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sábado, maio 02, 2026

As pedras salvadoras, atiradas às «traidoras da pátria» soviética

Gertrud Platais presa pelo NKVD. Foto: www.bundesstiftung-aufarbeitung.de

A alemã Gertrud Platais, foi prisioneira do campo de concentração soviético de ALZHIR, na atual Cazaquistão, pela única «culpa» de ser a esposa de um «traidor da pátria», o engenheiro alemão Karl Platais, executado pelo NKVD em abril de 1938. 

Quando Gertrud visitou o Cazaquistão em 1990, ela contou à equipa/e do Museu ALZHIR sobre seu primeiro encontro com os cazaques locais e o tratamento que estes davam às prisioneiras.

Em uma manhã tempestuosa de inverno, enquanto as prisioneiras colhiam juncos na margem do Lago Zhalanash sob forte vigilância do NKVD, para construir barracões, homens idosos e crianças — moradores da vila cazaque vizinha de Zhanashu — emergiram dos juncos. A mando dos mais velhos, as crianças começaram a atirar pedras nas mulheres exaustas (para atingir a cota de 40 feixes de juncos, elas tinham que trabalhar no frio de 17 a 20 horas por dia). Os guardas começaram a rir alto:

«Viram? Não só em Moscvo/ou, mas até aqui na vila, nem as crianças gostam de vocês!»

«Foi muito ofensivo e doloroso, especialmente emocionalmente», conta Sra. Platais. Isso continuou por alguns dias. As prisioneiras insultadas só podiam apelar ao destino, queixando-se da injustiça sofrida às mãos dos cazaques, enganados e amargurados pela propaganda soviética...

Karl Platais, 1907-1938, executado pelo NKVD

Um dia, desviando-se das pedras que voavam em sua direção, a exausta Gertrud tropeçou e caiu numa destas pedras. Ao enterrar o rosto nelas, de repente sentiu o cheiro de queijo fresco e percebeu que aquelas mesmas pedras cheiravam a... queijo e leite! Levou/pegou um pedaço e colocou na boca — parecia delicioso.

Ela recolheu as pedras e as levou de volta ao quartel. Havia também prisioneiras cazaques lá. Elas disseram que era kurt — queijo fresco salgado, seco ao sol.

Gertrud Platais na década de 1990. Foto: httpswww.bundesstiftung-aufarbeitung.de

Acontece que, arriscando a vida de seus próprios filhos, cazaques compassivos, incapazes de encontrar outra maneira senão compartilhar seus últimos pertences — o kurt — com as prisioneiras dessa forma, sem despertar as suspeitas dos guardas, fizeram isso para, de alguma forma, apoiar as mulheres pobres e famintas, tendo elas mesmas experimentado a fome e a privação na década de 1930. Mais tarde e sem que os guardas soubessem, eles deixavam os pedaços de carne cozida, papa/mingau de aveia, kurt (um tipo de pão achatado) e pão sírio para os prisioneiros debaixo dos arbustos.

terça-feira, agosto 12, 2025

Os mercenários estrangeiros presos na rússia: bilhete só de ida

O contrato com o Ministério da Defesa russo é um bilhete só de ida. A rússia decididamente não liberta e não libertará os mercenários estrangeiros cujos contratos expiraram. A sua libertação só acontece em três casos: morte, invalidês ou a sua rendição aos militares da Ucrânia.  

As forças armadas russas russas recrutam, usam e sacrificam os mercenários estrangeiros, provenientes do Cazaquistão, Uzbequistão, Quirguistão, Turquemenistão, Tajiquistão, Belarus, Sérvia, Cuba, Síria, Nepal, Índia, Sri Lanka, Brasil, Egito, Gâmbia, Argélia, Camarões, Gana, Nigéria e Marrocos. 

Alguns familiares e amigos destes mesmos mercenários contactam o projeto ucraniano «Quero Viver», tentando descobrir o paradeiro dos seus, dado que muitas delas simplesmente desapareceram. Ninguém sabe, ao certo o paradeiro de cada um dos que constam nas listas ucranianas – muitas vezes, nem o Ministério da Defesa russo sabe do seu paradeiro. O que se sabe com certeza é o que espera todas estas pessoas no futuro. 

Muitos mercenários estrangeiros que assinaram, conscientemente ou não, o contrato com as forças armadas russas estavam convencidos de que estavam a assinar contratos a termo certo de um ano. Mas não é o caso. Tal como no caso dos militares russos contratados ou mobilizados ào exército russo, os comandantes russos possuem o poder administrativo de prolongar os seus contratos até o fim da atual guerra. Naturalmente fazem-no com muito gosto. 

O projeto ucraniano «Quero Viver» possui as listas com os nomes de mais de 3.000 mercenários estrangeiros de 86 países cujos contratos com o exército russo ja expiraram, mas os mesmos foram automaticamente prorrogados. Se estes mercenários esperavam deixar o exército russo legalmente, só o poderiam fazer isso mortos ou então gravemente feridos, perdendo braços ou pernas, ou até ambos... 

