Mostrar mensagens com a etiqueta Ásia Central. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ásia Central. Mostrar todas as mensagens

domingo, novembro 09, 2025

❗️ Os mercenários do Quirguistão mortos na guerra neocolonial russa na Ucrânia

Pelo menos 143 cidadãos do Quirguistão já morreram após serem recrutados para o exército russo. A lista de mortos divulgada pelo projeto ucraniano «Quero Viver» não é completa, nem exaustiva – inclui apenas os nomes daqueles cujas mortes tiveram confirmações confiáveis ​​de fontes privilegiadas no exército russo. 
Faça click para consultar a lista completa

Esta lista dá continuidade a uma série de publicações sobre o recrutamento de cidadãos estrangeiros pela rússia para lutar na guerra contra Ucrânia. «Quero Viver» já publicou a listas com nomes de 687 cidadãos quirguizes recrutados pelos russos, que GUR MOU conseguiu identificar. 

Assim como nos outros países da Ásia Central, a rússia está intensificando o recrutamento no Quirguistão. Dos mercenários que identificamos, 135 assinaram contratos em 2023 e 326 em 2024. Em menos de oito meses de 2025, pelo menos 400 cidadãos quirguizes se alistaram no exército russo. 

A rússia considera extremamente útil recrutar cidadãos estrangeiros para suas unidades de assalto. Certo que, sem um combate judicial ativo às suas redes de recrutamento russo, o número de mercenários continuará a crescer. Dado que os estrangeiros são habitualmente designados para unidades de infantaria de assalto, e o seu treino/amento dura entre alguns dias até, no máximo, duas semanas, a maioria deles corre o risco sério de morrer. 

Blogueiro: como sempre, é útil comparar os números. Assim, mais de 7.000 quirguizes participaram na sangrenta guerra colonial soviética no Afeganistão, que durou, ao certo, nove anos, um mês e 21 dias (3.340 dias). Destes, 254 foram mortos e cerca de 1.500 ficaram feridos. Aproximadamente 600 veteranos retornaram da guerra com deficiências físicas permanentes.

Salve a sua vida e renda-se às FAU: t.me/spasisebyabot

Ligue para +38 044 350 89 17 e 688 (somente de números ucranianos)

Escreva para o Telegram ou WhatsApp:

  • +38 095 688 68 88
  • +38 093 688 68 88
  • +38 097 688 66 88

sexta-feira, outubro 10, 2025

❗️ Os mercenários tajiques mortos aos serviço do neocolialismo russo

O projeto ucraniano «Quero Viver» divulga a lista dos mercenários tadjiques que morreram na atual guerra colonial russa contra Ucrânia. A lista, bastante incompleta, apresenta mais nomes do que Tadjiquistão perdeu em 10 anos na guerra colonial soviética no Afeganistão. 

Faça click para consultar a lista completa

A lista inclui os nomes de 446 cidadãos tajiques que morreram na guerra contra Ucrânia nas fileiras do exército russo. Esta lista não está completa e inclui apenas aqueles cujas mortes foram confirmadas de uma forma fiável. O número real de cidadãos tajiques mortos e desaparecidos já ultrapassou alguns milhares. Anteriormente já foram publicadas as listas de mercenários identificados do Tajiquistão: Lista 1 de 931 mercenários dos quais 196 já morreram e Lista 2 de 628 mercenários que se alistaram nos primeiros 6 meses de 2025. 

Recentemente putin chegou ao Tajiquistão, onde foi calorosamente recebido à entrada do seu avião pelo presidente Emomali Rahmon. O Tajiquistão não cumpriu o mandado de detenção do Tribunal Penal Internacional contra o presidente russo, acusado de crimes de guerra. Claramente, não faz sentido alimentar ilusões de que Rahmon sequer dirá uma palavra sobre os seus concidadãos, tanto os mortos como os capturados, serem enviados pela rússia, em massa para a morte certa. O número de cidadãos tadjiques em campos de POW na Ucrânia é de algumas dezenas e continua a crescer. Nem a rússia, nem o Tajiquistão demonstraram qualquer interesse no seu regresso. 

O povo do Tajiquistão está entre a espada e a parede. Obrigados a fugir do seu país para escapar à pobreza extrema, os tadjiques encontram-se na rússia, onde são tratados como semi-escravos — a mão-de-obra barata. Os nacionalistas russos, juntamente com a polícia russa, organizam efectivamente uma caça aos migrantes: os detidos são obrigados a assinar contratos para combater na guerra sob ameaça de deportação ou da prisão. Dushanbe oficial continua a ignorar essa realidade. 

Lembramos mais uma vez: não importa como se encontre na guerra de agressão da rússia contra Ucrânia, pode salvar a sua vida rendendo-se voluntariamente através do projeto «Quero Viver». Basta enviar-nos uma mensagem através do Messenger ou enviar um pedido no chatbot. 

Salve a sua vida e renda-se às FAU: t.me/spasisebyabot

Ligue para +38 044 350 89 17 e 688 (somente de números ucranianos)

Escreva para o Telegram ou WhatsApp:

  • +38 095 688 68 88
  • +38 093 688 68 88
  • +38 097 688 66 88

As autoridades tajiques não comentaram oficialmente estes dados. Em agosto de 2025, o Procurador-Geral do país, Khabibullo Vohidzoda, reconheceu que ninguém no Tajiquistão tinha sido responsabilizado pela participação na guerra da Ucrânia nos últimos três anos. Explicou isto dizendo que alguns destes indivíduos têm dupla cidadania e, nas suas palavras, «ao aceitar a cidadania de outro país, uma pessoa é obrigada a obedecer às suas leis e a cumprir as suas obrigações». 

A rússia está a utilizar métodos primitivos para recrutar os cidadãos centro-asiáticos para combater na Ucrânia. Muitos são recrutados em prisões, outros são vítimas de rusgas da polícia russa nos locais de construção civil e nos mercados, aliciados com promessas de libertação, pagamentos altos ou obtenção da cidadania russa, outras vezes com ameaças de processos criminais e deportação.

