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sábado, outubro 03, 2026

Morreu Anatoly Kashpirovsky, charlatão do agonizante império soviético

Nos derradeiros anos da existência do império soviético, já em clara agonia, o «psicoterapeuta» ucraniano, Anatoly Kashpirovsky foi escolhido pelos responsáveis da televisão soviética como a figura perfeita de entreter as pessoas com um novo tipo de espetáculo — o curandeirismo televisivo. 

Em 1993 foi publicado em inglês «O Túmulo de Lenine», o primeiro livro do jornalista norte-americano David Remnick, pelo qual ele ganhou o Prémio Pulitzer em 1994. Enquanto jornalista do The Washington Post, Remnick, que mais tarde se tornou editor-chefe do The New Yorker, passou de 1985 à 1991 na URSS/rússia e documentou o colapso da União Soviética, desde o 1º Congresso dos Deputados do Povo até ao falhado golpe do Estado comunista de agosto de 1991.

David Remnick, «O túmulo de Lênin», a edição brasileira
da editora «Companhia das letras», 2017, 144,90 Reais

O texto que segue é um resumo livre do capítulo de «O Túmulo de Lenine», dedicado ao extremamente popular curandeiro, isso é, charlatão televisivo soviético, Anatoly Kashpirovsky. 

O show Kashpirovsky

Vestido todo de preto, num programa da TV soviética, chamado «Sessão de Televisão», surgia Kashpirovsky. Tinha o aspecto de um homem sob o efeito de drogas, com o cabela à Marlon Brando em «Júlio César». Começou a descrever o seu método de ligação com um «computador biológico» no corpo dos seus «pacientes», contando em como já tinha curado «centenas de milhares, talvez milhões» de tumores, hérnias e dores cardíacas, utilizando seu método. Falava devagar, em voz baixa, como se estivesse a ameaçar, como um disco de vinil de 16 rotações. Vangloriava-se de avanços médicos sem paralelo «em toda a história da humanidade», curando com sucesso pessoas de impotência, frigidez, cegueira, calvície, enfisema, quistos nos ovários, pedras nos rins, psoríase, eczema, varizes, cicatrizes, tuberculose, asma, diabetes, alergias, gaguez, astigmatismo e até «quatro casos documentados de cura de HIV-SIDA». 

Era ao mesmo tempo Deus e Ponce de León: segundo ele, os membros amputados e os dentes extraídos cresciam novamente, os cabelos grisalhos novamente escureciam e ganhavam brilho. Graças a ele, uma mulher de 70 anos voltou a menstruar e a mãe de Gorbachev ficou curada de artrite. Também existia a dieta de Kashpirovsky: um dos seus pacientes perdeu 158 quilos «sem qualquer flacidez cutânea». Pelo menos, era o que afirmava o seu médico... afiançado pelo próprio Kashpirovsky. 

Depois disso, surgia a banda sonora, uma poderosa onda eletrónica, um barroco sintetizado. 

«Liberte a sua mente de tudo», dizia Kashpirovsky, como um ventríloquo. «Liberte-a de aspirações e ambições. Feche os olhos. Deixe os seus sentimentos fluírem — o que quer que esteja a sentir agora. Terá sensações diferentes. O nosso silêncio é uma pausa, uma pausa sem palavras. As palavras são irrelevantes. Não há trabalho aqui. É difícil de compreender, porque as pessoas são treinadas para compreender a sua vida inteira. Esqueça tudo... Ouça a música... Não tenha medo do processo que começa no seu corpo... Se sentir algo a agitar-se por dentro, ignore...» 

Parecia que mal conseguia piscar. O seu rosto brilhava. Por vezes, ficava em silêncio durante longos períodos — apenas a olhar fixamente, com um leve sorriso. É isso que um convidado dominador faz quando vem jantar a sua casa, já meio embriagado: tem a certeza de que está cativado por tudo o que ele diz. 

«Alguns de vós estão agora a ver florestas, montanhas. Um... dois... três... Outros estão inundados de recordações muito tristes. Cinco... seis... Alguns estão a fazer planos para amanhã, a ponderar, a ponderar tudo... Sete...» 

Ao contar até dez, Kashpirovsky desaparecia do ecrão. «A sessão terminou», disse. 

Deveríamos estar curados. 

* * *

Após as suas primeiras sessões, Kashpirovsky ganhou uma popularidade incrível; um culto começou a formar-se. Todos conheciam o seu nome e consideravam-no um génio ou então um vigarista. Contou que o seu arquivo continha mais de um milhão de telegramas e cartas — a maioria de telepacientes agradecidos. Os estudantes e os reformados deixavam claro que estavam dispostos a tudo para estar perto dele, estudar com ele, dormir com ele. Senhoras idosas contavam que agora tinham um retrato de Kashpirovsky naquele cantinho de casa, em que outrora colocavam o retrato de Lenine. Nas províncias, os vendedores ambulantes vendiam postais do czar Nicolau II, John Lennon, Jesus Cristo e Anatoly Kashpirovsky. Era provavelmente a única pessoa em Kyiv com três carros na garagem e uma conta bancária bem grossa. Os jornais que criticavam Kashpirovsky corriam um sério risco. Quando o semanário russo «Literaturnaya Gazeta» publicou um artigo a chamar Kashpirovsky de perigoso charlatão, foi inundado por uma avalanche de cartas indignadas, ao ponto de o editor ter cancelado a reportagem seguinte. 

Alguns acreditavam que Kashpirovsky estava a curar não só as estrias e os lipomas, mas a União Soviética como um todo. Ele relutava em negá-lo. «Se eu me tornasse presidente, as pessoas beijariam as minhas pegadas após a minha morte: eu iria ao encontro do povo e agiria em seu benefício», dizia. A dimensão do seu eleitorado permanecia incerta, mas Kashpirovsky insistia que era significativo: «Ucrânia é demasiado pequena para mim». 

Os primeiras seis programas televisivos de Kashpirovsky foram transmitidas para todo o território soviético no fim de 1989. Com o surgimento de movimentos políticos independentes, muitos deles anti-comunistas, e o surgimento de primeiras greves de operários e mineiros, a Perestroika começou a sair do controlo de Gorbachev. O sistema de saúde estava devastado: as próprias autoridades admitiam que apenas 30% dos medicamentos essenciais estavam disponíveis, e até a aspirina e a penicilina estavam indisponíveis. Havia relatos constantes de hospitais onde o fornecimento de água tinha sido cortado e eram realizadas cirurgias à luz das velas. A ascensão de Kashpirovsky ocorreu precisamente numa época em que as pessoas estavam perdidas e confusas, procurando orientação espiritual. Como acontecia frequentemente na história do império russo, a desestabilização levou a um crescente interesse pela magia, profecias e bruxaria. A busca de Deus levava as pessoas não só a igrejas, mesquitas e sinagogas, mas também a impostores como Kashpirovsky. 

Quer no império russo, quer na URSS, os curandeiros e os espiritualistas estiveram sempre presentes. Um Leonid Brejnev já bastante senil convidou secretamente a famosa vidente Eugenia «Dzhuna» Davitashvili ao Kremlin. Na era de Perestroika, quando muitos dos tabús caíram, estas pessoas podiam agir abertamente. Na era Gorbachev, as idosas vendiam pulseiras de cobre nos parques da cidade, jurando que funcionavam como vacina contra a HIV-SIDA. Os horóscopos eram publicados em jornais do PC. A agência de notícias estatal TASS noticiou que um «objeto em forma de banana» que transportava «humanoides gigantes» e um robô anão tinha aterrado em Voronezh. Testemunhas oculares descreviam a nave espacial como uma «enorme esfera brilhante» contendo «um, dois ou três extraterrestres/alienígenas com três a quatro metros de altura, mas com cabeças muito pequenas». 

