Mostrar mensagens com a etiqueta NKVD. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta NKVD. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, outubro 02, 2026

Fedor Butenko: o não-retornado soviético entre o bolchevismo e o fascismo

A deserção de um diplomata soviético de alto nível em 1938 tornou-se um grande escândalo internacional. Os segredos deste caso permanecem por resolver até hoje, porque os arquivos soviéticos/russos continuam inacessíveis aos investigadores imparciais.

Fedor Butenko era uma personagem incrivelmente talentosa e cínica, o que lhe pode ter salvo a vida. A maior parte do que se sabe sobre ele foi contada pelo próprio e é muito provavelmente total ou parcialmente inventado. Isso não impediu Butenko de fazer uma carreira brilhante na URSS: primeiro na área da censura e redação na editora Khudozhestvennaya Literatura e depois no Comissariado do Povo para os Negócios Estrangeiros / Assuntos Exteriores. É também muito provável que fosse um agente do OGPU-NKVD — caso contrário, seria impossível explicar algumas das reviravoltas inesperadas que a sua carreira sofreu. 

Em 1937, transformou-se de estudioso de literatura em diplomata soviético. Isto coincidiu com a purga total dos quadros de Maxim Litvinov no Comissariado do Povo dos Negócios Estrangeiros / Assuntos Exteriores, que foi substituído por estalinista de linha dura, Vyacheslav Molotov. O próprio Litvinov sobreviveu, embora tenha esperado muito tempo pela sua prisão. Durante estas purgas, 35% dos diplomatas soviéticos de alto nível sobreviveram, 20% foram executados e outros 11% foram enviados ao GULAG. Os cerca de 23% perderam o emprego, morreram ou suicidaram-se. O destino de aproximadamente 14% é desconhecido. 

1,5% dos diplomatas de alto nível fugiram ao Ocidente. Butenko estava entre esses 1,5%. 

Em apenas dois meses, passou de conselheiro a encarregado de negócios, ou seja, o homem mais importante da embaixada soviética na Romênia — o embaixador foi chamado de volta a Moscovo e aí executado. Então Butenko percebeu que será o próximo e decidiu fugir da URSS, o que era muito mais fácil no estrangeiro do que em Moscovo. Foi enviado para trabalhar na Roménia sem a mulher e a filha pequena, que permaneceram em Leninegrado: uma prática comum na URSS, que sempre gostou de fazer reféns. Isso não demoveu Butenko, embora ele soubesse certamente o que acontecia às famílias dos inimigos do povo. Talvez tenha concluído que a sua família sofreria de qualquer maneira. Sabe-se que a sua esposa, Vera Kravchenko e o irmão dela, seu cunhado Mykhaylo, foram vítimas das repressões políticas soviéticas em Dnepropetrovsk em 1941, e a sua filha Lea terá provavelmente morrido durante o cerco nazi de Leninegrado. 

Não podia permanecer na Roménia, que procurava desesperadamente a boas relações com a União Soviética. Além disso, circulavam rumores de que outro fugitivo famoso, o agente ilegal de OGPU-NKVD na Turquia, Georges Agabekov, tinha sido rastreado e assassinado por agentes de NKVD.

A edição inglesa do livro de Agabekov sobre o terror soviéttico

Fedor Butenko presumiu que os seus antigos colegas o encontrariam em qualquer país democrático, pelo que só tinha uma opção: esconder-se na Alemanha nazi ou na Itália fascista. Butenko falava francês fluentemente e estava a aprender romeno, o que lhe dava esperança de dominar rapidamente o italiano. Além disso, a Itália estava muito mais próxima, politicamente, de Bucareste do que a Alemanha. Por isso, o diplomata escolheu o regime do Mussolini. 

Após a deserção do diplomata, a URSS acusou imediatamente a Roménia de assassinar ou raptar Butenko, algo que a Roménia temia terrivelmente, pois poderia ter desencadeado uma guerra. Por isso, após a sua fuga, Fedor Butenko ficou no país por apenas quatro dias, durante os quais ele elaborou, para a Siguranța as suas revelações sobre os espiões soviéticos reais e imaginários na Roménia.

Mais tarde, Butenko afirmou que pessoas próximas do Rei da Roménia o ajudaram a escapar e lhe forneceram um passaporte legal de algum pobre coitado falecido. Nenhuma prova disso foi encontrada até à data. Existem sérias dúvidas sobre o seu relato: em dois meses de trabalho em Bucareste, simplesmente não teria tido tempo para fazer tais contactos. No entanto, Butenko conseguiu não só atravessar em segurança pelo menos duas fronteiras nacionais, como também chegar ao centro de Milão. 

Em Itália, o ex-militante comunista, que tinha denunciado inimigos do povo em reuniões do partido (era conhecido pela sua perseguição aos trotsquistas), declarou imediatamente a sua forte simpatia pelo fascismo. Disse que trabalhava como tradutor na Exposição Internacional de Paris e visitava constantemente o pavilhão italiano para admirar a felicidade que o Duce trazia ao seu povo. Mais uma vez, afirmação duvidosa, pois tais ações teriam despertado suspeitas imediatas dentro da delegação soviética.

Fedor Butenko, amaldiçoava o comunismo e abraçou imediatamente um outro regime totalitário e militarizado que nada tinha em comum com a democracia ou a liberdade.

O próprio Lev Trotsky observou esta história do longínquo México e emitiu algumas conclusões. Em primeiro lugar, considerou Butenko um canalha sem princípios, um chekista pronto a servir qualquer mestre. Também manifestou a confiança de que eram precisamente pessoas como Butenko que formavam a espinha dorsal dos órgãos repressívos soviéticos. Em segundo lugar, Trotsky presumiu que, dentro da elite soviética, existia um certo número de pessoas com visões fascistas ou protofascistas. Ambas as conclusões, estavam parcialmente corretas. A revista Time considerou Butenko como um modelo dos «novos bolcheviques», que substituíram os «velhos bolcheviques» tão ativamente expurgados por Estaline. Os «novos bolcheviques» eram completamente desprovidos de idealismo comunista; tinha como objetivo a prosperidade e a segurança pessoal. O que, também estava muito próximo da verdade.

Durante algum tempo, na Itália os principais jornais publicaram entrevistas com Butenko, e este começou então a escrever artigos e livros por conta própria.

1ª edição, a editora Firenzi, Le Monnier, 1939

A versão italiana do livro é constituída por quatro capítulos principais:

1. “Socialismo o schiavitù?” (“Socialismo ou Escravatura?”) — o autor descreve pormenorizadamente a tragédia da sua Ucrânia natal, a fome artificial na Ucrânia [Holodomor] e na Kuban, as repressões que destruíram a prosperidade de uma terra florescente.

2. “La costituzione di Stalin” (“A Constituição de Estaline”) — uma desmistificação do processo eleitoral soviético. Butenko sublinhou que as listas de candidatos eram aprovadas exclusivamente em Moscovo e que apenas as pessoas leais a Estaline podiam ser eleitas.

3. “Il tiranno di Mosca agonizzante” (“O Tirano Agonizante de Moscovo”) — uma crítica à ditadura pessoal de Estaline, à atmosfera de total terror nas fileiras da nomenklatura e da NKVD.

4. “Il mio viaggio in Europa” (“A Minha Viagem à Europa”) é uma descrição de uma fuga e das impressões de uma estadia no Ocidente.

Nos anos seguintes, os italianos esconderam Butenko da vingança soviética, mudando-lhe o nome e escondendo-o nos locais mais remotos. Claramente não sabiam o que fazer com ele. Uma fonte afirma que o próprio Mussolini terá ordenado que Butenko recebesse um salário, mas que não se envolvesse em nada de importante. Butenko pediu para ser enviado para a Frente Leste para ajudar os militares italianos, mas não lhe foi permitido. Candidatou-se para aderir ao Partido Fascista, mas a sua candidatura permaneceu sem resposta. Ucraniano étnico, nascido na Ucrânia, Fedor Butenko tentou se aproximar à emigração ucraniana, mas não foi bem acolhido, acabando por ser rejeitado.