É de recordar que segundo os dados oficiais, mais de 15.000 tadjiques foram convocados para servir no exército soviético no Afeganistão. Em 10 anos da guerra 366 deles morreram. Tendo em conta que quase todos os regimentos e unidades de informações soviéticas tinham tadjiques a servirem de tradutores, dado que uma parte dos afegãos são tadjiques pela origem étnica.  

Bónus. A 63ª Brigada Mecanizada «Leões de Aço» do exército ucraniano capturou o cidadão indiano Majoti Sahil Mohamed Hussain, de 22 anos, natural do Gujarat, que combateu no exército russo. A sua história é bastante típica. Veio à rússia para estudar, foi apanhado no consumo/trâfico de droga, condenado à 7 anos de cadeia. Não queria cumprir pena na cadeia russa, por isso assinou o contrato com exército russo. Colocado na linha da frente, apenas 3 dias depois se entregou às forças ucranianas:

sexta-feira, julho 11, 2025

O liberalismo colonial russo: um caso cinematográfico

A pena, dos liberais russos, à priori e por padrão, por “meninos à lutarem pela Pátria russa num país estrangeiro”, está enraizada em toda a cultura popular e neo-colonial soviética e russa. 

Um dos casos emblemáticos é a famosa cena do filme “Sol Branco do Deserto” (1970), onde um inocente e supostamente libertário menino russo, “o nosso pobre Petrukha”, na verdade não passa de um reles ocupante, e onde o “marvado e maligno basmach” Abdullah Negro (Sic!), na realidade estava simplesmente a defender a sua própria terra e a sua família:

 

Nos mesmos moldos muitos liberais russos vêem a atual guerra russa na Ucrânia, onde sentem imensa pena dos «seus meninos», à quem o malvado putin enviou, entende-se contra a vontade deles, à guerra contra Ucrânia, onde estes «sofrem» e até «também são vítimas», ainda por cima não contam com nenhuma empatia por parte dos ucranianos e da comunidade internacional.

sábado, abril 19, 2025

Ucrânia revela os nomes dos mercenários do Quirguistão

O centro ucraniano «Quero viver» continua a publicação de listas dos mercenários estrangeiros, lutando ao lado da federação russa. Hoje é a vez dos mercenários de Quirguistão, um país pobre da Ásia Central. 

Oficialmente, na guerra entre rússia e Ucrânia, o Quirguistão assume uma posição neutra, mas a rússia livremente recruta os quirguizes, bem como outros cidadãos dos estados da Ásia Central pós-soviética, para compensar rapidamente as perdas dos primeiros meses da invasão e da contra-ofensiva ucraniana na região de Kharkiv no outono de 2022. 

Consultar a lista

As fontes dentro do exército russo forneceram a lista de nomes de 360 ​​cidadãos do Quirguistão que assinaram um contrato com o exército russo. A lista está incompleta, o número real de mercenários é maior. O mais novo da lista tem 18 anos (assinou o contrato quase imediatamente após atingir a maioridade), o mais velho tem 63. 

Pelo menos 38 pessoas desta lista já morreram, existem informações sobre a data da sua morte e o local do sepultamento (recorde são 12 dias do momento da assinatura do contrato até a morte). 

Assim como no caso dos cidadãos do Cazaquistão, os quirguizes são recrutados por meio de enganos, promessas vazias de «salários altos», além de ameaças e coerção. Há muitos cidadãos do Quirguistão entre os emigrantes na federação russa, muitas vezes ilegais. Muitos deles mordem a isca na forma de promessa da cidadania russa ou se tornam vítimas das rusgas da polícia russa. 

Alisher Tursunov estava visitando seu filho na rússia, em Ryazan. Ao ir à loja para comprar kefir, ele foi sequestrado pela polícia russa. Os agentes, ao notarem um rosto “não russo”, agarraram o homem para enviá-lo à morte certa. Para a realidade russa isso já se tornou comum. 

Tursunov, de 57 anos, foi levado para um centro de detenção, onde foi espancado e forçado a assinar um contrato com o Ministério da Defesa russo. Então, em poucos dias, ele se viu na linha de frente em algum lugar na região de Luhansk.

 

Alguns dos que chegaram com Alisher foram enviados imediatamente para o ataque: das 17 pessoas, apenas duas sobreviveram. Ele teve sorte, já que seu grupo foi forçado a cavar trincheiras. Aproveitando o momento após o bombardeio, ele conseguiu fugir, chegando às posições ucranianas e se rendeu. A primeira coisa que Tursunov ouviu dos militares ucranianos foi: «Não tenha medo. Ninguém encostará um dedo em você.» Os ucranianos cumpriram a palavra, deram-lhes algo para beber e comer, e o levaram para um lugar seguro.

As autoridades quirguizes ainda não comentaram a lista publicada. Assim como no Cazaquistão, a participação em conflitos no território de outros estados da República do Quirguistão está sujeita a punição criminal. É verdade que, desde o início da invasão em larga escala da federação russa na Ucrânia, apenas dois cidadãos do país foram levados à justiça, apesar de, somente de acordo com dados abertos, mais de 70 quirguizes terem morrido na guerra na Ucrânia. De acordo com informações OSINT, quer o número de mortos, quer o número total de cidadãos do Quirguistão recrutados pelo exército russo são bastante maiores. 

Beknazar Borugul uulu (esquerda) e Askar Kubanychbek uulu (direita),
condenados no Quirgustão por participação na guerra na Ucrânia.

Lembramos repetidamente que todos os estrangeiros que vão lutar pela federação russa não passam de peças descartáveis para as autoridades russas. Não importa o que um recrutador ou um camarada militar tenha prometido, não vale a pena arriscar sua vida pela guerra de outros longe de casa. Além disso, em quase todos os casos os mercenários são enganados. Mesmo que consigam um passaporte russo, isso não os salva de serem enviados para a morte certa na linha da frente, o que foi provado por vários representantes dos povos indígenas da rússia e outras minorias étnicas. 