Não há nada de surpreendente no facto de a rússia não deixar partir estrangeiros e obrigá-los a lutar até à morte ou invalidez. É assim que os próprios russos lutam, e ainda mais os cidadãos estrangeiros, pagos pelo seu desejo de matar os ucranianos e destruir a sua economia. A única esperança dos cidadãos estrangeiros que caíram na armadilha dos recrutadores russos é que os seus governos nacionais pressionem activamente a rússia. 

No verão de 2024, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, fez um ultimato ao putin: a rússia deveria libertar os cidadãos indianos recrutados, permitir o seu regresso à Índia e parar os recrutamentos futuros. A rússia, efetivamente, obedeceu, recuando e permitindo a saída dos mercenários indianos da frente de combate. 

Este é mais um lembrete para todos aqueles que têm a ilusão de que podem fazer um bom acordo com o diabo... 

Salve a sua vida e renda-se às FAU: t.me/spasisebyabot

Ligue para +38 044 350 89 17 e 688 (somente de números ucranianos) 

Escreva para o Telegram ou WhatsApp:

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Bónus

Por favor, divulgue essa imagem e o hashtag em todo o lado:

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  • #arrestputininalaska
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domingo, abril 06, 2025

Ucrânia revela os nomes dos mercenários do Cazaquistão

Projeto ucraniano “Eu Quero Viver” iniciou uma série de publicações sobre mercenários estrangeiros, que servem nas fileiras do exército russo. O primeiro país à ser analisado é a República do Cazaquistão. 

As autoridades russas têm vindo a recrutar ativamente mercenários para a guerra contra Ucrânia desde o primeiro trimestre de 2023. Foi o resultado direto das enormes perdas sofridas pelo exército russo no primeiro ano da invasão, que não puderam ser compensadas através da simples mobilização. Os primeiros alvos dos recrutadores russos foram cidadãos do chamado “estrangeiro próximo” – países da Ásia Central: Uzbequistão, Cazaquistão, Tajiquistão, Quirguistão.

Faça click para consultar a lista completa

O processo de recrutamento de cidadãos da Ásia Central para o exército russo é realizado, através de três vias principais: engano, promessas de pagamentos elevados ou coersão. Alguns recebem ofertas de emprego como seguranças, outros recebem promessas de elevadas recompensas monetárias sob a forma de um salário mensal e cidadania russa, e outros são coagidos e ameaçados de prisão ou deportação. O resultado é igual para todos. 

Mercenário do Cazaquistão Shyngys Seipiev (1998) é um dos últimos “wagneleiros da primeira vaga” em cativeiro ucraniano:


Shyngys cometeu um crime na rússia e diz que foi à guerra para limpar o seu registo criminal e regressar para a sua terra natal, o Cazaquistão. Foi recrutado pela EMP Wagner da cadeia russa, onde esteve a cumprir uma pena de 8 anos, na Colónia Penal Nº 2 de Tyumen. 

Dois meses após à sua saída da prisão, no decorrer de combates nos arredores de Bakhmut, Shyngys foi capturado pelas FAU. Na Ucrânia foi condenado novamente. Em maio de 2023, o tribunal ucraniano condenou-o aos 9 anos de prisão por mercenarismo. Tentando limpar a sua biografia à custa das vidas dos ucranianos, Shyngys só piorou a situação. Pelo terceiro ano consecutivo espera que os russos se lembrem dele. Mas o Ministério da Defesa russo não está a colocar os cazaques na lista de troca. Mas caso for trocado, será enviado de volta para a frente de combate ou enfrentará julgamento no Cazaquistão por mercenarismo ou por participar num conflito armado no território de outro estado. 

Das suas fontes no comando do exército russo, Ucrânia recebeu uma lista de cidadãos do Cazaquistão que estão a combater ou combateram a Ucrânia. De acordo com os dados, pelo menos 78 dos 661 mercenários morreram até ao final de 2024. Estes são apenas aqueles para os quais existem as informações precisas sobre a data da morte e o local do enterro. Alguns dados não confirmados apontam que até outubro de 2024 mais de 3.000 cazaques étnicos e naturais do Cazaquistão (cidadãos russos e do Cazaquistão) foram mortos na Ucrânia. 

Com base nas estatísticas, a vida média de um mercenário, desde a assinatura de um contrato até à morte, é de 130 dias. O período mais curto é de 9 dias. Se os russos não valorizam os seus próprios soldados, o que podemos dizer dos “não russos” que estão habituados a humilhar na vida civil? Portanto, viajar até ao outro lado do mundo, tendo acreditado em promessas de elevados pagamentos ou da cidadania russa, apenas para ser enviado ao ataque suicída por um comandante russo para invadir algum local geográfico da Ucrânia é, para dizer o mínimo, estúpido. 