Temendo uma tentativa de assassinato por parte de NKVD, Butenko viveu na Sicília de 1939 a 1942 em profundo segredo sob o nome de Alberto Rossi. Foi então transferido para a Albânia, onde serviu como censor militar.

As últimas informações sobre a estadia de Butenko — por alguma razão em Veneza, onde não existiam estruturas sérias que pudessem aproveitar os seus talentos — surgiram apenas algumas semanas antes da detenção de Mussolini em Roma. O seu destino subsequente ao 1943 está desconhecido. O ex-diplomata soviético, que até foi reabilitado politicamente na URSS/rússia, uma personagem profundamente cínica, com uma experiência incrível em camuflagem e sobrevivência, simplesmente desapareceu, sem deixar qualquer rasto posterior.

sexta-feira, setembro 25, 2026

Órgãos extra-judiciais da repressão sovietica no decorrer do Grande Terror: «troicas» e «dvoicas»

«Viva o NKVD, o guardião vigilante da revolução, a espada desembainhada do proletariado» 
No decorrer do Grande Terror soviético de 1937-38, vários órgãos extrajudiciais foram criados e operaram na URSS, realizando julgamentos de forma formal e acelerada. Eram conhecidos como «troicas», «dvoicas» e «troicas especiais». 

Quase todos estão familiarizados com o termo «troika» — este órgão repressivo soviético foi «legitimado» pela ordem operacional nº 00447 da NKVD durante a operação dita «Kulakiana». Mas também existiram outros órgãos criados especificamente para realizar repressões no decorrer das «operações nacionais» — isto é, ordens que sujeitavam à prisão não apenas pessoas de certos grupos étnicos — polacos, letões, alemães, coreanos e outros — mas também qualquer pessoa com laços reais ou imaginários com países estrangeiros, mesmo que, no momento da prisão, os únicos laços fossem o seu local de nascimento nos territórios da Polónia, Finlândia, Letónia, outrora pertencentes ao império russo, etc. 

  • 25 de julho de 1937 – “operação alemã”, foram condenadas 55.005 pessoas, das quais 41.898 foram fuziladas;
  • 11 de agosto de 1937 – “operação polaca/polonesa”, condenadas 139.815 pessoas, das quais 111.071 fuziladas;
  • 17 de agosto de 1937 – “operação romena”, condenadas 8.292 pessoas, das quais 5.439 foram fuziladas;
  • 20 de setembro de 1937 – “operação de Harbin” (chinesa), condenadas mais de 31.000 pessoas, das quais 19 mil fuziladas;
  • 30 de novembro de 1937 – “operação letã”, condenadas 21.300 pessoas, das quais 16.575 fuziladas;
  • 11 de dezembro de 1937 – “operação grega”, cerca de 15.000 detidos, cerca de 50% foram fuziladas ou morreram no GULAG;
  • 14 de dezembro de 1937 – a diretiva do NKVD sobre a extensão da repressão no âmbito da “linha letã” contra estónios, lituanos, finlandeses e búlgaros. 9.735 pessoas foram condenadas no âmbito da “operação estônia”, incluindo 7.998 pessoas condenadas à morte, 11.066 pessoas foram condenadas no âmbito da “operação finlandesa”, 9.078 foram condenadas à morte;
  • 29 de janeiro de 1938 – “operação iraniana”, condenadas 13.297 pessoas, das quais 2.046 à morte.
  • 1 de fevereiro de 1938 – “operações nacionais” contra búlgaros e macedônios;
  • 16 de fevereiro de 1938 – “operação afegã”, 1.557 pessoas foram condenadas, 366 à morte. 

O primeiro destes órgãos era coloquialmente conhecido por «dvoica»: os cidadãos eram «julgados» por apenas duas pessoas — o chefe do departamento local da NKVD e o procurador regional. Estas duas personagens determinavam a punição a aplicar aos indivíduos — a execução por fuzilamento ou pena de prisão em campo de concentração de GULAG de 5 a 10 anos. Compilavam as suas decisões sob a forma de listas que lembravam álbuns. Uma folha horizontal continha um perfil do indivíduo, descrevendo brevemente a natureza da sua investigação e a punição proposta. Estes «álbuns» eram enviados ao Comissário do NKVD Nikolai Yezhov e ao Procurador da URSS Andrei Vyshinsky em Moscovo para aprovação e depois eram devolvidos às regiões para execução.

Este procedimento manteve-se em vigor até ao Outono de 1938, quando se tornou claro que Moscovo e as regiões não conseguiam lidar com o fluxo de indivíduos detidos. No verão de 1938, Moscovo tinha acumulado «álbuns» para mais de 100.000 pessoas. Aos 15 de setembro, decidiu-se abolir o «procedimento de álbum» para as sentenças, que foi substituído pelas «troikas especiais» da NKVD. Estas foram criadas pela Ordem nº 00606 de 17 de Setembro especificamente para rever os casos dos presos antes de 1 de Agosto de 1938, em várias «operações nacionais». As «troicas especiais» receberam vários «álbuns» e começaram a «reexaminar» os casos — também com recurso a um procedimento simplificado, mesmo sem recorrer aos processos individuais de investigação. Uma diferença fundamental em relação às «dvoikas» era que a sentença de morte deveria ser executada imediatamente.

Analisando entre 50 e 800 casos de cada vez, as «troikas especiais» emitiram 108.000 veredictos em menos de dois meses. Tendo recebido, ao contrário dos seus antecessores, o direito de arquivar processos, libertaram 137 indivíduos. O trabalho das «troikas especiais» foi suspenso num único dia — 15 de novembro de 1938, dois dias antes do fim «oficial» do Grande Terror soviético.

Ler o texto da Ordem nº 00606 publicado na coleção de documentos históricos «Do CheKa ao FSB».

quarta-feira, setembro 02, 2026

Repressões Políticas, Violência e Resistência na Moldova socialista, 1924-1956

A 17 de agosto de 1937, o NKVD lançou oficialmente a “Operação Romena” na República Autónoma da Moldávia (parte da Ucrânia soviética). Sob o pretexto de combater a espionagem romena, NKVD realizava detenções em massa. Romenos, moldavos, ucranianos, russos, judeus, alemães e búlgaros foram o seu alvo.

As repressões no âmbito da “linha romena” foram rapidamente combinadas com purgas de pessoal. NKVD utilizou acusações de espionagem à favor da Romênia para eliminar os líderes políticos e culturais da autonomia.

Um dos objetivos oficiais da criação da ASSR da Moldávia em 1924 foi formar uma elite comunista que falasse romeno, língua que era designada por “moldavo” na URSS. Moscovo esperava utilizar os seus representantes para sovietizar a Bessarábia.

O Grande Terror destruiu uma parte significativa desta elite. Quando a URSS ocupou a Bessarábia, em 1940, quase não havia líderes que conhecessem a língua e a cultura local. Durante décadas, a liderança da RSS da Moldávia esteve entrincheirada nos quadros da antiga autonomia da margem esquerda do Dniestre, que tinham ligações com Kyiv e Moscovo.

De acordo com os dados atualmente disponíveis, 8.292 pessoas foram presos e condenadas durante a “operação romena”, das quais 5.439 condenados à pena de morte. NKVD inventou a sua própria “rede de espiões” à partir de biografias transfronteiriças, confissões sob tortura e nomes que os detidos forneceram, tentando salvar-se a si próprios e aos seus entes queridos. Entre eles não estavam apenas romenos: o nome da operação não determinava o círculo das suas vítimas.

Os registos mostram como o local de nascimento e os familiares residentes no estrangeiro, isso é, fora da URSS, eram vistos pelo NKVD como «provas de espionagem», e que os organizadores desta purga, eles próprios, se viram rapidamente vítimas de uma purga seguinte e como esta operação é hoje recordada em Moldova e na Roménia.

O material é baseado no livro de Igor Cașu «Dușmanul de clasă. Represiuni politice, violență și rezistență în R(A)SS Moldovenească,1924-1956, Cartier, 2015.» (O Inimigo de Classe. Repressões Políticas, Violência e Resistência na R(A)SS da Moldova, 1924-1956), Cartier, 2015, 389 páginas, PDF, ler e/ou descarregar/baixar gratuitamente em romeno.

A ocupação soviética da Bessarábia (região histórica, que atualmente em cerca de 70% pertence à Moldova e 30% à Ucrânia), anexada à União Soviética em 1940 e novamente, no fim da Segunda Guerra Mundial, é descrita no livro «Quanto custa uma pessoa», de uma honestidade absolutamente brutal, escrito e com as ilustrações de Eufrosínia Kersnovskaya (1907–1994), uma proprietária rural, que perdeu tudo em resultado da ocupação soviética e acabou no Gulag, que milagrosamente sobreviveu graças à sua força de vontade, saúde e educação. A descrição do início da ocupação soviética da Bessarábia faz lembrar a ocupação russa da Crimeia em fevereiro-março de 2014 — o mesmo equipamento russo que entrou sem que ninguém esperasse, e os soldados que apenas fingem serem «pessoas educadas», e na verdade — matam.

Eufrosínia Kersnovskaya «Quanto custa uma pessoa»

«Estávamos em 1940... No dia 27 de Junho, regressando do campo à noite e depois de terminar as tarefas domésticas, sentei-me com a minha mãe para tomar chá. A lâmpada não estava acesa: o pôr-do-sol brilhava lá fora, através da janela — a 'iluminação' preferida da minha mãe — e sentámo-nos junto à janela aberta, tomando chá lentamente e ouvindo o rádio. Nove horas. As últimas notícias estão a ser transmitidas de Bucareste: 'Londres informa...' Primeiro — sobre a situação em batalha, que é muito triste para a França: os alemães estão a avançar para sul sem qualquer resistência;

Devido à fome de 1947, novamente o número de mortos era tão grande que os
caixões não chegavam para todos

E de repente, com a mesma voz monótona, o locutor continua:

— A União Soviética reivindicou o território da Bessarábia. Uma comissão mista composta por... generais está a caminho de Odesa para resolver esta questão...

A minha mãe levava a chávena à boca. A mão tremia-lhe, e a chávena tilintava no pires. Lembro-me do seu olhar confuso:

— Como assim? O que será isto? O quê?

Acho que não percebi o que ouvimos. Ou pareceu-me algo fútil — mais uma “disparate”.

— Veremos o que acontece. Enquanto isso, beba o seu chá! — disse imperturbavelmente.

— «Assina! E poderás comer tudo isso e irás dormir!» (uma das técnicas de interrogação soviéticas, quando o investigador do NKVD fazia-se passar por «bom rapaz»)

Agora é até difícil imaginar que o coração, que deveria ser um presságio, não tenha previsto nada. É como se nada de semelhante tivesse acontecido nas repúblicas bálticas recentemente e como se não conseguíssemos adivinhar onde isso iria dar! Uma coisa é certa: nessa noite, sentámo-nos à mesa despreocupadamente pela última vez… Não terminámos o chá e levantámo-nos da mesa deprimidos. A mamã estava chateada, e eu… Ah, não fazia a mínima ideia do que nos esperava. À noite, carros com os faróis acesos. Pensávamos que eram romenos. Nunca nos ocorreu que tivesse sido construída uma ponte de barcas em Buzherovka e que aqueles fossem tanques e veículos blindados soviéticos.

Não fazia ideia de que uma reviravolta brusca tinha ocorrido nas nossas vidas e que tudo o que era familiar e inabalável já tinha desaparecido algures para lá do horizonte...” 

sábado, agosto 22, 2026

A propaganda radiofónica do 3º Reich: uso das rádios pseudo-clandestinas

«Liquidação do analfabetismo via rádio». Pormenor de uma estatueta soviética da década de 1920.

Nas vésperas da II G.M., a propaganda do 3º Reich começa criar várias estações de rádio pseudo-clandestinas, destinadas ao público-alvo dos países adversários: a «New BBC» (Grã-Bretanha), «Za Rossiju» (URSS) ou projeto de uma «rádio astrológica-ocultista» destinada aos Estados Unidos, escreve a Rádio «Liberdade».

Em abril de 1938, o Ministro da Propaganda da Alemanha nazi, Josef Goebbels, escreveu no seu diário: «A nossa estação secreta, que transmite da Prússia Oriental para a rússia, está a atrair uma enorme atenção. Fala 'em nome de Trotsky' e está a causar consideráveis ​​problemas ao Estaline. Os vermelhos procuram desesperadamente a fonte de transmissão. Mas não a encontrarão». 

Relatório da Abwehr de França sobre a emissão de rádio «Velha Guarda de Lenine».
Novembro de 1941. Fonte: Bundesarchiv Berlin.

Era a chamada estação de rádio «negra» (Geheimsender). Os ouvintes deveriam acreditar que ela operava em território soviético em nome de organizações clandestinas anti-estalinistas. Como na realidade se situava na Prússia Oriental, era particularmente bem ouvida em Riga, Vilnius e Varsóvia. Mas, em certos dias, podia ser recebida até em Paris. O primeiro relato que se consegue encontrar sobre o assunto em jornais de emigração russa data do início de abril, portanto, o projeto deve ter começado em março de 1938. Ao longo da primavera e do verão de 1938, a imprensa de emigração russa, principalmente o jornal parisiense «Vozrojdénie», combinou transcrições de transmissões, rumores (que se espalharam como fogo em palha na emigração) e as suas próprias conjeturas para criar uma série completa e repleta de ação dedicada a essa estação de rádio. Se as conceções dos jornalistas eram inteiramente altruístas, isso requer uma investigação mais aprofundada. 

A 6 de maio de 1938, o «Vozrojdénie» publicou um relato bastante detalhado sobre a estação de rádio secreta. Chamava-se «União para a Libertação da Pátria» e a melódia do «Internacional» era tocada antes e depois da emissão. Um locutor misterioso ameaçava vingar-se de Estaline «pelas mortes de Tukhachevsky, Bukharin e Zinoviev». No final de abril, chegou a ser lida a sentença de morte do «tribunal secreto da União dos Libertadores da rússia». Este tribunal condenou Estaline à morte por «falsificar o testamento de Lenine, tomar o poder pelo terror, trair a revolução comunista e executar os melhores generais do exército vermelho em conluio com uma potência estrangeira», estando a execução marcada para 1 de maio na Praça Vermelha de Moscovo. 

Excerto de um artigo de Ivan Tkhorzhevsky sobre a estação de rádio anti-Estaline
no jornal parisiense «Vozhrojdénie». Maio de 1938. Fonte: Gallica.

O dia 1 de maio chegou rápido, mas os misteriosos ativistas da resistência, claro, tinham uma explicação lógica para a sobrevivência do ditador: um sósia de Estaline estava presente na Praça Vermelha no dia 1 de maio, tornando a execução planeada inútil.

Além disso, as emissões continham ocasionalmente mensagens encriptadas aparentemente incoerentes (números, sílabas, letras) alegadamente para camaradas expalhados por várias regiões da União Soviética. Na mesma edição, um dos principais publicistas do «Vozrojdénie», Ivan Thorzhevsky, publicou um editorial no qual elogiava os heróicos combatentes da resistência e relatava que Yezhov se tinha desdobrado na busca de um transmissor secreto. 