  • Salve sua vida e renda-se às FAU: t.me/spasisebyabot
  • Chamadas: +38 044 350 89 17 / 688 (somente números ucranianos)

Uma operação de rotina das forças paramilitares e da polícia russa, dirigida à detenção de cidadãos quirguizes ocorreu recentemente em um dos banhos públicos de Moscovo/ou. Paramilitares não identificados e mascarados detiveram os homens por várias horas até a chegada da polícia russa, que espancava e humilhava os presentes: 

Imediatamente após o aparecimento do vídeo, houve a reação oficial do Quirguistão oficial - o embaixador russo foi chamado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros / das Relações Exteriores, onde recebeu uma nota oficial, e os deputados quirguizes exigiram ações mais decisivas do seu governo em resposta às ações ilegais do lado russo. Na resposta, a parte russa informou oficialmente, que o ministério do interior russo «agiu dentro da lei».

domingo, abril 06, 2025

Ucrânia revela os nomes dos mercenários do Cazaquistão

Projeto ucraniano “Eu Quero Viver” iniciou uma série de publicações sobre mercenários estrangeiros, que servem nas fileiras do exército russo. O primeiro país à ser analisado é a República do Cazaquistão. 

As autoridades russas têm vindo a recrutar ativamente mercenários para a guerra contra Ucrânia desde o primeiro trimestre de 2023. Foi o resultado direto das enormes perdas sofridas pelo exército russo no primeiro ano da invasão, que não puderam ser compensadas através da simples mobilização. Os primeiros alvos dos recrutadores russos foram cidadãos do chamado “estrangeiro próximo” – países da Ásia Central: Uzbequistão, Cazaquistão, Tajiquistão, Quirguistão.

Faça click para consultar a lista completa

O processo de recrutamento de cidadãos da Ásia Central para o exército russo é realizado, através de três vias principais: engano, promessas de pagamentos elevados ou coersão. Alguns recebem ofertas de emprego como seguranças, outros recebem promessas de elevadas recompensas monetárias sob a forma de um salário mensal e cidadania russa, e outros são coagidos e ameaçados de prisão ou deportação. O resultado é igual para todos. 

Mercenário do Cazaquistão Shyngys Seipiev (1998) é um dos últimos “wagneleiros da primeira vaga” em cativeiro ucraniano:


Shyngys cometeu um crime na rússia e diz que foi à guerra para limpar o seu registo criminal e regressar para a sua terra natal, o Cazaquistão. Foi recrutado pela EMP Wagner da cadeia russa, onde esteve a cumprir uma pena de 8 anos, na Colónia Penal Nº 2 de Tyumen. 

Dois meses após à sua saída da prisão, no decorrer de combates nos arredores de Bakhmut, Shyngys foi capturado pelas FAU. Na Ucrânia foi condenado novamente. Em maio de 2023, o tribunal ucraniano condenou-o aos 9 anos de prisão por mercenarismo. Tentando limpar a sua biografia à custa das vidas dos ucranianos, Shyngys só piorou a situação. Pelo terceiro ano consecutivo espera que os russos se lembrem dele. Mas o Ministério da Defesa russo não está a colocar os cazaques na lista de troca. Mas caso for trocado, será enviado de volta para a frente de combate ou enfrentará julgamento no Cazaquistão por mercenarismo ou por participar num conflito armado no território de outro estado. 

Das suas fontes no comando do exército russo, Ucrânia recebeu uma lista de cidadãos do Cazaquistão que estão a combater ou combateram a Ucrânia. De acordo com os dados, pelo menos 78 dos 661 mercenários morreram até ao final de 2024. Estes são apenas aqueles para os quais existem as informações precisas sobre a data da morte e o local do enterro. Alguns dados não confirmados apontam que até outubro de 2024 mais de 3.000 cazaques étnicos e naturais do Cazaquistão (cidadãos russos e do Cazaquistão) foram mortos na Ucrânia. 

Com base nas estatísticas, a vida média de um mercenário, desde a assinatura de um contrato até à morte, é de 130 dias. O período mais curto é de 9 dias. Se os russos não valorizam os seus próprios soldados, o que podemos dizer dos “não russos” que estão habituados a humilhar na vida civil? Portanto, viajar até ao outro lado do mundo, tendo acreditado em promessas de elevados pagamentos ou da cidadania russa, apenas para ser enviado ao ataque suicída por um comandante russo para invadir algum local geográfico da Ucrânia é, para dizer o mínimo, estúpido. 

Gostaríamos de realçar que o mercenarismo é uma infração criminal na República do Cazaquistão. Aqueles que têm a sorte de sobreviver nas fileiras do exército russo correm o risco de receber uma pena de 12 a 17 anos com confisco de bens quando regressam a casa. Felizmente, o Cazaquistão segue a sua própria legislação, e os mercenários envolvidos na tentativa de ocupação da Ucrânia são regularmente presos e condenados. Naturalmente, Ucrânia fará todos os esforços para responsabilizar criminalmente os cidadãos de países terceiros que vieram à Ucrânia para matar os ucranianos e destruir os seus lares. 

A publicação da lista de mercenários do Cazaquistão no exército russo, recrutados para a guerra contra Ucrânia, causou uma ressonância significativa nos meios de comunicação social do Cazaquistão. O projeto “Eu Quero Viver” recebeu inúmeros pedidos de comentários sobre este tema por parte de jornalistas, cidadãos e representantes oficiais da República. 

