domingo, fevereiro 21, 2016

O capacete azul

Um homem robusto, na casa dos cinquenta, com a face absolutamente pálida e olhos vermelhos, fixadas num único ponto, estava sentado de joelhos, junto ao corpo coberto com o lençol ensanguentado, incapaz de levantá-lo.
por: Sergei Loiko, fotógrafo e jornalista  

Ele vestia a jaqueta de inverno da polícia, de cor azul-escura, sem as insígnias, com uma gola de pele. O seu cabelo, cortado muito rente, ainda não tinha fios grisalhos.

Finalmente, ele levantou a ponta do lençol, imediatamente reconheceu o seu filho, e, novamente, cobriu o seu rosto. Depois virou o seu olhar ao lado, onde estavam estendidos mais onze corpos, também cobertos com os lençóis manchados de sangue. Em alguns lençóis, ao nível das faces, estavam colocados uns papelinhos, nos quais algo era escrito com um marcador vermelho.

No meio deste vermelho todo havia uma grande mancha azul – o capacete militar, pintado de azul. Por dentro e por fora o capacete fora manchado de sangue, e do lado esquerdo, ao nível do templo, era visível marcadamente um buraco, resultante da perfuração de bala.

Ustym Holodnyuk, de 19 anos, estudante da cidade de Zbarazh da região de Ternopil no oeste da Ucrânia, deveria se encontrar com o seu pai, às 11h00 de manha na rua Zhovtneva. Eles combinaram isso às 9h00.

Ustym foi um dos defensores da Maydan, desde o novembro [de 2014]. Eles combinaram com o pai, que este o levará à casa para descansar. As próximas duas horas, até o encontro com o pai, Ustyn não sobreviveu.

“Eu lhe disse: “Fique lá com cuidado, não arriscas, temos que ir para casa”, conta o pai. “Ele se riu e respondeu: “Pai, não se preocupe! Eu tenho um capacete mágico da ONU, e nada me vai acontecer”. – Estas eram as últimas palavras que ouvi dele”.

Volodymyr, o pai do Ustym levanta o seu capacete no chão e olha longamente para o sangue ainda fresco de seu filho, dentro e fora do capacete, o leva até ao rosto, como se estivesse tentando ouvir o cheiro e o calor de seu filho, tentando dizer algo, mas as suas palavras se cortam nas palavras “o capacete azul”, ele cai sobre uma cadeira, abaixa a cabeça e os enormes ombros estremecem.

Ex-policia, que toda a sua vida serviu fielmente ao seu país, ele está tentando abafar o ataque súbito, que desconhecia até agora. Ele quase consegue...

Ustym, tal como outros onze, deitados agora ao seu lado na recepção do hotel “Ucrânia”, [em Kyiv], transformado em um necrotério temporário, não tinham as chances de sobreviver, diz a médica-chefe da clínica móvel da autodefesa da Maydan, Olha Bogomolets.

“O franco-atirador ou franco-atiradores trabalharam profissionalmente”, diz ela. –“Todos os ferimentos foram no coração ou na cabeça. Todos morreram atingidos por balas de calibre 7,62 mm [a carabina de precisão Dragunov – SVD]. Atiraram para matar”.

Como cidadão, o pai apoiava Ustym no seu desejo de estar na Maydan, conta Volodymyr. Como o pai, estava se opondo.
“Eu não sei se Yanukovych deveria ficar na minha frente de joelhos, mas eu sei certamente que ele tem que se sentar na frente de um tribunal internacional por aquilo que ele fez com o meu país e com o meu filho”, diz o pai.
https://en.wikipedia.org/wiki/Ustym_Holodnyuk
 

sábado, fevereiro 20, 2016

Os crimes russos da guerra no leste da Ucrânia (2)

O militar ucraniano preso pelos terroristas e assassinado no aeroporto de Donetsk (com as mãos atadas atrás das costas)
A deputada do parlamento polaco, Małgorzata Gosiewska (partido PiS), apresentou publicamente o relatório dedicado aos crimes da guerra russos, cometidos no leste da Ucrânia contra os civis e militares ucranianos. O jornalista polaco Wojciech Pięczak do jornal “Tygodnik Powszechny” conversou sobre a investigação com Adam Nowak (pseudónimo), o investigador do grupo, ex-oficial do Bureau Central de Investigação (CBS) da Polónia.

por: Wojciech Pięczak (2ª parte, versão curta, +16)

— Quais os encontros com as vítimas eram mais difíceis?
— Após as conversas com as mulheres que foram torturadas me surgiu o pensamento que, se eu encontrar o criminoso, estaria pronto para matá-lo. Mas tentei manter o distanciamento, para que todo o procedimento decorrer de forma profissional. É impossível trabalhar sem o distanciamento. Mas é difícil, quando estas a ouvir de uma testemunha que numa qualquer cela de tortura ele tinha visto uma mulher grávida. Nós não sabemos quem ela era, e se ela sobreviveu.

