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sexta-feira, outubro 02, 2026

Fedor Butenko: o não-retornado soviético entre o bolchevismo e o fascismo

A deserção de um diplomata soviético de alto nível em 1938 tornou-se um grande escândalo internacional. Os segredos deste caso permanecem por resolver até hoje, porque os arquivos soviéticos/russos continuam inacessíveis aos investigadores imparciais.

Fedor Butenko era uma personagem incrivelmente talentosa e cínica, o que lhe pode ter salvo a vida. A maior parte do que se sabe sobre ele foi contada pelo próprio e é muito provavelmente total ou parcialmente inventado. Isso não impediu Butenko de fazer uma carreira brilhante na URSS: primeiro na área da censura e redação na editora Khudozhestvennaya Literatura e depois no Comissariado do Povo para os Negócios Estrangeiros / Assuntos Exteriores. É também muito provável que fosse um agente do OGPU-NKVD — caso contrário, seria impossível explicar algumas das reviravoltas inesperadas que a sua carreira sofreu. 

Em 1937, transformou-se de estudioso de literatura em diplomata soviético. Isto coincidiu com a purga total dos quadros de Maxim Litvinov no Comissariado do Povo dos Negócios Estrangeiros / Assuntos Exteriores, que foi substituído por estalinista de linha dura, Vyacheslav Molotov. O próprio Litvinov sobreviveu, embora tenha esperado muito tempo pela sua prisão. Durante estas purgas, 35% dos diplomatas soviéticos de alto nível sobreviveram, 20% foram executados e outros 11% foram enviados ao GULAG. Os cerca de 23% perderam o emprego, morreram ou suicidaram-se. O destino de aproximadamente 14% é desconhecido. 

1,5% dos diplomatas de alto nível fugiram ao Ocidente. Butenko estava entre esses 1,5%. 

Em apenas dois meses, passou de conselheiro a encarregado de negócios, ou seja, o homem mais importante da embaixada soviética na Romênia — o embaixador foi chamado de volta a Moscovo e aí executado. Então Butenko percebeu que será o próximo e decidiu fugir da URSS, o que era muito mais fácil no estrangeiro do que em Moscovo. Foi enviado para trabalhar na Roménia sem a mulher e a filha pequena, que permaneceram em Leninegrado: uma prática comum na URSS, que sempre gostou de fazer reféns. Isso não demoveu Butenko, embora ele soubesse certamente o que acontecia às famílias dos inimigos do povo. Talvez tenha concluído que a sua família sofreria de qualquer maneira. Sabe-se que a sua esposa, Vera Kravchenko e o irmão dela, seu cunhado Mykhaylo, foram vítimas das repressões políticas soviéticas em Dnepropetrovsk em 1941, e a sua filha Lea terá provavelmente morrido durante o cerco nazi de Leninegrado. 

Não podia permanecer na Roménia, que procurava desesperadamente a boas relações com a União Soviética. Além disso, circulavam rumores de que outro fugitivo famoso, o agente ilegal de OGPU-NKVD na Turquia, Georges Agabekov, tinha sido rastreado e assassinado por agentes de NKVD.

A edição inglesa do livro de Agabekov sobre o terror soviéttico

Fedor Butenko presumiu que os seus antigos colegas o encontrariam em qualquer país democrático, pelo que só tinha uma opção: esconder-se na Alemanha nazi ou na Itália fascista. Butenko falava francês fluentemente e estava a aprender romeno, o que lhe dava esperança de dominar rapidamente o italiano. Além disso, a Itália estava muito mais próxima, politicamente, de Bucareste do que a Alemanha. Por isso, o diplomata escolheu o regime do Mussolini. 

Após a deserção do diplomata, a URSS acusou imediatamente a Roménia de assassinar ou raptar Butenko, algo que a Roménia temia terrivelmente, pois poderia ter desencadeado uma guerra. Por isso, após a sua fuga, Fedor Butenko ficou no país por apenas quatro dias, durante os quais ele elaborou, para a Siguranța as suas revelações sobre os espiões soviéticos reais e imaginários na Roménia.