A publicação, aparentemente, foi uma surpresa para as autoridades cazaques. Por exemplo, o vice-ministro do Interior, Igor Lepekha, declarou a necessidade de “verificar a informação”. Aidos Sarym, deputado da Majilis (câmara baixa do parlamento), reconheceu a existência de um mecanismo para envolver os cidadãos do país na guerra do lado russo e que a questão “deve ser abordada especificamente”. O deputado Aidos Sarym lembrou ainda que, de acordo com a legislação cazaque, os “voluntários” serão responsabilizados se regressarem ao país. Porque a lei proíbe estritamente a adesão a estruturas militares estrangeiras.

Os três jovens cazaques que lutaram no exército russo na guerra contra Ucrânia e que foram capturados. Todos os três assinaram o contrato voluntariamente. Infelizmente, não há nada de surpreendente nisto – estes são os resultados do impacto da propaganda russa e da expansão gradual da federação russa em todas as esferas possíveis da vida dos seus vizinhos. 

De esquerda para direita: o primeiro nasceu no Cazaquistão, mas no «enclave» russo de Baykonur, o segundo é cazaque étnico, mas nasceu na rússia, e último nasceu no Cazaquistão. Apenas um, o último, disse que no caso de uma agressão russa ele iria defender Cazaquistão, quando os três foram perguntados sobre a sua lealdade nacional.

Blogueiro

Nas décadas de 1940-1950, durante diversas ondas das repressões estalinistas, o Cazaquistão, foi o destino, de diversas levas de deportações soviéticas, recebendo as populações ucranianas, polacas, lituanas ou tártaros da Crimeia. Casaquistão também abrigava diversos campos de concentração soviéticos do sistema de GULAG, nomeadamente o famigerado ALZHIR, onde eram presas as mulheres e crianças, cuja única «culpa» consistia em serem «membros da famíla do inimigo do povo». Na dita «primavera de Khruschev», nas décadas de 1960-1970, Cazaquistão foi o destino de jovens idealistas soviéticos, que trabalhavam na indústria espacial soviética ou nos projetos agrícolas, magalomaníacos e bastante desastrosos. 

Devido à estes fatores, hoje em dia Cazaquistão possui importantes diásporas europeias, compostos por descendentes daqueles, que pararam no país, em vários momentos do século XX, muitas vezes contra a sua vontade, mas acabando por escolher essa terra como a sua segunda pátria.

sábado, março 08, 2025

A Guerra de Outros: mercenários ao serviço da rússia

O documentário do Daniel Berger relata histórias de duas famílias quirguizes cujos filhos morreram na guerra colonial russa contra Ucrânia. A sua dor distorce o mundo ao ponto de nada fazer sentido – as atividades manuais têm a sua própria lógica que pode oferecer um alívio quando nada mais o fará. Cada acção quotidiana parece ajudar os pais a esquecer que a morte dos seus filhos na guerra de outros simplesmente foi em vão. 

“Vivemos em silêncio, mas não há alegria, há uma espécie de vazio”, explica o pai de Rustam ao autor silencioso do filme nos bastidores. O filhotinha vinte anos quando se alistou no exército e foi para a frente de combate na esperança de obter a cidadania russa. Vinte dias depois foi morto. 

O pai do falecido deambula sem rumo pelas instalações desertas da escola fora do horário escolar. Preenche o vácuo, criando um verdadeiro altar à memória do filho. «Dever Militar», «Honra e Destino», «Lembramo-nos! Estamos orgulhosos!» — como se estes slogans rotineiros fossem feitiços na iconóstase, pendurados com retratos e medalhas. Não há nenhuma pessoa viva na tela, nem sequer o seu fantasma aparece, apenas um traço quase imperceptível — nas palavras confusas dos pais a tomar chá numa mesa ricamente posta, tendo como pano de fundo um bonito tapete oriental. 

Outro soldado, Egemberdi, conseguiu obter a cidadania russa e foi convocado de imediato. Quatro meses depois, foi obrigado a assinar um contrato e enviado para a frente de combate, onde morreu doze dias depois. Agora a família abate o carneiro e decide quem vai recitar o Corão enquanto o sangue do animal corre. O texto da oração pede “proteger a nossa terra das guerras e dos infortúnios”. 

O 5º Festival Internacional do Cinema documentário Artdocfest ocorrereu em Riga de 1 à 8 de março de 2025. Para mais detalhes, visite www.artdocfest.com 

Blogueiro

Um mercenário do Azerbaijão, ao serviço dos ocupantes russos, que perdeu a perna e as mãos na Ucrânia, queixou-se de que foi enganado e não recebeu a cidadania russa, ora lhe prometida. Agora sobrevive no hospital sem pagamentos, nem benefícios. Os ocupantes russos o usaram e depois simplesmente abandonaram.

@kazansky2017

domingo, fevereiro 16, 2025

Mercenários da Ásia Central usados e esquecidos pelas autoridades russas

Mercenário de cara descoberta é quirguiz Alisher Tursunov, liberto numa das trocas dos POW

Mais de 50 POW russos, cidadãos e originários de países da Ásia Central, estão presos na Ucrânia, todos eram militares do exército russo, informa  «Rádio Azattyk». 

O Governo ucraniano informa que mais de 50 militares originários da Ásia Central que combateram ao lado das forças russas foram capturados pelas FAU. Entre eles, mais de 30 pessoas são cidadãos destes países, outros são cidadãos russos nascidos naquela região ou possuem duas cidadanias. 

Atualmente, entre os POW reconhecidos oficialmente pela Ucrânia, encontram-se 54 representantes dos povos da Ásia Central. Entre eles, contam-se: 1 quirguiz, 21 cazaques, 18 tadjiques e 14 uzbeques. Alguns deles possuem passaportes russos. Por exemplo, dos 21 POW do Cazaquistão, apenas seis são cidadãos do Cazaquistão, os restantes são cidadãos da rússia. 

