quinta-feira, janeiro 13, 2022

Ajuda alimentar americana à faminta União Soviética

A imagem do kit da ajuda alimentar americana enviada à União Soviética. Americanos chegaram à alimentar todos os dias cerca de 10 milhões de pessoas. No total, em 1921-1923, os cidadãos da URSS receberam 1.163.296 destes kits. 

Toda ajuda americana era canalizada através da American Relief Administration (ARA). ARA assinou um acordo especial e separado com o governo comunista da Ucrânia Soviética em 10 de janeiro de 1922. Os principais tipos de assistência eram o envio de pacotes alimentares, oferta de alimentos cozinhados em salas de jantar especiais e fornecimento de medicamentos às instituições médicas. 

As primeiras salas de jantar, abertos à todos os famintos, independentemente da sua origem étnica, começaram a operar na Ucrânia Soviética desde abril de 1922. De maio, do mesmo ano, com a assistência do governo local, a rede dessas salas de jantar começou a se expandir. Em 15 de agosto, no pico da assistência, a ajuda alimentar era recebida na Ucrânia por 848 mil crianças e 800 mil adultos, que é perfazia 44% dos famintos registados. 

O conteúdo calórico diário era de 460 kcal por dia. Em outubro de 1922, ARA assinou um novo acordo com o governo da Ucrânia Soviética. O conteúdo calórico diário foi aumentado para 660 kcal. No entanto, o número de famintos que recebia ajuda diminuiu. Isso foi causado, em particular, a retirada do seio da ARA da maioria das organizações, que anteriormente eram os seus membros. 

Durante os anos da sua actividade ARA entregou 180,9 milhões de kits alimentares, os medicamentos no valor de mais de 3 milhões de dólares (aos preços de 1921-23), distribuiu na Ucrânia Soviética 400.000 mil kits alimentares no valor de 10 dólares cada e 11.000 kits de roupa no valor de 20 dólares cada. ARA desempenhou um papel importante no salvamento das vítimas de fome na Ucrânia. O tamanho da sua ajuda alimentar excedeu a assistência de outras organizações estrangeiras e foi maior do que ajuda do próprio governo da Ucrânia Soviética. Acusada, pelos bolcheviques, de usar o seu aparelho para apoiar “os elementos contrarrevolucionários e de espionagem”, as autoridades comunistas soviéticas proibiram as atividades da ARA na URSS em junho de 1923. 

Durante o Holodomor de 1921-1922 e a fome de 1923, na Ucrânia morreram de fome, segundo várias estimativas, de 2 a 5 milhões de pessoas. Sem ajuda das organizações internacionais, em primeiro lugar – as americanas, o número de vítimas do Holodomor de 1921-1922 poderia ser muito maior. 

É de recordar que a grande fome de 1921-22 e de 1923 na Rússia e na Ucrânia eram as consequências directas das políticas soviéticas de “comunismo de guerra”. Políticas tão desastrosas que obrigaram o estado soviético aderir à restauração parcial da iniciativa privada durante a vigência da Nova Política Económica (NEP). 

Dez anos depois, durante o novo Holodomor, que atingiu Ucrânia, Cazaquistão e a região russa de Kuban, de predominância étnica ucraniana, o estado soviético adotou uma política absolutamente oposta. A própria existência da grande fome foi veemente negada, mesmo com ajuda ativa de alguns “idiotas úteis” ocidentais. Os cereais eram compulsivamente retiradas das comunidades e das famílias, milhões de ucranianos foram condenadas à uma morte cruel e deliberada pela política agrícola soviética.

segunda-feira, janeiro 10, 2022

Cazaquistão: a vida após a invasão do novo “pacto de Varsóvia”

Após os protestos contra a subida dos preços de gás o Cazaquistão foi invadido pelo novo “pacto de Varsóvia”, embora o estatuto da OTSC permite a entrada de militares num país-membro apenas no caso de uma invasão estrangeira. 
As filas às ATM para levantar o dinheiro

Os postos de controlo na entrada de Almaty

O miniautocarro queimado nas ruas de Almaty

Equipamentos militares da OTSC no aeroporto de Almaty

Os militares russos no aeroporto de Almaty

Evacuação dos cidadãos russos do Cazaquistão

Pelos dados da imprensa independente desde início dos protestos morreram 164 pessoas, incluindo algumas crianças. Pelos dados oficiais estão detidos cerca de 8.000 pessoas. Os cidadãos russos estão sendo evacuados do Cazaquistão, a entrada e circulação nas grandes cidades está sendo controlada pelos militares e os cidadãos formam as filas intermináveis às ATM´s, pois o sistema dos pagamentos POS deixou de funcionar, devido a corte da Internet pelas autoridades governamentais. 