Gostaríamos de realçar que o mercenarismo é uma infração criminal na República do Cazaquistão. Aqueles que têm a sorte de sobreviver nas fileiras do exército russo correm o risco de receber uma pena de 12 a 17 anos com confisco de bens quando regressam a casa. Felizmente, o Cazaquistão segue a sua própria legislação, e os mercenários envolvidos na tentativa de ocupação da Ucrânia são regularmente presos e condenados. Naturalmente, Ucrânia fará todos os esforços para responsabilizar criminalmente os cidadãos de países terceiros que vieram à Ucrânia para matar os ucranianos e destruir os seus lares. 

A publicação da lista de mercenários do Cazaquistão no exército russo, recrutados para a guerra contra Ucrânia, causou uma ressonância significativa nos meios de comunicação social do Cazaquistão. O projeto “Eu Quero Viver” recebeu inúmeros pedidos de comentários sobre este tema por parte de jornalistas, cidadãos e representantes oficiais da República. 

A publicação, aparentemente, foi uma surpresa para as autoridades cazaques. Por exemplo, o vice-ministro do Interior, Igor Lepekha, declarou a necessidade de “verificar a informação”. Aidos Sarym, deputado da Majilis (câmara baixa do parlamento), reconheceu a existência de um mecanismo para envolver os cidadãos do país na guerra do lado russo e que a questão “deve ser abordada especificamente”. O deputado Aidos Sarym lembrou ainda que, de acordo com a legislação cazaque, os “voluntários” serão responsabilizados se regressarem ao país. Porque a lei proíbe estritamente a adesão a estruturas militares estrangeiras.

Os três jovens cazaques que lutaram no exército russo na guerra contra Ucrânia e que foram capturados. Todos os três assinaram o contrato voluntariamente. Infelizmente, não há nada de surpreendente nisto – estes são os resultados do impacto da propaganda russa e da expansão gradual da federação russa em todas as esferas possíveis da vida dos seus vizinhos. 

De esquerda para direita: o primeiro nasceu no Cazaquistão, mas no «enclave» russo de Baykonur, o segundo é cazaque étnico, mas nasceu na rússia, e último nasceu no Cazaquistão. Apenas um, o último, disse que no caso de uma agressão russa ele iria defender Cazaquistão, quando os três foram perguntados sobre a sua lealdade nacional.

Blogueiro

Nas décadas de 1940-1950, durante diversas ondas das repressões estalinistas, o Cazaquistão, foi o destino, de diversas levas de deportações soviéticas, recebendo as populações ucranianas, polacas, lituanas ou tártaros da Crimeia. Casaquistão também abrigava diversos campos de concentração soviéticos do sistema de GULAG, nomeadamente o famigerado ALZHIR, onde eram presas as mulheres e crianças, cuja única «culpa» consistia em serem «membros da famíla do inimigo do povo». Na dita «primavera de Khruschev», nas décadas de 1960-1970, Cazaquistão foi o destino de jovens idealistas soviéticos, que trabalhavam na indústria espacial soviética ou nos projetos agrícolas, magalomaníacos e bastante desastrosos. 

Devido à estes fatores, hoje em dia Cazaquistão possui importantes diásporas europeias, compostos por descendentes daqueles, que pararam no país, em vários momentos do século XX, muitas vezes contra a sua vontade, mas acabando por escolher essa terra como a sua segunda pátria.

domingo, fevereiro 16, 2025

Mercenários da Ásia Central usados e esquecidos pelas autoridades russas

Mercenário de cara descoberta é quirguiz Alisher Tursunov, liberto numa das trocas dos POW

Mais de 50 POW russos, cidadãos e originários de países da Ásia Central, estão presos na Ucrânia, todos eram militares do exército russo, informa – «Rádio Azattyk». 

O Governo ucraniano informa que mais de 50 militares originários da Ásia Central que combateram ao lado das forças russas foram capturados pelas FAU. Entre eles, mais de 30 pessoas são cidadãos destes países, outros são cidadãos russos nascidos naquela região ou possuem duas cidadanias. 

Atualmente, entre os POW reconhecidos oficialmente pela Ucrânia, encontram-se 54 representantes dos povos da Ásia Central. Entre eles, contam-se: 1 quirguiz, 21 cazaques, 18 tadjiques e 14 uzbeques. Alguns deles possuem passaportes russos. Por exemplo, dos 21 POW do Cazaquistão, apenas seis são cidadãos do Cazaquistão, os restantes são cidadãos da rússia. 

Mercenário uzbeque, 46 anos, capturado
em 16 de dezembro de 2024 na frente de Zaporizhia pela Brigada
«Spartan» da Guarda Nacional da Ucrânia (NGU)

A Vice-Primeira-Ministra e Ministra da Justiça da Ucrânia, Olha Stefanyshyna, explica o seguinte: 

«A informação sobre a cidadania dos prisioneiros de guerra é frequentemente estabelecida a partir das suas palavras, uma vez que os documentos que confirmam a sua identidade estão, na maioria dos casos, ausentes. O Ministério da Justiça da Ucrânia considera que os prisioneiros de guerra localizados em centros e campos de detenção ucranianos, independentemente da cidadania, têm o mesmo estatuto legal, consagrado em atos jurídicos internacionais e nacionais.» 