Em Moscovo, um outro curandeiro charlatão e concorrente direto do Kashpirovsky, Allan Chumak lançou o seu próprio programa de TV. Chumak fazia gestos com as mãos, como se estivesse a acariciar um gato invisível, e «carregava/energizava» copos e frascos de água e todo o tipo de cremes e champós que as pessoas colocavam em frente dos seus aparelhos da TV.

«Estou em contacto com outro mundo», dizia Chumak. Ao abrir um saco de lixo, tirava um dos incontáveis telegramas: «SOU SINCERAMENTE GRATO. PNT. TINHA TAQUICARDIA CRÓNICA E GASTRITE. PNT. OS MÉDICOS NÃO CONSEGUIRAM CURAR-ME. PNT. AGORA, GRAÇAS A SI, VIVO SEM MEDICAMENTOS. PNT. OBRIGADO, SERGEY NOVOCHERKASSK». 

À cada duas semanas Chumak aparecia no pátio do prédio, onde vivia e trabalhava, para curar as centenas de pessoas ali reunidas. Uma grande multidão aguardava-o. Alguns transportavam fotografias de crianças ou parentes doentes: esperavam que o curandeiro transmitisse a sua energia através da fotografia. Chumak ficava na varanda e convidava todos para sentirem a sua aura. Mas avisava-os de antemão: não podia curar os antigos chefões comunistas. 

«As suas almas endureceram completamente», explicava. 

* * *

Kashpirovsky, considerava Chumak como um vigarista; ele próprio que não era um curandeiro comum. Era um supermédico, um sacerdote secular da alma e do corpo. «Eu não curo. Eu implemento a Grande Ideia. Mas não promovo a religião. De que serve Jesus ter andado sobre as águas há dois mil anos? Como é que isso ajuda estas pessoas?» Coçava o queixo e refletia sobre a origem do seu extraordinário dom. «O poder espiritual que guiou Jesus Cristo provavelmente também vive em mim», dizia. «Daqui a 50 anos, penso que serei venerado como um santo». 

Kashpirovsky formou-se em psicoterapia em Vinnytsya, uma cidade do interior da Ucrânia. Também trabalhou lá durante 28 anos num hospital psiquiátrico. O seu salário era modesto: para ganhar cem rublos extra por mês, carregava sacos de cimento e troncos de madeira em camiões basculantes à noite. Durante algum tempo, foi um halterofilista e pugilista/boxeador. Já com mais de 50 anos, orgulhava-se da sua boa forma física e afirmava: «Posso vencer qualquer campeão do mundo». Kashpirovsky contava que em 1975 sofreu um ataque agudo de pancreatite e quase morreu. Alegadamente esteve um ano num hospital na Ucrânia e depois foi para Sacalina, onde percorreu a ilha de uma ponta à outra, comendo, como contava, apenas um biscoito por dia. «Graças ao jejum, recuperei», afirmava. 

Kashpirovsky começou a fazer experiências com hipnose e cura em massa em 1988. Realizou cinco sessões televisionadas em Kyiv e, segundo ele, curou milhares de crianças de enurese noturna. O método de tratamento era bastante obscuro: a cura verbal, que de alguma forma restabelecia o equilíbrio natural do corpo. «As experiências de felicidade e tristeza têm uma certa base material, bioquímica. Quando estou com medo, liberto muita adrenalina. Quando estou deprimido, ainda mais», explicava Kashpirovsky. «Abrem-se portões dentro de si, e você percebe informação. Como esses portões se abrem, não sabe — este é o meu método. A informação entra em si, mas como não sabe como, permanece dentro de si. Penetro mais fundo do que a consciência, na própria essência do organismo, e curo o corpo. A minha marca permanece lá». 

Em 1989, Mikhail Nenashev, um cinzento aparatchik do PCUS e o dirigente máximo da TV estatal soviética, dizia aos seus assistentes que o principal objetivo da televisão era «acalmar e tranquilizar» as massas irrequietas. Em Kashpirovsky, Nenashev encontrou esta voz tranquilizadora. Autorizou as sessões espíritas de Kashpirovsky, que em 1989 eram transmitidas na TV não só na União Soviética, mas também na Bulgária, Polónia, Israel, Checoslováquia e países nórdicos. «Num país onde não se encontra sequer aspirina, é impossível não ter esperança num milagre», observava a jornalista moscovita Elena Chekalova. «Depois aparece alguém e oferece uma solução fácil, um milagre. Este fenómeno é bem conhecido nos países pobres e miseráveis». O conceituado pivó da televisão soviética/russa Leonid Parfenov acrescentava: «O papel de Kashpirovsky era o mesmo de Gorbachev em 1985-86. Até os gestos eram semelhantes. Os seus discursos estão repletos de absurdidades, mas mesmo assim cativavam o público e inspiravam a confiança». 

Kashpirovsky realizou o seu maior feito televisivo durante uma teleconferência entre Kyiv e Tbilissi. Uma mulher chamada Lesya Yurshova, hospitalizada em Tbilisi, precisava de uma grande cirurgia abdominal. Recusou a anestesia geral e permitiu que Kashpirovsky, que se encontrava em Kyiv, a hipnotizasse através da televisão. O resultado foi uma fantasmagoria dividida entre duas capitais.

«Feche os olhos e cante 'Álamos, álamos!'", ordenou Kashpirovsky à pobre mulher. Ela até conseguiu trautear algumas notas dissonantes.

«Feche os olhos! Feche-os! Flutue!», dizia Kashpirovsky. «O seu estômago está dormente até à coluna! Os seus olhos estão fechados! Sentirá o instrumento, mas não a dor. Depois, faremos com que a cicatriz desapareça. Se um dos especialistas me perguntar se está a dormir ou não, o que responderá?»

«Não, não estou a dormir», respondeu a mulher timidamente. «Como posso dormir se sinto tudo?»

No final da operação, Kashpirovsky disse à plateia: «Agora, todos os que me assistiram podem ir ao dentista e extrair um dente. Não vai doer, garanto-vos». 

Kashpirovsky declarou que o programa tinha feito um marco histórico na medicina — «não, na história espiritual!» Mas a doente rebelou-se. Mais tarde Lesya Yurshova contou aos jornalistas que, na verdade, sentiu uma «dor monstruosa» durante a operação, mas suportou-a porque «não queria desiludir Kashpirovsky». 

O presidente da Associação Independente de Psiquiatria, médico ucraniano Yuri Savenko afirmou que a conivência do Ministério da Saúde da URSS com as sessões televisivas de Kashpirovsky era ultrajante. Considerou que se tratava de uma campanha secreta do PCUS para oferecer «pão e circo» às pessoas. Não era o único a acreditar que o PC precisava de tais programas para distrair as pessoas dos problemas e sofrimentos quotidianos. «O cristianismo é uma fina camada de verniz para os russos», dizia. «Mas, essencialmente, são pagãos. Observam os rituais sem compreender o seu significado. Na atual conjuntura política, o misticismo está a popularizar-se e, com um nível cultural tão baixo, assume formas escandalosas». Segundo Savenko, um dos seus colegas possuía «dados precisos» que comprovavam que as sessões de Kashpirovsky não só não curavam as pessoas, como, pelo contrário, levavam algumas à psicose. Nenhuma investigação foi conduzida. Não foi fácil para os jornalistas e médicos expor uma figura tão popular: em 1990, Kashpirovsky foi eleito Personalidade do Ano na URSS e tinha mais fãs do que qualquer político ou estrela de cinema. 