Mais tarde, Butenko afirmou que pessoas próximas do Rei da Roménia o ajudaram a escapar e lhe forneceram um passaporte legal de algum pobre coitado falecido. Nenhuma prova disso foi encontrada até à data. Existem sérias dúvidas sobre o seu relato: em dois meses de trabalho em Bucareste, simplesmente não teria tido tempo para fazer tais contactos. No entanto, Butenko conseguiu não só atravessar em segurança pelo menos duas fronteiras nacionais, como também chegar ao centro de Milão. 

Em Itália, o ex-militante comunista, que tinha denunciado inimigos do povo em reuniões do partido (era conhecido pela sua perseguição aos trotsquistas), declarou imediatamente a sua forte simpatia pelo fascismo. Disse que trabalhava como tradutor na Exposição Internacional de Paris e visitava constantemente o pavilhão italiano para admirar a felicidade que o Duce trazia ao seu povo. Mais uma vez, afirmação duvidosa, pois tais ações teriam despertado suspeitas imediatas dentro da delegação soviética.

Fedor Butenko, amaldiçoava o comunismo e abraçou imediatamente um outro regime totalitário e militarizado que nada tinha em comum com a democracia ou a liberdade.

O próprio Lev Trotsky observou esta história do longínquo México e emitiu algumas conclusões. Em primeiro lugar, considerou Butenko um canalha sem princípios, um chekista pronto a servir qualquer mestre. Também manifestou a confiança de que eram precisamente pessoas como Butenko que formavam a espinha dorsal dos órgãos repressívos soviéticos. Em segundo lugar, Trotsky presumiu que, dentro da elite soviética, existia um certo número de pessoas com visões fascistas ou protofascistas. Ambas as conclusões, estavam parcialmente corretas. A revista Time considerou Butenko como um modelo dos «novos bolcheviques», que substituíram os «velhos bolcheviques» tão ativamente expurgados por Estaline. Os «novos bolcheviques» eram completamente desprovidos de idealismo comunista; tinha como objetivo a prosperidade e a segurança pessoal. O que, também estava muito próximo da verdade.

Durante algum tempo, na Itália os principais jornais publicaram entrevistas com Butenko, e este começou então a escrever artigos e livros por conta própria.

1ª edição, a editora Firenzi, Le Monnier, 1939

A versão italiana do livro é constituída por quatro capítulos principais:

1. “Socialismo o schiavitù?” (“Socialismo ou Escravatura?”) — o autor descreve pormenorizadamente a tragédia da sua Ucrânia natal, a fome artificial na Ucrânia [Holodomor] e na Kuban, as repressões que destruíram a prosperidade de uma terra florescente.

2. “La costituzione di Stalin” (“A Constituição de Estaline”) — uma desmistificação do processo eleitoral soviético. Butenko sublinhou que as listas de candidatos eram aprovadas exclusivamente em Moscovo e que apenas as pessoas leais a Estaline podiam ser eleitas.

3. “Il tiranno di Mosca agonizzante” (“O Tirano Agonizante de Moscovo”) — uma crítica à ditadura pessoal de Estaline, à atmosfera de total terror nas fileiras da nomenklatura e da NKVD.

4. “Il mio viaggio in Europa” (“A Minha Viagem à Europa”) é uma descrição de uma fuga e das impressões de uma estadia no Ocidente.

Nos anos seguintes, os italianos esconderam Butenko da vingança soviética, mudando-lhe o nome e escondendo-o nos locais mais remotos. Claramente não sabiam o que fazer com ele. Uma fonte afirma que o próprio Mussolini terá ordenado que Butenko recebesse um salário, mas que não se envolvesse em nada de importante. Butenko pediu para ser enviado para a Frente Leste para ajudar os militares italianos, mas não lhe foi permitido. Candidatou-se para aderir ao Partido Fascista, mas a sua candidatura permaneceu sem resposta. Ucraniano étnico, nascido na Ucrânia, Fedor Butenko tentou se aproximar à emigração ucraniana, mas não foi bem acolhido, acabando por ser rejeitado.