Exército de Quirguistão prepara-se à entrar no Cazaquistão 

Restos das barricadas em Almaty

Uma viatura ligeira metralhada nas ruas de Almaty

Postos de controlo na entrada de Astana (Nur-Sultan)

Postos de controlo nas imediações do palácio presidencial em Nur-Sultan

As ruas de Nur-Sultan

Os cidadãos russos retirados do Cazaquistão

Um conhecido músico de Quirguistão, pianista e jazzista Vicram Ruzakhunov, a quem as autoridades do Cazaquistão apresentaram na imprensa/mídia como desempregado quirguiz, que veio ganhar 200 dólares nos protestos em massa no Cazaquistão, foi libertado e voltou para casa. Com vestígios de fortes espancamentos no seu rosto, ele disse à imprensa que não foi nada torturado e que até foi muito bem tratado pela polícia do Cazaquistão, inventando a história de participar nos protestos “apenas para ser deportado mais rapidamente para casa”. 

Jazzista Vicram Ruzakhunov após a "não tortura", foto RIAN

Vicram Ruzakhunov é um cidadão famoso, foi rapidamente reconhecido pelos internautas e a sua libertação imediata foi exigida por mais altas autoridades do seu país natal, Quirguistão. Os cidadãos menos famosos de diversos países podem ser facilmente acusados no Cazaquistão de serem terroristas e até confessarem rapidamente as suas supostas ações subversivas. A tortura, largamente usada pelo NKVD soviético, continua ser amplamente usada nas ditaduras despóticas contemporâneas da Ásia Central.

A autorização da tortura na investigação soviética

Em janeiro de 1939, os líderes regionais do PC (b) e do NKVD receberam o telegrama codificado do Estaline/Stalin, autorizando, não oficialmente, a tortura durante a investigação.

No telegrama, em particular, foi dito: “O Comitê Central do Partido Comunista bolchevique foi sabendo que os secretários regionais e distritais [do partido comunista soviético], verificando as actividades das direções de NKVD, estão os culpar pelo uso de coerção física aos detidos, como algo criminoso. O Comitê Central do PC esclarece que o uso de impacto físico na prática do NKVD foi admitido desde 1937 com a permissão do Comitê Central do PC. <...> O Comitê Central do PC acredita que o método de impacto físico deve necessariamente ser usado adiante, na forma de uma exceção, com relação a inimigos explícitos e não desarmados do povo, como um método completamente correto e apropriado”.

A ordem autorizando a tortura, assinada pelo Estaline/Stalin, 1939

Blogueiro: este é um exemplo prático de luta entre o aparelho do partido comunista e aparelho do serviço secreto OGPU/NKVD/MGB/KGB. Durante as purgas estalinistas o aparelho comunista ficou praticamente indefeso dos ataques dos chekistas. Usando largamente a tortura e atropelando abertamente a “legalidade socialista”, qualquer cidadão era acusado e bastante facilmente, confessava ser um inimigo do povo. Dos marechais até motoristas e de membros do Bureão Político até as senhoras de limpeza (faxineiras). Ninguém se sentia salvo na URSS naquela época…
Ler e ver mais sobre as torturas no GULAG soviético

p.s.

Como podemos imaginar, os estalinistas irão negar a existência do telegrama assinado pelo Estaline/Stalin. No entanto, em Abril de 1953, o Ministro do Interior da União Soviética, Lavreniy Béria emite uma ordem especial sobre a proibição da tortura.

A ordem proibindo a tortura, assinada pelo Béria, 1953

“Sobre a proibição de aplicação, aos detidos, quaisquer medidas de coerção e impacto físico”

N 0068 Abril 4, 1953

Ultra secreto

O Ministério do Interior /dos Assuntos Internos da URSS estabeleceu que, no trabalho investigativo dos corpos do MGB, havia perversões grosseiras das leis soviéticas, as prisões de cidadãos soviéticos inocentes, a falsificação detalhada dos materiais investigativos, o uso generalizado de vários métodos de tortura – espancamentos brutais dos prisioneiros, o uso 24/24h de algemas nas mãos atrás das costas, que em alguns casos durava vários meses, privação de longo prazo do sono, a colocação dos prisioneiros na cela prisional fria e dos outros. 

