domingo, novembro 04, 2018

Viajantes do tempo como elemento da propaganda contemporânea russa

Num dos elementos notáveis da propaganda contemporânea russa se tornou a literatura do subgênero “viajantes do tempo”, que com mais ou menos talento conta a mesmíssima história: o cidadão soviético/russo é “lançado” ao passado histórico, onde faz aquilo que sabe melhor: explodir, matar e torturar, lutando pela “paz mundial”.  

De que subgênero literário estamos à falar?

A ideia dos viajantes do tempo (ao passado histórico ou ao futuro) não é um tema propriamente novo. Desde o final do século XIX essa ideia foi explorada na literatura mundial pelo H. G. Wells no seu romance “A Máquina do Tempo” (1895); por Mark Twain no “Um yankee de Connecticut na corte do Rei Arthur” (1889) ou pelo Edgar Burroughs no seu ciclo “Marcianos” (1911-1964).  

A principal característica deste subgênero reside no facto de que a sua personagem principal deve necessariamente possuir algum tipo de conhecimento e de habilidades para de alguma forma mudar o mundo em que “aparece”. Aqui está um ponto importante – com a ajuda deste conhecimento e destas habilidades, o herói se esforça para recriar não apenas o mundo moderno dele, mas também a sua realidade que vê como um ideal.

Os viajantes do tempo russos

Não há atualmente um único livro russo em que um fã da União Soviética aparece no passado para ensinar as pessoas à fazer o melhor sorvete do mundo. A personagem, pelo contrário, faz o que sabe melhor – disparar, matar, espionar, organizar redes de sabotagem e publicar literatura de propaganda, dando os seus conselhos “sábios” aos líderes autoritários sobre a uma nova ordem mundial – tudo para colocar URSS ao controlo do nosso planeta. Garantindo que nem Ocidente, nem os EUA poderão dificultar o seu trabalho de matar as pessoas e as colocar no GULAG.

O herói de Mark Twain lutava, com todas as suas forças e de todas as maneiras possíveis contra o obscurantismo medieval, tentava oferecer aos cidadãos as novas tecnologias, conhecimentos e habilidades. Já os heróis dos modernos livros russos estão lutando para trazer todo mundo de volta ao passado, para proibir, fechar, destruir e provar o seu alegado direito à dominação mundial.

Desde a década de 2000, os heróis dos livros russos sobre os viajantes do tempo se tornaram todos os tipos de marginais e perdedores – ex-militares e ex-oficiais do KGB/GRU na reserva, professores expulsos das escolas/universidades, alcoólicos profissionais e outros camaradas semelhantes. Este tipo do herói literário era a cópia fidedigna do seu real leitor russo – um perdedor complexado, que estava convencido de que somente as circunstâncias o impediram de realizar todo o seu potencial – numa outra época histórica ele seguramente mostraria o que vale!

Os heróis dos livros russos não ajudam as pessoas do passado à adquirir novos conhecimentos e tecnologias, mas estão empenhados exclusivamente em ressuscitar a União Soviética. Frequentemente, o próprio Estaline ou Andropov se tornam as personagens – eles enviam os nossos complexados Nikolay ou Ivan ao passado para “mudar a história” ou escutam os seus importantes conselhos sobre a nova ordem mundial.

Enredos típicos das obras russas sobre os viajantes do tempo:
Ano 1941. O capitão do NKVD se torna o membro de uma Direcção secreta, criada para corrigir a história e entra na batalha contra os hitlerianos e contra os “banderistas” [nacionalistas ucranianos].

Eles foram enviados do século XXI ao século XVIII para mudar a história [...] Eles conseguiram se agarrar no passado, criando um enclave na América do Norte em 1790. [...] Com quem eles podem contar na luta contra o Império Britânico, que pretende dominar o mundo?


A “classe criativa” [russa] chegou ao poder, entregando a federação russa aos “parceiros estrangeiros”. [...] Mas a NATO/OTAN está comemorando a sua vitória antecipadamente. Por toda a Rússia, a guerra de sabotagem contra os novos vlasovistas e seus mestres se intensifica. À frente da insurreição estão os oficiais aposentados de forças especiais e dos serviços especiais, que o povo chama de “imperiais”, e os invasores declararam como “terroristas”.

