sexta-feira, fevereiro 13, 2026

A enciclopédia ilustrada dos horrores e abominações do GULAG soviético

A fazendeira e escritora Eufrósínia Kersnovskaya passou 12 anos da sua vida aprisionada no GULAG soviético. Produziu centenas de pinturas, que com a precisão fotográfica mostram os horrores e abominações dos campos de concentração comunistas da União Soviética. 

Eufrósínia Kersnovskaya

Há uma verdadeira enciclopédia nessas imagens. Elas contêm um material tão informativo que nenhum memorialista consciencioso ou coleção de documentos poderia fornecer. O olhar perspicaz da artista captura situações que jamais poderiam ser registradas por fotografia e cinema (fotógrafos e cinegrafistas eram simplesmente proibidos no GULAG): a vida em confinamento solitário e celas compartilhadas, os horrores dos embarques, as etapas, a vida nos campos de Estaline, o trabalho dos prisioneiros em hospitais e serrarias, em necrotérios e nas minas, escreve blogue Antisovetsky

Chegada de uma nova etapa ao «campo corretivo-laboral» do GULAG
Kersnovskaya se lembra de tudo — como eram as parashas (latrinas), como os prisioneiros se vestiam, como aconteciam os interrogatórios, os shmons (rusgas), as lutas corporais, a lavagem nos banhos públicos e as rotinas de necessidades fisiológicas, os enterros dos mortos, os amores e romances.

«Descanso curto ao caminho da cova»

Com uma lapidação precisa, ela retrata seus anos de GULAG e nos trabalhos forçados, seus camaradas na desgraça e seus carrascos. Todos os tipos de personagens existem nesses desenhos: guardas prisionais, urkas (criminosos), professores doutores, delatores, presos especiais, menores, dokhodyagi (quase-mortos), camponeses, zhuchkas ((1) jovem prostitutas; 2) ladras; 3) concubina fieis)), brigadeiros laborais, koblas (lésbicas ativas), padrinhos (oficiais do NKVD encarregados da segurança interna dos campos), prostitutas. E tudo isso foi capturado por Kersnovskaya com precisão cinematográfica. Quase não há estática – tudo se move, age, vive, nas suas imagens. A carga psicológica e emocional das imagens está no limite! 

«Dúzia dos quase-mortos são levados aos trabalhos» 

Eufrósínia nasceu em em 1908 no sul da Ucrânia, em Odessa. Sua mãe era professora de inglês e francês. Seu pai era advogado e criminologista. Eufrósínia recebeu uma excelente educação e falava nove idiomas, no entanto optou por se formar em veterinária. 

Fugindo dos horrores do comunismo e do terror vermelho, após a queda da República Popular da Ucrânia (UNR), família conseguiu fugir à Romênia. Lá, na região de Bessarábia, perto da cidade de Soroki, na vila de Tsepilovo, ficava uma propriedade da família. No final da década de 1930, seu pai faleceu. A filha e a mãe teriam continuado morando em sua casa até que em agosto de 1939, a Alemanha nazi e URSS comunista assinaram um pacto de não agressão, que dividia as suas «esferas de influência» na Europa Oriental. O Exército Vermelho veio do oeste, e as pessoas da sua «esfera de influência» foram enviadas para a Sibéria em vagões de gado. Kersnovskaya também foi deportada, por ser «uma proprietária» e representante de uma «família rica». Ficou presa de 1942 a 1952, período durante o qual lavava roupas de cama de hospitais, passou pelo localidade de Zlobino, como ela chamava de «mercado de escravos de Norilsk». 

Uma lição de «economia» socialista 

«Aqui, crianças estão espalhadas em fila ao longo de um campo de trigo não colhido, a professora está explicando algo... Finalmente, entendi: essas crianças magras e famintas estão queimando o trigo...»

«... Galopando pelo campo... Não sei quem era. Aquele cavaleiro parecia mais um oprichnik! Só que na sela não havia uma cabeça de cachorro ou uma vassoura, mas um monte de mochilas. O que está acontecendo? O que aquelas crianças magras e as velhas fizeram de errado enquanto colhiam espigas de milho? Elas me explicaram na aldeia: 'Não recebes nada por um dia de trabalho. Quando você colhe espigas de milho, pode levar/pegar até 10 quilos... 

Mas as espigas de milho vão se perder de qualquer jeito! – 'Vão se perder mesmo. Mas se você permitir que colham as espigas de milho, ninguém vai trabalhar? Ou talvez elas deixarão as espigas [no campo] de propósito.'» 