— O que contavam as mulheres? Quem eles eram?
— Eles eram vítimas de torturas brutais, que incluía a corte das partes do corpo. Eles foram submetidos aos espancamentos terríveis, humilhação, na sua frente eram assassinados os seus amigos. Eram as mulheres e moças normais. Por exemplo, as voluntárias, que levavam os mantimentos [às forças ucranianas] e caíram no cativeiro. Mas era possível estar no cativeiro [terrorista] não apenas por causa das atividades políticas. Nas cadeias de Donbas também se encontravam os moradores normais, apenas porque possuíam alguns bens, uma casa bonita, um belo carro. No início, nos territórios ocupados os russos simplesmente armavam os criminosos locais, a escória da sociedade. Eles lhes deram as armas e disseram: agora vocês são a polícia aqui, deve haver a ordem. E estes separatistas escolhiam as vítimas entre os moradores locais e os mantinham nas caves, até que estes lhes passavam a sua casa ou os bens. Oficialmente, claro, isso parecia como a venda. As vezes, se alguém resistia bastante, era assassinado.

— Será possível, na base dos dados disponíveis, dizer qual foi a natureza dos crimes russos: esporádica ou sistémica?
— Certamente sistémica. Em Donbas ocupada não havia lugares, onde eram mantidos os prisioneiros ucranianos, militares e civis, em que não eram cometidos os crimes de guerra. Ou, dito de outra forma: havia muito poucos lugares onde eram mantidos os prisioneiros de guerra e civis, mas onde não havia assassinatos, tortura, etc. Em depoimentos recolhidos por nós há apenas um desses lugares – Ilovaysk. Os prisioneiros ucranianos, na sua maioria os homens do batalhão “Donbas” contaram que, num primeiro momento, capturados, eles passaram pelo inferno de Donetsk, mas depois, em Ilovaysk, foram bem tratados. O comandante separatista local disse lhes: “aqui ninguém vós toca, vocês são prisioneiros”. E confessou que agiu assim porque antes os seus homens foram capturados pelo batalhão “Donbas”, e foram bem tratados.
O cidadão e terrorista russo Igor Girkin "Strelkov" em Donetsk, 27/7/2014
— Será que entre os criminosos identificados está presente Igor Girkin (pseudónimo “Strelkov”), o coronel russo, que, como ele mesmo se gabou nas entrevistas, começou a guerra na Donbas, e alguns meses era o ministro da defesa [dos terroristas] em Sloviansk e Donetsk?
— Sim, a sua actividade está bem documentada. À ele podem ser atribuídos os crimes enumerados no Estatuto de Roma, a base legal em que opera o Tribunal Penal Internacional. Em primeiro lugar, Girkin como o comandante é responsável pelos atos dos seus subordinados e por tolerar a prática de crimes. Em segundo lugar, em Sloviansk ele tinha a sua sede no antigo edifício do Serviço de Segurança Ucraniano (SBU). Agora Sloviansk está novamente sob controlo da Ucrânia, nós visitamos aquele edifício. A sala do Girkin estava exatamente acima da cave, onde os prisioneiros eram torturados. A cidade tinha pelo menos dois locais de tortura: no edifício da SBU e na polícia. No segundo lugar as pessoas também eram fuziladas, condenadas à morte, por assim chamado tribunal militar de Sloviansk. Girkin participava nas reuniões deste pseudo-tribunal, a sua assinatura está nas sentenças de morte. Sabemos que os veredictos eram emitidos à noite, e eram feitos pelas “troikas”, como eram chamadas pelos russos.