* * *

Em digressão pela URSS, Kashpirovsky enchia salas de concerto, armazéns industriais e até estádios de futebol. As cassetes de vídeo das suas apresentações circulavam de mão em mão, à semelhança dos livros aoutrora proibidos de antigos dissidentes. Nas províncias, as salões de vídeo e os cinemas organizavam «noites de Kashpirovsky», exibindo as aparições do artista na televisão. Como homem de negócios, Kashpirovsky incomodava-se com a distribuição pirata destas gravações. No início de uma fita, pruduzida nos EUA, o aviso padrão do FBI sobre a ilegalidade da cópia pirata da fita, era seguido por uma mensagem do próprio Kashpirovsky: «Atenção! Caso for copiada, esta fita perderá as suas propriedades curativas!» 

As digressões internacionais do Kashpirovsky eram uma mistura de New Age e Beatlemania. Ele até reconhecia que havia um «culto de Kashpirovsky», mas assegurava que «não vou ordenar que rebentem com uma central nuclear. Não há necessidade de se preocupar em tornar-se um novo Estaline ou algo do género». 

Mas o mundo, todo o universo, não estava preparado para o seu dom. «A humanidade ainda não está madura para a salvação», dizia. «As capacidades técnicas ainda não existem. Imagine: todos estão saudáveis, ninguém está a morrer, as pessoas continuam a reproduzir-se. Para onde irão? Outros planetas ainda estão desabitados. É assim que funcionam as coisas». 

No fim dos show, quando tudo terminava, Kashpirovsky ficava à beira do palco. Avós, mães e crianças apressavam-se a apertar-lhe a mão e a captar o seu olhar curador. Algumas tentavam falar com ele em privado — para lhes contar sobre os seus cancros, enxaquecas ou tumores. «Eu não sou um médico comum!», protestava Kashpirovsky, irritado. «Não me falem em doenças específicas!» No entanto, Kashpirovsky dava ocasionalmente conselhos aos pacientes que se queixavam dos seus problemas. 

«Tome, então, seus comprimidos», dizia. 

Blogueiro 

O fenómeno de Kashpirovsky não podia estar ausente do imaginário quotidiano da minha própria família. Um dos meus familiares, nasceu naquela mesma época, com a hernia hereditária. Os seus avós, casal de professores escolares, com idades superores aos 60 anos (ele, à lecionar na área de física e qúimica e ela, na área de matemática: algebra e geometria), ambos com a formação superior completa, ficaram absolutamente entusiasmados com a possibilidade de rápida e eficiente cura televisiva. O menino foi colocado em frente do televisor, com as penas abertas ao ár e a sua piloca e a hérnia ao leu. 

— Veja, exclamaram, no fim do programa, a hérnia já não está visível, o menino está curado! 

Eu, um adolescente de apenas 13 anos, não estava nada convencido da manifestação daquele milagre, embora a vontade não me falatava de ver o menino querido completamente curado. Como era de prever, a hérnia reapareceu no mesmo lugar, onde estava desde sempre. A minha confiança no curandeiroismo televisivo desapareceu para sempre. Mais tarde, pelo mesmo caminho foi a minha confiança na educação fundamental soviética, como quase sempre, «a melhor do mundo».

sexta-feira, outubro 02, 2026

Fedor Butenko: o não-retornado soviético entre o bolchevismo e o fascismo

A deserção de um diplomata soviético de alto nível em 1938 tornou-se um grande escândalo internacional. Os segredos deste caso permanecem por resolver até hoje, porque os arquivos soviéticos/russos continuam inacessíveis aos investigadores imparciais.

Fedor Butenko era uma personagem incrivelmente talentosa e cínica, o que lhe pode ter salvo a vida. A maior parte do que se sabe sobre ele foi contada pelo próprio e é muito provavelmente total ou parcialmente inventado. Isso não impediu Butenko de fazer uma carreira brilhante na URSS: primeiro na área da censura e redação na editora Khudozhestvennaya Literatura e depois no Comissariado do Povo para os Negócios Estrangeiros / Assuntos Exteriores. É também muito provável que fosse um agente do OGPU-NKVD — caso contrário, seria impossível explicar algumas das reviravoltas inesperadas que a sua carreira sofreu. 

Em 1937, transformou-se de estudioso de literatura em diplomata soviético. Isto coincidiu com a purga total dos quadros de Maxim Litvinov no Comissariado do Povo dos Negócios Estrangeiros / Assuntos Exteriores, que foi substituído por estalinista de linha dura, Vyacheslav Molotov. O próprio Litvinov sobreviveu, embora tenha esperado muito tempo pela sua prisão. Durante estas purgas, 35% dos diplomatas soviéticos de alto nível sobreviveram, 20% foram executados e outros 11% foram enviados ao GULAG. Os cerca de 23% perderam o emprego, morreram ou suicidaram-se. O destino de aproximadamente 14% é desconhecido. 

1,5% dos diplomatas de alto nível fugiram ao Ocidente. Butenko estava entre esses 1,5%. 

Em apenas dois meses, passou de conselheiro a encarregado de negócios, ou seja, o homem mais importante da embaixada soviética na Romênia — o embaixador foi chamado de volta a Moscovo e aí executado. Então Butenko percebeu que será o próximo e decidiu fugir da URSS, o que era muito mais fácil no estrangeiro do que em Moscovo. Foi enviado para trabalhar na Roménia sem a mulher e a filha pequena, que permaneceram em Leninegrado: uma prática comum na URSS, que sempre gostou de fazer reféns. Isso não demoveu Butenko, embora ele soubesse certamente o que acontecia às famílias dos inimigos do povo. Talvez tenha concluído que a sua família sofreria de qualquer maneira. Sabe-se que a sua esposa, Vera Kravchenko e o irmão dela, seu cunhado Mykhaylo, foram vítimas das repressões políticas soviéticas em Dnepropetrovsk em 1941, e a sua filha Lea terá provavelmente morrido durante o cerco nazi de Leninegrado. 

Não podia permanecer na Roménia, que procurava desesperadamente a boas relações com a União Soviética. Além disso, circulavam rumores de que outro fugitivo famoso, o agente ilegal de OGPU-NKVD na Turquia, Georges Agabekov, tinha sido rastreado e assassinado por agentes de NKVD.

A edição inglesa do livro de Agabekov sobre o terror soviéttico

Fedor Butenko presumiu que os seus antigos colegas o encontrariam em qualquer país democrático, pelo que só tinha uma opção: esconder-se na Alemanha nazi ou na Itália fascista. Butenko falava francês fluentemente e estava a aprender romeno, o que lhe dava esperança de dominar rapidamente o italiano. Além disso, a Itália estava muito mais próxima, politicamente, de Bucareste do que a Alemanha. Por isso, o diplomata escolheu o regime do Mussolini. 

Após a deserção do diplomata, a URSS acusou imediatamente a Roménia de assassinar ou raptar Butenko, algo que a Roménia temia terrivelmente, pois poderia ter desencadeado uma guerra. Por isso, após a sua fuga, Fedor Butenko ficou no país por apenas quatro dias, durante os quais ele elaborou, para a Siguranța as suas revelações sobre os espiões soviéticos reais e imaginários na Roménia.

