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terça-feira, outubro 02, 2018

Como soviéticos torturavam Sergei Korolev, o prisioneiro do GULAG № 1442

80 anos atrás, em 27 setembro de 1938 foi preso Sergei Korolev – o pai do programa espacial soviético, o homem que lançou o primeiro satélite e mandou Gagarin ao espaço. Mas antes disso, Korolev foi espancado e torturado pelo NKVD, enviado ao GULAG, da onde voltou, apenas graças à uma coincidência histórica.

Quem era Sergei Korolev?

Sergei Korolev nasceu em 1906, na cidade ucraniana de Zhytomyr, localizada à cerca de 140 quilómetros ao oeste de Kyiv, o pai de Sergei veio de Mogilev, em Belarus. Sergei estudou nos ginásios de Kyiv e Odessa, após golpe bolchevique de 1917 continuou a educação em casa – os seus pais eram professores. Já na escola Sergei se interessava pela aviação e aos 17 anos desenhou o projeto de um avião não motorizado. Na década de 1920 Korolev estudou no Instituto Politécnico de Kyiv e na Universidade Bauman (MVTU) de Moscovo – ainda estudante, ele projetou alguns aviões e se interessou em desenvolvimento de foguetes e mísseis.
CV manuscrito (em ucraniano) do Korolev na epoca dos seus estudos no Instituto Politécnico de Kiyv.
3. Nacionalidade: Ucraniana
No início da década de 1930, Sergei Korolev desenvolveu vários protótipos de mísseis, e mais tarde, após a sua libertação dos campos de concentração soviéticos de GULAG, tem trabalhado na zona de ocupação soviética na Turíngia, onde estudou o equipamento alemão, capturado pelos soviéticos no fim da II G.M. Em 1946 e para estudar os mísseis alemães FAU-2 na cidade de Nordhausen foi criado o instituto soviético-alemão sob o nome de “Nordhausen”. Neste instituto e na base do modelo alemão do foguete V-2, foi criado o primeiro grande míssil balístico soviético R-1 – na realidade apenas uma modificação do foguete alemão.

Na década de 1950, Korolev trabalhou em várias modificações de mísseis R-1, terminado o desenvolvimento do míssil R-5 e começou a desenhar o míssil intercontinental R-7. Além de aprimoramento da tecnologia alemã, Korolev também introduziu inovações – criando os primeiros mísseis balísticos que usavam os componentes de combustível estável. Em 1957, usando o foguete R-7, o primeiro satélite artificial da Terra chamado “Sputnik” foi lançado em órbita.
Mais tarde, diversos outros satélites foram criados na base dos projectos do Korolev, e em 1961, com a ajuda de míssil “Vostok-1”, Korolev enviou para a órbita da Terra o cosmonauta Yuri Gagarin (embora existam versões de que Gagarin nunca foi ao espaço, mas isso é uma outra história).

Sergey Korolev era uma pessoa muito genial e inovadora, mas tudo isso poderia não acontecer. Os livros soviéticos nunca falavam disso – mas no final da década de 1930 Korolev foi preso, torturado e condenado aos 8 anos do GULAG sob acusações comunistas absolutamente delirantes.

Quem e porque prendeu Korolev?

No final da década de 1930 as repressões comunistas alargaram a sua escala, iniciando o Grande Terror estalinista – às centenas eram detidos escritores, poetas, cientistas, políticos, artistas, etc. Eram acusados de espionagem (por vezes, a suposta espionagem ao serviço de várias agências estrangeiras simultaneamente), participação nas “organizações trotskistas” ou “organização de atos de sabotagem”.
Trecho do protocolo № 68 da Reunião Especial do NKVD da URSS de 10/VII/1940
Bastava ter em casa um dicionário de palavras estrangeiras para ser acusado de espionagem, como pretexto para acusações de pertencer à um “organização trotskista” bastava a conversa telefónica com esposa, criticando o aumento dos preços da manteiga. Quanto à “sabotagem” – tudo podia servir de pretexto aos carrascos de NKVD – desde neve não recolhida do quintal até a quebra de uma ferramenta num torno mecânico.

A hora do Sergei Korolev chegou em 27 de junho de 1938, quando ele foi preso sob acusação de “sabotagem”.