O projeto ucraniano “Eu Quero Viver” ajuda aos militares russos e aos mercenários estrangeiros a renderem-se voluntariamente e salvar as suas vidas. 

Os russos utilizam há muito tempo activamente a prática de recrutamento de migrantes do espaço pós-soviético. Para eles, um quirguiz ou tadjique sempre foi visto como a mão-de-obra disponível e barata em todos os sentidos da palavra. Ora, no contexto da necessidade de repor perdas enormes e regulares do exército russo, os migrantes tornaram-se um dos alvos prioritários do Ministério da Defesa russo. São forçados aderir ao exército russo através de fraude e/ou coerção ou, então são tentados pelas grandes somas de dinheiro, o que na maioria dos casos se torna uma sentença de morte e um bilhete de apenas ida. 

A propaganda do serviço no exército russo dirigida aos cidadãos do Quirguistão

O Quirguistão proíbe os seus cidadãos de participar em ações militares no território de outros países e pune aqueles que participam. O Comité Estatal de Segurança Nacional do Quirguistão recorda que os participantes em ações militares serão responsabilizados de acordo com o artigo 256º do Código Penal da República do Quirguistão (“Participação de um cidadão da República do Quirguistão em conflitos armados ou ações militares no território de um estado estrangeiro ou em treino para cometer um ato terrorista”). O artigo 416º do Código Penal da República do Quirguistão prevê uma pena de até 15 anos de prisão pelo recrutamento, financiamento e participação em guerra. 

As autoridades uzbeques alertaram que os cidadãos que participarem em operações militares no território de outros países serão responsabilizados ao abrigo do artigo “mercenarismo”. Os acusados ​​de tais crimes enfrentam penas de prisão que variam entre 5 à 10 anos.

quinta-feira, setembro 05, 2024

A “inocência imperial”: a especialidade intelectual do imperialismo russo

Muitos russos, mesmo entre os que se opõem à guerra da Rússia contra Ucrânia, ainda hesitam em assumir responsabilidades, atribuindo a invasão à provocação da NATO ou a teorias da conspiração sobre a intromissão dos EUA e um golpe de Estado. Os especialistas dizem que isto acontece porque a mentalidade de “vítima” persiste hoje na sociedade russa. Mas porque é que isso acontece? 

Esta foi a primeira pergunta à Dra. Botakoz Kassymbekova, professora assistente de História Moderna na Universidade de Basileia, especializado em história imperial soviética e russa.

Como sabem, Catarina, a Grande, justificou a colonização do Cáucaso como uma missão cristã de bondade. Os historiadores russos liberais, críticos fervorosos de Vladimir Putin, como Yuri Pivovarov, afirmam que o colonialismo russo foi benéfico ou mesmo crucial para a sobrevivência dos colonizados. Recentemente, sugeriu que os não-russos beneficiaram do império russo porque os seus autores foram traduzidos para a língua russa e tornaram-se conhecidos por mais pessoas, sugerindo que de outra forma os “selvagens” nem sequer seriam conhecidos pelo mundo.

É claro que ele pensa que a desintegração da federação russa não será benéfica para as repúblicas não russas. A ideia de que a rússia civiliza e permite prevaleceu desde a minha infância, com os professores russos a afirmarem que deveríamos estar gratos por termos evitado o destino da Índia sob o domínio colonial britânico. Esta auto-imagem de um poder benevolente e sacrificado está profundamente enraizada no discurso russo.

Quando vejo com que violência desumana os soldados russos colonizam a Ucrânia, traço paralelos entre este discurso de benevolência e inocência e a violência extrema, ambos estão interligados. Defendo que esta violência decorre de um desejo de punir. Portanto, o exército russo não se limita a ocupar, quer castigar os ucranianos por não sentirem gratidão pela grandeza russa, pela deslealdade. Os ucranianos para eles são traidores, que não apreciaram o sacrifício russo. A mensagem é clara: 'Trouxemos-lhe bondade, sofremos e deve estar grato. Caso contrário, será punido. Este pensamento paternalista acaba por se traduzir em desumanidade. A extrema crueldade a que assistimos na Ucrânia está enraizada nesta narrativa imperial mais ampla, alimentada pelo regime, pela sociedade e pelos intelectuais russos.”

A expansão colonial russa envolveu frequentemente o envio de prisioneiros ou párias, que de outra forma poderiam ser aprisionados, para territórios distantes como a Sibéria, o Cáucaso e a Ásia Central. Isto também se verificou na fundação do sistema Gulag, que se destinava à colonização de áreas remotas. Este conceito, conhecido como colonização penal, foi também praticado para colonizar a Austrália.