Uma lição de alfabetização política 

Quando Kersnovskaya estava numa prisão na região de Altai, ela aprofundou os seus conhecimentos políticos. Ela escreve: «Uma jovem que saiu para passear conosco foi presa por não denunciar um homem que, usando quinze fósforos, formou o número «fatal» 666, depois a palavra «serpente» e, finalmente, «Lenine». Para mim, com minhas «limitações europeias», parecia que [cidadão] só se podia ser responsabilizado por seus próprios atos. Comecei a perceber, com dificuldade, que aqui, neste país, até mesmo palavras ditas são consideradas um crime. Mas ser mandada para a prisão por algo que se ouviu — não! Isso supera qualquer coisa que um louco possa imaginar em meio ao delírio!»

Uma lição de ateísmo

«Às vezes, um grupo [de mulheres] se reunia na pocilga... Uma vez, Irma Melman trouxe uma coleção de poemas antirreligiosos. É difícil dizer qual desses poemas era o mais estúpido e vulgar». 

«Qual a minha opinião sobre essa 'poesia'?», você pergunta. 

«Bem, uma pocilga é o lugar mais apropriado para ler tais poemas. Uma lixeira serviria igualmente bem...» Dei de ombros, respondendo às perguntas de Irma Melman, e fui alimentar os leitões. Longe de pensar que isso selava meu destino... Fui acusada de agitação antissoviética e atividade subversiva em uma granja de porcos, e também de ódio ao 'orgulho da poesia soviética — Maiakovski'." 

Sob essa acusação Eufrósínia Kersnovskaya foi enviada para Norillag.

Uma lição de «racionalização» soviética (a experiência de Norillag

Antes da II G.M., os prisioneiros eram enterrados em caixões rudimentares; durante a guerra, o número de cadáveres aumentou tanto que inventaram o chamado carro funerário — uma caixa sobre rodas onde os cadáveres nus eram colocados, em forma sobreposta. Ironicamente, o inventor desse «carro funerário» morreu subitamente e estava em uma das primeiras viagens. Em 1947, começaram a transportar prisioneiros em caixões novamente dos quais, aliás, eram lançados/jogados às valas comuns. 

«No momento da chamada todos devem estar presentes, Mesmo os mortos» 

Uma lição de humanismo socialista 

Enquanto trabalhava no hospital central do campo de prisioneiros de Norilsk, sua primeira morte ocorreu em serviço. «Um tártaro, originário da Crimeia, estava morrendo. Reunindo suas últimas forças, ele se sentou, me chamou e disse: 'Irmã! Aqui está o endereço da minha esposa... Escreva para ela.' Eu fiz o que ele pediu. Me meti em encrenca por isso! Mal sabia eu que um prisioneiro moribundo não tem o direito de se despedir — nem mesmo por carta — de sua família? Se eu ousar relatar outra morte, eles me mandarão para um campo penal para cavar areia». 

Uma lição sobre a verdade comunista

Em 1960, sete anos após a morte do Estaline e em pleno «degelo» de Khruschev, Eufrósínia Kersnovskaya, uma operária de explosivos da mina 13/15, escreveu uma carta ao jornal da cidade «Zapolyarnaya Pravda» sobre violações de normas de segurança no trabalho. Uma prestigiosa comissão, a pedido da redação, verificou os fatos e concluiu que a denúncia era uma calúnia contra cidadãos soviéticos.

No texto publicado em resposta, Eufrósínia foi acusada de «maldade», de ser proveniente de uma família rica e que os seus pais «fugiram para o exterior». O texto a acusava de «malícia contra tudo o que é soviético, herdada de seus pais», dizia que ela «apoia abertamente os nazistas» (?) e que «mesmo depois de cumprir sua pena, continua seu trabalho sujo» (?). Em resumo, os mineiros soviéticos estão lutando pelo título de uma mina de trabalho comunista, e Eufrósínia «ainda tem veneno nos lábios» (artigo se chamava «Uma Mosca Não Pode Eclipsar o Sol»). 

Houve então uma reunião no local de trabalho de Eufrósínia Kersnovskaya, mas as autoridades soviéticas sofreram uma derrota esmagadora: os mineiros saíram em sua defesa. Disseram que Kersnovskaya era uma excelente técnica de explosivos, uma camarada confiável e uma pessoa bondosa. A tentativa de prisão da investigadora fracassou... Então ela foi «aconselhada» a deixar Norilsk. Pediu para trabalhar por mais um ano e quatro meses até completar o tempo que lhe permitiria se reformar/aposentar mais cedo. O pedido foi negado. Assim, ela deixou para sempre a odiada Norilsk em 1959.

Um selo postal da Moldova, dedicado à Eufrósínia Kersnovskaya

Eufrósínia Kersnovskaya morreu em 8 de março de 1994 na cidade russa de Yesentuki. Autora de um livro de memórias (2.200 páginas manuscritas), acompanhado por 700 desenhos, sobre sua infância em Odesa e na Bessarábia, sua deportação e a sua prisão no GULAG. O texto completo das memórias de Evfrosinia Kersnovskaya, em seis volumes, foipublicado somente em 2001–2002.

Ler o livro de suas memórias «Quanto custa uma pessoa», +18, em russo


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