domingo, janeiro 11, 2026

Yuriy Kosach: sobrinho da Lesya Ukrainka e agente do KGB nos EUA

Yuriy Kosach foi um talentoso escritor ucraniano, que vivia nos EUA e também um agente do KGB. Sobrinho da poetisa ucraniana Lesya Ukrainka, um emigrante, um homem que passou por mudanças ideológicas notáveis ​​– de nacionalista à amigo da URSS na Diáspora, escreve o historiador ucraniano Eduard Andrusenko

Yuriy Kosach com esposa Daria e filho Yuriy nos EUA

Todos os que se interessam por Kosach, em princípio, supõem que terá colaborado com os serviços secretos soviéticos. No entanto, não foi possível encontrar nada específico nos ficheiros. No entanto, em 2025, o brilhante investigador ucraniano Roman Skakun (autor do livro sobre a liderança da Igreja Ortodoxa Russa ao serviço do MGB-KGB) encontrou um documento interessante num dos processos. Os KGBistas mencionam que o seu agente «Pasechnyk» (Apicultor), publicava uma revista chamada «Além do Oceano Azul».

«Além do Oceano Azul». 1º número, Set. 1959

Acontece que a revista literária pró-soviética «Além do Oceano Azul» era publicada em Nova Iorque por Yuriy Kosach. Portanto, ele era o agente «Pasechnyk». Recrutado em 1959 pelo residente do KGB em Nova Iorque, coronel Valentin Tsurkan, que desenvolvia as suas atividades nos EUA sob a cobertura legal do membro da delegação oficial da Ucrânia soviética na ONU. Acontece que o processo do agente ainda se encontra nos arquivos da secreta ucraniana externa, SZRU.

Yiri Kosach propõe ao KGB «combater a OUN-R de uma forma implacável»

KGB considera ataques aos outros grupos da emigração ucraniana, nomeadamente o
Conselho Supremo da Libertação da Ucrânia (UHVR) e aos católicos sejam «contraproducentes».



21.10.1960. Informe do KGB sobre agente «Pasechnik»

KGB produziu vários relatórios secretos e absolutamente secretos sobre Yuri Kosach e sobre a sua revista (agente «Pasechnik» recebia o dinheiro, em numerário, das mãos do Valentin Tsurkan).

 

A folha do KGB que regista a alocação dos fundos ao agente «Pasechnik».
A maior parte dos pagamentos em 1960-62 e apenas dois, em rublos, em 1971

Nos arquivos do SZRU podemos encontrar um relatório sobre o interrogatório de Kosach pelo FBI, fotos do agente tiradas nos EUA e na Ucrânia (incluíndo as chamadas «fotos operacionais», tiradas pelos agentes do KGB às escondidads de Kyiv), um CV de agente, uma lista de pagamentos em dinheiro, um recibo dos fundos recebidos, uma nota para o chefe do KGB da URSS, Shelepin.

Pedido ao chefe do KGB, camarada Shelepin, de atribuição de um
financiamento de 600 dólares mensais para a publicação da revista.

Foto do Yuriy Kosach na imprensa soviética

O historiador, jornalista e militar ucraniano no ativo, Vakhtang Kipiani, escreveu: “O homem com o pão na foto poderia tornar-se o herói de uma série televisiva. Trata-se de Yuriy Kosach, um escritor talentoso, sobrinho de Lesya Ukrainka. Na sua juventude, foi nacionalista; na década de 1940, já nos campos de refugiados na Alemanha, foi membro do “Movimento Artístico Ucraniano”. No início da década de 1950, algo mudou nele nos Estados Unidos, e foi praticamente o único daquela geração a tornar-se... um sovietófilo. Tinha recursos para publicar a revista “Além do Oceano Azul”. Os seus livros foram publicados na Ucrânia soviética. Era mimado [pelo regime comunista] com honorários generosos e grande destaque na imprensa [soviética]. O jornal «Visti z Ukrainy» (Notícias da Ucrânia), controlado diretamente pelo KGB e que cobria as relações com os compatriotas no estrangeiro, publicou a seguinte frase do escritor: “Estando na emigração e com uma família para sustentar, durante mais de 30 anos fui forçado a viver com o pão duro de um exilado”. Mas nunca regressou definitivamente à pátria. Dá para imaginar porquê».


Yuriy Kosach em Kyiv em 1971, fotos do KGB

Enquanto espiavam Yuriy Kosach em Kyiv em 1971 (ser um agente do KGB não significa estar livre da vigilância constante do KGB; nos seus relatórios foi lhe atribuído o nome do código «Ksash»), as câmaras de KGBistas apanharam a linguista ucraniana Zynoviia Franko (detida em 1972 e quebrada psicologicamente, pelo KGB, tornando-se a agente/informadora «Zina») e o tradutor ucraniano Mykola Lukash.

Zinovia Franko e Mykola Lukash, foto do KGB

Em geral, até os dias de hoje sobreviveram pouquíssimas «fotos operacionais» (fotos tiradas pelos agentes do KGB com uma câmara escondida) de ucranianos proeminentes, por isso cada descoberta deste tipo é única.

Confirmação da recepção dos 2.400 dólares em abril de 1961, cerca de 26.000 em 2026

Fontes documentais: Arquivo Estatal do SZRU; pesquisa: Eduard Andrusenko

Blogueiro: não se sabe, por enquanto, o que ditou o seu afastamento do KGB, no entanto, desde 1962-63 ele deixou de receber o subsídio soviético para publicação da sua revista. As suas publicações literárias na Ucrânia soviética eram muito raras e foram publicadas com tiragens limitadas. O escritor morreu, na relativa pobresa, no seu segundo casamento nos EUA no dia 11 de janeiro de 1990.

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