Mais tarde, Butenko afirmou que pessoas próximas do Rei da Roménia o ajudaram a escapar e lhe forneceram um passaporte legal de algum pobre coitado falecido. Nenhuma prova disso foi encontrada até à data. Existem sérias dúvidas sobre o seu relato: em dois meses de trabalho em Bucareste, simplesmente não teria tido tempo para fazer tais contactos. No entanto, Butenko conseguiu não só atravessar em segurança pelo menos duas fronteiras nacionais, como também chegar ao centro de Milão. 

Em Itália, o ex-militante comunista, que tinha denunciado inimigos do povo em reuniões do partido (era conhecido pela sua perseguição aos trotsquistas), declarou imediatamente a sua forte simpatia pelo fascismo. Disse que trabalhava como tradutor na Exposição Internacional de Paris e visitava constantemente o pavilhão italiano para admirar a felicidade que o Duce trazia ao seu povo. Mais uma vez, afirmação duvidosa, pois tais ações teriam despertado suspeitas imediatas dentro da delegação soviética.

Fedor Butenko, amaldiçoava o comunismo e abraçou imediatamente um outro regime totalitário e militarizado que nada tinha em comum com a democracia ou a liberdade.

O próprio Lev Trotsky observou esta história do longínquo México e emitiu algumas conclusões. Em primeiro lugar, considerou Butenko um canalha sem princípios, um chekista pronto a servir qualquer mestre. Também manifestou a confiança de que eram precisamente pessoas como Butenko que formavam a espinha dorsal dos órgãos repressívos soviéticos. Em segundo lugar, Trotsky presumiu que, dentro da elite soviética, existia um certo número de pessoas com visões fascistas ou protofascistas. Ambas as conclusões, estavam parcialmente corretas. A revista Time considerou Butenko como um modelo dos «novos bolcheviques», que substituíram os «velhos bolcheviques» tão ativamente expurgados por Estaline. Os «novos bolcheviques» eram completamente desprovidos de idealismo comunista; tinha como objetivo a prosperidade e a segurança pessoal. O que, também estava muito próximo da verdade.

Durante algum tempo, na Itália os principais jornais publicaram entrevistas com Butenko, e este começou então a escrever artigos e livros por conta própria.

1ª edição, a editora Firenzi, Le Monnier, 1939

A versão italiana do livro é constituída por quatro capítulos principais:

1. “Socialismo o schiavitù?” (“Socialismo ou Escravatura?”) — o autor descreve pormenorizadamente a tragédia da sua Ucrânia natal, a fome artificial na Ucrânia [Holodomor] e na Kuban, as repressões que destruíram a prosperidade de uma terra florescente.

2. “La costituzione di Stalin” (“A Constituição de Estaline”) — uma desmistificação do processo eleitoral soviético. Butenko sublinhou que as listas de candidatos eram aprovadas exclusivamente em Moscovo e que apenas as pessoas leais a Estaline podiam ser eleitas.

3. “Il tiranno di Mosca agonizzante” (“O Tirano Agonizante de Moscovo”) — uma crítica à ditadura pessoal de Estaline, à atmosfera de total terror nas fileiras da nomenklatura e da NKVD.

4. “Il mio viaggio in Europa” (“A Minha Viagem à Europa”) é uma descrição de uma fuga e das impressões de uma estadia no Ocidente.

Nos anos seguintes, os italianos esconderam Butenko da vingança soviética, mudando-lhe o nome e escondendo-o nos locais mais remotos. Claramente não sabiam o que fazer com ele. Uma fonte afirma que o próprio Mussolini terá ordenado que Butenko recebesse um salário, mas que não se envolvesse em nada de importante. Butenko pediu para ser enviado para a Frente Leste para ajudar os militares italianos, mas não lhe foi permitido. Candidatou-se para aderir ao Partido Fascista, mas a sua candidatura permaneceu sem resposta. Ucraniano étnico, nascido na Ucrânia, Fedor Butenko tentou se aproximar à emigração ucraniana, mas não foi bem acolhido, acabando por ser rejeitado.

Temendo uma tentativa de assassinato por parte de NKVD, Butenko viveu na Sicília de 1939 a 1942 em profundo segredo sob o nome de Alberto Rossi. Foi então transferido para a Albânia, onde serviu como censor militar.

As últimas informações sobre a estadia de Butenko — por alguma razão em Veneza, onde não existiam estruturas sérias que pudessem aproveitar os seus talentos — surgiram apenas algumas semanas antes da detenção de Mussolini em Roma. O seu destino subsequente ao 1943 está desconhecido. O ex-diplomata soviético, que até foi reabilitado politicamente na URSS/rússia, uma personagem profundamente cínica, com uma experiência incrível em camuflagem e sobrevivência, simplesmente desapareceu, sem deixar qualquer rasto posterior.

sexta-feira, setembro 25, 2026

Órgãos extra-judiciais da repressão sovietica no decorrer do Grande Terror: «troicas» e «dvoicas»

«Viva o NKVD, o guardião vigilante da revolução, a espada desembainhada do proletariado» 
No decorrer do Grande Terror soviético de 1937-38, vários órgãos extrajudiciais foram criados e operaram na URSS, realizando julgamentos de forma formal e acelerada. Eram conhecidos como «troicas», «dvoicas» e «troicas especiais». 

Quase todos estão familiarizados com o termo «troika» — este órgão repressivo soviético foi «legitimado» pela ordem operacional nº 00447 da NKVD durante a operação dita «Kulakiana». Mas também existiram outros órgãos criados especificamente para realizar repressões no decorrer das «operações nacionais» — isto é, ordens que sujeitavam à prisão não apenas pessoas de certos grupos étnicos — polacos, letões, alemães, coreanos e outros — mas também qualquer pessoa com laços reais ou imaginários com países estrangeiros, mesmo que, no momento da prisão, os únicos laços fossem o seu local de nascimento nos territórios da Polónia, Finlândia, Letónia, outrora pertencentes ao império russo, etc. 

  • 25 de julho de 1937 – “operação alemã”, foram condenadas 55.005 pessoas, das quais 41.898 foram fuziladas;
  • 11 de agosto de 1937 – “operação polaca/polonesa”, condenadas 139.815 pessoas, das quais 111.071 fuziladas;
  • 17 de agosto de 1937 – “operação romena”, condenadas 8.292 pessoas, das quais 5.439 foram fuziladas;
  • 20 de setembro de 1937 – “operação de Harbin” (chinesa), condenadas mais de 31.000 pessoas, das quais 19 mil fuziladas;
  • 30 de novembro de 1937 – “operação letã”, condenadas 21.300 pessoas, das quais 16.575 fuziladas;
  • 11 de dezembro de 1937 – “operação grega”, cerca de 15.000 detidos, cerca de 50% foram fuziladas ou morreram no GULAG;
  • 14 de dezembro de 1937 – a diretiva do NKVD sobre a extensão da repressão no âmbito da “linha letã” contra estónios, lituanos, finlandeses e búlgaros. 9.735 pessoas foram condenadas no âmbito da “operação estônia”, incluindo 7.998 pessoas condenadas à morte, 11.066 pessoas foram condenadas no âmbito da “operação finlandesa”, 9.078 foram condenadas à morte;
  • 29 de janeiro de 1938 – “operação iraniana”, condenadas 13.297 pessoas, das quais 2.046 à morte.
  • 1 de fevereiro de 1938 – “operações nacionais” contra búlgaros e macedônios;
  • 16 de fevereiro de 1938 – “operação afegã”, 1.557 pessoas foram condenadas, 366 à morte. 