Duas semanas depois, a reportagem do «Vozrojdénie» foi recebida por nada mais nada menos que Ivan Solonevich, o conhecido monarquista e antisemita russo assumido, que por esta altura tinha acabado de se mudar para a Alemanha após a tentativa do seu assassinato, por parte de NKVD em Sófia, no qual a sua mulher foi morta. Neste caso, não precisamos de especular se os seus equívocos sobre a estação de rádio eram altruístas, pois foi precisamente no final de abril e início de maio de 1938 que Goebbels escreveu no seu diário: «Solonevich... Causou uma boa impressão. Quer dinheiro para o seu trabalho antibolchevique. Não tenho nada contra; pessoas assim podem ser-nos úteis...»

Assim, aos 18 de maio de 1938, Ivan Solonevich publicou um artigo no jornal nazi «Angriff», intitulado «Sinal de SOS de um Transmissor de Rádio Negro». Depois de analisar cuidadosamente as emissões enviadas pelos ouvintes em Vilnius, Riga e Helsínquia, Solonevich promove a conclusão de que a «oposição de direita» estava por detrás do transmissor secreto e que este tinha sido organizado por um grupo de conspiradores militares. De seguida, desmentiu os rumores sobre o trotskismo da estação de rádio (contradizendo audaciosamente, como vemos, até o seu patrocinador, o Dr. Goebbels, para quem todos os opositores soviéticos eram iguais e, por isso, chamados trotskistas). Solonevich afirma categoricamente que, na URSS moderna, «o caso trotsquista é um caso encerrado». Solonevich apresenta o surgimento do transmissor «secreto» como um claro símbolo da decadência do aparelho governamental soviético, usando a sua metáfora favorita: escorpiões num frasco, picando-se uns aos outros.

Antevisão do artigo de Solonevich sobre a estação de rádio anti-Estaline
em «Der Angriff». Maio de 1938. Fonte: Bayerische Staatsbibliothek

Posteriormente, sem a participação de Solonevich, a série continua com histórias de como os NKVDistas invadiram a estação de rádio secreta, primeiro perto de Minsk e depois em Bila Tserkva, na Ucrânia, onde supostamente ocorreu uma brutal batalha de vários dias entre a guarnição local e os chekistas, durante a qual a estação de rádio secreta também foi descoberta e destruída. O facto de ela ter voltado ao ar alguns dias depois foi apresentado como um sinal do poder da resistência anti-soviética, que possuía vários transmissores secretos e, por isso, sobreviveu facilmente à perda de um deles. 

A imprensa soviética também fez alusões vagas à existência de estações de rádio secretas, que (de facto) se encontravam fora das fronteiras da URSS. No entanto, segundo a propaganda soviética, os seus rastos conduziam à Itália, e não à Alemanha. Mas, então, a guerra técnica substituiu a luta ideológica, e a estação começou a ser activamente bloqueada por interferências induzidas, de tal modo que, a partir do Outono de 1938, os raros relatos nos jornais de emigrados russos sobre as emissões em curso eram dominados pela estática: «Tudo está afogado num ruído infernal. A emissão está interrompida». Contudo, pelo que se pode avaliar, a estação continuou a operar até à assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, após o qual, por razões óbvias, as suas operações foram cessadas, retomando apenas após o ataque da Alemanha à União Soviética em junho de 1941. 

Embora Eberhard Taubert, advogado e propagandista antisemita, o chefe do Departamento Oriental do Ministério da Propaganda do Reich, já tivesse à sua disposição a «Anti-Comintern» — uma organização que se dedicava ativamente à propaganda anticomunista desde 1933, principalmente através da publicação de livros e revistas — segundo o seu próprio relato, surgiu a necessidade de criar um segundo aparelho de propaganda. As transmissões radiofónicas nas línguas europeus do centro-leste mais importantes — isto é, não só o russo, mas também o ucraniano, o belaruso, o estónio e o letão — deveriam ser iniciadas imediatamente nos primeiros dias da guerra. Estações de rádio secretas também deveriam ser reestabelecidas. Ao atravessar a fronteira, as tropas deveriam transportar cartazes, panfletos, gravações para altifalantes, filmes dobrados em russo, e assim por diante. 

Assim começou a história da fundação da «Vineta». Formalmente, a «Vineta» não era uma divisão do Ministério da Propaganda do Reich, mas uma organização sem fins lucrativos registada, com até o seu próprio estatuto, embora todo o financiamento fosse, naturalmente, canalizado pelo departamento de Goebbels.

Estatuto da Fundação Vineta, redação de 1944. Fonte: Bundesarchiv Berlin.

As primeiras emissões de rádio da «Vineta» começaram logo às 10h da manhã do dia 22 de junho. Foram transmitidos o discurso de Rosenberg e o pronunciamento de Goebbels, que delineava a conhecida teoria de um ataque preventivo alemão contra a URSS. As mensagens de propaganda, complementadas por relatos da linha da frente, foram inicialmente transmitidas em seis línguas (estónio/ano, lituano, letão, belaruso, ucraniano e russo) através de transmissores na Alemanha e em Varsóvia e, à medida que avançavam para leste, por estações nas cidades ocupadas: Lviv, Minsk e Baranovichi. O primeiro diretor da «Vineta» recordou após a guerra:

«Entre outras coisas, a população foi instada a dificultar ao máximo o avanço do exército vermelho... Ao longo de agosto de 1941, os apelos à deserção foram intensificados. Por exemplo, diziam algo como: «Parem com a sangrenta batalha, larguem as armas e voltem para casa. Caso contrário, não chegarão a tempo para a divisão dos terrenos. Os kolkhozes estão a ser desmanteladas agora»... Além disso, era transmitida propaganda direta aos pilotos e tripulantes de tanques soviéticos nas frequências de rádio das aeronaves e tanques do RKKA. As transmissões eram feitas no período da manhã, uma vez que, com base na experiência, os carros de combate e as aeronaves na linha da frente estavam prontos para o combate a essa hora e, por isso, tinham uma grande probabilidade de ouvir as transmissões. 

Ademais, a «Vineta» supervisionava estações de rádio secretas, que foram reativadas após o início da guerra e até mesmo ampliadas. Vamos citar novamente o diário de Goebbels: 

30 de junho de 1941: «Estamos a trabalhar para a rússia com três estações de rádio secretas. As emissoras são: a primeira é trotskista, a segunda é separatista e a terceira é nacionalista russa. Todas se opõem veementemente ao regime estalinista. Aqui, lançamos todas as bombas possíveis e empregamos os truques que se revelaram eficazes durante a campanha no Ocidente».

12 de outubro de 1941: «Nos interesses da guerra, somos obrigados a exortar o êxodo [populacional] em massa de Moscovo e Leninegrado. Por ora, estamos a utilizar para isso estações de rádio secretas, a fim de não nos expormos».

A estação, anteriormente conhecida como «União para a Libertação da Rússia», passou a chamar-se «Velha Guarda de Lenine». Era chefiada por Karl Albrecht, um homem cuja biografia merece um texto à parte. Crê-se que era um comunista que (como muitos outros comunistas) fugiu da Alemanha de Weimar para a URSS no início da década de 1920. O seu volumoso dossier nos arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão permite corrigir um pouco os factos.

Karl Löw-Albrecht. Fotografia do pós-guerra. Fonte: Wikipédia.