Temendo uma tentativa de assassinato por parte de NKVD, Butenko viveu na Sicília de 1939 a 1942 em profundo segredo sob o nome de Alberto Rossi. Foi então transferido para a Albânia, onde serviu como censor militar.

As últimas informações sobre a estadia de Butenko — por alguma razão em Veneza, onde não existiam estruturas sérias que pudessem aproveitar os seus talentos — surgiram apenas algumas semanas antes da detenção de Mussolini em Roma. O seu destino subsequente ao 1943 está desconhecido. O ex-diplomata soviético, que até foi reabilitado politicamente na URSS/rússia, uma personagem profundamente cínica, com uma experiência incrível em camuflagem e sobrevivência, simplesmente desapareceu, sem deixar qualquer rasto posterior.

quarta-feira, abril 15, 2026

A história do Fiat, do Lada e do camarada Togliatti

Publicidade do «Lada» dirigida ao mercado ocidental. Imagem: Internet

A história de como e porque a União Soviética, de entre todos os países produtores de automóveis, escolheu os italianos, como o Fiat 124 se transformou num Lada e porque a cidade soviética Stavropol-on-Volga se transformou em Togliatti.

Palmiro Togliatti foi o secretário-geral do Partido Comunista Italiano. Juntamente com Antonio Gramsci, organizou greves de trabalhadores na fábrica da Fiat na década de 1920. Em 1930, Togliatti aceitou a cidadania soviética e, mais tarde, estabeleceu-se em Moscou/vo. Participou na campanha de denúncias e repressões estalinistas contra os comunistas italianos que trabalhavam na Comintern. 

«Viva o grande chefe e professor do partido comunista e do povo soviético camarada Estaline».
4.VI.1950, teatro Bolshoi de Moscovo, camarada Togliatti último à esquerda.

Após o desembarque dos Aliados na Sicília e a capitulação de Itália, regressou à terra natal. Sob a sua liderança, o Partido Comunista Italiano tornou-se o maior partido do país e o maior partido comunista não governamental da Europa, com mais de dois milhões de membros. 

Camarada Togliatti com as crianças soviéticas, década de 1960

Em 1964, Togliatti estava de férias e a receber tratamento na Crimeia. Enquanto visitava o campo infantil de «Artek» (acessível quase exclusivamente aos filhos da supra elite comunista), perdeu os sentidos e morreu subitamente. Uma delegação do partido soviético, chefiada por Leonid Brejnev, acompanhou o caixão de Togliatti até Itália. Dois meses depois, Brejnev, liderou o golpe do Estado que afastou Khrushchev do poder.

Nikita Krushechev à carregar o caixão (à direita), Brejnev está, de mãos livres, ao seu lado

A morte súbita de Togliatti gerou muita especulação, envergonhando os camaradas soviéticos perante os comunistas italianos, e apenas dois meses depois, o Presidium do Soviete Supremo da rússia soviética decretou: renomear a cidade de Stavropol, na região de Kuibyshev, para Togliatti. É um tanto irónico que a cidade onde os carros eram fabricados sob licença italiana tenha sido batizada em homenagem ao homem que arruinou a indústria automóvel italiana.

Capa do jornal «Pelo Comunismo», publicado em Stavropol.
«À partir de agora a nossa cidade ostentará o nome de Togliatti», 30.08.1964

Na Itália, Palmiro Togliatti foi sepultado perante uma enorme multidão. O artista italiano Renato Guttuso criou uma tela de grande escala para a ocasião, com a participação de Angela Davis, Ho Chi Minh, Dolores Ibárruri, Rosa Luxemburgo, Luchino Visconti, Salvatore Quasimodo, Jean-Paul Sartre, Estaline e cinco (!) Lenins. Khrushchev não está na pintura.