O primeiro destes órgãos era coloquialmente conhecido por «dvoica»: os cidadãos eram «julgados» por apenas duas pessoas — o chefe do departamento local da NKVD e o procurador regional. Estas duas personagens determinavam a punição a aplicar aos indivíduos — a execução por fuzilamento ou pena de prisão em campo de concentração de GULAG de 5 a 10 anos. Compilavam as suas decisões sob a forma de listas que lembravam álbuns. Uma folha horizontal continha um perfil do indivíduo, descrevendo brevemente a natureza da sua investigação e a punição proposta. Estes «álbuns» eram enviados ao Comissário do NKVD Nikolai Yezhov e ao Procurador da URSS Andrei Vyshinsky em Moscovo para aprovação e depois eram devolvidos às regiões para execução.

Este procedimento manteve-se em vigor até ao Outono de 1938, quando se tornou claro que Moscovo e as regiões não conseguiam lidar com o fluxo de indivíduos detidos. No verão de 1938, Moscovo tinha acumulado «álbuns» para mais de 100.000 pessoas. Aos 15 de setembro, decidiu-se abolir o «procedimento de álbum» para as sentenças, que foi substituído pelas «troikas especiais» da NKVD. Estas foram criadas pela Ordem nº 00606 de 17 de Setembro especificamente para rever os casos dos presos antes de 1 de Agosto de 1938, em várias «operações nacionais». As «troicas especiais» receberam vários «álbuns» e começaram a «reexaminar» os casos — também com recurso a um procedimento simplificado, mesmo sem recorrer aos processos individuais de investigação. Uma diferença fundamental em relação às «dvoikas» era que a sentença de morte deveria ser executada imediatamente.

Analisando entre 50 e 800 casos de cada vez, as «troikas especiais» emitiram 108.000 veredictos em menos de dois meses. Tendo recebido, ao contrário dos seus antecessores, o direito de arquivar processos, libertaram 137 indivíduos. O trabalho das «troikas especiais» foi suspenso num único dia — 15 de novembro de 1938, dois dias antes do fim «oficial» do Grande Terror soviético.

Ler o texto da Ordem nº 00606 publicado na coleção de documentos históricos «Do CheKa ao FSB».

sábado, agosto 22, 2026

A propaganda radiofónica do 3º Reich: uso das rádios pseudo-clandestinas

«Liquidação do analfabetismo via rádio». Pormenor de uma estatueta soviética da década de 1920.

Nas vésperas da II G.M., a propaganda do 3º Reich começa criar várias estações de rádio pseudo-clandestinas, destinadas ao público-alvo dos países adversários: a «New BBC» (Grã-Bretanha), «Za Rossiju» (URSS) ou projeto de uma «rádio astrológica-ocultista» destinada aos Estados Unidos, escreve a Rádio «Liberdade».

Em abril de 1938, o Ministro da Propaganda da Alemanha nazi, Josef Goebbels, escreveu no seu diário: «A nossa estação secreta, que transmite da Prússia Oriental para a rússia, está a atrair uma enorme atenção. Fala 'em nome de Trotsky' e está a causar consideráveis ​​problemas ao Estaline. Os vermelhos procuram desesperadamente a fonte de transmissão. Mas não a encontrarão». 

Relatório da Abwehr de França sobre a emissão de rádio «Velha Guarda de Lenine».
Novembro de 1941. Fonte: Bundesarchiv Berlin.

Era a chamada estação de rádio «negra» (Geheimsender). Os ouvintes deveriam acreditar que ela operava em território soviético em nome de organizações clandestinas anti-estalinistas. Como na realidade se situava na Prússia Oriental, era particularmente bem ouvida em Riga, Vilnius e Varsóvia. Mas, em certos dias, podia ser recebida até em Paris. O primeiro relato que se consegue encontrar sobre o assunto em jornais de emigração russa data do início de abril, portanto, o projeto deve ter começado em março de 1938. Ao longo da primavera e do verão de 1938, a imprensa de emigração russa, principalmente o jornal parisiense «Vozrojdénie», combinou transcrições de transmissões, rumores (que se espalharam como fogo em palha na emigração) e as suas próprias conjeturas para criar uma série completa e repleta de ação dedicada a essa estação de rádio. Se as conceções dos jornalistas eram inteiramente altruístas, isso requer uma investigação mais aprofundada. 

A 6 de maio de 1938, o «Vozrojdénie» publicou um relato bastante detalhado sobre a estação de rádio secreta. Chamava-se «União para a Libertação da Pátria» e a melódia do «Internacional» era tocada antes e depois da emissão. Um locutor misterioso ameaçava vingar-se de Estaline «pelas mortes de Tukhachevsky, Bukharin e Zinoviev». No final de abril, chegou a ser lida a sentença de morte do «tribunal secreto da União dos Libertadores da rússia». Este tribunal condenou Estaline à morte por «falsificar o testamento de Lenine, tomar o poder pelo terror, trair a revolução comunista e executar os melhores generais do exército vermelho em conluio com uma potência estrangeira», estando a execução marcada para 1 de maio na Praça Vermelha de Moscovo. 

Excerto de um artigo de Ivan Tkhorzhevsky sobre a estação de rádio anti-Estaline
no jornal parisiense «Vozhrojdénie». Maio de 1938. Fonte: Gallica.

O dia 1 de maio chegou rápido, mas os misteriosos ativistas da resistência, claro, tinham uma explicação lógica para a sobrevivência do ditador: um sósia de Estaline estava presente na Praça Vermelha no dia 1 de maio, tornando a execução planeada inútil.

Além disso, as emissões continham ocasionalmente mensagens encriptadas aparentemente incoerentes (números, sílabas, letras) alegadamente para camaradas expalhados por várias regiões da União Soviética. Na mesma edição, um dos principais publicistas do «Vozrojdénie», Ivan Thorzhevsky, publicou um editorial no qual elogiava os heróicos combatentes da resistência e relatava que Yezhov se tinha desdobrado na busca de um transmissor secreto. 

Duas semanas depois, a reportagem do «Vozrojdénie» foi recebida por nada mais nada menos que Ivan Solonevich, o conhecido monarquista e antisemita russo assumido, que por esta altura tinha acabado de se mudar para a Alemanha após a tentativa do seu assassinato, por parte de NKVD em Sófia, no qual a sua mulher foi morta. Neste caso, não precisamos de especular se os seus equívocos sobre a estação de rádio eram altruístas, pois foi precisamente no final de abril e início de maio de 1938 que Goebbels escreveu no seu diário: «Solonevich... Causou uma boa impressão. Quer dinheiro para o seu trabalho antibolchevique. Não tenho nada contra; pessoas assim podem ser-nos úteis...»

Assim, aos 18 de maio de 1938, Ivan Solonevich publicou um artigo no jornal nazi «Angriff», intitulado «Sinal de SOS de um Transmissor de Rádio Negro». Depois de analisar cuidadosamente as emissões enviadas pelos ouvintes em Vilnius, Riga e Helsínquia, Solonevich promove a conclusão de que a «oposição de direita» estava por detrás do transmissor secreto e que este tinha sido organizado por um grupo de conspiradores militares. De seguida, desmentiu os rumores sobre o trotskismo da estação de rádio (contradizendo audaciosamente, como vemos, até o seu patrocinador, o Dr. Goebbels, para quem todos os opositores soviéticos eram iguais e, por isso, chamados trotskistas). Solonevich afirma categoricamente que, na URSS moderna, «o caso trotsquista é um caso encerrado». Solonevich apresenta o surgimento do transmissor «secreto» como um claro símbolo da decadência do aparelho governamental soviético, usando a sua metáfora favorita: escorpiões num frasco, picando-se uns aos outros.