Mercenário uzbeque, 46 anos, capturado
em 16 de dezembro de 2024 na frente de Zaporizhia pela Brigada
«Spartan» da Guarda Nacional da Ucrânia (NGU)

A Vice-Primeira-Ministra e Ministra da Justiça da Ucrânia, Olha Stefanyshyna, explica o seguinte: 

«A informação sobre a cidadania dos prisioneiros de guerra é frequentemente estabelecida a partir das suas palavras, uma vez que os documentos que confirmam a sua identidade estão, na maioria dos casos, ausentes. O Ministério da Justiça da Ucrânia considera que os prisioneiros de guerra localizados em centros e campos de detenção ucranianos, independentemente da cidadania, têm o mesmo estatuto legal, consagrado em atos jurídicos internacionais e nacionais.» 

O projeto ucraniano “Eu Quero Viver” ajuda aos militares russos e aos mercenários estrangeiros a renderem-se voluntariamente e salvar as suas vidas. 

Os russos utilizam há muito tempo activamente a prática de recrutamento de migrantes do espaço pós-soviético. Para eles, um quirguiz ou tadjique sempre foi visto como a mão-de-obra disponível e barata em todos os sentidos da palavra. Ora, no contexto da necessidade de repor perdas enormes e regulares do exército russo, os migrantes tornaram-se um dos alvos prioritários do Ministério da Defesa russo. São forçados aderir ao exército russo através de fraude e/ou coerção ou, então são tentados pelas grandes somas de dinheiro, o que na maioria dos casos se torna uma sentença de morte e um bilhete de apenas ida. 

A propaganda do serviço no exército russo dirigida aos cidadãos do Quirguistão

O Quirguistão proíbe os seus cidadãos de participar em ações militares no território de outros países e pune aqueles que participam. O Comité Estatal de Segurança Nacional do Quirguistão recorda que os participantes em ações militares serão responsabilizados de acordo com o artigo 256º do Código Penal da República do Quirguistão (“Participação de um cidadão da República do Quirguistão em conflitos armados ou ações militares no território de um estado estrangeiro ou em treino para cometer um ato terrorista”). O artigo 416º do Código Penal da República do Quirguistão prevê uma pena de até 15 anos de prisão pelo recrutamento, financiamento e participação em guerra. 

As autoridades uzbeques alertaram que os cidadãos que participarem em operações militares no território de outros países serão responsabilizados ao abrigo do artigo “mercenarismo”. Os acusados ​​de tais crimes enfrentam penas de prisão que variam entre 5 à 10 anos.

quinta-feira, setembro 05, 2024

A “inocência imperial”: a especialidade intelectual do imperialismo russo

Muitos russos, mesmo entre os que se opõem à guerra da Rússia contra Ucrânia, ainda hesitam em assumir responsabilidades, atribuindo a invasão à provocação da NATO ou a teorias da conspiração sobre a intromissão dos EUA e um golpe de Estado. Os especialistas dizem que isto acontece porque a mentalidade de “vítima” persiste hoje na sociedade russa. Mas porque é que isso acontece? 

Esta foi a primeira pergunta à Dra. Botakoz Kassymbekova, professora assistente de História Moderna na Universidade de Basileia, especializado em história imperial soviética e russa.

Como sabem, Catarina, a Grande, justificou a colonização do Cáucaso como uma missão cristã de bondade. Os historiadores russos liberais, críticos fervorosos de Vladimir Putin, como Yuri Pivovarov, afirmam que o colonialismo russo foi benéfico ou mesmo crucial para a sobrevivência dos colonizados. Recentemente, sugeriu que os não-russos beneficiaram do império russo porque os seus autores foram traduzidos para a língua russa e tornaram-se conhecidos por mais pessoas, sugerindo que de outra forma os “selvagens” nem sequer seriam conhecidos pelo mundo.

É claro que ele pensa que a desintegração da federação russa não será benéfica para as repúblicas não russas. A ideia de que a rússia civiliza e permite prevaleceu desde a minha infância, com os professores russos a afirmarem que deveríamos estar gratos por termos evitado o destino da Índia sob o domínio colonial britânico. Esta auto-imagem de um poder benevolente e sacrificado está profundamente enraizada no discurso russo.

Quando vejo com que violência desumana os soldados russos colonizam a Ucrânia, traço paralelos entre este discurso de benevolência e inocência e a violência extrema, ambos estão interligados. Defendo que esta violência decorre de um desejo de punir. Portanto, o exército russo não se limita a ocupar, quer castigar os ucranianos por não sentirem gratidão pela grandeza russa, pela deslealdade. Os ucranianos para eles são traidores, que não apreciaram o sacrifício russo. A mensagem é clara: 'Trouxemos-lhe bondade, sofremos e deve estar grato. Caso contrário, será punido. Este pensamento paternalista acaba por se traduzir em desumanidade. A extrema crueldade a que assistimos na Ucrânia está enraizada nesta narrativa imperial mais ampla, alimentada pelo regime, pela sociedade e pelos intelectuais russos.”

A expansão colonial russa envolveu frequentemente o envio de prisioneiros ou párias, que de outra forma poderiam ser aprisionados, para territórios distantes como a Sibéria, o Cáucaso e a Ásia Central. Isto também se verificou na fundação do sistema Gulag, que se destinava à colonização de áreas remotas. Este conceito, conhecido como colonização penal, foi também praticado para colonizar a Austrália.

Há uma narrativa forte que combina a vitimização e a expansão imperial. Mesmo como prisioneiros, os russos foram colonizadores destes lugares distantes, o que fortaleceu a identidade cultural de sofrimento e sacrifício. Esta experiência produziu uma figura cultural do colonizador que era também um cativo, mais fortemente expressa na figura do Cativo Caucasiano, primeiro criado por Pushkin e depois recontado por Tolstoi, Lermontov, autores soviéticos e depois russos pós-soviéticos. A ideia base é que a Rússia sacrificou os seus melhores filhos para salvar (leia-se colonizar) os não-russos. Esta narrativa está também ligada à ideia da rússia como a “Terceira Roma”, responsável por proteger os valores cristãos e encarnar o dever moral de sofrer.