Fonte

quarta-feira, janeiro 05, 2022

Os protestos em massa no Cazaquistão: derrube da ditadura

No Cazaquistão eclodiram os protestos em massa, desencadeados pelo forte aumento do preço dos combustíveis, em seguida, se transformando em protesto geral contra o atual regime no poder.

Protestos decorrem em várias cidades. Na antiga capital, Almaty, a residência do presidente do Cazaquistão e do edifício Akimat (município/prefeitura) foram ocupados e queimados, em Aktobe, houve os tiros e explosões nas ruas, há feridos e mortos entre os manifestantes e polícias, os manifestantes ocuparam o edifício da TV “Mir-24” e exigem o direito de antena. A cidade de Almaty praticamente está livre de forças de segurança nas ruas.

O derrube da estátua do ditador light Nursultan Nazarbayev

Além disso, o ditador Nursultan Nazarbayev deixou de ser presidente do Conselho de Segurança do Cazaquistão, a posição que ele pretendia ocupar de forma vitalícia. Este posto foi abraçado pelo atual presidente Kassym-Jomart Tokayev. As teorias de conspiração apontam a remoção de Nazarbaev como o propósito real dos protestos. 

Edifício do Município de Almaty


Manifestantes em Almaty usam os escudos que arrancaram das polícias

Edifício do Município de Almaty

Polícia antimotim nas ruas das cidades cazaques

O que se sabe sobre a situação em Almaty e outras cidades do Cazaquistão no momento:

 - manifestantes em Almaty ocuparam a residência do presidente, este abandonou o edifício. Muitos manifestantes estão armados com armas de fogo;

 - no centro da cidade, os manifestantes queimaram os carros da polícia e alguns carros particulares ligeiros;

 - o edifício do Departamento da Polícia Almaty foi ocupado pelos manifestantes;

 - alguns/muitos manifestantes, de acordo com a mídia, são agressivos para com os jornalistas que filmam os protestos;

 - alguns grupos de manifestantes estão se mudando para ocupação do aeroporto de Almaty;

 - o aeroporto da cidade de Aktau já suspendeu as operações;

 - na capital Nur-Sultão, o edifício da administração de capital é cercado por policiais;

 - os residentes da capital do Cazaquistão estão levantar maciçamente dinheiro das ATM, já que os pagamentos via POS não funcionam devido à falta da Internet. 



As barricadas erguidas pelos manifestantes


Os populares levam os pneus para a construção das barricadas 

O poder colocou nas ruas as mais diversas unidades de polícia antimotim. Parte dos polícias foi desarmada pela população, existe polícias e membros da Guarda Nacional que passaram ao lado dos manifestantes.

As exigências económicas são: redução dos preços de combustíveis e dos alimentos; reduzir a idade da reforma/aposentadoria para 58-60 anos, aumento de salariais mínimos e de reformas/pensões mínimas; aumento os benefícios às famílias que possuem crianças; abolição da taxa de lixo e de pagamento/pedágio das autoestradas; fecho de todas as subsidiárias das empresas nacionais.

As exigências (na sua maioria económicas) dos manifestantes

Exigências políticas: resignação completa do governo (já foi anunciada a demissão completa do Governo); libertação de todos os detidos e prisioneiros presos no decorrer das manifestações; diminuição dos poderes do Presidente, criação de um governo temporário, convocação de eleições livres e justas no país.

Como podemos ver os eventos no Cazaquistão em franco desenvolvimento e ainda é impossível de dizer como tudo terminará…

Blogueiro: o presidente Tokayev acabou por pedir aos estados da ODKB (Organização de Acordo de Segurança Coletiva composta pela Federação Russa e os seus aliados) para enviar as tropas para ajudá-lo a lidar com os cidadãos que se rebelaram contra o seu regime. Estamos à um passo de repetição de ocupação e esmagamento comunista de Budapeste em 1956 ou Praga em 1968, efetuado pelosas tropas do Pacto de Varsóvia. 