Antevisão do artigo de Solonevich sobre a estação de rádio anti-Estaline
em «Der Angriff». Maio de 1938. Fonte: Bayerische Staatsbibliothek

Posteriormente, sem a participação de Solonevich, a série continua com histórias de como os NKVDistas invadiram a estação de rádio secreta, primeiro perto de Minsk e depois em Bila Tserkva, na Ucrânia, onde supostamente ocorreu uma brutal batalha de vários dias entre a guarnição local e os chekistas, durante a qual a estação de rádio secreta também foi descoberta e destruída. O facto de ela ter voltado ao ar alguns dias depois foi apresentado como um sinal do poder da resistência anti-soviética, que possuía vários transmissores secretos e, por isso, sobreviveu facilmente à perda de um deles. 

A imprensa soviética também fez alusões vagas à existência de estações de rádio secretas, que (de facto) se encontravam fora das fronteiras da URSS. No entanto, segundo a propaganda soviética, os seus rastos conduziam à Itália, e não à Alemanha. Mas, então, a guerra técnica substituiu a luta ideológica, e a estação começou a ser activamente bloqueada por interferências induzidas, de tal modo que, a partir do Outono de 1938, os raros relatos nos jornais de emigrados russos sobre as emissões em curso eram dominados pela estática: «Tudo está afogado num ruído infernal. A emissão está interrompida». Contudo, pelo que se pode avaliar, a estação continuou a operar até à assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, após o qual, por razões óbvias, as suas operações foram cessadas, retomando apenas após o ataque da Alemanha à União Soviética em junho de 1941. 

Embora Eberhard Taubert, advogado e propagandista antisemita, o chefe do Departamento Oriental do Ministério da Propaganda do Reich, já tivesse à sua disposição a «Anti-Comintern» — uma organização que se dedicava ativamente à propaganda anticomunista desde 1933, principalmente através da publicação de livros e revistas — segundo o seu próprio relato, surgiu a necessidade de criar um segundo aparelho de propaganda. As transmissões radiofónicas nas línguas europeus do centro-leste mais importantes — isto é, não só o russo, mas também o ucraniano, o belaruso, o estónio e o letão — deveriam ser iniciadas imediatamente nos primeiros dias da guerra. Estações de rádio secretas também deveriam ser reestabelecidas. Ao atravessar a fronteira, as tropas deveriam transportar cartazes, panfletos, gravações para altifalantes, filmes dobrados em russo, e assim por diante. 

Assim começou a história da fundação da «Vineta». Formalmente, a «Vineta» não era uma divisão do Ministério da Propaganda do Reich, mas uma organização sem fins lucrativos registada, com até o seu próprio estatuto, embora todo o financiamento fosse, naturalmente, canalizado pelo departamento de Goebbels.

Estatuto da Fundação Vineta, redação de 1944. Fonte: Bundesarchiv Berlin.

As primeiras emissões de rádio da «Vineta» começaram logo às 10h da manhã do dia 22 de junho. Foram transmitidos o discurso de Rosenberg e o pronunciamento de Goebbels, que delineava a conhecida teoria de um ataque preventivo alemão contra a URSS. As mensagens de propaganda, complementadas por relatos da linha da frente, foram inicialmente transmitidas em seis línguas (estónio/ano, lituano, letão, belaruso, ucraniano e russo) através de transmissores na Alemanha e em Varsóvia e, à medida que avançavam para leste, por estações nas cidades ocupadas: Lviv, Minsk e Baranovichi. O primeiro diretor da «Vineta» recordou após a guerra:

«Entre outras coisas, a população foi instada a dificultar ao máximo o avanço do exército vermelho... Ao longo de agosto de 1941, os apelos à deserção foram intensificados. Por exemplo, diziam algo como: «Parem com a sangrenta batalha, larguem as armas e voltem para casa. Caso contrário, não chegarão a tempo para a divisão dos terrenos. Os kolkhozes estão a ser desmanteladas agora»... Além disso, era transmitida propaganda direta aos pilotos e tripulantes de tanques soviéticos nas frequências de rádio das aeronaves e tanques do RKKA. As transmissões eram feitas no período da manhã, uma vez que, com base na experiência, os carros de combate e as aeronaves na linha da frente estavam prontos para o combate a essa hora e, por isso, tinham uma grande probabilidade de ouvir as transmissões. 

Ademais, a «Vineta» supervisionava estações de rádio secretas, que foram reativadas após o início da guerra e até mesmo ampliadas. Vamos citar novamente o diário de Goebbels: 

30 de junho de 1941: «Estamos a trabalhar para a rússia com três estações de rádio secretas. As emissoras são: a primeira é trotskista, a segunda é separatista e a terceira é nacionalista russa. Todas se opõem veementemente ao regime estalinista. Aqui, lançamos todas as bombas possíveis e empregamos os truques que se revelaram eficazes durante a campanha no Ocidente».

12 de outubro de 1941: «Nos interesses da guerra, somos obrigados a exortar o êxodo [populacional] em massa de Moscovo e Leninegrado. Por ora, estamos a utilizar para isso estações de rádio secretas, a fim de não nos expormos».

A estação, anteriormente conhecida como «União para a Libertação da Rússia», passou a chamar-se «Velha Guarda de Lenine». Era chefiada por Karl Albrecht, um homem cuja biografia merece um texto à parte. Crê-se que era um comunista que (como muitos outros comunistas) fugiu da Alemanha de Weimar para a URSS no início da década de 1920. O seu volumoso dossier nos arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão permite corrigir um pouco os factos.

Karl Löw-Albrecht. Fotografia do pós-guerra. Fonte: Wikipédia.

Karl Matthäus Löw (o seu nome verdadeiro) foi condenado a dois anos e meio de prisão na Alemanha, em 1923, por corrupção de menores. Como veterano da Primeira Guerra Mundial, recebeu quatro meses de licença por motivos de saúde. Dirigiu-se para Berlim e embarcou num navio soviético, fazendo-se passar por comunista fugitivo e adotando o nome de Albrecht. Na URSS, Karl Albrecht, fez uma carreira fenomenal, ascendendo em menos de dez anos de estrangeiro praticamente inútil, que não falava russo ao chefe do departamento florestal da Inspecção Operária e Camponesa, autor de livros e participante em reuniões no Kremlin. Subindo muito alto, provavelmente suscitou muita inveja de alguns camaradas, acabando por ser preso, primeiro ao abrigo do Artigo 58º (atividade contrarrevolucionária e espionagem), depois o caso foi reclassificado ao Artigo 152º (mais uma vez, corrupção de menores). Foi-lhe oferecido um perdão após ter cumprido mais de um ano de prisão, sob a condição de se declarar culpado. Foi obrigado a aceitar, acreditando que não suportaria mais tempo na prisão soviética.

Após a sua libertação, Albrecht, com o apoio da embaixada alemã, regressou de imediato à Alemanha, onde o aguardava na prisão por casa do delito cometido dez anos antes. Mas, rapidamente tornado-se um informador da Gestapo, Albrecht provou, que uma pessoa talentosa pode fazer carreira em qualquer regime. Escreveu um livro sobre as suas desventuras na União Soviética, intitulado «A Traição do Socialismo». Foi publicado pela própria Anti-Comintern, sob a supervisão de Eberhard Taubert, do Ministério da Propaganda do Reich. O livro (claro, com apoio publicitário estatal) tornou-se um best-seller, foi traduzido para outras línguas e enriqueceu o autor. Após a invasão da URSS, chegou a abrir a sua própria livraria em Berlim, instalada no antigo escritório da agência de turismo soviética.