Karl Matthäus Löw (o seu nome verdadeiro) foi condenado a dois anos e meio de prisão na Alemanha, em 1923, por corrupção de menores. Como veterano da Primeira Guerra Mundial, recebeu quatro meses de licença por motivos de saúde. Dirigiu-se para Berlim e embarcou num navio soviético, fazendo-se passar por comunista fugitivo e adotando o nome de Albrecht. Na URSS, Karl Albrecht, fez uma carreira fenomenal, ascendendo em menos de dez anos de estrangeiro praticamente inútil, que não falava russo ao chefe do departamento florestal da Inspecção Operária e Camponesa, autor de livros e participante em reuniões no Kremlin. Subindo muito alto, provavelmente suscitou muita inveja de alguns camaradas, acabando por ser preso, primeiro ao abrigo do Artigo 58º (atividade contrarrevolucionária e espionagem), depois o caso foi reclassificado ao Artigo 152º (mais uma vez, corrupção de menores). Foi-lhe oferecido um perdão após ter cumprido mais de um ano de prisão, sob a condição de se declarar culpado. Foi obrigado a aceitar, acreditando que não suportaria mais tempo na prisão soviética.

Após a sua libertação, Albrecht, com o apoio da embaixada alemã, regressou de imediato à Alemanha, onde o aguardava na prisão por casa do delito cometido dez anos antes. Mas, rapidamente tornado-se um informador da Gestapo, Albrecht provou, que uma pessoa talentosa pode fazer carreira em qualquer regime. Escreveu um livro sobre as suas desventuras na União Soviética, intitulado «A Traição do Socialismo». Foi publicado pela própria Anti-Comintern, sob a supervisão de Eberhard Taubert, do Ministério da Propaganda do Reich. O livro (claro, com apoio publicitário estatal) tornou-se um best-seller, foi traduzido para outras línguas e enriqueceu o autor. Após a invasão da URSS, chegou a abrir a sua própria livraria em Berlim, instalada no antigo escritório da agência de turismo soviética.

Capa do livro «Der verratene Sozialismus» de Karl Albrecht, edição de 1943.
Fonte: vitber.com

Poucos dias antes do início da guerra nazi-soviética, Albrecht foi convocado ao serviço militar e já estava a caminho de um comboio em direção a Leste para se juntar a um dos exércitos da Wehrmacht como tradutor. Mas, no último momento, conseguiu emprego no Ministério da Propaganda e chefiar uma estação de rádio secreta. Nas suas memórias após a guerra, recordou: 

«Como estava convencido da culpa de Estaline em condenar os povos e as nações do Leste à terrível escravatura e em trair os fundamentos do marxismo e os ensinamentos de Lenine, cujos fiéis seguidores foram perseguidos e mortos, aproveitei a oportunidade para atacar o homem que odiava. Acreditava que o trabalho que levaria à queda de Estaline e do seu Politburo, bem como à proclamação de um novo governo soviético leninista, era totalmente coerente com as minhas convicções socialistas». 

Os editores de programação de rádios pseudo-clendestinas alemãs tinham à sua disposição uma vasta quantidade de material analítico: relatórios secretos da linha da frente, registos de interrogatórios de prisioneiros e desertores e transcrições de emissões de rádio soviéticas. As transmissões estavam proibidas de atacar a liderança nazi ou de incitar diretamente à resistência à Wehrmacht. Pelo contrário, eram incentivados excertos sobre a necessidade de uma paz separada e sobre a forma como a guerra entre a Alemanha e a URSS beneficiava apenas os «plutocratas ocidentais». 

Por razões óbvias, uma parte significativa da equipa da «Vineta», contratada logo após o início da guerra, era composta por emigrados russos monárquicos — simplesmente não havia outro grupo de pessoas na Alemanha que falasse russo. Eram, naturalmente, hostis à propaganda das ideias leninistas, mesmo que as fictícias. Um deles era Aleksandr Albow, um veterano da guerra civil russa, que se juntou à «Vineta» em setembro de 1941 e que mais tarde se tornou o Chefe do Departamento de Propaganda do Quartel-General da Força Aérea da ROA.

Devemos, naturalmente, esclarecer que grande parte da atmosfera da «Velha Guarda de Lenine» não foi inventada por Albrecht. Já existia em 1938. Tal como naquela época, as transmissões eram iniciadas e concluídas com a Internacional. Ainda assim, houve apelos a alegados grupos clandestinos em várias partes da URSS, relatos de resistência anti-soviética, real ou inventada, repressões contra activistas da resistência, mensagens pseudo-encriptados e assim por diante.

Descrição da estação de rádio «Velha Guarda de Lenine» em documentos internos do Ministério da Propaganda do 3º Reich. Julho de 1942. Fonte: Arquivo Federal de Berlim

De salientar que a intensa actividade das estações de rádio nazis pseudo-clandestinas não passou despercebida aos Aliados. A partir de maio de 1941, os britânicos, por sua vez, começaram a transmitir para a Alemanha em nome de uma secreta «oposição patriótica» alemã (Estação de Rádio Gustav Siegfried). No Verão de 1941, foi transmitido um programa de rádio soviético, «Soldado de Assalto Hans Weber», no qual um soldado de assalto, supostamente desiludido com o nazismo, se dirigia, à partir da Alemanha aos seus antigos camaradas. Outros programas produzidos na URSS sob o nome de «Estação de Rádio do Povo Alemão» (Deutscher Volkssender) serviam os mesmos propósitos de desinformação e engano, criando a impressão de que existia uma vasta rede de resistência anti-nazi na Alemanha, controlada por um transmissor soviético secreto. 

As técnicas utilizadas pelo lado soviético eram semelhantes às dos alemães: por exemplo, apelos aos seus agentes fictícios atrás das linhas alemãs utilizando pontos de referência geográficos («Atenção, amigos em Dessau!») ou criptográficos («Atenção, [agente] QR6!»). Mas também foram usados truques originais: os transmissores soviéticos sintonizavam a frequência das estações de rádio alemãs e inseriam-se em pausas ou «sobrepondo» directamente a programação alemã com comentários anti-Hitler. Como a voz do falso locutor parecia vir de longe, recebeu a alcunha de «voz fantasma» (Geisterstimme). Estes tipos de sabotagem incomodavam tanto os nazis que, por vezes, até começaram a interferir nas suas próprias transmissões de rádio. 

Referência à estação de rádio fictícia «Soldado de assalto Hans Weber» na
imprensa soviética. Agosto de 1941. Fonte: Yandex.Periodica

Um documento de julho de 1942 foi preservado nos arquivos do Ministério da Propaganda do 3º Reich, enumerando/listando estações de rádio pseudo-clandestinas, agrupadas sob o nome de «Concordia» (outros emissores ditos negros também existiam sob esta designação, como uma suposta estação separatista escocesa e uma estação «Índia Livre». Chegou a ser considerada a criação de uma «estação de rádio astrológica-ocultista» destinada a atingir os Estados Unidos). 

Nos arquivos alemães podem ser encontradas as referências de três estações raiofónicas russas pseudo-clandestinas: a já conhecida «Velha Guarda de Lenine» (nome alemão «Concordia V», a emitir desde 29 de junho de 1941, com programas diários de meia em meia hora e uma única repetição). 

A segunda estação chamava-se «Za Rossiju» (literalmente «Pela Rússia», nome interino alemão «Concordia Y», que tinha 20 minutos de duração, seguindo-se uma única repetição, tendo como tema musical o Prelúdio em Dó sustenido menor de Rachmaninov, sendo transmitidas desde 30 de junho de 1941. 

Esta estação era especializada em propaganda nacionalista russa e a sua equipa era composta principalmente por membros da União Nacional-Popular da Nova Geração (NTS). Surgiu, portanto, uma situação paradoxal: o papel dos nacionalistas russos fictícios era desempenhado por nacionalistas russos reais. Até o nome da emissora coincidia com o nome do jornal do NTS do período pré-guerra. O líder do grupo, Dmitry Brunst, recordou após a guerra: «As transmissões em russo eram realizadas em nome de uma organização clandestina fictícia, supostamente existente em território soviético... As transmissões continham apelos para o fim da guerra, para virar as baionetas contra o governo, e transmitiam relatos descaradamente fabricados 'do campo de batalha' de várias cidades da União Soviética, factos fictícios, acontecimentos fictícios e informações sobre a luta contra o poder soviético». 