Por outro lado, o eventual uso de tropas russas no Cazaquistão reduzirá a tensão na fronteira ucraniano-russa. Pois eles serão forçados a usar as tropas que estão ameaçando Ucrânia. Automaticamente isso aumentará drasticamente as chances ucranianas de se aguentar. Mas é uma outra história…

terça-feira, dezembro 28, 2021

Fundação memorial das repressões comunistas é proibida na Rússia

O Supremo Tribunal da Federação Russa ordenou a liquidação da Memorial International, uma das organizações de direitos humanos mais antigas e reverenciadas, que narrava a repressão política comunista e se tornou um símbolo da democratização russa à seguir do colapso da União Soviética. 

A razão formal reivindicada pelo Gabinete do Procurador Geral é a recusa de Memorial de colocar o rótulo do “agente estrangeiro” nas suas publicações. 

Mas no tribunal, foi finalmente dita a verdadeira razão para a eliminação de Memorial Internacional: o Gabinete do Procurador Geral afirma que organização estava interpretando incorretamente a história soviética, “criando uma visão enganadora da URSS como um estado terrorista”, “despeja as críticas sobre as autoridades do estado”. 

A decisão da Suprema Corte confirmou novamente que a história do terror político, organizada e efectuada pelo poder do Estado não, para a Rússia não é um tema acadêmico que se interessa apenas aos especialistas, mas um problema agudo da modernidade. Rússia é um país que precisa de uma compreensão honesta e conscienciosa do passado soviético; nisso é a chave do seu futuro. É impossível acreditar que a eliminação judicial do Memorial Internacional removerá esta questão da agenda. A memória das tragédias do passado é necessária à sociedade russa e pós-soviética. 

Memorial Internacional já informou que pretende recorrer da decisão do Supremo Tribunal russo, possivelmente apelando ao Tribunal Internacional dos Direitos Humanos. No entanto, no dia 29 de Dezembro o mais que provável que outro fecho espera o “Centro dos Direitos Humanos Memorial”, nas mãos do Tribunal de Moscovo. 

Como melhor descreveu a situação um dos internautas russos: “a vingança dos capangas de Estaline/Stalin leva irreversivelmente a uma nova catástrofe”.

sexta-feira, novembro 26, 2021

Recordar Holodomor onde quer que você esteja

Na prisão do Kremlin, na escola, no hospital, no campo de futebol, na oficina, ao volante ou na Diáspora os ucranianos vão recordar solenemente neste sábado, 27 de Novembro, às 16.00 horas, a memória das vítimas do Holodomor de 1932-1933. 

O dia 27 de novembro, neste sábado, é o Dia da Memória das vítimas do Holodomor. Acendem uma vela na sua janela, visitem os memoriais, expliquem às crianças o preço da perca da liberdade.

Honrem onde quer que estejam! 

Destruição dos ucranianos como uma Nação – este era o objetivo dos organizadores do Holodomor. Finalmente eliminar a língua, a cultura, a história, tudo o que torna os ucranianos únicos neste mundo. Por isso a envergadura do crime foi tão grande, por isso foram mortas milhões de pessoas. 

Mesmo os que sobreviveram em 1932-1933 se tornaram as suas vítimas. Tiveram que esquecer quem eles eram, quem eram os seus antepassados, o ​​que os seus descendentes deveriam preservar para o mundo. Tinham que esquecer quem os matava e por quê. 

Morte e esquecimento – essa era a meta de Estaline e os seus comparsas em relação aos ucranianos. 

Que não foi alcançada. Ucranianos sobreviveram e não esqueceram. Existem e se lembram. Existem, exactamente porque que se lembram.

Se lembrem do Holodomor.

Lembrem que as disputas internas ajudavam ao inimigo externo.

Lembrem o que acontece com aqueles, à quem faltarão as forças para defender a liberdade. Quem pretenderá troca-la pelo pão. Que após a perca da liberdade perderá o pão.

Lembrem de quão caro sai a fé cega em slogans atraentes. Como “terra aos camponeses” se facilmente transformou em “camponeses debaixo da terra”.

Mas também lembrem dos ucranianos se levantavam à luta contra o regime comunista. Pelas suas revoltas, eles conseguiam desferir-lhes os rudes golpes, o tornaram mais fraco, incapaz de repetir, algures numa outra parte da Europa escravizada, os crimes da escala do Holodomor.