Há uma narrativa forte que combina a vitimização e a expansão imperial. Mesmo como prisioneiros, os russos foram colonizadores destes lugares distantes, o que fortaleceu a identidade cultural de sofrimento e sacrifício. Esta experiência produziu uma figura cultural do colonizador que era também um cativo, mais fortemente expressa na figura do Cativo Caucasiano, primeiro criado por Pushkin e depois recontado por Tolstoi, Lermontov, autores soviéticos e depois russos pós-soviéticos. A ideia base é que a Rússia sacrificou os seus melhores filhos para salvar (leia-se colonizar) os não-russos. Esta narrativa está também ligada à ideia da rússia como a “Terceira Roma”, responsável por proteger os valores cristãos e encarnar o dever moral de sofrer.

Tenho notado que os russos reivindicam frequentemente o estatuto de vítimas quando discutem história e política, como o Holodomor ou o “Renascimento Executado” na Ucrânia. Sempre que eu mencionava estes acontecimentos com os russos, eles rapidamente apontavam que também eram vítimas, como se isso fosse uma defesa útil.

“Sim, é compreensível porque muitos russos sofreram de facto. No entanto, o conceito de vitimização varia consoante o contexto. A nação ucraniana, por exemplo, enfrentou tentativas de apagar a sua literatura, pensamento e independência. Embora muitos russos, incluindo críticos do regime, tenham sido presos e sofridos sob o domínio soviético, as experiências diferem significativamente. A cultura, a língua e a literatura russas foram celebradas e preservadas, mesmo durante a era soviética. Em treze dos quinze hinos republicanos soviéticos, os não-russos tiveram de agradecer aos russos a sua felicidade. Em contraste, as culturas ucraniana, cazaque, chechena e outras culturas foram suprimidas e as suas línguas lutaram para sobreviver.

A diferença na vitimização reside não só nos números – como a morte catastrófica de 40% da população do Cazaquistão – mas também no impacto cultural mais amplo. Embora os intelectuais e os clássicos russos prosperassem, também porque os recursos estavam concentrados nas metrópoles, muitas outras culturas não conseguiram desenvolver-se de forma semelhante ou foram extintas. Esta disparidade pode ser difícil de reconhecer, especialmente quando se considera a cultura de alguém como especial e benéfica para os outros. No início da década de 1990, alguns intelectuais russos reconheceram e falaram sobre esta questão, mas tais vozes tornaram-se mais raras desde a década de 2000. O desejo de grandeza nacional ofusca, muitas vezes, a capacidade de reconhecer os outros como iguais e dignos de reconhecimento. Ainda não se sabe se isso vai mudar.”

Ler mais em inglês

quinta-feira, outubro 05, 2023

Mykolaiv: Cazaquistão reconstrui o hospital destruído pela rússia

Em Agosto de 2022, a rússia destruiu um Hospital de traumatologia na cidade ucraniana de Mykolaiv com um ataque de mísseis. O Cazaquistão veio em socorro, ajudando a reconstruir o hospital. Agora está ainda melhor do que era antes.

Dessa forma, na prática os países revelam quem é quem, quem é verdadeiro irmão da Ucrânia e quem é o seu pior inimigo. Ucrânia se lembrará de tudo e de todos - quem trouxe tristeza e morte e quem ajudou a superar as dificuldades.

domingo, janeiro 08, 2023

A primeira «iurte da Invencibilidade» aberta na Ucrânia

Na cidade de Bucha, nos arredores de Kyiv foi inaugurado um «Ponto de Invencibilidade» em forma de uma iurte/yurt. A iniciativa privada contou com apoio dos amigos da Ucrânia e do empresário cazaque Daulet Nurzhanov.
Empresário Daulet Nurzhanov

A construção de uma casa portátil, incomum na Ucrânia, mas muito habitual na Ásia Central, foi realizada por iniciativa do empresário cazaque Daulet Nurzhanov e do deputado ucraniano Serhii Nagornyak, que dirige o grupo parlamentar das relações com o Cazaquistão.

Na abertura do novo «Ponto de Invencibilidade», foi realizada uma pequena festa - foi servida a comida cazaque e os habitantes da cidade martirizada pelos ocupantes russos se divertiram com música ao vivo.


A iurte possui a fonte de pontos de aquecimento, eletricidade e alimentação. Os voluntários preparam pilaf, baursaks. Depois de Bucha os planos para abertura de iurtes em Kyiv, Odessa, Kharkiv e Lviv.