Obra do Renato Guttuso. Cinco Lenines e nenhum Khruschev...

Falando sobre o Lada. No início da década de 1960, havia uma escassez catastrófica de automóveis na URSS. Khrushchev, e depois Brejnev, estabeleceram o objetivo de criar um automóvel popular produzido em massa — barato e fiável. A capacidade tecnologíca soviética própria era insuficiente para tal salto, pelo a URSS decidiu comprar uma solução já feita. 

O lado soviético negociou simultaneamente com várias empresas ocidentais — Volkswagen, Renault, Ford, Peugeot e Fiat. Cada uma ofereceu o seu próprio modelo e condições para a construção da fábrica. A Renault era considerada a principal concorrente, com o seu hatchback de tração dianteira, o Renault 16, o «Carro do Ano 1966» na Europa. Tecnicamente, era mais avançado que o Fiat 124, mas esse mesmo facto jogou contra ele.

«Me chamo Fiat 124», a publicidade italiana de 1966

O Fiat 124 era um projeto clássico e simples: tração traseira, um motor básico, nada de luxos. Já o Renault 16, de tração dianteira, parecia demasiado complexo para a realidade soviética — tanto para a produção, como para a manutenção.

Mas o principal argumento acabou por ser político, não económico. O Partido Comunista Italiano era o maior partido comunista da Europa Ocidental, e as relações italo-soviéticas eram significativamente mais cordiais do que com a França, a Alemanha ou, principalmente, os Estados Unidos. Brejnev, depois de devolver Togliatti de Itália, após o seu funeral, disse: «Os italianos são mais próximos de nós».

A 4 de maio de 1966, foi assinado um protocolo de cooperação em Turim e, a 15 de agosto de 1966, foi assinado um acordo geral em Moscovo. A Fiat comprometeu-se a construir uma fábrica com capacidade para 660.000 veículos por ano na cidade de Togliatti. Que coincidência! Que símbolismo!

Os engenheiros soviéticos fizeram centenas de alterações ao design da Fiat 124 – simplificando o design, embora também reforçaram a carroçaria, aumentaram a altura ao solo, possivelmente pioraram o motor, reforçaram o motor de arranque, alteraram os vedantes e tentaram melhorar a proteção contra a corrosão em climas de inverno. 

Publicidade de «Lada» no mercado da Alemanha Ocidental, 1970

O primeiro modelo de Lada «Zhiguli», lançado no mercado soviético em 1970, custava cerca de 5.600 rublos (9.655 dólares ao câmbio oficial soviético). Com um salário médio de 120 rublos, um cidadão soviético tinha de poupar totalidade dos seus rendimentos durante quase quatro anos para comprar um automóvel. Sob o «cabrão» Mussolini, um italiano podia comprar o carro popular economizando apenas um ano e meio.

Publicidade ocidental de «Lada» 2102 «Kombi», 1970

Em 1979-80, após a decisão soviética de invadir o Afeganistão, algo que aconteceu em dezembro de 1979, no Canadá, pela decisão privada e pessoal de alguns donos de estações de abastecimento, estas deixaram de abastecer as «Ladas», tal como podemos ver nessa foto:

«Nos não abasteceremos Ladas até... a saída dos soviéticos [do Afeganistão]»


quinta-feira, fevereiro 12, 2026

JO 2026: a lembrança não é uma violação!

Os militares das Forças Armadas da Ucrânia (FAU) apoiam os atletas e membros da equipa/e olímpica ucraniana, que recordam ao mundo dos desportistas ucranianos mortos por ocupantes russos. 
Olena Smaha, competidora ucraniana de luge




Particularmente, os militares apoiaram o atleta ucraniano Vladyslav Heraskevych, que compete no skeleton e usa um capacete com as imagens dos 31 atletas ucranianos de alta competição que foram mortos pelos ocupantes russos desde 24.02.2022. Desde início dos JO, Vladyslav está em luta constante e desigual luta contra a burocracia do COI, que usa todos os meios para tentar-lhe proibir a mostrar as imagens dos desportistas ucranianos mortos. 