Lembrem daqueles ucranianos que compartilhavam o seu último pão, enfraquecidos pela fome, mostravam ao mundo a força de humanidade.

Lembrem a vingança de um jovem ucraniano em Lviv, pelo assassinato de milhões de seus irmãos e irmãs, que se tornou uma manifestação da dignidade nacional.

Lembrem daqueles ucranianos que preservaram a memória do passado, embora pagavam por isso, com a sua liberdade e até mesmo com a sua vida.

Lembrem dos não-ucranianos que tiveram a força de dizer a verdade ao mundo, mesmo quando ninguém os queria ouvir.

Esta memória é revanche ucraniana pelos milhões de mortos. Ela os torna mais fortes, porque dentro da memória os mortos voltam à vida, se participem do lado ucraniano nas lutas atuais.

Por isso os herdeiros dos assassinos então procuram apagá-la. Eles tentaram reescrever os livros de história na Ucrânia, fechavam arquivos, espalhavam as inverdades sobre o Holodomor.

Mas a verdade se revelou mais forte, memória – insuperável. E assim transformou os ucranianos.

As mãos da criança, que há vinte anos, acendeu, pela primeira vez a vela da memória, tornaram-se nas mãos de um soldado segurando uma arma, protegendo os seus pais.

Olhos que, ficavam em lágrimas pela história que contava avó sobre a sua sobrevivência em 1932-1933, agora olham com confiança para o inimigo através de uma mira.

Uma Nação que se uniu nos momentos para honrar os mortos de fome no passado, se uniu para proteger o seu futuro e criou um exército poderoso. A tristeza pelos antepassados ​​mortos dá força para proteger os seus descendentes.

Lembramos! Somos fortes!

Texto @ Volodymyr Viatrovych 

Produção de vídeo @Young & Hungry

Omelyan Oshchudlyak & Yura Dankevich

sábado, novembro 20, 2021

Bailarinas e cantoras ucranianas no GULAG soviético


Entre 1946 à 1953 foram presas na Romênia pelo NKGB soviético várias bailarinas e cantoras do Teatro de Ópera de Odessa. Geralmente eram condenadas aos 25 anos de GULAG sob acusação de “traição da pátria”. 

Estamos falando de meninas que trabalharam no Teatro de Ópera de Odessa ou cantavam em outras instituições semelhantes durante a II G.M., quando a cidade ucraniana de Odessa estava parcialmente ocupada pelo exército da Romênia. Após a saída da Romênia do Eixo e do fim da ocupação, as meninas deixaram a cidade e a União Soviética, mudando-se para a terra dos seus maridos. Os arquivos da secreta ucraniana SBU têm pelo menos 21 destes casos. Uma estória que será transformada num estudo histórico e eventualmente no roteiro de um filme. 

Sem condenar e nem justificar, muito menos fazer conclusões precipitadas ou vulgares devemos concordar: o mundo do teatro e cinema sempre atrai atenção especial dos homens e a concentração de beleza feminina está lá sempre muito alta. Ao longo da história os militares e os invasores davam muita atenção às atrizes. Mesma coisa se passou com as meninas de Odessa que chamavam atenção especial de patronos influentes. Mas geralmente os seus noivos eram simples jovens oficiais ou funcionários romenos. Eles sabiam namorar, alimentavam, tratavam bem e protegiam as suas namoradas. A grande maioria dos namoros terminou em casamentos oficiais na Romênia, depois de deixar a Odessa. 

Em 1944 a Romênia saiu do Eixo e se aliou à coligação/coalizão anti-Hitler, automaticamente os romenos tornaram-se aliados e começaram a construir o socialismo romeno. E suas esposas dançavam nos palcos romenos e até mesmo perante os militares soviéticos. 

Logo após o fim da II G.M. o NKGB soviético começou a perseguição das bailarinas. Todas elas eram acusadas ao abrigo da 1ª parte do Artigo 58º do Código Penal da Rússia Soviética – “traição à pátria”. Eram acusadas de deixar a URSS de forma “arbitral”. Num dos interrogatórios essa acusação é formulada dessa forma: 

Investigador: – Por que você deixou a URSS?

M: – Eu saí com o meu marido.