— Isso é uma referência aos tribunais especiais do NKVD, que emitiam as sentenças, nomeadamente, aos oficiais [polacos] em Katyn?
— Sim, a direta. Eles adoram os nomes da União Soviética antiga, da era estalinista. Eles chamavam os seus tribunais de “troikas”, o seu serviço de contra-espionagem era chamado de NKVD, etc. E mais um detalhe curioso, que mostra a mentalidade dessas pessoas: numa ata da “troika”, assinada, entre outros pelo Girkin, da reunião que teve o lugar em 24 de maio de 2014 e onde foram condenados à morte duas pessoas, diz-se que o veredicto é baseado no ... Decreto do Presídio do Conselho Supremo da URSS de 22 de junho de 1941. Isso seria engraçado, se essas pessoas realmente não fossem assassinadas.

— Quantas pessoas foram sentenciadas pelas «troikas» de Girkin?
— Não sabemos. Após a libertação de Sloviansk, lá foram encontradas as valas comuns, mas certamente nem todas. No entanto, para fuzilar uma pessoa não eram necessárias nenhumas “sentenças”. Os depoimentos mostram que as execuções eram os atos quotidianos. Disparavam na nuca.

— E outros líderes das ditas repúblicas populares — de Donetsk e de Luhansk?
— O “chefe” da república de Donersk, Zakharchenko e o seu antecessor, [Alexander] Boroday, tal como outros líderes: todos eles são culpados de crimes de guerra. Ou, como comandantes ou como aqueles que estavam diretamente presentes nos locais de cometimento de crimes. Eles até não escondiam isso, e se fotografavam com os prisioneiros mortos, como, por exemplo, Zakharchenko. Temos um depoimento sobre Boroday, pessoa ligada ao Kremlin, que foi enviado à Donetsk de Moscovo. Os oficiais do GRU que torturavam uma das vítimas com qual falamos, o tratavam como chefe. Nós temos um caso documentado em que ele estava tentando obter o resgate de um milhão de dólares pela vida de um prisioneiro. Era um prisioneiro especial, que, como supomos, provavelmente pretendiam levar à Rússia e julgar lá juntamente com [piloto] Nadia Savchenko. Mas os carrascos de Donetsk o mutilaram bastante e Boroday, de acordo com o depoimento, disse-lhes que eles foram longe demais e “essa pilha de carne” agora não servia. Quando ele viu que não haverá o pagamento de resgate, ordenou a execução do prisioneiro. Este só sobreviveu porque no caminho à sua execução, no cemitério, ele foi “pego” por um outro grupo.

— Outro grupo?
— Lá as coisas funcionam assim. O prisioneiro foi levado por um grupo [terrorista] rival, que o trocou por alguém de quem eles precisavam, mas que se encontrava numa cadeia ucraniana. Quando eu recolhia os depoimentos, tinha a impressão que do outro lado não está um pseudo-estado separatista ou russo, mas bandos criminosos. Eles competiam nos saques, arrancavam uns aos outros os prisioneiros valiosos, pelos quais poderiam pedir o resgate...

— Porque vocês, polacos, se dedicam à isso?
— Para que tudo isto não morra de causas naturais, de modo que o mundo não deixe isso esquecido, para que o mundo saiba.

— Este motivo aparecia nas palavras das vítimas: para que o mundo saiba?
— Às vezes eu via nos olhos das pessoas com quem falávamos, a esperança (que imponha, diria eu, uma grande obrigação moral) que alguém, ainda mais os estrangeiros estão interessados nisso, então isso terá algum efeito.

— E assim será?
— Se o caso subir à tribunal de Haia, este poderá decretar a procura dos criminosos, poderia enviar os seus próprios investigadores. Ucrânia não assinou o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, mas o parlamento ucraniano decidiu que tudo o que aconteceu depois do início da guerra, passa para a jurisdição de Haia. Espero que, mesmo que essas pessoas não pudessem ser levados à justiça, porque a Rússia não vai os entregar, pelo menos eles vão sentir o medo. E se reduzirá a escala de crimes. Afinal, nada disso acabou, tudo continua. Estamos em contato com as pessoas que estão envolvidas na troca de prisioneiros, eles regularmente telefonam para nós. Dois dias atrás, recebi as informações sobre um homem que foi libertado do cativeiro russo, passando lá um ano. Dizem que ele esta em um estado terrível. Mas ele quer falar...