Capa do livro «Der verratene Sozialismus» de Karl Albrecht, edição de 1943.
Fonte: vitber.com

Poucos dias antes do início da guerra nazi-soviética, Albrecht foi convocado ao serviço militar e já estava a caminho de um comboio em direção a Leste para se juntar a um dos exércitos da Wehrmacht como tradutor. Mas, no último momento, conseguiu emprego no Ministério da Propaganda e chefiar uma estação de rádio secreta. Nas suas memórias após a guerra, recordou: 

«Como estava convencido da culpa de Estaline em condenar os povos e as nações do Leste à terrível escravatura e em trair os fundamentos do marxismo e os ensinamentos de Lenine, cujos fiéis seguidores foram perseguidos e mortos, aproveitei a oportunidade para atacar o homem que odiava. Acreditava que o trabalho que levaria à queda de Estaline e do seu Politburo, bem como à proclamação de um novo governo soviético leninista, era totalmente coerente com as minhas convicções socialistas». 

Os editores de programação de rádios pseudo-clendestinas alemãs tinham à sua disposição uma vasta quantidade de material analítico: relatórios secretos da linha da frente, registos de interrogatórios de prisioneiros e desertores e transcrições de emissões de rádio soviéticas. As transmissões estavam proibidas de atacar a liderança nazi ou de incitar diretamente à resistência à Wehrmacht. Pelo contrário, eram incentivados excertos sobre a necessidade de uma paz separada e sobre a forma como a guerra entre a Alemanha e a URSS beneficiava apenas os «plutocratas ocidentais». 

Por razões óbvias, uma parte significativa da equipa da «Vineta», contratada logo após o início da guerra, era composta por emigrados russos monárquicos — simplesmente não havia outro grupo de pessoas na Alemanha que falasse russo. Eram, naturalmente, hostis à propaganda das ideias leninistas, mesmo que as fictícias. Um deles era Aleksandr Albow, um veterano da guerra civil russa, que se juntou à «Vineta» em setembro de 1941 e que mais tarde se tornou o Chefe do Departamento de Propaganda do Quartel-General da Força Aérea da ROA.

Devemos, naturalmente, esclarecer que grande parte da atmosfera da «Velha Guarda de Lenine» não foi inventada por Albrecht. Já existia em 1938. Tal como naquela época, as transmissões eram iniciadas e concluídas com a Internacional. Ainda assim, houve apelos a alegados grupos clandestinos em várias partes da URSS, relatos de resistência anti-soviética, real ou inventada, repressões contra activistas da resistência, mensagens pseudo-encriptados e assim por diante.

Descrição da estação de rádio «Velha Guarda de Lenine» em documentos internos do Ministério da Propaganda do 3º Reich. Julho de 1942. Fonte: Arquivo Federal de Berlim

De salientar que a intensa actividade das estações de rádio nazis pseudo-clandestinas não passou despercebida aos Aliados. A partir de maio de 1941, os britânicos, por sua vez, começaram a transmitir para a Alemanha em nome de uma secreta «oposição patriótica» alemã (Estação de Rádio Gustav Siegfried). No Verão de 1941, foi transmitido um programa de rádio soviético, «Soldado de Assalto Hans Weber», no qual um soldado de assalto, supostamente desiludido com o nazismo, se dirigia, à partir da Alemanha aos seus antigos camaradas. Outros programas produzidos na URSS sob o nome de «Estação de Rádio do Povo Alemão» (Deutscher Volkssender) serviam os mesmos propósitos de desinformação e engano, criando a impressão de que existia uma vasta rede de resistência anti-nazi na Alemanha, controlada por um transmissor soviético secreto. 

As técnicas utilizadas pelo lado soviético eram semelhantes às dos alemães: por exemplo, apelos aos seus agentes fictícios atrás das linhas alemãs utilizando pontos de referência geográficos («Atenção, amigos em Dessau!») ou criptográficos («Atenção, [agente] QR6!»). Mas também foram usados truques originais: os transmissores soviéticos sintonizavam a frequência das estações de rádio alemãs e inseriam-se em pausas ou «sobrepondo» directamente a programação alemã com comentários anti-Hitler. Como a voz do falso locutor parecia vir de longe, recebeu a alcunha de «voz fantasma» (Geisterstimme). Estes tipos de sabotagem incomodavam tanto os nazis que, por vezes, até começaram a interferir nas suas próprias transmissões de rádio. 

Referência à estação de rádio fictícia «Soldado de assalto Hans Weber» na
imprensa soviética. Agosto de 1941. Fonte: Yandex.Periodica

Um documento de julho de 1942 foi preservado nos arquivos do Ministério da Propaganda do 3º Reich, enumerando/listando estações de rádio pseudo-clandestinas, agrupadas sob o nome de «Concordia» (outros emissores ditos negros também existiam sob esta designação, como uma suposta estação separatista escocesa e uma estação «Índia Livre». Chegou a ser considerada a criação de uma «estação de rádio astrológica-ocultista» destinada a atingir os Estados Unidos). 

Nos arquivos alemães podem ser encontradas as referências de três estações raiofónicas russas pseudo-clandestinas: a já conhecida «Velha Guarda de Lenine» (nome alemão «Concordia V», a emitir desde 29 de junho de 1941, com programas diários de meia em meia hora e uma única repetição). 

A segunda estação chamava-se «Za Rossiju» (literalmente «Pela Rússia», nome interino alemão «Concordia Y», que tinha 20 minutos de duração, seguindo-se uma única repetição, tendo como tema musical o Prelúdio em Dó sustenido menor de Rachmaninov, sendo transmitidas desde 30 de junho de 1941. 

Esta estação era especializada em propaganda nacionalista russa e a sua equipa era composta principalmente por membros da União Nacional-Popular da Nova Geração (NTS). Surgiu, portanto, uma situação paradoxal: o papel dos nacionalistas russos fictícios era desempenhado por nacionalistas russos reais. Até o nome da emissora coincidia com o nome do jornal do NTS do período pré-guerra. O líder do grupo, Dmitry Brunst, recordou após a guerra: «As transmissões em russo eram realizadas em nome de uma organização clandestina fictícia, supostamente existente em território soviético... As transmissões continham apelos para o fim da guerra, para virar as baionetas contra o governo, e transmitiam relatos descaradamente fabricados 'do campo de batalha' de várias cidades da União Soviética, factos fictícios, acontecimentos fictícios e informações sobre a luta contra o poder soviético». 

Brunst foi preso pelo MGB após o fim da II G.M., sobreviveu o GULAG e escreveu memórias após a sua libertação, ficando refém na URSS, portanto o seu texto, carrega, naturalmente uma inclinação ideológica soviética: «relatórios descaradamente fabricados». 

Graças a uma feliz coincidência, alguns deles sobreviveram: em particular, foram publicados em 1942 pelo jornal em língua russa «Odesskaya Gazeta», publicado em Odesa, ocupada pela Romênia. Na verdade, os propagandistas nazis procuravam uma diversificação de conteúdos bastante precisa, em termos actuais: cada público-alvo recebia o seu próprio enfoque de propaganda, pelo que as mensagens subversivas para a retaguarda soviética não tinham lugar nos jornais do território ocupado (note-se que a propaganda soviética empregava uma táctica diferente: os jornais centrais faziam referência directa ao já referido emissor de rádio fictício do «Soldado de assalto Hans Weber»).