I: – Não temos-lhe questões a colocar. Eu a pergunto, porque você saiu?

M: – Eu o amo e, portanto, fui com ele.

I: – Você traiu a URSS, e deixou o seu país de uma forma voluntariosa... 

Após uma “investigação” curta todas as meninas recebiam quase sempre a pena máxima de 25 anos de GULAG, mais 5 de perca dos direitos cívicos. Muito raramente moças eram condenadas aos 10 anos. Logo após a morte do ditador comunista Estaline/Stalin todas elas foram amnistiadas. Mais tarde todas foram reabilitadas “devido a ausência do teor do crime”. 

Fonte 

Blogueiro: apesar de existirem as perseguições semelhantes contra as mulheres francesas ou norueguesas, este caso é notável pela perseguição extraterritorial, perseguição num país socialista e também são notáveis as penas muito pesadas aplicadas as mulheres, unicamente por deixarem o país sem a permissão expressa do Estado soviético omnipresente.

terça-feira, novembro 16, 2021

O uso de crianças e mulheres na fronteira da União Europeia

O uso de crianças e mulheres na fronteira polaca/polonesa-bielorrussa lembrou a passagem do livro do comunista ucraniano-canadense John Hladun “Eles me ensinaram a traição” (“They taught me treason”, Toronto, 1947). Membro do partido comunista do Canadá, Hladun estudou em 1930 as técnicas subversivas na Universidade Internacional “Lenine” em Moscovo/u. Pela mesma universidade passaram Ho Chi Minh, Broz Tito, Wladyslaw Gomulka, e muitas outras figuras comunistas.
Ler original: faça click na imagem

Foi o que ele escreveu: “Disseram-nos que as greves e manifestações devem ser consideradas como operações militares e devem ser conduzidas nessa base. Devemos cuidar de organizar a opinião pública ao nosso favor, e especialmente em ganhar simpatia na polícia e nas Forças Armadas. Na luta contra a polícia, nunca devemos temer usar mulheres e crianças como nossos escudos. Recebemos relatos sobre greves e manifestações em diferentes países europeus, onde havia confrontos com polícia ou milícia. Com base nesses relatórios, analisamos ao pormenor os sucessos e erros táticos dos Partidos Comunistas [...] Nós terminamos a nossa formação em Trabalho Organizativo através de manobras táticas em que seguimos greves, demonstrações, lutas de rua e até mesmo uma longa caminhada até o alvo pretendido. Cerca de 300 estudantes agiram como trabalhadores de combate, alguns destacamentos de GPU faziam o papel de exército e da polícia. Os oficiais do Exército Vermelho eram juízes”. 

Jovens comunistas foram ensinados como fabricar as bombas, aos segredos de espionagem. Mas as pessoas com cérebros no lugar, em Moscovo/u começaram a sentir a dissonância cognitiva entre aquilo que foram ensinadas e da situação real em que o proletariado vivia na URSS. “Cheguei a Moscovo/u cheio de sede para fortalecer minha fé em um novo paraíso do homem, vê-lo com os meus próprios olhos. Agora me disseram grosseiramente que há coisas que os meus olhos não deveriam ver. E apenas pela precaução, caso os meus olhos vejam algo que não confirma os dogmas que eu fui ensinado, eu não tenho que acreditar aos m meus próprios olhos”. 

John (Ivan) Hladun (1902  – 11.04.1991) tornou-se anticomunista e entre 1928 à 1933 cooperou com os serviços especiais do Canadá, que tentavam reduzir a influência destrutiva dos comunistas aos trabalhadores canadenses, que recebiam o papel da carne de canhão n / boi de piranha na derrubada do governo capitalista.

John (Ivan) Hladun

Hoje estamos ver um ataque contra a União Europeia, uma crise pensada para causar as contradições entre os aliados. Famílias dos migrantes são jogadas contra o arame farpado, cerca de dez pessoas morreram. Prática absolutamente odiosa. Quase cem anos depois, obviamente, as táticas dos serviços especiais russos não mudaram, talvez fossem afiadas, às escalas, igualmente globais. Mas que propósito, então antes era a “ditadura do proletariado”, e agora a ditadura do crime? Talvez esta crise seja um lembrete de que Ucrânia não pode continuar ser uma zona tampão e não deve ser deixada fora da UE e da NATO/OTAN, pois, caso contrário, continuará ser usada como trampolim para futuras práticas subversivas do país vizinho.

quarta-feira, novembro 03, 2021

Rafael Lusvarghi condenado aos 8 anos de cadeia e 780 dias de multa

O brasileiro Rafael Lusvarghi, detido na Ucrânia 2016 e condenado em 2017 e 2019 por crimes de formação e participação em grupos armados ilegais, foi condenado no Brasil por tráfico de drogas, devendo passar os próximos 8 anos na cadeia, em regime inicial fechado.  