Ler a entrevista integral:
Ler o relatório completo (em inglês, francês e polaco): http://www.donbasswarcrimes.org/report
O grupo investigativo na rede Facebook: https://www.facebook.com/RosyjskieZbrodnieNaUkrainie

2º aniversário da Revolução ucraniana: os heróis da Maydan

Não fazem de mim uma pessoa heróica. Tinha medo no dia 20 de fevereiro de 2014. Tinha medo quando disparavam, quando a janela em cima de mim se quebrou do disparo, quando as colunas do palácio Zhovtneviy eram atingidas pelas balas, perdendo a estrutura e a pintura, quando a sangue da cabeça de um rapazinho saia pulsando. Quando tentávamos o reanimar durante 5 minutos, compreendendo que nada conseguimos fazer-lo...
por: Irina Soloshenko, paramédica da Maydan

Tinha medo quando gritavam pelo desfibrilador e eu corria para busca-lo e Oleksandr Prudko me apanhou pela mão e gritou: não é preciso, metade de cabeça se foi, já não o salvaremos. Tinha medo quando via Ivan Zholoban à ultrapassar a rua Instytutska, passando para a parte mais atingida pelos franco-atiradores, juntamente com Yevhen, o médico clandestino.
Fiquei com o medo quando vi o filme documental com a filmagem cronometrada que mostrava quando e onde o que acontecia. Fiquei com o medo pois pensei que os meus filhos dificilmente vão ficar bem no caso da minha morte. Fiquei com o medo pela memória curta das pessoas, eu vi como mudam as pessoas, mas encontrei as pessoas de verdade e fico feliz por eles.
Escrevi isso na noite de 20 à 21 de fevereiro de 2014. Quase não dormi naqueles dias. Estava a tremer, quando me limpava do sangue dos outros, fumo e sujidade, que penetraram nas mãos, eu deitei fora jeans e sapatos, coloquei o filho à dormir e uivava por dentro da minha almofada, não tinha forças para chorar...
- alguém entende do soro?
- eu, podem me passar
- façam
- quem o levará?
- nós podemos...
As macas militares são bem pesadas, um senhor e eu com um paramédico corremos (minha nossa), eu não consigo, vou cair agora, pessoal, ajudem, pego o sorro
- com cuidado, as escadas são escorregadias...
Em frente fica a viatura das emergências, um jovem enfermeiro assustado olha para mim:
- o que?
- é ligeiro...
- os ligeiros os levem ao mosteiro de Mikhaylovski
- que ligeiro, car@lho: perfuração dupla do pulmão, abre lá
Corremos, conseguimos, está salvo.
Ler texto integral (em russo), ver as fotos:
https://www.youtube.com/watch?v=GE9G_LWcviU

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

2º aniversário da Revolução ucraniana: a morte da Centena Celestial

No dia 18 de fevereiro de 2014 o regime do Yanukovych apostou tudo no esmagamento da Revolução de Dignidade: destacamentos especiais da polícia, franco-atiradores do spetsnaz da Crimeia, juntamente com os bandidos titushki começaram matar os ativistas desarmados (ver fotos).
O jovem de olhos vedados, Mykyta P., sobreviveu, felizmente não perdeu a visão,
embora foi ferido com a gravidade média na base do crânio  
O movimento Euromaidan que começou em 21 de novembro de 2013 como protesto pró-Europa absolutamente pacífico, evoluiu até a resistência que defendia metro-a-metro o território de liberdade no coração de Kyiv.
Os manifestantes acabaram por serem alvos de fogo real por parte da polícia afeta ao regime, que também usava o gás ou as granadas de luz e som. Mais de 2.500 ucranianos foram feridos nos confrontos, mais de 100 manifestantes foram assassinados no centro de Kyiv. Eles são conhecidos como a Centena Celestial, homens e mulheres de diversas idades e de todas as regiões da Ucrânia que morreram para que outros pudessem prosseguir com a Revolução.
O direto da Rádio Liberdade do dia 18 de fevereiro de 2014, rua Instytutska, arredores do Parlamento ucraniano: http://bit.ly/1PHvKDr


https://www.youtube.com/watch?v=xuodAcyGz94

terça-feira, fevereiro 16, 2016

O bom russo é um bom ucraniano

Anatoliy D. Vodolazskiy nasceu na região russa de Voronezh em 1951, mas desde 1975 vive na Ucrânia, em Druzhkivka, onde trabalhou como soldador. Anatoliy foi um dos poucos ucranianos que publicamente apoiou Ucrânia, quando a cidade foi ocupada pelos terroristas da “dnr”.