Como Sergei Korolev foi torturado na prisão

Os métodos de interrogatórios do NKVD se baseavam numa só ideia: “a confissão é a rainha de provas”. Já no segundo dia após a sua prisão, em 28 de junho de 1938, o investigador Shestakov tinha chamado Korolev de “bastardo fascista”, após disso, o cientista foi colocado na “linha contínua” – quando o acusado durante dias não bebe, não come, não dorme, ficando de pé em frente de “investigadores”, que estavam mudando, para comer, beber e descansar.
Na cadeia moscovita de Butyrka em 27/06/1938, no momento da sua prisão
No decorrer dessa tortura o futuro académico soviético era espancado com mangueiras de borracha, levava golpes na virilha, lhe cuspiam no rosto. O investigador Shestakov era apoiado pelo ajudante chamado Bykov. No dia 13 de junho, o próprio Korolev descreveu as torturas, de forma muito discreta, na carta dirigida ao Estaline – “Shestakov e Bykov me sujeitaram às represálias físicas e aos abusos”.

Os carrascos forçavam Korolev à “confessãr” que este era membro da “unidade de combate” de uma “organização anti-soviética clandestina subversiva”. Korolev foi implicado na participação dessa suposta organização pela confissão do engenheiro-chefe Georgy Langemak [criador do sistema soviético de mísseis Katyusha, futuros Grad; cientista que desenvolvia a pólvora sem fumo, inventor da palavra cosmonáutica, entre outros], após doze dias de tortura, completamente fora de contato com a realidade, num estado de inconsciência dinâmica.
O engenheiro-chefe Georgy Langemak na prisão do NKVD
Korolev aguentou por três meses – o seu julgamento teve lugar em 27 de setembro de 1938, levou 15 minutos e decidiu a condenação do Sergei Korolev aos 8 anos de GULAG em regime severo. O engenheiro Langemak, que sob tortura denunciou Korolev, foi executado com uma bala na nuca após o mesmo “julgamento” em janeiro de 1938 – ele foi morto numa cela de execuções e enterrado numa vala comum no local especial do NKVD “Kommunarka”, na estrada de Kaluga, nos arredores de Moscovo.

Kolyma, antes de depois

Sergey Korolev foi enviado para trabalhar na mina de ouro de Madyak, na Kolyma – local considerado “suicida” – quase ninguém voltava de lá vivo. Korolev também não iria conseguir sobreviver os seus 8 anos – 2 anos depois ele ficou nas suas últimas forças, perdeu os dentes devido ao escorbuto, não conseguia ir ao trabalho.
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Do GULAG o “bastardo fascista” Korolev escrevia as cartas ao Estaline, mas não para pedir a sua própria libertação. Ele contava como NKVD falsificou o seu caso, falava sobre a próxima guerra, pedia a oportunidade de terminar o seu avião-foguete, que garantiria à URSS a superioridade militar sobre o inimigo. Korolev não sabia que Estaline, praticamente pessoalmente assinou a ordem de sua prisão, perseguido pelas suas próprias visões paranóicas – de alegada existência da “organização clandestina Moscovo-Centro”, que supostamente incluía proeminentes engenheiros e cientistas.
Korolev na prisão moscovita de Butyrka em 29/02/1940
Em 1940, Korolev foi transferido para o “sharashka” [bureao de construção em forma de prisão] do NKVD – o famoso “sharashka Tupolev”, onde ele se dedicou à algum trabalho decente e, finalmente, a URSS se recordou de cientista em 1946, quando tornou-se necessário encontrar alguém que pudesse entender o dispositivo do motor de foguete do alemão V-2 – os carrascos de NKVD não eram muito versáteis em ciências...

O sucesso posterior do Korelev é amplamente conhecido

Para o resto da sua vida Sergei Korolev não consegia abrir bem a boca – uma das consequências de ferimentos sofridos durante a tortura de NKVD [numa das secções os torturadores soviéticos lhe partiram o maxilar], então o mais provável, que Korolev não poderia desfrutar plenamente o sabor do sorvete soviético, o mais saboroso do mundo...