O réu Rafael Marques Lusvarghi, pela prática dos crimes de tráfico de droga é condenado à pena privativa de liberdade de 8 anos, 1 mês e 6 dias, em regime inicial fechado, além de 780 dias-multa. 

Considerando que o réu respondeu ao processo todo preso e que foi condenado ao cumprimento da pena em regime inicial fechado, foi-lhe negado o direito de recorrer em liberdade. O Ministério Público brasileiro recomenda a manutenção do réu na mesma prisão em que já se encontra (art. 387, § 1º, do CPP). 

Quando da prisão do réu, além das drogas foram apreendidos: a) aparelho celular marca BLU; b) aparelho celular marca Samsung; c) aparelho celular marca Aura; d) R$ 259,70 (duzentos e cinquenta e nove reais e setenta centavos) em espécie; e) 3,70 Euros; f) vários sacos plásticos de tamanhos variados; g) passaporte em nome do acusado; h) balança de precisão; i) bolsa contendo anotações diversas; j) rolos de papel filme; k) MacBook IBM; l) motocicleta Honda Biz 125 ES, ano 2008/2009, cor cinza, placa ECD9357; m) 350 munições de calibre 9mm; e, n) mouse e adaptador de MacBook. Por se tratar de crime de tráfico de drogas, consoante artigo 63 da Lei nº 11.343/2006, o perdimento de qualquer bem e valor apreendido nos autos, em favor do FUNAD, é efeito da condenação, na forma do artigo 91, caput, do Código Penal. A Constituição Federal, em seu art. 243, parágrafo único, dispõe que todo e qualquer bem de valor económico apreendido em decorrência do tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins será confiscado e reverterá em benefício de instituições e pessoal especializados no tratamento e recuperação de viciados e no aparelhamento e custeio de atividades de fiscalização, controlo/e, prevenção e repressão do crime de tráfico dessas substâncias. 

Todos os demais itens apreendidos serão encaminhados à destruição, por não possuírem valor económico relevante. Além disso, o MP determinou, a destruição das amostras das drogas apreendidas, mediante certificação nos autos (artigo 72 da Lei nº 11.343/2006 e artigo 525 das NSGJ), e das munições igualmente apreendidas. 

Após o trânsito em julgado dessa sentença o réu é intimado ao pagamento da pena de multa, no prazo de 10 (dez) dias (art. 49, § 1º, do CP). Não havendo pagamento da pena de multa no prazo estabelecido, a Secretaria irá certificar nos autos e remeter ao Ministério Público para as providências necessárias, a teor do entendimento firmado pelo STF na ADI 3150/DF e na AP 470/MG. O réu será advertido que, exceto em caso de absoluta impossibilidade económica, que deve ser devidamente comprovada, o não pagamento da pena de multa impede a extinção da punibilidade pelo cumprimento integral da pena privativa de liberdade, a teor do entendimento do Supremo Tribunal Federal firmado na ADI 3.150/DF, e encampado pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento do AgRg no REsp 1850903-SP.

segunda-feira, novembro 01, 2021

Caso Beilis: libelo de sangue do império russo

Em 28 de outubro de 1913, em Kyiv, foi absolvido e imediatamente libertado, pela decisão do júri popular, Mendel Beilis, acusado de assassinato ritual judaico de uma criança ortodoxa.

No dia 12 de março de 2011, numa caverna nos arredores de Kyiv, as crianças encontraram o corpo morto de um menino com muitas feridas de corpo. O morto foi identificado como Andrei Yuschinsky, um estudante de doze anos da classe preparatória da Escola eclesiástica de Kyiv. A investigação do caso foi confiada ao investigador dos casos criminais ordinários. Mas alguns dias depois, o caso ganhou uma conotação inesperada. O movimento nacionalista monárquico russo, conhecido genericamente como “centelhas negras” afirmou que o assassinato teve o caráter ritual e foi perpetuado pelos judeus para extrair a sangue ortodoxa.