Brunst foi preso pelo MGB após o fim da II G.M., sobreviveu o GULAG e escreveu memórias após a sua libertação, ficando refém na URSS, portanto o seu texto, carrega, naturalmente uma inclinação ideológica soviética: «relatórios descaradamente fabricados». 

Graças a uma feliz coincidência, alguns deles sobreviveram: em particular, foram publicados em 1942 pelo jornal em língua russa «Odesskaya Gazeta», publicado em Odesa, ocupada pela Romênia. Na verdade, os propagandistas nazis procuravam uma diversificação de conteúdos bastante precisa, em termos actuais: cada público-alvo recebia o seu próprio enfoque de propaganda, pelo que as mensagens subversivas para a retaguarda soviética não tinham lugar nos jornais do território ocupado (note-se que a propaganda soviética empregava uma táctica diferente: os jornais centrais faziam referência directa ao já referido emissor de rádio fictício do «Soldado de assalto Hans Weber»).

Reportagens da estação de rádio «Pela Rússia», publicadas no
«Jornal de Odessa». Maio de 1942. Fonte: libraria.ua

Mas Odesa estava sob controlo romeno, a censura militar era obviamente menos rigorosa ali, e as notícias recebidas pela rádio chegavam aos jornais, talvez até eram aceites como verdadeiras. Os relatos publicados confirmam a descrição de Brunst, relatando continuamente acidentes ferroviários, levantamentos locais, provocações, conflitos internos na retaguarda soviética e assim por diante. Ocasionalmente, as notícias eram intercaladas com apelos diretos:  

«Os comunistas levaram o país a um ponto em que agora, para o salvar da ruína, só há um caminho: concluir uma paz imediata. Mas o nosso governo não está a pensar nisso. Este governo começou a guerra sem preparar o país para ela, com um comando militar composto por ignorantes. O governo está a agir contra os interesses do país e do povo. Exigimos o fim da guerra; estamos à espera que uma nova geração do povo russo chegue ao poder, conclua a paz e salve o país da catástrofe». 

É desnecessário dizer que estes eram slogans puramente propagandísticos: o governo nazi da época não tinha qualquer intenção de uma paz separada, muito menos de reconhecer qualquer «novo governo russo». 

Finalmente, o terceiro transmissor, a «Rádio da União de Combate dos nacionalistas do povo russo», transmitia durante 30 minutos diários, sem repetição. O nome em alemão era «Concordia Z». A música não estava especificada e a transmissão terminava com o grito «Viva a rússia livre!» Possivelmente essa última rádio estava de alguma forma ligado ao centro Zeppelin, organização criada pelas SS para treinar e mobilizar sabotadores, uma vez que o novo nome da estação soava semelhante ao de uma das estruturas colaboracionistas russas controladas por Zeppelin. 

A audiência das emissões radiofónicas pseudo-clandestinas foi efémero. A 1 de julho de 1942, Goebbels escreveu no seu diário: 

«Estou a discutir a questão das estações de rádio secretas. Na minha opinião, os métodos de transmissão de rádio secreta estão ultrapassados. Uma estação de rádio secreta pode ter impacto se for utilizada de forma breve, ou seja, em situações críticas. As estações de rádio clandestinas, que operam há dois anos e demonstram pouco potencial, devem ser desactivadas... Algumas estações de rádio clandestinas que operam contra a URSS também não têm tido grande sucesso, dado que são praticamente desconhecidas». 

A emissora nacionalista russa «Za Rossiju» foi uma das primeiras vítimas, pois, segundo os auditores alemães, «o seu sucesso não era grande». As suas emissões cessaram a 1 de agosto de 1942. A propaganda nacionalista foi transferida para a «Concordia Z». O conteúdo das emissões da «Rádio da União de Combate dos nacionalistas do povo russo», que descrevia sabotagens e distúrbios reais ou imaginários na retaguarda soviética, seguia integralmente as tradições da estação de rádio «Za Rossiju».

Decisão de Goebbels de encerrar a estação de rádio «Pela Rússia».
Julho de 1942. Fonte: Bundesarchiv Berlin

Os auditores alemães apresentaram uma caracterização significativamente melhor da «Velha Guarda de Lenine»: «A emissora apoiava a antipatia dos membros do partido [comunista] em relação ao Estaline, apontando o exemplo de Lenine, que, ao contrário de Estaline, seguiu uma política oportunista de paz [referência ao Tratado de Brest]. A eficácia deste transmissor é confirmada pelo facto de que a propaganda soviética ter refutado detalhadamente os seus relatórios, e o jornal «Pravda» ter sido obrigado a contestar a alegação de que os seus relatórios eram distribuídos em fábricas, caminhos-de-ferro e mercados».

Contudo, no verão de 1942, Karl Albrecht foi demitido da «Vineta». Na sua caracterização posterior, Taubert observou a sua falta de disciplina e «esforços de propaganda mais do que duvidosos que roçavam a traição». 

Apesar disso, a própria estação de «rádio leninista» manteve-se no ar até, pelo menos, dezembro de 1943, quando os jornais suecos noticiaram inesperadamente o seu facto, alegando que o emissor de rádio de «Velha guarda do Lenine» estava, na realidade, localizado na Alemanha, e que os alegados «leninistas» que atendiam ao microfone trabalhavam para o Ministério da Propaganda alemão (ambas as afirmações eram verdadeiras). Segundo Taubert, a informação foi transmitida à Suécia pelos serviços de informação soviéticos. Taubert propôs a Goebbels esforços de propaganda em três formatos diferentes: para a imprensa alemã, para transmissões regulares de rádio russas a partir da Alemanha e, finalmente, para... os tais comunistas soviéticos da «velha guarda de Lenine». Em particular, esta última deveria responder tardiamente (uma vez que as notícias chegam lentamente à retaguarda soviética), declarando: «Estaline, incapaz de destruir o movimento leninista, tenta retratar os seus membros como agentes fascistas, como já fez com os trotskistas, Zinoviev, Bukharin e outros. Para nós, esta é mais uma prova de que Estaline está a começar a temer o nosso movimento». 

A reação de Goebbels a esta proposta não está conhecida, mas a estação de rádio exposta foi aparentemente encerrada pouco depois. Segundo um dos funcionários de «Vineta», a notícia de que propaganda pseudo-leninista tinha sido transmitida secretamente a partir de território alemão durante dois anos e meio causou algum descontentamento entre os figurões nazis que não tinham conhecimento prévio deste segredo. 

Avaliar o sucesso de qualquer propaganda é muitas vezes um esforço subjetivo. Os relatos dos sucessos da «Velha Guarda de Lenine», reflectidos em documentos sobreviventes do Ministério da Propaganda do 3º Reich, parecem hoje mais tentativas de auto-reabilitação por parte dos oficiais nazis que outrora decidiram lançá-la e depois defendiam a eficâcia das suas próprias posições. Na realidade, foi uma operação extremamente impressionante, mas de eficâcia bastante reduzida. As estações de rádio «negras» de «Vineta» tiveram pouco sucesso em desmoralizar a população soviética. Por conseguinte, na luta pela «decadência moral da retaguarda soviética», prevaleceu um paradigma ideológico diferente no final de 1942: a propaganda à favor do «Movimento de Libertação russo», do general soviético Andrey Vlasov, POW dos alemães, que, na verdade, surgiu inicialmente unicamente como um projeto de propaganda.

sábado, agosto 15, 2026

A tragédia da intelligentsia judaica na Noite dos Poetas Assassinados

Iosif Vaisbalt, da série «Prisão», 1963

Aos 12 de agosto de 1952, por ordem direta de Estaline, foram executados em Moscovo treze intelectuais e ativistas judaicos, condenadas no processo do Comité Judaico Antifascista soviético. Váras vítimas daquela Noite dos Poetas Assassinados eram naturais da Ucrânia. 