Fotos: arquivo | Texto: Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]

terça-feira, agosto 21, 2018

GULAG soviético: sistema de exterminação industrial de seres humanos

Em 2018 observa-se o centenário de criação na União Soviética do sistema de GULAG. Os primeiros campos de concentração soviéticos, assim como as carinhas de gás (para as execuções em massa), foram criadas e primeiramente aplicadas pelo OGPU-NKVD. Os nazis simplesmente seguiram as pegadas dos seus “camaradas de armas”.
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Tudo começou há 100 anos. Os comunistas “com a mão de ferro levavam a humanidade à felicidade”. Essa “felicidade” imediatamente se revelou à humanidade em forma de execuções em massa, campo Solovki infestado de febre tifóide, fomes de grandes proporções, Holodomor ucraniano. O bolchevismo deu origem ao canibalismo. Tortura e brutalidade se tornaram ações comuns em relação aos povos subjugados. Comunismo criou o organismo estatal – a Cheka / OGPU / NKVD, que empregava diversos psicopatas e sádicos. Uma tragédia sem precedentes, que durou mais de setenta anos e que marcou gerações inteiras de cidadãos:

Os primeiros campos de concentração foram criados no território da atual Rússia em 1918-1923. O termo “campo de concentração” apareceu em documentos assinados por Vladimir Lenine. Foi Lenine, e não Estaline, que assinou o decreto da criação do primeiro campo de concentração na Europa para os dissidentes, ainda em 1918. Estaline era o pai do sistema de GULAG, mas Lenine foi o avô.
Ler mais sobre as carinhas de gás, em uso pelo NKVD
As famosas carinhas de gás (em uso nazi: gaswagen), foram inventadas e pela primeira vez usadas na URSS em 1936. O seu criador, Isai Davidovich Berg, o Chefe administrativo do NKVD da província de Moscovo, foi fuzilado em março de 1939, mas reabilitado em 1962 como a “vítima das repressões estalinistas”.
Ler mais sobre o "terror vermelho"
Ano 2018 marca os 100 anos do início do terror vermelho, 95 anos de criação do campo de prisioneiros Solovki (SLON) e 100 anos de criação de campos de concentração na Rússia Soviética, que até o final de 1921 já eram 122. Crimes contra a humanidade que não foram condenados, o sistema de exterminação industrial de seres humanos que permaneceu impune...

quarta-feira, julho 04, 2018

O engenheiro sul-africano fuzilado pelo NKVD soviético

O engenheiro sul-africano Robert Sassone, vivia a trabalhava na União Soviética, quando foi preso pelo NKVD em 3 dezembro de 1937, condenado pela “tróica” do NKVD em 20 de dezembro, acusado de “agitação anti-soviética e intenções terroristas”, e fuzilado apenas dois dias depois, em 22.12.1937.

Pouco se sabe sobre africânder (bóer), possivelmente de origem francesa, Robert Sassone. Ele nasceu em Pretória em 1888, recebeu a sua formação na Academia Militar, possivelmente também sul-africana. O seu pai se chamava Richard, por isso, os soviéticos atribuíram ao Robert o nome patronímico e mudaram a letra S inicial de seu apelido para a Z, assim, nos documentos soviéticos ele passou se chamar Robert Richardovich Zassone (Роберт Ричардович Зассонэ).

Não se sabe como, por que e quando Robert Sassone se mudou para a União Soviética. Podemos deslumbrar duas hipóteses mais prováveis, ou isso aconteceu por vontade própria, então se trata de um simpatizante ingénuo das ideias de esquerda. Ou então, Robert veio por via de alguma missão militar britânica, dado que a União da África do Sul (fundada em 31 de Maio 1910) foi o domínio do Império Britânico, situação que se manteve até 31 de Maio de 1961 quando o país se tornou independente do Reino Unido, sob o nome da República da África do Sul.

No momento da sua detenção pelo NKVD, em 3 de dezembro de 1937, Robert Sassone tinha 50 anos, não possuía nenhuma filiação partidária e desempenhava as funções do chefe de departamento da madeira na construção do Canal de Moscovo (que até 1947 se chamava Canal Moscovo-Volga), uma das obras faraônicas do estalinismo, e vivia na localidade de Dedenevo (casa № 102), situada no distrito de Dmitrovski, na região de Moscovo.
A mão-de-obra semi-escrava dos prisioneiros do GULAG na construção de canais da navegação.
Tal como em diversas outras obras do regime comunista soviético da época, na construção do canal foi usada em massa a mão-de-obra semi-escrava de prisioneiros, políticos e comuns. Em 14 de setembro de 1932 para a construção do canal foi especialmente criado o campo de concentração soviético de Dmitlag, que funcionou até 1938 e cujo efetivo prisional chegou aos 192.000 prisioneiros em 1935-1936 (recorde absoluto em termos de número de prisioneiros, em todo o sistema GULAG soviético da época). Não existem os dados exatos sobre o número dos prisioneiros mortos em Dmitlag, mas segundo várias fontes, esse número varia entre 10.000 à 30.000 pessoas [fonte].
Os prisioneiros soviéticos do Dmitlag
Na construção das obras semelhantes também trabalhavam várias pessoas “livremente contratadas”, os trabalhadores civis, muitos deles ex-prisioneiros que após a sua libertação decidiam ficar e trabalhar na mesma obra em que trabalhavam como prisioneiros. Não se sabe ao certo se este era caso do Robert Sassone, mas não é de descartar a hipótese.