Tenho notado que os russos reivindicam frequentemente o estatuto de vítimas quando discutem história e política, como o Holodomor ou o “Renascimento Executado” na Ucrânia. Sempre que eu mencionava estes acontecimentos com os russos, eles rapidamente apontavam que também eram vítimas, como se isso fosse uma defesa útil.

“Sim, é compreensível porque muitos russos sofreram de facto. No entanto, o conceito de vitimização varia consoante o contexto. A nação ucraniana, por exemplo, enfrentou tentativas de apagar a sua literatura, pensamento e independência. Embora muitos russos, incluindo críticos do regime, tenham sido presos e sofridos sob o domínio soviético, as experiências diferem significativamente. A cultura, a língua e a literatura russas foram celebradas e preservadas, mesmo durante a era soviética. Em treze dos quinze hinos republicanos soviéticos, os não-russos tiveram de agradecer aos russos a sua felicidade. Em contraste, as culturas ucraniana, cazaque, chechena e outras culturas foram suprimidas e as suas línguas lutaram para sobreviver.

A diferença na vitimização reside não só nos números – como a morte catastrófica de 40% da população do Cazaquistão – mas também no impacto cultural mais amplo. Embora os intelectuais e os clássicos russos prosperassem, também porque os recursos estavam concentrados nas metrópoles, muitas outras culturas não conseguiram desenvolver-se de forma semelhante ou foram extintas. Esta disparidade pode ser difícil de reconhecer, especialmente quando se considera a cultura de alguém como especial e benéfica para os outros. No início da década de 1990, alguns intelectuais russos reconheceram e falaram sobre esta questão, mas tais vozes tornaram-se mais raras desde a década de 2000. O desejo de grandeza nacional ofusca, muitas vezes, a capacidade de reconhecer os outros como iguais e dignos de reconhecimento. Ainda não se sabe se isso vai mudar.”

Ler mais em inglês

quarta-feira, outubro 04, 2023

A perda de hegemonia russa no espaço pós-soviético

O golpe complexo que a rússia sofreu ao invadir Ucrânia afectou o seu potencial político, económico e demográfico, a sua posição ao nível internacional está a deteriorar-se rapidamente, e putin procura partilhar este desastre com os seus aliados periféricos.

A guerra na Ucrânia expôs os motivos agressivos das políticas do Kremlin, pelo que cada vez mais países procuram escapar às influências russas. A rússia também está em um declínio sistémico: uma “república das bananas”, mas sem bananas, um enorme clone da Coreia do Norte.

Após o início da guerra em 24.02.2022 Ocidente consegui impor as sanções sem precedentes à federação russa e o seu isolamento internacional aumenta à cada dia que passa. Só um louco pode querer estar com a rússia – um “navio que afunda” na geopolítica mundial. Num ano e meio de guerra, putin destruiu praticamente tudo o que foi criado na rússia nos últimos 31 anos.

A Rússia está enfraquecida e degradada, já não tem nem o exército, nem economia. O país já nem sequer uma sombra da URSS: um território corrupto governado pela elite do Kremlin, que condenou o seu próprio povo à morte e ao empobrecimento. A Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO) não participou em nenhum conflito real: é uma criação de putin, que ele considera um instrumento da política externa russa. No entanto, esta cooperação tem um benefício unilateral: a rússia exige sempre, mas não dá nada em troca.

A data 24/02/2022 revelou-se um desastre completo para a federação russa. A aventura geopolítica de putin na Ucrânia resultou em perdas esmagadoras e na degradação do exército russo, que foi forçado a recuar em várias direcções e atualmente está na defensiva na Ucrânia ainda sob a sua ocupação. A rússia está cada vez mais e mais fraca, e procura fortalecer-se, tentando arrastar os países do espaço pós-soviético e outros países párias para a guerra.

As sanções ocidentais aceleraram a criação de novos laços económicos dos países dos espaço pós-soviético e da CSTO, fora do mercado russo e em aproximação aos outros mercados: o impacto prejudicial das sanções impostas à federação russa irá, por tabela, afectar todos os que continuam a negociar com a rússia; o atoleiro económico em que a Rússia se encontra é uma armadilha que deve ser evitada à qualquer custo.

Durante o último ano e meio, o rublo quebrou vários anti-recordes, demonstrando um declínio constante. As sanções contra a federação russa apenas aumentarão gradualmente. A sua ação está a desgastar lenta, mas continuamente a economia e a indústria russas. A transformação da rússia em uma cópia da Coreia do Norte é apenas uma questão de tempo. Assim, quando se tornar um país completamente pobre e em colapso, irá, por inércia, arrastar consigo todos os seus aliados para o abismo.

Hoje putin está a tentar formar um bloco anti-ocidental, seduzindo os potenciais aliados com os benefícios imaginários de tal cooperação. Este é outro mito com o qual o Kremlin tenta atrair os seus aliados para a armadilha em que ele próprio se encontra. Mas a guerra na Ucrânia mostrou claramente a vantagem económica e tecnológica do Ocidente.

segunda-feira, outubro 02, 2023

A procura desesperada russa da «carne de canhão» emigrante

O mercenário detido pela secreta GKNB de Quirguistão

Devido às pesadas perdas e a degradação geral que ocorrem no exército russo, a rússia tenta recrutar os cidadãos da Ásia Central pós-soviética, os coagindo, de diversas formas, à participar na guerra contra Ucrânia, provocando uma crise demográfica nas repúblicas da Ásia Central, enviando, deliberadamente, à morte certa, os imigrantes em vez de russos étnicos.

A rússia está a mobilizar gradualmente os trabalhadores migrantes da Ásia Central e do Cáucaso, que residem no país e que já receberam a cidadania russa. Este plano tem o aval do putin com o objetivo de reabastecer as fileiras vazias do exército russo. Todos os migrantes do espaço pós-soviético que vierem para a federação russa, mais tarde ou mais cedo serão mobilizados. O exército russo está a ficar sem gente: o regime russo deu as ordens para reter os documentos pessoais dos migrantes e enviá-los como “bucha de canhão” na guerra contra Ucrânia. Os comissários militares começaram a fazer campanha activa para que os crentes muçulmanos se juntassem às fileiras dos «voluntários» e depois fossem enviados para a guerra.