Entre os executados encontravam-se proeminentes escritores e intelectuais judeus, vários deles naturais da Ucrânia: poeta e tradutor Leib Kvitko, poeta e dramaturgo Peretz Markish, poeta Itzik Feffer, poeta e tradutor Dovid Hofshteyn, escritor e dramaturgo David Bergelson. No total, inúmeros judeus em toda a URSS foram presos e processados judicialmente ​​em conexão com o caso, sob acusações de espionagem e «atividades nacionalistas anti-soviéticas». 

Entre os presos, que conseguiu sobreviver estava o artista judaico-ucraniano Iosif Weissblat (1898-1979), filho do rabino-chefe de Kyiv.

Iosif Weissbalt no momento da sua detenção, arquivo de MGB, 1951

«Da Ordem de Detenção,

8 de março de 1951.

O Responsável especial, 1ºTenente Leleko, do Departamento do Distrito de Krasnogvardeisky do MGB de Moscovo:

O cidadão Weissbalt I.N. durante bastante tempo demonstra uma forte tendência anti-soviética e nacionalista, manifesta a insatisfação com as condições de vida na URSS, venera tudo o que é estrangeiro e difama os dirigentes do partido e do Governo Soviético.

Propõe-se a detenção do cidadão Weissbalt I.N.

Concordo — o tenente-coronel Grishin, Chefe do Departamento do Distrito de Krasnogvardeisky do MGB de Moscovo.

Coronel Serov, Chefe do Departamento do MGB da Região de Moscovo».

Iosif Weissbalt, no exílio pós-GULAG, 1954

As imagens: o quadro de Iosif Weissblat da série «Prisão» (1963), e as suas fotos na prisão em 1951 e no exílio/degredo em 1954.

quarta-feira, agosto 12, 2026

General republicano espanól que se tornou o prisioneiro do GULAG soviético

Valentín González (conhecido na Espanha pela alcunha de «El Campesino»), foi um militar e político comunista espanhol, um dos generais republicanos durante a Guerra Civil de Espanha. Na URSS sofreu a tortura de NKVD e os horrores dos campos de concentração de GULAG. 

Esta fotografia oficial a preto e branco foi tirada por um correspondente da agência soviética Soyuzfoto a 13 de novembro de 1937 e capta um dos episódios mais dramáticos da Guerra Civil de Espanha: uma revista às tropas do Exército Popular da República, conduzida pelo Presidente da República Espanhola, Manuel Azaña, em frente a Madride, na cidade de Alcalá de Henares. 

Nesse dia, as unidades da 46ª Divisão estavam a ser inspeccionadas na Praça Cervantes. Comandada pelo lendário Valentín González, chamado/apelidado de «El Campesino» (O Camponês), surge a caminhar à direita, usando um boné e botas de cano alto com atacadores. 

Ao seu lado, de boné e casaco leve, está o comandante da frente de Madride, o general José Miaja, apoiado numa bengala. Ao seu lado está o Presidente da República, Manuel Azaña, e, à extrema-esquerda, o Primeiro-Ministro, Juan Negrín. 

Na altura em que esta fotografia foi tirada, Valentín González-Campesino estava no auge da sua glória militar, um dos mais reconhecidos comandantes republicanos, um herói da propaganda soviética, o «Chapayev espanhol». No entanto, este triunfo foi de curta duração...

«A vida e morte na rússia soviética»

«Fui chamado o general mais fanático da Guerra Civil de Espanha. Não me arrependo do sangue que derramei na luta contra o fascismo. Mas arrependo-me e lamento ter desejado impor ao povo espanhol um regime semelhante ao que existe na rússia. Na União Soviética, vivi a maior catástrofe da minha vida», escreveu Gonzáles a sua biografia, descrevendo os horrores que passou na União Soviética, onde viveu sob o nome de Pyotr Antonovich Komissarov. 

Após a derrota dos republicanos na guerra civil, «El Campesino», com cerca de 6.000 outros espanhóis, emigrou para a URSS. Juntamente com alguns outros militares espanhóis, foi enviado para estudar na Academia Militar «Frunze». Mas os estudos de um herói militar semi-analfabeto e bastante abrupto claramente não correram bem (ao contrário da sua vida pessoal – González se casou com Ariadna Gian, a tradutora de espanhól e filha de um coronel soviético). É conhecido um relato do clima vivido entre os cadetes espanhóis. O «El Campesino» recebia as críticas mais negativas: indisciplinado, incontrolável. «Ele critica as doutrinas de cavalaria de Budyonny». Sobre o marechal Tukhachevsky: «Em Espanha, os soldados não teriam permitido que o seu comandante fosse preso – teriam formado um quadrado à sua volta e ripostado». Além disso, Campesino era justo e orgulhoso. Discutia com praticamente toda a gente: a líder comunista Dolores Ibárruri mandou o marido para Rostov, enquanto vivia, maritalmente, com um jovem comunista espanhol. González atirou-lhe isso à cara de forma pública: «Em vez de pensar na luta, comporta-se como uma prostituta!» Mas González estava especialmente desiludido com a realidade soviética. Uma vez gritou com um empregado da mercearia: «Eu sou proletário, tu és proletário! Porque é que me estás a enganar?» Os apartamentos comunitários soviéticos, os komunalkas, horrorizavam especialmente González, ele não parava de perguntar à sua mulher: «Como é na URSS um marido e uma mulher dormirem juntos à noite, com a avó à direita e os filhos à esquerda no mesmo quarto?»

Valentín González, «Yo escogi la esclavitud», 1953
A direção da Academia decidiu expulsar o «cadete Komissarov» e outros dois espanhóis que tinham chumbado nos exames. Jesús Hernández, secretário do Comité Central, chegou para investigar o incidente. O «arquivo pessoal» do comandante da brigada foi investigado pela Comissão de Controlo da Comintern. Ela reuniu-se por mais de uma semana. A filha do González, VictoriaKravchenko (nascida em 1944): «Eles gritaram com o meu pai, e ele gritou. A minha mãe estava sentada no corredor. Finalmente, não aguentou mais: ´Vamos embora, Valentino, estas pessoas não são pessoas, são animais!´ O meu pai atirou o seu cartão de filiação partidária para a cara de Ibárruri».

Acusado de espionagem e trotskismo, foi preso pelo NKVD, enviado para a cadeia moscovita Lubyanka, onde foi torturado, ao ponto de «confessar» ser agente dos serviços secretos britânicos e americanos, e depois enviado para trabalhos forçados na construção do metro de Moscovo. Em 1944, fez a sua primeira tentativa de fuga através da fronteira soviético-iraniana; foi capturado, mas escapou ao Irão novamente, em 1948. As suas ilusões anteriores sobre um «paraíso soviético» foram destruídas: mais tarde, escreveria que a URSS de Estaline se tornou «a maior decepção e o pior fracasso de toda a sua vida». 

Caiu nas mãos dos americanos, que o enviaram para a França.

«Comunista en España y antistalinista en la U.R.S.S.», 1980

Em 1950-51, a França foi abalada pelo «julgamento de David Rousset», político socialista francês, membro da Resistência e vítima do nazismo, que expôs a verdade sobre os campos de concentração soviéticos, a primeira pessoa na França que usou o termo GULAG. O jornal comunista francês «Les Lettres Françaises» acusou Rousset de calúnia: «mas que campos de concentração no país mais livre!»