Reportagens da estação de rádio «Pela Rússia», publicadas no
«Jornal de Odessa». Maio de 1942. Fonte: libraria.ua

Mas Odesa estava sob controlo romeno, a censura militar era obviamente menos rigorosa ali, e as notícias recebidas pela rádio chegavam aos jornais, talvez até eram aceites como verdadeiras. Os relatos publicados confirmam a descrição de Brunst, relatando continuamente acidentes ferroviários, levantamentos locais, provocações, conflitos internos na retaguarda soviética e assim por diante. Ocasionalmente, as notícias eram intercaladas com apelos diretos:  

«Os comunistas levaram o país a um ponto em que agora, para o salvar da ruína, só há um caminho: concluir uma paz imediata. Mas o nosso governo não está a pensar nisso. Este governo começou a guerra sem preparar o país para ela, com um comando militar composto por ignorantes. O governo está a agir contra os interesses do país e do povo. Exigimos o fim da guerra; estamos à espera que uma nova geração do povo russo chegue ao poder, conclua a paz e salve o país da catástrofe». 

É desnecessário dizer que estes eram slogans puramente propagandísticos: o governo nazi da época não tinha qualquer intenção de uma paz separada, muito menos de reconhecer qualquer «novo governo russo». 

Finalmente, o terceiro transmissor, a «Rádio da União de Combate dos nacionalistas do povo russo», transmitia durante 30 minutos diários, sem repetição. O nome em alemão era «Concordia Z». A música não estava especificada e a transmissão terminava com o grito «Viva a rússia livre!» Possivelmente essa última rádio estava de alguma forma ligado ao centro Zeppelin, organização criada pelas SS para treinar e mobilizar sabotadores, uma vez que o novo nome da estação soava semelhante ao de uma das estruturas colaboracionistas russas controladas por Zeppelin. 

A audiência das emissões radiofónicas pseudo-clandestinas foi efémero. A 1 de julho de 1942, Goebbels escreveu no seu diário: 

«Estou a discutir a questão das estações de rádio secretas. Na minha opinião, os métodos de transmissão de rádio secreta estão ultrapassados. Uma estação de rádio secreta pode ter impacto se for utilizada de forma breve, ou seja, em situações críticas. As estações de rádio clandestinas, que operam há dois anos e demonstram pouco potencial, devem ser desactivadas... Algumas estações de rádio clandestinas que operam contra a URSS também não têm tido grande sucesso, dado que são praticamente desconhecidas». 

A emissora nacionalista russa «Za Rossiju» foi uma das primeiras vítimas, pois, segundo os auditores alemães, «o seu sucesso não era grande». As suas emissões cessaram a 1 de agosto de 1942. A propaganda nacionalista foi transferida para a «Concordia Z». O conteúdo das emissões da «Rádio da União de Combate dos nacionalistas do povo russo», que descrevia sabotagens e distúrbios reais ou imaginários na retaguarda soviética, seguia integralmente as tradições da estação de rádio «Za Rossiju».

Decisão de Goebbels de encerrar a estação de rádio «Pela Rússia».
Julho de 1942. Fonte: Bundesarchiv Berlin

Os auditores alemães apresentaram uma caracterização significativamente melhor da «Velha Guarda de Lenine»: «A emissora apoiava a antipatia dos membros do partido [comunista] em relação ao Estaline, apontando o exemplo de Lenine, que, ao contrário de Estaline, seguiu uma política oportunista de paz [referência ao Tratado de Brest]. A eficácia deste transmissor é confirmada pelo facto de que a propaganda soviética ter refutado detalhadamente os seus relatórios, e o jornal «Pravda» ter sido obrigado a contestar a alegação de que os seus relatórios eram distribuídos em fábricas, caminhos-de-ferro e mercados».

Contudo, no verão de 1942, Karl Albrecht foi demitido da «Vineta». Na sua caracterização posterior, Taubert observou a sua falta de disciplina e «esforços de propaganda mais do que duvidosos que roçavam a traição». 

Apesar disso, a própria estação de «rádio leninista» manteve-se no ar até, pelo menos, dezembro de 1943, quando os jornais suecos noticiaram inesperadamente o seu facto, alegando que o emissor de rádio de «Velha guarda do Lenine» estava, na realidade, localizado na Alemanha, e que os alegados «leninistas» que atendiam ao microfone trabalhavam para o Ministério da Propaganda alemão (ambas as afirmações eram verdadeiras). Segundo Taubert, a informação foi transmitida à Suécia pelos serviços de informação soviéticos. Taubert propôs a Goebbels esforços de propaganda em três formatos diferentes: para a imprensa alemã, para transmissões regulares de rádio russas a partir da Alemanha e, finalmente, para... os tais comunistas soviéticos da «velha guarda de Lenine». Em particular, esta última deveria responder tardiamente (uma vez que as notícias chegam lentamente à retaguarda soviética), declarando: «Estaline, incapaz de destruir o movimento leninista, tenta retratar os seus membros como agentes fascistas, como já fez com os trotskistas, Zinoviev, Bukharin e outros. Para nós, esta é mais uma prova de que Estaline está a começar a temer o nosso movimento». 

A reação de Goebbels a esta proposta não está conhecida, mas a estação de rádio exposta foi aparentemente encerrada pouco depois. Segundo um dos funcionários de «Vineta», a notícia de que propaganda pseudo-leninista tinha sido transmitida secretamente a partir de território alemão durante dois anos e meio causou algum descontentamento entre os figurões nazis que não tinham conhecimento prévio deste segredo. 

Avaliar o sucesso de qualquer propaganda é muitas vezes um esforço subjetivo. Os relatos dos sucessos da «Velha Guarda de Lenine», reflectidos em documentos sobreviventes do Ministério da Propaganda do 3º Reich, parecem hoje mais tentativas de auto-reabilitação por parte dos oficiais nazis que outrora decidiram lançá-la e depois defendiam a eficâcia das suas próprias posições. Na realidade, foi uma operação extremamente impressionante, mas de eficâcia bastante reduzida. As estações de rádio «negras» de «Vineta» tiveram pouco sucesso em desmoralizar a população soviética. Por conseguinte, na luta pela «decadência moral da retaguarda soviética», prevaleceu um paradigma ideológico diferente no final de 1942: a propaganda à favor do «Movimento de Libertação russo», do general soviético Andrey Vlasov, POW dos alemães, que, na verdade, surgiu inicialmente unicamente como um projeto de propaganda.

sábado, setembro 18, 2010

URSS invade a Polónia em 17.09.1939

O início da II G.M. e a ocupação da Polónia pela Alemanha nazi e pela URSS comunista é uma página trágica da história europeia e mundial.

Os dois impérios totalitários cooperavam em perfeita sintonia para dividir a Europa em esferas de influência; o que não impediu que lutassem entre si mais tarde, para que o vencedor mais sangrento pudesse ficar com tudo. A URSS venceu e nos próximos 50 anos empenhou-se profundamente para apagar na mente das pessoas a sua longínqua colaboração com o regime nazi.

No dia 1 de Setembro de 1939 a Varsóvia é bombardeada pela aviação alemã. No dia 17 de Setembro, às 3h00 de madrugada, o exército vermelho sem declaração oficial da guerra invade a Polónia. Os cidadãos polacos são enviados para a Sibéria, os soldados e oficiais polacos são deportados a URSS, onde em Abril de 1940, pelo menos 21857 cidadãos polacos (cerca de 14552 militares e 7305 civis) foram barbaramente executados em Massacre de Katyn polícia secreta soviética, NKVD.

Ver o filme documental “Invasão Soviética da Polónia – 17 de Setembro de 1939”, YouTube, 8’25’’:

Ver o filme Katyn no Vídeo Google (versão integral legendada em português):
http://video.google.com/videoplay?docid=-2080155985610903776