Foto: FB Nadia NB/orda kz

segunda-feira, janeiro 10, 2022

Cazaquistão: a vida após a invasão do novo “pacto de Varsóvia”

Após os protestos contra a subida dos preços de gás o Cazaquistão foi invadido pelo novo “pacto de Varsóvia”, embora o estatuto da OTSC permite a entrada de militares num país-membro apenas no caso de uma invasão estrangeira. 
As filas às ATM para levantar o dinheiro

Os postos de controlo na entrada de Almaty

O miniautocarro queimado nas ruas de Almaty

Equipamentos militares da OTSC no aeroporto de Almaty

Os militares russos no aeroporto de Almaty

Evacuação dos cidadãos russos do Cazaquistão

Pelos dados da imprensa independente desde início dos protestos morreram 164 pessoas, incluindo algumas crianças. Pelos dados oficiais estão detidos cerca de 8.000 pessoas. Os cidadãos russos estão sendo evacuados do Cazaquistão, a entrada e circulação nas grandes cidades está sendo controlada pelos militares e os cidadãos formam as filas intermináveis às ATM´s, pois o sistema dos pagamentos POS deixou de funcionar, devido a corte da Internet pelas autoridades governamentais. 

Exército de Quirguistão prepara-se à entrar no Cazaquistão 

Restos das barricadas em Almaty

Uma viatura ligeira metralhada nas ruas de Almaty

Postos de controlo na entrada de Astana (Nur-Sultan)

Postos de controlo nas imediações do palácio presidencial em Nur-Sultan

As ruas de Nur-Sultan

Os cidadãos russos retirados do Cazaquistão

Um conhecido músico de Quirguistão, pianista e jazzista Vicram Ruzakhunov, a quem as autoridades do Cazaquistão apresentaram na imprensa/mídia como desempregado quirguiz, que veio ganhar 200 dólares nos protestos em massa no Cazaquistão, foi libertado e voltou para casa. Com vestígios de fortes espancamentos no seu rosto, ele disse à imprensa que não foi nada torturado e que até foi muito bem tratado pela polícia do Cazaquistão, inventando a história de participar nos protestos “apenas para ser deportado mais rapidamente para casa”. 

Jazzista Vicram Ruzakhunov após a "não tortura", foto RIAN

Vicram Ruzakhunov é um cidadão famoso, foi rapidamente reconhecido pelos internautas e a sua libertação imediata foi exigida por mais altas autoridades do seu país natal, Quirguistão. Os cidadãos menos famosos de diversos países podem ser facilmente acusados no Cazaquistão de serem terroristas e até confessarem rapidamente as suas supostas ações subversivas. A tortura, largamente usada pelo NKVD soviético, continua ser amplamente usada nas ditaduras despóticas contemporâneas da Ásia Central.

quarta-feira, janeiro 05, 2022

Os protestos em massa no Cazaquistão: derrube da ditadura

No Cazaquistão eclodiram os protestos em massa, desencadeados pelo forte aumento do preço dos combustíveis, em seguida, se transformando em protesto geral contra o atual regime no poder.

Protestos decorrem em várias cidades. Na antiga capital, Almaty, a residência do presidente do Cazaquistão e do edifício Akimat (município/prefeitura) foram ocupados e queimados, em Aktobe, houve os tiros e explosões nas ruas, há feridos e mortos entre os manifestantes e polícias, os manifestantes ocuparam o edifício da TV “Mir-24” e exigem o direito de antena. A cidade de Almaty praticamente está livre de forças de segurança nas ruas.

O derrube da estátua do ditador light Nursultan Nazarbayev

Além disso, o ditador Nursultan Nazarbayev deixou de ser presidente do Conselho de Segurança do Cazaquistão, a posição que ele pretendia ocupar de forma vitalícia. Este posto foi abraçado pelo atual presidente Kassym-Jomart Tokayev. As teorias de conspiração apontam a remoção de Nazarbaev como o propósito real dos protestos. 

Edifício do Município de Almaty


Manifestantes em Almaty usam os escudos que arrancaram das polícias

Edifício do Município de Almaty

Polícia antimotim nas ruas das cidades cazaques

O que se sabe sobre a situação em Almaty e outras cidades do Cazaquistão no momento:

 - manifestantes em Almaty ocuparam a residência do presidente, este abandonou o edifício. Muitos manifestantes estão armados com armas de fogo;

 - no centro da cidade, os manifestantes queimaram os carros da polícia e alguns carros particulares ligeiros;

 - o edifício do Departamento da Polícia Almaty foi ocupado pelos manifestantes;

 - alguns/muitos manifestantes, de acordo com a mídia, são agressivos para com os jornalistas que filmam os protestos;

 - alguns grupos de manifestantes estão se mudando para ocupação do aeroporto de Almaty;

 - o aeroporto da cidade de Aktau já suspendeu as operações;

 - na capital Nur-Sultão, o edifício da administração de capital é cercado por policiais;

 - os residentes da capital do Cazaquistão estão levantar maciçamente dinheiro das ATM, já que os pagamentos via POS não funcionam devido à falta da Internet. 



As barricadas erguidas pelos manifestantes


Os populares levam os pneus para a construção das barricadas 

O poder colocou nas ruas as mais diversas unidades de polícia antimotim. Parte dos polícias foi desarmada pela população, existe polícias e membros da Guarda Nacional que passaram ao lado dos manifestantes.