A federação russa está a tentar aumentar a dimensão do exército russo através do recrutamento de cidadãos dos países da Ásia Central. Para o efeito, as autoridades russas abriram um escritório de representação do Ministério da Defesa russo no centro de migração de Moscovo e simplificaram o procedimento de aquisição da cidadania russa para estrangeiros que assinaram um contrato para servir nas forças armadas russas.

Os envio dos migrantes para a região noroeste são a opção mais rentável para a federação russa. Em caso do seu falecimento, ninguém pagará benefícios aos familiares dos migrantes, além disso, serão designados como “pessoas desaparecidas”. Os migrantes são uma categoria social e legalmente vulnerável: não será difícil para a máquina totalitária russa enviá-los à força para o cadinho da guerra. Ir para uma rússia sangrenta é suicídio. Os países da Ásia Central alertam os seus cidadãos que trabalham na Rússia contra a celebração de contratos com o Ministério da Defesa russo. Nestes países, tais ações enquadram-se no artigo penal “Mercenarismo”, que prevê pena de prisão de 10 a 15 anos.

É de notar que na rússia, as pessoas originárias da Ásia Central e do Cáucaso não são consideradas pessoas em plano direito. Na percepção da ideologia neofascista russa são meramente “consumíveis” que deveriam morrer na guerra colonial, em vez dos russos étnicos.

quinta-feira, agosto 17, 2023

«Wagnerista» detido no Quirguistão por ser mercenário russo

O serviço secreto do Quirguistão (GKNB) deteve um cidadão nacional, que participou, como mercenário russo, na guerra contra Ucrânia nas fileiras da EMP «Wagner».

O homem, conhecido como «BuB» foi trabalhar na rússia, onde foi preso, por cometer algum crime. Na cadeia foi recrutado para lutar na Ucrânia como parte de grupo mercenário, após disso recebeu o perdão russo. Voltando para casa no Quirguistão, ele foi preso, no dia 1 de agosto corrente, pois o seu país proíbe o mercenarismo e a participação em hostilidades no território de outros estados.

Bónus

O vídeo mais completo da unidade ucraniana de assalto, em que o seu HAMVEE é atingido por uma mina, mas nenhum dos militares ucranianos fica ferido e todos continuam o combate e a limpeza do leste da Ucrânia dos ocupantes russos. 



quinta-feira, julho 06, 2023

Expropriação, assimilação, eliminação: сompreendendo o сolonialismo soviético

Título: A colonização de novas terras é o caminho para a prosperidade.
Mãe: “Vou ter orgulho de você.”
O cartaz de recrutamento de colonos russos para o projeto de colonização agrícola chamado campanha “Terras Virgens” no Cazaquistão. (Autor V. Ivanov, 1954. Fonte: https://vsememy.ru)

A União Soviética compartilhava mais do que uma semelhança passageira com os impérios coloniais: a chave para entender as políticas intervencionistas da União Soviética e seu uso da violência nas periferias está no conceito de colonialismo dos colonos.

por: Botakoz Kassymbekova e Aminat Chokobaeva

A literatura sobre o colonialismo dos colonos até agora ignorou o caso da União Soviética. No entanto, o colonialismo de colonos soviéticos oferece uma oportunidade única para estudar os colonialismos não capitalistas e seus modos de dominação, violência e hierarquização racial. Pode explicar como a eliminação da propriedade privada não alterou as desigualdades nem eliminou a violência racializada. A estrutura colonial dos colonos oferece um passo para desmantelar a inocência imperial soviética e desafiar a visão popular de que a União Soviética era um projeto igualitário.

O princípio-chave do colonialismo de colonização, de acordo com Patrick Wolfe (2006), é a aquisição territorial por meio da eliminação dos povos indígenas e da dissolução do corpo político nativo. O colonialismo colonizador não pode ser reduzido a um único evento de conquista, mas é uma estrutura que deve eliminar permanentemente as reivindicações indígenas à soberania (Wolfe, 2006: 388). A eliminação de sociedades nativas pode assumir formas violentas ou coercitivas e envolve assimilação, limpeza étnica e deslocamento forçado. A remoção forçada e a dizimação dos nativos liberam a terra para o assentamento permanente dos colonos, e o apagamento cultural é facilitado pela dissolução das instituições indígenas, a cooptação das culturas colonizadas e a assimilação dos povos indígenas. O apagamento cultural elimina um senso de autonomia e impede reivindicações de soberania entre as populações nativas (ibid).

O Comité de Reassentamento de Toda a União (Soviética) pretendia reassentar cinco milhões de “europeus” na Sibéria, Ásia Central e Cáucaso entre 1928 e 1933 para fins económicos, militares e ideológicos (Kassimbekova, 2011: 351). Após a Segunda Guerra Mundial, a campanha das Terras Virgens transferiu pelo menos 330.000 fazendeiros coletivos da rússia européia para a estepe cazaque (Pohl, 2007) e, entre 1944 e 1952, o Estado soviético deportou (e “limpou” o território para assentamento pelos russos) em torno de meio milhão de pessoas dos países bálticos – principalmente mulheres e crianças – para a distante periferia siberiana.

O assentamento contínuo de fronteiras com colonos ajudou o incipiente regime soviético a estabelecer o controle sobre os territórios colonizados do antigo Império Czarista, ou seja, Sibéria, Ásia Central, norte e sul do Cáucaso, Ucrânia, Belarus e, posteriormente, os estados bálticos. Ao mesmo tempo, a repressão patrocinada pelo Estado das elites, culturas e instituições das populações nativas para reorganização ou destruição facilitou a assimilação dos povos nativos ao projeto soviético. Assim, por exemplo, uma campanha de alfabetização universal patrocinada pelo Estado nas repúblicas nacionais não eslavas da URSS envolveu a introdução da escrita cirílica, que simultaneamente separou as gerações pós-revolucionárias de suas culturas literárias tradicionais e facilitou a adoção do russo e da assimilação. na cultura russa.