No processo, que decorreu em Kyiv entre 23 de Setembro à 28 de Outubro de 1913, participou, do lado da acusação, na qualidade do perita, Ivan Sikorsky, psiquiatra, ensaísta e professor da Universidade de São Vladimir de Kyiv, membro honorário da Academia Eclesiástica de Kyiv. Polaco/polonês russificado, professor Sikorsky era notório antissemita, anti-ucraniano e nacionalista russo, o pai do famoso criador de aeronaves Igor Sikorsky. 

Ler também A morte dos Romanov, igreja ortodoxa russa e a suposta culpa dos judeus


Ivan Sikorsky chamou os alegados assassinato rituais de “vingança racialista, ou a vendetta dos filhos de Jacob aos sujeitos da outra raça”. O famoso escritor, jornalista e defensor dos direitos humanos, ucraniano Vladimir Korolenko, que estava presente no processo e no tribunal, avaliou assim o discurso de Sikorsky: “Professor Sikorsky, em vez de uma avaliação psiquiátrica, começou a ler à partir de um caderno a coletânea de contos macabros, que nada tinham ver com a ciência”.

O funcionário do Departamento de Polícia de Kyiv, Venedikt Dyachenko, telegrafava ao São Petersburgo, mantendo a monarquia informada sobre o decorrer do processo: “o povo simples, lendo a peritagem do Sikorsky, expressa grande ódio aos judeus, ameaçando com um pogrom”.

A sociedade russa da psiquiatria deliberou uma resolução especial, dedicada às alegações do Sikorsky: “pseudocientíficas, não correspondem aos dados objetivos do exame forense ao corpo de Yuschinsky e não correspondem às normas da Carta do Processo Penal”. Na primavera de 1913 o XII Congresso médico do império russo “Pirogov” adotou a resolução especial contra o as deliberações do Sikorsky. No outono de 1913 as deliberações do Sikorsky foram condenadas pelo Congresso Médico Internacional em Londres e pelo 86º Congresso de Naturalistas e Médicos alemães em Viena.

Mendel Beilis foi defendido por vários advogados famosos. Entre os seus mandatários oficiais estava o jornalista russo Vladimir Nabokov (o futuro autor da “Lolita”), que estava presente no processo como correspondente do jornal liberal “Rech”.

Após a sua libertação, juntamente com a família Beilis deixou o império russo, mudando-se, primeiramente para a Palestina, e depois aos EUA, onde morreu em 1935. Foi o autor do livro biográfico “História do meu sofrimento”. O livro foi publicado em ídiche, inglês e em russo.

A principal razão da absolvição do Mendel Beilis foram os enormes esforços do investigador da polícia de Kyiv Nikolay/Mykola Krasovsky, despedido e até preso pela sua recusa em cumprir as ordens superiores de confirmar o assassinato ritual, conduzindo uma investigação privada, conseguindo chegar aos verdadeiros assassinos, apresentando aos jurados a versão completa do assassinato, reforçada com diversas evidências e testemunhos.

Mykola/Nikolay Krasovskiy, antes de 1917 @Wikipédia

Em março de 1917 Mykola Krasovsky foi nomeado pela Rada Central da Ucrânia como Comissário-chefe do Departamento de Investigação Criminal da Polícia (Milícia) de Kyiv, que ele liderou até Junho de 1918. Participou da atividade clandestina antialemã, foi detido em julho de 1918 e foi condenada pelo tribunal militar alemão aos 2 anos de prisão. Depois da queda do Estado Ucraniano (Hetmanato) em dezembro de 1918 foi libertado. A partir de 1919 trabalhou no Ministério do Interior / dos Assuntos Internos da República Popular da Ucrânia (UNR), depois foi transferido ao Estado-geral do Exército da UNR, onde desde maio de 1920 encabeçou o Bureau de informação (serviços de inteligência e da contrainteligência). Após a queda e ocupação da UNR pelos bolcheviques e evacuação à Polónia, por algum tempo trabalhou no 2º Departamento (inteligência e contrainteligência) do Estado-maior do exército da Polónia, em novembro de 1921 voltou ao serviço anterior. O seu destino posterior é desconhecido.