As exigências económicas são: redução dos preços de combustíveis e dos alimentos; reduzir a idade da reforma/aposentadoria para 58-60 anos, aumento de salariais mínimos e de reformas/pensões mínimas; aumento os benefícios às famílias que possuem crianças; abolição da taxa de lixo e de pagamento/pedágio das autoestradas; fecho de todas as subsidiárias das empresas nacionais.

As exigências (na sua maioria económicas) dos manifestantes

Exigências políticas: resignação completa do governo (já foi anunciada a demissão completa do Governo); libertação de todos os detidos e prisioneiros presos no decorrer das manifestações; diminuição dos poderes do Presidente, criação de um governo temporário, convocação de eleições livres e justas no país.

Como podemos ver os eventos no Cazaquistão em franco desenvolvimento e ainda é impossível de dizer como tudo terminará…

Blogueiro: o presidente Tokayev acabou por pedir aos estados da ODKB (Organização de Acordo de Segurança Coletiva composta pela Federação Russa e os seus aliados) para enviar as tropas para ajudá-lo a lidar com os cidadãos que se rebelaram contra o seu regime. Estamos à um passo de repetição de ocupação e esmagamento comunista de Budapeste em 1956 ou Praga em 1968, efetuado pelosas tropas do Pacto de Varsóvia. 

Por outro lado, o eventual uso de tropas russas no Cazaquistão reduzirá a tensão na fronteira ucraniano-russa. Pois eles serão forçados a usar as tropas que estão ameaçando Ucrânia. Automaticamente isso aumentará drasticamente as chances ucranianas de se aguentar. Mas é uma outra história…

quarta-feira, dezembro 19, 2018

Alexander Soljenítsin: entre dissidência soviética e “califado ortodoxo”

No dia 11 de dezembro celebra-se o centenário do nascimento do Alexander Soljenítsin, romancista, dramaturgo e historiador russo, que revelou ao mundo o GULAG, sistema de campos de concentração da União Soviética. Prémio Nobel de Literatura de 1970, expulso da URSS em 1974.

Ao mesmo tempo, Soljenítsin não era um democrata, ele não gostava dos comunistas devido às repressões em massa e particularmente contra a religião ortodoxa, mas os “respeitava” devido aos seus esforços da construção de um grande império.

Além disso, Soljenítsin era um notório anti-semita (ele vasculhava os nomes judaicos dos chefes do GULAG, perguntando aos seus leitores “agora vocês entendem quem precisou de tudo isso?”). Acreditava que o povo russo precisa de um czar com autoridade absoluta. Simplificando, Soljenítsin era um imperialista, propagando os mitos do “povo tri-unido”, negando, à Belarus e à Ucrânia o direito de formar um país próprio e independente.
Capa da edição portuguesa do conto “Um Dia na Vida de Ivan Denissovich”
Após a sua produção da obra-prima “Um Dia na Vida de Ivan Denissovich” (publicada na URSS em 1962), Soljenítsin começou escrever cada vez pior, e no final de vida produzia, nas palavras do poeta Joseph Brodsky, o “incrível delírio”.

Biografia e GULAG

Soljenítsin nasceu em 11 de dezembro de 1918. Foi perseguido por usar um crucifixo na escola. Na universidade, estudou na Faculdade de Física e Matemática, foi bolsista estalinista (tirava notas máximas), aprendia, de forma independente, o marxismo-leninismo. Durante esse período autor começou a escrever a sua obra “Agosto, do 14º”, considerando a Primeira Guerra Mundial a partir de posições comunistas ortodoxas.
Com início da guerra nazi-soviética, Soljenítsin se voluntariou ao RKKA, passou pelo batalhão de transporte, e após se graduar na escola de artilharia, é enviado à uma divisão de reconhecimento de artilharia. Na frente, Soljenítsin torna-se crítico de Estaline, quem criticava não por ser comunista e assassino, mas como alguém que “distorceu o verdadeiro leninismo”. Foi preso e enviado para a cadeia moscovita de Lubyanka – onde foi interrogado durante 4 meses e depois condenado aos 8 anos de GULAG.

No GULAG Soljenítsin foi preso no campo chamado “Nova Jerusalém”, e em 1945 foi transferido para o chamado “sharashka” – bureau de construção semifechado na fábrica de motores de aeronaves em Rybinsk. Após um conflito com as autoridades, em 1950, Soljenítsin foi transferido ao campo especial em Ekibastuz – onde trabalhou em trabalhos gerais. Na época de sua libertação em 1953, Soljenítsin estava completamente desiludido com o marxismo, e começou abraçar às ideias de cariz ortodoxo-patrióticas russas, que considerava a melhor alternativa ao comunismo soviético.

No final da década de 1950, a obra do Alexander Soljenítsin começou ser publicada na União Soviética – o mais conhecido é o seu conto “Sh-854”, que mais tarde recebeu o nome icónico de “Um dia da Vida de Ivan Denissovich” (em 1971 retirado das bibliotecas públicas soviéticas e destruído). Foi a obra literária mais forte no período de famosa “primavera de Khreushev” e descrevia um dia quotidiano na vida do prisioneiro do GULAG soviético. Mais tarde, Soljenítsin começou a sua opus magnum, chamada “Arquipélago GULAG”.

