fugitivo, enviando para o tal 32 (!) caças intercetores. No entanto, Vronsky nunca
foi detetado, provavelmente devido à sua baixa altitude de voo. Após atravessar a fronteira, piloto simplesmente se ejetou. Aterrou quase ao lado do avião acidentado. Os habitantes locais ofereceram-lhe
ajuda.
A União Soviética exigiu a sua deportação forçada, o pedido que foi negado. O piloto não fez declarações políticas. Em entrevistas
à imprensa, afirmou simplesmente que tinha planeado a sua fuga com antecedência, até aos mais pequenos detalhes. O seu destino posterior é desconhecido.
A alemã Gertrud Platais, foi prisioneira do campo de concentração soviético de ALZHIR, na atual Cazaquistão, pela única «culpa» de ser a esposa de
um «traidor da pátria», o engenheiro alemão Karl Platais, executado pelo NKVD em abril de 1938.
Quando Gertrud visitou o Cazaquistão em 1990, ela contou à equipa/e do Museu ALZHIR sobre seu primeiro encontro com os cazaques locais e o tratamento que estes davam
às prisioneiras.
Em uma manhã tempestuosa de inverno, enquanto as prisioneiras colhiam juncos na margem do Lago Zhalanash sob forte vigilância do NKVD, para construir barracões, homens idosos
e crianças — moradores da vila cazaque vizinha de Zhanashu — emergiram dos juncos. A mando dos mais velhos, as crianças começaram a atirar pedras nas mulheres exaustas (para atingir a cota
de 40 feixes de juncos, elas tinham que trabalhar no frio de 17 a 20 horas por dia). Os guardas começaram a rir alto:
«Viram? Não só em Moscvo/ou, mas até aqui na vila, nem as crianças gostam de vocês!»
«Foi muito ofensivo e doloroso, especialmente emocionalmente», conta Sra. Platais. Isso continuou por alguns dias. As prisioneiras insultadas só podiam apelar ao destino,
queixando-se da injustiça sofrida às mãos dos cazaques, enganados e amargurados pela propaganda soviética...
Um dia, desviando-se das pedras que voavam em sua direção, a exausta Gertrud tropeçou e caiu numa destas pedras. Ao enterrar o rosto nelas, de repente sentiu o cheiro
de queijo fresco e percebeu que aquelas mesmas pedras cheiravam a... queijo e leite! Levou/pegou um pedaço e colocou na boca — parecia delicioso.
Ela recolheu as pedras e as levou de volta ao quartel. Havia também prisioneiras cazaques lá. Elas disseram que era kurt — queijo fresco salgado, seco ao sol.
Gertrud Platais na década de 1990. Foto: httpswww.bundesstiftung-aufarbeitung.de
Acontece que, arriscando a vida de seus próprios filhos, cazaques compassivos, incapazes de encontrar outra maneira senão compartilhar seus últimos pertences — o
kurt — com as prisioneiras dessa forma, sem despertar as suspeitas dos guardas, fizeram isso para, de alguma forma, apoiar as mulheres pobres e famintas, tendo elas mesmas experimentado a fome e a privação
na década de 1930. Mais tarde e sem que os guardas soubessem, eles deixavam os pedaços de carne cozida, papa/mingau de aveia, kurt (um tipo de pão achatado) e pão sírio para os prisioneiros
debaixo dos arbustos.
Após o fim da II G.M., a propaganda soviética produzia diversas publicações que exortavam os emigrantes, principalmente da Argentina e do Brasil e aos antigos ostarbeiters à retornar ao paraíso socialista, caso dos jornais «Pelo
Retorno à Pátria», em ucraniano e em belaruso, publicados e distribuídos em 1956-1957.
Enquanto milhares de ucranianos e belarusos foram enviados aos campos do GULAG e o mundo ocidental se recuperava dos horrores da Segunda Guerra Mundial, a máquina de propaganda soviética
trabalhava a todo vapor para atrair emigrantes e «deslocados internos» (DP) à retornar à União Soviética.
«Pelo retorno à Pátria», março de 1957, edição ucraniana
Os segredos do «gancho» comunista
As páginas que podemos ver nas imagens, descrevem uma vida na URSS completamente idílica:
«Igual e feliz»: histórias sobre «direitos incríveis» das mulheres, medicamentos gratuitos e cuidados gerais, providenciadas pelo Estado.
«Com felicidade eles voltam para casa» (edição belarusa): fotos encenadas de repatriados felizes, supostamente retornando da Brasil, da Argentina ou dos EUA para um paraíso
de kolkhozes, isso é fazendas coletivas «prósperas».
Temas culturais: artigos sobre novas obras musicais, concertos e «infância feliz».
Foi uma operação psicológica do KGB, especialmente planeada. Jornais eram distribuídos nos campos de refugiados e deslocados em toda a Europa, colocados nas caixas de correio
de emigrantes, tentando explorar a sua possível nostalgia e as situações económicas complicadas de alguns.
«Pelo retorno à Pátria», junho de 1956, edição belarusa
Onde essas ilusões eram fabricadas?
A edição belarusa de junho de 1956 conta a história da família numerosa do ucraniano Alexander Satsik (Satsyk), que vivia no Brasil na colónia Mandury (possivelmente Mandurah em Manduritiba no Paraná). Publicação diz que a família se dirige à região de Odesa.
O centro dessa «fábrica de sonhos» não ficava em Kyiv ou Mensk/Minsk, mas na zona de ocupação soviética de Berlim. A redação do
comité «Pelo Retorno à Pátria», liderado pelo major-general do KGB Nikolai Mikhailov e seus colaboradores, que serviam os interesses de Moscovo/ou, estava localizada em: Berlin NW 7, Schadowstraße
1b.
Foi daqui que milhões de cópias de mentiras foram espalhadas por todo o mundo, prometendo anistia geral e «montanhas de ouro». Em vez disso, muitos dos que acreditaram
e retornaram se viram diante de interrogatórios, campos de filtragem, deportações / exílio ou vida sob a vigilância eterna das autoridades soviéticas.
Oitente anos depois, em nome da cidade ucraniana de Mariupol, ocupada pelos russos, foi criado um canal no YouTube onde são contadas «histórias fascinantes» sobre a reconstrução
da cidade e das condições de vida «maravilhosas» sob a ocupação russa. Nada de novo na propaganda estatal russa...
Blogueiro: é de notar, que os jornais eram impressos no papel de uma qualidade superior, usando uma ótima base poligráfica (uso das imagens artificialmente coloridas), muito melhor do que vários jornais
soviéticos das décadas de 1970-80. Os jornais usam como slogan as frases «Glória à grandiosa terra pátria!» (edição ucraniana) e «Glória, à Pátria nossa livre!» (edição belarusa) em vez do unificado «Proletários de todos os países uni-vos!»,
que praticamente TODOS os jornais soviéticos usavam até fim da URSS em 1991. Estes jornais falam vizivelmente menos do socialismo/comunismo ou de autoridades soviéticas, em vez disso fala-se do «Estado» e muito abundamente
dos «cuidados do Estado».