«El Campesino» participou no processo, como a testemunha abanatória do David Rousset, acabando por se tornar a maior sensação. Um grupo de espanhóis de Moscovo enviou ao tribunal de Paris uma carta a chamar González de louco. Mas a resposta de «El Campesino» à imprensa parisiense deixou claro que louco não era ele: 

«Chamaram-me o general mais fanático da guerra civil espanhola. Não me arrependo do sangue que derramei na luta contra o fascismo. Mas arrependo-me e lamento ter desejado impor ao povo espanhol um regime semelhante ao que existe na rússia. Na União Soviética, vivi a maior catástrofe da minha vida». Campesino não falou; na verdade, gritou. O juiz fez uma careta e disse ao intérprete: «Diga à testemunha para falar mais baixo.» Campesino recuou da barreira, surpreendido, batendo no peito: «Sou espanhol! Os espanhóis não conseguem falar baixo!» 

David Rousset ganhou o processo. 

González não se contentou com isso. A partir de França, se aliou aos terroristas bascos, os auxiliando nos ataques em Espanha. Em 1961, a pedido de Madrid, foi preso pelas autoridades francesas e encarcerado. Valentín González esteve 17 anos nas prisões francesas. Libertado em 1978, regressou a Espanha e anunciou o fim da sua luta: Franco estava morto e a mudança democrática estava em curso em Espanha. Faleceu em Madrid em 1983. 

Valentín González chegou de ser mencionado no livro de Ernest Hemingway «Por Quem os Sinos Dobram», através dos pensamentos de Robert Jordan, que o descreveu como corajoso e difícil: «Quando viu Campesino, com a sua barba negra, os seus lábios grossos, típicos de negros, e os seus olhos febris e inquietos, pensou que ele poderia causar muitos problemas. Era um temerário, um temerário mesmo — seria difícil encontrar um homem mais corajoso. Mas, meu Deus, como ele falava! E no calor da conversa, podia dizer qualquer coisa! Mas, como comandante de brigada, ele mostrou-se altura da situação, mesmo nas circunstâncias aparentemente mais desesperadas».

domingo, agosto 09, 2026

O Grande Terror soviético na Ucrânia que visou o renascimento literário

Na década de 1920, enquanto o mundo lia as obras de F. Scott Fitzgerald, Virginia Woolf e Erich Maria Remarque, os escritores ucranianos estavam a construir o seu próprio renascimento literário. Em 1938, a maioria deles já tinha sido detida, encarcerada ou morta.

5 de agosto de 1937. Neste dia, entrou em vigor a portaria n.º 00447 do NKVD. Esta autorizava a detenção e a execução de «elementos antissoviéticos». No espaço de dois anos, causou a morte de aproximadamente 700 000 pessoas em toda a União Soviética.

O terror chegou à Ucrânia, já devastada pela fome de 1932–33, e atingiu com maior severidade os camponeses, o clero e os dirigentes do partido. Mas um alvo destacou-se pelo que simbolizava: os escritores, artistas e académicos que tinham construído a cultura ucraniana durante o breve período de liberalização da década de 1920.

Muitos deles tinham vivido sob o mesmo teto. O edifício dos escritores «Slovo», em Kharkiv, foi concluído em 1929 para acolher a elite literária da república. Dos seus 66 apartamentos, 40 foram afetados pelo terror. Trinta e três residentes foram executados.

A 3 de novembro de 1937, numa clareira da floresta na Carélia, o NKVD fuzilou, numa única noite, pelo menos doze dos mais célebres escritores e artistas da Ucrânia.

A floresta de Sandarmokh, onde muitas das vítimas estão enterradas, é agora alvo de uma campanha de desinformação do Estado russo.

Os meios de comunicação estatais russos afirmam que os túmulos contêm prisioneiros de guerra soviéticos mortos pelas forças finlandesas, e não vítimas do NKVD de Estaline.

Na década de 1920, Moscovo permitiu, por um breve período, que os tártaros da Crimeia construíssem as suas próprias escolas, teatros e jornais. Essa liberdade produziu uma geração de professores, escritores e académicos.

A 17 de abril de 1938, em Akmesdzhyt (Simferopol), um tribunal militar soviético condenou 36 deles à morte numa única sessão.

Seis anos mais tarde, Estaline deportou da península toda a nação tártara da Crimeia. Os historiadores consideram as execuções de 1938 como o seu preâmbulo.

O Grande Terror estendeu-se muito para além da Ucrânia. Um balanço parcial do seu número de vítimas:

quinta-feira, agosto 06, 2026

A “Operação alemã” do NKVD: da procura de espiões ao terror total

Em 25 de julho de 1937, o chefe do NKVD, Nikolai Yezhov, assinou a ordem operacional secreta nº 00439. Assim começou a primeira de uma série de purgas em massa, dirigidas às minorias nacionais da era do Grande Terror soviético – a chamada “Operação alemã” da NKVD.

Da indústria da defesa ao terror total

O pretexto oficial era o combate à “espionagem e sabotagem alemãs”. Inicialmente, os chekistas deveriam identificar todos os cidadãos alemães nas fábricas militares e nos caminhos-de-ferro soviéticos. Foram concedidos 3 dias para a compilação das listas e 5 para a realização das detenções. No entanto, a procura por “inimigos” transformou-se instantaneamente numa espécie da linha de produção contínua.

A ordem obrigava à realização de um inventário completo de todos os alemães étnicos: camponeses, funcionários públicos, ex-cidadãos alemães e refugiados políticos.

A história de uma família: o caso de Heinrich Jacob

O arquivo do SBU contém a história de uma família dos elemães étnicos, que os soviéticos destruíram por completo. 

Heinrich Jacob era um membro da juventude comunista Komsomol, de 25 anos, chefe do departamento de correspondentes do jornal ucraniano em língua alemã, publicado em Kyiv: «Die Wahrheit» (A Verdade, 1936-37). Foi preso a 14 de junho de 1937 — na realidade, a «caça aos alemães» do NKVD já se iniciou muito antes da emissão da ordem oficial. 

Os motivos da acusação eram absurdos. NKVD alegava que, numa edição especial do jornal «Jung Sturm», teria colocado clichés de retratos de Estaline e Kuibyshev «de forma distorcida» e também «distorcido deliberadamente a tradução» do projecto de estatuto do Komsomol.

A detenção de Heinrich marcou o início da liquidação de toda a sua família:

— a sua mãe, Maria Zacher, foi detida 12 dias depois. Pena – 10 anos de prisão.

— o padrasto, Gustav Zacher, foi preso em setembro de 1937. Fuzilado em outubro do mesmo ano.

— a irmã, Ilse, foi presa no início de 1938. A “troika” condenou a jovem à morte por “espionagem”.

O próprio jovem jornalista recebeu inicialmente uma pena de 7 anos em campos de concentração. Em 1940, o Supremo Tribunal da URSS anulou a sentença e devolveu o caso para novas investigações. No entanto, nunca foi libertado.

Com o início da guerra germano-soviética de 1941, Heinrich Jakob foi fuzilado sob a justificação de “em consequências da situação de guerra”.

O caso de Heinrich Jakob e de milhares de outros alemães étnicos demonstra como o regime comunista soviético destruiu famílias inteiras somente para cumprir os planos fabricados para expor “agentes estrangeiros”.

Hoje, os documentos dos serviços secretos soviéticos estão disponíveis ao público. Pode obter mais informações sobre os familiares vítimas das repressões soviéticas, veja o procedimento para aceder aos materiais do arquivo de SBU.

Fonte: Arquivo Estatal do Serviço de Segurança da Ucrânia, fundo 6, descrição. 1, processo 60472-fp; fundo 9, processo. 1, ficheiro 81-SP.