Futuro próximo. Ucrânia [...] a fronteira com Donbas independente está fechada pelos campos minados, mas os serviços secretos da Novorossia mandam os grupos de sabotagem ao território do inimigo.


Estaline [...] decide SALVAR O FUTURO. Os grupos de batedores de NKVD são lançados ao século XXI, recebendo a ordem de contactar os serviços secretos russos e os líderes do Kremlin com a proposta de uma união político-militar entre a União Soviética e federação russa.

A continuação da guerra secreta do nosso contemporâneo, lançado ao junho quente de 1941 para cancelar a Grande catástrofe Patriótica! O viajante do tempo especial contra os serviços especiais nazis(tas), contra a inteligência americana, contra os conspiradores do partido [comunista] e os sabotadores do futuro! [...] Será que a Rússia atual está pronta para celebrar a união com a URSS estalinista?


O viajante do tempo [...] desafia a “Rainha dos mares” [The Queen of the Seas, isso é, o Império Britânico]. Os couraçados do almirante Ushakov atacam a frota do almirante Nelson [na batalha de] Trafalgar. As tropas do Kutuzov invadem Gibraltar, Barclay de Tolly lidera a revolta dos montanheses escoceses, a vanguarda de Bagration ocupa um enclave em Hastings, garantindo o desembarque nas ilhas Britânicas do exército [russo] comandado pelo generalíssimo Suvorov. Batalha da Inglaterra começou! LONDRES DEVE SER DESTRUÍDA!

Camarada Hitler”. [...] O nosso viajante no tempo, colocado no corpo do Adolfo Hitler muda a história da II G.M. [...] Será que se consegue enforcar Churchill? [...] Será celebrada a união do Reich com a URSS estalinista? O camarada Hitler e o camarada Estaline vão derrotar os Estados Unidos e criar uma bomba atómica antes dos americanos?


Ele é piloto do único Su-25 da Novorossia [...] numa das missões ele “cai” dentro da Grande Guerra Patriótica [II G.M.], entrando no corpo de Vasily Estaline! [o filho preferido do Estaline] Será que Vasily Estaline ousará lutar não apenas contra os “especialistas” da Luftwaffe, mas também contra a gangue de Khrushchev?

Ano 2037. Os russos são primeiros no Marte! [...] O primeiro romance sobre a batalha pelo Planeta Vermelho entre a Rússia e os Estados Unidos.

São apenas uma minúscula parte de títulos e de enredos deste subgênero literário – na Rússia atual já foram publicados milhares de títulos semelhantes.

Viajantes do tempo vs realidade. Posfácio. O abismo

No conto do escritor argentino Jorge Luis Borges “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” é descrito como a ficção literária gradualmente se transforma na realidade – algo semelhante aconteceu no meio real dos leitores das histórias dos viajantes do tempo russos. Foram este tipo de livros, juntamente com a propaganda televisiva russa, que fomentaram o indoutrinação ideológica que fez os fãs da URSS viajar à Ucrânia para matar os ucranianos. Após lerem e ouvirem centenas de histórias sobre os “faxistas ucranianos” de Kyiv, que comiam, ao pequeno almoço/café de manha, os dom-fafes inocentes e bebés falantes de língua russa.

A realidade e as ficções de livros malignos sobre os viajantes do tempo se misturam nas mentes dos adeptos [do “mundo russo”] numa visão coerente. Algo semelhante acontece nas seitas totalitárias – de acordo com o princípio da psicose induzida, os seus adeptos alimentam, uns noutros, a “história alternativa”, compartilham complexos de inferioridade e lutam contra a civilização. A fantasia nestas comunidades fechadas substitui a realidade.

Sempre gostei da frase do Friedrich Nietzsche: “Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”. Os livros russos sobre os viajantes do tempo dão uma resposta muito completa à questão – como seria o mundo se os fãs da URSS governassem nele. O abismo do futuro das adeptos das amanhas cantantes ganha as características muito reconhecíveis do GULAG soviético – pelo qual os heróis destes livros desesperadamente lutam, matando e torturando...
                                                                                              
Imagens: OZON | Texto: Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]


Bónus

Como a ficção mudou a história do Brasil | Olavo de Carvalho:

Sem comentários: