quinta-feira, maio 31, 2018

Precedente franco-romeno da morte encenada do Arkady Babchenko

O “assassinato” encenado do jornalista russo anti-Kremlin Arkady Babchenko surpreendeu os observadores e enfureceu os ditos profissionais dos direitos humanos e a Rússia, apontada pela Ucrânia como autora de conspiração para matar o jornalista, uma façanha, que na verdade tem um precedente histórico.

Foi em 1982 que os serviços secretos da Roménia comunista planeavam assassinar o dramaturgo, escritor e dissidente romeno Virgil Tănase, residente na França.
Paris, 1980, Virgil Tănase em greve de fome conta tortura na Roménia | @contemporanul.ro
Após a publicação na revista francesa Actuel do panfleto do Tănase “Sua Majestade Ceauşescu, o Primeiro, o Rei dos Comunistas”, texto altamente crítico do regime do ditador comunista Nicolae Ceauşescu, Bucareste incumbiu o seu agente na França, Matei Pavel Haiducu, para matar o autor, então cidadão francês.

Mas Pavel Haiducu não pretendia se tornar um assassino (ele se dedicava à espionagem industrial, especialmente na área de tecnologia nuclear), por isso revelou o plano de assassinato e toda a conspiração romena aos serviços secretos franceses, juntamente com a segunda tarefa que recebeu, assassinato de um outro escritor e dissidente romeno, Paul Goma (devido aos relatos de repressão política na Roménia no seu livro “Os Cães da Morte”).

Foi então que as autoridades francesas encenaram o sequestro do Tănase.

“Virgil Tănase era um refugiado romeno na França que os serviços romenos (de inteligência), a famosa Securitate, queriam eliminar e a DST (Direction de la surveillance du territoire) escondeu por um certo tempo, fazendo pensar que estava morto”, conta Eric Denece, chefe do Serviço de inteligência francês CF2R, na conversa com à AFP.

Jacques-Marie Bourget e Yvan Stefanovitch escreveram um livro – “Des affaires très spéciales:1981-1985” (Os assuntos muito especiais:1981-1985) – sobre este caso.
Ler o livro em francês on-line de graça
“Em 20 de maio de 1982, Virgil Tanase foi sequestrado fora de sua casa em Paris”, escreveram os dois. Sua esposa, preocupada em não ter notícias, ligou à DST. No dia seguinte, acompanhada por dois gentes da DST, ela participou o desaparecimento de seu marido na esquadra / delegacia de polícia local.
Imprensa francesa de época fala do misterioso desaparecimento em Paris do escritor romeno
“Ela estava mais que perfeita no papel de esposa preocupada porque não sabia o que tinha acontecido com o marido”.

Este é um outro paralelo ao caso da Ucrânia, já que a esposa de Arkady Babchenko não tinha a menor ideia de que a morte de seu marido havia sido encenada – algo pelo que ele pediu perdão quando ressurgiu.

Virgil Tănase foi levado para uma casa segura na Bretanha, onde esteve por três meses, enquanto a secreta romena Securitate foi publicamente acusada pelos franceses da sua morte.

Os três meses eram necessários para evitar levantar suspeitas na Roménia e dar tempo ao Matei Pavel Haiducu de organizar a fuga de sua família. A DST francesa ajudou ao agente romeno de fingir que o plano de assassinato estava sendo executado segundo as ordens do Bucareste, recebendo a concordância de cooperar, das suas duas “vítimas”, Virgil Tănase e Paul Goma.
foto: AFP / PIERRE GUILLAUD
Até que em 31 de agosto de 1982 o jornal parisiense Le Matin, publicou um artigo escrevendo que o rapto foi encenado pela inteligência francesa. No mesmo dia Tănase, Goma e Haiducu (apresentado ao público apenas como senhor Z) apareceram nas instalações da revista Actuel (foto em cima) para dar uma entrevista coletiva.
 FRENCH FAKE A MURDER TO AID RUMANIAN SPY | The New York Times
Foi um caso de muito sucesso da contra-espionagem francesa.

O caso, digno de um drama de espionagem, obrigou o então presidente francês François Mitterrand (que conhecendo a realidade dos factos, fez o seu papel até o fim), declarou publicamente no dia 9 de Junho de 1982 que temendo a “trágica hipótese” de um assassinato sancionado por um Estado estrangeiro, cancela a sua viagem marcada para Bucareste.
Virgil Tănase, 2012, Bucareste (?)
Tănase, hoje com 72 anos, retornou à sua carreira como escritor e dramaturgo. Haiducu se estabeleceu na França e viveu no país sob o nome de Mathieu Forestier, casando-se com uma cidadã francesa e tendo dois filhos. Em 1984, ele publicou o livro (J'ai Refusé De Tuer – “Recusei-me a Matar”) com detalhes sobre o caso. Ele morreu em 1998.
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Existem várias versões bastante complexas daquilo que realmente aconteceu. Uma das versões diz que Matei Haiducu tentou recrutar como agente da Securitate o ministro francês da Defesa, socialista e mação Charles Hernu, que Bucareste sabia que tinha colaborado com a inteligência soviética no passado. Além disso, em fevereiro de 1982, a noiva do terrorista esquerdista Ramirez Sanchez (Carlos, o Chacal) Magdalena Kopp foi presa na França. Ela confessou seus crimes e foi condenada a quatro anos de prisão por tentativa do cometimento de um ato terrorista. Carlos respondeu com vários atentados na França. As autoridades francesas sabiam tanto da tentativa de recrutar Hernu, quanto da cooperação de Carlos com a Securitate, mas Mitterrand não podia apresentar essas acusações contra Ceauşescu, por isso para o rompimento das relações com Bucareste foi usado o caso de Virgil Tănase.

2 comentários:

José Milhazes disse...

Sequestro não é assassinato. Recomendo o senhor Luzenko a abusar menos de certas bebidas.

Jest nas Wielu disse...

Sequestro da Securitate em 1982 significava morte ou morte lenta na cadeia. Recomendamos ao Sr. Milhazes não julgar outros, Direction de la surveillance du territoire em 1982 e SBU em 2018 sabiam o que estavam à fazer.
Note que François Mitterrand (conhecendo perfeitamente a realidade dos factos), declarou publicamente no dia 9 de Junho de 1982 que temia a “trágica hipótese” de um assassinato sancionado por um Estado estrangeiro, cancelou a sua viagem marcada para Bucareste. Só podemos imaginar as vossas lamentações se algo semelhante fosse feito pelo Presidente Poroshenko.
O vosso hábito de olhar para o dito "Leste" com desdem é que não permite perceber que para sobreviver ao ataque do inimigo criel e implacável Ucrânia é obrigada vencer, custe o que custar.