O Art. 50º do estatuto do COI proibe a exibição das declarações políticas, de descriminação racial, etc. Nada disso acontece neste caso, ou como dizem as imagens «a lembrança não é uma violação!»

sexta-feira, dezembro 12, 2025

A poesia comuno-fascista russa do Alexander Prokhanov

O famoso comuno-fascista russo, escritor, panfletário, putlerista assumido e ideólogo neo-estalinista Alexander Prokhanov, na sua visão sobre a guerra próxima entre Europa e a rússia...

«Odeio a rússia»

«A Europa está se preparando para a guerra com a rússia. O início da ação militar está previsto para o ano 2030... A rússia tem a amarga e terrível experiência da guerra com a Europa, a experiência de suas vitórias e suas ilusões, a experiência de suas percepções e equívocos.

«Donbas é Ucrânia»


Gorbachev entregou aos inimigos um produto maravilhoso chamado Alemanha Oriental. Ele destruiu o cordão de segurança chamado Pacto de Varsóvia, permitindo que as guarnições da NATO/OTAN chegassem aos arredores de Leningrado, Pskov, Smolensk e Bryansk. Dessas linhas, em 2030, a Europa começará seu ataque à rússia. Dessas linhas defensivas, sofrendo ferimentos mortais, derramando sangue justo, a rússia mais uma vez repelirá essas guarnições ocidentais — para lá, para as capitais da Europa fumegando nas cinzas nucleares, onde a Torre Eiffel jaz como um lingote de ferro disforme, as pedras derretidas do Coliseu — essas «pedras sagradas da Europa». Almejando o céu, a Catedral de Colônia foi transformada em um poço monstruoso, estendendo-se em direção ao centro da terra, e a Abadia de Westminster, se assemelhará ao quarto bloco explodido em Chornobyl». 



Pena que ainda há, os verdadeiramente ingénuos, os que ainda acham, sem que para isso sejam pagos pelo Kremlin, que a «rússia só quer a paz» e que o regime neofascista russo «não pretende invadir a Europa». 

Alexander Prokhanov

Fotos: a cidade ucraniana de Dobropillia, na região Donetsk após receber «ajuda da rússia», fotógrafada pelo militar das FAU Artem Skhidniy.

sábado, julho 05, 2025

A ocupação italiana de Luhansk (1942-43)

Tenente de cavalaria Carlo Ricciardi (1916-1966)

Em 1942-1943, a cidade ucraniana de Luhansk (na altura Voroshilovgrad), foi ocupada pela força expedicionária italiana. A cidade foi ocupada por um período relativamente curto – sete meses e foi libertada da ocupação a 14 de fevereiro de 1943.  


julho de 1942 – tropas italianas no centro de Luhansk





Nas fotos de arquivo — a força expedicionária italiana entra na cidade; condecoração dos italianos que se destacaram nas batalhas por Luhansk; camiões FIAT nas ruas da cidade; o Lenine derrubado; um pouco da vida quotidiana. 





Lenine derrubado


17 de julho de 1942 – cavaleiros italianos em Luhansk

Do diário de um residente de Luhansk, Georgy Kovtunov, que nasceu em 1873 numa família de comerciantes. Em 1897, licenciou-se em Direito pela Universidade de Kharkiv, o que, para os padrões da época, não era de todo comum. Trabalhou como fiscal de impostos na Sibéria Oriental (Minusinsk, Kansk). Após a revolução bolchevique, o destino trouxe-o para Luhansk. A julgar pelo seu diário, odiava o poder soviético de forma apaixonada e irrevogável, e, no entanto, conseguiu escapar ao Gulag e até sobreviveu ao Estaline por um ano.  