O último líder soviético, Mikhail Gorbachev, usou a lógica de colonos para alertar contra a independência do Báltico e de outras repúblicas nacionais. Ele identificou um grande número de russos étnicos – “sessenta milhões vivendo lá fora em áreas de nacionalidade” – como um fator atenuante contra o “separatismo”.

Título: Com toda a família para as novas terras.
Um cartaz do Reassentamento Central Russo Soviético e Recrutamento Organizado de Trabalhadores, que anuncia subsídios para futuros colonos, como transporte gratuito, impostos reduzidos e vários benefícios. (Autor: 1957. V. Govorkov. Fonte: www.my-ussr.ru)

A mobilidade em toda a União Soviética era igualmente racializada. O crescimento da população muçulmana na década de 1970 foi percebido em Moscovo/u como uma ameaça, e o Partido Comunista procurou maneiras de aumentar a população eslava aumentando as taxas de natalidade (Lovett, 2022: 1). A migração de naturais da Ásia Central para partes europeias da União Soviética como trabalhadores industriais foi impedida tanto pela falta de educação devido às hierarquias étnicas quanto pelo preconceito racial (Lovett, 2022). Para os homens não russos, o exército tornou-se o principal espaço para sua russificação. É importante mencionar que uma minoria não russa não poderia ser um grupo étnico majoritário em uma unidade do exército, enquanto unidades puramente russas existiam (Laitin, 1998: 55) e eram categorizadas como elite. Durante a Segunda Guerra Mundial, os soldados da Ásia Central não tinham permissão para treinar com armas, pois eram considerados suspeitos e enviados para o front sem treinamento e usados ​​como bucha de canhão (Carmack, 2019: 12–40). No exército, eles também enfrentaram racismo e violência sistêmicos.

O assentamento de repúblicas nacionais com colonos da rússia soviética criou uma divisão espacial e econômica do trabalho altamente racializada. A expansão da produção de algodão na Ásia Central foi possibilitada por um sistema de trabalho infantil em que as crianças do campo nativo passavam cerca de seis meses trabalhando em campos fertilizados com produtos químicos altamente tóxicos. Isso resultou em diferentes resultados educacionais e, portanto, oportunidades de emprego para crianças de diferentes grupos étnicos. Os filhos de profissionais e funcionários urbanos etnicamente russos e/ou falantes de russo poderiam se tornar profissionais qualificados, enquanto seus colegas nativos continuariam a trabalhar nas plantações de algodão. Na União Soviética, raça, terra e trabalho se cruzaram para criar hierarquias para que os povos indígenas percebessem e experimentassem o domínio soviético como o domínio russo.

Ler o texto integral em inglês 

quarta-feira, fevereiro 02, 2022

A deportação comunista dos quirguizes à Ucrânia Soviética

A luta contra os camponeses mais laboriosos e mais capazes atingiu diversas regiões da União Soviética. Assim os quirguizes acusados de serem kulaks eram deportados ao sul da Ucrânia, às regiões de Kherson e Odessa. 

O Centro de Estudos Esimde (Quirguizistão) publicou a colecção fotográfica, que reuniu durante à sua visita à Ucrânia em outubro de 2021. Os representantes do Centro trabalharam nos arquivos históricos das regiões de Kherson e de Odessa, assim como no arquivo da secreta SBU em Kyiv. 

O objetivo principal do estudo foi o estabelecimento dos fa(c)tos e do destino individual dos quirguizes deportados à força à Ucrânia Soviética. Este é um tópico pouco conhecido tanto na Ucrânia, quanto no Quirguistão (fonte). 

Ver a coleção completa de quirguizes vítimas de deskulakização no arquivo do SBU: https://bit.ly/35IggRR

Seguir o Centro no Facebook.

Blogueiro: a deportação dos quirguizes é um exemplo de como as autoridades comunistas soviéticas usavam a política das deportações para efectuar as limpezas étnicas das determinadas regiões. Acostumados ao um determinado padrão da vida em termos de natureza ou alimentação, um cidadão era arrancado do seu meio familiar e recolocado num meio bastante diferente à milhares de quilómetros à distância. Ação que resultava na morte prematura dos deportados, nos possíveis conflitos com os nativos, na destruição do seu meio cultural e socioeconómico. 

domingo, abril 07, 2019

Tajiquistão visto e pintado pela Marifat Davlatova

A artista tajique Marifat Davlatova, de 25 anos, pinta quadros ao estilo nu artístico. Ela é reconhecida nas ruas, é ameaçada nas redes sociais e recusada de financiamento por causa do conteúdo do seu trabalho.
O pai da artista é um músico que colocava para filha as gravações dos Beatles, a sua mãe é programadora e, no passado, foi uma campeã no tiro com arco. “Sou grata aos meus pais por me libertarem”, diz Marifat, que tem duas irmãs: uma está envolvida na música e outra é uma financista.
Os pais apoiam Marifat, mas, apesar de sua relativa democracia, aderem aos cânones da sociedade tajique: “desde os 14 anos eu sempre oiço: “Você é uma menina, então mantenha a sua opinião para você mesma” – conta Marifat. – Os pais me desencorajaram de exibir trabalhos no estilo nu, dizendo que eu sou uma tajique e muçulmana. Mas a arte não tem religião”.
Nas redes sociais Marifat recebe as mensagens com ameaças e insultos, acusando-a de autopromoção e “ódio ao povo tajique”. No entanto, artista diz que, por enquando, não pretende deixar o seu Tajiquistão natal.
Ler a entrevista com Marifat Davlatova (em inglês).