No auge do terror terrorista, no dia 22 de maio de 2014, Anatoliy Vodolazskiy, foi a praça central da sua cidade, com a bandeira ucraniana nas mãos. Nas vésperas, ele avisou sobre a sua ação de protesto a polícia e o jornal local. 15 minutos depois, Anatoly foi atacado pelos terroristas armados que lhe colocaram o saco na cabeça, o agrediram e meteram numa viatura. Os terroristas o lavavam ao Kramatorsk, mas à saída da cidade o terrorista condutor propôs assassina-lo, deixando o corpo algures na estrada. O que não foi feito, talvez pelo receio dos terroristas que o momento do ataque fosse capturado pelas câmaras de vídeo vigilância no centro de Druzhkivka.

Anatoliy voltou para casa alguns dias depois — cansado, magro, sem alguns dentes. Muito raramente o contato com o “mundo russo” é prazeroso...

No outono de 2014, após a libertação de Druzhkivka dos terroristas, no telemóvel de um dos separatistas presos foi achado o vídeo da ação do protesto, protagonizada pelo Anatoliy. O terrorista foi julgado, o caso se tornou público.

Agora Anatoliy D. Vodolazskiy vive no território da Ucrânia livre, ele é respeitado pela sua ação e pelas privações que passou pela Ucrânia. O próprio Anatoliy, após o sucedido, começou amar Ucrânia ainda mais intensamente. «Cada um deve fazer a escolha no momento mais difícil para Ucrânia, eu fiz a minha», – diz ele (foto do herói @Roman Nikolayev).

Bónus
No dia 14 de março começam em Curitiba (Brasil) os cursos de língua ucraniana, níveis I, III e VII, ministrados pela Profª Drª Olga Nadia Kalko, ainda há lugares disponíveis! 

Ucranianos de Portugal se dirigem à Assembleia da República

Carta ao Presidente da Assembleia da República Portuguesa da comunidade ucraniana em Portugal.
Exmo Sr. Dr. Eduardo Ferro Rodrigues,
Presidente da Assembleia da República,

Depois de mais de 15 anos de história da nossa comunidade em Portugal nós, ucranianos que chegaram à terra lusa com o objetivo inicial de trabalho temporário, podemos afirmar que hoje estamos ligados a Portugal e consideramo-nos cidadãos deste país cuja cultura, história e regras sempre respeitámos.

Consideramo-nos perfeitamente adaptados à sociedade portuguesa e por isso agradecemos ao Governo, aos deputados e a todos os portugueses pelas condições que permitiram a nossa rápida integração.

Ao mesmo tempo, continuamos a preocupar-nos com a nossa Pátria – Ucrânia. Preocupamo-nos com as nossas famílias e queremos que o nosso país tenha os mesmos valores sociais a que nós nos acostumamos ao vivermos numa sociedade democrática e europeia como Portugal. A Ucrânia esteve muitos anos reprimida pelo regime totalitário da União Soviética, que lhe trouxe milhões de vítimas de repressões políticas, genocídio de fome e causou uma estagnação do desenvolvimento cultural e social.

Consequência desta ocupação foi o facto de a Rússia, após a declaração da independência da Ucrânia em 1991, ter mantido o controlo económico e político sobre o nosso país, bloqueando a sua integração nas estruturas europeias e mundiais.

O desejo dos ucranianos de viver num país livre e sem corrupção levou a população a sair à rua na Revolução de Maidan em 2013. Centenas foram os que morreram às balas dos apoiantes do regime pró-Kremlin de Viktor Ianukovitch. Isso foi a prova de que os ucranianos estão prontos para lutar pela democracia, mesmo com a própria vida.

Compreendendo que está a perder o controlo sobre a Ucrânia, o governo de Vladimir Putin iniciou uma agressão militar direta contra a Ucrânia: em primeiro lugar anexou a Crimeia, depois, apoiou militarmente organizações terroristas de Donetsk e Lugansk que, do seu lado, autoproclamaram independência territorial da Ucrânia.

A Rússia justificava (e justifica) esta agressão como a “defesa dos direitos dos russos étnicos na Ucrânia”. E a guerra que iniciou, como um conflito civil da própria Ucrânia. O que não é verdade, visto que este conflito é um fruto da chamada guerra “russa-híbrida” contra os países que procuram sair do controlo de Moscovo. Exemplos deste tipo de guerras: Transnístria, Abkhazia, Ossétia e Chechénia.

Desde o início da Revolução de Maidan, a diáspora ucraniana de todo o mundo, que perfaz mais de 20 milhões de pessoas, ativa e extremamente unida começou a auxiliar a Ucrânia. Salientando as causas e abordando os governos e políticos dos países onde vivem para ajudarem a parar a agressão russa.