As mudanças na vida e na ideologia do escritor

Em 1963 ele perdeu a protecção do Khrushev, desde 1965 a sua obra é proibida na URSS, em 1970 ele ganha o prémio Nobel da Literatura e em fevereiro de 1974 é deportado da União Soviética (voltando definitivamente à Rússia em 1994), morrendo em agosto de 2008.
Criticando fortemente a União Soviética – Soljenítsin considerou como a sua alternativa não à democracia, liberdade e pluralismo – mas uma espécie do “califado ortodoxo”, um novo império, no qual tudo será tão proibido e fechado como no comunismo – mas sob outras bandeiras. Soljenítsin repreendia as democracias ocidentais, primeiro, pelo facto de que elas não queriam combater ativamente o comunismo, e depois pelas suas liberdades e pelo seu pluralismo de opiniões.

Muitos escritores e dissidentes da sua época afirmam que Soljenítsin sempre foi o mesmo, por exemplo, académico Andrei Sakharov ativamente o criticava ainda em 1974 – declarando explicitamente que todo o seu “romantismo patriarcal-religioso” levaria a um regime pior que comunismo soviético. Autor também foi criticado por sua intolerância em relação às opiniões alternativas, por crueldade, pelo imperialismo e pelo anti-semitismo – ele vislumbrava em judeus, como numa força externa, as raízes do bolchevismo, idealizando o povo russo que via apenas como uma “vítima inocente”.
Nos últimos anos, Soljenítsin apostava em textos sobre o “povo tri-unido”, que deve se unir em torno de Moscovo contra os comunistas e contra as democracias ocidentais – não notando ou não querendo ver que durante todo o século XX, exatamente Moscovo foi a raiz da maldade bolchevique.

[Em 18 de setembro de 1990, logo dois jornais soviéticos, Literaturnaya Gazeta e Komsomolskaya Pravda, publicam o seu ensaio jornalístico “Como devemos organizar a Rússia?” (subtítulo: considerações viáveis). Foi o primeiro trabalho jornalístico do autor publicado na imprensa estatal soviética e logo com a tiragem sumária de cerca de 28 milhões de cópias.

Entre várias coisas mais ou menos ortodoxas e conservadores, autor defendia a criação de um novo império, que englobaria, impreterivelmente, Belarus, Rússia, Ucrânia e Cazaquistão].

Moscovo 2042

Uma das melhores imagens satíricas do Soljenítsin é descrita na distopia do Vladimir Voynovich, “Moscovo-2042”. Um dos personagens principais do romance é Sim Simych Karnavalov – ex-prisioneiro e, posteriormente, um combatente irreconciliável contra os comunistas. Em algum momento da sua infância foi lhe revelado que ele, de facto, é um descendente de czar Nicolau II e “será o czar na Rússia”. Com essa mensagem, Sim Simych ficou incrivelmente empolgado e disse para si mesmo – “o primeiro falcão era Lenine, o segundo falcão era Estaline, e o terceiro falcão sou eu!”
A capa da edição espanhola da distopia "Moscovo 2042"
No final do romance, Soljenítsin-Karnavalov chega ao poder e, correndo com os comunistas estabelece a sua própria ordem – se declara como único e eterno czar, nas escolas alunos passam à estudar apenas a teologia, o dicionário clássico da língua russa e as obras do Soljenítsin-Karnavalov. Os “voadorkas” (aviões) são proibidos – somente transporte puxado por cavalos pode ser desenvolvido, todos devem ir à igreja, todas as mulheres devem usar roupas longas e cobrir o cabelo, e todos os homens devem usar barba. Na Rússia começam as execuções em massa e as repressões, semelhantes às dos comunistas, mas em nome de uma outra coisa...

Fortemente criticado quer pela propaganda comunista (que via no romance “a calúnia ao socialismo”), quer pela imprensa emigrante – por “denegrir o nosso Profeta”, Voinovich respondeu, explicando que não descreveu Soljenítsin em particular, mas o típico ídolo russo, a quem o povo ama adorar. Voinovich também disse que a figura de Karnavalov era universal à todas as ditaduras, e seu romance foi proibido no Irão, onde a censura viu no retrato de Karnavalov a caricatura ao próprio aiatola Khomeini.

Daqui à 100 anos. Como epílogo

Em vez de epílogo, quero dizer – pessoalmente, acredito que em cem anos Soljenítsin será completamente esquecido. Ou talvez será lembrado apenas o seu conto “Um dia da Vida de Ivan Denissovich”, o seu melhor trabalho. E todas as suas outras obras anticomunistas são comprometidas pela sua posição antidemocrática, que na verdade difere muito pouco do próprio comunismo...

E vocês, queridos leitores do nosso blogue, já leram alguma obra do Soljenítsin?

Fotos: arquivo | Texto: Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]