Apenas 17 dias após a sua prisão, em 20 de dezembro de 1937, Robert Sassone foi condenado pela famigerada tróica de NKVD da região de Moscovo, acusado de “agitação anti-soviética e intenções terroristas”. Não se sabe se Robert “confessou” os seus supostos “crimes”, mas ele foi fuzilado em 22.12.1937 no polígono de Butovo, nos arredores de Moscovo e reabilitado, à título póstumo, em 15 de julho de 1989.


O período extremamente curto de apenas dois dias entre a data de condenação e a data de execução, naturalmente demonstra que o condenado não teve nenhuma oportunidade de recorrer da sentença condenatória, muito menos de contar com auxílio de qualquer advogado. 

O seu processo № 20897 (volume II, p.166), está armazenado no Arquivo Estatal da Federação Russa (é possível consultar os seus dados online em russo AQUI ou AQUI).
Na foto de arquivo Robert Sassone está a sorrir, ele ainda não sabe que o seu destino já foi traçado e que ele será engolido pela máquina implacável do Grande Terror comunista...

@Ucrânia em África. O nosso blogue agradece aos leitores qualquer informação adicional sobre Robert Sassone.

quinta-feira, dezembro 22, 2011

Fábrica soviética da morte: uso de carrinhas de gás

As famosas carinhas de gás (em uso nazi: gaswagen), foram inventadas e pela primeira vez usadas na URSS em 1936. O seu criador, Isai Davidovich Berg, o Chefe administrativo do NKVD da província de Moscovo, foi fuzilado em março de 1939, mas reabilitado em 1962 como a “vítima das repressões estalinistas”.
As camionetas soviéticas com inscrição "Pão" que eram usadas como carrinhas de gás (gaswagen)
No início das purgas soviéticas dos anos 1930, os condenados ao fuzilamento em Moscovo eram sepultados em pequenas covas individuais. Estas sepulturas estão espalhadas em todo o polígono de Butovo. Mas desde o Agosto de 1937 os assassinatos em Butovo tomaram as proporções tão grandes que a “tecnologia” do extermínio comunista tinha que mudar.
As camionetas soviéticas conhecidas como "corvo negro", usadas para o transporte dos prisioneiros
Com ajuda de uma retroescavadora, foram cavados vários poços de grande porte, com o cumprimento de cerca de 500 metros, a largura de 3 metros e uma profundidade de 3 m (as valas podem ser vistas nas fotografias aéreas que foram feitas pelo organismo de gestão de solos ao pedido do NKVD).
Oficial do NKVD Isai Berg, fuzilado aos 34 anos
No polígono de Butovo, a execução dos condenados à morte por famosas “tróicas” estava ao cargo do Isai Davidovich Berg que desde 1934 era o Chefe da unidade administrativa e económica do departamento do NKVD da província de Moscovo. Nascido em Moscovo no seio de uma família judia, em 1920 se alistou no Exército Vermelho, em 1925 já comandava um pelotão. É membro do PCUS desde 1930.
Dado que NKVD tinha que exterminar muita gente em um curto período de tempo, Berg apresentou a sua invenção tecnológica: as pessoas nus, amordaçadas, com mãos e pés amarrados, eram colocados em camiões fechados, 20-30, por vezes até 50 pessoas, até o ponto de não conseguirem se mexer. Dentro do camião, que se parecia com o de transporte do pão, colocava-se o tubo de escape, que sufocava as pessoas até a morte com os produtos de combustão. Se a vítima não morria asfixiada, ficava em um estado semiconsciente, facilitando o seu extermínio. Pela primeira vez foi usado pelo NKVD em 1936.
Imprensa russa (1993) à citar as fontes oficiais da Direção Geral de Proteção que confirmam o caso Berg
O próprio Berg foi preso em agosto de 1938, acusado de pertencer à organização terrorista trotsquista dentro do NKVD e fuzilado em março de 1939. Foi reabilitado, na qualidade de vítima das repressões estalinistas, ao título póstumo, em 6 de junho de 1962.
Isai Berg após a sua prisão pelo NKVD
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