Estamos agradecidos a Portugal que, numa situação geopolítica difícil que ameaça o mundo com um novo terrível conflito, apoiou a Ucrânia. Mas, infelizmente, os acordos de paz negociados pela comunidade internacional para acabar com a guerra no leste da Ucrânia, na verdade, não trouxeram o resultado esperado. Praticamente todos os dias nós recebemos com dor, notícias de ataques de mercenários russos, mais vítimas e mais vidas destruídas. Além disto, esta situação isola a Ucrânia, converte-a numa zona de perigo com consequências económicas e políticas.

Em vez de um diálogo construtivo para acabar com o derramamento de sangue no leste da Ucrânia, em vez de permitir uma relação amigável e mutuamente benéfica com a vizinha Ucrânia, a Rússia continua uma política de agressão e a ocupação da Crimeia, e não retira as forças militares nas regiões de Lugansk e Donetsk. Continua a abastecer os terroristas com armas modernas permitindo a destruição em massa das infra-estruturas ucranianas, a morte de civis e a prisão de cidadãos por motivos políticos, entre os quais, a mais conhecida Nadia Savchenko (deputada). A Rússia está constantemente a construir uma propaganda suja sobre a Ucrânia nos media nacionais e internacionais e a nível político elevado (nos MNE’s).

Portanto, caro Sr. Presidente, escrevemos-lhe em nome de todas as organizações que unem os ucranianos em Portugal e em nome da nossa unida diáspora, para lhe pedir ajuda: continuem a apoiar as sanções internacionais políticas e económicas contra a Rússia. Aliado a outras medidas que possam vir a ajudar a acabar com a agressão russa, a devolução dos territórios ocupados, assim como a libertação dos reféns ucranianos que estão detidos nas autoproclamadas repúblicas de Lugansk e Donetsk.

Vivemos em países livres e é livre que queremos ver a nossa pátria.
Com os melhores cumprimentos,
Associação dos ucranianos em Portugal (www.spilka.pt), presidente – Pavlo Sadokha,
Associação "UPE—Centro Social e Cultural Luso-Ucraniano", vice-presidente – Olena Lyubarska
Centro Educativo e Cultural "Dyvosvit" (Lisboa), director – Vlada Kiyak,
Centro Educativo e Cultural «Oberig», director
– Ulyana Kucheras,
Associação "Fonte de Mundo", presidente
– Boris Kucheras,
Centro educativo e cultural luso-ucraniano "Escola Tarás Shevtchenko"(Faro), directora – Natalia Dmytruk,
Centro cultural e educativo «Rodyna», director – Iryna Melnychuk,
Associação cultural «Êxito das Tendências», presidente – Taras Shevchenko,
Associação dos ucranianos Algarve, presidente – Igor Korbelyak,
Associação Cultural e de Solidariedade Social "Casa da Ucrânia", presidente – Valentina Vassilenko,
Associação dos ucranianos em Portugal «Sobor», presidente – Oleg Hutsko,
Centro da língua materna «Sobor», Oksana Hutsko,
Movimento Cristãos Ucranianos em Portugal, presidente – Ivan Onyschuk,
Associação de Jovens Ucranianos em Portugal «Synytsia», presidente – Iuliia Voroshylova,
Centro cultural e educativo "Escola Kyrylo e Mefodiy", director – Olena Dvoinikova,
Associação "Pirâmide das Palavras", presidente – Myroslava Martynyuk,
Centro Educativo e Cultural "Світлиця" (Cacém), director – Lyubov Pikho,
Comunidade ucraniana de Albufeira, responsável – Oksana Turyk,
Secção ucraniana da Primeira escola Eslava, vice-director – Bohdan Leskiv,
Cantora – Oksana Boroday,
Associação dos imigrantes de Gondomar – «Amizade», Nataliya Khmily,
Associação de apoio dos imigrantes «São Bernardo», presidente – Lyudmila Bilaya,
Repórter – Tamara Moroshan

domingo, fevereiro 14, 2016

Feliz Dia de São Valentim!

O dia 14 de fevereiro é considerado em muitos países, inclusive na Ucrânia, como o Dia dos Namorados (já no Brasil, esta data é comemorada no dia 12 de junho).
Todos os amigos parabenizo pelo Dia do Amor!
Para que todos se amam desde a noite até subir o sol!
E para que sempre tenham essa vontade,
Como aos vinte anos, lá na sua herdade.