Centro de Luhansk, um blindado britânico como monumento

Luhansk, julho de 1942, rua Karl Marx

O bazar de Luhansk, 1942-43

Luhansk, a praça central da cidade

Um comboio de italianos passava pela cidade e, atrás dele, um pelotão de tropas no meio de uma multidão, transportando as suas armas de qualquer maneira. Alemães e italianos de cuecas [possivelmente bermudas] brancas deambulavam pela cidade, embora isso acontecesse desde o primeiro dia.

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7h30, hora solar local. O nosso quintal faz lembrar um antigo jardim rural — uma espécie de Tivoli. Vieram os italianos. Há cerca de 3 horas, muitos deles chegaram com um barulho incrível. Gritos, barulho, cavalos no jardim. Pessoas a correr de um lado para o outro. Havia 5 a 6 pessoas no nosso quarto, muitas no pátio, tendas multicoloridas, camufladas com as cores da balagana. Donas de casa, barulho, arrastar pratos de um lado para o outro, etc. Ao lado está a multidão, música, cantam, tentam à dançar e todos cantar sabe-se lá como. 

Conversas connosco como se fossem surdos-mudos. De alguma forma, desenrasco-me com o latim, que quase esqueci. Mas barulho e diversão, e muito menos guerra. Um auténtico piquenique. No início, lavavam-se durante mais de uma hora, faziam caretas por causa dos pés doridos, andavam de cuecas e, no fundo do pátio, completamente nus, lavavam-se. E então tudo foi esquecido. Bandolins, balalaicas, cantorias soavam de algum lado. Comem mal — comida enlatada de má qualidade — mas com alegria. O completo oposto dos alemães taciturnos e raivosos. Um hábito de ser alegre, talvez? Falam sobre o desembarque italiano em Rostov.

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Despedimo-nos dos italianos com muita amabilidade e nós próprios recuperámos a razão da visita: um jardim destruído, roído e fertilizado por mulas, a cerca partida; ramos roídos de árvores de fruto a serem serrados, mau cheiro, moscas e muitas pulgas em casa. A meio da noite, tivemos de nos levantar e borrifar-nos com pó. Provavelmente são pulgas abissínias.

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Havia muitas mentiras nos jornais sobre a organização das regiões ocupadas pelos alemães. Aqui vemos à frente trabalhadores russos ou ucranianos, os mesmos empregados. Tão razoável, a vida em breve melhorará. Só os vendedores no mercado não cedem à regulação dos preços, e os culpados são os italianos, que, na sua pobreza, tentam obter tudo de graça. As mulheres já não trazem leite, não haverá vegetais. Ruim.

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Diarreia agora todos os dias. Os italianos também sofrem de diarreia. São mal alimentados e comem qualquer verdura que conseguem. A nossa maçarroca já está dura. Tudo no jardim secou completamente. Os italianos emporcalharam todo o lado, emporcalhando o jardim, o quintal. O quintal está a cheirar mal desde manhã.

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Pela terceira semana consecutiva, a cidade está em constante alegria, todos os dias, à tarde e à noite; bandolins, guitarras, acordeões e italianos por toda a parte. A nossa juventude não fica atrás deles. Os atrevidos rondam todos os quintais, entradas; espreitam todas as portas e varandas. Quando olhei para um deles com irritação, disse ao outro: «Este é um velho patriota» (acertou em cheio). Estão a divertir-se muito, temos novamente a dança, canto e música nas imediações.

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É uma grande alegria — os italianos foram-se embora. Mas dizem que os romenos virão, o que é ainda pior. Mas depois de os italianos partiram, as hortas ficaram vazias. 

A presença dos italianos na Ucrânia é retratada, de forma poética, no filme «Girassóis», uma co-produção italiano-soviética de 1969, filmada na aldeia de Chernechy Yar, perto de Dikanka, na região ucraniana de Poltava: